Dr. Guilherme MouraCardiologista | Ecocardiografista
Cardiogeriatria · SBC 2026← Diretrizes | Em formato interativo

Revisão comentada · Dr. Guilherme Moura · Baseada na diretriz oficial da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria – 2026

Revisão prática e interativa das III Diretrizes de Cardiogeriatria da SBC, organizada em 17 seções que cobrem os nove capítulos do documento. A pergunta que atravessa todas elas: o que muda quando o paciente cardiopata é idoso? Fragilidade, cognição, funcionalidade, polifarmácia e objetivos de cuidado entram em cada decisão. As tabelas estão transcritas na íntegra e as recomendações mostram a força e a certeza GRADE.

Documento
SBC · DECAGE, 2026
Seções
17
Recomend.
283
Quadros
61
Figuras
15
Casos
105
Flashcards
155
Calculadoras
23

Helber I, Zanon JCC, Peixoto JM, et al. Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria – 2026. Arq Bras Cardiol. 2026;123(10):e20260795.

📄 Sobre o documento

Terceira edição das diretrizes brasileiras de cardiogeriatria (a primeira, de 2002, foi a primeira do mundo no tema), elaborada pelo Departamento de Cardiogeriatria (DECAGE) da SBC, sucedendo as edições de 2010 e 2019. Traz pela primeira vez um capítulo de síncope no idoso e adota o sistema GRADE (força: forte ou condicional; certeza: alta, moderada, baixa ou muito baixa). Capítulos: aspectos gerais da senilidade e prevenção; estratificação do risco cardiovascular; coronariopatia crônica e aguda; insuficiência cardíaca; hipertensão; valvopatias; e arritmias.

⚠️ Aviso

Material educacional baseado na diretriz oficial. Não substitui julgamento clínico individualizado, a avaliação multiprofissional nem a decisão compartilhada com o paciente e a família. Onde esta revisão vai além do texto da diretriz, isso aparece marcado como 🎓 Interpretação didática.

🧠 Como ler esta página

Força da recomendação (SBC, GRADE) — cor da barra lateral:

Forte deve ser aplicada à maioria dos pacientes Condicional depende do contexto, dos valores e da preferência do paciente Contra recomendação contrária ao uso

Certeza da evidência (GRADE):

AltaModeradaBaixaMuito baixa

Siglas com sublinhado pontilhado mostram o significado ao passar o mouse ou tocar. Três camadas estão sempre separadas: Recomendação formal (transcrição dos quadros) · 📖 Texto de suporte (síntese fiel do documento) · 🎓 Interpretação didática. Tabelas marcadas como “Síntese” organizam em forma de tabela o que o documento traz em texto corrido.

1Pioneirismo, envelhecimento cardiovascular e cuidado centrado na pessoa

Diretriz · capítulo 1, introdução do capítulo 2 e seção 2.1

Idade cronológica não é idade biológica. O envelhecimento cardíaco — hipertrofia, disfunção diastólica, fibrose, rigidez arterial — prepara o terreno para ICFEp e FA, mas é um processo parcialmente modificável. A diretriz organiza todo o cuidado em torno da avaliação geriátrica ampla, da equipe multiprofissional e de objetivos de cuidado definidos com o paciente.

Uma diretriz pioneira

📖 Texto de suporte — o pioneirismo da cardiogeriatria brasileira (capítulo 1)
  • Em 2002, o Grupo de Estudos em Cardiogeriatria (GEBRAC) da SBC reuniu 51 especialistas em São Pedro (SP) e elaborou a primeira diretriz específica em cardiogeriatria do mundo, publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia.
  • Em 2010, o Departamento de Cardiogeriatria (DECAGE) reuniu mais de 100 profissionais nas II Diretrizes, em parceria com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG); em 2014 foram apresentadas em sessão conjunta com o American College of Cardiology (ACC), em Washington.
  • Atualização em 2019 (editores Gilson Soares Feitosa-Filho, José Maria Peixoto e José Elias Soares Pinheiro).
  • As III Diretrizes (2026), editadas por Izo Helber, José Maria Peixoto e José Carlos da Costa Zanon, trazem pela primeira vez um capítulo específico sobre síncope no idoso.
Figura central: abordagem multidimensional em cardiogeriatria. No centro, a avaliação geriátrica ampla com fragilidade, cognição, funcionalidade, multimorbidade e polifarmácia; ao redor, cardiologista, geriatria, enfermagem, fisioterapeuta, educador físico e nutricionista; linha de cuidado (detecção e avaliação, estratificação, plano de cuidado, acompanhamento, transição e continuidade) e cinco pilares do tratamento (avaliação sistemática, decisão compartilhada, individualização, prevenção ativa, planejamento antecipado).
Figura Central – Abordagem multidimensional em cardiogeriatria: abordagem centrada na pessoa idosa, baseada em evidências e orientada por objetivos de cuidado e qualidade de vida.Toque na imagem para ampliar.
🧭 Como ler a Figura Central
  • Núcleo: o paciente idoso e sua família, envolvidos pela avaliação geriátrica ampla (AGA) — fragilidade, cognição, funcionalidade, multimorbidade e polifarmácia orientam todas as decisões cardiovasculares.
  • Anel de co-gestão multidisciplinar: cardiologista, geriatria, enfermagem, fisioterapeuta, educador físico e nutricionista.
  • Linha de cuidado: detecção e avaliação → estratificação → plano de cuidado → acompanhamento → transição e continuidade (da prevenção e imunização aos cuidados paliativos).
  • Cinco pilares: avaliação sistemática, decisão compartilhada, individualização, prevenção ativa e planejamento antecipado.

Envelhecimento populacional e doença cardiovascular

📖 Texto de suporte — introdução do capítulo 2
  • Em 2030, cerca de 22% da população mundial terá mais de 60 anos (12% em 2015). O grupo que mais cresce é o de > 80 anos, que deve triplicar até 2050.
  • No Brasil (Censo 2022, IBGE), a população com mais de 65 anos cresceu 57,4% em relação a 2010. A expectativa de vida passou de 71,1 anos (2000) para 76,4 anos (2023) e deve alcançar 83,9 anos em 2070.
  • A IC acomete 1–2% dos adultos em países desenvolvidos e mais de 10% dos indivíduos com ≥ 70 anos; a FA atinge 10–17% dos indivíduos ≥ 80 anos.
  • O envelhecimento cardíaco é fator de risco não modificável, impulsionado por estresse oxidativo, disfunção mitocondrial, comprometimento da autofagia, alterações epigenéticas, inflamação e fibrose — com remodelamento mesmo em idosos aparentemente saudáveis. Espera-se mais ICFEp, FA e doença isquêmica.

Alterações estruturais e funcionais do coração que envelhece

📖 Texto de suporte — seções 2.1.1 e 2.1.2
  • Marcas do envelhecimento cardíaco: hipertrofia ventricular esquerda, disfunção diastólica, redução da reserva funcional, fibrose miocárdica, remodelamento da matriz extracelular, aumento da rigidez arterial e disfunção endotelial.
  • A fração de ejeção costuma ser preservada, mas a contratilidade intrínseca cai pela menor responsividade β-adrenérgica e por alterações no manejo intracelular do Ca²⁺.
  • As alterações diastólicas predominam: o enchimento diastólico inicial do VE pode cair ~50% aos 80 anos, enquanto aumenta a contribuição da contração atrial.
  • Estrutura: aumento da espessura parietal (perda de cardiomiócitos com hipertrofia compensatória), aumento da relação massa/volume, redução das dimensões ventriculares e hipertrofia assimétrica com espessamento septal; alterações semelhantes, menos pronunciadas, no VD.
  • Átrios: maior dependência da contração atrial, fibrose e dilatação — o tamanho do átrio esquerdo se relaciona diretamente ao risco de FA. Em alguns indivíduos, amiloidose cardíaca.
  • Hipertrofia do VE e dilatação do AE têm papel central na fisiopatologia da ICFEp e da FA.
  • O envelhecimento não é igual para todos: hábitos de vida e fatores metabólicos, ambientais, genéticos e epigenéticos o modulam, e intervenções (estilo de vida, fármacos, terapias dirigidas a mecanismos do envelhecimento) podem retardar ou até reverter parte dele.
Síntese – Do envelhecimento cardíaco à doença (seção 2.1)
AlteraçãoConsequência fisiológicaDoença favorecida
Hipertrofia do VE, fibrose, ↑ massa/volumeRelaxamento lento e rigidez; enchimento precoce reduzido (~50% aos 80 anos)ICFEp
Maior dependência da contração atrial, fibrose e dilatação do AESubstrato arritmogênico (tamanho do AE ∝ risco)Fibrilação atrial
Menor resposta β-adrenérgica; alteração do manejo de Ca²⁺Redução da reserva contrátil, com FE geralmente preservadaMenor tolerância a estresse (infecção, cirurgia)
Rigidez arterial e disfunção endotelial↑ pós-carga, pressão de pulso e PASHipertensão sistólica, aterosclerose

Quadro-síntese didático elaborado a partir do texto das seções 2.1.1 e 2.1.2. AE: átrio esquerdo; FE: fração de ejeção; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; PAS: pressão arterial sistólica; VE: ventrículo esquerdo.

Promoção do envelhecimento saudável

📖 Texto de suporte — seção 2.1.3
  • OMS: envelhecimento saudável é “o processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade funcional que possibilita o bem-estar na terceira idade”.
  • Life’s Essential 8 (AHA): cessação do tabagismo, alimentação saudável, atividade física regular, controle do peso, da pressão arterial, do colesterol e da glicemia, e sono adequado.
  • Tecnologias digitais (telemedicina, telessaúde, dispositivos vestíveis, monitoramento remoto) ajudam a acompanhar parâmetros e atividade física; número de passos e duração do exercício associam-se a menor risco cardiovascular e melhor capacidade funcional.
  • O cuidado do idoso com DCV inclui rastreamento sistemático de síndromes geriátricas e avaliação individualizada de funcionalidade, fragilidade, cognição, nutrição, comorbidades, polifarmácia, expectativa de vida e preferências. A AGA é detalhada e reservada a contextos especializados/alto risco; o rastreio geriátrico visa à detecção precoce e à gestão proativa antes do declínio.
  • Fatores modificáveis: tabagismo, alimentação inadequada, sedentarismo, álcool em excesso, hipertensão, dislipidemia, DM, obesidade e estresse. Não modificáveis: idade, sexo e genética.
  • Saúde mental: rastrear depressão, ansiedade e isolamento social. Fragilidade: maior suscetibilidade a quedas, perda funcional, hospitalização prolongada, institucionalização e morte. Polifarmácia inadequada: revisão periódica, desprescrição racional e coordenação entre níveis de atenção.
🎓 Interpretação didática

O idoso de 82 anos com ICFEp e FA não é “um adulto mais velho”: o mesmo substrato (VE rígido, AE dilatado) explica as duas doenças e a pouca reserva diante de qualquer estresse. A diretriz pede que a conduta cardiológica seja sempre lida à luz de função, cognição, fragilidade, medicamentos e desejos do paciente — essa é a linha que atravessa todos os capítulos.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 1, introdução do capítulo 2 e seção 2.1; Figura Central.

2Avaliação geriátrica ampla e fragilidade

Diretriz · seções 2.2 e 2.3

A AGA é um processo diagnóstico multidimensional e interdisciplinar que revela vulnerabilidades invisíveis à consulta tradicional. A fragilidade — menor reserva para responder ao estresse — tem relação bidirecional com a doença cardiovascular: rastreie todo idoso com DCV ≥ 70 anos e, a partir de 65, quando houver condições especiais.

Quando fazer a avaliação geriátrica ampla

📖 Texto de suporte — seções 2.2 e 2.2.1
  • A população idosa é heterogênea: usar apenas a idade como referência para decisões não é mais aceitável. Idade cronológica não traduz idade biológica, reserva funcional ou vulnerabilidade.
  • A AGA identifica fatores de risco, faz diagnóstico precoce de agravos da senescência e avalia capacidade funcional, cognição, condição socioeconômica, nutrição, saúde emocional e espiritual e preferências de cuidado. Objetivo: plano de cuidados individualizado que otimize qualidade de vida, preserve autonomia e promova envelhecimento saudável.
  • Apresentações atípicas: infarto e infecções sem sinais clássicos; delirium pode ser a primeira manifestação de doença subjacente; depressão e déficit cognitivo podem se manifestar por alterações funcionais ou comportamentais.
  • A funcionalidade (atividades básicas, instrumentais e avançadas) é um dos principais marcadores de saúde no envelhecimento; sua perda associa-se a eventos adversos.
  • Metas terapêuticas individualizadas: autonomia, funcionalidade, qualidade de vida e dignidade.
✅ A AGA é particularmente indicada em
  • Idade avançada (> 75–80 anos);
  • Fragilidade ou risco de fragilidade (detectado por rastreio);
  • Múltiplas comorbidades e/ou polifarmácia;
  • Declínio funcional recente ou progressivo;
  • Alterações cognitivas ou diagnóstico de demência;
  • Hospitalizações frequentes e/ou quedas recorrentes;
  • Transição de cuidados;
  • Necessidade de tomada de decisão complexa.

Domínios e instrumentos da AGA

A aplicação é planejada individualmente e pode ocorrer em duas ou mais consultas, com diferentes profissionais (seção 2.2.2).

Síntese – Domínios essenciais da AGA e instrumentos citados pela diretriz (seções 2.2.2.1 a 2.2.2.8)
DomínioO que investigarInstrumentos
Funcionalidade (AVD básicas)Banho, vestuário, alimentação, continência, transferênciasEscala de Katz; Índice de Barthel
Funcionalidade (AVD instrumentais)Preparo de refeições, compras, manejo de medicamentos e finançasEscala de Lawton e Brody
Mobilidade e quedasForça de membros inferiores e marchaSentar e levantar (5 repetições); velocidade da marcha em 3–4 m (normal: até 8 s)
CogniçãoComprometimento cognitivo, demência; delirium no hospitalMEEM; MoCA; CAM (delirium)
Estado nutricionalPerda ponderal não intencional, desnutrição, mastigação/deglutiçãoMiniavaliação Nutricional (MNA)
Estado psicológicoDepressão, ansiedade, humor, isolamento socialAnamnese dirigida; Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15)
Social e ambienteRede de suporte, moradia, situação socioeconômica, lazer, sobrecarga do cuidadorEscala de Zarit
Revisão medicamentosaPolifarmácia, medicamentos potencialmente inapropriados, interações, duplicidades, adesãoCritérios de Beers; STOPP/START; desprescrição
Comorbidades e privações sensoriaisDoenças crônicas, incontinência, lesões por pressão, visão e audiçãoTestes simples de consultório
Questões existenciaisValores, crenças, fontes de esperança, prioridades; diretivas antecipadas de vontadeFICA (Fé, Importância, Comunidade, Ação); HOPE

Síntese em tabela do texto das seções 2.2.2.1 a 2.2.2.8. AVD: atividades da vida diária; CAM: Confusion Assessment Method; MEEM: Miniexame do Estado Mental; MoCA: Montreal Cognitive Assessment.

📖 Texto de suporte — por que a avaliação padrão é insuficiente e os benefícios da AGA (seções 2.2.3 a 2.2.5)
  • Ao ignorar fragilidade, risco de quedas, déficit cognitivo incipiente e sobrecarga do cuidador, a avaliação padrão falha em prevenir desfechos adversos, inclusive mortalidade.
  • A AGA detecta fragilidade, sarcopenia, risco de quedas, desnutrição, incontinência, depressão, alterações cognitivas, problemas sociais e sobrecarga do cuidador.
  • Benefícios: preservar ou recuperar independência, melhorar qualidade de vida, reduzir complicações; a revisão farmacoterápica reduz polifarmácia e eventos adversos; intervenções em mobilidade, ambiente e suporte social reduzem quedas, hospitalizações e institucionalização.
  • Promove o cuidado centrado na pessoa e a decisão compartilhada, adequando a intensidade do tratamento; reconhece o cuidador como parte do processo.
  • O objetivo não é apenas prolongar a vida, mas preservar autonomia, funcionalidade, segurança, qualidade de vida e dignidade.

Fragilidade e doença cardiovascular

📖 Texto de suporte — seções 2.3 e 2.3.1
  • Fragilidade: síndrome do envelhecimento com prejuízo da capacidade de responder ao estresse físico, mental e social; aumenta quedas, perda funcional, hospitalização prolongada, institucionalização e mortalidade.
  • A relação é bidirecional: DCV é fator de risco para fragilidade e fragilidade é fator de risco para DCV (Figura 2.1). Fatores comuns: inflamação, trombose, ↑ fator VIII, dímero-D e proteína C-reativa.
  • Prevalência de fragilidade em idosos com DCV: 25–60%, até 80% na IC. Piora desfechos (sangramento, tromboembolismo, reinternação) e aumenta a mortalidade independentemente da idade e da DCV.
  • Na comunidade, OR de 2,7 a 4,1 para associação fragilidade–DCV. Achados subclínicos (HVE ao eco, alteração segmentar, alterações de ECG, hipertensão sistólica, espessura íntima-média carotídea, AVC na RM, ITB < 0,8) associam-se individualmente a fragilidade e mortalidade.
Ciclo entre etiologia da fragilidade (inflammaging, distúrbios de coagulação, deleção gênica, deficiência de hormônios tróficos, vitamina D baixa, anorexia, doenças crônicas), crises catabólicas (infecções, IAM, angina, delirium, AVC, quedas), doença cardiovascular clínica e subclínica e manifestações clínicas da fragilidade (fraqueza, lentidão de marcha, baixa atividade física, exaustão, perda de peso).
Figura 2.1 – Ciclo interativo dos fatores etiológicos comuns às doenças cardiovasculares e à fragilidade, que atuam sistemicamente, causando alterações subclínicas e clínicas que interagem entre si e perpetuam o ciclo nocivo entre essas condições. AVC: acidente vascular cerebral; IAM: infarto agudo do miocárdio; IGF-1: fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1.Toque na imagem para ampliar.

Quem rastrear

📖 Texto de suporte — seção 2.3.2
  • Objetivo: estabelecer o risco inicial para decisões epidemiológicas e terapêuticas (invasivas ou não), reduzindo mortalidade, deterioração funcional e perda de qualidade de vida. Não há consenso, mas os conceitos se assemelham.
  • A AHA não tem recomendação formal; a força-tarefa da International Conference on Frailty and Sarcopenia Research (2019) recomenda rastrear todos os idosos com instrumento validado e adequado ao contexto (recomendação forte), excluindo idealmente a incapacidade da triagem; se positivo, avaliação clínica abrangente (recomendação forte).
  • A ESC aconselha rastrear a partir de 65 anos com condições especiais e todos acima de 70 anos.
✅ Indivíduos que devem ser rastreados para fragilidade (seção 2.3.3)
  1. Todos os idosos com DCV e idade ≥ 70 anos.
  2. Idosos com DCV e ≥ 65 anos com condições clínicas especiais: recebendo apoio de assistência social ou atendimento domiciliar, internados em hospital ou instituição de longa permanência; perda de peso significativa e não intencional (por exemplo, > 5% em 1 ano ou > 3 kg em 3 meses).
  3. Pacientes com múltiplas condições crônicas ou doenças específicas: DM; DPOC ou outras doenças respiratórias debilitantes; AVC; doenças neurodegenerativas (síndromes demenciais, Parkinson); ICFEp ou ICFEr; câncer; doença renal crônica; infecção pelo HIV.
  4. Pacientes que serão submetidos a intervenções cardíacas: TAVI; cirurgia cardíaca (CRM, substituição valvar); ICP; SCA (IAMCSST e IAMSSST); indicação de dispositivos eletrônicos (marcapasso, ressincronizador, CDI).

Instrumentos: grupo A (físicos) e grupo B (multidimensionais)

📖 Texto de suporte — seções 2.3.4 a 2.3.4.2
  • Há mais de 60 escalas; a maioria foi validada em populações muito diferentes. O instrumento ideal tem alta sensibilidade e especificidade, é prático, rápido e validado para o contexto. A AHA não endossa um instrumento; a ESC recomenda instrumentos conforme risco e população.
  • Grupo A — doença sistêmica (IC, IAM, FA, hipertensão) com necessidade de avaliação de risco epidemiológico → instrumentos de fragilidade física: Fenótipo de Fried (Johns Hopkins) e Short Physical Performance Battery (SPPB).
  • Grupo B — procedimento de média ou alta complexidade (implante de valva aórtica, CRM, troca valvar) → instrumentos multidimensionais: Índice de Fragilidade, Índice Prognóstico Multidimensional derivado da AGA ou Escala de Fragilidade de Edmonton (EFS). Quando se precisa de rapidez: Escala de Fragilidade Clínica (CFS) ou o Conjunto de Ferramentas Essenciais para a Fragilidade.
Síntese – Instrumentos de rastreamento de fragilidade: vantagens e desvantagens (seções 2.3.4.1 e 2.3.4.2)
InstrumentoO que avaliaVantagensDesvantagens
Grupo A — aspectos físicos
Fenótipo de Fried (Johns Hopkins)Perda de peso, exaustão, fraqueza (preensão palmar), lentidão da marcha e gasto energético pregressoMuito usado, validado em diversas etnias e gruposRequer dinamômetro, cronômetro e espaço; questionário de gasto energético demorado (alguns substituem por sentar-levantar ou pela pergunta sobre dificuldade nas atividades do último mês)
Short Physical Performance BatteryEquilíbrio (3 posições), levantar-se da cadeira e marchaAvalia desempenho muscular e sistemas nervosos periférico e central; validado em várias línguas e populaçõesRequer tempo, espaço e instrumentos
Grupo B — aspectos multidimensionais
Escala de Fragilidade Clínica (CFS)Escala de 9 pontos de vulnerabilidade clínicaFácil, sem instrumentos; muito usada, sobretudo no pré-operatórioInterpretação subjetiva; exige conhecer as AVD do paciente
Escala de Fragilidade de Edmonton (EFS)11 itens: cognição, saúde geral, independência, suporte social. 0–4 não frágil; 5–6 vulnerável; 7–8 leve; 9–10 moderada; 11 severaRápida e validada em diversas populaçõesMais adequada ao hospital; demorada na emergência; requer treinamento; sensibilidade relativamente menor
Conjunto de Ferramentas Essenciais para a Fragilidade4 itens: testes funcionais, laboratoriais e de cogniçãoRápida, sem aspectos subjetivos; alta especificidade para mortalidade em TAVI e troca valvarRequer exames laboratoriais e tempo para a parte cognitiva; mais usada em estudos de risco pré-operatório

Síntese em tabela do texto da diretriz. AVD: atividades da vida diária; TAVI: implante transcateter de valva aórtica.

Marcadores isolados de fragilidade

📖 Texto de suporte — seção 2.3.4.3
  • Cinco critérios de instrumentos completos podem ser usados isoladamente como rastreio rápido; quem pontua deve depois ser avaliado por instrumento amplo.
  • Lentidão da marcha (5 m, ritmo confortável, cronômetro do primeiro passo após a partida ao primeiro passo após a chegada, média de 3 tentativas): lento < 0,83 m/s (> 6 s); muito lento < 0,65 m/s (> 7,7 s); extremamente lento < 0,50 m/s (> 10 s).
  • Fraqueza (dinamômetro, 3 medidas, maior valor da mão dominante): homens < 30 kg; mulheres < 20 kg.
  • Perda de peso não intencional autorrelatada ou aferida ≥ 4,54 kg no último ano.
  • Prejuízo nutricional: albumina sérica < 3,5 g/dL.
  • Anemia: hemoglobina < 13 g/dL (homens) ou < 12 g/dL (mulheres).
🧮 Devo rastrear fragilidade? (seção 2.3.3)
Condição
Informe a idade e as condições.
🧮 Marcadores isolados de fragilidade (seção 2.3.4.3)
Sexo
Preencha o que tiver disponível.

Marcadores positivos indicam risco elevado de fragilidade e pedem avaliação por instrumento amplo (Fried/SPPB no grupo A; CFS, EFS ou ferramentas multidimensionais no grupo B).

🎓 Interpretação didática

Duas perguntas resolvem a escolha do instrumento: para que quero saber da fragilidade? Para prognóstico de uma doença crônica (grupo A), meça o corpo — marcha, força, Fried, SPPB. Para decidir um procedimento (grupo B), meça a pessoa inteira — CFS, Edmonton, ferramentas multidimensionais. E, na falta de tempo, um cronômetro e 5 metros já separam quem precisa de avaliação completa.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.2 e 2.3; Figura 2.1.

3Polifarmácia, depressão e ansiedade

Diretriz · seções 2.4 e 2.5

Cinco ou mais medicamentos definem polifarmácia; dez ou mais, hiperpolifarmácia — mas o que importa é se ela é apropriada. Depressão afeta 20–30% dos pacientes com DCV e piora prognóstico; a sertralina é o antidepressivo com melhor evidência cardiovascular, sempre começando baixo e progredindo devagar.

Polifarmácia: conceitos, causas e consequências

📖 Texto de suporte — seções 2.4 a 2.4.3
  • A multimorbidade (HAS, DM, DCV, doenças osteoarticulares e neurodegenerativas) leva ao uso de múltiplos fármacos. Contribuem: acompanhamento por vários especialistas, fragmentação do cuidado, falta de revisão sistemática, automedicação e uso prolongado de fármacos indicados para condições agudas.
  • Definição quantitativa mais usada: uso simultâneo de ≥ 5 medicamentos; polifarmácia excessiva (hiperpolifarmácia): ≥ 10, com risco muito maior de eventos adversos.
  • Definição qualitativa: polifarmácia apropriada — todos os medicamentos com indicação clara, eficácia comprovada, segurança adequada e alinhamento aos objetivos do paciente; inadequada — fármacos sem indicação atual, duplicidades, doses inapropriadas ou risco maior que o benefício.
  • Prevalência em ≥ 65 anos: 40–60%, podendo passar de 70% em hospitais e instituições de longa permanência. No Brasil, alta na atenção primária, sobretudo em idosos, mulheres e baixa escolaridade, com uso frequente de medicamentos potencialmente inapropriados.
  • Principal determinante: multimorbidade, sobretudo quando diretrizes por doença geram prescrições cumulativas. Também: múltiplos prescritores sem coordenação, automedicação (fitoterápicos, suplementos, isentos de prescrição).
  • Consequências: reações adversas, interações, declínio funcional e cognitivo, quedas, menor adesão, hospitalizações evitáveis, custos; a polifarmácia excessiva associa-se a maior mortalidade, sobretudo em frágeis com multimorbidade. As alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas do envelhecimento potencializam esses riscos.

Como evitar a polifarmácia inadequada

Síntese – Estratégias baseadas em evidências para prevenir a polifarmácia (seções 2.4.4 a 2.4.6)
EstratégiaComo funciona
Revisão periódica da farmacoterapiaAvalia indicação, eficácia, segurança, dose e duração; identifica duplicidades e interações
DesprescriçãoRedução ou interrupção planejada e individualizada de fármacos sem benefício ou com risco; reduz a carga medicamentosa sem aumento significativo de eventos adversos
Critérios explícitosCritérios de Beers e outras ferramentas identificam medicamentos potencialmente inapropriados
Abordagem multiprofissionalOtimiza a farmacoterapia e a segurança do paciente
Educação de pacientes e cuidadoresUso racional, adesão e menos automedicação
Priorizar medidas não farmacológicas e coordenar níveis de atençãoPaciente no centro do processo decisório; polifarmácia como indicador de qualidade do cuidado

Barreiras: resistência dos prescritores, pouco tempo de consulta e ausência de sistemas integrados de informação. Soluções propostas: educação permanente, apoio à decisão clínica e modelos centrados no paciente.

Depressão e ansiedade no idoso com DCV

📖 Texto de suporte — seções 2.5 a 2.5.3
  • Prevalência de depressão na DCV: 20–30%. Associa-se a eventos adversos, pior adesão e pior qualidade de vida.
  • Tratar a depressão melhora sintomas, qualidade de vida e adesão, mas não há evidência robusta de que algum antidepressivo isoladamente reduza MACE ou mortalidade de forma consistente.
  • ELSA-Brasil (Kemp et al., 15.105 adultos de 35–74 anos): depressão maior com ansiedade → 3× mais chance de DAC; depressão isolada ~2×; ansiedade isolada ~1,5×, após ajuste para fatores tradicionais.
  • Avaliação inicial: anamnese considerando farmacocinética/farmacodinâmica do idoso e fragilidade; exames para causas reversíveis — hemograma, hormônios tireoidianos, eletrólitos, funções renal e hepática e vitamina B12 (hipotireoidismo, anemia, deficiência de B12).
  • Depois: avaliação cardiovascular ampla (IC, arritmias, IAM, angina, valvopatias; PA, FC, congestão). Triagem de depressão integrada à avaliação cardiológica, sobretudo após eventos coronarianos. Revisar comorbidades e todos os medicamentos (inclusive venda livre e fitoterápicos), com atenção a QT e arritmias.
Síntese – Escalas recomendadas para a avaliação inicial (seção 2.5.3)
EscalaUso
PHQ-2Triagem inicial rápida de humor deprimido e anedonia
PHQ-9Gravidade dos sintomas e acompanhamento da resposta terapêutica
GDS-15Avaliação da depressão no idoso
HADSContexto cardiológico e condições médicas gerais — reduz a influência de sintomas somáticos

GDS-15: Escala de Depressão Geriátrica; HADS: Hospital Anxiety and Depression Scale; PHQ: Questionário de Saúde do Paciente.

Tratamento não farmacológico

📖 Texto de suporte — seção 2.5.4
  • Reabilitação cardíaca com exercício: intervenção central — reduz mortalidade e hospitalizações, melhora capacidade funcional e qualidade de vida e reduz de forma clinicamente relevante os sintomas depressivos (aptidão cardiorrespiratória, modulação autonômica, menos inflamação, efeitos psicossociais, preservação muscular e autonomia).
  • Terapia cognitivo-comportamental: primeira linha, eficácia comparável à farmacoterapia a curto prazo, menos recaídas; combinada a antidepressivo em quadros moderados; especialmente relevante quando há contraindicação, intolerância ou risco com antidepressivos.
  • Eletroconvulsoterapia: depressão grave resistente ou risco iminente (ideação suicida). Segura em idosos com DCV — inclusive com marcapasso ou CDI — com avaliação cardiológica prévia, monitorização hemodinâmica e equipe experiente; em dependentes de marcapasso, manejo do dispositivo e monitorização durante e após.

Tratamento farmacológico

📖 Texto de suporte — seções 2.5.5 a 2.5.5.3
  • Antes de iniciar: ECG (QT, condução, ritmo), funções renal e hepática, eletrólitos (potássio, magnésio, sódio — risco de arritmia e hiponatremia); glicemia e lipídios conforme o risco.
  • MACE (morte CV, IAM e AVC não fatais) é o desfecho usual de segurança. ISRSs têm perfil favorável, sem aumento consistente de MACE; SADHART-CHF: sertralina neutra para MACE na IC com depressão. A AHA destaca os ISRSs como opção segura.
  • Sertralina: evidência cardiovascular mais consistente — preferida em idosos com DCV e maior risco CV. Escitalopram: boa tolerabilidade e poucas interações, evidência de MACE menos robusta. Vortioxetina: dados favoráveis, mas limitados para MACE.
  • Citalopram e escitalopram prolongam o QT de forma dose-dependente: ECG basal e monitorização quando indicada, corrigir eletrólitos; escitalopram limitado a 10 mg/dia em idosos.
  • Estudos sub-representam idosos frágeis e desfechos relevantes (hipotensão ortostática, hiponatremia, síncope, quedas, declínio funcional) → “começar baixo e progredir lentamente”, com monitorização e associação a medidas não farmacológicas.
Tabela 2.1 – Escolha e uso de antidepressivos no idoso com doença cardiovascular
AntidepressivoDose de referência em idosos com DCVCerteza da evidência (GRADE)*Força da recomendação**Principais considerações clínicas
Sertralina25–200 mg/diaModeradaForte a favorPrimeira escolha na DCV; melhor evidência cardiovascular entre os ISRSs.
Escitalopram5–10 mg/diaModeradaForte a favorBoa tolerabilidade; atenção ao prolongamento do QT em pacientes de risco.
Citalopram10–20 mg/diaBaixaCondicionalRisco de prolongamento do QT dose-dependente; requer monitorização em pacientes selecionados.
Vortioxetina5–15 mg/diaBaixaCondicionalAlternativa aos ISRSs; possível benefício cognitivo; evidência cardiovascular limitada.
Mirtazapina7,5–30 mg/diaBaixaCondicionalÚtil em insônia e perda de apetite; risco de sedação e hipotensão ortostática.
Bupropiona de liberação sustentada ou estendida150–300 mg/diaBaixaCondicionalÚtil para evitar disfunção sexual e ganho de peso; monitorar PA.
Venlafaxina de liberação prolongada37,5–150 mg/diaBaixaCondicional contra uso rotineiroPode elevar PA e FC; evitar em hipertensão arterial sistêmica não controlada e insuficiência cardíaca descompensada.
Desvenlafaxina50–100 mg/diaMuito baixaCondicional contra uso rotineiroEvidência limitada; possível aumento de PA e FC.
Trazodona25–150 mg/diaMuito baixaCondicional contra uso rotineiroUso preferencial para insônia; risco de sedação, quedas e hipotensão.
Vilazodona10–30 mg/diaMuito baixaCondicional contra uso rotineiroEvidência insuficiente em DCV; uso individualizado.
TricíclicosNortriptilina 10–75 mg/dia (excepcional)BaixaForte contra uso rotineiroAlto risco cardiovascular e anticolinérgico; evitar em idosos com DCV.

DCV: doença cardiovascular; FC: frequência cardíaca; GRADE: Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation; ISRSs: inibidores seletivos da recaptação de serotonina; PA: pressão arterial. Nota: as doses devem ser individualizadas conforme fragilidade, funções renal e hepática, comorbidades, polifarmácia e interações medicamentosas. Recomenda-se iniciar o tratamento com doses baixas e titulação lenta. *Certeza da evidência (GRADE): avaliada com base em risco de viés, consistência, precisão, evidência indireta e aplicabilidade clínica. **Força da recomendação: baseada no balanço entre benefícios e riscos na população-alvo (forte ou condicional, a favor ou contra).

📖 Texto de suporte — considerações cardiometabólicas (seção 2.5.5.4)
  • Metanálise em rede de Pillinger et al.: 151 ECRs, > 58 mil participantes, 30 antidepressivos — grande heterogeneidade de efeitos cardiometabólicos, hemodinâmicos e fisiológicos, o que reforça a individualização (Tabela 2.2).
Tabela 2.2 – Perfis cardiometabólicos dos antidepressivos mais usados em cardiogeriatria
AntidepressivoPesoColesterol totalGlicemiaFrequência cardíacaPressão arterial
SertralinaLeveSem alteraçãoSem alteraçãoNeutro/leveNeutro
EscitalopramLeveSem alteraçãoSem alteraçãoNeutroNeutro
CitalopramLeveSem alteraçãoSem alteraçãoNeutroNeutro
VortioxetinaNeutroSem alteraçãoSem alteraçãoNeutroNeutro
MirtazapinaGanho de pesoAumento leveAumento leveNeutroNeutro
BupropionaRedução de pesoSem alteraçãoSem alteraçãoAumento leveNeutro
VenlafaxinaRedução leveAumentoSem alteraçãoAumentoAumento
DesvenlafaxinaRedução leveAumentoSem alteraçãoAumentoAumento

Fonte: baseado em Pillinger et al.

Cuidados de segurança

Síntese – Riscos do tratamento antidepressivo no idoso com DCV e como manejá-los (seção 2.5.5.5)
RiscoQuem tem mais riscoConduta
Sangramento (sobretudo gastrointestinal) com ISRS/ISRSN — redução da serotonina plaquetáriaPrimeiros meses; uso de AAS, dupla antiagregação ou anticoagulante; sangramento GI prévio; fragilidadeAvaliar risco hemorrágico, considerar gastroproteção, orientar sinais de sangramento
Hiponatremia (SIADH) com ISRS/ISRSNFrágeis, mulheres, baixo peso, insuficiência renal, tiazídicos, hiponatremia préviaSódio antes de iniciar e nas primeiras semanas nos de maior risco; se significativa, rever necessidade e medicamentos e considerar bupropiona ou mirtazapina
Interações via CYP2D6Paroxetina, fluoxetina e bupropiona (inibidores potentes) + betabloqueadores como metoprololBradicardia e hipotensão: preferir antidepressivo com menor interação; monitorar PA, FC e ECG se sintomas ou risco arrítmico
Prolongamento do QTCitalopram/escitalopram, DCV, distúrbios eletrolíticos, arritmias, outros fármacos que prolongam o QTECG basal e periódico quando indicado; corrigir eletrólitos; escitalopram ≤ 10 mg/dia

Reavaliação estruturada entre 6 e 12 semanas após início ou ajuste: resposta, adesão, efeitos adversos, risco CV, sangramento, sódio, hipotensão, arritmias e quedas, com PHQ-9 ou GDS-15; considerar psicoterapia, reabilitação cardíaca e intervenções psicossociais. AAS: ácido acetilsalicílico; ISRSN: inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina; SIADH: síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético.

🎓 Interpretação didática

Idoso coronariopata deprimido, em uso de AAS e metoprolol: a escolha natural é sertralina em dose baixa, com sódio de controle nas primeiras semanas e atenção a sangramento. Fluoxetina e paroxetina inibem a CYP2D6 e potencializam o metoprolol; tricíclicos estão fora; venlafaxina eleva PA e FC. E não esqueça a TCC e a reabilitação cardíaca, que tratam a depressão e o coração ao mesmo tempo.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.4 e 2.5; Tabelas 2.1 e 2.2.

4Cuidados paliativos cardiológicos e vacinação

Diretriz · seções 2.6 e 2.7

Cuidado paliativo na IC é para todos, não só para o estágio D: o encaminhamento passou a ser guiado por necessidades, e não apenas por prognóstico. Vacinar o idoso é componente obrigatório do cuidado e indicador de qualidade — influenza de alta dose, VPC20, VSR, herpes-zóster recombinante, covid-19 e dTpa.

Cuidados paliativos: para quem

📖 Texto de suporte — seção 2.6.1
  • Foco em idosos (≥ 60 anos) e muito idosos (≥ 80 anos) com doença cardiovascular avançada. As diretrizes atuais recomendam cuidados paliativos para todos os pacientes com IC, não apenas no estágio D — mudança de paradigma.
  • População prioritária: IC avançada (estágios C/D, NYHA III–IV), hospitalizações recorrentes; DAC com angina refratária sem opção de revascularização; valvopatia grave sem indicação de intervenção cirúrgica ou percutânea; hipertensão pulmonar avançada (classe funcional OMS III–IV); não candidatos a transplante com CDI com choques recorrentes ou dispositivo de assistência ventricular esquerda.
  • Complexidade geriátrica reforça a indicação: fragilidade (CFS ≥ 5), comprometimento cognitivo ou demência moderada a grave, multimorbidade e polifarmácia.
📖 Texto de suporte — modelos e componentes do cuidado (seção 2.6.2)
  • Modelos: especializados (equipes multidisciplinares), integrados à cardiologia (cogestão em ambulatórios de IC ou geriatria), cuidados paliativos primários pela própria equipe de cardiologia com apoio consultivo, e atendimento domiciliar. A distinção entre CP primário (todos os clínicos) e especializado (nível secundário) orienta a alocação de recursos.
  • Componentes: avaliação sistemática de sintomas (dispneia, dor, fadiga, ansiedade, depressão) com KCCQ, MLHFQ e ESAS; planejamento antecipado de cuidados e metas terapêuticas; gestão de dispositivos (incluindo desativação do CDI, quando apropriado); desprescrição focada em sintomas e segurança; suporte ao cuidador.

Quando encaminhar ao cuidado paliativo especializado

Síntese – Critérios de encaminhamento a cuidados paliativos especializados (estudo Delphi internacional; seção 2.6.3)
DomínioCritérios
a) Baseados em doença
  • ≥ 2 hospitalizações não programadas em ≤ 3 meses
  • NYHA III–IV com KCCQ < 50
  • Inelegibilidade para terapias avançadas (transplante e assistência ventricular esquerda)
  • Inotrópicos contínuos em domicílio
  • Disfunção ventricular esquerda grave persistente
  • Síndrome cardiorrenal
  • Caquexia cardíaca
  • Intolerância à GDMT
b) Baseados em necessidades
  • Sintomas físicos ou emocionais graves refratários
  • Limitação funcional significativa
  • Dificuldade na tomada de decisões
  • Suporte social precário
  • Desafios de saúde mental
  • Necessidade de planejamento antecipado de cuidados
c) Baseados em tempo
  • Expectativa de vida estimada pelo clínico ≤ 6 meses
Sinais de alerta para introdução precoceBNP/NT-proBNP persistentemente elevados apesar de terapia otimizada; marcadores geriátricos — declínio funcional recente, sarcopenia, fragilidade

BNP: peptídeo natriurético tipo B; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; KCCQ: Kansas City Cardiomyopathy Questionnaire; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B; NYHA: New York Heart Association.

🧮 Checklist de encaminhamento a cuidados paliativos especializados (seção 2.6.3)
Doença
Necessidades
Tempo
Marque os critérios presentes.

Qualquer critério justifica discutir encaminhamento; na ausência deles, o cuidado paliativo primário (pela própria equipe) continua indicado para todo paciente com IC.

📖 Texto de suporte — benefícios, particularidades geriátricas e barreiras (seções 2.6.4 a 2.6.6)
  • Benefícios na IC: melhor qualidade de vida e controle de sintomas (dispneia, dor), melhor classe funcional, menos depressão e ansiedade, mais diretivas antecipadas, menos uso de serviços, menos internações e dias de internação, menor custo; melhora do bem-estar espiritual e do suporte social.
  • Ensaios heterogêneos: o PAL-HF mostrou benefício em qualidade de vida, ansiedade, depressão e bem-estar espiritual versus cuidado usual; outros foram mistos ou negativos → adaptar a intervenção às necessidades e desejos de pacientes e cuidadores.
  • No idoso, incorporar a AGA (fragilidade, cognição, funcionalidade, síndromes geriátricas) e os determinantes sociais (moradia, acesso a alimentos frescos, transporte).
  • “Pergunta surpresa” — “Você ficaria surpreso se esse paciente morresse no próximo ano?”: na IC avançada, mortalidade em 1 ano de ~50% com resposta “não surpreso” versus 10% com “surpreso”.
  • Barreiras: encaminhamento subótimo e tardio (versus câncer), pouca formação dos cardiologistas, escassez de especialistas em CP cardiovascular, dificuldade de identificar candidatos e confusão dos pacientes entre CP e hospice.

Vacinação do idoso: princípios

📖 Texto de suporte — seções 2.7.1 e 2.7.2
  • Objetivos: reduzir morbimortalidade por infecções, prevenir descompensação de doenças crônicas, reduzir eventos cardiovasculares associados a infecções e promover envelhecimento saudável e funcional.
  • A imunossenescência reduz a efetividade vacinal. Estratégias: doses mais altas de antígeno (influenza de alta dose) ou adjuvantes (VSR, herpes-zóster). Para bactérias encapsuladas (pneumococo, meningococo, Haemophilus influenzae), preferir vacinas conjugadas às polissacarídicas (resposta T-dependente, memória imunológica).
  • Coberturas aquém do ideal: a prescrição médica deve fazer parte do padrão de cuidado. A vacinação é componente obrigatório do cuidado clínico, responsabilidade de toda a equipe e indicador de qualidade assistencial.
  • Todo indivíduo ≥ 60 anos deve ter o estado vacinal avaliado; toda consulta é oportunidade de prescrever vacinas. Não esquecer vacinas “antigas”, como a do tétano acidental. Comorbidades, fragilidade e risco podem indicar ou contraindicar vacinas não rotineiras (hepatite A, tríplice viral, febre amarela).
  • Na consulta: vacinas não registradas no cartão não são válidas — vacinar, sem dano ao paciente; com comorbidades, consultar os calendários especiais da SBIm (Tabela 2.3); ESAVI raramente contraindica, exceto anafilaxia à vacina em questão; surtos podem indicar vacinas não rotineiras (tríplice viral, hepatite A, meningocócica, Hib); registrar em prontuário; notificação de ESAVI é obrigatória.
  • Fenômeno de Arthus: hipersensibilidade tipo III por imunocomplexos no local da aplicação, 4–12 h após, em previamente sensibilizados; não confundir com alergia, celulite ou abscesso; controle fácil com anti-histamínicos.
Tabela 2.3 – Vacinas adicionais ao calendário de rotina para idosos com comorbidades e/ou imunossupressão de acordo com a doença de base, o estado de imunossupressão, a realização de transplante de órgão sólido e o uso de medicações imunossupressoras
Grupo especialVacinas ADICIONAIS recomendadas, além do calendário de vacinação do idosoVacinas disponíveis nos CRIE
Diabetes–Influenza, covid-19, VPP23
Cardiopatia e/ou pneumopatia crônicas–Influenza, covid-19, VPP23
Hepatopatias crônicasHepatite AInfluenza, covid-19, hepatite A, hepatite B, VPP23
Doença renal crônicaHepatite AInfluenza, covid-19, VPP23, hepatite B
Asplenia anatômica ou funcional, hemoglobinopatias, doenças de depósito e outras condições associadas à disfunção esplênicaHepatite A; Hib; MenACWY; MenBInfluenza, covid-19, hepatite A, hepatite B, VPC13, VPP23, Hib, MenACWY, MenB
Vivendo com HIV/aidsMenACWY; MenB; Hepatite A; HibInfluenza, covid-19, VPC13, VPP23, Hib, hepatite A, hepatite B, MenACWY, MenB
Doenças oncológicas em atividadeMenACWY; MenB; Hepatite A; HibInfluenza, covid-19, VPC13, VPP23, Hib, hepatite A, MenB
Doenças autoimunes que levam à imunossupressãoMenACWY; MenB; Hepatite A; HibVPC13, VPP23, MenC, Hib, hepatite B, hepatite A; se em risco epidemiológico: febre amarela, conforme recomendações do Ministério da Saúde
Pessoas em uso de medicações imunossupressorasMenACWY; MenB; Hepatite A; HibVPC13, VPP23, MenC, Hib, hepatite B, hepatite A
Candidatos a transplante ou transplantados de órgãos sólidosMenACWY; MenB; Hepatite A; HibVPC13, VPP23, MenACWY, Hib, hepatite B, hepatite A
Pessoas transplantadas de células-tronco hematopoiéticas–VPC13, VPP23, MenACWY, Hib, hepatite B, Hepatite A
Vacinação de conviventes domiciliares de imunossuprimidosSCR; varicelaInfluenza, SCR, varicela

CRIE: Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais; Hib: vacina contra Haemophilus influenzae tipo B; MenACWY: vacina meningocócica conjugada contra os sorogrupos A, C, W e Y; MenB: vacina meningocócica contra o sorogrupo B; MenC: vacina meningocócica conjugada contra o sorogrupo C; SCR: vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola); VPC13: vacina pneumocócica conjugada 13-valente; VPP23: vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente. Fonte: Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais; Calendários de vacinação SBIm pacientes especiais – 2025.

Calendário do idoso (SBIm/SBGG)

📖 Texto de suporte — seção 2.7.3
  • Influenza: universal para idosos; preferir alta dose; na indisponibilidade, dose padrão.
  • Covid-19: recomendação vigente em 28 de março de 2026 — duas doses anuais com intervalo de 6 meses.
  • Pneumocócicas: estratégia preferencial VPC20 em dose única; previamente vacinados podem se beneficiar da VPC20; não há necessidade de VPP23 após VPC20; alternativa: esquema sequencial VPC13 ou VPC15 seguida de VPP23; aplicação simultânea permitida.
  • VSR (recombinante adjuvantada ou recombinante A e B): dose única; recomendada a partir de 60 anos, especialmente com maior risco de evolução grave ou descompensação; rotina a partir de 70 anos, independentemente de fatores de risco.
  • Herpes-zóster adjuvantada: duas doses com intervalo de 2 meses, independentemente de história prévia; após um episódio, pode ser aplicada logo após a resolução (para não perder a oportunidade) ou após 6 meses, a critério médico.
  • dTpa/dT: coqueluche é grave no idoso e o tétano acidental é mais prevalente nessa faixa; preferir dTpa no reforço a cada 10 anos; primovacinação: 1 dose de dTpa + 2 de dT (0–2–4 a 8 meses).
  • Hepatite B: três doses (0–1–6 meses); quem iniciou, continua respeitando 4 meses entre a segunda e a terceira dose.
  • Febre amarela: não contraindicada no idoso imunocompetente, mas pesar o risco raro (0,25–0,4/100.000 doses) de doença viscerotrópica aguda; recomendar se o risco de infecção superar o de evento grave; pode ser simultânea às demais. Contraindicações: alergia à proteína do ovo ou a componentes; imunossupressão por doença ou tratamento; doença falciforme em uso de hidroxiureia (vacinar se neutrófilos > 1.500 células/mm³); doenças do timo (miastenia gravis, timoma, ausência ou remoção do timo).
Tabela 2.4 – Vacinação do idoso (≥ 60 anos): guia prático para a tomada de decisão clínica
VacinaIndicaçãoEstratégia preferencialEsquemaAplicação simultâneaContraindicaçõesDisponibilidade
InfluenzaRotinaPreferir vacina de alta dose; se indisponível, vacina de dose padrãoDose anualSimAlergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anteriorSUS (dose padrão) e privado (ambas)
Covid-19RotinaConforme calendário anual vigente¹Conforme calendário anual vigenteSimAlergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anteriorSUS
PneumocócicasRotinaVPC20Dose únicaSimAlergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anteriorPrivado
Alternativa:VPC13 ou VPC15 + VPP23Esquema sequencialSim
Vírus sincicial respiratórioRotinaNADose únicaSimAlergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anteriorPrivado
Herpes-zóster (recombinante)RotinaNA2 doses (0–2 meses)SimAlergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anteriorPrivado
dTpa/dTRotinaPreferir dTpa para reforçoReforço a cada 10 anosSimAlergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anteriordT (SUS); dTpa (privado e SUS para profissionais de saúde)
Primovacinação (não vacinados)dTpa – dT – dT
Hepatite BRotina–3 doses (0–1–6 meses)SimAlergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anterior; púrpura trombocitopênica após dose anteriorSUS (hepatite B) e privado (hepatite A e B)
Febre amarelaConforme risco epidemiológicoAvaliação individual risco-benefícioDose únicaSimNotaSUS e privada

dT: difteria e tétano; dTpa: difteria, tétano e coqueluche acelular (adulto); NA: não se aplica; SUS: Sistema Único de Saúde; VPC13: vacina pneumocócica conjugada 13-valente; VPC15: vacina pneumocócica conjugada 15-valente; VPC20: vacina pneumocócica conjugada 20-valente; VPP23: vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente. Nota (febre amarela): contraindicações específicas no texto acima. Fonte: Calendário de vacinação do idoso. São Paulo: SBIm; 2025.

🎓 Interpretação didática

Na consulta cardiológica do idoso, “cartão de vacina” entra no mesmo nível de “lista de medicamentos”. Sem registro, considera-se não vacinado. A mensagem prática: influenza de alta dose todo ano, VPC20 uma vez (sem VPP23 depois), VSR dose única (rotina a partir de 70 anos), zóster recombinante em 2 doses, covid-19 duas vezes ao ano e dTpa a cada 10 anos.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.6 e 2.7; Tabelas 2.3 e 2.4.

5Atividade física e vitamina D

Diretriz · seções 2.8 e 2.9

Exercício é a intervenção não farmacológica mais potente do envelhecimento: reduz DCV em 30–40% e quedas em ~23%. Prescreva multicomponente (aeróbico + força + equilíbrio). A vitamina D, ao contrário, tem benefício modesto: suplementação empírica diária a partir de 75 anos, nunca megadoses intermitentes.

Benefícios da atividade física

📖 Texto de suporte — seção 2.8
  • Reduz mortalidade por todas as causas; benefícios cardiovasculares, metabólicos, funcionais e psicocognitivos. Ajuda a controlar a HAS (sobretudo por redução da resistência vascular periférica), melhora lipídios, adiposidade e glicemia.
  • Cardiovascular: ↑ captação e utilização de O₂; ↓ FC e PA para uma mesma carga; ↓ demanda miocárdica de O₂ → mais tolerância ao esforço.
  • Mais ativos têm ~30–40% menos risco de DCV, independentemente de idade, sexo e grupo populacional. Relação dose-resposta com mortalidade, com benefício mesmo abaixo dos volumes recomendados.
  • No idoso: força, equilíbrio, mobilidade, independência; prevenção e tratamento da fragilidade; saúde óssea; possivelmente cognição.
  • Quedas (metanálises de ECRs, idosos na comunidade): programas estruturados reduzem a taxa de quedas em ~23% (razão de taxas 0,77; IC95% 0,71–0,83) e o risco de ≥ 1 queda em 15% (RR 0,85; IC95% 0,81–0,89), sobretudo em alto risco e frágeis.
  • Benefícios práticos listados: condicionamento e saúde, densidade óssea, equilíbrio, postura e flexibilidade, força, controle do peso, humor, sono e menos estresse.

Como prescrever

📖 Texto de suporte — seção 2.8.1
  • Antes: avaliação clínica e funcional individualizada (comorbidades, limitações, risco CV, risco de quedas); a AGA ajuda em frágeis e multimórbidos. ECG, ecocardiograma e teste ergométrico conforme história, sintomas, exame e risco — não de rotina para todos.
  • Meta: 150–300 min/semana moderada ou 75–150 min/semana vigorosa (ou combinação), individualizada pelo princípio FITT (frequência, intensidade, tempo, tipo).
  • Programa multicomponente: aeróbico (caminhada, bicicleta, natação), força dos principais grupos musculares ≥ 2 dias/semana com progressão gradual, equilíbrio regular (sobretudo com risco de quedas), flexibilidade e treino funcional quando apropriado.
  • Progressão: primeiro frequência e duração, depois intensidade. Aquecimento e desaquecimento quando úteis.
  • Frágeis, sarcopenia avançada, demência ou institucionalizados: exercícios simples, supervisionados, de força, equilíbrio, mobilidade e tarefas funcionais. Não há volume único de treino resistido; mesmo baixo volume beneficia se consistente. Em frágeis, a força é componente essencial.
Tabela 2.5 – Prescrição de atividade física para idosos
Modalidade (tipo)FrequênciaIntensidadeTempo
Aeróbica3/5 vezes na semanaLeve/moderada150/300 min. leve ou 75/150 min. vigorosa
Fortalecimento muscular> 2 vezes semana-20/30 min./sessão
Equilíbrio> 3 vezes semanaIndividualizada10/20 min./sessão
Flexibilidade> 2 vezes semanaLeve/moderada10/15 min./sessão
Atividade funcionalDiárioLeve/moderadaVariável

Transcrição fiel da tabela. Observe que o texto da seção 2.8.1 fala em 150–300 min/semana de intensidade moderada (a tabela traz “leve”) e em força “idealmente em pelo menos dois dias por semana”.

Vitamina D: fisiologia, deficiência e dosagem

📖 Texto de suporte — seções 2.9.1 a 2.9.3
  • Hormônio lipossolúvel com ação em osso, músculo, imunidade, cérebro e coração, via receptor de vitamina D. Mais de 90% vem da exposição solar; o restante de alimentos e suplementos (D2 ergocalciferol, D3 colecalciferol). A deficiência reduz densidade óssea, força e equilíbrio e aumenta quedas e fraturas.
  • No idoso: menor produção cutânea, menos mobilidade e sol, isolamento social, menor massa gorda (biodisponibilidade) e declínio da função renal.
  • Dosar 25(OH)D em grupos de risco: > 75 anos, doenças osteometabólicas ou DRC, gestantes, lactantes, fatores de risco para osteoporose.
  • Alvos: > 20 ng/mL na população geral saudável até 60 anos; 30–60 ng/mL em grupos de risco, incluindo idosos; > 100 ng/mL é tóxico.

Quando e como suplementar

📖 Texto de suporte — seções 2.9.4 e 2.9.5
  • ≥ 75 anos: a Sociedade Americana de Endocrinologia sugere suplementação empírica (potencial redução de mortalidade), sem triagem rotineira dos níveis. Pode ser via alimentos fortificados, polivitamínicos ou suplemento diário. Nos ensaios com benefício de mortalidade, 400–3.333 UI/dia (média ponderada ~900 UI/dia).
  • Doses diárias menores são preferíveis a doses altas intermitentes (maiores que semanais): regimes mensais ou anuais aumentaram quedas e fraturas.
  • National Academy of Medicine: 600 UI/dia (19–70 anos) e 800 UI/dia (> 70 anos); limite superior tolerável 4.000 UI/dia (possíveis eventos adversos nesse nível). A AGS sugere 25(OH)D mínima de 30 ng/mL em idosos, sobretudo frágeis e com risco de quedas e fraturas.
  • VITAL (25.871) e D-Health (21.315), em populações saudáveis: sem benefício em eventos CV, câncer ou DM; no VITAL, 2.000 UI/dia por 5,3 anos não reduziu quedas nem fraturas.
  • Metanálise de 2026 (69 ECRs, 153.902 participantes): pouco ou nenhum efeito de cálcio, vitamina D ou combinação sobre fraturas e quedas em adultos da comunidade sem alto risco. Em ≥ 75 anos, provável pequena redução da mortalidade por todas as causas, sem benefício em fraturas; possível redução de quedas com doses usuais, não com doses altas.
  • Benefício mais consistente de vitamina D + cálcio: redução de fraturas, sobretudo de quadril, em idosos institucionalizados ou com maior risco de deficiência. Cálcio individualizado conforme a ingestão dietética.
  • DRC: vitamina D e sobretudo análogos ativos individualizados (função renal, cálcio, fósforo, PTH, estágio); análogos ativos não são rotina para todos.
⛔ Quando não suplementar vitamina D (seção 2.9.6)
  • Indivíduos saudáveis de 19 a 74 anos sem fatores de risco (sem evidência de benefício da suplementação ou da triagem populacional);
  • Níveis séricos > 100 ng/mL — interromper (toxicidade, hipercalcemia);
  • Hipercalcemia ou hiperfosfatemia — contraindicada;
  • Hipersensibilidade aos componentes da formulação;
  • Megadoses intermitentes (mensais ou anuais) — aumento paradoxal de quedas em idosos;
  • Com o objetivo exclusivo de retardar o envelhecimento.
🧮 Interpretação da 25(OH)D no idoso (seções 2.9.3 a 2.9.6)
Situações
Informe a idade.
🎓 Interpretação didática

Para o idoso cardiopata, a receita que mais muda desfecho é a do exercício: força duas vezes por semana, equilíbrio três vezes, caminhada na maioria dos dias — supervisionado se frágil. A vitamina D entra como coadjuvante: diária, em dose fisiológica, a partir dos 75 anos ou no grupo de risco; nunca “500 mil UI uma vez por ano”, que aumenta quedas.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.8 e 2.9; Tabela 2.5.

6Risco cirúrgico no idoso e diabetes no idoso frágil

Diretriz · seções 2.10 e 2.11

No idoso, o risco cirúrgico depende menos da idade e mais de reserva, fragilidade, comorbidades e capacidade funcional. RCRI + capacidade funcional (DASI) + fragilidade documentada + delirium + otimização + decisão compartilhada. No diabetes, a curva é em U: metas de HbA1c conforme o estado de saúde, e escolha do fármaco conforme fragilidade e peso.

Avaliação perioperatória: o que muda no idoso

📖 Texto de suporte — seções 2.10 e 2.10.1
  • Idosos são hoje o principal grupo cirúrgico. A avaliação pré-operatória deve ir além do risco cardiovascular e incluir aspectos funcionais, cognitivos, nutricionais, sociais e medicamentosos, buscando vulnerabilidades modificáveis.
  • A Diretriz SBC 2024 de Avaliação Cardiovascular Perioperatória fornece o arcabouço para risco e exames; este capítulo (DECAGE) complementa com AGA, fragilidade e decisão compartilhada, em recomendações GRADE.
  • Nove eixos: AGA; estratificação cardiovascular; fragilidade; capacidade funcional; exames complementares; decisão multidisciplinar; delirium e cognição; otimização clínica e medicamentosa; risco-benefício e metas de cuidado.
  • Pós-operatório: complicações CV, delirium, declínio funcional, desnutrição e eventos adversos de medicamentos — mobilização precoce, revisão terapêutica e reabilitação interdisciplinar.
  • A AGA (ou ao menos triagem geriátrica estruturada) no pré-operatório de idosos selecionados melhora desfechos como delirium e recuperação funcional.
CondicionalModerada

Sugere-se realizar avaliação geriátrica ampla (funcional, cognitiva, nutricional, social e de polifarmácia) no pré-operatório de idosos, especialmente naqueles submetidos a cirurgias de risco intermediário ou alto ou com vulnerabilidade geriátrica, utilizando os achados para orientar a otimização clínica e a prevenção de delirium.

Estratificação de risco cardiovascular

📖 Texto de suporte — seção 2.10.2
  • Abordagem sequencial da SBC 2024, que mantém o RCRI como principal ferramenta para estimar MACE (infarto, edema agudo de pulmão, arritmias graves ou morte CV) em cirurgia não cardíaca.
  • Seis variáveis: tipo de cirurgia, DAC, IC, doença cerebrovascular, creatinina > 2 mg/dL e diabetes insulinodependente. Risco baixo (0), intermediário (1–2) e alto (≥ 3).
  • Limitação no idoso: reserva reduzida e fragilidade podem subestimar o risco real. Em multimórbidos, dependentes ou cirurgias de alto risco, considerar MICA ou Gupta (idade, função renal, ASA, dependência funcional).
  • Integrar sempre escore + capacidade funcional (METs ou DASI) + julgamento clínico (fragilidade, polifarmácia, nutrição).
ForteModerada

Recomenda-se utilizar escores clínicos validados (preferencialmente o RCRI) como base da estratificação de risco cardiovascular no pré-operatório, sem substituir a avaliação clínica e a capacidade funcional. Em casos específicos, considerar o MICA ou o Gupta Perioperative Cardiac Risk Calculator como ferramentas complementares.

🧮 Revised Cardiac Risk Index (seção 2.10.2)
Marque as variáveis presentes (1 ponto cada)
RCRI = 0 → risco baixo.

A definição de “cirurgia de alto risco” segue o RCRI original (Lee, 1999). No idoso, o RCRI pode subestimar o risco: some capacidade funcional e fragilidade.

Fragilidade e capacidade funcional

📖 Texto de suporte — seções 2.10.3 e 2.10.4
  • Fragilidade é preditor independente de mortalidade, complicações, tempo de internação e institucionalização. Deve ser rotina no pré-operatório, sobretudo em cirurgias de risco intermediário ou alto. Instrumentos mais usados: CFS (destaque pela aplicabilidade e correlação com mortalidade e perda funcional), Risk Analysis Index (RAI) e Fried.
  • Frágeis têm risco 2 a 4 vezes maior de eventos CV e complicações maiores, independentemente do RCRI. Avaliar, documentar e usar para comunicação de risco e planejamento.
  • Capacidade funcional reflete a reserva global; no idoso depende da interação entre sarcopenia, fragilidade e doenças crônicas. < 4 METs = maior risco. Na incerteza, usar o DASI: < 34 pontos correlaciona-se com eventos CV em 30 dias e mortalidade.
  • AHA/ACC 2024: DASI preferencial (Classe IIa), superior à estimativa subjetiva. ESC 2022: avaliação funcional como etapa essencial; exames só se mudarem conduta.
  • No idoso, interpretar à luz de limitações locomotoras, osteoarticulares e sensoriais; complementar com mobilidade, velocidade da marcha ou sentar-levantar.
ForteModerada

Recomenda-se realizar a avaliação e a documentação pré-operatórias da fragilidade com um instrumento validado (por exemplo, CFS, RAI ou critérios de Fried) em idosos submetidos a cirurgias de risco intermediário ou alto, orientar a comunicação do risco, a otimização e a tomada de decisão compartilhada.

ForteModerada

Recomenda-se estimar a capacidade funcional de forma estruturada no pré-operatório, preferencialmente utilizando o Duke Activity Status Index (DASI). Um valor < 4 equivalentes metabólicos ou escore DASI < 34 deve ser considerado indicativo de risco aumentado, devendo os resultados orientar a necessidade de exames complementares e otimização clínica.

🧮 Duke Activity Status Index (DASI) e METs estimados
O paciente consegue…
DASI = 0.

Itens e pesos do DASI original (Hlatky et al., 1989); METs = (0,43 × DASI + 9,6) ÷ 3,5. Ponto de corte da diretriz: DASI < 34 ou < 4 METs = risco aumentado.

Exames complementares

📖 Texto de suporte — seção 2.10.5 (princípio da utilidade clínica)
  • Pedir apenas se o resultado puder mudar a conduta (adiar para otimizar, indicar ou evitar revascularização, ajustar anestesia/monitorização, intensificar vigilância), considerando capacidade funcional, risco da cirurgia, sintomas e probabilidade pré-teste.
  • ETT: sintomas novos ou piora da IC, dispneia inexplicada, sopro sugestivo de valvopatia moderada a grave, ou valvopatia conhecida sem ETT recente (≈ 12 meses) com mudança clínica. Não rotineiro em assintomáticos estáveis.
  • Testes de estresse: capacidade < 4 METs ou incerta + cirurgia de risco intermediário ou alto, se o resultado mudar a conduta. Evitar rastreamento indiscriminado.
  • ECC/ATCC: ATCC em probabilidade pré-teste intermediária quando o teste funcional for inconclusivo ou indisponível e o achado mudar a conduta; não para rastrear baixo risco.
  • BNP/NT-proBNP em idosos de risco elevado (DAC, IC, DRC, baixa capacidade) ou cirurgia de risco intermediário/alto; troponina basal e pós-operatória em alto risco para detectar injúria miocárdica (pior prognóstico).
  • Revascularização: só pelos critérios habituais (angina refratária, DAC de alto risco), nunca como estratégia rotineira de redução do risco perioperatório.
CondicionalModerada

Sugere-se a realização de exames complementares somente quando seus resultados puderem modificar a conduta. O ecocardiograma transtorácico pode ser considerado na presença de sintomas novos, piora clínica, suspeita de valvopatia ou ausência de avaliação recente; o teste de estresse pode ser considerado em pacientes com capacidade funcional < 4 equivalentes metabólicos ou incerta antes de cirurgias de risco intermediário ou alto; e a dosagem pré-operatória de BNP/NT-proBNP e o monitoramento perioperatório de troponina podem ser considerados em pacientes de alto risco para refinar a estratificação de risco e orientar a vigilância. Deve-se evitar a realização indiscriminada de exames de rastreamento.

BNP: peptídeo natriurético tipo B; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B.

Decisão multidisciplinar e delirium

📖 Texto de suporte — seções 2.10.6 e 2.10.7
  • Interação estruturada entre cardiologia, geriatria, cirurgia, anestesiologia, enfermagem e fisioterapia, com paciente e família. A SBC 2024 propõe o Perioperative Risk Team: coordena a comunicação, uniformiza condutas e discute também potencial de recuperação funcional, preferências, prognóstico global e objetivos de cuidado.
  • Em frágeis ou multimórbidos, impacto funcional e qualidade de vida podem pesar mais do que a mortalidade isolada. Reunião de caso interdisciplinar = boa prática.
  • Delirium pós-operatório: 15–50% dos idosos; alteração aguda da atenção e da consciência; associa-se a mortalidade, declínio funcional, institucionalização e pior qualidade de vida.
  • Fatores de risco: idade avançada, demência, benzodiazepínicos, alcoolismo, polifarmácia, déficits visuais ou auditivos, desnutrição, anemia e cirurgia de grande porte. Rastreio cognitivo breve (Mini-Cog ou MoCA) no pré-operatório.
  • Prevenção não farmacológica multimodal: reorientação frequente, ambiente calmo e iluminado, óculos e aparelhos auditivos, controle da dor, correção hidroeletrolítica, sono e mobilização precoce. Evitar benzodiazepínicos e anticolinérgicos; antipsicótico profilático não é rotina.
CondicionalModerada

Sugere-se que pacientes idosos, especialmente os frágeis ou com múltiplas comorbidades, sejam avaliados por uma equipe multidisciplinar perioperatória (cardiologia, geriatria, cirurgia, anestesiologia) e participem da decisão compartilhada sobre a conduta cirúrgica, considerando risco, prognóstico e valores individuais.

CondicionalModerada

Sugere-se que todos os idosos sejam avaliados quanto ao risco de delirium no pré-operatório e que se implementem medidas preventivas não farmacológicas (reorientação, controle do sono, estimulação sensorial, mobilização precoce, hidratação e manejo adequado da dor). O uso rotineiro de benzodiazepínicos e medicamentos anticolinérgicos deve ser evitado.

Otimização pré-operatória

Síntese – Otimização de condições clínicas e medicamentos (seção 2.10.8)
CondiçãoConduta
PrincípioAdiar cirurgia eletiva se houver descompensação potencialmente reversível; a urgência é o fator decisivo
IC e DACEuvolemia, controle de sintomas e GDMT (betabloqueador, IECA/BRA/ARNI, ARM, iSGLT2). Não iniciar betabloqueador imediatamente antes da cirurgia; manter se já em uso e tolerado. Revascularizar só pelas indicações habituais
Anemia e nutriçãoInvestigar e tratar anemia ferropriva e outras (ferro IV se pouco tempo); rastrear desnutrição (MNA reduzida); suplementação proteico-calórica e de vitamina D conforme deficiência
DPOC/asma e tabagismoOtimizar broncodilatação (LAMA, LABA ou corticoide inalatório conforme fenótipo), tratar exacerbações, cessar tabagismo idealmente ≥ 4 semanas antes; fisioterapia respiratória
Glicemia e DMControle seguro, sem hipoglicemia; metas moderadas na internação (≈ 140–180 mg/dL); ajustar insulina e hipoglicemiantes no dia do procedimento
Rim e eletrólitosCorrigir distúrbios, revisar nefrotóxicos, ajustar doses à TFG, hidratação criteriosa
Apneia obstrutiva do sonoTriagem (STOP-Bang) se suspeita; CPAP perioperatório quando indicado; vigilância pós-operatória
PolifarmáciaMedication review com critérios de Beers 2023 (benzodiazepínicos, anticolinérgicos, hipnóticos, AINEs, sulfonilureias de longa ação); desprescrever inapropriados, sobretudo em frágeis
Antitrombóticos e outrosSeguir SBC 2024 para antiagregantes e anticoagulantes; manter estatinas (considerar iniciar em cirurgia vascular); avaliar suspensão de IECA/BRA na manhã da cirurgia em procedimentos de maior risco hemodinâmico

AINEs: anti-inflamatórios não esteroides; ARM: antagonista do receptor mineralocorticoide; ARNI: inibidor do receptor de angiotensina-neprilisina; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador sódio-glicose-2; LABA: beta-agonista de longa ação; LAMA: antagonista muscarínico de longa ação; MNA: Miniavaliação Nutricional; TFG: taxa de filtração glomerular.

ForteModerada

Recomenda-se adiar cirurgias eletivas para corrigir/estabilizar descompensações (insuficiência cardíaca congestiva, doença pulmonar obstrutiva crônica/asma, descontrole glicêmico e distúrbios hidroeletrolíticos); tratar anemia e desnutrição; promover a cessação do tabagismo; realizar triagem e manejo da apneia obstrutiva do sono; e revisar a farmacoterapia, com atenção a medicamentos potencialmente inapropriados (Beers 2023). Recomenda-se também manter as terapias cardiovasculares indicadas (por exemplo, estatinas e betabloqueadores já em uso) e ajustar os antitrombóticos conforme o risco.

Risco-benefício e objetivos de cuidado

📖 Texto de suporte — seção 2.10.9
  • Integrar parâmetros CV, expectativa de vida, funcionalidade, qualidade de vida e preferências. Idade isolada não contraindica cirurgia; o benefício depende da probabilidade de recuperação funcional e do impacto em sintomas e bem-estar.
  • Complicações podem resultar em dependência funcional permanente em frágeis, com declínio cognitivo ou multimorbidade.
  • Instrumentos: CFS, DASI, Charlson Comorbidity Index, Clinical Prediction of Mortality — sempre à luz dos valores do paciente.
  • Se o risco superar o benefício ou o procedimento não se alinhar às metas (conforto, autonomia, controle de sintomas): estratégias não cirúrgicas ou abordagem conservadora/paliativa, com equipe multidisciplinar e, se necessário, cuidados paliativos.
ForteModerada

Recomenda-se realizar análise individualizada de risco-benefício antes da indicação cirúrgica em idosos, integrando risco cardiovascular, expectativa de vida, funcionalidade e preferências do paciente; promover decisão compartilhada; e considerar alternativas menos invasivas ou cuidados paliativos quando o procedimento não se alinhar às metas pessoais do paciente.

Síntese executiva 2.10.10 – Recomendações para avaliação de risco cirúrgico em pacientes idosos
Domínio avaliadoRecomendação resumidaForça da recomendaçãoCerteza da evidência
Avaliação geriátrica amplaAvaliação multidimensional (funcional, cognitiva, nutricional, social e medicamentosa) em idosos com risco intermediário/alto ou vulnerabilidade geriátrica; usar achados para otimização e prevenção de delirium.CondicionalModerada
Estratificação de risco cardiovascular (RCRI e similares)Aplicar o RCRI como escore principal, associado à avaliação funcional; considerar MICA/Gupta em casos complexos.ForteModerada
FragilidadeAvaliar e documentar fragilidade (Escala Clínica de Fragilidade, Risk Analysis Index, critérios de Fried); usar o resultado para comunicação de risco e decisão compartilhada.ForteModerada
Capacidade funcional (METs/DASI)Avaliar a capacidade funcional com instrumentos estruturados (DASI < 34 ou < 4 METs = alto risco); usar resultado para definir exames e condutas.ForteModerada
Exames complementaresSolicitar exames somente se alterarem conduta; considerar peptídeo natriurético tipo B/troponina em pacientes de alto risco.CondicionalModerada
Discussão multidisciplinar e decisão compartilhadaImplementar equipe perioperatória integrada (cardiologia, geriatria, cirurgia, anestesiologia); decisões compartilhadas com paciente/família.CondicionalBaixa
Delirium e complicações cognitivasTriagem de risco e medidas preventivas não farmacológicas (sono, reorientação, mobilização, hidratação); evitar benzodiazepínicos.CondicionalModerada
Otimização clínica e medicamentosaCorrigir descompensações, tratar anemia/desnutrição, cessar tabagismo, revisar polifarmácia (Beers 2023) e manter terapias essenciais.ForteModerada
Risco-benefício e objetivos de cuidadoIntegrar risco cardiovascular, funcionalidade e metas pessoais; considerar condutas menos invasivas ou cuidados paliativos quando apropriado.ForteModerada

DASI: Duke Activity Status Index; METs: equivalentes metabólicos; MICA: Myocardial Infarction or Cardiac Arrest; RCRI: Revised Cardiac Risk Index. Nota de fidelidade: no quadro do texto (seção 2.10.6) a recomendação de equipe multidisciplinar aparece com certeza moderada; na síntese executiva, baixa — ambas transcritas como no original.

Diabetes no idoso frágil

📖 Texto de suporte — seção 2.11
  • 24% dos indivíduos de 65 a 99 anos têm DM (158,3 milhões no mundo), mais ainda entre frágeis (relação bidirecional).
  • Critérios diagnósticos iguais aos do adulto jovem: jejum ≥ 126 mg/dL; ao acaso ≥ 200 mg/dL com sintomas; 2 h após 75 g ≥ 200 mg/dL; ou HbA1c ≥ 6,5%.
  • Ensaios não mostraram benefício do controle intensivo em idosos com DM2 (sobretudo doença longa e DCV): curva em U — hipo e hiperglicemia associam-se a desfechos negativos. Metas conforme comorbidades, função, autonomia, fragilidade e expectativa de vida (Tabela 2.6); AGA e rastreio de fragilidade orientam o tratamento.
  • Equipe multidisciplinar (psicossocial, educação, barreiras à adesão, alimentação, reabilitação, incapacidades). Não frágil e sem síndromes geriátricas: HbA1c < 7,5%.
  • GLP-1 RA e iSGLT2 reduzem risco CV e progressão renal (iSGLT2 também desfechos de IC). Metanálise (93.502 participantes): redução de DCV e MACE inclusive em ≥ 75 anos — mas seguimento > 2 anos (exceto PIONEER 6, 1,3 ano): pesar em frágeis com baixa expectativa de vida.
Síntese – Escolha do antidiabético no idoso frágil (abordagem semelhante ao posicionamento da SBD; seção 2.11)
PerfilPreferênciaObservações
Frágil com baixo peso e HbA1c < 10%iDPP-4 (primeira escolha)Não promove perda de peso; baixo risco de hipoglicemia
Frágil com IMC normal e HbA1c < 10%Metformina, iSGLT2 (além de iDPP-4)Podem levar à perda de peso — atenção ao risco nutricional
Mais gordura e sarcopenia, limitação funcional pelo excesso de pesoGLP-1 RA, individualizadoPesar tempo até o benefício e risco de anorexia e perda muscular; evidência escassa em frágeis
SulfonilureiasMenos recomendadasHipoglicemia, menor proteção CV e renal; ainda muito usadas pela realidade econômica
PioglitazonaPode ser usada com precauçõesEvitar em IC, osteoporose ou câncer de bexiga; neutra no peso, pouca hipoglicemia; reduz MACE (metanálise 2020), mas ↑ hospitalização por IC
HbA1c > 10%Insulina 0,1–0,2 U/kg, mono ou combinada, titulação lentaExceto urgência hiperglicêmica; hipoglicemia → quedas, convulsões, eventos CV, demência, fragilidade; ultralenta tem menos hipoglicemia que NPH
Muito comprometido, baixa expectativa de vida, paliativoInsulina basal em baixa doseFoco no controle de sintomas da hiperglicemia

GLP-1 RA: agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1; iDPP-4: inibidor da dipeptidil peptidase 4; IMC: índice de massa corporal; iSGLT2: inibidor do cotransportador sódio-glicose-2; NPH: insulina de ação intermediária; SBD: Sociedade Brasileira de Diabetes.

Tabela 2.6 – Metas glicêmicas para o diabetes na pessoa idosa
Características e estado de saúdeRacionalMeta de HbA1CMetas de CGMGlicemia de jejum ou pré-prandialGlicemia antes de dormir
Saudável (poucas doenças crônicas coexistentes, estado cognitivo e funcional intacto)Maior expectativa de vida< 7,0–7,5%TIR 70–180 mg/dL de 70% e TBR < 4%80–130 mg/dL80–180 mg/dL
Complexo/intermediário (múltiplas doenças crônicas coexistentes ou duas ou mais deficiências nas AVDs ou comprometimento cognitivo leve a moderado)Expectativa de vida variável. Considerar: gravidade das comorbidades; limitações cognitivas e funcionais; fragilidade; relação risco-benefício dos medicamentos para diabetes; preferência individual.< 8,0%TIR 70–180 mg/dL de 50% e TBR < 1%90–150 mg/dL100–180 mg/dL
Saúde muito complexa/precária (doenças crônicas de longa duração; estágio terminal; comprometimento cognitivo moderado a grave; ou duas ou mais deficiências nas AVDs)A expectativa de vida restante limitada torna o benefício mínimo.Evitar metas baseadas na HbA1C; as decisões devem basear-se na prevenção da hipoglicemia e da hiperglicemia sintomática.100–180 mg/dL110–200 mg/dL

AVDs: atividades da vida diária; CGM: monitoramento contínuo da glicose; HbA1C: hemoglobina glicada; TBR: tempo abaixo da faixa; TIR: tempo dentro da faixa. Adaptado de: American Diabetes Association Professional Practice Committee for Diabetes.

🧮 Meta glicêmica e classe preferencial no idoso (Tabela 2.6 e seção 2.11)
Estado de saúde
Fragilidade e peso
Escolha o estado de saúde.

Ferramenta didática que combina a Tabela 2.6 com a sequência de escolha descrita no texto; não substitui o julgamento clínico (IC, DRC e DCV podem priorizar iSGLT2/GLP-1 RA).

🎓 Interpretação didática

Idosa de 84 anos, CFS 6, para colecistectomia: RCRI 0 não a torna “baixo risco”. DASI baixo, fragilidade documentada, Mini-Cog alterado, anemia e benzodiazepínico noturno — tudo isso muda o plano: ferro IV, retirada gradual do benzodiazepínico, medidas antidelirium e decisão compartilhada sobre o que ela espera da cirurgia. E se for diabética e emagrecida, iDPP-4 em vez de sulfonilureia, com meta de HbA1c < 8%.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.10 e 2.11; quadros de recomendação, síntese executiva 2.10.10 e Tabela 2.6.

7Aterosclerose subclínica e prevenção primária da dislipidemia

Diretriz · seções 3.1 e 3.2

Estratifique pelo fluxograma das Diretrizes Brasileiras 2025 (PREVENT): aterosclerose subclínica já coloca o idoso em alto risco. Até 75 anos, trate como o não idoso; depois dos 75, individualize — o ECC zero permite não iniciar estatina, e fragilidade, comorbidades e expectativa de vida pesam tanto quanto o LDL-c.

Particularidades do idoso

📖 Texto de suporte — seções 3.1 a 3.1.3
  • Em idosos, tratar dislipidemia vai além de metas rígidas de LDL-c: considerar funcionalidade, fragilidade, comorbidades e preferências; abordagem centrada no paciente e decisão compartilhada, sobretudo > 75 anos (SBC, ESC e AHA/ACC).
  • Dislipidemia aumenta com a idade, com frequência associada a aterosclerose subclínica, DM e síndrome metabólica. A polifarmácia causa dislipidemia secundária (tiazídicos, betabloqueadores, corticoides) e interações com hipolipemiantes.
  • Frágeis têm mais eventos adversos medicamentosos → AGA antes de iniciar ou intensificar a terapia hipolipemiante.
  • Exemplo da diretriz: um idoso de 80 anos ativo e sem comorbidades pode se beneficiar de metas agressivas; outro da mesma idade com fragilidade avançada, não.
  • Estratificar pelo PREVENT (Figura 3.2) e definir metas pela categoria (Figura 3.3). A presença de aterosclerose subclínica já classifica o idoso como alto risco, com metas bem mais rigorosas.
  • Prevenção secundária: benefício claro e consistente mesmo em idosos. Primária: ponderar riscos e benefícios; a aterosclerose subclínica dá base sólida para decidir.
Evolução da aterosclerose da artéria normal à estria gordurosa, lesão intermediária, ateroma, fibroateroma e instabilização, ao longo do contínuo de risco cardiovascular; curso de vida com prevenção primordial, avaliação no jovem, atenção a fatores específicos das mulheres e prevenção e tratamento no idoso (escala de fragilidade, comorbidades, interações, uso limitado de escores, ECC em casos específicos).
Figura 3.1 – Evolução da doença aterosclerótica ao longo da vida. ECC: escore de cálcio coronariano. Fonte: Rached et al.Toque na imagem para ampliar.
🧭 O que a Figura 3.1 diz sobre o idoso
  • No idoso: o uso da escala de fragilidade e a avaliação de comorbidades e interações medicamentosas são fundamentais; o uso de escores de risco é limitado; o ECC pode ser usado em casos específicos.
  • No indivíduo com evento clínico prévio, a recorrência de evento pode indicar risco extremo — atenção à terapia combinada intensiva desde o início.
  • No adulto (> 30 anos): calcular risco pelo PREVENT, identificar agravantes e fatores específicos das mulheres; o ECC pode ser útil a partir de 40 anos.

Estratificação e metas

Fluxograma de estratificação do risco cardiovascular: evento CVAt pregresso leva a risco extremo (com critério) ou muito alto; DCVAt sintomática, revascularização, obstrução ≥ 50% ou ECC > 300 UA levam a muito alto; DM2 com ≥ 3 EAR ou 1 EMAR muito alto, DM2 ≥ 50 anos (H) ou ≥ 56 (M) ou com 1–2 EAR alto, DM2 mais jovem sem estratificador intermediário; aterosclerose subclínica, AAA, LDL-c ≥ 190 ou Lp(a) elevada leva a alto; risco calculado em 10 anos ≥ 20% alto, 5 a < 20% intermediário ou alto se fator agravante, < 5% baixo ou intermediário se LDL-c 160–189 ou fator agravante.
Figura 3.2 – Estratificação de risco (Diretrizes Brasileiras 2025). AAA: aneurisma de aorta abdominal; CV: cardiovascular; CVAt: cardiovascular aterosclerótico; DCVAt: doença cardiovascular aterosclerótica; DM2: diabetes melito tipo 2; EAR: estratificador adicional de risco; ECC: escore de cálcio coronariano; EMAR: estratificador de muito alto risco; H: homens; LDL-c: colesterol de lipoproteína de baixa densidade; Lp(a): lipoproteína(a); M: mulheres; N: não; S: sim; UA: unidades Agatston. Fonte: Rached et al.Toque na imagem para ampliar.
🧭 Fluxograma interativo — estratificação do risco cardiovascular e meta de LDL-c (Figuras 3.2 e 3.3)
Metas de tratamento por categoria de risco: baixo LDL-c < 115 mg/dL e redução ≥ 30%; intermediário < 100 e ≥ 30%; alto < 70 e ≥ 50%; muito alto < 50 e ≥ 50%; extremo < 40 e ≥ 50%, com os critérios de cada categoria, estratificadores no DM2 e fatores agravantes.
Figura 3.3 – Metas terapêuticas conforme o risco estimado. ABI: índice tornozelo-braquial; AIT: ataque isquêmico transitório; ATCC: angiotomografia computadorizada de coronárias; AVC: acidente vascular cerebral; CT: colesterol total; CV: cardiovascular; DAC: doença arterial coronariana; DM1: diabetes melito tipo 1; DM2: diabetes melito tipo 2; EAR: estratificador de alto risco; ECC: escore de cálcio coronariano; EMAR: estratificador de muito alto risco; eTFG: taxa de filtração glomerular estimada; IAM: infarto agudo do miocárdio; LDL-c: colesterol da lipoproteína de baixa densidade; Lp(a): lipoproteína(a); MASLD: doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica; SCA: síndrome coronariana aguda; UA: unidades Agatston. Fonte: Rached et al.Toque na imagem para ampliar.
Síntese – Critérios e metas de LDL-c por categoria de risco (transcrição da Figura 3.3)
CategoriaUm dos seguintes critériosMeta de LDL-c
Risco baixoRisco estimado em 10 anos < 5%, sem fator agravante de risco e com LDL-c < 160 mg/dL; ausência de DM2< 115 mg/dL e redução ≥ 30%
Risco intermediárioa) Risco em 10 anos < 5%, com fator agravante ou LDL-c 160–189 mg/dL; b) risco entre 5 e < 20%, sem fator agravante; c) DM2 < 50 anos (homem) ou < 56 anos (mulher), sem EAR ou EMAR< 100 mg/dL e redução ≥ 30%
Risco altoa) Risco em 10 anos ≥ 20%; b) risco entre 5 e < 20% com fator agravante; c) aterosclerose subclínica: placas < 50% em ecografia de carótidas, ECC > 100 a < 300 UA ou percentil > 75, placas < 50% em ATCC, aneurisma de aorta abdominal; d) LDL-c ≥ 190 mg/dL ou 160–189 mg/dL com agravante; e) Lp(a) > 180 mg/dL (> 390 nmol/L); f) DM2 ≥ 50 anos (homem) ou ≥ 56 anos (mulher); g) DM2 (qualquer idade) com 1 ou 2 EAR, sem EMAR< 70 mg/dL e redução ≥ 50%
Risco muito altoa) Carga significativa de doença aterosclerótica, independentemente do território (coronário, cerebrovascular ou periférico) ou eventos clínicos prévios; b) obstrução ≥ 50% em qualquer território; c) ECC > 300 UA; d) DM2 com ≥ 3 EAR ou EMAR< 50 mg/dL e redução ≥ 50%
Risco extremoa) ≥ 2 eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores; b) 1 evento maior com ≥ 2 condições de alto risco< 40 mg/dL e redução ≥ 50%

Fatores agravantes de risco: história familiar de DCV prematura; adiposidade, MASLD e síndrome metabólica; condições inflamatórias crônicas; transplante de órgãos; fatores específicos das mulheres; Lp(a) > 50 mg/dL ou > 125 nmol/L; PCR-us ≥ 2,0 mg/L. EAR no DM2: DM2 há > 10 anos; história familiar de DAC prematura; síndrome metabólica; hipertensão; tabagismo ativo; doença renal de risco alto; placa < 50% em carótida ou coronária; ECC 10–300 UA; AAA; neuropatia autonômica CV incipiente; retinopatia não proliferativa leve. EMAR no DM2: SCA; IAM antigo ou angina estável; AVC aterotrombótico ou AIT; insuficiência vascular periférica ou amputação; estenose arterial > 50%; revascularização arterial; DM1 > 20 anos diagnosticado após 18 anos; ≥ 3 EAR; EMAR renal; CT > 310 ou LDL-c > 190 mg/dL; neuropatia autonômica CV instalada; retinopatia moderada a severa, proliferativa ou em progressão. Condições de alto risco (risco extremo): idade ≥ 65 anos; hipercolesterolemia familiar; revascularização em momento diferente do evento; diabetes; hipertensão; DRC com eTFG < 60; tabagismo atual; LDL-c persistentemente ≥ 100 mg/dL apesar de estatina máxima tolerada e ezetimiba. Eventos ateroscleróticos maiores: IAM; SCA no último ano; AVC isquêmico; DAP sintomática (claudicação com ABI < 0,85, revascularização ou amputação).

Risco na prevenção primária do idoso

📖 Texto de suporte — seções 3.2.1 e 3.2.2
  • O risco absoluto sobe com a idade (maior peso no escore), mas a força da associação entre fatores de risco e eventos atenua-se. Escores antigos ignoravam o risco competitivo de morte não cardiovascular e podiam superestimar o risco e o benefício.
  • A maioria das equações foi feita para < 80 anos; o PREVENT vai até 79 anos (bom desempenho em mais idosos). O SCORE2-OP (≥ 70 anos) foi calibrado para quatro regiões; as de risco moderado se aproximam da mortalidade brasileira — nelas, o risco em 10 anos é invariavelmente ≥ 20% a partir de 80 anos.
  • Outros fatores do idoso: tabaco, álcool, poluição; DRC, hiperuricemia, distúrbios cognitivos; fragilidade, depressão, incapacidade.
  • CHS: aterosclerose clínica em > 30%. CT > 240 mg/dL em 25% dos homens e 42% das mulheres idosos. Dislipidemias secundárias frequentes: hipotireoidismo, DM, intolerância à glicose, obesidade, síndrome nefrótica, tiazídicos e betabloqueadores não seletivos.
  • “Paradoxo do colesterol”: a associação colesterol–DAC enfraquece e pode se inverter com a idade — desnutrição, fragilidade e doenças crônicas (câncer) reduzem o colesterol e aumentam a mortalidade ao mesmo tempo.
  • Considerar estado geral e mental, condições socioeconômicas, apoio familiar, comorbidades e interações.

Tratamento

📖 Texto de suporte — seções 3.2.2.1 e 3.2.2.2
  • Não farmacológico: mesmos princípios dos não idosos, atentos ao aporte calórico, proteico e vitamínico; atividade física; evidência sólida de benefício mesmo quando iniciado tardiamente.
  • Estatinas são os fármacos de escolha. Prospective Studies Collaboration (61 estudos, ~900.000 pessoas de 40–89 anos): por ~39 mg/dL a menos de CT, ganho de 21/10⁵ pessoas-ano na 5ª década e 380/10⁵ na 9ª década (benefício absoluto maior no idoso).
  • PROSPER (70–82 anos, alto risco): pravastatina 40 mg ↓ mortalidade coronária 24% em 3,2 anos. HPS (muitos > 65): sinvastatina 40 mg ↓ eventos coronários e cerebrovasculares. JUPITER (≥ 70 anos, PCR ≥ 2): rosuvastatina 20 mg ↓ 39% do desfecho primário, sem ↓ mortalidade. HOPE-3 (média 71 anos): ~25% de redução. CTT: ↓ 16% de eventos vasculares > 75 anos.
  • STAREE em andamento (> 70 anos saudáveis). Estatinas não aumentam demência ou Alzheimer. A USPSTF considera a evidência insuficiente > 75 anos sem DCV — decisão individualizada; o SCORE2-OP estima anos livres de DCV ganhos por 1 mmol/L de LDL-c.
  • Revisões sistemáticas (> 80 anos, 29 estudos): associação hipercolesterolemia–eventos é fraca; utilidade das estatinas em prevenção primária de octogenários incerta; usar com cautela conforme fragilidade, comorbidades, risco, expectativa de vida e preferência.
  • Tratar idosos de alto ou muito alto risco, com metas semelhantes às dos não idosos.
  • Ezetimiba — EWTOPIA 75 (> 75 anos, aberto): ↓ desfecho primário e revascularização, sem diferença em mortalidade e AVC (cautela: exclusões e desenho aberto).
  • Ácido bempedoico — CLEAR Outcomes, 2.107 pacientes ≥ 75 anos (média 78,3; 30% prevenção primária): bem tolerado, eficácia e segurança semelhantes às dos mais jovens.
  • Evolocumabe em aterosclerose ou DM sem IAM/AVC prévio, LDL-c ≥ 90 em estatina: benefício igual > 65 anos; ↓ 25% MACE de 3 pontos e 19% de 4 pontos. Sem dados com inclisirana.
ForteAlta

As orientações para terapia não farmacológica devem obedecer aos mesmos princípios de indicação aplicados aos não idosos, observando-se as necessidades de aporte calórico, proteico e vitamínico, com recomendação da prática de atividade física. Reforçar a importância de abandonar o tabagismo e a ingestão de bebidas alcoólicas.

Quadro de recomendações – Manejo de dislipidemias em idosos sem DASCV e com LDL-c entre 70 e 189 mg/dL

Princípios e estratificação

ForteAlta

O tratamento de dislipidemia em idosos com até 75 anos de idade deve seguir as mesmas orientações dos não idosos.

ForteModerada

Após os 75 anos, recomenda-se individualizar as doses de hipolipemiante, considerando a fragilidade, a presença de comorbidades, a expectativa de vida e o uso de polifarmácia.

ForteModerada

Em adultos > 75 anos sem DASCV estabelecida, o LDL-c está associado à incidência de DASCV e deve ser medido como parte da estratificação do risco CV.

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos com LDL-c entre 70 e 189 mg/dL, iniciar estatinas para a prevenção primária de eventos CV ateroscleróticos é razoável naqueles sem doenças limitantes.

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos, a utilidade das equações de risco para avaliar o risco de DASCV em 5 a 10 anos parece incerta.

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos, podem-se considerar modelos ajustados para riscos competitivos a fim de estimar o risco de DASCV e o potencial benefício das estatinas na prevenção primária para cada paciente.

Escore de cálcio na decisão

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos com LDL-c entre 70 e 189 mg/dL, nos quais haja incerteza sobre o início do uso de estatinas, é razoável medir o ECC e não indicar estatina se ECC = 0.

CondicionalBaixa

Em adultos de 76 a 80 anos com LDL-c entre 70 e 189 mg/dL e ECC > 100 ou > percentil 75, em comparação com indivíduos pareados por idade, sexo e raça, é razoável adotar uma decisão compartilhada quanto ao início do uso de estatinas.

Segurança das estatinas

CondicionalBaixa

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, pode ser razoável usar estatinas para reduzir o risco de DASCV, apesar do risco potencial de sintomas musculares associados ao seu uso.

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, pode ser razoável usar estatinas para reduzir o risco de DASCV, apesar do risco potencial de novos casos de diabetes melito tipo 2.

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, pode ser razoável usar estatinas para reduzir o risco de DASCV, apesar do risco potencial de comprometimento cognitivo associado ao seu uso.

Expectativa de vida, fragilidade e decisão compartilhada

ForteModerada

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, recomenda-se o uso de índices validados de mortalidade que incluam condições comórbidas e estado funcional para auxiliar os clínicos a incorporar a expectativa de vida remanescente do paciente à decisão sobre o uso de estatinas na prevenção de DASCV.

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, pode ser útil integrar o rastreamento de fragilidade, demência e comprometimento funcional às decisões sobre o início do uso de estatinas na prevenção de DASCV.

ForteAlta

Em adultos > 75 anos, sem DASCV e tratados com estatinas, recomenda-se o monitoramento do LDL-c a cada 3 a 12 meses, conforme indicação clínica.

ForteBaixa

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, a decisão compartilhada deve ser utilizada na tomada de decisões centradas no paciente sobre o uso de terapia com estatinas.

Desprescrição

CondicionalBaixa

Em adultos selecionados > 75 anos, sem DASCV, nos quais se considera a desprescrição, é razoável que a decisão seja compartilhada entre o clínico, o paciente e/ou o cuidador.

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, a descontinuação da estatina pode aumentar o risco de eventos CV em comparação com a continuação do tratamento.

CondicionalModerada

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, com condições que limitem a expectativa de vida e sobrevida estimada < 1 ano, pode ser razoável descontinuar a estatina para melhorar a qualidade de vida.

Não estatinas

ForteModerada

Em adultos > 75 anos, sem DASCV, mas com LDL-c acima dos limiares recomendados pelas diretrizes e fatores de risco adicionais, pode-se considerar o uso de ezetimiba para reduzir o risco de DASCV.

CondicionalBaixa

Em adultos > 75 anos, sem DASCV e com intolerância às estatinas, pode-se considerar o uso de ácido bempedoico para reduzir o LDL-c e o risco de DASCV.

CondicionalBaixa

Em adultos > 75 anos, sem DASCV e com intolerância às estatinas, pode-se considerar o uso de terapias direcionadas à PCSK9 para reduzir o LDL-c e o risco de DASCV.

CV: cardiovascular; DASCV: doença aterosclerótica cardiovascular; ECC: escore de cálcio coronariano; LDL-c: colesterol de lipoproteína de baixa densidade; PCSK9: proprotein convertase subtilisin/kexin type 9. Os subtítulos em negrito foram acrescentados para facilitar a leitura; a ordem é a do original. É importante avaliar a polifarmácia e os critérios de Beers, incluindo critérios de desprescrição.

🎓 Interpretação didática

Três idosos de 78 anos com LDL-c 150 mg/dL e sem DASCV: o primeiro tem ECC = 0 — não iniciar estatina é razoável; o segundo tem ECC 250 UA (percentil > 75) — decisão compartilhada, com tendência a tratar; o terceiro está acamado, com demência avançada e expectativa de vida < 1 ano — se já usa, desprescrever pode melhorar a qualidade de vida. A idade é a mesma; a conduta, não.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 3.1 e 3.2; Figuras 3.1 a 3.3; quadros de recomendação.

8Escore de cálcio, angiotomografia e índice tornozelo-braquial

Diretriz · seções 3.3, 3.4 e 3.5

Escores clínicos superestimam o risco do idoso porque pesam demais a idade. O ECC mede a carga aterosclerótica real: ECC = 0 (eventos < 1%/ano) permite evitar estatina; ECC ≥ 100 ou percentil ≥ 75 sugere tratar. A ATCC não é exame de rotina no idoso. E no ITB, o erro clássico é chamar de normal um valor > 1,40.

Por que o escore de cálcio no idoso

📖 Texto de suporte — seções 3.3 a 3.3.2
  • Escores baseados só em variáveis clínicas pesam fortemente a idade cronológica e tendem a superestimar o risco, levando a excesso de terapias preventivas e dificuldade de individualizar.
  • O ECC (TC sem contraste) quantifica de modo objetivo e reprodutível a calcificação coronariana — medida anatômica que integra a exposição cumulativa aos fatores de risco.
  • Debate em ≥ 65 anos: prevalência de ECC > 0 acima de 70% após os 70 anos reduz a discriminação; porém a calcificação é marcador de carga aterosclerótica cumulativa, acelerada por DM e HAS, e não só envelhecimento fisiológico.
  • MESA: ECC elevado → mais eventos; ECC = 0 → prognóstico favorável. Blaha et al. (≥ 65 anos): ECC discrimina eventos coronarianos melhor do que a idade isolada. ECC > 300 ou > 400 UA = risco semelhante ao da prevenção secundária.
Síntese – O ECC em subgrupos de idosos (seções 3.3.3 a 3.3.7)
SituaçãoO que a diretriz diz
ECC = 0Metanálises: ≥ 65 anos com ECC = 0 têm incidência anual de eventos < 1%; permite evitar terapias agressivas em risco clínico intermediário, reduzindo polifarmácia e eventos adversos; permite postergar ou evitar estatina em prevenção primária
ECC ≥ 100 ou percentil ≥ 75Risco significativamente elevado; forte indicativo para iniciar ou intensificar estatina, independentemente do LDL-c basal
DiabetesGrande heterogeneidade: até 25% dos idosos diabéticos têm ECC = 0 (prognóstico melhor); ECC > 400 → aumento expressivo de mortalidade e eventos, justificando terapia intensiva
HipertensãoDuração e mau controle da HAS correlacionam-se com o ECC; ECC elevado → mais IAM, IC e morte CV; identifica hipertensos “controlados” com alta carga aterosclerótica
Aspirina em prevenção primáriaControversa (sangramento GI e intracraniano). ECC ≥ 400 UA: possível benefício líquido se o risco hemorrágico for avaliado; ECC baixo ou zero: sangramento supera benefício — não recomendada
Frágil ou expectativa de vida limitadaMesmo ECC alto pode não justificar terapia agressiva (benefício tardio); ECC é complementar, integrado à AGA

Classificação técnica de Agatston citada no texto: 0 = nenhum; 1–99 = leve; 100–299 = moderado; 300 ≥ 400 = severo (redação do original). AHA/ACC: ECC pode ser considerado de 76 a 80 anos sem DM e com LDL-c 70–189 mg/dL; ESC/EAS e Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025: complementar em risco intermediário, sem limite etário rígido. Estratégia guiada por ECC parece custo-efetiva, reduzindo subtratamento e uso desnecessário de estatinas.

📖 Texto de suporte — limitações do ECC no idoso (seção 3.3.8)
  • Alta prevalência de positivos a partir de 75 anos: ECC > 0 não é automaticamente alto risco — olhar valor absoluto, percentil para idade e sexo e contexto.
  • Não detecta placas não calcificadas (potencialmente vulneráveis, relevantes no DM): ECC baixo não exclui aterosclerose nem substitui exames anatômicos ou funcionais se houver suspeita de DAC.
  • Pouca utilidade com DAC conhecida ou eventos prévios — já são alto risco; não recomendado de rotina.
  • Escassez de ECRs em ≥ 75 anos; o PREVENTABLE está em andamento.
🧮 Interpretação do escore de cálcio no idoso sem DCV estabelecida (seção 3.3)
Contexto
Informe o ECC.

Angiotomografia de coronárias no idoso

📖 Texto de suporte — seção 3.4
  • A ATCC tem alta sensibilidade para DAC em dor torácica estável com probabilidade pré-teste baixa a intermediária; o ECC é marcador robusto de carga aterosclerótica.
  • Mas a ATCC não deve ser usada rotineiramente em todos os idosos > 65 anos, mesmo associada ao ECC: exames não diagnósticos (calcificação extensa), radiação, contraste iodado e rendimento incremental limitado.
  • Uso combinado individualizado: probabilidade pré-teste, sintomas, capacidade funcional, comorbidades e, sobretudo, chance de mudar a conduta.
  • O tratamento clínico otimizado (PA, estatina, DM, tabagismo) já é indicado na maioria dos idosos; placas na ATCC em assintomáticos ou sintomas atípicos raramente mudam a estratégia.
  • Conclusão (evidências 2020–2026): o ECC é útil e seguro para estratificar idosos ≥ 65 anos, sobretudo com DM e HAS, evitando subtratamento e medicalização excessiva.

Índice tornozelo-braquial

📖 Texto de suporte — seções 3.5 a 3.5.3
  • ITB ≤ 0,90 = DAP; ≥ 1,40 = artérias não compressíveis (calcificação da média — idosos, DM, DRC) → complementar com índice dedo-braquial (TBI) e/ou análise de ondas. Normal ≈ 1,0–1,3 (PAS no tornozelo igual ou pouco maior que no braço).
  • Acurácia: sensibilidade ~75% e especificidade 86% para estenose ≥ 50% (outras séries: 68–84% e 84–99%). Sensibilidade menor em idosos, DM e DRC; no DM, o TBI pode ser mais sensível. ITB 0,90–1,30 não exclui DAP com suspeita alta.
  • Prognóstico: ITB baixo → eventos CV, DAC, AVC, IC, eventos de membros e mortalidade; ITB > 1,30–1,40 também associa-se a maior mortalidade.
  • Diagnóstico: sintomas ou sinais de DAP (dor/fadiga aos esforços, limitação de marcha, pulsos reduzidos, sopros, assimetria de PA, úlceras de difícil cicatrização, dor em repouso). Ausência de claudicação típica não exclui.
  • Rastreio oportunístico: ≥ 65 anos com maior risco (tabagismo, DM, DRC, HAS, dislipidemia, aterosclerose em outro território, lesões nos pés, limitação de marcha sem causa). Sem fatores de risco: rastreio sistemático não recomendado.
📖 Texto de suporte — técnica, classificação e oscilometria (seções 3.5.4 a 3.5.7)
  • Doppler de onda contínua (8–10 MHz), esfigmomanômetro calibrado, manguito cobrindo ~40% da circunferência, ~2 cm acima do maléolo; decúbito dorsal por 5–10 min (sentado eleva artificialmente; se usado, registrar).
  • ITB = maior PAS do tornozelo (tibial posterior ou pediosa) ÷ maior PAS braquial. Padronizar a sequência e repetir valores discrepantes; tremor e agitação podem exigir repetição.
  • Classificação: ≤ 0,90 anormal (DAP); 0,91–0,99 limítrofe; 1,00–1,40 normal; > 1,40 não compressível.
  • ITB normal ou limítrofe com sintomas persistentes → teste de exercício e/ou duplex; cuidado com falsos-positivos (queda > 20% pós-exercício gerou muitos falsos-positivos em saudáveis).
  • Oscilometria: especificidade ~96%, sensibilidade ~69% — útil para triagem, confirmando com Doppler casos limítrofes, sintomáticos ou de alto risco. Na FA, a oscilometria não substitui o Doppler.
  • No idoso: fragilidade, sarcopenia, artrose e pouca mobilidade mascaram claudicação; déficit cognitivo, depressão, neuropatia e sedentarismo reduzem a confiabilidade da história — valorizar pulsos, lesões tróficas e dor. ≥ 75 anos com DAP: avaliar fragilidade, sarcopenia, nutrição e mobilidade.
  • DAP identificada → revisar risco global (hipolipemiante, antitrombótico se indicado, fatores de risco, cuidado com os pés), individualizando em polimedicados. Pós-revascularização: aumento ≥ 0,15 = melhora hemodinâmica.
  • Lacunas: pouca evidência em frágeis, muito idosos, institucionalizados e com demência; sem intervalo único de repetição em assintomáticos.
Estratégia para DAP no idoso: se suspeita clínica ou alto risco, medir ITB. ≤ 0,90 diagnóstico de DAP com encaminhamento vascular urgente se sintomas ou ITB ≤ 0,50; 0,91–0,99 limítrofe, repetir em 6–12 meses; 1,00–1,40 normal, prevenção e reavaliação em 12–24 meses; > 1,40 artéria não compressível, medir TBI/IHB e investigação adicional.
Figura 3.4 – Estratégia sugerida para avaliação inicial e complementação diagnóstica da DAP em idosos. DAP: doença arterial periférica; DM: diabetes melito; DRC: doença renal crônica; HAS: hipertensão arterial sistêmica; IHB: índice hálux-braquial; ITB: índice tornozelo-braquial; TBI: índice dedo-braquial. Fontes: ACC/AHA 2016 PAD Guideline; Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV).Toque na imagem para ampliar.
🧮 Calculadora do índice tornozelo-braquial (seções 3.5.4 e 3.5.5; Figura 3.4)
Informe as pressões (Doppler, decúbito dorsal).

Numerador: maior PAS do tornozelo de cada lado; denominador: maior PAS braquial. Na FA, preferir Doppler à oscilometria.

Quadro de recomendações – Investigação diagnóstica de DAP em idosos
ForteModerada

Em idosos com sintomas, sinais clínicos ou exame físico sugestivos de DAP, incluindo claudicação intermitente, dor em repouso, lesões tróficas em membros inferiores ou pulsos alterados, recomenda-se a mensuração do ITB de repouso por Doppler como primeiro teste diagnóstico não invasivo.

CondicionalModerada

Em idosos assintomáticos com alto risco cardiovascular ou aterosclerose estabelecida em outros territórios, sugere-se a mensuração oportunística do ITB para detecção de DAP associada e melhor estratificação prognóstica, especialmente na presença de idade ≥ 65 anos, DM, tabagismo atual ou prévio, dislipidemia, hipertensão arterial, doença renal crônica ou doença aterosclerótica em outro território vascular.

ForteModerada

Quando o ITB for > 1,40, ou quando houver forte suspeita de resultado falsamente normal por calcificação arterial ou artérias não compressíveis, recomenda-se complementar a avaliação com índice dedo-braquial, pressão digital, análise de ondas e/ou Doppler vascular.

ForteModerada

Em idosos com sintomas sugestivos de DAP e ITB entre 0,91 e 1,40, recomenda-se prosseguir a investigação com ITB pós-exercício e/ou duplex arterial, em vez de encerrar a avaliação diagnóstica.

CondicionalBaixa

Nos casos de ITB limítrofe entre 0,91 e 0,99, sugere-se considerar ITB pós-exercício para confirmação diagnóstica, conforme contexto clínico.

CondicionalBaixa

Em idosos com DM, doença renal crônica, fragilidade, limitação de mobilidade ou comprometimento cognitivo, sugere-se limiar mais baixo para mensuração do ITB e, quando necessário, associação com índice dedo-braquial, pressão digital ou análise de ondas, reconhecendo que valores normais de ITB podem não excluir DAP com segurança nesses grupos.

CondicionalBaixa

No seguimento de idosos com DAP, sugere-se avaliação clínica longitudinal, incluindo sintomas, estado funcional, pulsos periféricos e inspeção dos pés. Após revascularização, sugere-se vigilância estruturada com ITB e duplex arterial conforme o tipo de procedimento e o contexto clínico.

DAP: doença arterial periférica; DM: diabetes melito; ITB: índice tornozelo-braquial.

🎓 Interpretação didática

Diabético de 79 anos com ferida no pé que não cicatriza e ITB 1,55: isso não é “ótimo”, é artéria que não se comprime. O próximo passo é TBI/pressão digital ou Doppler com análise de ondas. E se o ITB vier 1,10 com claudicação típica, a investigação continua (pós-exercício ou duplex) — no idoso, ITB normal não encerra a conversa.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 3.3 a 3.5; Figura 3.4; quadro de recomendações.

9Coronariopatia crônica no idoso

Diretriz · capítulo 4

A angina típica é minoria: dispneia, fadiga e queda funcional são os equivalentes anginosos, e a isquemia silenciosa chega a 40%. O teste ergométrico falha em até 30–40% — prefira imagem. Tratamento clínico otimizado primeiro (ISCHEMIA ≥ 75 anos), estatina de alta intensidade sempre, stent farmacológico com DAPT de 1 mês (SENIOR), fragilidade avaliada antes de qualquer procedimento.

Diagnóstico: o que muda no idoso

📖 Texto de suporte — seções 4.1 e 4.2.1
  • Idosos deverão ser ~30% da população brasileira até 2050 (IBGE/Fiocruz). A DAC é a principal causa de mortalidade cardiovascular no Brasil.
  • DAC crônica (síndrome coronariana crônica): angina estável, isquemia silenciosa, disfunção ventricular isquêmica e SCA prévia estabilizada; prevalência epidêmica ≥ 70 anos.
  • A angina típica é menos frequente: alterações da nocicepção, menor sensibilidade autonômica e mudanças da fisiologia miocárdica levam a apresentações atípicas ou silenciosas.
  • Equivalentes anginosos: dispneia aos esforços, fadiga desproporcional, síncope, tontura e piora funcional sem causa — muitas vezes atribuídos a IC, DPOC ou anemia, atrasando o diagnóstico.
  • Isquemia silenciosa em até 40% dos idosos sem DAC prévia; episódios mais frequentes, mais longos e de pior prognóstico que nos jovens → investigação sistemática mesmo sem angina clássica.
Síntese – Métodos diagnósticos da DAC crônica no idoso (seções 4.2.2 a 4.2.4)
MétodoPapel no idosoLimitações
Teste ergométricoMantém valor prognóstico quando realizável (METs e comportamento hemodinâmico)Não atingem ≥ 85% da FC máxima (descondicionamento, artrose, DAP, doença neurológica) → inconclusivo em até 30–40%; HVE, BRE, digoxina e repolarização alterada; menor sensibilidade e especificidade
Ecocardiograma de estresse (dobutamina ou exercício)Imagem é a estratégia preferencial; avalia função segmentar e global, valvopatias e pressões de enchimento; boa acurácia mesmo com comorbidades—
Cintilografia de perfusão (dipiridamol ou adenosina)Útil em quem não se exercita; extensão e gravidade da isquemia; viabilidade—
ATCC e ECCATCC na probabilidade intermediária (alta sensibilidade); ECC estratifica risco incrementalCalcificação extensa limita a interpretação e superestima estenoses
RMCIsquemia, viabilidade e função sem radiaçãoDisponibilidade, tempo de exame, implantes incompatíveis
CineangiocoronariografiaPadrão-ouro anatômico: isquemia significativa, discordância clínica–exames ou revascularização em consideração; FFR/iFR evitam intervenções desnecessáriasMais risco: tortuosidade e calcificação, nefropatia por contraste, sangramento, menor reserva; complicações maiores 0,5–1,0% em ≥ 75 anos. Preferir via radial

ATCC: angiotomografia computadorizada de coronárias; BRE: bloqueio de ramo esquerdo; ECC: escore de cálcio coronariano; FFR: reserva de fluxo fracionada; iFR: onda de pressão instantânea sem ondas (instantaneous wave-free ratio); HVE: hipertrofia ventricular esquerda; RMC: ressonância magnética cardíaca.

📖 Texto de suporte — comorbidades, polifarmácia e fragilidade (seções 4.2.5 e 4.2.6)
  • Cenário habitual: HAS, DM, IC, FA, DRC, DPOC, anemia e doenças musculoesqueléticas. Polifarmácia em 50–80% dos idosos com DAC; pode mascarar ou mimetizar sintomas: bradicardia por betabloqueador/digoxina confundida com síncope de outra causa; hipotensão ortostática por diuréticos e anti-hipertensivos simulando equivalente isquêmico; AINEs descompensando IC ou rim.
  • Diagnóstico diferencial de dor torácica e dispneia: estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, TEP, espasmo esofágico, osteoartrose cervical/torácica, hérnia de hiato e ansiedade.
  • Fragilidade em ~30% dos idosos com síndrome coronariana crônica; preditor independente de morte, hospitalização, complicações pós-procedimento e pior qualidade de vida. Avaliar sistematicamente antes de qualquer decisão invasiva (Fried, CFS de 9 graus, índice de fragilidade cumulativo) e integrar a AGA (cognição, humor, AVD, suporte social, nutrição, quedas, polifarmácia).

Tratamento farmacológico

Síntese – Fármacos na DAC crônica do idoso: indicação e precauções (seção 4.3.1)
ClasseUsoAtenção no idoso
BetabloqueadoresAntianginoso de primeira linha; sobretudo com disfunção de VE ou IAM prévioBradicardia, hipotensão ortostática, disfunção sexual; iniciar baixo e titular devagar
Estatina de alta intensidadeTodos com DAC estabelecida, independentemente da idadeFunção hepática, miopatia, interações via CYP3A4; dose escalonada
Ezetimiba → ácido bempedoico → iPCSK9Ezetimiba se a estatina não atingir a meta; ácido bempedoico se persistir acima ou houver intolerância a doses plenas; iPCSK9 reservado a maior risco em prevenção secundáriaVer reduções esperadas na Tabela 4.2
AAS 75–100 mg/diaTodos com DAC estabelecida, salvo contraindicaçãoAssociar IBP (mais sangramento GI); DAPT só por período limitado após ICP
IECA/BRAFE ≤ 40%, DM ou HAS não controladaMonitorar função renal e potássio (hiperpotassemia, LRA)
Nitratos de longa açãoAngina não controlada com betabloqueador e/ou BCCHipotensão ortostática, síncope, cefaleia
BCC di-hidropiridínico (anlodipino, felodipino)Alternativa ou complemento ao betabloqueadorNão di-hidropiridínicos (verapamil, diltiazem): evitar com disfunção de VE ou BAV
RanolazinaAngina refratáriaSegurança aceitável; poucos dados em octogenários
IvabradinaRitmo sinusal com FC ≥ 70 bpm e intolerância a betabloqueador, sobretudo com disfunção de VE—

BAV: bloqueio atrioventricular; BCC: bloqueador dos canais de cálcio; DAPT: dupla antiagregação plaquetária; IBP: inibidor de bomba de prótons; iPCSK9: inibidor da PCSK9; LRA: lesão renal aguda. Pacientes com DAC crônica são de muito alto risco (LDL-c < 50 mg/dL, redução ≥ 50%) ou risco extremo (≥ 2 eventos maiores ou 1 evento com ≥ 2 condições de alto risco: LDL-c < 40 mg/dL, redução > 50%). O benefício absoluto da hipolipemia é maior no idoso (Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025).

Tabela 4.1 – Metas lipídicas por categoria de risco cardiovascular (Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2025)
Categoria de riscoMeta LDL-cRedução LDL-cMeta não HDLMeta apolipoproteína B
Baixo< 115 mg/dL> 30%< 145 mg/dL< 100 mg/dL
Intermediário< 100 mg/dL> 30%< 130 mg/dL< 90 mg/dL
Alto< 70 mg/dL> 50%< 100 mg/dL< 70 mg/dL
Muito alto< 50 mg/dL> 50%< 80 mg/dL< 55 mg/dL
Extremo< 40 mg/dL> 50%< 70 mg/dL< 45 mg/dL

HDL: lipoproteína de alta densidade; LDL-c: colesterol de lipoproteína de baixa densidade. Metas lipídicas em mg/dL. Risco extremo: dois ou mais eventos cardiovasculares maiores ou um evento com duas ou mais condições de alto risco.

Tabela 4.2 – Reduções esperadas do colesterol de lipoproteína de baixa densidade com terapias hipolipemiantes (Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2025)
Terapia hipolipemianteRedução do colesterol de lipoproteína de baixa densidade
EMI~30%
EAI~50%
EZE~20%
AB~23%
EZE + AB~38%
EAI + EZE~60%
EAI + AB~58%
EAI + AB + EZE~68%
PCSK9mAb~60%
PCSK9mAb + EZE~70%
EAI + PCSK9mAb~75%
EAI + EZE + PCSK9mAb~80%
EAI + EZE + AB + PCSK9mAb~86%

AB: ácido bempedoico; EMI: estatina de moderada intensidade; EAI: estatina de alta intensidade; EZE: ezetimiba; PCSK9mAb: anticorpo monoclonal anti-PCSK9. Fonte: modificado de Rached et al. e Blumenthal et al.

🧮 Qual combinação leva o LDL-c à meta? (Tabelas 4.1 e 4.2)
Restrições
Informe o LDL-c basal (sem hipolipemiante).

Estimativa pelas reduções médias da Tabela 4.2; a resposta individual varia. Meta = valor absoluto e redução percentual mínima.

Revascularização, reabilitação e polifarmácia

📖 Texto de suporte — seções 4.3.2 a 4.3.4
  • Decisão das mais complexas: anatomia, função de VE, comorbidades, fragilidade, preferências e expectativa de vida.
  • ISCHEMIA (≥ 75 anos): estratégia invasiva precoce não reduziu MACE versus tratamento clínico otimizado, e o ganho sintomático foi menor que nos jovens → TCO como estratégia primária na DAC estável com isquemia moderada.
  • SENIOR (≥ 75 anos): stent farmacológico + DAPT de 1 mês foi superior ao convencional, com menos eventos isquêmicos sem mais sangramento.
  • CRM: preferida na multiarterial grave (triarterial, tronco), DAC complexa, DM e disfunção de VE, se houver boa reserva e risco cirúrgico não elevado; mortalidade operatória de até 5–8% em octogenários selecionados. Fragilidade é determinante na seleção.
  • Reabilitação cardíaca: reduz morte CV e hospitalizações; no idoso o benefício é proporcionalmente igual ou maior, com ganho em quedas, cognição e fragilidade. Individualizar (intensidade moderada, resistência, equilíbrio), equipe multiprofissional; enfrentar barreiras (transporte, custo, locomoção, suporte social).
  • Cascata de prescrições: efeito adverso interpretado como nova doença e tratado com outro fármaco. Beers (AGS): evitar AINEs (IC, sangramento GI), antiarrítmicos IA e IC (pró-arritmia), benzodiazepínicos (quedas, cognição), tricíclicos (anticolinérgicos, hipotensão ortostática). STOPP/START, idealmente com farmacêutico clínico (custo-efetivo).

Metas terapêuticas diferenciadas

Síntese – Metas no idoso com DAC crônica (seção 4.3.5)
ParâmetroMetaBase
Pressão arterial< 130/80 mmHg para a maioria dos idosos hipertensos (Diretriz Brasileira de HA 2025); frágeis, muito idosos ou expectativa de vida comprometida: menor valor toleradoSPRINT (PAS < 120: menos eventos, mais hipotensão, síncope e LRA leve); SPRINT Senior (2.636 com ≥ 75 anos: −34% no desfecho composto); STEP (China, 110–130 vs. 130–150 mmHg: interrompido por superioridade da meta intensiva em 3,3 anos); metanálises sem aumento de efeitos adversos
LDL-c< 55 mg/dL (texto e recomendação) — a Tabela 4.1 traz < 50 mg/dL para muito alto riscoDiretrizes brasileiras e internacionais
GlicemiaHbA1c 7,5–8,5% (conservadora)Hipoglicemia precipita arritmias e isquemia no idoso
Frequência cardíaca55–60 bpm em repouso com FE preservadaDesde que sem bradicardia sintomática ou bloqueios

Nota de fidelidade: o quadro de recomendações a seguir indica metas pressóricas individualizadas com PAS 130–150 mmHg em frágeis ou ≥ 80 anos; o texto menciona < 130/80 mmHg para a maioria e o máximo tolerado nos frágeis. A meta de LDL-c também difere entre o texto/recomendação (< 55) e a Tabela 4.1 (< 50). Ambos foram mantidos como no original.

📖 Texto de suporte — multidisciplinaridade, paliativos e considerações gerais (seções 4.3.6 e 4.4)
  • Cuidado multidisciplinar (cardiologia, geriatria, enfermagem, farmácia clínica, nutrição, fisioterapia, psicologia, serviço social). Cogestão cardiologia–geriatria = estado da arte (menos hospitalização, melhor controle de comorbidades, mais satisfação).
  • Cuidados paliativos precoces na DAC avançada (disfunção grave, angina refratária, múltiplas internações) — não é abandono; planejamento antecipado (diretivas antecipadas, representante legal) para todos.
  • Expectativa de vida pela idade biológica (fragilidade, função, comorbidades): o octogenário robusto pode se beneficiar como um jovem; o frágil de 70 anos, de foco em conforto. Time to benefit: revascularizar DAC multiarterial assintomática traz benefício de sobrevida só após anos.
  • Decisão compartilhada com ferramentas de apoio (folhetos, vídeos, calculadoras para leigos), familiares e cuidadores.
  • Fragilidade pré-procedimento (ICP, CRM, TAVI): frágeis na ICP têm mortalidade intra-hospitalar ~3,5× e total ~2,1× maior. Permite estratificar, selecionar, fazer pré-habilitação e ajustar expectativas.
  • Desprescrição (ativa, gradual, monitorada, compartilhada): estatina com expectativa de vida muito limitada; AAS sem DAC estabelecida e com alto risco hemorrágico; anti-hipertensivos em excesso com hipotensão ortostática; anticolinérgicos que pioram a cognição.
  • Fim de vida: tratar dispneia (opioides criteriosos), angina refratária, ansiedade (benzodiazepínicos) e depressão; equipes paliativas, idealmente no domicílio.
Quadro de recomendações – Doença arterial coronariana crônica no idoso

Avaliação e diagnóstico

ForteModerada

Recomenda-se a avaliação geriátrica abrangente, incluindo rastreio de fragilidade, função cognitiva, capacidade funcional e polifarmácia, em todos os idosos com DAC crônica antes da definição da estratégia terapêutica.

ForteModerada

Em idosos com DAC crônica e sintomas atípicos ou equivalentes anginosos, recomenda-se investigação sistemática de isquemia miocárdica, mesmo na ausência de angina típica.

ForteModerada

Recomenda-se a utilização de métodos de imagem cardiovascular (ecocardiograma de estresse ou cintilografia miocárdica de perfusão) como estratégia diagnóstica preferencial em idosos incapazes de atingir carga adequada no teste ergométrico.

Estratégia terapêutica e procedimentos

ForteAlta

Em idosos com DAC crônica estável e isquemia de moderada extensão sem sintomas limitantes, recomenda-se o tratamento clínico otimizado como estratégia terapêutica inicial, antes de considerar revascularização.

ForteAlta

Recomenda-se o uso de stents farmacológicos com dupla antiagregação plaquetária de curta duração (1 mês) em idosos com ≥ 75 anos submetidos a intervenção coronariana percutânea eletiva.

ForteModerada

Recomenda-se o uso preferencial da via radial em idosos submetidos ao cateterismo cardíaco diagnóstico ou terapêutico, visando reduzir complicações hemorrágicas no sítio de acesso.

ForteModerada

Recomenda-se a avaliação da fragilidade por instrumento validado (critérios de Fried ou Escala de Fragilidade Clínica) como critério adicional na seleção de idosos candidatos a revascularização miocárdica cirúrgica ou percutânea.

ForteModerada

Recomenda-se a decisão compartilhada entre o idoso, seus familiares ou cuidadores e a equipe de saúde na definição da estratégia de revascularização, considerando as preferências, os valores e a expectativa de vida do paciente.

Farmacoterapia

ForteModerada

Recomenda-se o uso de estatinas de alta intensidade em dose escalonada, em monoterapia ou em combinação com hipolipemiantes adicionais, em idosos com alto ou muito alto risco cardiovascular.

ForteAlta

Recomenda-se terapia com estatinas de alta intensidade em todos os idosos com DAC estabelecida, independentemente da idade, com meta de LDL-c < 55 mg/dL.

ForteAlta

Recomenda-se o uso de ácido acetilsalicílico em baixa dose (75–100 mg/dia) associado a inibidor de bomba de prótons em todos os idosos com DAC estabelecida sem contraindicações formais.

ForteAlta

Recomenda-se o uso de betabloqueadores como terapia antianginosa de primeira linha em idosos com DAC crônica, especialmente na presença de infarto prévio ou disfunção ventricular esquerda, com titulação gradual.

ForteModerada

Recomenda-se a revisão sistemática e periódica das prescrições em idosos com DAC crônica, com identificação e suspensão de medicamentos potencialmente inapropriados segundo os Critérios de Beers ou a ferramenta STOPP/START.

ForteModerada

Recomenda-se evitar o uso de anti-inflamatórios não esteroides em idosos com DAC crônica em virtude do risco de piora da função renal, elevação pressórica e descompensação de insuficiência cardíaca.

Metas, reabilitação e cuidados paliativos

ForteModerada

Recomenda-se a inclusão de idosos com DAC crônica em programas de reabilitação cardíaca supervisionada baseada em exercício, adaptada às suas limitações funcionais.

ForteModerada

Recomenda-se a adoção de metas pressóricas individualizadas em idosos com DAC crônica (PAS 130–150 mmHg em frágeis ou ≥ 80 anos), com monitoramento ativo de hipotensão ortostática.

ForteBaixa

Recomendam-se metas glicêmicas menos intensivas (HbA1c 7,5–8,5%) em idosos com DAC crônica e diabetes melito com alto risco de hipoglicemia.

ForteBaixa

Recomenda-se a integração precoce de cuidados paliativos em idosos com DAC crônica avançada, angina refratária ou disfunção ventricular grave, com foco no controle de sintomas e na qualidade de vida.

ForteMuito baixa

Recomenda-se a realização do planejamento antecipado de cuidados, incluindo discussão sobre diretivas antecipadas de vontade, com todos os idosos com DAC crônica avançada.

DAC: doença arterial coronariana; HbA1c: hemoglobina glicada; LDL-c: colesterol de lipoproteína de baixa densidade; PAS: pressão arterial sistólica. A recomendação sobre estatinas em dose escalonada aparece em quadro próprio na página 51; as demais formam o quadro das páginas 53–54. Para facilitar a leitura, as recomendações foram agrupadas por tema, com subtítulos acrescentados; o texto de cada uma é o original.

🎓 Interpretação didática

Octogenário com dispneia aos esforços e teste ergométrico ineficaz: o caminho é eco de estresse ou cintilografia, não “repetir a esteira”. Se a isquemia for moderada e os sintomas toleráveis, o ISCHEMIA ≥ 75 anos apoia começar pelo tratamento clínico otimizado (betabloqueador titulado, estatina de alta intensidade ± ezetimiba, AAS com IBP) e reabilitação. Se a angioplastia vier, via radial, stent farmacológico e DAPT de 1 mês.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 4; Tabelas 4.1 e 4.2; quadros de recomendação.

10Coronariopatia aguda no idoso

Diretriz · capítulo 5

Acima de 85 anos, só 40% dos infartados relatam dor torácica — dispneia, síncope, confusão, queda inexplicada e IC aguda podem ser a SCA. GRACE + fragilidade (EFS) estratificam; estratégia invasiva precoce se GRACE/TIMI alto; clopidogrel é o P2Y12 de escolha (POPular AGE); fibrinólise em meia dose a partir de 75 anos.

Manifestações clínicas

📖 Texto de suporte — seção 5.1
  • 30–40% dos hospitalizados por SCA têm > 75 anos; o IAMSSST é o subtipo mais prevalente. Angina instável é frequente e menos letal; o IAMCSST é menos comum e mais letal.
  • Infarto tipo 2 (desequilíbrio oferta/demanda sem ruptura de placa) é particularmente prevalente no idoso (IC, anemia, infecções), com pior prognóstico a longo prazo que o tipo 1.
  • Mais comorbidades (HAS, DM, SCA/IAM prévios, doença vascular periférica, AVC, IC, DAC multiarterial) e síndromes geriátricas (fragilidade, multimorbidade, polifarmácia, déficits cognitivos e funcionais), preditoras de mau prognóstico.
  • National Registry of Myocardial Infarction: dor torácica em apenas 40% dos > 85 anos (vs. 77% dos < 65). Dispneia como sintoma principal em até 49% dos ≥ 85 anos; síncope e confusão mental aguda em ~17%. Mulheres idosas: mais sintomas atípicos e déficit cognitivo.
  • Menos comuns: queda inexplicada; dor abdominal/epigástrica; palpitações isoladas, tontura, fraqueza intensa ou mal-estar; náuseas e vômitos (24%); sudorese isolada; IC aguda ou choque cardiogênico como apresentação inicial.
  • GRACE é o escore mais validado em idosos, inclusive > 80 anos; CFS, EFS e Fried agregam acurácia — a EFS discriminou melhor mortalidade e hospitalização prolongada e melhorou a discriminação somada aos escores clínicos. A idade pode superestimar o risco no GRACE.
  • Fármacos: AINEs aumentam eventos coronarianos; antitrombóticos podem precipitar SCA por anemia aguda; a FDA contraindica prasugrel ≥ 75 anos (exceto risco muito elevado); clopidogrel + BCC pode reduzir a eficácia antiagregante.
  • “Ausência de dor” ou “confusão mental” podem ocultar isquemia. Estratificar além da idade: fragilidade, comorbidades, funcionalidade e preferências.
Quadro de recomendações – Suspeita e estratificação da SCA no idoso
ForteAlta

Recomenda-se suspeitar de SCA em pacientes idosos mesmo na ausência de dor torácica típica, particularmente diante de dispneia súbita, síncope, confusão mental aguda, queda inexplicada, náuseas, vômitos ou piora funcional aguda.

ForteAlta

Recomenda-se que pacientes idosos com SCA sejam submetidos à avaliação de fragilidade, cognição, funcionalidade e estado nutricional como parte integrante da estratificação prognóstica e da tomada de decisão terapêutica.

ForteModerada

Recomenda-se utilizar o GRACE Score para a estratificação de risco inicial em idosos com SCA, preferencialmente associado a instrumentos de avaliação de fragilidade, como a Escala de Fragilidade de Edmonton, a Escala de Fragilidade Clínica e os critérios de Fried.

ForteModerada

Recomenda-se avaliar sistematicamente comorbidades cardiovasculares e não cardiovasculares em idosos com SCA, incluindo insuficiência cardíaca, diabetes melito, doença renal crônica, anemia, doença cerebrovascular, doença arterial periférica, déficits cognitivos e multimorbidade.

ForteAlta

Recomenda-se reconhecer insuficiência cardíaca aguda, edema agudo pulmonar ou choque cardiogênico como possíveis manifestações iniciais de SCA em idosos, mesmo sem sintomas anginosos clássicos.

SCA: síndrome coronariana aguda.

Exame físico

📖 Texto de suporte — seção 5.2
  • Três objetivos: estratificar risco e complicações; identificar comorbidades; suspeitar e excluir diferenciais.
  • Sinais vitais imediatos: PA nos dois braços, oximetria, cardioscopia + ECG de 12 derivações, FR, temperatura. Sinais de IC congestiva (turgência jugular, B3, estertores, edema agudo, edema de MMII) associam-se a maior morbimortalidade.
  • Sopros: sistólico regurgitativo mitral ou em borda esternal esquerda médio-baixa → IM por disfunção/ruptura de papilar vs. comunicação interventricular pós-IAM; sopro “em diamante” aórtico irradiado para fúrcula e carótidas → estenose aórtica, muito prevalente no idoso.
  • Hipotensão + perfusão ruim (enchimento capilar > 3 s, extremidades frias, livedo, oligúria, alteração aguda da consciência): choque; ultrassom point of care para diferenciar cardiogênico, hipovolêmico, distributivo e obstrutivo.
  • Identificar fragilidade, sarcopenia, DPOC, demência, sequelas neurológicas, déficits sensoriais, nefropatia e hepatopatia. Diferenciais prioritários: TEP, dissecção de aorta, tamponamento e sepse.
Quadro de recomendações – Exame físico na SCA do idoso
ForteAlta

Monitorização (pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação periférica de oxigênio, temperatura, eletrocardiograma).

ForteModerada

Pesquisa de sinais de insuficiência cardíaca (terceira bulha, turgência jugular, estertores).

ForteModerada

Ausculta de sopros para condições associadas ou complicações mecânicas.

ForteModerada

Avaliação de perfusão orgânica e choque (tempo de enchimento capilar, livedo e débito urinário).

ForteAlta

Uso de ultrassom point-of-care para diferenciação de dor torácica e, especialmente, do choque circulatório.

Diagnóstico na emergência

📖 Texto de suporte — seções 5.3 a 5.3.2
  • Mortalidade do IAM > 75 anos chega a 1/3, o dobro dos mais jovens.
  • ECG em até 10 min. No IAMSSST pode ser normal ou não diagnóstico em até 6%: repetir em curto intervalo se sintomático e em até 6 h se assintomático. GUSTO II: BRE, HVE e ritmo de marcapasso → pior prognóstico. Considerar equivalentes de oclusão (Winter, Wellens, Smith-Sgarbossa).
  • Troponina: alterada também em choque, sepse, TEP, AVC, takotsubo e valvopatias; a troponina de alta sensibilidade tem sensibilidade diminuída em idosos, sobretudo > 70 anos.
  • ECG e biomarcadores normais com suspeita clínica: teste ergométrico em baixo/intermediário risco estáveis após 9–12 h (acurácia limitada no idoso); eco (função, segmentar, dissecção, EAo crítica, takotsubo); cintilografia (VPN até 98%); ATCC (limitada por cálcio e arritmias); RM (miocardite, takotsubo, MINOCA); cinecoronariografia (padrão-ouro).
  • Idosos são sub-representados nos ensaios. After Eighty (> 80 anos): invasiva precoce −24% nos desfechos maiores. Metanálise > 70 anos com IAMSSST: −59% em revascularização subsequente e −25% em IAM, AVC e IC semelhantes. Via radial preferencial.
Quadro de recomendações – Exames na abordagem da SCA no idoso
ForteAlta

Eletrocardiograma na abordagem inicial da síndrome coronariana aguda.

ForteAlta

Biomarcadores, especialmente a troponina de alta sensibilidade.

ForteModerada

Teste ergométrico.

ForteAlta

Ecocardiograma de repouso.

ForteAlta

Cintilografia miocárdica de perfusão.

ForteAlta

Angiotomografia coronariana.

ForteAlta

Ressonância magnética nuclear.

ForteAlta

Angiografia coronariana invasiva.

Tratamento antitrombótico e adjuvante

Síntese – Antitrombóticos na SCA do idoso: doses e ajustes (seções 5.4.1 e 5.4.2)
FármacoDose / usoParticularidade no idoso
Antiplaquetários (DAPT é o pilar)
AASAtaque 300 mg (não entérico); manutenção 81–100 mg/dia—
ClopidogrelP2Y12 de escolha no idosoPOPular AGE (≥ 70 anos, IAMSSST): eficácia semelhante a ticagrelor/prasugrel com menos sangramento. Com trombólise > 75 anos: 75 mg sem dose de ataque maior, depois 75 mg/dia
TicagrelorAtaque 180 mg; 90 mg 2×/diaSituações selecionadas (IAMCSST, anatomia complexa)
Prasugrel10 mg/dia (dose plena)Advertência > 75 anos; Elderly ACS 2 sem superioridade sobre clopidogrel; se indicado, 5 mg em selecionados
Duração da DAPTTradicionalmente ≥ 12 mesesEsquemas curtos em alto risco de sangramento; metanálise 2024: 3 meses após ICP em idosos é seguro e reduz sangramento
Anticoagulação parenteral (fase hospitalar, qualquer estratégia)
Heparina não fracionadaBolus 60 UI/kg (máx. 4.000 UI) + 12 UI/kg/h (máx. 1.000 UI/h); TTPa 60–80 sÚtil na insuficiência renal importante
EnoxaparinaAjustar em idosos e na disfunção renal; clearance 15–30 mL/min: 1 mg/kg/diaCom fibrinólise ≥ 75 anos: sem bolus IV e 0,75 mg/kg SC 12/12 h
Fondaparinux2,5 mg SC 1×/diaContraindicado com clearance < 30 mL/min
FA concomitante e fibrinólise
FA + ICPDOAC + clopidogrel, sem AAS (mais seguro que terapia tripla)Tripla só nos primeiros dias (até ~5 dias ou alta); apixabana frequentemente preferida
FibrinóliseICP primária é preferencial; fibrinolítico se ICP não for possível em ~120 minAlteplase ou tenecteplase em dose plena < 75 anos e meia dose ≥ 75 anos (STREAM e STREAM-2: menos sangramento, eficácia semelhante à ICP se precoce, até 3 h)

DAPT: dupla antiagregação plaquetária; DOAC: anticoagulante oral direto; TTPa: tempo de tromboplastina parcial ativada.

🧮 Doses antitrombóticas na SCA do idoso (seções 5.4.1 e 5.4.2)
Estratégia de reperfusão
Informe idade, peso, clearance e estratégia.

Doses do texto da diretriz. As faixas de peso da tenecteplase seguem a bula (30–50 mg em dose plena); a diretriz indica meia dose a partir de 75 anos.

📖 Texto de suporte — outros tratamentos adjuntos (seção 5.4.3)
  • Betabloqueadores: doses baixas e titulação gradual. IECA/BRA: alto risco (FEVE ≤ 40%, DM, hipertensão ou IAM anterior). Antagonistas da aldosterona: FEVE ≤ 40% com sintomas de IC ou DM (reduzem mortalidade e MACE). Estatina de alta intensidade para todos.
  • Nitrato sublingual para a dor, IV se persistir. BCC não di-hidropiridínico na isquemia recorrente com contraindicação a betabloqueador, se não houver disfunção de VE, risco de choque ou BAV avançado sem marcapasso.
  • Oxigênio só se saturação < 90%. Morfina IV se dor persistente apesar do anti-isquêmico otimizado. Evitar AINEs na internação. IBP se sangramento digestivo prévio ou alto risco (idosos, anticoagulados).

Estratégia invasiva e cirurgia

📖 Texto de suporte — seções 5.4.4 e 5.4.5
  • Sarcopenia, fragilidade e síndromes geriátricas pioram os desfechos da ICP: individualizar com cognição, qualidade de vida, risco trombótico e hemorrágico e preferências — mas as síndromes geriátricas não entram formalmente nos escores de risco.
  • IAMCSST: mesmas recomendações do não idoso — abrir a artéria culpada no procedimento índice e revascularização completa em até 45 dias; no choque cardiogênico, ICP da culpada é a primeira opção.
  • IAMSSST: After Eighty (≥ 80 anos) favoreceu a invasiva (menos morte ou infarto); SENIOR-RITA (> 75 anos) sem diferença em morte CV ou IAM não fatal em 4,1 anos, mas metanálise mostra menos reinfarto; FIRE: revascularização completa reduziu desfechos (15,7% vs. 21%). A invasiva reduz isquemia recorrente e nova revascularização; dados compilados mostram redução de morte, reinfarto e AVC incapacitante — mas pode ser fútil ou danosa em alguns idosos.
  • CRM: morbimortalidade em queda no idoso; fragilidade aumentou complicações, mortalidade e custos (2.137.618 pacientes). EXCEL ≥ 75 anos: mortalidade 16,6% (ICP) vs. 8,4% (CRM); morte, IAM, AVC ou nova revascularização 34% vs. 26% (HR 0,75). SYNTAX ≤ 22 favorece ICP; ≥ 33 favorece CRM; AVC precoce mais comum na CRM; sem diferença de memória em 10 anos. GOBCABE (> 75 anos): com ou sem CEC, sem diferença em AVC, diálise ou mortalidade em 5 anos (31% vs. 30%).
Quadro de recomendações – Estratégia invasiva e cirurgia de revascularização na SCA do idoso
ForteModerada

Na presença de IAMSSST e escore GRACE ou TIMI elevado, recomenda-se realizar estratégia invasiva precoce.

ForteAlta

Em pacientes idosos com IAMCSST, dentro da janela terapêutica de reperfusão, recomenda-se intervenção coronariana percutânea primária.

ForteModerada

Em pacientes idosos com SCA que apresentem choque cardiogênico, angina refratária ou instabilidade elétrica, recomenda-se realizar estratégia invasiva imediata.

ForteBaixa

As síndromes geriátricas e as preferências dos pacientes e de seus familiares devem ser consideradas na tomada de decisão sobre o manejo de pacientes idosos com SCA.

ForteModerada

Em idosos com indicação de cirurgia de revascularização do miocárdio, recomenda-se a avaliação da complexidade anatômica e do risco cirúrgico esperado.

ForteAlta

Recomenda-se integrar a avaliação sistemática de fatores geriátricos aos escores de risco para cirurgia de revascularização do miocárdio.

GRACE: Global Registry of Acute Coronary Events; IAMCSST: infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST; IAMSSST: infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST; SCA: síndrome coronariana aguda; TIMI: Thrombolysis in Myocardial Infarction.

🎓 Interpretação didática

Senhora de 87 anos trazida por “confusão desde ontem”, sem dor, troponina em ascensão e infra de ST: é SCA até prova em contrário. GRACE alto + EFS para calibrar; se a avaliação geriátrica e a família apontarem para invasiva, via radial e clopidogrel. Se fosse IAMCSST sem hemodinâmica em 120 minutos: tenecteplase em meia dose, clopidogrel 75 mg sem ataque e enoxaparina 0,75 mg/kg sem bolus.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 5; quadros de recomendação.

11Insuficiência cardíaca no idoso

Diretriz · capítulo 6

No idoso, a IC chega como fadiga, confusão, quedas, anorexia e declínio funcional — e é predominantemente ICFEp. Peptídeos com corte ajustado (NT-proBNP 1.800 pg/mL ≥ 75 anos para IC aguda), eco com E/e’ e H2FPEF. O que muda no tratamento não é a indicação, mas o início, a monitorização e o ajuste: quatro pilares na ICFEr mesmo nos frágeis; iSGLT2 e finerenona na ICFEp.

Apresentação e desafios diagnósticos

📖 Texto de suporte — introdução, 6.1 e 6.1.1–6.1.2
  • No jovem: dispneia intensa, ortopneia, etiologia isquêmica, FE reduzida. No idoso: apresentação atípica e insidiosa — fadiga inexplicada, confusão mental, quedas recorrentes, declínio funcional sutil, caquexia — mascarada por DRC, FA e anemia. Predomina a ICFEp, agravada pelo inflammaging.
  • A fragilidade duplica hospitalizações, triplica delirium e limita a terapia quádrupla (hipotensão, piora renal); IL-6 e TNF-α alimentam sarcopenia e disfunção endotelial.
  • Prevalência > 10% a partir de 70 anos (2–3× após os 65). Pilares diagnósticos iguais aos do jovem (sintomas/sinais, anormalidade estrutural ou funcional e, idealmente, pressões de enchimento elevadas), com interpretação adaptada.
  • Simuladores/mascaradores: DPOC, obesidade, insuficiência venosa, FA, DRC, anemia, hipertensão pulmonar, cardiomiopatias infiltrativas.
  • (1) A dispneia pode faltar em quem tem pouca mobilidade; (2) os peptídeos sobem com a idade sem IC (FA, DRC, menor massa magra), reduzindo a especificidade — a “zona cinzenta” é mais frequente; integrar com clínica e eco.
  • Sintomas mais úteis: ortopneia e dispneia paroxística noturna; também dispneia aos esforços, fadiga, edema e bendopneia. Atípicos: declínio funcional, confusão/delirium (hipoperfusão), anorexia e perda de peso (congestão esplâncnica), quedas (hipotensão ortostática, fraqueza), tosse crônica isolada e noctúria.
  • Exame: B3 tem VPP reduzido; edema é multifatorial; estertores podem faltar com congestão significativa; turgência jugular e refluxo hepatojugular são os sinais mais específicos.
📖 Texto de suporte — peptídeos, eco, fenótipos e diferencial (seções 6.1.3 a 6.1.9)
  • BNP/NT-proBNP: alto valor preditivo negativo.
  • ETT: exame central. Na ICFEp, E/e’ ≥ 15 sugere pressões de enchimento elevadas; volume do AE indexado e velocidade do jato tricúspide; strain longitudinal global e atrial detectam disfunção subclínica e ajudam a desmascarar o padrão pseudonormal.
  • ICFEr: suspeita → biomarcadores → FEVE < 50% no eco → etiologia (~metade isquêmica: investigar DAC, salvo multimorbidade grave ou não candidatos à revascularização).
  • ICFEp: forma predominante, sobretudo mulheres > 75 anos com HAS e FA. H2FPEF (0–9): ≥ 6 provável; 2–5 intermediária (eco de estresse ou cateterismo direito em repouso/exercício); 0–1 improvável. HFA-PEFF (ESC) em três etapas para casos complexos.
  • Causas a lembrar: ATTR-CA (> 75 anos, subdiagnosticada), cardiomiopatia hipertensiva, valvopatias degenerativas, FA com atriopatia; RMC e cintilografia com pirofosfato de tecnécio-99m se suspeita infiltrativa.
  • Iniciais: ECG (normal tem alto VPN), radiografia (sensibilidade 81% na IC aguda; até 20% sem congestão), peptídeos e laboratório completo.
  • Diferenciais — dispneia: DPOC (coexiste em até 30%), TEP, anemia grave, hipertensão pulmonar primária, derrame pleural; edema: insuficiência venosa, síndrome nefrótica, linfedema, BCC, TVP; declínio funcional: hipotireoidismo, anemia, depressão, sarcopenia, fragilidade, neoplasia oculta. DPOC × IC: peptídeo elevado + alterações ao eco diferenciam; espirometria na dúvida.
  • Particularidades: fragilidade em até 45% dos hospitalizados; déficit cognitivo compromete anamnese e adesão; polifarmácia; multimorbidade. Abordagem multidisciplinar reduz readmissões; AGA (Fried ou CFS, cognição, função, nutrição) no diagnóstico e no plano.
Tabela 6.1 – Exames complementares recomendados e suas indicações e particularidades no paciente idoso
ExameIndicação principalParticularidade no idosoForça da recomendaçãoCerteza da evidência
Eletrocardiograma de 12 derivaçõesTriagem inicial; identificação de arritmias, sobrecarga, bloqueiosFA presente em 30–50%; BRE orienta indicação de TRC; alto VPN quando normalForteAlta
BNP ou NT-proBNPConfirmação/exclusão de IC; estratificação prognósticaValores ajustados por idade obrigatórios (75 anos: 1.800 pg/mL); AUC-ROC reduzida com o envelhecimentoForteAlta
Ecocardiograma transtorácicoConfirmação diagnóstica; classificação por FE; função diastólicaPadrão pseudonormal frequente; SLG e strain atrial auxiliam na identificação de ICFEp; E/e’ ≥ 15 sugere pressões de enchimento elevadasForteAlta
Hemograma completoAnemia como fator agravante e precipitantePresente em 30% dos idosos com IC; impacto funcional e prognóstico independenteForteAlta
Creatinina, ureia, TFGAvaliação de síndrome cardiorrenal; ajuste terapêuticoDeclínio agudo da TFGe comum após IECA/BRA – não suspender antes de avaliaçãoForteAlta
Eletrólitos (Na⁺, K⁺, Mg²⁺)Distúrbios associados a diuréticos e SRAA; risco arrítmicoHipocalemia e hipomagnesemia potencializam toxicidade de digoxina em idososForteAlta
Ferritina + saturação de transferrinaDeficiência de ferro – alvo terapêutico independente na ICDeficiência de ferro em até 50% dos idosos com IC; melhora capacidade funcional e qualidade de vidaForteAlta
Glicemia e HbA1cDiabetes melito tipo 2 como comorbidade prevalente e fator de riscoComórbida em 40% dos idosos com IC; manejo integrado com iSGLT2ForteAlta
Ressonância magnética cardíacaCasos selecionados: suspeita de amiloidose, miocardite e cardiomiopatia infiltrativaImportante para diagnóstico de amiloidose por TTR – prevalente em idosos acima de 75 anosCondicionalBaixa

AUC-ROC: área sob a curva receiver operating characteristic; BNP: peptídeo natriurético tipo B; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina; BRE: bloqueio de ramo esquerdo; FA: fibrilação atrial; FE: fração de ejeção; HbA1c: hemoglobina glicada; IC: insuficiência cardíaca; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2; NT-proBNP: N-terminal do peptídeo natriurético tipo B; SLG: strain longitudinal global; SRAA: sistema renina-angiotensina-aldosterona; TFGe: taxa de filtração glomerular estimada; TRC: terapia de ressincronização cardíaca; TTR: transtirretina; VPN: valor preditivo negativo. Fonte: elaborado pelos autores com base nas referências.

🧮 NT-proBNP ajustado por idade na suspeita de IC aguda
Informe idade e NT-proBNP.

A diretriz exige valores ajustados por idade e cita 1.800 pg/mL a partir de 75 anos. Os demais cortes (300 pg/mL para exclusão; 450 < 50 anos; 900 entre 50 e 75) são os do estudo ICON, usados como referência. Integrar sempre com a clínica e o eco: a “zona cinzenta” é frequente no idoso.

🧮 Escore H2FPEF (seção 6.1.6)
Marque os critérios presentes
H2FPEF = 0.

Variáveis e pesos do escore original (Reddy, 2018); interpretação conforme a diretriz: 0–1 improvável, 2–5 intermediária, ≥ 6 provável.

Quadro de recomendações – Diagnóstico de IC no paciente idoso
ForteAlta

Para pacientes idosos com suspeita de IC, recomenda-se a medição de BNP ou NT-proBNP, utilizando valores de corte ajustados para a idade, a fim de apoiar o diagnóstico ou a exclusão de IC (para exclusão de IC aguda: NT-proBNP; em pacientes com ≥ 75 anos: NT-proBNP 1.800 pg/mL). O efeito estimado da estratégia está presente segundo a literatura identificada nesta recomendação.

ForteAlta

Para pacientes idosos com suspeita de IC e peptídeos natriuréticos elevados, recomenda-se a realização de ecocardiograma transtorácico para confirmação diagnóstica, avaliação da fração de ejeção e classificação do fenótipo (ICFEr ou ICFEp). O efeito estimado da estratégia está presente.

ForteModerada

Para pacientes idosos com fração de ejeção preservada (≥ 50%) e suspeita clínica de ICFEp, recomenda-se a aplicação do escore H2FPEF ou do algoritmo HFA-PEFF como apoio diagnóstico. Nos casos intermediários (H2FPEF 2–5), recomenda-se ecocardiograma sob estresse ou avaliação hemodinâmica invasiva. O efeito estimado está provavelmente presente.

ForteAlta

Para pacientes idosos com IC suspeita ou confirmada, recomenda-se avaliação laboratorial inicial completa, incluindo hemograma, função renal, eletrólitos, TSH, estudos de ferro e HbA1c, visando identificar fatores precipitantes e comorbidades tratáveis e orientar o ajuste terapêutico. O efeito estimado está presente.

CondicionalBaixa

Para pacientes idosos com IC, sugere-se avaliação geriátrica abrangente, incluindo triagem de fragilidade, cognição, funcionalidade e polifarmácia, de forma integrada à avaliação cardiológica e com abordagem multidisciplinar. O efeito estimado pode estar presente segundo a literatura identificada.

ForteModerada

Para pacientes idosos com suspeita de IC com fração de ejeção reduzida (fração de ejeção < 50%), recomenda-se investigação etiológica dirigida, incluindo avaliação de doença arterial coronariana, valvopatias, amiloidose cardíaca por transtirretina e cardiomiopatias. O efeito estimado está provavelmente presente.

BNP: peptídeo natriurético tipo B; HbA1c: hemoglobina glicada; IC: insuficiência cardíaca; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; ICFEr: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida; NT-proBNP: fragmento N-terminal do peptídeo natriurético tipo B; TSH: hormônio estimulante da tireoide.

Princípios do tratamento no idoso

📖 Texto de suporte — seções 6.2 a 6.2.3
  • PA mais baixa, sarcopenia, fragilidade, IC mais grave ao diagnóstico, déficit cognitivo, polifarmácia, pouco suporte social: mais intolerância e eventos adversos. Ensaios incluíram sobretudo homens jovens com ICFEr; na prática, mulheres idosas com ICFEp.
  • Etiologias tratáveis no idoso: valvopatias degenerativas, cardiomiopatia hipertensiva, cardiotoxicidade medicamentosa e doenças infiltrativas (amiloidose).
  • Princípios: doses iniciais menores; titular a cada 1–2 semanas (sintomas, sinais vitais, rim, eletrólitos, possibilidade de seguimento); ainda assim buscar as doses-alvo; revisar polifarmácia e desprescrever; incorporar a AGA e os objetivos de cuidado.
  • Fármacos que precipitam descompensação e devem ser revistos: AINEs, tiazolidinedionas, verapamil/diltiazem, dronedarona e antiarrítmicos da classe I.
  • Precipitantes evitáveis (20–50% na ICFEr): infecções, arritmias, excesso de sódio/líquidos, piora renal, fármacos deletérios, não adesão (multifatorial no idoso). Déficit cognitivo em até 40%: rastreio cognitivo rotineiro.
  • O tratamento é definido pela FE, perfil clínico e tolerância — não pela idade. A GDMT melhora desfechos no idoso independentemente do grau de fragilidade.
Tabela 6.2 – Impacto da condição geriátrica no quadro clínico e prognóstico do paciente idoso
Condição geriátricaImpacto na insuficiência cardíacaImplicações clínicas
FragilidadeAssociada a maior mortalidade e hospitalizaçõesAvaliação geriátrica e abordagem multidisciplinar
SarcopeniaRedução da capacidade funcionalReabilitação e suporte nutricional
Déficit cognitivoRedução da adesão terapêuticaSimplificação do regime medicamentoso

ICFEr: os quatro pilares com adaptações geriátricas

📖 Texto de suporte — seções 6.2.4.1.1 a 6.2.4.1.5
  • Betabloqueadores, IECA/ARNI, ARM e iSGLT2 mantêm eficácia em idosos, sem heterogeneidade por idade; mas idosos recebem menos doses-alvo e interrompem mais, muitas vezes por motivos evitáveis.
  • ARNI: benefício de sobrevida sobre IECA/BRA sem atenuação com a idade, à custa de mais hipotensão sintomática. Medicare: benefício em 5 anos mesmo ajustando descontinuação (2,3%/mês com IECA/BRA vs. 1,9%/mês com ARNI); NNT 84 (66–74 anos) e 67 (≥ 85 anos). Menos piora renal e hipercalemia facilita introduzir o ARM. Iniciar com a menor dose; queda da TFGe de até 30% é aceitável.
  • Betabloqueador: titular pela FC alcançada, não pela dose (CIBIS-ELD); doses intermediárias são melhores que nenhuma; com incompetência cronotrópica, reduzir em vez de retirar; atenção a fadiga e quedas. SENIORS (nebivolol, ≥ 70 anos, qualquer FE): ↓ morte ou hospitalização CV, sem ↓ isolada de mortalidade.
  • ARM: hipercalemia e piora renal amplificadas (DRC, IECA/ARNI). Metanálise > 75 anos (RALES, EMPHASIS-HF, TOPCAT): −26% em morte CV ou hospitalização por IC. Espironolactona 12,5–25 mg/dia; K⁺ e TFGe em 1 e 4 semanas; eplerenona em homens (sem ginecomastia).
  • iSGLT2: perfil mais seguro — sem ajuste por idade, menos risco renal, sem hipercalemia. DAPA-HF ≥ 75 anos (24,2%): HR 0,68 (0,53–0,88), p interação 0,76. Cuidado: depleção de volume em baixo peso ou com diurético de alça.
Tabela 6.3 – Quatro pilares da terapia medicamentosa guiada por diretrizes para insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida no paciente idoso: doses, adaptações e grau de recomendação
ClasseFármaco/dose-alvoDose inicial no idosoPrincipal cuidado geriátricoForça da recomendaçãoCerteza da evidência
ARNI/IECASacubitril-valsartana: 200 mg 2x/dia
Enalapril: 20 mg 2x/dia
Ramipril: 10 mg/dia
Sacubitril-valsartana: iniciar com 50 mg 2x/dia
IECA: 1/2 da dose-alvo
Hipotensão sintomática e quedas. ARNI preferível a IECA: menor risco renal e hipercalemia; facilita titulação dos ARMs. Monitorar creatinina e K⁺ antes e após inícioForteAlta
BetabloqueadorCarvedilol: 25 mg 2x/dia
Succinato de metoprolol: 200 mg/dia
Nebivolol: 10 mg/dia
Carvedilol: 3,125 mg 2x/dia
Nebivolol: 1,25 mg/dia
Titulação guiada pela FC alcançada, não pela dose absoluta. Atenção à incompetência cronotrópica. Doses intermediárias podem ser suficientes. Cuidado com DPOC graveForteAlta
ARMEspironolactona: 25–50 mg/dia
Eplerenona: 25–50 mg/dia
Espironolactona ou eplerenona: 12,5–25 mg/diaRisco de hipercalemia e piora renal amplificada no idoso. Monitorar K⁺ e TFGe a cada 1–2 semanas nas primeiras 4 semanas. Suspender se K⁺ > 5,5 mEq/L ou TFGe < 30ForteAlta
iSGLT2Dapagliflozina: 10 mg/dia
Empagliflozina: 10 mg/dia
Mesma dose (não requer ajuste por idade)Menor risco renal e de hipercalemia. Atenção à depleção volumétrica em idosos com baixo peso ou uso de diuréticos. Infecções geniturinárias mais frequentesForteAlta

ARM: antagonista do receptor mineralocorticoide; ARNI: inibidor do receptor de angiotensina e neprilisina; DPOC: doença pulmonar obstrutiva crônica; FC: frequência cardíaca; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2; TFGe: taxa de filtração glomerular estimada. Fonte: elaborado pelos autores com base nas referências.

📖 Texto de suporte — diuréticos, ivabradina, hidralazina-nitrato, ferro, digoxina e dispositivos (seções 6.2.4.1.6 a 6.2.4.1.10)
  • Diuréticos de alça: euvolemia com a menor dose; reduzem hospitalização, sem prova de mortalidade; no idoso, hipovolemia, piora renal, distúrbios de potássio, hipotensão postural e incontinência urinária — monitorar, sobretudo com IECA/ARNI/iSGLT2.
  • Ivabradina: FE ≤ 35%, ritmo sinusal, FC ≥ 70 bpm apesar do tratamento ou intolerância a betabloqueador. SHIFT: benefício consistente, com tendência sem significância ≥ 75 anos. Efeitos: bradicardia, FA, náuseas, fosfenos.
  • Hidralazina + nitrato: V-HeFT I, V-HeFT II (inferior ao enalapril) e A-HeFT com idades médias de 57–61 anos; ≥ 75 anos pouco representados; uso limitado por hipotensão.
  • Ferro: deficiência em até 50% dos idosos com IC; FAIR-HF: carboximaltose férrica IV melhora classe funcional, TC6M e qualidade de vida, com ou sem anemia, sem diferença de eventos por idade.
  • Digoxina: papel restrito (controle de FC na FA sintomática ou sintomas refratários); máximo 0,125 mg/dia, nível 0,5–0,9 ng/mL; toxicidade agravada por baixa massa muscular, DRC, hipocalemia, hipomagnesemia, amiodarona e antibióticos (arritmias e BAV). DIG: ↓ hospitalização, sem efeito em mortalidade.
  • CDI (prevenção primária): FE ≤ 35% com GDMT, expectativa de vida > 1 ano e bom estado funcional. TRC: FE ≤ 35%, ritmo sinusal, QRS prolongado (sobretudo ≥ 150 ms) com BRE e sintomas. No idoso, individualizar — o benefício absoluto, sobretudo do CDI, é atenuado pelo risco competitivo de morte não arrítmica.
  • Transplante: tratamento de escolha nos elegíveis, mas > 70 anos há mais complicações e menor sobrevida (critérios rigorosos). Assistência ventricular (destino ou ponte para decisão): ≥ 70 anos podem ganhar sintomas e qualidade de vida, com mais sangramento, infecção e tromboembolismo.
  • Não farmacológico: educação, suporte nutricional, cessação do tabagismo, vacinação e reabilitação.

ICFEp no idoso

📖 Texto de suporte — seção 6.2.5
  • Principal desafio terapêutico da cardiogeriatria: manejo de comorbidades e precipitantes é central (Tabela 6.4).
  • EMPEROR-Preserved e DELIVER: iSGLT2 reduzem em 18–21% hospitalização por IC ou morte CV, com ou sem DM, em todo o espectro de FE > 40%.
  • Finerenona (ARM não esteroidal; FINEARTS-HF): segundo pilar na ICFEp e na IC com FE melhorada; menos hipercalemia grave e sem ginecomastia; eficácia consistente em todos os quartis de idade, inclusive ≥ 80 anos (n = 1.412), e mantida com iSGLT2 (sinergia).
  • Controle rigoroso da PA e diurético para euvolemia são insubstituíveis. Hipotensão ortostática em até 30%: investigar sistematicamente (quedas, síncope).
  • Exercício supervisionado e reabilitação aumentam VO₂ máximo, capacidade e qualidade de vida — após avaliar fragilidade, com aeróbico moderado e resistência.
Tabela 6.4 – Tratamento da insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada no paciente idoso: intervenções, evidências e adaptações geriátricas
IntervençãoEvidência principalParticularidade no idosoForça da recomendaçãoCerteza da evidência
iSGLT2 (dapagliflozina ou empagliflozina)EMPEROR-Preserved e DELIVER: redução de 18–21% no desfecho composto de hospitalização por IC ou morte CV vs. placebo; benefício independente da presença de DMNão requer ajuste de dose por idade. Atenção à depleção volumétrica em idosos com baixo peso. Benefício estendido a todo o espectro de FE > 40%ForteAlta
Diuréticos de alçaAlívio de congestão: redução de dispneia e edema. Ausência de ensaio prospectivo de mortalidade na ICFEpRisco de depleção volumétrica, hipotensão ortostática e quedas. Titular para euvolemia; evitar hipotensão. Monitorar função renal e eletrólitosForteModerada
ARM (espironolactona ou eplerenona)TOPCAT: redução de hospitalizações por IC (benefício mais consistente na subanálise das Américas). Efeito mais evidente com FE na faixa inferior da ICFEpAlto risco de hipercalemia no idoso. Monitorar K⁺ e TFGe 1–2 semanas após início. Contraindicados se TFGe < 30 ou K⁺ > 5,0CondicionalModerada
Finerenona (ARM não esteroidal) 20–40 mg/diaFINEARTS-HF (n = 6.001; seguimento 32 meses): redução de 16% no desfecho composto de morte CV e eventos totais de piora de IC (RR 0,84; IC95% 0,74–0,95; p = 0,007). Primeiro ARM com evidência definitiva em ICFEp/ICFEm. Benefício mantido em uso concomitante de iSGLT2Subanálise pré-especificada por idade: eficácia consistente em todos os quartis, incluindo ≥ 80 anos (n = 1.412), sem interação significativa. Menor risco de hipercalemia e ginecomastia vs. ARM esteroidais. Projeção: ganho de 2,0 anos livres de eventos para paciente com 65 anosForteAlta
Sacubitril/valsartanaPARAGON-HF: redução não significativa do desfecho primário (p = 0,06); análises post-hoc sugerem efeito em mulheres e FE < 57%Pode ser considerado em mulheres e ICFEp com FE na faixa inferior. Menor risco renal que IECA/BRA. Risco de hipotensãoCondicionalBaixa
Exercício físico e reabilitação cardíacaMelhora clinicamente significativa de VO₂ máximo, capacidade funcional e qualidade de vida na ICFEpAdaptação às limitações físicas do idoso. Reabilitação supervisionada com ênfase em exercício aeróbico moderado e de resistência. Avaliar fragilidade antes de prescreverForteModerada

ARM: antagonista do receptor mineralocorticoide; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina; CV: cardiovascular; DM: diabetes mellitus; FE: fração de ejeção; IC: insuficiência cardíaca; ICFEm: insuficiência cardíaca com fração de ejeção melhorada; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2; RR: risco relativo; TFGe: taxa de filtração glomerular estimada; VO₂: consumo de oxigênio. Fonte: elaborado pelos autores com base nas referências.

Segurança, polifarmácia e cuidado multidisciplinar

📖 Texto de suporte — seções 6.2.6 a 6.2.8
  • Eventos adversos são comuns na IC independentemente do tratamento; a GDMT adiciona risco incremental mínimo versus placebo — mas a menor reserva amplifica hipotensão, hipercalemia, piora renal e quedas.
  • Polifarmácia é a regra. CHECK-HF: a cada 10 anos de idade, 10–29% menos chance de dose-alvo da GDMT e 32% mais uso de diurético por década — prioriza-se sintoma em vez de modificar a doença.
  • Revisão periódica da lista; substituir ou retirar fármacos que descompensam ou interagem; STOPP/START (Tabela 6.5). AGA orienta decisões e seguimento; equipe de IC + geriatria reduz readmissões (Figura 6.1).
Componentes de programas multidisciplinares de IC centrados no paciente idoso: educação de pacientes e cuidadores, monitorização de sintomas e peso, apoio nutricional, apoio psicossocial, vacinação, reabilitação cardiovascular e revisão medicamentosa.
Figura 6.1 – Componentes de programas multidisciplinares de manejo da insuficiência cardíaca.Toque na imagem para ampliar.
Tabela 6.5 – Resumo do tratamento farmacológico conforme o sistema GRADE
ClasseFármacoDose inicialDose máximaCuidados no idosoSegurança no idosoForça da recomendaçãoCerteza da evidência
IECACaptopril6,25 mg 3x/dia50 mg 3x/diaMonitoramento da função renal e de potássioAumento de hipotensão ortostática. Tomar antes de deitar-se à noite. Diminuir diurético. Mais suscetível a disfunção renalForteAlta
Enalapril2,5 mg 2x/dia10–20 mg 2x/diaForteAlta
Lisinopril2,5–5,0 mg 1x/dia20–40 mg 1x/diaForteAlta
Perindopril2,0 mg 1x/dia8,0–16 mg 1x/diaForteAlta
Ramipril1,25–2,5 mg 1x/dia10 mg 1x/diaForteAlta
BRACandesartana4,0–8,0 mg 1x/dia32 mgMonitoramento da função renal e de potássioSimilar ao uso de IECAForteAlta
Losartana25 mg 1x/dia50–100 mgForteAlta
Valsartana40 mg 2x/dia320 mgForteAlta
ARNISacubitril/valsartana50 mg 2x/dia200 mg 2x/diaForteAlta
BetabloqueadorBisoprolol1,25 mg 1x/dia10 mg 1x/diaFrequência cardíaca e pressão arterial devem guiar o ajuste de doseCuidado com bradicardia e hipotensão arterialForteAlta
Carvedilol3,12–5 mg 2x/dia50 mg/diaForteAlta
Succinato de metoprolol12,5–25 mg200 mg/diaForteAlta
Nebivolol1,25 mg10 mgForteModerada
ARMEspironolactona12,5–25 mg25–50 mgMonitoramento do potássioAumento do risco de hipercalemia. Cuidado com ginecomastia e dor nas mamasForteAlta
Eplerenona25 mg100 mgMonitoramento do potássioForteAlta
iSGLT2Finerenona*10 mg20 mgEvitar sem clearance de creatininaInfecção genitalForteAlta
Dapagliflozina10 mgForteAlta
Empagliflozina10 mg25 mgForteAlta
Diurético de alçaFurosemida20–40 mg/dia 1 ou 2x/dia600 mg (usual 40–240 mg/dia)Iniciar 20 mg/diaAtenção ao balanço hídrico e distúrbio eletrolíticoForteBaixa
Torasemida5–10 mg/dia10–200 mg/diaFracaBaixa
Bumetanida0,5–1 mg/dia1–10 mg/diaForteBaixa
TiazídicoHidroclorotiazida25 mg200 mg/dia (usual 12,5–100 mg/dia)Iniciar 12,5–25 mgMonitoramento do estado volêmico e eletrolíticoFracaBaixa
Clortalidona12,5 mg/dia50 mg/diaFracaBaixa
Indapamida2,5 mg/dia5,0 mg/diaFracaBaixa
Poupador de K+Amilorida5 mg/dia5–10 mg/diaAumento do risco de hipercalemiaFracaBaixa

ARM: antagonista de receptor mineralocorticoide; ARNI: inibidor de angiotensina-neprilisina; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador sódio-glicose tipo 2. *Na diagramação original, a finerenona (ARM não esteroidal) aparece na primeira linha do bloco iSGLT2; transcrita na mesma posição. Nesta tabela a força condicional aparece como “Fraca”.

Quadro de recomendações – Tratamento de insuficiência cardíaca no paciente idoso
ForteAlta

Para pacientes idosos com ICFEr, recomenda-se a terapia médica guiada por diretrizes com os quatro pilares fundamentais (ARNI ou IECA/BRA, betabloqueador, ARM e iSGLT2), iniciando com doses reduzidas e titulando a cada 1–2 semanas conforme tolerância, com monitorização rigorosa de função renal, eletrólitos, pressão arterial e frequência cardíaca.

ForteAlta

Para pacientes idosos com ICFEr, recomenda-se o uso preferencial de sacubitril/valsartana em detrimento de um IECA em razão do menor risco de piora renal e hipercalemia, o que facilita a introdução e a titulação do ARM.

ForteModerada

Para pacientes idosos com ICFEr em uso de betabloqueadores, recomenda-se que a titulação seja guiada pela frequência cardíaca alcançada e não pela dose absoluta, dado que doses intermediárias podem ser suficientes e mais seguras nessa faixa etária.

ForteAlta

Para pacientes idosos com ICFEp, recomenda-se o uso de iSGLT2 (dapagliflozina 10 mg/dia ou empagliflozina 10 mg/dia) para redução de hospitalizações por IC e morte cardiovascular, com benefício independente da presença de diabetes melito.

ForteModerada

Para pacientes idosos com IC e deficiência de ferro (ferritina < 100 ng/mL ou saturação de transferrina < 20%), recomenda-se a reposição com carboximaltose férrica intravenosa para melhorar os sintomas, a capacidade funcional e a qualidade de vida.

CondicionalBaixa

Para pacientes idosos com IC, sugere-se a avaliação sistemática de polifarmácia e a revisão periódica das medicações, com desprescrição de fármacos que possam precipitar descompensação.

CondicionalModerada

Para pacientes idosos com IC, sugere-se a inclusão em programa de reabilitação cardíaca e exercício físico supervisionado, adaptado às limitações funcionais e ao grau de fragilidade, com avaliação prévia da capacidade funcional.

ARNI: inibidor do receptor de angiotensina e neprilisina; ARM: antagonista do receptor de mineralocorticoide; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina II; IC: insuficiência cardíaca; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; ICFEr: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2.

🎓 Interpretação didática

Idosa de 84 anos, FE 30%, PA 102/64, TFGe 38: não é “frágil demais para GDMT”. Comece com dapagliflozina 10 mg (sem ajuste), sacubitril-valsartana 24/26 mg 2×/dia, espironolactona 12,5 mg com K⁺ em 1 e 4 semanas, e betabloqueador em dose baixa titulado pela FC. Retire o que atrapalha (AINE, diltiazem), dose ferritina e saturação, e aceite queda de até 30% da TFGe sem pânico.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 6; Tabelas 6.1 a 6.5; Figura 6.1; quadros de recomendação.

12Hipertensão arterial no idoso

Diretriz · capítulo 7

Hipertensão sistólica isolada por rigidez arterial em > 90% após os 70 anos. Meta < 130/80 mmHg para a maioria dos idosos; nos frágeis (CFS 6–9) ou com expectativa de vida < 3 anos, monoterapia em baixa dose e o menor valor bem tolerado. Pesquise hipotensão ortostática antes de iniciar ou intensificar, e não deixe a PAD baixa travar o tratamento.

Epidemiologia e fisiopatologia

📖 Texto de suporte — seções 7.1.1 e 7.1.2
  • Condição cardiovascular crônica mais prevalente no idoso: > 60% a partir de 65 anos, > 75% na oitava década; risco ao longo da vida ~90%. Responde por > 70% dos casos de IAM, AVC e IC.
  • Hipertensão sistólica isolada em > 90% após os 70 anos, pela rigidez arterial (mecanismo predominante: colágeno ↑, elastina ↓, calcificação medial, inflamação).
  • Padrão hemodinâmico: PAS sobe progressivamente; PAD estabiliza e cai após 50–59 anos; amplia-se a pressão de pulso (marcador de risco). Velocidade de onda de pulso ↑.
  • Outros mecanismos: disfunção endotelial (↓ NO), inflamação (PCR, IL-6, TNF), rim (↓ filtração e natriurese, SRAA alterado, sensibilidade ao sal), disfunção autonômica (↓ barorreflexo → variabilidade pressórica e hipotensão ortostática).

Medida da pressão arterial

📖 Texto de suporte — seções 7.1.3 e 7.1.4.1
  • MAPA e MRPA cada vez mais indicadas no diagnóstico do idoso; automedida também. No consultório: técnica padronizada e aparelhos validados.
  • Hiato auscultatório: estimar PAS pelo pulso radial e inflar 20–30 mmHg acima; oscilométricos não sofrem esse efeito.
  • Pseudo-hipertensão (artéria rígida): se a PA parecer desproporcional à clínica, manobra de Osler e encaminhamento a centro de referência.
  • Hipotensão ortostática: queda de PAS ≥ 20 e/ou PAD ≥ 10 mmHg; medir em supino e no 1º e no 3º minuto de pé, braço na altura do coração.
  • Medida desacompanhada (como no SPRINT, testada no Brasil): identifica avental branco e efeito do avental branco, evitando ajustes desnecessários.
  • MAPA: hipotensão postural, pós-prandial, medicamentosa ou situacional, disautonomia e síncope; normalidade igual à do adulto; descenso noturno reduzido, pressão de pulso alta e elevação matinal precoce → mais risco. MRPA: controle terapêutico; treinamento extra > 80 anos, baixa escolaridade, déficit cognitivo ou limitação física; telemonitoramento.
  • Anamnese com funcionalidade e cognição; sintomas inespecíficos (tontura, fraqueza, instabilidade) muitas vezes são hipotensão ortostática ou efeito adverso. PA nos dois braços na primeira consulta (diferença > 15 mmHg sugere DAP), sentado e em ortostatismo; pulsos, sopros carotídeos e abdominais; nutrição, MEEM e teste de marcha.
  • Estratificação: SCORE2-OP (≥ 70 anos); lesão de órgão-alvo e função renal. MAPA/MRPA superam o consultório na predição de risco.
🧮 Pesquisa de hipotensão ortostática (seções 7.1.3.1.1 e 7.1.8.5)
Informe a PA em supino e de pé.

Critério: queda de PAS ≥ 20 mmHg e/ou de PAD ≥ 10 mmHg (até 5 minutos em pé, segundo a seção 7.1.8.5). Na recomendação de situações especiais: PA em supino após 5 min de repouso e em ortostase após 3 min.

Tabela 7.1 – Exames complementares recomendados para o idoso hipertenso
ExameFinalidade
Hemograma completoAvaliar anemia e estado geral de saúde
Glicemia e HbA1cRastrear diabetes melito
Creatinina e TFGAvaliar função renal
Potássio séricoDetectar alterações eletrolíticas
Colesterol total e fraçõesEstratificação de risco cardiovascular
EAS (urina tipo I) e relação albumina/creatininaAvaliar lesão renal
EletrocardiogramaDetectar hipertrofia ventricular esquerda ou arritmias
EcocardiogramaAvaliar função ventricular e espessura de parede
MAPA ou MRPAIdentificar hipertensão mascarada ou do avental branco
Ultrassonografia de carótidasAvaliar aterosclerose subclínica
FundoscopiaDetectar retinopatia hipertensiva
Funcionais: avaliação ortostática da pressão arterial, teste de caminhada, avaliação cognitiva e funcionalDetecção de fragilidade e tolerância terapêutica

HbA1c: hemoglobina glicada; MAPA: monitorização ambulatorial da pressão arterial; MRPA: monitorização residencial da pressão arterial; TFG: taxa de filtração glomerular. Ecocardiograma e ultrassom de carótidas conforme suspeita clínica; microalbuminúria é marcador precoce de nefropatia hipertensiva e de risco CV.

Tratamento não farmacológico

📖 Texto de suporte — seção 7.1.5
  • Mesmos princípios da população geral, com singularidades. A educação para o automanejo é a melhor intervenção não farmacológica para reduzir a PA no idoso, seguida pelo exercício aeróbico moderado.
Quadro de recomendações – Tratamento não farmacológico da hipertensão no idoso

Apoio multiprofissional e social (7.1.5.1)

ForteModerada

Recomenda-se que o manejo da hipertensão arterial em idosos seja individualizado, considerando a presença de síndromes geriátricas, como fragilidade e sarcopenia, bem como os contextos clínico e funcional do paciente.

ForteModerada

Recomenda-se a educação para o autocuidado como estratégia fundamental para o controle pressórico em idosos.

ForteModerada

Recomenda-se o acompanhamento por equipe multiprofissional, incluindo nutricionistas, educadores físicos, psicólogos e gerontólogos, para promover intervenções integradas e individualizadas.

ForteModerada

Recomenda-se o envolvimento ativo de familiares e cuidadores para favorecer a adesão às intervenções não farmacológicas e a manutenção das modificações no estilo de vida.

ForteModerada

Recomenda-se que o planejamento terapêutico considere o estado funcional do paciente, sua capacidade para realizar atividades de vida diária e suas preferências e seus objetivos de cuidado.

Restrição de sódio e aumento da ingestão de potássio (7.1.5.2)

ForteAlta

Recomenda-se a redução da ingestão de sódio como estratégia eficaz para a redução da pressão arterial, sendo particularmente benéfica em idosos.

ForteModerada

Recomenda-se monitorar o sódio sérico em idosos submetidos a restrição de sódio, especialmente na presença de fatores que aumentem o risco de hiponatremia, como alterações fisiológicas do envelhecimento, comorbidades e uso de medicamentos potencialmente indutores de hiponatremia (por exemplo, diuréticos tiazídicos e inibidores seletivos da recaptação de serotonina).

ForteAlta

Recomenda-se um padrão alimentar que associe redução da ingestão de sódio ao consumo adequado de potássio, por favorecer o controle da pressão arterial.

ForteModerada

Recomenda-se evitar a suplementação excessiva de potássio, particularmente em idosos com disfunção renal, devido ao risco de hipercalemia.

Redução do peso e exercícios físicos (7.1.5.3)

ForteAlta

Recomenda-se a avaliação da obesidade sarcopênica em idosos com hipertensão arterial, por constituir um importante fator de risco cardiovascular e estar associada a pior controle pressórico.

ForteModerada

Recomenda-se a inclusão de exercícios isométricos no programa de exercícios físicos, quando clinicamente indicada, devido aos seus benefícios na redução da pressão arterial e na preservação da função e da massa muscular.

ForteAlta

Recomenda-se a prática regular de exercício físico para a redução da pressão arterial, podendo ser utilizados tanto o Treinamento Intervalado de Alta Intensidade (HIIT) quanto o Treinamento Contínuo de Intensidade Moderada (TCIM), conforme avaliação clínica individual.

ForteAlta

Recomenda-se que a modalidade, a intensidade e a progressão do exercício físico sejam individualizadas, considerando o estado funcional, as comorbidades, a capacidade física e a segurança do idoso.

Escolha dos anti-hipertensivos

📖 Texto de suporte — seção 7.1.6
  • Individualizar (doenças associadas, interações, eventos adversos, fragilidade, cognição) e pensar também em qual fármaco evitar naquele idoso. Iniciar em baixas doses, com incrementos progressivos, buscando controle intensivo.
  • Terapia combinada, preferencialmente em comprimido único, para a maioria. Monoterapia inicial em muito frágeis, > 80 anos ou com hipotensão ortostática sintomática.
  • O risco de queda pode subir após iniciar ou titular (sobretudo diuréticos), mas o uso crônico e o controle da HAS reduziram desfechos em ECRs sem aumentar hipotensão ortostática ou quedas com lesão, mesmo com HO basal.
  • Tiazídicos: 1ª linha, úteis na sistólica isolada; doses baixas (< 25 mg de HCTZ ou equivalente) reduzem morte e eventos com menos efeitos; monitorar eletrólitos, rim e HO. IECA: eficazes apesar da renina baixa; IC, disfunção de VE, DM com microalbuminúria; tosse, angioedema, hipercalemia. BRA: semelhante, com benefício em AVC. BCC di-hidropiridínico de longa ação: ótimo para a PAS, previne AVC, metabolicamente neutro; edema, cefaleia, rubor; evitar os de curta ação. Antagonistas da aldosterona: hipertensão resistente (superiores ao betabloqueador como 4ª droga). Betabloqueadores: não são 1ª linha, salvo DAC, IC ou arritmias.
  • Evitar/cautela: doxazosina (hipotensão ortostática), metildopa e clonidina (SNC, bradicardia, HO), verapamil/diltiazem (pouca potência, condução, hipotensão), hidralazina (HO, taquicardia, retenção hídrica, angina).
Tabela 7.2 – Tratamento farmacológico
Aspecto clínicoRecomendaçãoForça da recomendaçãoCerteza da evidência
Início em baixas doses e titulação progressivaRecomendadoForteAlta
Terapia combinada (preferencialmente em dose fixa)Recomendado para a maioriaForteAlta
Monoterapia inicialConsiderar em idosos frágeis (> 80 anos) ou com hipotensão ortostáticaCondicionalModerada
Monitoramento de hipotensão ortostática e quedasRecomendadoForteAlta
Tabela 7.3 – Classes Farmacológicas
Classe de fármacoSituação clínica recomendadaForça da recomendaçãoCerteza da evidência
Diuréticos tiazídicos e similares (hidroclorotiazida, clortalidona, indapamida)Primeira linha, isoladamente ou em combinação; especialmente eficazes em hipertensão sistólica isoladaForteAlta
IECAs (enalapril, ramipril, lisinopril etc.)Primeira linha, especialmente para IC, disfunção ventricular esquerda e diabetes com microalbuminúriaForteAlta
BRAs (losartana, valsartana, candesartana etc.)Alternativa aos IECAs ou em associação com outras classes; benéficos em idosos com diabetes melito e prevenção de acidente vascular cerebralForteAlta
Bloqueadores dos canais de cálcio di-hidropiridínicos (anlodipino, felodipino)Primeira linha, isolados ou em combinação; eficazes na hipertensão sistólica isoladaForteAlta
Antagonistas da aldosterona (espironolactona, eplerenona)Hipertensão resistenteForteModerada
Betabloqueadores (atenolol, metoprolol, bisoprolol)Não são primeira linha, exceto em IC, doença arterial coronariana ou arritmiasFracaModerada
Alfabloqueadores (doxazosina, clonidina)Evitar rotineiramenteForte (contra)Moderada
Agonistas centrais alfa-2 (metildopa, clonidina)EvitarForte (contra)Moderada
Bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropiridínicos (verapamil, diltiazem)Evitar em monoterapia para hipertensão arterial sistêmicaModerada (contra)Baixa
Vasodilatadores periféricos (hidralazina)Não recomendados como primeira linhaFraca (contra)Baixa

BRA: bloqueador do receptor de angiotensina II; IC: insuficiência cardíaca; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina. Transcrição fiel: a tabela lista a clonidina também entre os alfabloqueadores e usa “Moderada (contra)” como força para os BCC não di-hidropiridínicos.

Meta terapêutica

📖 Texto de suporte — seção 7.1.7
  • Basear-se no estado funcional, mental e físico — não na idade cronológica. Ajustes a cada 4 semanas para evitar quedas bruscas da PA.
  • Metanálises: PAS < 130 mmHg reduz eventos CV, mortalidade total e CV, sem aumentar eventos adversos graves → controle rigoroso em idosos funcionalmente independentes.
  • SPRINT (9.361; incluía > 75 anos; < 120 vs. < 140 mmHg): menos eventos, discreto aumento de hipotensão, síncope, bradicardia e distúrbios eletrolíticos. SPRINT-MIND: progressão mais lenta de lesão de substância branca e menos declínio cognitivo. Risco cresce acima de 115 mmHg de PAS.
  • Incerteza: estudos com idosos saudáveis; excluídos AVC recente, IC tratada, DRC, demência e perda de autonomia. PARTAGE (residentes frágeis de lares): sem benefício do tratamento intensivo e mortalidade até 2× maior > 80 anos.
  • Recomendação da diretriz: < 130/80 mmHg para a maioria; redução excessiva pode prejudicar frágeis ou com expectativa de vida comprometida.

Situações especiais

Síntese – Fragilidade, demência, polifarmácia, desprescrição, hipotensão ortostática e PAD baixa (seção 7.1.8)
SituaçãoO que a diretriz diz
Fragilidade e expectativa de vidaQuantificar com instrumento validado (avaliação informal tem baixa acurácia) — CFS, validada no Brasil: pré-frágil = CFS 4; fragilidade severa = 7–9. São necessários ~3 anos de tratamento intensivo para benefício; expectativa < 3 anos → metas mais lenientes (ePrognosis). CFS 6–9 e/ou expectativa < 3 anos: monoterapia em baixa dose, meta pela tolerância. Fragilidade pode ser reversível: AGA ou 10-TaGA antes de chamar uma intervenção de “desproporcional”
DemênciaHAS na meia-idade aumenta em 20–54% o risco de demência; PAF ajustada 7,1% (2º fator modificável, atrás da baixa escolaridade). CRHCP-3 (2025; 33.995; < 130/80 vs. usual): −15% de demência em 4 anos. Meta PAS < 130 mmHg para prevenir comprometimento cognitivo; rastreio periódico (10-Point Cognitive Screener)
Polifarmácia29,4% em > 80 anos no Brasil. Distinguir polifarmácia inapropriada de racional. Comprimido único, tabelas e pillboxes. Psicotrópicos causam HO e hiponatremia — revisá-los antes de reduzir anti-hipertensivos. Fármacos que elevam PA (cascata): antidepressivos, fenilefrina, pseudoefedrina, mirabegrona, AINEs. Interação anlodipino–sinvastatina. Evitar inércia terapêutica
DesprescriçãoCom cautela (suspender estatina ou terapia de IC aumenta morbimortalidade). RETREAT-FRAIL (1.048 institucionalizados ≥ 80 anos, frágeis, PAS < 130; 38,4 meses): reduzir anti-hipertensivos não alterou eventos CV nem mortalidade (sem melhora de cognição, função ou qualidade de vida) — é segura nesse perfil
Hipotensão ortostática e pós-prandial~20% dos idosos. HO: queda ≥ 20/10 mmHg em até 5 min; pós-prandial: queda de PAS ≥ 20 mmHg 30–90 min após refeições. Anti-hipertensivos são a principal causa (número e dose, sobretudo nas primeiras semanas). HO: hidratação, condicionamento, mudanças posturais graduais, meias de compressão. Pós-prandial: refeições fracionadas com menos carboidrato, água gelada 30 min antes, cafeína 200–250 mg/dia, não tomar anti-hipertensivo junto às refeições. Refratários: fludrocortisona ou midodrina (cuidado com hipertensão supina). Hipertensão supina + HO: cabeceira elevada, evitar diurético e líquidos à noite, anti-hipertensivo de ação rápida à noite. Robusto ou levemente frágil: não usar HO como desculpa — o tratamento intensivo não aumentou HO e pode reduzi-la
PAD baixa e curva JA hipótese de curva J (PAD < 70/60 → IAM) vem de dados observacionais; subgrupos com PAD < 60 em ECRs intensivos não tiveram mais eventos, e a randomização mendeliana (Arvanitis) não mostrou causalidade. PAD baixa no idoso reflete rigidez e fragilidade (marcador, não causa). Não deve impedir a otimização, com cautela apenas na DAC clinicamente manifesta
🧮 Meta pressórica e estratégia inicial no idoso (seções 7.1.6 a 7.1.8)
Condições
Informe idade e CFS.
Quadro de recomendações – Abordagem da hipertensão arterial sistêmica em idosos em situações especiais
ForteAlta

Para idosos com fragilidade moderada a grave, expectativa de vida inferior a 3 anos ou hipotensão ortostática sintomática, recomenda-se individualizar a meta de PA, visando ao menor valor bem tolerado.

ForteModerada

Como a segurança e a eficácia de metas intensivas de controle da PA são incertas em idosos com fragilidade moderada a grave, a fragilidade deve ser avaliada por meio de escalas validadas, como a Escala Clínica de Fragilidade, para diagnóstico e classificação de sua gravidade.

ForteAlta

Recomenda-se a meta de PA sistólica ≤ 130 mmHg em adultos hipertensos, com o objetivo de prevenir comprometimento cognitivo leve e demência.

ForteModerada

Antes de iniciar ou intensificar a terapia anti-hipertensiva, recomenda-se pesquisar hipotensão ortostática, aferindo-se a PA em posição supina (após 5 minutos de repouso) e, em seguida, em ortostase (após 3 minutos nessa posição).

ForteModerada

Recomenda-se considerar a desprescrição de anti-hipertensivos em idosos com fragilidade moderada a grave, institucionalizados e em polifarmácia, quando mantiverem PA sistólica < 130 mmHg.

ForteModerada

Em idosos sob polifarmácia, recomenda-se a utilização de combinações fixas de anti-hipertensivos em comprimido único, administrado uma vez ao dia, para melhorar a adesão.

PA: pressão arterial.

🎓 Interpretação didática

Duas senhoras de 82 anos com PA 158/62. A primeira é independente, CFS 3: combinação em comprimido único (BRA + BCC ou tiazídico), meta < 130/80, PAD baixa não é contraindicação. A segunda mora em ILPI, CFS 7, cai com frequência: começar com monoterapia em baixa dose, pesquisar HO antes, rever psicotrópicos e aceitar o menor valor bem tolerado — e, se já estiver com PAS < 130 e muitos remédios, a desprescrição é segura (RETREAT-FRAIL).

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 7; Tabelas 7.1 a 7.3; quadros de recomendação.

13Insuficiência mitral

Diretriz · seção 8.1

A IM cresce com a idade (2,85% aos 70 e 6,45% aos 90 anos para moderada ou grave). Na primária, a doença é da valva: corrige-se no momento certo (FEVE ≤ 60%, LVESD ≥ 40 mm, FA, PSAP > 50), preferindo o reparo; TEER no alto risco. Na secundária, a doença é do ventrículo ou do átrio: primeiro GDMT, TRC, revascularização e controle da FA — depois TEER nos selecionados (COAPT, RESHAPE-HF2).

Epidemiologia, conceitos e novidades

📖 Texto de suporte — seções 8.1.1 e 8.1.2
  • No Brasil, a doença reumática ainda é a principal causa de valvopatia mitral (> 90% da estenose e ~55–60% da IM), mas há transição para formas degenerativas e funcionais.
  • EUA (11.911 ecocardiogramas): valvopatia moderada/grave de 0,7% (18–44 anos) a 13,2% (≥ 75 anos); a IM foi a mais frequente (1,7%). Prevalência global de IM (todos os graus) ~10,4%; primárias ~65% e secundárias ~35% dos casos isolados significativos; na IMpc, degenerativa ~61%.
  • Metanálise 2025 (> 6 milhões, 20 estudos): IM moderada ou grave em 0,67%, chegando a ~2,85% aos 70 e 6,45% aos 90 anos. Migração (~281 milhões, 3,6% da população mundial) redistribui a doença reumática.
  • Aparato mitral: folhetos, anel, cordas, papilares e miocárdio do VE e do AE. Primária: lesão intrínseca (reumática, prolapso, degeneração mixomatosa, deficiência fibroelástica, calcificação do anel); formas agudas (ruptura de cordas, endocardite) à parte. Secundária: alteração ventricular ou atrial com folhetos normais.
  • Novidades 2020→2026 (Tabela 8.2): IM atrial como entidade formal, Heart Valve Center e Heart Team, eco 3D e RMC centrais, intervenção precoce refinada, TEER fortalecido (Classe I na IMS ventricular selecionada após GDMT), cirurgia minimamente invasiva, imagem multimodal e avaliação genética. Próteses mitrais não fazem parte do escopo.
Tabela 8.1 – Principais diferenças epidemiológicas da insuficiência mitral entre o Brasil e países desenvolvidos
AspectoBrasilPaíses desenvolvidos
Etiologia predominante da IM primáriaReumáticaDegenerativa
Participação estimada da etiologia reumática na IM~55–60%< 30%
Faixa etária típicaAdultos jovens; meia-idade; idososPredominantemente idosos
Principal mecanismoDoença reumática crônicaProlapso valvar mitral; deficiência fibroelástica
Tendência atualTransição epidemiológicaEnvelhecimento populacional

IM: insuficiência mitral.

Tabela 8.2 – Principais mudanças entre as Diretrizes de 2020 e 2026 da Sociedade Brasileira de Cardiologia
Tópico20202026
Insuficiência mitral secundária atrialPouco enfatizadaEntidade clínica formalmente definida, com seção específica
Heart Valve CenterConceito limitadoPapel central na avaliação e no tratamento
Heart TeamImportanteEstrutura obrigatória para casos complexos
Ecocardiograma tridimensionalFerramenta complementarComponente central da avaliação anatômica e procedural
Ressonância magnética cardíacaPapel secundárioMaior relevância na quantificação e no prognóstico
Insuficiência mitral primária assintomáticaCritérios clássicos para intervençãoRefinamento dos critérios de intervenção precoce
TEER na insuficiência mitral primáriaAlternativa para pacientes de alto riscoRecomendação fortalecida em pacientes selecionados
TEER na insuficiência mitral secundária ventricularRecomendação mais restritaRecomendação Classe I em pacientes selecionados após GDMT otimizada
Insuficiência mitral secundária atrialNão possuía algoritmo específicoAlgoritmo diagnóstico e terapêutico próprio
Cirurgia mitral minimamente invasivaPouco enfatizadaRecomendada em centros experientes e pacientes selecionados
Imagem multimodal integradaMenor destaqueEstratégia formal de avaliação da insuficiência mitral
Avaliação genética na insuficiência mitral primáriaPouco abordadaIncluída na avaliação de casos selecionados

GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; TEER: reparo transcateter borda a borda.

IM primária crônica: avaliação

📖 Texto de suporte — seções 8.1.3 a 8.1.4.5
  • ~2/3 das IM significativas são primárias; degenerativa ~60% nos países desenvolvidos. Prolapso em 2–3% da população; flail por ruptura de cordas → IM importante, progressão rápida. Disjunção do anel mitral (MAD): arritmias ventriculares e morte súbita em subgrupos. Outras causas: endocardite, congênitas, doenças do tecido conjuntivo, calcificação anular, radioterapia.
  • História natural da IMpc grave não é benigna: 5–7%/ano de sintomas, FA, IC ou intervenção nos assintomáticos. 20–40% dos “assintomáticos” têm limitação em teste de exercício (falsamente assintomáticos) — sobretudo idosos e sedentários; ergoespirometria ajuda.
  • Sopro holossistólico apical irradiado para a axila (± B3) — intensidade não se correlaciona com gravidade. FA, hipertensão pulmonar e IC são marcos evolutivos.
  • Ecocardiograma é o método de escolha (Tabela 8.3); eco 3D em jatos excêntricos (supera limitações do PISA 2D); SLG detecta disfunção subclínica; inteligência artificial ainda sem papel clínico.
  • Cateterismo direito não é rotina: discrepância sintomas × eco, suspeita de hipertensão pulmonar ou quando mudar a estratégia. Onda V > 30 mmHg, PCP e PSAP elevadas → pior prognóstico; HP pós-capilar = PAPm > 20 com PCP > 15 mmHg (Tabela 8.4).
  • Biomarcadores não definem gravidade; BNP elevado em assintomático com FE preservada é marcador independente de eventos → seguimento mais frequente (Tabela 8.5).
  • RMC quando clínica e eco discordam: VR ≥ 55–60 mL e FR ≥ 40–50% → progressão; fração de esvaziamento do AE < 30% → eventos; fibrose (realce tardio) → arritmias e pior prognóstico (prolapso + MAD). TC: anel, cálcio e planejamento transcateter.
  • Genética: não rotineira; considerar se início < 50 anos, mixomatosa exuberante, história familiar (prolapso, cirurgia mitral, morte súbita) ou síndromes (Marfan, Loeys-Dietz, Ehlers-Danlos); fenótipo arrítmico.
Tabela 8.3 – Principais parâmetros ecocardiográficos na insuficiência mitral primária crônica
DomínioParâmetroValor/definiçãoRelevância clínica
Quantificação da IMEROA≥ 40 mm²Compatível com IM grave; associada a maior mortalidade cardiovascular e insuficiência cardíaca
Quantificação da IMVolume regurgitante≥ 60 mLCompatível com IM grave
Quantificação da IMFração regurgitante≥ 50%Compatível com IM grave
Remodelamento ventricularFEVEAvaliação seriadaRedução progressiva associa-se a pior prognóstico
Remodelamento ventricularVolumes indexados do VEAvaliação seriadaMaior valor prognóstico do que medidas lineares isoladas
Remodelamento atrialVolume do AEAvaliação seriadaReflete sobrecarga volumétrica crônica e progressão da doença
Hipertensão pulmonarPSAPAvaliação seriadaMarcador de repercussão hemodinâmica avançada
Função ventricular subclínicaSLGMenos negativo que aproximadamente −20%Pode identificar disfunção ventricular antes da redução da FEVE
Anatomia valvarEcocardiografia 3DSempre que disponívelMelhor caracterização anatômica e planejamento terapêutico
Quantificação avançadaEco 3DEspecialmente útil em jatos excêntricos ou complexosReduz limitações do PISA bidimensional
Fenótipo arrítmicoMADPesquisa sistemática em PVM degenerativoAssociada a maior risco de arritmias ventriculares
Planejamento terapêuticoETECasos selecionadosFundamental para reparo cirúrgico ou transcateter

AE: átrio esquerdo; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; ETE: ecocardiografia transesofágica; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IM: insuficiência mitral; MAD: disjunção do anel mitral; PISA: área de superfície de isovelocidade proximal; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar; PVM: prolapso da valva mitral; SLG: strain longitudinal global; VE: ventrículo esquerdo; 3D: tridimensional.

Tabela 8.4 – Comportamento dos principais parâmetros hemodinâmicos conforme a gravidade da insuficiência mitral primária crônica
Parâmetro hemodinâmicoIM leveIM moderadaIM graveValor de referênciaAplicação clínica
Pressão atrial direitaNormalNormal ou discretamente elevadaFrequentemente elevada2–8 mmHgAvaliação da congestão sistêmica e da função ventricular direita
Pressão média da artéria pulmonar< 20 mmHg20–25 mmHg> 25 mmHg< 20 mmHgDiagnóstico e quantificação da hipertensão pulmonar
PCP/Wedge≤ 15 mmHg15–18 mmHg> 18–20 mmHg≤ 15 mmHgEstimativa da pressão atrial esquerda e das pressões de enchimento
Onda V da PCPPequena (< 15 mmHg)15–30 mmHg> 30 mmHgVariávelMarcador de repercussão hemodinâmica da insuficiência mitral
Resistência vascular pulmonarNormalHabitualmente normalPode estar elevada< 2 WUDiferencia componente pós-capilar de pré-capilar
Débito cardíacoNormalNormalPode reduzir-se4–8 L/minAvaliação da função circulatória global
Índice cardíacoNormalHabitualmente preservadoPode estar reduzido≥ 2,2 L/min/m²Avaliação da reserva hemodinâmica
Saturação venosa mista de oxigênioNormalHabitualmente preservadaPode reduzir-se60–80%Equilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio
Pressão sistólica da artéria pulmonar< 35 mmHg35–50 mmHg> 50 mmHg< 35 mmHgQuantificação da repercussão pulmonar da doença

IM: insuficiência mitral; PCP: pressão capilar pulmonar; WU: unidades Wood.

Tabela 8.5 – Principais biomarcadores na insuficiência mitral primária crônica
BiomarcadorSignificado biológicoPotencial aplicação clínicaLimitações atuais
BNPEstresse parietal ventricular e sobrecarga volumétricaEstratificação prognóstica complementarAusência de ponto de corte validado para indicação de intervenção
NT-proBNPEstresse miocárdico e aumento das pressões de enchimentoEstratificação prognóstica complementar e seguimento longitudinalInfluenciado por idade, função renal e fibrilação atrial
Troponina cardíaca ultrassensívelLesão miocárdica subclínicaPotencial marcador prognóstico complementarEvidência insuficiente para uso rotineiro
ST2 solúvelRemodelamento e fibrose miocárdicaPotencial marcador prognóstico complementarUso predominantemente investigacional
Galectina-3Fibrose e inflamação miocárdicaPotencial marcador prognóstico complementarUso predominantemente investigacional
Integração biomarcadores + imagem avançadaAvaliação combinada de remodelamento, fibrose e função ventricularEstratégia emergente para pesquisa e estratificação prognósticaSem validação prospectiva para tomada de decisão clínica

BNP: peptídeo natriurético tipo B; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B; ST2: suppression of tumorigenicity-2. Nota: atualmente, não existem valores de corte universalmente aceitos para BNP, NT-proBNP ou outros biomarcadores que permitam definir a gravidade da insuficiência mitral ou indicar intervenção valvar de forma isolada.

IM primária: tratamento, intervenção e seguimento

📖 Texto de suporte — seções 8.1.4.6 a 8.1.4.9
  • Nenhum fármaco corrige ou retarda a IM primária com FE preservada. Controlar HAS, tratar FA e IC pelas diretrizes; diuréticos aliviam congestão mas não substituem a correção; vasodilatadores, IECA/BRA, ARNI e iSGLT2 não têm indicação rotineira sem outra indicação.
  • Objetivo da intervenção: prevenir disfunção do VE, FA, hipertensão pulmonar e morte. No flail, cirurgia precoce melhora desfechos a longo prazo.
  • Reparo > troca (menor mortalidade, preservação do VE, maior sobrevida). Centros especializados: reparo > 95% e mortalidade < 1% no prolapso degenerativo; minimamente invasiva comparável à esternotomia.
  • TEER é a alternativa estabelecida no risco cirúrgico elevado/proibitivo; TMVR com próteses dedicadas é emergente para anatomia desfavorável. Casos complexos no Heart Team (reparabilidade, durabilidade, fragilidade, comorbidades). MAD, fibrose ou arritmias complexas ajudam a estratificar, mas não são indicação isolada.
  • Seguimento (Tabela 8.7): sintomas, FA nova, hipertensão pulmonar ou queda da função motivam reavaliação; após intervenção, seguir função, durabilidade e recorrência. Tabela 8.8 lista as evidências incorporadas.
🧮 IM primária: gravidade e gatilhos de intervenção (Tabelas 8.3 e 8.6)
Clínica
Preencha os parâmetros do eco.

Gravidade é multiparamétrica; este cálculo considera grave se ao menos um critério quantitativo estiver presente. Decisão final no Heart Team, com fragilidade e preferências.

Tabela 8.6 – Principais indicações de intervenção na insuficiência mitral primária crônica
Cenário clínicoForça da recomendaçãoCerteza de evidênciaIntervenção recomendadaMetas
IM primária
IM grave sintomática e risco operatório aceitávelForteModeradaIntervenção valvar mitral, preferencialmente reparo cirúrgico (plastia). Padrão-ouro, benefício consistente.
IM grave sintomática, anatomia favorável e risco cirúrgico elevado ou proibitivoForteModeradaFavorece TEER. Alternativa validada.
IM grave assintomática com FEVE ≤ 60% ou LVESD ≥ 40 mmForteModeradaIntervenção valvar mitral, preferencialmente reparo cirúrgico (plastia). Intervenção precoce consolidada.
IM grave. Quando a intervenção está indicada e a anatomia degenerativa é favorável ao reparoForteModeradaPreferir reparo cirúrgico da valva mitral à substituição valvar cirúrgica.
IM grave assintomática com fibrilação atrial de início recente atribuída à IMForteModeradaFavorece a cirurgia. Depende da experiência local.
IM grave assintomática com hipertensão pulmonar (PSAP > 50 mmHg em repouso)ForteModeradaFavorece a cirurgia. Depende da experiência local.
IM grave assintomática com elevada probabilidade de reparo durável (> 95%) e baixa mortalidade operatória em centro especializadoCondicionalModeradaConsiderar intervenção precoce, preferencialmente reparo cirúrgico. Centro experiente é chave.
IM grave sintomática, anatomia desfavorável para TEER e risco cirúrgico elevado ou proibitivoCondicionalBaixaConsiderar substituição valvar mitral transcateter com prótese dedicada em centros especializados
IM secundária ventricular
Sintomática com terapia otimizadaForteModeradaFavorece TEERCOAPT-like
Necessidade de cirurgia cardíaca associadaForteBaixaFavorece cirurgiaConsenso clínico
Alto risco cirúrgico isoladoForteModeradaFavorece TEERIndividualizar
IM secundária atrial
FE preservada + dilatação atrialCondicionalBaixaFavorece cirurgiaFenótipo emergente
Alto risco cirúrgicoFracaBaixaFavorece TEEREvidência limitada
IM moderada + outra cirurgia associadaCondicionalBaixaFavorece correção concomitanteIndividualizar
IM grave + cirurgia de outra valvaForteBaixaFavorece correção concomitanteAbordagem integrada
Pacientes sem elegibilidade para intervenção (fragilidade/baixa sobrevida)ForteBaixaFavorece tratamento clínico/paliativoFoco em qualidade de vida

FE: fração de ejeção; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IM: insuficiência mitral; LVESD: diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar; TEER: reparo transcateter borda a borda.

Tabela 8.7 – Intervalos sugeridos para seguimento da insuficiência mitral primária crônica
Gravidade da IMAvaliação clínicaEcocardiografia
Leve3–5 anos3–5 anos
ModeradaAnual1–2 anos
Grave assintomática (FEVE > 60% e LVESD < 40 mm)6–12 meses6–12 meses
Grave próxima ao limiar de intervenção*3–6 meses3–6 meses
Após intervenção cirúrgica ou transcateterIndividualizadaConforme tipo de intervenção e achados evolutivos

FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IM: insuficiência mitral; LVESD: diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo. *Pacientes com progressão das dimensões ventriculares, queda da FEVE, fibrilação atrial de início recente, hipertensão pulmonar ou outros marcadores de progressão clínica.

Tabela 8.8 – Principais evidências incorporadas à atualização da insuficiência mitral primária crônica
Estudo/áreaPopulaçãoPrincipal achadoImpacto na SBC 2026
UK Mini Mitral TrialIM degenerativa com indicação cirúrgicaMinitoracotomia apresentou resultados clínicos comparáveis à esternotomia convencionalFortalecimento da cirurgia minimamente invasiva em centros experientes
EXPAND RegistryPacientes submetidos a TEERElevadas taxas de sucesso procedural e baixa insuficiência mitral residual em prática clínica contemporâneaConsolidação do TEER em pacientes adequadamente selecionados
CLASP IIDIM degenerativa elegível para TEERResultados clínicos e ecocardiográficos consistentes entre plataformas contemporâneas de reparo borda a bordaConsolidação das terapias borda a borda (edge-to-edge)
Imagem multimodal avançada (eco 3D, RMC e TC)IM degenerativaMelhor caracterização anatômica, quantificação da regurgitação e planejamento terapêuticoMaior protagonismo da imagem multimodal na tomada de decisão
Fenótipo arrítmico do prolapso valvar mitralProlapso valvar mitralAssociação entre disjunção do anel mitral, fibrose miocárdica e arritmias ventricularesEstratificação de risco mais refinada em pacientes selecionados
Genética da doença degenerativa mitralDoença mixomatosa e prolapso valvar mitralMelhor compreensão da base genética da degeneração mixomatosa e do prolapso mitralInclusão da avaliação genética em cenários selecionados
TMVR com próteses dedicadasIM grave de alto risco cirúrgicoResultados iniciais promissores em pacientes não elegíveis para reparoInclusão da TMVR como terapia emergente para pacientes selecionados
Centros especializados em reparo mitralIM degenerativa com anatomia reparávelTaxas de reparo superiores a 95% e mortalidade operatória inferior a 1% em centros experientesReforço da centralização de casos complexos e da avaliação por Heart Team

3D: tridimensional; IM: insuficiência mitral; RMC: ressonância magnética cardíaca; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia; TC: tomografia computadorizada; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição transcateter da valva mitral.

IM secundária: fenótipos ventricular e atrial

📖 Texto de suporte — seções 8.1.5.1 a 8.1.5.4
  • Forma mais frequente de IM na IC: moderada ou grave em 20–35% dos pacientes com IC. Etiologias: cardiopatia isquêmica (40–50%), cardiomiopatia dilatada não isquêmica (30–40%) e FA com IM atrial funcional (10–20%).
  • Ventricular funcional: remodelamento excêntrico → deslocamento apical/lateral dos papilares → tethering (Carpentier IIIb); base de COAPT, MITRA-FR e RESHAPE-HF2.
  • Atrial funcional: dilatação do AE e do anel, sem tethering relevante, em geral com FE preservada; nas séries de IM atrial grave, ~90% têm FA e > 80% AE muito dilatado (Tabela 8.9).
  • Mesmos métodos da primária, mas lidos à luz do remodelamento (Tabela 8.10). Gravidade da IMS: EROA ≥ 0,20 cm², VR ≥ 30 mL, FR ≥ 50% — multiparamétrica, nenhum critério isolado. A IMS é dinâmica (Lancellotti): eco de estresse se sintomas desproporcionais. Eco 3D para tethering, anel e planejamento de TEER/TMVR.
  • IM moderada a grave aumenta a mortalidade em ~40–70%, mesmo ajustando pela disfunção do VE; o prognóstico depende da interação IM × remodelamento × miocárdio. Grayburn: IM proporcional × desproporcional ao tamanho do VE. Disfunção de VD e hipertensão pulmonar são marcadores independentes. Sem escore prognóstico validado; STS-PROM e EuroSCORE II complementam o risco procedural (Tabela 8.11).
Tabela 8.9 – Evolução do reconhecimento da insuficiência mitral funcional atrial como fenótipo distinto da insuficiência mitral secundária
EstudoPergunta científicaPrincipal contribuiçãoImpacto no campo
Otsuji et al. (2002)A dilatação anular isolada pode gerar insuficiência mitral funcional sem doença ventricular?Demonstrou que dilatação anular associada à fibrilação atrial pode produzir insuficiência mitral funcional na ausência de remodelamento ventricular significativoIntrodução do conceito de insuficiência mitral atrial funcional
Deferm et al. (2019)Como se comportam os pacientes com insuficiência mitral atrial funcional?Descreveu prevalência, características clínicas e desfechos associados ao fenótipo atrialConsolidação da entidade clínica
Machino-Ohtsuka et al. (2016)Quais são os marcadores anatômicos e ecocardiográficos da insuficiência mitral atrial funcional?Caracterizou remodelamento atrial, dilatação anular e padrões ecocardiográficos específicosDefinição anatômica e ecocardiográfica do fenótipo
Estudos contemporâneos (2020–2025)A insuficiência mitral atrial funcional representa uma entidade distinta da insuficiência mitral ventricular funcional?Confirmação de mecanismos fisiopatológicos, prognóstico e potenciais estratégias terapêuticas própriosReconhecimento formal da insuficiência mitral atrial funcional como fenótipo distinto dentro da insuficiência mitral secundária
Tabela 8.10 – Principais diferenças na interpretação dos métodos diagnósticos entre a insuficiência mitral primária e a secundária
Método diagnósticoIM primária crônicaIM secundária
Ecocardiografia transtorácicaAvaliação anatômica valvar e quantificação da regurgitaçãoQuantificação da regurgitação e caracterização do remodelamento ventricular ou atrial
Ecocardiografia transesofágicaDefinição do mecanismo degenerativo e planejamento cirúrgico/transcateterPlanejamento de TEER/TMVR e avaliação anatômica avançada
Ecocardiografia tridimensionalCaracterização anatômica dos folhetos e do anel mitralAvaliação do tethering e da geometria anular e planejamento estrutural
Ressonância magnética cardíacaQuantificação da regurgitação, dos volumes ventriculares e de fibroseQuantificação da regurgitação, caracterização miocárdica e avaliação do remodelamento ventricular
Tomografia computadorizada cardíacaAvaliação anatômica complementarPlanejamento de procedimentos estruturais, especialmente TMVR
Biomarcadores (BNP/NT-proBNP)Marcadores complementares de repercussão hemodinâmicaMarcadores prognósticos centrais associados à insuficiência cardíaca
Cateterismo cardíaco direitoCasos selecionados e discordância diagnósticaAvaliação frequente da repercussão hemodinâmica e da hipertensão pulmonar

BNP: peptídeo natriurético tipo B; IM: insuficiência mitral; NT-proBNP: peptídeo natriurético tipo B N-terminal; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição valvar mitral transcateter.

Tabela 8.11 – Marcadores associados a pior prognóstico na IMS
DomínioMarcadorAssociação prognóstica
Gravidade da IMEROA ≥ 0,20 cm²↑ Hospitalização por IC, ↑ mortalidade
Volume regurgitante ≥ 30 mL↑ Eventos cardiovasculares
Fração regurgitante ≥ 50%↑ Progressão clínica
Remodelamento do ventrículo esquerdoAumento do LVESV/LVEDV↑ Mortalidade
FEVE reduzida↑ Mortalidade e IC
Ventrículo direitoDisfunção ventricular direitaForte marcador prognóstico adverso
Circulação pulmonarHipertensão pulmonar↑ Mortalidade e pior resposta terapêutica
HemodinâmicaPCP elevada/onda V proeminenteMaior repercussão hemodinâmica
BiomarcadoresBNP e NT-proBNP elevados↑ Hospitalização e mortalidade
AFMRDilatação atrial importante↑ Fibrilação atrial recorrente e IC
Ecocardiografia de estresseAumento da IM ao esforço↑ Sintomas e pior prognóstico

AFMR: insuficiência mitral atrial funcional; BNP: peptídeo natriurético tipo B; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IC: insuficiência cardíaca; IM: insuficiência mitral; IMS: insuficiência mitral secundária; LVEDV: volume diastólico final do ventrículo esquerdo; LVESV: volume sistólico final do ventrículo esquerdo; NT-proBNP: N-terminal do peptídeo natriurético tipo B; PCP: pressão capilar pulmonar.

IM secundária: tratamento

📖 Texto de suporte — seções 8.1.5.5 e 8.1.5.6
  • O fundamento é tratar a IC e a cardiopatia de base: GDMT (ARNI, betabloqueador, ARM, iSGLT2), TRC nos elegíveis (remodelamento reverso e redução da IM), revascularização quando indicada (avaliar viabilidade). A otimização clínica precede qualquer intervenção; a IM pode diminuir, por isso reavaliar antes de indicar terapia valvar.
  • IM atrial: controle da FA, otimização da IC e redução da sobrecarga atrial (evidência menos robusta).
  • Persistindo sintomas e IMS significativa apesar da GDMT: equipe multidisciplinar (IC, imagem, intervenção, cirurgia).
  • MITRA-FR (304): sem benefício do TEER (54,6% vs. 51,3%) — VE muito dilatado (VDFi 135 mL/m²) e IM relativamente menor (EROA 31 mm²). COAPT (614): hospitalização por IC 35,8% vs. 67,9% (HR 0,53) e mortalidade 29,1% vs. 46,1% (HR 0,62) — IM mais grave (EROA 41 mm²) e VE menos remodelado (VDFi 101 mL/m²). RESHAPE-HF2 (505): 37,0 vs. 58,9 eventos/100 pacientes-ano (RR 0,64). EXPAND (> 1.000): sucesso > 95%, IM ≤ 2+ em ~90%; COAPT 5 anos: benefício durável. MATTERHORN: TEER não inferior à cirurgia, com menos complicações.
  • TMVR (Intrepid 5 anos; SAPIEN M3 — ENCIRCLE, braço único, IM ≤ 1+, dock transeptal reduzindo embolização e obstrução da VSVE): recomendação condicional, baixa certeza, no Heart Team. TEER na IM atrial: dados observacionais de redução de morte ou hospitalização.
Quadro de recomendações – Manejo clínico da insuficiência mitral secundária
ForteAlta

A GDMT otimizada para insuficiência cardíaca é recomendada como tratamento inicial para pacientes com IMS associada à disfunção ventricular esquerda.

ForteBaixa

A reavaliação clínica e ecocardiográfica após a otimização da GDMT é recomendada antes da consideração de terapias valvares cirúrgicas ou transcateter.

ForteAlta

A terapia de ressincronização cardíaca é recomendada para pacientes elegíveis, de acordo com as diretrizes para insuficiência cardíaca.

ForteBaixa

A avaliação da viabilidade miocárdica e da necessidade de revascularização deve ser considerada em pacientes com cardiopatia isquêmica e IMS.

CondicionalBaixa

O controle da FA e das condições associadas deve ser considerado em pacientes com insuficiência mitral secundária à FA.

ForteBaixa

Pacientes com IMS persistente e sintomática, apesar de GDMT otimizada, devem ser avaliados pelo Heart Team para definição da estratégia terapêutica.

FA: fibrilação atrial; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; IMS: insuficiência mitral secundária.

Tabela 8.12 – Recomendações para terapias cirúrgicas e transcateter na insuficiência mitral secundária
Cenário clínicoClasseNível de evidênciaIntervenção recomendada
IMS grave sintomática persistente apesar de GDMT otimizada, anatomia favorável e avaliação por Heart Team.ForteModeradaReparo mitral (TEER)
IMS grave em pacientes submetidos a CRM ou outra cirurgia cardíaca concomitante.ForteModeradaCorreção cirúrgica da IM durante a cirurgia principal
IMS grave sintomática apesar de GDMT otimizada e elegível para intervenção.FracaModeradaConsiderar TEER para redução de hospitalizações por insuficiência cardíaca e melhora prognóstica
IMS grave com anatomia desfavorável para TEER e risco cirúrgico aceitável.FracaBaixaConsiderar cirurgia mitral em pacientes selecionados
IMS grave com anatomia desfavorável para TEER e risco cirúrgico elevado ou proibitivo.FracaBaixaConsiderar TMVR com próteses dedicadas em centros especializados
IMS grave associada à insuficiência cardíaca avançada candidata a terapias avançadas.FracaBaixaIndividualizar a estratégia terapêutica em centros especializados
IMS atrial sintomática persistente apesar do tratamento clínico otimizado.FracaModeradaConsiderar TEER em pacientes selecionados após avaliação por Heart Team

CRM: cirurgia de revascularização miocárdica; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; IMS: insuficiência mitral secundária; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição valvar mitral transcateter.

🧮 IMS: gravidade e perfil “COAPT-like” × “MITRA-FR-like” (seções 8.1.5.3 a 8.1.5.6)
Contexto
Preencha EROA e VDFi.

🎓 Ferramenta didática: compara o paciente com as médias dos dois ensaios (COAPT: EROA 41 mm², VDFi 101 mL/m²; MITRA-FR: 31 mm² e 135 mL/m²), ilustrando o conceito de IM proporcional × desproporcional (Grayburn). Não é critério formal da diretriz.

Seguimento e síntese

📖 Texto de suporte — seções 8.1.5.7 a 8.1.5.9
  • Seguimento evita atraso terapêutico. Primária: FEVE, LVESD, AE, PSAP; FA nova, HP ou queda de função podem indicar intervenção mesmo sem sintomas. IMS: seguir também a cardiopatia (função, remodelamento, estabilidade, hospitalizações) — sem intervalos universais.
  • ETT é o principal método; estresse, RMC ou TC se discordância. Pós-TEER: IM residual/recorrente, gradiente transmitral, remodelamento; pós-TMVR: prótese, gradientes, trombose, reintervenções.
Tabela 8.13 – Intervalos sugeridos para seguimento clínico e ecocardiográfico da insuficiência mitral
Gravidade da IMAvaliação clínicaEcocardiografia
Leve3–5 anos3–5 anos
ModeradaAnual1–2 anos
Grave assintomática (FEVE > 60% e LVESD < 40 mm)6–12 meses6–12 meses
Grave próxima ao limiar de intervenção*3–6 meses3–6 meses
Após reparo cirúrgico ou TEERIndividualizadaBasal pós-procedimento e seguimento periódico
Após substituição valvar cirúrgica ou TMVRIndividualizadaBasal pós-procedimento e seguimento periódico

FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IM: insuficiência mitral; LVESD: diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição valvar mitral transcateter. *Pacientes com progressão das dimensões ventriculares, redução da FEVE, fibrilação atrial de início recente, hipertensão pulmonar, aumento da gravidade da regurgitação ou outros marcadores de progressão clínica.

Tabela 8.14 – Evidências contemporâneas com potencial impacto nas futuras diretrizes brasileiras de insuficiência mitral secundária
Estudo/temaAnoTipo de evidênciaPopulaçãoPrincipal achadoPotencial impacto em 2026
COAPT Post-Approval Study2023Registro de mundo realIM secundária tratada com TEERReproduziu os benefícios observados no COAPT em população não selecionadaValidação externa dos resultados do TEER
COAPT – 5 anos2023Seguimento de ECRIM secundária grave e insuficiência cardíaca sintomáticaBenefício sustentado do TEER com redução de hospitalizações por insuficiência cardíaca e mortalidadeConsolida o TEER como terapia modificadora de prognóstico
RESHAPE-HF22024ECRInsuficiência cardíaca sintomática com IM secundária moderada ou graveRedução significativa de hospitalizações por insuficiência cardíaca e mortalidade cardiovascularReforça recomendação favorável ao TEER
MATTERHORN2024ECRIM secundária grave elegível para cirurgiaTEER não inferior à cirurgia para desfechos clínicos compostosPossível expansão das indicações de TEER em pacientes cirúrgicos selecionados
ENCIRCLE2025Estudo observacional multicêntricoIM ≥ 3+, estenose mitral grave ou calcificação do anel mitralTroca valvar (TMVR), prótese SAPIEN M3Fronteira terapêutica para pacientes não elegíveis para cirurgia ou TEER
AFMR/TEER (REVEAL-AFMR/OCEAN-Mitral)2026Estudo observacional multicêntricoIM funcional atrial moderada-graveTEER associado à redução de morte ou hospitalização por insuficiência cardíaca em comparação ao tratamento clínicoPotencial incorporação da AFMR como fenótipo terapêutico específico
TMVR – Intrepid (seguimento de 5 anos)2026Seguimento prospectivoIM significativa e alto risco cirúrgicoEliminação sustentada da IM, baixos gradientes transvalvares e melhora funcional duradoura entre sobreviventesFortalece TMVR como alternativa para anatomias desfavoráveis à cirurgia e ao TEER
TMVR – Plataformas contemporâneas (SUMMIT, APOLLO, Tendyne)2024–2026Estudos prospectivos e registrosPacientes com IM significativa e anatomia complexaElevadas taxas de sucesso técnico e correção quase completa da regurgitação mitralPrincipal fronteira terapêutica para pacientes não elegíveis ao reparo mitral transcateter TEER

AFMR: insuficiência mitral funcional atrial; ECR: ensaio clínico randomizado; IM: insuficiência mitral; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição transcateter da valva mitral.

Tabela 8.15 – Principais diferenças entre insuficiência mitral primária e secundária
DomínioInsuficiência mitral primáriaInsuficiência mitral secundária
Mecanismo da doençaAlteração estrutural da valva mitralRemodelamento ventricular e/ou atrial com valva estruturalmente normal
Substrato predominanteProlapso valvar mitral, degeneração mixomatosa, ruptura de cordas tendíneas, doença reumáticaCardiomiopatia isquêmica ou não isquêmica, remodelamento ventricular esquerdo, fibrilação atrial
Classificação de CarpentierTipo II (movimento excessivo) predominanteTipo IIIb (restrição sistólica) predominante
Determinante prognóstico principalGravidade da lesão valvarGravidade da doença miocárdica subjacente
Evolução naturalProgressão da doença valvarProgressão da insuficiência cardíaca e remodelamento ventricular
Objetivo terapêutico principalCorrigir a lesão valvarTratar a doença ventricular e reduzir a regurgitação residual
Objetivo da intervençãoCorreção definitiva da lesão valvarRedução da carga hemodinâmica e melhora dos desfechos clínicos
Tratamento inicialAvaliação para reparo ou substituição valvarGDMT otimizada para insuficiência cardíaca
Papel da cirurgiaEstratégia de referência quando indicadaMais seletiva e dependente do contexto clínico
Papel do TEERAlternativa para pacientes de alto risco cirúrgicoTerapia central em pacientes selecionados após GDMT otimizada
Papel do TMVREstratégia emergente para anatomias complexas ou não reparáveisEstratégia emergente com potencial expansão futura
Papel da imagemDefinição anatômica e reparabilidade valvarQuantificação da regurgitação, avaliação do remodelamento cardíaco e seleção terapêutica
Marcadores de riscoSintomas, FEVE, LVESD, hipertensão pulmonar e fibrilação atrialFEVE, volumes ventriculares, remodelamento, hospitalizações por insuficiência cardíaca e mortalidade
SeguimentoBaseado na progressão da regurgitação e no surgimento de critérios de intervençãoBaseado na evolução da insuficiência cardíaca, no remodelamento cardíaco e na resposta ao tratamento
Heart TeamDefinição da estratégia valvarIntegração entre insuficiência cardíaca, imagem cardiovascular, intervenção estrutural e cirurgia cardíaca

FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; LVESD: diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição valvar mitral transcateter.

🎓 Interpretação didática

No idoso, a pergunta inicial é “primária ou secundária?”. Octogenário com flail posterior, FEVE 58% e LVESD 42 mm tem IM primária grave com gatilho de intervenção — reparo em centro experiente se o risco permitir, TEER se for alto. Já a idosa com FA permanente, AE gigante e FE preservada tem IM atrial: começa-se pelo controle da FA e da IC; TEER é recomendação fraca, depois do Heart Team.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seção 8.1; Tabelas 8.1 a 8.15; quadro de recomendações.

14Estenose mitral e estenose aórtica no idoso

Diretriz · seções 8.2 a 8.8

Na estenose mitral do idoso, separe a reumática (VMPCB se anatomia favorável) da degenerativa por calcificação anular (sem fusão comissural, VMPCB não funciona: tratamento clínico e intervenção só em refratários). Na estenose aórtica, classifique o fenótipo hemodinâmico, use o escore de cálcio na discordância, e decida TAVI × SAVR pelo Heart Team com a idade de 70 anos como referência — sempre medindo fragilidade.

Estenose mitral reumática

📖 Texto de suporte — seções 8.2 e 8.2.1
  • A doença reumática é a principal causa, mas o envelhecimento aumenta a forma degenerativa. Reumática: espessamento, abertura em dome, fusão comissural e acometimento subvalvar; não é rara em idosos.
  • Importante: AVM ≤ 1,5 cm². Com sintomas ou complicadores (PSAP > 50 mmHg ou FA de início recente), intervenção indicada; tratamento clínico só para alívio até a intervenção, salvo contraindicação (baixa expectativa de vida, fragilidade, comorbidades graves).
  • Fármacos: diurético de alça (furosemida) e betabloqueador; com FA e contraindicação ao betabloqueador, BCC não di-hidropiridínico ou digoxina, mantendo FC ~50–60 bpm. Anticoagulação em qualquer FA (paroxística, persistente ou permanente) — varfarina superior aos DOACs nesse contexto.
  • VMPCB é o método de escolha (menos invasiva, internação menor, tão eficaz quanto a comissurotomia aberta em selecionados), se: sem trombo no AE ao ETE; IM no máximo leve; morfologia favorável — escore de Block ≤ 8 e sem calcificação comissural.
  • IT funcional moderada a grave associada: considerar tratá-la também (percutânea ou cirúrgica).
Quadro de recomendações – Estenose mitral: VMPCB, cirurgia aberta e etiologia degenerativa

Valvuloplastia mitral percutânea por cateter-balão (8.2.1.1)

ForteModerada

Recomenda-se a VMPCB em pacientes sintomáticos (classe funcional NYHA II–IV) com EM grave (AVM ≤ 1,5 cm²) que preencham os critérios de elegibilidade para o procedimento.

CondicionalModerada

Sugere-se a VMPCB em pacientes assintomáticos com EM grave (AVM ≤ 1,5 cm²), elegíveis para o procedimento, que apresentem pressão sistólica da artéria pulmonar > 50 mmHg.

CondicionalBaixa

Sugere-se a VMPCB em pacientes assintomáticos com EM grave (AVM ≤ 1,5 cm²), elegíveis para o procedimento, que apresentem fibrilação atrial de início recente.

CondicionalBaixa

Sugere-se a VMPCB em pacientes gravemente sintomáticos (classe funcional NYHA III–IV), com EM grave, anatomia valvar subótima para o procedimento e que não sejam candidatos a cirurgia ou apresentem alto risco cirúrgico.

Cirurgia valvar aberta (8.2.1.2)

ForteModerada

Recomenda-se o tratamento cirúrgico em pacientes gravemente sintomáticos (classe funcional NYHA III–IV) com estenose mitral grave que não sejam candidatos a VMPBC.

ForteModerada

Recomenda-se o tratamento cirúrgico em pacientes gravemente sintomáticos (classe funcional NYHA III–IV) com estenose mitral grave após falha prévia da VMPBC.

ForteModerada

Recomenda-se o tratamento cirúrgico em pacientes gravemente sintomáticos (classe funcional NYHA III–IV) com estenose mitral grave que necessitem de outro procedimento cirúrgico cardíaco concomitante.

Estenose mitral degenerativa (8.2.3)

Condicional a favorBaixa

Intervenção valvar em pacientes gravemente sintomáticos e cuidadosamente selecionados.

AVM: área valvar mitral; EM: estenose mitral; NYHA: New York Heart Association; VMPCB/VMPBC: valvuloplastia (valvotomia) mitral percutânea por cateter-balão (grafias do original).

Estenose mitral degenerativa (calcificação do anel)

📖 Texto de suporte — seções 8.2.2 e 8.2.3
  • Sem fusão comissural: a calcificação do anel avança para a base dos folhetos e dá geometria tubular à valva. Muitas comorbidades ateroscleróticas.
  • Calcificação anular em 8–15% da população e > 40% dos idosos, mas poucos têm estenose significativa. Mortalidade elevada: 22% em 1 ano e 56% em 5 anos. O grau de calcificação não prediz a progressão.
  • Gravidade e tratamento clínico iguais aos da reumática, mas a VMPCB não é indicada. Tratamento medicamentoso tem papel central; intervenção reservada a refratários, após Heart Team e decisão compartilhada.
  • Cirurgia convencional: altamente complexa (ruptura do anel, sutura difícil). Transcateter: valve-in-MAC, bioprótese transcateter ancorada na calcificação — mortalidade em 1 ano de 34,5%.

Estenose aórtica: epidemiologia e ecocardiograma

📖 Texto de suporte — seções 8.3.1 a 8.3.6
  • Valvopatia mais prevalente no idoso. Grave sintomática não tratada: mortalidade de até 50% em 1–2 anos. ~13,6 milhões de casos e ~150.000 óbitos/ano no mundo. Prevalência 1–2% > 65 anos e 3–8% ≥ 75 anos (> 5% com formas graves). No Brasil, ~3% dos ~35 milhões de idosos (~1 milhão de casos). Subdiagnóstico, subtratamento e acesso restrito à TAVI.
  • ETT de primeira linha: etiologia, mobilidade e cálcio, Vmax, gradiente médio (Bernoulli), AVE (continuidade; limitações na medida da VSVE), HVE, disfunção diastólica, hipertensão pulmonar; classificação do dano cardíaco extravalvar tem valor prognóstico.
  • Concordante — alto gradiente: GM ≥ 40 mmHg, Vmax ≥ 4,0 m/s e AVE ≤ 1,0 cm² (≤ 0,6 cm²/m²): grave independentemente da FEVE ou do fluxo. Muito grave: Vmax ≥ 5,0 m/s ou GM ≥ 60 mmHg.
  • Discordantes (AVE ≤ 1,0 com gradiente baixo): avaliar fluxo pelo IVS (baixo fluxo ≤ 35 mL/m²) — ver Tabela 8.16.
  • BFBG com FE reduzida: eco com dobutamina (até 20 mcg/kg/min). Grave verdadeira: área fixa ≤ 1,0 cm² e Vmax ≥ 4 m/s (ou GM ≥ 40) em algum nível de fluxo. Pseudoestenose: área aumenta com o fluxo. Sem aumento do volume sistólico ≥ 20% = ausência de reserva contrátil/de fluxo.
  • Índice adimensional (VTI VSVE/VTI aórtico): normal ~1,0; ≤ 0,25 compatível com grave. SLG com valor absoluto < 15% (> −15%) → pior prognóstico na grave assintomática. ETE: morfologia, planimetria, obstrução subvalvar. Medir com o paciente normotenso (hipertensão subestima a gravidade).
Tabela 8.16 – Principais fenótipos hemodinâmicos da estenose aórtica baseados em parâmetros ecocardiográficos
Fenótipo hemodinâmicoGradiente médioAVEIVSFEVECaracterísticas principais
EAo de alto gradiente (clássica)≥ 40 mmHg≤ 1,0 cm²Geralmente normalPreservada ou reduzidaForma típica de EAo grave; diagnóstico direto quando parâmetros são concordantes.
EAo de baixo fluxo/baixo gradiente com FEVE reduzida< 40 mmHg≤ 1,0 cm²≤ 35 mL/m²< 50%Pode representar estenose verdadeira grave ou pseudoestenose; ecocardiografia de estresse com dobutamina é útil.
EAo de baixo fluxo/baixo gradiente com FEVE preservada (baixo fluxo paradoxal)< 40 mmHg≤ 1,0 cm²≤ 35 mL/m²≥ 50%Associada a remodelamento concêntrico e cavidade ventricular pequena.
EAo de fluxo normal/baixo gradiente< 40 mmHg≤ 1,0 cm²> 35 mL/m²≥ 50%Frequentemente representa estenose moderada ou erro de mensuração.
EAo discordante de alto gradiente≥ 40 mmHg> 1,0 cm²VariávelVariávelGeralmente indica EAo grave; avaliar possíveis estados reversíveis de alto fluxo.

AVE: área valvar efetiva; EAo: estenose aórtica; IVS: índice de volume sistólico; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo.

🧭 Fluxograma interativo — fenótipo hemodinâmico e conduta na estenose aórtica do idoso (Tabela 8.16 e Tabela de Recomendações)
🧮 Classificador ecocardiográfico da estenose aórtica (seções 8.3.3 a 8.3.7)
Sexo (para o escore de cálcio)
Preencha Vmax, gradiente médio e AVE.

Tomografia, teste de esforço, ressonância, cateterismo e biomarcadores

📖 Texto de suporte — seções 8.3.7 a 8.3.11
  • Escore de cálcio valvar (TC): > 2.000 UA (homens) e > 1.200 UA (mulheres) fortemente indicativos de grave; > 3.000/> 1.600 aumentam a especificidade; < 1.600/< 800 tornam grave improvável. Cautela em bicúspide, amiloidose e estenose fibrótica (pós-reumática, actínica, inflamatória); TC com contraste avalia fibrose (útil em mulheres).
  • TC: aorta (seios, junção sinotubular, ascendente — sobretudo bicúspide), morfologia e distribuição do cálcio, escolha SAVR × TAVI, prótese, anel, aorta em porcelana, acessos; ATCC ± FFR-CT como alternativa à angiografia no preparo.
  • Teste de esforço para estratificar o “assintomático” (sintomas ocultos, capacidade reduzida, resposta pressórica anormal). Não fazer no sintomático. Eco de estresse farmacológico se não conseguir se exercitar; ergoespirometria para diferenciar limitação cardíaca, pulmonar ou descondicionamento.
  • RMC: estrutura, volumes, função e massa quando o eco não basta; fibrose (realce tardio); aorta seriada na bicúspide; alternativa à TC no planejamento se contraindicação a contraste/radiação; não usar para quantificar a gravidade (velocidades menos acuradas que o Doppler).
  • Cateterismo: só se não invasivos inconclusivos, discordância clínica–eco, ou coronariografia antes da SAVR.
  • Peptídeos: valor prognóstico (progressão, intervenção, morte); indicação baseada neles depende da integração clínica (condicional, moderada).
  • ATTR-CA em 10–16% dos pacientes de TAVI, sobretudo baixo fluxo/baixo gradiente; pior prognóstico, mas há melhora sintomática e funcional após intervenção.
Quadro de recomendações – Métodos diagnósticos na estenose aórtica

Tomografia computadorizada (8.3.7)

ForteAlta

Recomenda-se a utilização da TC para quantificar a calcificação valvar e confirmar a gravidade da estenose aórtica em pacientes com discordância entre os parâmetros ecocardiográficos, particularmente na estenose aórtica de baixo fluxo e baixo gradiente.

ForteAlta

Recomenda-se a utilização dos escores de cálcio valvar obtidos por TC como ferramenta complementar para a definição da gravidade da estenose aórtica calcificada, considerando limiares específicos para o sexo.

ForteModerada

Os escores de cálcio valvar devem ser interpretados com cautela em pacientes nos quais a estenose aórtica grave possa ocorrer com baixa carga de calcificação, como na presença de válvula aórtica bicúspide, amiloidose cardíaca e estenose predominantemente fibrótica (pós-reumática, induzida por radiação ou inflamatória).

CondicionalModerada

Sugere-se a utilização da TC com contraste para avaliar a fibrose dos folhetos valvares como medida complementar da gravidade anatômica da estenose aórtica, especialmente em mulheres ou quando houver discrepância entre os achados clínicos e de imagem.

ForteModerada

Recomenda-se a realização de TC para avaliação sistemática da raiz da aorta e da aorta torácica em pacientes com suspeita ou evidência de doença da aorta, particularmente na presença de válvula aórtica bicúspide, incluindo a mensuração dos seios de Valsalva, da junção sinotubular e da aorta ascendente.

ForteModerada

Recomenda-se a utilização da TC como método complementar à ecocardiografia para caracterizar a morfologia valvar e a distribuição da calcificação e para planejar a estratégia de intervenção, incluindo a seleção da prótese e da via de tratamento (cirúrgica ou transcateter).

ForteAlta

Recomenda-se a realização de TC como parte da avaliação pré-procedimento de pacientes candidatos a implante transcateter de valva aórtica, incluindo a avaliação do anel valvar, da aorta e dos acessos vasculares para o planejamento do procedimento.

CondicionalModerada

Sugere-se a utilização da angiotomografia coronariana sincronizada ao eletrocardiograma, associada à FFR-CT, quando disponível, como alternativa à angiografia coronariana invasiva para a avaliação da doença arterial coronariana em pacientes selecionados durante o preparo para a intervenção valvar.

Teste de esforço (8.3.8)

ForteModerada

Recomenda-se a realização de teste de esforço para a estratificação de risco em pacientes com estenose aórtica grave aparentemente assintomáticos ou com sintomas inespecíficos, com o objetivo de identificar sintomas ocultos, redução da capacidade funcional e resposta anormal da pressão arterial ao exercício.

ForteModerada

Recomenda-se a substituição valvar aórtica em pacientes com estenose aórtica grave que desenvolvam sintomas claramente relacionados à valvopatia durante o teste de esforço.

CondicionalModerada

Sugere-se considerar a substituição valvar aórtica em pacientes com estenose aórtica grave aparentemente assintomáticos que apresentem resposta pressórica anormal (queda da pressão arterial sistólica > 20 mmHg) ou baixa tolerância ao exercício durante o teste de esforço.

CondicionalModerada

Sugere-se a realização de ecocardiografia sob estresse farmacológico (por exemplo, com dobutamina) em pacientes com estenose aórtica que não consigam realizar o teste de esforço, para avaliação da resposta hemodinâmica, da função ventricular esquerda e do aparecimento de sintomas.

CondicionalBaixa

Sugere-se a realização de teste cardiopulmonar de exercício como método complementar para diferenciar limitações funcionais de origem cardíaca, pulmonar ou decorrentes de descondicionamento físico e para refinar a estratificação de risco em pacientes com estenose aórtica.

Ressonância magnética cardíaca (8.3.9)

ForteModerada

Recomenda-se a realização de RMC em pacientes com estenose aórtica quando a ecocardiografia não fornecer caracterização adequada da estrutura e da função cardíaca, para avaliação dos volumes ventriculares, da função sistólica e da massa ventricular.

CondicionalModerada

Sugere-se a utilização da RMC para avaliação da fibrose miocárdica, especialmente por meio do realce tardio com gadolínio, como ferramenta complementar na estratificação de risco e na tomada de decisão clínica em pacientes selecionados com estenose aórtica grave.

ForteModerada

Recomenda-se a utilização da RMC para avaliação seriada das dimensões da aorta torácica, particularmente em pacientes com válvula aórtica bicúspide, como alternativa aos métodos que envolvem exposição cumulativa à radiação ionizante.

CondicionalModerada

Sugere-se a utilização da RMC como alternativa à tomografia computadorizada no planejamento de intervenções transcateter em pacientes selecionados, especialmente quando houver contraindicação ao uso de contraste iodado ou à exposição à radiação.

Forte (não utilizar)Moderada

Recomenda-se não utilizar a RMC para quantificar a gravidade da estenose aórtica, devido à menor acurácia na estimativa das velocidades transvalvares em comparação com a ecocardiografia Doppler.

Peptídeos natriuréticos e amiloidose (8.3.11)

CondicionalModerada

Sugere-se a dosagem de peptídeos natriuréticos (BNP ou NT-proBNP) na avaliação de pacientes com estenose aórtica, particularmente naqueles com sintomas de etiologia incerta ou múltiplas comorbidades, para auxiliar na diferenciação da origem dos sintomas e na estratificação prognóstica.

CondicionalModerada

A substituição valvar aórtica precoce pode ser considerada em pacientes assintomáticos com estenose aórtica grave que apresentem níveis persistentemente elevados de peptídeos natriuréticos, especialmente quando superiores a três vezes o limite superior de referência ajustado para idade e sexo, na ausência de outras causas para essa elevação.

CondicionalModerada

A investigação de ATTR-CA pode ser considerada em pacientes com estenose aórtica grave, especialmente na presença de fenótipos de baixo fluxo e/ou baixo gradiente ou de achados clínicos e ecocardiográficos sugestivos, uma vez que sua identificação pode contribuir para melhor compreensão da fisiopatologia, estratificação de risco e planejamento terapêutico.

CondicionalModerada

A presença de ATTR-CA isoladamente não deve ser considerada contraindicação à intervenção valvar em pacientes com estenose aórtica grave. Sugere-se que a decisão entre implante transcateter ou substituição cirúrgica da valva aórtica seja individualizada, preferencialmente em discussão multidisciplinar, considerando estado funcional, fragilidade, comorbidades, expectativa de benefício clínico e preferências do paciente.

ATTR-CA: amiloidose cardíaca por transtirretina; BNP: peptídeo natriurético tipo B; FFR-CT: reserva de fluxo fracionada derivada de TC; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B; RMC: ressonância magnética cardíaca; TC: tomografia computadorizada.

Tratamento: clínico, grave sintomática, assintomática e moderada

📖 Texto de suporte — seções 8.3.12 a 8.6
  • Nenhum fármaco modifica a história natural. Tratar HAS (preferir bloqueio do SRAA, titulando devagar); melhora clínica não deve atrasar a intervenção na grave sintomática com IC; estatina não previne progressão.
  • Biopróteses dominam (sem anticoagulação crônica, durabilidade inversamente proporcional à idade); mecânicas duram mais, mas exigem anticoagulação (tromboembolismo e sangramento) — Figura 8.1.
  • Assintomática grave: EARLY TAVR (901): TAVI precoce reduziu morte, AVC e hospitalização CV não planejada em 5 anos; EVoLVeD (fibrose na RMC): sem redução de morte ou hospitalização; RECOVERY (muito grave): menos morte CV com cirurgia precoce; AVATAR: menos desfechos compostos. Metanálise: menos hospitalização CV, IC e AVC, sem efeito em mortalidade (heterogeneidade). Precoce em selecionados de baixo risco com marcadores de alto risco, no Heart Team.
  • Moderada: troca isolada não indicada; considerar se concomitante a CRM, aorta ou outra valva. TAVR UNLOAD (moderada + ICFEr): sem redução de desfechos maiores, mas melhor qualidade de vida. Desigualdade de acesso à TAVI; encaminhamento tardio frequente.
Fatores na escolha entre SAVR e TAVI: idade, expectativa de vida, durabilidade da prótese, preferências, comorbidades e características anatômicas e clínicas; SAVR favorecida em mais jovens, baixo risco, necessidade de durabilidade, anatomia desfavorável à TAVI ou cirurgia concomitante; TAVI favorecida em idade mais avançada, risco intermediário ou alto, comorbidades, acesso transfemoral favorável e preferência por procedimento menos invasivo; avaliação multidisciplinar e decisão compartilhada.
Figura 8.1 – Fatores envolvidos na escolha entre substituição cirúrgica (SAVR) ou transcateter (TAVI) da valva aórtica.Toque na imagem para ampliar.
Quadro de recomendações – Prótese, estenose aórtica grave sintomática, assintomática e opções de tratamento

Tipo de prótese (8.3.13)

ForteModerada

Recomenda-se o uso de prótese mecânica em pacientes mais jovens, tipicamente com menos de 60 anos, devido à sua maior durabilidade.

ForteModerada

Recomenda-se o uso de bioprótese em pacientes com mais de 65 anos, nos quais sua durabilidade tende a ser suficiente ao longo da expectativa de vida, evitando a necessidade de anticoagulação oral crônica.

CondicionalModerada

Sugere-se que a escolha entre prótese mecânica e bioprótese em pacientes entre 60 e 65 anos seja individualizada por meio de decisão compartilhada entre a equipe assistencial e o paciente, considerando expectativa de vida, risco de reintervenção, risco de sangramento, necessidade e capacidade de manter anticoagulação, comorbidades, estilo de vida e preferências do paciente.

Estenose aórtica grave sintomática (8.4)

ForteAlta

Recomenda-se intervenção valvar precoce em pacientes com EAo grave sintomática, expectativa de vida superior a 1 ano e probabilidade razoável de recuperação funcional.

ForteAlta

Recomenda-se a substituição valvar aórtica em todos os pacientes sintomáticos elegíveis com EAo grave de alto gradiente (gradiente médio ≥ 40 mmHg, velocidade máxima ≥ 4,0 m/s e área valvar efetiva ≤ 1,0 cm² ou ≤ 0,6 cm²/m²).

ForteModerada

Recomenda-se a substituição valvar em pacientes com EAo de baixo fluxo/baixo gradiente e FEVE reduzida, após confirmação de EAo verdadeiramente grave por ecocardiografia de estresse com dobutamina e/ou tomografia computadorizada para quantificação do cálcio valvar.

ForteAlta

Recomenda-se tratamento clínico otimizado, sem intervenção valvar, em pacientes com pseudoestenose aórtica.

CondicionalModerada

Sugere-se a substituição valvar em pacientes com EAo de baixo fluxo/baixo gradiente e FEVE preservada (baixo fluxo paradoxal), após confirmação da gravidade da estenose por avaliação multimodal e da relação causal entre os sintomas e a valvopatia.

ForteModerada

Recomenda-se seguimento clínico e ecocardiográfico periódico em pacientes com EAo de fluxo normal/baixo gradiente e FEVE preservada, quando a avaliação multimodal não confirmar estenose aórtica verdadeiramente grave.

Estenose aórtica grave assintomática (8.5)

ForteAlta

Recomenda-se intervenção valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e fração de ejeção do ventrículo esquerdo < 50%, na ausência de outra causa identificável para a disfunção ventricular.

CondicionalModerada

Sugere-se considerar substituição valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e marcadores prognósticos adversos, incluindo velocidade máxima transvalvar muito elevada (≥ 5,0–5,5 m/s), níveis significativamente elevados de peptídeos natriuréticos, calcificação valvar acentuada ou progressão rápida da estenose.

ForteModerada

Recomenda-se vigilância clínica e ecocardiográfica rigorosa em pacientes assintomáticos com EAo grave que não apresentem disfunção ventricular ou marcadores prognósticos adversos que justifiquem intervenção precoce.

Opções de tratamento (8.6.1)

ForteModerada

A escolha entre SAVR e TAVI deve ser realizada por decisão compartilhada no contexto do Heart Team, considerando idade, expectativa de vida, durabilidade da prótese, comorbidades, anatomia valvar e vascular e as preferências do paciente.

CondicionalModerada

Sugere-se preferência por TAVI em pacientes mais idosos ou com risco cirúrgico aumentado, enquanto a SAVR permanece preferível em pacientes mais jovens, com baixo risco cirúrgico, maior expectativa de vida ou anatomia desfavorável ao procedimento transcateter.

ForteBaixa

A escolha do tipo de prótese cirúrgica (biológica ou mecânica) deve ser individualizada, considerando expectativa de vida, risco de anticoagulação, probabilidade de reintervenção e preferências do paciente.

ForteBaixa

Recomenda-se o uso de bioprótese em pacientes com contraindicação, baixa adesão ou recusa ao uso de anticoagulação oral.

CondicionalModerada

Sugere-se preferência por próteses mecânicas em pacientes mais jovens (tipicamente < 60 anos) sem contraindicação à anticoagulação, considerando sua maior durabilidade.

CondicionalModerada

Sugere-se individualização da escolha entre prótese mecânica ou biológica em pacientes entre 50 e 65 anos, considerando as preferências do paciente e o perfil individual de risco.

CondicionalModerada

Sugere-se preferência por biopróteses em pacientes com mais de 65 anos, considerando a durabilidade esperada da prótese e a possibilidade de evitar anticoagulação oral crônica.

CondicionalModerada

Sugere-se considerar o procedimento de Ross em pacientes jovens selecionados, particularmente quando a anticoagulação é indesejável ou contraindicada, desde que realizado em centros com experiência na técnica.

CondicionalBaixa

Sugere-se considerar a valvuloplastia aórtica por balão em situações específicas, como ponte para TAVI ou cirurgia em pacientes com estenose aórtica grave descompensada ou em pacientes que necessitam de cirurgia não cardíaca urgente de alto risco.

EAo: estenose aórtica; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; SAVR: substituição valvar aórtica cirúrgica; TAVI: implante de válvula aórtica transcateter. Nota de fidelidade: na diagramação original, a recomendação sobre valvuloplastia aórtica por balão aparece com força “Condicional” em célula verde.

Prótese cirúrgica, TAVI × SAVR, fragilidade e bicúspide

📖 Texto de suporte — seções 8.7 a 8.7.5
  • Mecânica × biológica na SAVR: decisão compartilhada (valores, expectativa de vida, anticoagulação, reintervenções).
  • TAVI é a estratégia predominante para EAo tricúspide na Europa e América do Norte em todos os perfis de risco (não inferior e às vezes superior); ensaios com 70–85 anos, pouca representação < 70 anos. TAVI < 65 anos cresce, com possível maior mortalidade em 5 anos que a cirurgia.
  • Fragilidade: determinante central, independente dos escores; mais mortalidade, complicações, internação e pior recuperação. Registro de TAVI: excesso de mortalidade em nonagenários foi não cardiovascular; idade ≥ 90 não foi preditor independente — fragilidade e desnutrição foram.
  • Bicúspide: EAo mais precoce, aortopatia. NOTION-2 (baixo risco): mais eventos com TAVI; BIVOLUTX: bons resultados precoces. Metanálises: mais eventos em 2 anos (TAVI 5.901 × SAVR 12.427) e melhor sobrevida tardia com SAVR (15 estudos, 22.085); Medicare: mais morte e AVC em 5 anos com TAVI. Nenhum ECR específico.
  • Complicações: TAVI — mais complicações vasculares, regurgitação paravalvar e marcapasso (sobretudo autoexpansíveis), mas recuperação mais rápida; SAVR — mais sangramento maior, LRA e FA nova. Endocardite pós-TAVI: 0,3–2,0/100 pacientes-ano (semelhante à SAVR), alta mortalidade (~2/3 morrem em 5 anos).
  • Durabilidade: sem diferença sistemática até 10 anos. Valve-in-valve (TAV-in-SAV, TAV-in-TAV) tem menor risco que redo SAVR, mas mais mismatch (TAV-in-SAV), risco de obstrução coronariana (neo-skirt, seios estreitos, sequestro sinusal) e acesso coronariano difícil; explante cirúrgico de TAVI: mortalidade > 10%.
Quadro de recomendações – Prótese cirúrgica, modalidade, fragilidade e valva bicúspide

Escolha da prótese na SAVR (8.7)

ForteBaixa

A escolha entre prótese mecânica e biológica para substituição valvar aórtica cirúrgica deve ser baseada em decisão compartilhada, considerando valores e preferências do paciente, expectativa de vida, riscos e implicações da anticoagulação oral, além da probabilidade e impacto de reintervenções ao longo do tempo.

ForteBaixa

Recomenda-se o uso de prótese biológica em pacientes de qualquer idade com contraindicação ao uso de anticoagulantes orais, dificuldade de manejo ou recusa ao uso desses fármacos.

CondicionalModerada

Sugere-se preferência por prótese mecânica em pacientes com menos de 50 anos, na ausência de contraindicação à anticoagulação oral, devido à sua maior durabilidade.

CondicionalModerada

Sugere-se individualização da escolha entre prótese mecânica e biológica em pacientes entre 50 e 65 anos, considerando fatores clínicos, risco hemorrágico, estilo de vida, expectativa de vida e preferências do paciente.

CondicionalModerada

Sugere-se preferência por prótese biológica em pacientes com mais de 65 anos, considerando a menor probabilidade de necessidade de reintervenção ao longo da vida e a possibilidade de evitar anticoagulação oral crônica.

Transcateter × cirúrgica (8.7.1)

CondicionalModerada

Sugere-se utilizar a idade de 70 anos como referência prática para auxiliar na escolha entre TAVI e SAVR, sempre integrada a uma avaliação clínica abrangente.

ForteModerada

A decisão entre TAVI e SAVR deve ser individualizada no contexto do Heart Team, considerando expectativa de vida, comorbidades, fragilidade, características anatômicas e implicações do manejo ao longo da vida.

ForteModerada

Recomenda-se a realização de angiotomografia computadorizada para planejamento do procedimento e definição da estratégia terapêutica em pacientes candidatos a intervenção valvar aórtica.

ForteModerada

Recomenda-se SAVR em pacientes nos quais o acesso transfemoral para TAVI não seja viável.

CondicionalBaixa

Sugere-se considerar acessos alternativos para TAVI em pacientes selecionados sem possibilidade de acesso transfemoral, considerando que as evidências disponíveis são predominantemente observacionais.

ForteModerada

Recomenda-se preferência por SAVR em pacientes com características anatômicas desfavoráveis ao TAVI, incluindo anel aórtico incompatível com dispositivos disponíveis, calcificação extensa do anel aórtico ou da via de saída do ventrículo esquerdo (com risco aumentado de regurgitação paravalvar ou ruptura) e alto risco de obstrução coronariana.

CondicionalBaixa

Sugere-se considerar TAVI em pacientes com condições que aumentem o risco cirúrgico, como aorta em porcelana, deformidades torácicas significativas ou cirurgia prévia de revascularização miocárdica com enxertos pérvios, quando tecnicamente apropriado.

Fragilidade (8.7.2)

ForteModerada

Recomenda-se incorporar a avaliação sistemática da fragilidade na tomada de decisão entre TAVI e SAVR, especialmente no contexto da cardiogeriatria.

CondicionalBaixa

Sugere-se utilizar instrumentos validados para avaliação de fragilidade, incluindo o fenótipo de Fried, a Escala de Fragilidade Clínica, o EFT e índices multidimensionais que considerem desempenho físico, cognição, funcionalidade e estado nutricional.

CondicionalModerada

Sugere-se a utilização do EFT, quando disponível, devido à sua melhor capacidade discriminativa em comparação com outras escalas de fragilidade.

CondicionalBaixa

Sugere-se considerar TAVI em pacientes com fragilidade moderada a grave, quando a intervenção estiver indicada, devido à menor agressão fisiológica e potencial recuperação mais rápida em comparação à cirurgia.

CondicionalBaixa

Em pacientes com fragilidade avançada, especialmente quando associada a dependência funcional significativa ou comorbidades graves, sugere-se uma abordagem centrada no paciente, considerando limitação de benefício esperado da intervenção e a possibilidade de cuidados paliativos quando apropriado.

Valva aórtica bicúspide (8.7.3)

ForteModerada

Recomenda-se a substituição valvar aórtica cirúrgica como estratégia preferencial para o tratamento da estenose aórtica em valva bicúspide, especialmente em pacientes mais jovens, na presença de aortopatia associada ou de morfologia valvar desfavorável.

CondicionalBaixa

Sugere-se considerar o implante transcateter de valva aórtica em pacientes com estenose aórtica em valva bicúspide e risco cirúrgico elevado ou proibitivo, desde que apresentem anatomia favorável e após avaliação individualizada pelo Heart Team.

Durabilidade e reintervenções (8.7.5)

ForteModerada

Recomenda-se SAVR como estratégia preferencial em pacientes com menos de 70 anos e baixo risco cirúrgico, considerando aspectos de manejo ao longo da vida e a limitada disponibilidade de dados randomizados nessa população.

ForteAlta

Recomenda-se TAVI como modalidade preferencial em pacientes com 70 anos ou mais com estenose aórtica em valva tricúspide, desde que apresentem anatomia favorável e acesso transfemoral viável, visando redução de complicações precoces e recuperação mais rápida.

ForteModerada

Recomenda-se que a escolha entre TAVI e SAVR em pacientes candidatos à bioprótese aórtica seja individualizada no contexto do Heart Team, considerando risco procedimental (incluindo anatomia e comorbidades), expectativa de vida, implicações do manejo ao longo da vida, possibilidade e complexidade de futuras reintervenções e preferências do paciente.

EFT: Essential Frailty Toolset; SAVR: substituição valvar aórtica cirúrgica; TAVI: implante transcateter de válvula aórtica. Notas de fidelidade: (1) o limite etário para preferir prótese mecânica aparece como < 60 anos (seção 8.3.13 e 8.6.1) e < 50 anos (seção 8.7) no original; (2) a recomendação SAVR < 70 anos aparece com certeza “Moderada” em célula amarela no original.

🧮 TAVI × SAVR no idoso — checklist da diretriz (seções 8.6.1 a 8.7.7)
Características
Informe a idade.

Resume as recomendações do capítulo; a decisão é sempre do Heart Team com o paciente e a família.

Tabela de Recomendações (8.7.6–8.7.7) – Testes diagnósticos e indicações de intervenção na estenose aórtica, adaptadas ao GRADE para o idoso
RecomendaçãoForça da recomendaçãoCerteza da evidência
Testes diagnósticos em pacientes com estenose valvar aórtica grave
Em pacientes com sinais ou sintomas de estenose aórtica ou com valva aórtica bicúspide, o ecocardiograma transtorácico está indicado para o diagnóstico preciso da etiologia, a avaliação da gravidade hemodinâmica e da função sistólica do ventrículo esquerdo e para a determinação do prognóstico e do momento ideal para a intervenção valvar.ForteAlta
Em pacientes com suspeita de estenose aórtica grave de baixo fluxo e baixo gradiente, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo preservada, recomenda-se a otimização do controle da pressão arterial antes da avaliação da gravidade da estenose por ecocardiograma transtorácico, ecocardiografia transesofágica, cateterismo cardíaco ou ressonância magnética cardíaca.ForteBaixa
Em pacientes com suspeita de estenose aórtica grave de baixo fluxo e baixo gradiente, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo reduzida, o teste de estresse com dobutamina em baixa dose, associado à avaliação ecocardiográfica ou hemodinâmica invasiva, é razoável para melhor definir a gravidade da estenose e avaliar a reserva contrátil.FracaBaixa
Em pacientes com suspeita de estenose aórtica grave de baixo fluxo e baixo gradiente, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo normal ou reduzida, o cálculo da razão entre a velocidade no trato de saída do ventrículo esquerdo e a velocidade transaórtica é razoável para melhor definir a gravidade da estenose.FracaBaixa
Em pacientes com suspeita de estenose aórtica grave de baixo fluxo e baixo gradiente, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo normal ou reduzida, a mensuração do escore de cálcio valvar aórtico por tomografia computadorizada é razoável para melhor definir a gravidade da estenose.FracaBaixa
Em pacientes assintomáticos com estenose aórtica grave, o teste ergométrico é razoável para avaliar as alterações fisiológicas ao esforço e confirmar sintomas.FracaBaixa
Em pacientes sintomáticos com estenose aórtica grave, o teste ergométrico não deve ser realizado para avaliar as alterações fisiológicas ao esforço e confirmar sintomas.Fraca (contra)Baixa
Pacientes sintomáticos com estenose aórtica grave
Substituição valvar em pacientes sintomáticos com EAo grave de alto gradiente (gradiente médio ≥ 40 mmHg, Vmax ≥ 4,0 m/s, AVE ≤ 1,0 cm² ou ≤ 0,6 cm²/m²).ForteModerada
Substituição valvar em pacientes sintomáticos com EAo de baixo fluxo (IVS ≤ 35 mL/m²), baixo gradiente (< 40 mmHg) e FEVE reduzida (< 50%), após confirmação de gravidade.ForteModerada
Substituição valvar em pacientes sintomáticos com EAo de baixo fluxo (IVS ≤ 35 mL/m²), baixo gradiente (< 40 mmHg) e FEVE preservada (≥ 50%), após confirmação de gravidade.FracaModerada
Pacientes assintomáticos com estenose aórtica grave
Substituição valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e FEVE < 50% sem outra causa.ForteModerada
Substituição valvar em pacientes assintomáticos (confirmados por teste de esforço normal, se possível) com EAo grave de alto gradiente e FEVE ≥ 50% como alternativa à vigilância ativa.FracaAlta
Substituição valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e FEVE ≥ 50%, se o risco do procedimento for baixo, na presença de um dos marcadores adversos (por exemplo, Vmax > 5 m/s, calcificação grave pela TC associada à progressão da Vmax ≥ 0,3 m/s/ano, BNP/NT-proBNP > 3 vezes o valor normal ou FEVE < 55% sem outra causa).FracaModerada
Substituição valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e queda sustentada na pressão arterial (> 20 mmHg) durante teste de esforço.FracaBaixa
Modo de tratamento
Recomenda-se a substituição valvar em centros especializados no tratamento de valvopatias, que disponham de programas de cardiologia intervencionista e cirurgia cardíaca, de um Heart Team colaborativo e estruturado e de relatórios regulares sobre desfechos clínicos.ForteBaixa
Recomenda-se definir o modo de substituição valvar com base na avaliação, pelo Heart Team, das características clínicas, anatômicas e procedimentais, considerando o manejo ao longo da vida e a expectativa de vida.ForteBaixa
Recomenda-se TAVI em pacientes ≥ 70 anos com estenose de valva aórtica tricúspide, se a anatomia for adequada.ForteAlta
Recomenda-se SAVR em pacientes < 70 anos, se o risco cirúrgico for baixo.ForteModerada
Recomenda-se SAVR ou TAVI para os demais candidatos à substituição valvar aórtica, conforme avaliação do Heart Team.ForteModerada
O TAVI não transfemoral pode ser considerado em pacientes inadequados para cirurgia e com acesso transfemoral inapropriado.FracaModerada
O TAVI pode ser considerado para o tratamento da estenose grave da valva aórtica bicúspide em pacientes com risco cirúrgico aumentado, se a anatomia for adequada.FracaModerada
A valvuloplastia aórtica por balão pode ser considerada como ponte para SAVR ou TAVI em pacientes hemodinamicamente instáveis ou com EAo grave que necessitem de cirurgia não cardíaca urgente de alto risco.FracaMuito baixa
A SAVR é recomendada em pacientes sintomáticos ou assintomáticos com EAo grave submetidos a CRM ou intervenção cirúrgica na aorta ascendente.ForteMuito baixa
A SAVR pode ser considerada em pacientes sintomáticos e assintomáticos com EAo moderada submetidos a CRM ou intervenção cirúrgica na aorta ascendente.FracaMuito baixa

AVE: área valvar efetiva; BNP: peptídeo natriurético tipo B; CRM: cirurgia de revascularização miocárdica; EAo: estenose aórtica; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IVS: índice de volume sistólico; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B; SAVR: substituição valvar aórtica cirúrgica; TAVI: implante transcateter de válvula aórtica; TC: tomografia computadorizada; Vmax: velocidade máxima do jato transvalvar. Adaptação da Diretriz SBC 2020 e de diretrizes internacionais ao GRADE, considerando fragilidade, expectativa de vida > 1 ano e decisão compartilhada pelo Heart Team.

Fragilidade e doença valvar degenerativa

📖 Texto de suporte — seção 8.8
  • Relação bidirecional (inflammaging, estresse oxidativo, disfunção mitocondrial, metabolismo mineral): valvopatia → hipoperfusão e declínio funcional; fragilidade → menor reserva e tolerância hemodinâmica.
  • Ir além da idade e de EuroSCORE II/STS: fragilidade, funcionalidade e nutrição — FRAIL, Modified Frailty Index, Essential Frailty Toolset.
  • Fragilidade é dinâmica e modificável: pré-habilitação (exercício, nutrição, otimização clínica).
  • Transcateter ajuda no maior risco cirúrgico, mas a fragilidade piora desfechos em qualquer estratégia. Pós-procedimento: mobilização precoce, reabilitação, nutrição e prevenção de delirium.
  • Reserva funcional e estado nutricional podem determinar o prognóstico mais do que a idade cronológica — foco também em independência e qualidade de vida.
🎓 Interpretação didática

Nonagenário com EAo grave sintomática, anatomia tricúspide e acesso femoral bom, independente, bem nutrido: a idade sozinha não o exclui — a fragilidade e a desnutrição é que predizem mal desfecho. Se o EFT for baixo, TAVI transfemoral (Forte/Alta ≥ 70 anos). Se ele for acamado, com demência avançada, a conversa muda para conforto e cuidados paliativos.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 8.2 a 8.8; Tabela 8.16; Figura 8.1; quadros e tabela de recomendações.

15Síncope no idoso

Diretriz · introdução do capítulo 9 e seção 9.1 (capítulo inédito nesta edição)

Até 45% das quedas não acidentais do idoso podem ser síncope não reconhecida. História, exame com sinais vitais ortostáticos e ECG resolvem ~64% dos casos. Estratifique (FAINT = 0 identifica baixo risco), use o monitor de eventos implantável na síncope recorrente inexplicada e comece o tratamento pela revisão da prescrição.

Arritmias e síncope no envelhecimento

📖 Texto de suporte — introdução do capítulo 9 e seção 9.1
  • Fibrose, degeneração do sistema de condução e rigidez favorecem bradi e taquiarritmias (FA, TSV, ventriculares; disfunção sinusal e BAV). O manejo é desafiado por fragilidade, multimorbidade, polifarmácia e alterações farmacológicas.
  • Incidência de síncope > 2%/ano após 80 anos; até 40% da população terá um episódio na vida; em institucionalizados, 6–7%/ano (prevalência ~23%). Internação pode passar de 50% nos muito idosos.
  • Recorrência 25–35% em 2 anos; consequências: quedas, trauma, fraturas, perda de independência, institucionalização. Mortalidade ~1–2% em 30 dias e 7–10% em 1 ano — maior com cardiopatia estrutural, ECG alterado ou suspeita arrítmica.

Definição, diferenciais e classificação

📖 Texto de suporte — seções 9.1.1 e 9.1.2
  • Síncope: perda transitória e completa da consciência por hipoperfusão cerebral difusa, de início súbito, curta duração e recuperação espontânea e completa — o mecanismo precisa ser hipoperfusão difusa.
  • Mimetizadores: crises epilépticas (confusão pós-ictal prolongada, mordedura da língua, liberação esfincteriana; epilepsia temporal pode até causar bradiarritmias), AVC/AIT, hipoglicemia e hiponatremia, causas psicogênicas.
  • Maior desafio: síncope × queda — amnésia do evento, ausência de testemunhas, pródromos atípicos e muitos fatores de queda (marcha, neuropatia, vestíbulo, fraqueza).
  • Três categorias: reflexa (vasovagal, situacional — micção, evacuação, tosse, deglutição, exercício —, hipersensibilidade do seio carotídeo, pródromos autonômicos, prognóstico favorável); hipotensão ortostática (hipovolemia, diuréticos, anti-hipertensivos, vasodilatadores, fármacos autonômicos, disautonomias); cardíaca (arritmias, EAo, CMH, IC, isquemia, TEP; súbita, sem pródromos, no esforço ou em repouso — maior relevância prognóstica). No idoso, mais HO e seio carotídeo, e frequentemente mais de um mecanismo no mesmo episódio.
  • Insuficiência autonômica: primária (atrofia multissistêmica, Parkinson, demência com corpos de Lewy, falência autonômica pura) ou secundária (DM, amiloidose, autoimunes, hereditárias, deficiência de B12, neurotóxicos, HIV). Investigar a causa (Valsalva, respiração profunda, inclinação, norepinefrina supina/ortostática, exame neurológico); casos complexos em centros especializados, com equipe multidisciplinar.
Tabela 9.1 – Diagnóstico diferencial da síncope em idosos
CondiçãoCaracterísticas e sinais distintivos
Crises epilépticasDiferenciam-se da síncope por sinais como confusão pós-ictal prolongada, mordedura de língua ou incontinência urinária.
Acidente vascular cerebral/ataque isquêmico transitórioPodem apresentar colapso súbito ou fraqueza; a presença de déficits neurológicos focais é o fator determinante para o diagnóstico.
Alterações metabólicasIncluem hipoglicemia e hiponatremia, que podem causar tontura e confusão. Exige dosagem laboratorial.
Causas psicogênicasIncluem ataques de pânico e pseudossíncopes. Suspeitar quando o número de síncopes é muito frequente e em pacientes com histórico de doença psiquiátrica.
Quedas inexplicadasNa ausência de uma causa mecânica evidente, toda queda inexplicada em idosos deve motivar investigação para síncope, especialmente quando associada a amnésia do evento, trauma facial, cardiopatia estrutural, hipotensão ortostática ou alterações eletrocardiográficas.
Classificação da síncope em idosos em reflexa (vasovagal ortostática ou emocional, situacional — micção, estímulo gastrointestinal, tosse, pós-exercício —, síndrome do seio carotídeo, formas atípicas), por hipotensão ortostática (induzida por drogas, depleção de volume, falência autonômica primária ou secundária) e cardíaca (arritmias — bradicardias e taquicardias — e doença estrutural).
Figura 9.1 – Classificação de síncope em idosos. HO: hipotensão ortostática.Toque na imagem para ampliar.

Avaliação inicial

📖 Texto de suporte — seções 9.1.3 a 9.1.3.2
  • História + exame + ECG: causa definida (24%) ou altamente provável (40%) em ~64% dos casos, e base da estratificação de risco.
  • Anamnese: posição, refeições, esforço, gatilhos; pródromos (autonômicos → reflexa; palpitações ou ausência → arritmia) e sua duração; testemunhas; recuperação; cardiopatia, arritmias, disautonomia; revisão medicamentosa.
  • Exame: cardiovascular completo, neurológico básico e sinais vitais ortostáticos obrigatórios — PA e FC após ≥ 5 min em decúbito, em até 1 min de pé e após 3 min. Queda de PAS ≥ 20 ou PAD ≥ 10 mmHg = hipotensão ortostática, independentemente do aumento da FC.
  • ECG obrigatório. Alto risco: BAV de 2º/3º grau, bloqueio bifascicular, bradicardia sinusal persistente < 50 bpm, taquiarritmias (sustentadas ou não), QT longo ou curto, ondas Q, pré-excitação.
Tabela 9.2 – Preditores de risco a curto prazo em pacientes idosos com síncope ou pré-síncope
CategoriaPreditores de alto risco
História clínica
  • Idade avançada (> 60 anos)
  • Sexo masculino
  • História de doença cardíaca estrutural ou isquêmica
  • Arritmias prévias
  • Disfunção ventricular esquerda
  • Pródromo breve ou ausente
  • Síncope durante esforço físico ou em posição supina
  • Dor torácica ou dispneia associada
  • História familiar de morte súbita cardíaca prematura (< 50 anos)
  • Cardiopatia congênita conhecida
Exame físico
  • Pressão arterial sistólica < 90 mmHg
  • Anormalidades ao exame cardíaco (sopros, galope, sinais de insuficiência cardíaca)
  • Sinais de sangramento ou anemia
  • Déficits neurológicos focais
  • Sarcopenia
  • Desidratação
Eletrocardiograma
  • Alterações sugestivas de isquemia aguda
  • Bloqueio atrioventricular Mobitz tipo II ou de terceiro grau
  • Bradicardia sinusal persistente (< 50 bpm) ou pausas sinusais ≥ 3 segundos
  • Taquiarritmias ventriculares ou supraventriculares
  • Bloqueio completo de ramo esquerdo
  • Bloqueio atrioventricular de primeiro grau (PR > 200 ms)
  • Ritmo não sinusal ou múltiplas extrassístoles ventriculares
  • Intervalo PR curto com onda delta (Wolff-Parkinson-White)
  • Síndrome de Brugada (elevação de ST em V1-V2 com inversão de onda T)
  • Prolongamento do intervalo QT (QTc > 470 ms em homens ou > 480 ms em mulheres)
  • Ondas Q patológicas
Quadro de recomendações – Abordagem inicial do paciente idoso com síncope
ForteModerada

Recomenda-se a realização de história clínica detalhada e exame físico completo em todos os pacientes com síncope.

ForteModerada

Recomenda-se a realização de eletrocardiograma de 12 derivações na avaliação inicial de todos os pacientes com síncope.

ForteModerada

Recomenda-se a aferição da pressão arterial e da frequência cardíaca em ortostase em todos os pacientes com síncope.

ForteModerada

Recomenda-se a avaliação da causa da síncope e a estratificação do risco de morbimortalidade em curto e longo prazo em todos os pacientes.

ForteModerada

A história clínica deve incluir a caracterização das circunstâncias do evento, dos sintomas prodrômicos, das informações de testemunhas e do período de recuperação, bem como a história médica pregressa, a revisão medicamentosa e a história familiar.

ForteModerada

O exame físico deve incluir avaliação cardiovascular completa (palpação de pulsos, ausculta cardíaca), exame neurológico básico e medida de sinais vitais ortostáticos.

ForteModerada

A pressão arterial e frequência cardíaca ortostáticas devem ser medidas após pelo menos 5 minutos em decúbito dorsal, imediatamente após assumir a posição ortostática (até 1 minuto) e novamente após 3 minutos em pé.

ForteModerada

A queda da pressão arterial sistólica ≥ 20 mmHg ou da pressão arterial diastólica ≥ 10 mmHg ao assumir a posição ortostática é diagnóstica de hipotensão ortostática.

ForteModerada

Pacientes de baixo risco com suspeita clínica de síncope reflexa ou hipotensão ortostática podem ser conduzidos em nível ambulatorial.

ForteModerada

Pacientes de alto risco com suspeita clínica de síncope cardíaca ou causa indeterminada devem ser conduzidos em nível hospitalar.

Exames complementares

📖 Texto de suporte — seção 9.1.4
  • Individualizar pelos achados iniciais; exames indiscriminados são caros e ineficazes.
  • ETT se suspeita de cardiopatia estrutural (EAo, CMH, disfunção de VE, valvopatias, tamponamento, dissecção, sobrecarga de VD/TEP): sugere síncope cardíaca em ~48% desses casos; baixo rendimento como triagem sem evidência de cardiopatia.
  • Monitorização prolongada conforme frequência dos episódios: Holter 24–48 h, monitor de eventos externo, monitor de eventos implantável (síncope recorrente inexplicada sem alto risco e com alta chance de recorrência, ou alto risco sem causa após avaliação). Diagnóstico em até 55% vs. 19% com estratégia convencional; subutilizado; ótimo no idoso (sem pródromos, amnésia).
  • Teste de inclinação: confirma vasovagal; diferencia subtipos de hipotensão (o texto do original diz “hipertensão pulmonar”); ajuda quando a avaliação inicial não define reflexa, HO, POTS ou pseudossíncope; treina reconhecimento de pródromos e manobras; diferencia síncope com movimentos de epilepsia. Massagem do seio carotídeo durante o teste aumenta a acurácia — segura sem estenose carotídea significativa e sem AVC/AIT nos últimos 3 meses.
  • Teste ergométrico se síncope durante ou logo após esforço (durante → cardíaca; após → cardíaca ou reflexa). Estudo eletrofisiológico: IAM prévio, cicatriz ou bloqueio bifascicular com síncope inexplicada; não se ECG e função normais.
  • Laboratório dirigido (Hb, dímero-D, BNP, troponina, eletrólitos). TC/RM de crânio: rendimento < 0,1% — só com suspeita intracraniana ou trauma. Doppler de carótidas e EEG não são rotina. Doppler transcraniano: insuficiência vertebrobasilar e autorregulação cerebral.
Quadro de recomendações – Exames complementares para avaliação da síncope no idoso
ForteModerada

O monitor de eventos implantável deve ser considerado em pacientes com síncope recorrente inexplicada após avaliação inicial completa e exclusão de causas que requeiram intervenção imediata, particularmente quando houver suspeita de arritmia intermitente.

ForteModerada

O teste ergométrico deve ser recomendado em pacientes com síncope durante ou imediatamente após o esforço.

ForteModerada

O teste de inclinação ortostática deve ser considerado em pacientes com síncope e suspeita de hipotensão ortostática tardia.

ForteModerada

O ecocardiograma transtorácico deve ser recomendado em pacientes com suspeita de doença cardíaca estrutural.

ForteModerada

A monitorização eletrocardiográfica prolongada pode ser solicitada em pacientes com suspeita de arritmia como causa da síncope.

ForteModerada

O teste de inclinação deve ser considerado em pacientes com síncope inexplicada após avaliação inicial, quando houver suspeita de síncope reflexa.

ForteModerada

A massagem do seio carotídeo deve ser considerada em pacientes com síncope de etiologia indeterminada compatível com mecanismo reflexo, na ausência de estenose carotídea crítica ou evento cerebrovascular.

ForteModerada

O estudo eletrofisiológico deve ser considerado em pacientes com infarto prévio, cicatriz miocárdica ou bloqueio bifascicular, quando a síncope permanecer inexplicada após avaliação não invasiva.

ForteBaixa

Exames laboratoriais devem ser solicitados com base em achados clínicos específicos (hemoglobina, dímero-D, peptídeo natriurético tipo B, troponina e eletrólitos).

Forte (contra rotina)Moderada

Tomografia computadorizada ou ressonância magnética de crânio não devem ser solicitadas rotineiramente, sendo apropriadas apenas quando houver suspeita de doença intracraniana ou traumatismo craniano.

Forte (contra rotina)Moderada

A ultrassonografia de carótidas não deve ser solicitada na ausência de achados no exame físico compatíveis com estenose carotídea sintomática.

Forte (contra rotina)Moderada

O eletroencefalograma não deve ser solicitado como parte da avaliação básica da síncope, sendo apropriado apenas quando houver suspeita de crise epiléptica.

No original, estas recomendações aparecem como “Forte” (célula verde); a marcação em vermelho (“contra rotina”) foi acrescentada para destacar que se trata de recomendação para não solicitar o exame rotineiramente.

Estratificação de risco: escore FAINT

📖 Texto de suporte — seção 9.1.5
  • Curto prazo depende da causa e da reversibilidade (decide internação); longo prazo, da efetividade do tratamento e da doença de base.
  • O Canadian Syncope Risk Score é o mais acurado, mas o FAINT foi desenvolvido para ≥ 60 anos: Failure (IC), Arrhythmia (arritmia prévia), Initial ECG anormal, NT-proBNP elevado, Troponina T de alta sensibilidade elevada; 1 ponto cada; FAINT = 0 = baixo risco de desfechos cardíacos graves em 30 dias.
  • Derivação (3.177 idosos, média 73 anos): sensibilidade 96,7% e especificidade 22,2% para 0 vs. ≥ 1. Validação prospectiva (1.263, ≥ 40 anos): sensibilidade 96,7% e VPN 98,8%.
  • Escores complementam, mas não substituem, o julgamento clínico (fragilidade, comorbidades, nuances da apresentação).
Escore FAINT: F Failure (insuficiência cardíaca), A Arrythmia (arritmia prévia), I Initial abnormal ECG (ECG anormal), N NT-proBNP elevado, T Troponina elevada.
Figura 9.2 – Escore Faint para estratificação de risco de síncope e pré-síncope em idosos. ECG: eletrocardiograma; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B.Toque na imagem para ampliar.
🧮 Escore FAINT (seção 9.1.5; Figura 9.2)
Marque os itens presentes (1 ponto cada)
FAINT = 0 → baixo risco.

Os pontos de corte de NT-proBNP e troponina seguem o estudo original (não detalhados na diretriz). O escore complementa a Tabela 9.2 e o julgamento clínico.

ForteModerada

A estratificação de risco deve ser realizada em todos os idosos que apresentem síncope ou pré-síncope.

Tratamento

📖 Texto de suporte — seção 9.1.6
  • Tratar a causa; revisar desidratação, polifarmácia, eletrólitos e comorbidades. Reduzir ou trocar fármacos de HO: nitratos, BCCs, alfabloqueadores, alfa/betabloqueadores, diuréticos; e de ação central: tricíclicos, ISRS, antipsicóticos, fenotiazínicos, levodopa. Desprescrever é das principais estratégias.
  • Reflexa e HO — não farmacológico primeiro: hidratação, liberar sal (sem contraindicação), manobras de contrapressão (cruzar pernas, contração isométrica, agachar) se houver pródromos e boa função, meias até a coxa ou com compressão abdominal, exercício estruturado/reabilitação autonômica (melhora barorreflexo; força de MMII aumenta volume plasmático e retorno venoso). Tilt training isolado tem baixa adesão; programas combinados são melhores. Evitar refeições volumosas, calor e mudanças posturais bruscas.
  • Fármacos (evidência limitada): fludrocortisona (edema, hipocalemia, alcalose, ganho de peso, hipertensão supina); midodrina (agonista α1, não disponível no Brasil); droxidopa (HO neurogênica: Parkinson, falência autonômica pura, atrofia multissistêmica). Cabeceira elevada 10°; hipertensão supina extrema (> 180/110 mmHg): vasodilatador de curta ação ao deitar.
  • Marcapasso na reflexa cardioinibitória recorrente, sobretudo nos mais idosos com episódios imprevisíveis e risco de trauma; melhor resultado com assistolia espontânea documentada (pausa sintomática > 3 s ou assintomática > 6 s) no monitor implantável. Cardioneuroablação: promissora, pouca experiência em idosos — centros experientes.
  • Objetivo: menos recorrência, mas também menos quedas, trauma, perda funcional e hospitalizações.
Quadro de recomendações – Tratamento da síncope e pré-síncope em idosos
ForteModerada

A revisão sistemática da farmacoterapia e a identificação de medicamentos potencialmente associados à hipotensão ortostática, pré-síncope e síncope devem ser realizadas em todos os idosos com episódios sincopais.

ForteModerada

A redução ou a substituição de medicamentos associados à hipotensão ortostática deve ser considerada sempre que clinicamente possível.

ForteModerada

Medidas não farmacológicas, incluindo hidratação adequada, liberalização da ingestão de sódio (na ausência de contraindicações) e orientações comportamentais, devem constituir a primeira etapa do tratamento da síncope reflexa e da hipotensão ortostática.

ForteModerada

Manobras de contrapressão física podem ser recomendadas em pacientes com síncope reflexa que apresentam pródromos reconhecíveis e capacidade funcional preservada.

FracaModerada

Meias de compressão elástica e/ou compressão abdominal podem ser consideradas em pacientes com hipotensão ortostática sintomática.

FracaModerada

Exercício físico estruturado e programas de reabilitação autonômica podem ser considerados para melhorar a tolerância ortostática e reduzir os sintomas.

FracaBaixa

O treinamento postural passivo (tilt training) pode ser considerado em pacientes selecionados e motivados.

FracaModerada

A fludrocortisona pode ser considerada em pacientes com síncope reflexa recorrente ou hipotensão ortostática sintomática refratárias às medidas não farmacológicas.

FracaModerada

A midodrina pode ser considerada em pacientes com hipotensão ortostática sintomática persistente apesar das medidas não farmacológicas.

FracaModerada

A droxidopa pode ser considerada em pacientes com hipotensão ortostática neurogênica, particularmente quando associada a doenças neurodegenerativas.

FracaModerada

Pacientes em uso de fludrocortisona, midodrina ou droxidopa podem ser monitorados quanto ao desenvolvimento de hipertensão supina e de outros efeitos adversos relacionados ao tratamento.

FracaModerada

O implante de marca-passo pode ser considerado em casos selecionados de pacientes idosos com síncope reflexa cardioinibitória recorrente e assistolia espontânea documentada durante monitorização prolongada.

FracaBaixa

A cardioneuroablação pode ser considerada em casos selecionados de síncope reflexa cardioinibitória recorrente, preferencialmente em centros com experiência no procedimento.

🎓 Interpretação didática

Senhora de 86 anos “caiu no banheiro”, não lembra do evento e tem corte no supercílio: trauma facial + amnésia = trate como síncope até prova em contrário. Ortostáticos, ECG (BRE? PR longo?), revisão de doxazosina e tansulosina, FAINT. Se tudo for negativo e houver recorrência, monitor de eventos implantável — ele faz o diagnóstico em até metade dos casos.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, introdução do capítulo 9 e seção 9.1; Tabelas 9.1 e 9.2; Figuras 9.1 e 9.2; quadros de recomendação.

16Bradiarritmias e taquiarritmias no idoso

Diretriz · seções 9.2 e 9.3

Idosos ≥ 75 anos recebem 64% dos marcapassos. Antes de implantar, procure causas reversíveis (fármacos cronotrópicos negativos, potássio, tireoide, isquemia). A idade isolada não exclui marcapasso, TRC ou ablação — a ablação de TRN funciona em 94% dos > 75 anos. Nas ventriculares, o que define o prognóstico é a cardiopatia estrutural.

Bradiarritmias: apresentação e causas

📖 Texto de suporte — seções 9.2 e 9.2.1
  • Fibrose do nó sinusal, do miocárdio atrial e do sistema de condução; disfunção sinusal e BAV predominam na 7ª–8ª décadas (ARIC, CHS, registros).
  • Síncope é a manifestação mais impactante; também palpitações (bradi-taqui), intolerância ao esforço, fadiga, angina, oligúria. Incompetência cronotrópica em ~50% das disfunções sinusais. Evolução insidiosa, muitas vezes atribuída ao “envelhecimento” ou à fragilidade; coexistem DAC, IC, valvopatia, doença cerebrovascular e FA.
  • Intrínsecas: Lev-Lenègre, cardiomiopatias, infiltrativas (amiloidose, sarcoidose). Extrínsecas: medicamentos (betabloqueadores, verapamil/diltiazem, digoxina, antiarrítmicos), metabólicas (hipercalemia, hipotireoidismo, hipóxia), disautonomia. Corrigir o reversível antes do marcapasso.
Tabela 9.3 – Classificação etiológica das bradicardias
CausasDetalhamento
Causas intrínsecas
Fibrose degenerativaDoença de Lev-Lenègre
CardiomiopatiaIsquêmica ou não isquêmica
Cardiopatia congênitaDefeitos estruturais congênitos
Isquemia/infartoInfarto agudo do miocárdio, isquemia crônica
Infecção/inflamaçãoDoença de Chagas, difteria, endocardite infecciosa, doença de Lyme, miocardite, sarcoidose, toxoplasmose
Doenças infiltrativasAmiloidose, hemocromatose, linfoma
Doenças reumatológicasArtrite reumatoide, esclerodermia, lúpus eritematoso sistêmico
Trauma cirúrgico/procedimentoAblação por cateter, cirurgia cardíaca congênita, miomectomia septal, cirurgia valvar (incluindo implante transcateter de valva aórtica)
Causas extrínsecas
Perturbação autonômicaHipersensibilidade do seio carotídeo, síncope neuromediada/pré-síncope, condicionamento físico, síncope situacional (tosse, defecação, micção, vômito, estimulação glótica, procedimentos médicos), sono (com ou sem apneia do sono)
MedicaçõesBetabloqueadores, bloqueadores de canais de cálcio não di-hidropiridínicos (verapamil, diltiazem), digoxina, antiarrítmicos, lítio, nutracêuticos
Distúrbios metabólicosAcidose, hipercalemia, hipocalemia, hipotermia, hipotireoidismo, hipóxia
Distúrbios endócrinosDoenças tireoidianas (hipotireoidismo e hipertireoidismo), doenças adrenais (feocromocitoma, hipoaldosteronismo)
IntoxicaçõesMercúrio, cianeto, monóxido de carbono, “mad honey”, nicotina, maconha

Bradiarritmias: investigação

📖 Texto de suporte — seção 9.2.2
  • ECG de 12 derivações inicial; método de monitorização pela frequência dos sintomas: Holter 24–48 h (sintomas diários; também incompetência cronotrópica em ativos); monitores externos (2–6 semanas) para sintomas menos frequentes; monitor implantável (até 3 anos) se > 30 dias entre episódios e avaliação inconclusiva; teste ergométrico se sintomas ao esforço; estudo eletrofisiológico limitado (síncope recorrente inexplicada, sobretudo com bloqueio de ramo ou cicatriz na RMC).
Quadro de recomendações – Investigação diagnóstica de bradicardias
ForteBaixa

Recomenda-se a realização do eletrocardiograma de 12 derivações para todos os pacientes com suspeita de bradiarritmia.

ForteBaixa

Recomenda-se a investigação de causas reversíveis (medicamentos cronotrópicos negativos, distúrbios eletrolíticos, hipotireoidismo) em todos os pacientes com bradicardia.

ForteModerada

Recomenda-se a realização de monitorização eletrocardiográfica ambulatorial para estabelecer correlação entre sintomas e bradiarritmia, com o tipo de monitor escolhido com base na frequência e na natureza dos sintomas.

ForteBaixa

Recomenda-se a realização de Holter 24–48 horas para pacientes com sintomas diários (pré-síncope, síncope, palpitações, dispneia de esforço, fadiga desproporcional).

FracaBaixa

O Holter 24–48 horas pode ser considerado em pacientes assintomáticos com bradicardia sinusal e/ou bloqueios atrioventriculares.

FracaModerada

Um monitor de eventos prolongado (looper externo, Holter de 7 dias) pode ser considerado em pacientes com sintomas semanais a mensais.

FracaBaixa

Um monitor de eventos implantável (looper) pode ser considerado em pacientes com sintomas infrequentes (> 30 dias entre eventos), suspeita de bradiarritmia e avaliação não invasiva inconclusiva.

FracaBaixa

O teste ergométrico pode ser realizado em pacientes com sintomas ao esforço e suspeita de incompetência cronotrópica ou bloqueio atrioventricular induzido pelo esforço.

FracaBaixa

O estudo eletrofisiológico pode ser considerado em casos selecionados com suspeita de bradiarritmia e testes não invasivos inconclusivos, quando o resultado alterar a conduta.

Bradiarritmias: tratamento

📖 Texto de suporte — seção 9.2.3
  • Marcapasso definitivo é o tratamento das bradicardias sintomáticas; no Mobitz II e BAVT, melhora sobrevida e reduz síncope e IC. Indicações iguais às gerais, na ausência de causas reversíveis (medicamentos, IAM inferior, distúrbios eletrolíticos).
  • Dupla câmara é o mais usado, sempre que houver correlação síncope–bradiarritmia (disfunção sinusal ou BAV). Sem correlação, segue classe I no BAV avançado (Mobitz II, BAVT) e no bloqueio de ramo com HV ≥ 70 ms. Disfunção sinusal com condução AV preservada: atrial ou dupla câmara em vez de ventricular isolado (sincronismo AV, menos FA e IC).
  • CLS (closed loop stimulation): estimulação por bioimpedância/contratilidade, útil na síncope reflexa cardioinibitória com indicação de marcapasso, sobretudo com disautonomia.
  • Marcapasso sem cabo-eletrodo (leadless): cápsula no VD via femoral, sem loja nem eletrodos; já indicado após complicações de dispositivos convencionais ou com obstrução venosa crítica; menos complicações (idade média dos estudos ~75–76 anos); a idade isolada ainda não é critério formal. Versões de dupla câmara surgindo.
  • TRC: mesmas indicações de qualquer idade. Comorbidades predizem mais complicações que a fragilidade; fragilidade não contraindica, mas entra no risco-benefício. Considerar expectativa de vida, comorbidades e objetivos de cuidado.
Quadro de recomendações – Tratamento de bradiarritmias na população idosa
ForteAlta

Causas potencialmente reversíveis de bradicardia, incluindo o uso de fármacos cronotrópicos negativos, distúrbios hidroeletrolíticos e isquemia miocárdica, devem ser investigadas e corrigidas antes da indicação de marca-passo definitivo.

ForteAlta

O implante de marca-passo definitivo está indicado em pacientes idosos com bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz II, bloqueio atrioventricular de alto grau ou bloqueio atrioventricular total não atribuível a causas reversíveis, independentemente da presença de sintomas.

ForteModerada

O implante de marca-passo definitivo está indicado em pacientes idosos com disfunção sinusal sintomática (síncope, pré-síncope, tontura, fadiga) documentada por correlação eletrocardiográfica com bradicardia, na ausência de causas reversíveis.

ForteModerada

O marca-passo de dupla câmara é preferível ao marca-passo ventricular isolado em pacientes idosos com bloqueio atrioventricular avançado ou disfunção sinusal, com o objetivo de preservar o sincronismo atrioventricular.

ForteModerada

Em pacientes idosos com bloqueio de ramo e intervalo HV ≥ 70 ms ao estudo eletrofisiológico, recomenda-se o implante de marca-passo definitivo.

ForteModerada

A terapia de ressincronização cardíaca deve ser considerada em pacientes idosos com as mesmas indicações aplicáveis à população geral (insuficiência cardíaca, fração de ejeção reduzida e bloqueio de ramo esquerdo), não devendo a idade, isoladamente, constituir fator limitante.

ForteModerada

A idade cronológica isoladamente não deve constituir critério de exclusão para o implante de marca-passo em pacientes idosos com indicação bem estabelecida.

ForteModerada

A fragilidade deve ser considerada na avaliação individualizada da relação risco-benefício, mas, isoladamente, não deve contraindicar o implante de marca-passo quando houver indicação clara e expectativa de benefício clínico.

Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares

📖 Texto de suporte — seções 9.3.1 e 9.3.2
  • > 65 anos: risco 5× maior de TPSV. Extrassístoles atriais em ~86% (60–85 anos); frequentes associam-se a FA, AVC (HR 1,41) e mortalidade (HR 1,26) — reflexo de cardiomiopatia atrial. Taquicardia atrial = 23% das TSV > 70 anos; episódios de TSV em 84,4% (idade média 77) ao monitor, só 13,5% sintomáticos.
  • Idosos com TSV têm mais síncope/pré-síncope apesar de FC mais lentas — queda abrupta da PA nos primeiros 10–30 s. Pior tolerância com disfunção diastólica, EAo grave, IC ou DAC.
  • Extrassístoles ventriculares em 70–80% > 60 anos, geralmente assintomáticas. O prognóstico depende de cardiopatia estrutural: com IC, a TV passa de 2–4% para 20–80%; carga de EV ≥ 10% prediz IC em 15 anos (especificidade > 90%); EV multifocais e TVNS associam-se a morte e AVC. Sem cardiopatia, prognóstico semelhante ao da população geral. Disfunção de VE ou HVE com arritmia complexa = alto risco de morte súbita mesmo assintomático.
Quadro com traçados de ECG e descrição: fibrilação atrial (ritmo irregular sem ondas P), flutter atrial (ondas F em dente de serra, condução 2:1, 3:1 ou variável), taquicardia por reentrada nodal (QRS estreito, P oculta ou pseudo-s/pseudo-r'), taquicardia por reentrada atrioventricular (P retrógrada após QRS), taquicardia atrial focal (P anormal antes do QRS), taquicardia atrial multifocal (≥ 3 morfologias de P, FC > 100), taquicardia juncional (QRS estreito com dissociação AV) e extrassístoles atriais (batimento prematuro com P diferente e pausa não compensatória).
Figura 9.3 – Diagnósticos diferenciais das taquicardias com QRS estreito em idosos. AV: atrioventricular.Toque na imagem para ampliar.
📖 Texto de suporte — investigação (seção 9.3.3)
  • ECG durante o episódio é a melhor prova de causalidade (fora do evento, rendimento de 3–26%). ETT para cardiopatia estrutural (exame alterado, ECG anormal, síncope, história familiar de miocardiopatia ou morte súbita).
  • Monitor conforme frequência: Holter 24 h (diário), monitor externo ou Holter de 7 dias (esporádico), implantável em sintomas raros com instabilidade ou síncope recorrente inexplicada. RMC se suspeita de miocardiopatia arritmogênica, infiltrativa ou miocardite. Estudo eletrofisiológico se monitorização não diagnóstica com alta suspeita (síncope precedida de palpitações, taquicardia de QRS largo indeterminada).
Quadro de recomendações – Investigação diagnóstica das taquiarritmias em idosos
ForteAlta

O eletrocardiograma de 12 derivações deve ser realizado em todos os pacientes idosos com suspeita de taquiarritmia, idealmente durante o episódio arrítmico e após a cardioversão.

ForteModerada

O ecocardiograma transtorácico deve ser realizado em pacientes com taquiarritmia documentada para avaliar cardiopatia estrutural.

ForteModerada

O Holter de 24 ou 48 horas está indicado para pacientes com sintomas frequentes para correlação eletrocardiográfica.

ForteModerada

O Holter de 7 dias, o monitor de eventos externo ou os dispositivos vestíveis são indicados para pacientes com sintomas menos frequentes.

ForteModerada

O monitor de eventos implantável (looper) deve ser considerado em pacientes com sintomas infrequentes quando houver suspeita de causa arrítmica não esclarecida pela avaliação não invasiva.

ForteBaixa

O teste ergométrico deve ser considerado em pacientes com taquiarritmias claramente desencadeadas por esforço físico.

ForteModerada

A ressonância magnética cardíaca deve ser considerada em pacientes com taquicardia ventricular para avaliação de cardiopatia estrutural e fibrose miocárdica.

ForteModerada

O estudo eletrofisiológico está indicado em casos de taquiarritmias recorrentes com monitorização não invasiva inconclusiva ou quando se considera o planejamento terapêutico por ablação.

Tratamento das taquiarritmias

📖 Texto de suporte — seção 9.3.4
  • Princípios iguais aos do jovem, modulados por cardiopatia, multimorbidade, polifarmácia, função, cognição e preferências.
  • Taquicardia atrial não sustentada: em geral sem tratamento; tratar a base e gatilhos (cafeína em excesso, tabagismo, β-agonistas de ação rápida). Se necessário: BCC não di-hidropiridínico na DPOC sem disfunção de VE; betabloqueador cardiosseletivo em baixa dose nos demais.
  • TPSV sustentada estável: Valsalva modificada primeiro; massagem do seio carotídeo em selecionados (sem estenose carotídea, sem AVC recente); adenosina sob monitorização; depois verapamil/diltiazem ou betabloqueador — com cautela no idoso (hipotensão, BAV, disfunção sinusal oculta). Instável: cardioversão sincronizada 50–100 J (Figura 9.4).
  • Ablação é primeira linha na TPSV sintomática recorrente: sucesso > 95%, igual ao do jovem; TRN > 75 anos: sucesso de procedimento único 94,3%, eventos maiores < 3%; idade não é contraindicação. A TRN do idoso tende a ser mais lenta, recorrente e às vezes incessante.
  • EV e TVNS sem cardiopatia: sem antiarrítmico; corrigir eletrólitos, isquemia, hipoxemia, hipertireoidismo, estimulantes. Sintomáticas ou com cardiopatia: betabloqueador. TV sustentada instável: cardioversão imediata; estável com cardiopatia: amiodarona (preferida com disfunção de VE/IC) ou sotalol; doses menores e titulação lenta.
  • CDI em prevenção secundária (TV sustentada ou FV sem causa reversível) com expectativa de vida > 1 ano e estado funcional compatível. Ablação de TV na TV recorrente, tempestade elétrica ou intolerância (sucesso semelhante, mais complicações).
Algoritmo da fase aguda das taquicardias supraventriculares: avaliar estabilidade (hipotensão, angina, IC aguda, alteração de consciência); instável — cardioversão elétrica sincronizada 50 a 100 J; estável — 1) manobra vagal (Valsalva modificada preferencial; massagem do seio carotídeo em casos selecionados, excluída estenose carotídea ou AVC recente), 2) adenosina, 3) bloqueadores de canais de cálcio ou betabloqueadores; precauções no idoso: hipotensão, bloqueios AV e descompensação do nó sinusal.
Figura 9.4 – Algoritmo para tratamento da fase aguda das taquicardias supraventriculares. AVC: acidente vascular cerebral.Toque na imagem para ampliar.
Tabela 9.4 – Fármacos comumente utilizados no tratamento de taquiarritmias em idosos, principais indicações, posologia, efeitos adversos e cuidados em sua utilização em idosos
FármacoPosologia habitualPrincipais indicaçõesPrincipais cuidados e efeitos adversos
Metoprolol12,5–25 mg/dia, podendo titular até 200 mg/diaControle de frequência da FA, TPSV e extrassístoles sintomáticasBradicardia, hipotensão, fadiga e broncoespasmo. Iniciar com doses baixas e titular lentamente.
Bisoprolol1,25–2,5 mg/dia, podendo titular até 10 mg/diaControle de frequência da FA e TPSVBradicardia, hipotensão e fadiga. Menor potencial broncoconstritor.
Verapamil40–80 mg a cada 8 horas ou 120–240 mg/dia (liberação prolongada)TPSV e controle de frequência da FAHipotensão, constipação, edema periférico, bradicardia e bloqueio AV. Evitar em insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida.
Diltiazem120–360 mg/diaTPSV e controle de frequência da FAHipotensão, edema periférico e bradicardia. Geralmente mais bem tolerado do que o verapamil.
Propafenona150–300 mg a cada 8 horasFA paroxística sem cardiopatia estrutural e TPSV recorrentePró-arritmia, bradicardia, tontura, gosto metálico e distúrbios de condução. Contraindicada em DAC ou cardiopatia estrutural significativa.
Sotalol40–80 mg a cada 12 horas, com ajuste conforme função renalFA recorrente e algumas taquicardias ventricularesBradicardia, hipotensão, prolongamento do QT e torsades de pointes. Requer monitorização do QT e ajuste da dose conforme função renal.
AmiodaronaAtaque: 400–600 mg/dia; manutenção: 100–200 mg/diaFA, flutter atrial, taquicardias ventriculares e pacientes com cardiopatia estruturalDisfunção tireoidiana, toxicidade pulmonar, hepatotoxicidade, neuropatia, fotossensibilidade e alterações oculares. Requer monitorização periódica.
Adenosina6 mg EV em bolus rápido; se necessário, 12 mg e, posteriormente, 12 mgReversão aguda da TPSV por reentradaRubor, dispneia transitória, dor torácica, assistolia transitória e broncoespasmo. Administrar sob monitorização contínua e evitar em bloqueio atrioventricular de segundo ou terceiro grau, doença do nó sinusal, doença pulmonar broncoconstritiva ou broncoespástica conhecida e hipersensibilidade conhecida à adenosina.

AV: atrioventricular; DAC: doença arterial coronariana; EV: endovenoso; FA: fibrilação atrial; TPSV: taquicardia paroxística supraventricular.

🎓 Interpretação didática

Octogenário com FC 38 e BAV 2:1: antes do marcapasso, cheque o que ele toma (atenolol + colírio de timolol + donepezila?), potássio e TSH. Se persistir sem causa reversível, marcapasso dupla câmara — idade e fragilidade, sozinhas, não contraindicam. Já a senhora de 79 anos com TRN incessante e hipotensão a cada crise é candidata a ablação, não a mais verapamil.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 9.2 e 9.3; Tabelas 9.3 e 9.4; Figuras 9.3 e 9.4; quadros de recomendação.

17Fibrilação atrial no idoso

Diretriz · seção 9.4

FA afeta 28,5% dos ≥ 85 anos, e quase 40% deles são frágeis. Triagem oportunística a partir de 65 anos. Com CHA₂DS₂-VA ≥ 2 (todo ≥ 75 anos já tem), anticoagular — idade, fragilidade e quedas não contraindicam. DOAC > varfarina, apixabana em destaque, evitar rivaroxabana como primeira escolha; escore de sangramento alto pede seguimento mais próximo, não suspensão. Controle precoce do ritmo nos sintomáticos com FA recente; idade não exclui ablação.

Epidemiologia e fragilidade

📖 Texto de suporte — seção 9.4
  • Arritmia mais prevalente no idoso: 6,4% (65–69 anos) → 28,5% (≥ 85 anos). Framingham (1958–2007): incidência ajustada de 3,7 → 13,4/1.000 pessoas-ano (homens) e 2,5 → 8,6 (mulheres). Prevalência global dobrou de 1990 a 2019 (59,7 milhões); nos EUA, aumento de 2,5× até 2050, com > 50% dos pacientes com ≥ 80 anos.
  • Fragilidade em 39,7% dos pacientes com FA; a FA acelera a progressão da fragilidade, que coexiste com déficit cognitivo e dependência.

Definição, classificação e diagnóstico

📖 Texto de suporte — seções 9.4.1 e 9.4.2
  • ECG: RR irregulares (com condução AV preservada) e ausência de P definidas, com ondas f.
  • FA clínica: registrada em ECG de 12 derivações ou de derivação única por ≥ 30 s, validada por médico (sintomática ou não). FA subclínica: sem sintomas, com registro de ritmo atrial acelerado por eletrodo de dispositivo implantável ou registro sugestivo em monitor implantável/vestível com duração < 30 s — fora dos grandes estudos: conduzir com cautela e individualizar.
  • Duração: paroxística (< 7 dias), persistente (> 7 dias e < 1 ano), persistente de longa duração (> 1 ano, com estratégia de ritmo), permanente (decisão de não reverter) e pós-ablação (Figura 9.5).
  • Monitorização: Holter de 1–7 dias, monitor externo loop (1–4 semanas), vestíveis (relógios, aplicativos), dispositivos implantáveis (monitores, marcapassos).
  • Fatores: idade, sexo masculino, genética (> 160 mutações); HAS, IC (risco 4–6×), DM, refluxo, hipertireoidismo, infecções; obesidade, sedentarismo, apneia do sono, álcool, tabagismo. Cafeína moderada não faz mal.
  • No idoso, 10–40% são assintomáticos; > 80 anos, palpitação em só 1 de cada 10; predominam fadiga, dispneia e tontura; a apresentação inicial pode ser AVC, embolia sistêmica ou IC.
Classificação da FA de acordo com a apresentação clínica (clínica, documentada em ECG ≥ 30 s; subclínica, detectada por dispositivos com < 30 s) e o padrão temporal (paroxística até 7 dias, persistente > 7 dias, persistente de longa duração > 1 ano, permanente e pós-ablação).
Figura 9.5 – Classificação da fibrilação atrial de acordo com a apresentação clínica e o padrão temporal. FA: fibrilação atrial.Toque na imagem para ampliar.

Triagem

📖 Texto de suporte — seção 9.4.3
  • STROKESTOP (28.768 suecos de 75–76 anos): mais detecção e pequena redução do desfecho composto. LOOP (6.004, 70–90 anos, monitor implantável): detecção HR 3,17, sem redução significativa de AVC. GUARD-AF (11.905, ≥ 70 anos, patch 14 dias): FA 5% vs. 3,3%, sem redução de hospitalização por AVC (interrompido pela pandemia).
  • Diretrizes: triagem oportunística ≥ 65 anos; considerar sistemática ≥ 75 anos ou alto risco de AVC.
  • Pulso radial: sensibilidade 87–100% (especificidade menor); ECG de 12 derivações = padrão-ouro; ECG de derivação única: sensibilidade 88–99%, especificidade 76–100%. Detecção cresce com o tempo: Holter 24 h 2,2%; monitor externo 7,4% (1 semana) e 14,8% (4 semanas); implantável 30–32% em 3 anos (vs. 3–12%); relógios: sensibilidade 94%, especificidade 93–96% (exigem confirmação).
  • Frágeis: sem recomendação específica — pesar expectativa de vida, sangramento, adesão e preferências; em muito frágeis, a triagem pode não ser apropriada.
Quadro de recomendações – Diagnóstico e triagem de fibrilação atrial no idoso
ForteModerada

Recomenda-se a triagem oportunística para fibrilação atrial, por meio da palpação do pulso ou do ECG de 12 derivações, em indivíduos com idade ≥ 65 anos.

ForteModerada

O ECG de superfície e a monitorização eletrocardiográfica com Holter de 24–72 horas podem ser realizados na avaliação de pacientes com AVC isquêmico ou embolia sistêmica e fatores de risco para fibrilação atrial.

ForteModerada

A estratégia de rastreamento sistemático para detecção de fibrilação atrial deve ser individualizada de acordo com a suspeita clínica e o perfil de risco cardiovascular do paciente.

ForteModerada

A monitorização eletrocardiográfica prolongada com monitor externo de eventos (2–4 semanas) ou dispositivo implantável pode ser utilizada em pacientes com AVC isquêmico criptogênico.

FracaModerada

O monitor cardíaco implantável pode ser considerado em pacientes com AVC isquêmico criptogênico quando a monitorização externa prolongada for inconclusiva.

ForteBaixa

Em idosos frágeis, a decisão sobre o rastreamento de fibrilação atrial deve ser individualizada, considerando a expectativa de vida, o risco hemorrágico, a capacidade de adesão ao tratamento e as preferências do paciente.

AVC: acidente vascular cerebral; ECG: eletrocardiograma; FA: fibrilação atrial.

Anticoagulação

📖 Texto de suporte — seção 9.4.4.1
  • Indicar pelo risco tromboembólico, não pela idade; idade avançada, fragilidade ou risco de quedas, isoladamente, não contraindicam. DOACs preferidos (menos hemorragia intracraniana). Individualizar com função, cognição, sangramento, expectativa de vida e preferências.
  • CHA₂DS₂-VA: ferramenta mais validada; ≥ 75 anos = 2 pontos só pela idade → praticamente todos têm indicação. GARFIELD-AF estima AVC, sangramento e mortalidade em 2 anos (útil em multimórbidos) — Figura 9.6.
  • Sangramento: HAS-BLED (acurácia modesta no idoso); A4C — desenvolvido para > 80 anos em DOAC (idade ≥ 85, anemia, albumina baixa, amiodarona, clearance baixo; ≥ 2 = alto risco); DOAC Score — melhor que HAS-BLED em usuários de DOAC. Nenhum incorpora fragilidade (Figura 9.7).
  • Escore alto não contraindica: indica reavaliação em ~4 semanas (em vez de 4–6 meses) e correção de fatores modificáveis (PA, função renal, AINEs, álcool).
  • Metanálise de octogenários (147.067): DOAC vs. varfarina — AVC RR 0,72; mortalidade RR 0,82; hemorragia intracraniana RR 0,47; sangramento maior e GI sem diferença. COMBINE-AF (frágeis ≥ 75 anos em varfarina): troca para DOAC reduziu AVC/embolia, sangramento fatal e intracraniano e morte, com mais sangramento GI (HR 1,83).
  • Apixabana superior à varfarina em eficácia e segurança em qualquer idade (incluindo ≥ 80). ELDERCARE-AF (≥ 80 anos sem condição para dose padrão): edoxabana 15 mg/dia vs. placebo — AVC/embolia 2,3% vs. 6,7% (HR 0,34), sem aumento significativo de sangramento maior, independentemente da fragilidade. Rivaroxabana: 60% mais sangramento GI e intracraniano que a apixabana → evitar como primeira escolha.
  • Função renal define dose e contraindicações; adesão e decisão compartilhada são essenciais.
CHA2DS2-VA: IC/disfunção de VE 1, hipertensão 1, idade ≥ 75 anos 2, diabetes 1, AVC/AIT/tromboembolismo 2, doença vascular 1, idade 65–74 anos 1, máximo 8; 0 baixo risco, ≥ 1 anticoagulação recomendada. GARFIELD-AF: idade × 1 + IC 8, DRC (TFG < 45) 6, AVC/AIT/embolia 6, sangramento 6, tabagismo 4, doença vascular 3, anticoagulante −4; estima AVC, sangramento maior e mortalidade em 2 anos.
Figura 9.6 – Escores de risco utilizados para avaliação do risco tromboembólico em pacientes com fibrilação atrial. AIT: ataque isquêmico transitório; AVC: acidente vascular cerebral; DAP: doença arterial periférica; IAM: infarto agudo do miocárdio; DAC: doença arterial coronariana; TFG: taxa de filtração glomerular. CHA₂DS₂-VA: escore recomendado pelas diretrizes para decisão de anticoagulação na fibrilação atrial; GARFIELD-AF: modelo prognóstico que incorpora mais variáveis clínicas e estima simultaneamente risco de AVC, sangramento e mortalidade.Toque na imagem para ampliar.
⚠️ Nota de fidelidade

Na Figura 9.6 a interpretação do CHA₂DS₂-VA traz “≥ 1 ponto: anticoagulação oral recomendada”; o quadro de recomendações da diretriz indica anticoagulação para CHA₂DS₂-VA ≥ 2 (Forte/Alta). Esta página segue o quadro de recomendações e mostra as duas leituras na calculadora.

🧮 CHA₂DS₂-VA (Figura 9.6)
Idade
Fatores
Escolha a faixa etária.
Escores de sangramento: HAS-BLED (hipertensão PAS > 160, alteração renal ou hepática, AVC, sangramento, INR lábil, idade > 65, drogas/álcool; 0–9); A4C (idade < 85 = 0, 85–95 = 1, ≥ 95 = 3; Hb < 11 = 2; albumina < 3,5 = 1; amiodarona = 1; clearance ≥ 50 = 0, 30–50 = 1, < 30 = 2; 0–9); DOAC score (idade ≥ 75, TFGe < 60, Hb < 12, peso ≤ 60 kg, sangramento prévio; 0–5).
Figura 9.7 – Escores utilizados para a avaliação do risco de sangramento em pacientes com fibrilação atrial. DOAC: anticoagulante oral direto; AVC: acidente vascular cerebral; INR: razão normalizada internacional; TTR: tempo na faixa terapêutica; AINEs: anti-inflamatórios não esteroides; AST: aspartato aminotransferase; ALT: alanina aminotransferase; FA: fosfatase alcalina; LSN: limite superior da normalidade; TFGe: taxa de filtração glomerular estimada.Toque na imagem para ampliar.
🧮 A4C Score — risco de sangramento em > 80 anos em uso de DOAC (Figura 9.7)
Idade
Clearance de creatinina
Outros
Escolha idade e clearance.
🧮 HAS-BLED (Figura 9.7)
Marque (1 ponto cada)
HAS-BLED = 0.

A Figura 9.7 lista as alterações renal e hepática numa mesma linha (1 ponto); na versão original do escore, valem 1 ponto cada. Escore alto não contraindica a anticoagulação.

Quadro de recomendações – Prevenção de fenômenos tromboembólicos em pacientes idosos com fibrilação atrial
ForteAlta

Recomenda-se anticoagulação oral para pacientes idosos com FA e CHA₂DS₂-VA ≥ 2 para prevenção de AVC e tromboembolismo sistêmico.

ForteAlta

Os DOACs são preferíveis à varfarina em idosos sem estenose mitral moderada ou grave ou prótese valvar mecânica, devido à redução da mortalidade, de AVC e de hemorragia intracraniana.

ForteAlta

A apixabana apresenta perfil superior de eficácia e segurança em pacientes ≥ 80 anos, com redução de AVC/embolia sistêmica e de sangramento maior, em comparação com a varfarina.

ForteModerada

A decisão de anticoagular pacientes idosos frágeis deve ser individualizada por meio de avaliação geriátrica abrangente, considerando a relação risco-benefício; entretanto, a fragilidade isoladamente não contraindica a anticoagulação.

ForteModerada

Os escores de risco hemorrágico HAS-BLED, A4C ou DOAC Score podem ser utilizados para identificar fatores de risco modificáveis e determinar a frequência das reavaliações clínicas, mas não para contraindicar a anticoagulação.

ForteAlta

A rivaroxabana deve ser evitada em adultos ≥ 65 anos com FA devido às maiores taxas de sangramento em comparação com outros DOACs, exceto quando a administração em dose única diária puder melhorar a adesão ao tratamento.

FracaModerada

A edoxabana 15 mg/dia pode ser considerada em pacientes muito idosos (≥ 80 anos) para os quais a anticoagulação em dose padrão seja contraindicada.

Forte (não recomendada)Alta

A aspirina, isoladamente ou em combinação com clopidogrel, não é recomendada como alternativa à anticoagulação em idosos com FA.

AVC: acidente vascular cerebral; DOAC: anticoagulante oral direto; FA: fibrilação atrial. A recomendação sobre aspirina aparece como “Forte” no original; a marcação em vermelho destaca que se trata de recomendação contra o uso.

📖 Texto de suporte — oclusão do apêndice atrial esquerdo (seção 9.4.4.2)
  • Alternativa na contraindicação absoluta à anticoagulação (hemorragia intracraniana, sangramento maior recorrente): ~90% dos trombos da FA não valvar vêm do apêndice; percutânea ou cirúrgica concomitante.
  • Factível e segura ≥ 75 anos (eventos adversos 12–13%, semelhantes aos mais jovens). Mas ECR recente não mostrou não inferioridade versus o melhor tratamento médico (incluindo anticoagulação) em alto risco de AVC e sangramento, sem reduzir sangramento maior → reservar para contraindicação genuína, com decisão multidisciplinar.

Ritmo × frequência

📖 Texto de suporte — seções 9.4.5 a 9.4.5.2
  • Estudos clássicos: sem superioridade do ritmo em mortalidade/MACE → frequência como estratégia inicial plausível. Metanálise (18 ECRs, 17.536): ritmo reduziu morte CV, AVC e hospitalização por IC, sobretudo com ablação. EAST-AFNET 4: controle precoce do ritmo reduziu morte CV, AVC e hospitalização por IC ou SCA na FA recente — o ritmo pode modificar a história natural.
  • No idoso: ritmo nos sintomáticos, FA recente, IC ou para frear a progressão; idade não exclui ablação.
  • Frequência: betabloqueador (DAC, ICFEr) ou diltiazem/verapamil (DPOC sem disfunção, FEVE > 40%); digoxina adjuvante (IC), pouco eficaz no esforço e com risco de intoxicação. Meta leniente < 100–110 bpm em assintomáticos com FE preservada; < 80 bpm se sintomas, piora da função ou suspeita de taquicardiomiopatia. Refratários: ablação do nó AV + marcapasso.
  • Ritmo: amiodarona mais usada (eficaz, pouco inotrópica negativa; preferida com disfunção de VE/IC); sotalol e propafenona selecionados. CABANA: ablação > fármacos na manutenção do sinusal (recorrência 49,9% vs. 69,5%; HR 0,52) e em morte ou hospitalização CV (HR 0,83), sem redução isolada de mortalidade por intenção de tratar. ≥ 65 anos: ablação −24% de recorrência, menos cardioversão, hospitalização por IC e AVC; complicações 5,9%. Muito idosos e frágeis pouco representados.
Quadro de recomendações – Escolha da estratégia e tratamento pelo controle da frequência e do ritmo

Escolha entre ritmo e frequência

ForteModerada

O controle precoce do ritmo (dentro de 1 ano do diagnóstico) deve ser considerado em pacientes idosos sintomáticos com fibrilação atrial recente, com o objetivo de reduzir morte cardiovascular, acidente vascular cerebral e hospitalização por insuficiência cardíaca ou síndrome coronariana aguda.

ForteModerada

O controle da frequência é apropriado como estratégia inicial em pacientes idosos assintomáticos ou minimamente sintomáticos, com múltiplas comorbidades ou expectativa de vida limitada.

ForteModerada

A escolha entre controle do ritmo e controle da frequência deve ser individualizada, considerando sintomas, comorbidades, funcionalidade, fragilidade, expectativa de vida e preferências do paciente.

ForteModerada

A idade cronológica, isoladamente, não deve ser utilizada para excluir estratégias de controle do ritmo, incluindo a ablação por cateter.

Controle da frequência

ForteAlta

Betabloqueadores ou bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropiridínicos (diltiazem ou verapamil) são recomendados como terapia de primeira linha para o controle da frequência.

ForteAlta

Uma meta leniente de frequência cardíaca (100–110 bpm em repouso) é adequada para pacientes assintomáticos com função ventricular preservada.

ForteModerada

Uma meta mais rigorosa de controle da frequência cardíaca (80 bpm em repouso) pode ser considerada em pacientes com sintomas persistentes, deterioração da função ventricular ou suspeita de cardiomiopatia induzida por taquicardia.

FracaModerada

A digoxina pode ser utilizada como terapia adjuvante quando o controle da frequência não for alcançado com outros agentes, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca, mas seu uso requer cautela devido ao risco de intoxicação.

ForteModerada

A ablação do nó atrioventricular com implante de marca-passo deve ser considerada em casos refratários ao tratamento farmacológico otimizado.

Controle do ritmo

ForteModerada

A amiodarona é preferível em pacientes com disfunção ventricular esquerda ou insuficiência cardíaca devido à sua eficácia e ao menor efeito inotrópico negativo.

FracaModerada

Sotalol e propafenona podem ser considerados em pacientes selecionados, respeitando-se as contraindicações e as funções cardíaca, renal e hepática.

ForteModerada

Os antiarrítmicos devem ser iniciados em doses menores, com titulação gradual em idosos, devido às alterações farmacocinéticas, à redução das funções renal e hepática e ao maior risco pró-arrítmico.

ForteAlta

A ablação por cateter deve ser considerada em pacientes idosos sintomáticos com fibrilação atrial recorrente, impacto na qualidade de vida e falha ou intolerância ao tratamento farmacológico.

ForteModerada

A ablação por cateter pode ser realizada com segurança razoável em idosos selecionados, com melhora da qualidade de vida e redução da recorrência de fibrilação atrial, da necessidade de cardioversão elétrica, das hospitalizações por insuficiência cardíaca e da ocorrência de acidente vascular cerebral isquêmico.

ForteModerada

A decisão pela ablação em idosos deve considerar fragilidade, estado funcional, carga de comorbidades, expectativa de vida e objetivos do cuidado, e não apenas a idade cronológica.

Forte (contra)Moderada

A ablação por cateter não deve ser realizada em pacientes com cardiomiopatias infiltrativas avançadas (amiloidose), estenose ou regurgitação mitral grave ou cor pulmonale, devido à baixa probabilidade de sucesso.

bpm: batimentos por minuto.

🎓 Interpretação didática

Idosa de 88 anos, FA permanente, CHA₂DS₂-VA 5, duas quedas no ano, clearance 32, Hb 10,8: A4C alto e HAS-BLED 3 não tiram a anticoagulação — mudam o seguimento (revisão em 4 semanas), corrigem o que dá (AINE, PA, anemia) e orientam a escolha: apixabana. Se nem a dose padrão for possível, edoxabana 15 mg (ELDERCARE-AF). AAS não é alternativa.

Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seção 9.4; Figuras 9.5 a 9.7; quadros de recomendação.

🎯Treino e desempenho

Escolha como estudar. Suas respostas ficam salvas neste navegador: dá para fechar a página e continuar depois.

Modo prova

Casos sorteados de todas as seções. A correção só aparece no fim.

Revisão das erradas

Refaça só os casos que você errou (ou deixou em branco na prova). Acertou, sai da lista.

Por seção

Treine um tema específico, com os casos em nova ordem.

Flashcards

Cartões curtos com os números e critérios que mais caem. Toque no cartão para virar; marque “Sabia” ou “Revisar depois” — os de revisão voltam na mesma rodada e ficam salvos para depois.

📊 Desempenho por tema

🎓Desafio final — 20 casos integradores

Casos que cruzam capítulos: fragilidade, polifarmácia, risco cirúrgico, coronárias, insuficiência cardíaca, valvas e arritmias no mesmo paciente idoso. Escolha uma alternativa e leia o comentário completo.

Continuar de onde parou: