Revisão comentada · Dr. Guilherme Moura · Baseada na diretriz oficial da Sociedade Brasileira de Cardiologia
Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria – 2026
Revisão prática e interativa das III Diretrizes de Cardiogeriatria da SBC, organizada em 17 seções que cobrem os nove capítulos do documento. A pergunta que atravessa todas elas: o que muda quando o paciente cardiopata é idoso? Fragilidade, cognição, funcionalidade, polifarmácia e objetivos de cuidado entram em cada decisão. As tabelas estão transcritas na íntegra e as recomendações mostram a força e a certeza GRADE.
- Documento
- SBC · DECAGE, 2026
- Seções
- 17
- Recomend.
- 283
- Quadros
- 61
- Figuras
- 15
- Casos
- 105
- Flashcards
- 155
- Calculadoras
- 23
Helber I, Zanon JCC, Peixoto JM, et al. Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria – 2026. Arq Bras Cardiol. 2026;123(10):e20260795.
Terceira edição das diretrizes brasileiras de cardiogeriatria (a primeira, de 2002, foi a primeira do mundo no tema), elaborada pelo Departamento de Cardiogeriatria (DECAGE) da SBC, sucedendo as edições de 2010 e 2019. Traz pela primeira vez um capítulo de síncope no idoso e adota o sistema GRADE (força: forte ou condicional; certeza: alta, moderada, baixa ou muito baixa). Capítulos: aspectos gerais da senilidade e prevenção; estratificação do risco cardiovascular; coronariopatia crônica e aguda; insuficiência cardíaca; hipertensão; valvopatias; e arritmias.
Material educacional baseado na diretriz oficial. Não substitui julgamento clínico individualizado, a avaliação multiprofissional nem a decisão compartilhada com o paciente e a família. Onde esta revisão vai além do texto da diretriz, isso aparece marcado como 🎓 Interpretação didática.
Força da recomendação (SBC, GRADE) — cor da barra lateral:
Certeza da evidência (GRADE):
Siglas com sublinhado pontilhado mostram o significado ao passar o mouse ou tocar. Três camadas estão sempre separadas: Recomendação formal (transcrição dos quadros) · 📖 Texto de suporte (síntese fiel do documento) · 🎓 Interpretação didática. Tabelas marcadas como “Síntese” organizam em forma de tabela o que o documento traz em texto corrido.
1Pioneirismo, envelhecimento cardiovascular e cuidado centrado na pessoa
Diretriz · capítulo 1, introdução do capítulo 2 e seção 2.1
Idade cronológica não é idade biológica. O envelhecimento cardíaco — hipertrofia, disfunção diastólica, fibrose, rigidez arterial — prepara o terreno para ICFEp e FA, mas é um processo parcialmente modificável. A diretriz organiza todo o cuidado em torno da avaliação geriátrica ampla, da equipe multiprofissional e de objetivos de cuidado definidos com o paciente.
Uma diretriz pioneira
- Em 2002, o Grupo de Estudos em Cardiogeriatria (GEBRAC) da SBC reuniu 51 especialistas em São Pedro (SP) e elaborou a primeira diretriz específica em cardiogeriatria do mundo, publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia.
- Em 2010, o Departamento de Cardiogeriatria (DECAGE) reuniu mais de 100 profissionais nas II Diretrizes, em parceria com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG); em 2014 foram apresentadas em sessão conjunta com o American College of Cardiology (ACC), em Washington.
- Atualização em 2019 (editores Gilson Soares Feitosa-Filho, José Maria Peixoto e José Elias Soares Pinheiro).
- As III Diretrizes (2026), editadas por Izo Helber, José Maria Peixoto e José Carlos da Costa Zanon, trazem pela primeira vez um capítulo específico sobre síncope no idoso.
- Núcleo: o paciente idoso e sua família, envolvidos pela avaliação geriátrica ampla (AGA) — fragilidade, cognição, funcionalidade, multimorbidade e polifarmácia orientam todas as decisões cardiovasculares.
- Anel de co-gestão multidisciplinar: cardiologista, geriatria, enfermagem, fisioterapeuta, educador físico e nutricionista.
- Linha de cuidado: detecção e avaliação → estratificação → plano de cuidado → acompanhamento → transição e continuidade (da prevenção e imunização aos cuidados paliativos).
- Cinco pilares: avaliação sistemática, decisão compartilhada, individualização, prevenção ativa e planejamento antecipado.
Envelhecimento populacional e doença cardiovascular
- Em 2030, cerca de 22% da população mundial terá mais de 60 anos (12% em 2015). O grupo que mais cresce é o de > 80 anos, que deve triplicar até 2050.
- No Brasil (Censo 2022, IBGE), a população com mais de 65 anos cresceu 57,4% em relação a 2010. A expectativa de vida passou de 71,1 anos (2000) para 76,4 anos (2023) e deve alcançar 83,9 anos em 2070.
- A IC acomete 1–2% dos adultos em países desenvolvidos e mais de 10% dos indivíduos com ≥ 70 anos; a FA atinge 10–17% dos indivíduos ≥ 80 anos.
- O envelhecimento cardíaco é fator de risco não modificável, impulsionado por estresse oxidativo, disfunção mitocondrial, comprometimento da autofagia, alterações epigenéticas, inflamação e fibrose — com remodelamento mesmo em idosos aparentemente saudáveis. Espera-se mais ICFEp, FA e doença isquêmica.
Alterações estruturais e funcionais do coração que envelhece
- Marcas do envelhecimento cardíaco: hipertrofia ventricular esquerda, disfunção diastólica, redução da reserva funcional, fibrose miocárdica, remodelamento da matriz extracelular, aumento da rigidez arterial e disfunção endotelial.
- A fração de ejeção costuma ser preservada, mas a contratilidade intrínseca cai pela menor responsividade β-adrenérgica e por alterações no manejo intracelular do Ca²⁺.
- As alterações diastólicas predominam: o enchimento diastólico inicial do VE pode cair ~50% aos 80 anos, enquanto aumenta a contribuição da contração atrial.
- Estrutura: aumento da espessura parietal (perda de cardiomiócitos com hipertrofia compensatória), aumento da relação massa/volume, redução das dimensões ventriculares e hipertrofia assimétrica com espessamento septal; alterações semelhantes, menos pronunciadas, no VD.
- Átrios: maior dependência da contração atrial, fibrose e dilatação — o tamanho do átrio esquerdo se relaciona diretamente ao risco de FA. Em alguns indivíduos, amiloidose cardíaca.
- Hipertrofia do VE e dilatação do AE têm papel central na fisiopatologia da ICFEp e da FA.
- O envelhecimento não é igual para todos: hábitos de vida e fatores metabólicos, ambientais, genéticos e epigenéticos o modulam, e intervenções (estilo de vida, fármacos, terapias dirigidas a mecanismos do envelhecimento) podem retardar ou até reverter parte dele.
| Alteração | Consequência fisiológica | Doença favorecida |
|---|---|---|
| Hipertrofia do VE, fibrose, ↑ massa/volume | Relaxamento lento e rigidez; enchimento precoce reduzido (~50% aos 80 anos) | ICFEp |
| Maior dependência da contração atrial, fibrose e dilatação do AE | Substrato arritmogênico (tamanho do AE ∝ risco) | Fibrilação atrial |
| Menor resposta β-adrenérgica; alteração do manejo de Ca²⁺ | Redução da reserva contrátil, com FE geralmente preservada | Menor tolerância a estresse (infecção, cirurgia) |
| Rigidez arterial e disfunção endotelial | ↑ pós-carga, pressão de pulso e PAS | Hipertensão sistólica, aterosclerose |
Quadro-síntese didático elaborado a partir do texto das seções 2.1.1 e 2.1.2. AE: átrio esquerdo; FE: fração de ejeção; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; PAS: pressão arterial sistólica; VE: ventrículo esquerdo.
Promoção do envelhecimento saudável
- OMS: envelhecimento saudável é “o processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade funcional que possibilita o bem-estar na terceira idade”.
- Life’s Essential 8 (AHA): cessação do tabagismo, alimentação saudável, atividade física regular, controle do peso, da pressão arterial, do colesterol e da glicemia, e sono adequado.
- Tecnologias digitais (telemedicina, telessaúde, dispositivos vestíveis, monitoramento remoto) ajudam a acompanhar parâmetros e atividade física; número de passos e duração do exercício associam-se a menor risco cardiovascular e melhor capacidade funcional.
- O cuidado do idoso com DCV inclui rastreamento sistemático de síndromes geriátricas e avaliação individualizada de funcionalidade, fragilidade, cognição, nutrição, comorbidades, polifarmácia, expectativa de vida e preferências. A AGA é detalhada e reservada a contextos especializados/alto risco; o rastreio geriátrico visa à detecção precoce e à gestão proativa antes do declínio.
- Fatores modificáveis: tabagismo, alimentação inadequada, sedentarismo, álcool em excesso, hipertensão, dislipidemia, DM, obesidade e estresse. Não modificáveis: idade, sexo e genética.
- Saúde mental: rastrear depressão, ansiedade e isolamento social. Fragilidade: maior suscetibilidade a quedas, perda funcional, hospitalização prolongada, institucionalização e morte. Polifarmácia inadequada: revisão periódica, desprescrição racional e coordenação entre níveis de atenção.
O idoso de 82 anos com ICFEp e FA não é “um adulto mais velho”: o mesmo substrato (VE rígido, AE dilatado) explica as duas doenças e a pouca reserva diante de qualquer estresse. A diretriz pede que a conduta cardiológica seja sempre lida à luz de função, cognição, fragilidade, medicamentos e desejos do paciente — essa é a linha que atravessa todos os capítulos.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 1, introdução do capítulo 2 e seção 2.1; Figura Central.
2Avaliação geriátrica ampla e fragilidade
Diretriz · seções 2.2 e 2.3
A AGA é um processo diagnóstico multidimensional e interdisciplinar que revela vulnerabilidades invisíveis à consulta tradicional. A fragilidade — menor reserva para responder ao estresse — tem relação bidirecional com a doença cardiovascular: rastreie todo idoso com DCV ≥ 70 anos e, a partir de 65, quando houver condições especiais.
Quando fazer a avaliação geriátrica ampla
- A população idosa é heterogênea: usar apenas a idade como referência para decisões não é mais aceitável. Idade cronológica não traduz idade biológica, reserva funcional ou vulnerabilidade.
- A AGA identifica fatores de risco, faz diagnóstico precoce de agravos da senescência e avalia capacidade funcional, cognição, condição socioeconômica, nutrição, saúde emocional e espiritual e preferências de cuidado. Objetivo: plano de cuidados individualizado que otimize qualidade de vida, preserve autonomia e promova envelhecimento saudável.
- Apresentações atípicas: infarto e infecções sem sinais clássicos; delirium pode ser a primeira manifestação de doença subjacente; depressão e déficit cognitivo podem se manifestar por alterações funcionais ou comportamentais.
- A funcionalidade (atividades básicas, instrumentais e avançadas) é um dos principais marcadores de saúde no envelhecimento; sua perda associa-se a eventos adversos.
- Metas terapêuticas individualizadas: autonomia, funcionalidade, qualidade de vida e dignidade.
- Idade avançada (> 75–80 anos);
- Fragilidade ou risco de fragilidade (detectado por rastreio);
- Múltiplas comorbidades e/ou polifarmácia;
- Declínio funcional recente ou progressivo;
- Alterações cognitivas ou diagnóstico de demência;
- Hospitalizações frequentes e/ou quedas recorrentes;
- Transição de cuidados;
- Necessidade de tomada de decisão complexa.
Domínios e instrumentos da AGA
A aplicação é planejada individualmente e pode ocorrer em duas ou mais consultas, com diferentes profissionais (seção 2.2.2).
| Domínio | O que investigar | Instrumentos |
|---|---|---|
| Funcionalidade (AVD básicas) | Banho, vestuário, alimentação, continência, transferências | Escala de Katz; Índice de Barthel |
| Funcionalidade (AVD instrumentais) | Preparo de refeições, compras, manejo de medicamentos e finanças | Escala de Lawton e Brody |
| Mobilidade e quedas | Força de membros inferiores e marcha | Sentar e levantar (5 repetições); velocidade da marcha em 3–4 m (normal: até 8 s) |
| Cognição | Comprometimento cognitivo, demência; delirium no hospital | MEEM; MoCA; CAM (delirium) |
| Estado nutricional | Perda ponderal não intencional, desnutrição, mastigação/deglutição | Miniavaliação Nutricional (MNA) |
| Estado psicológico | Depressão, ansiedade, humor, isolamento social | Anamnese dirigida; Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15) |
| Social e ambiente | Rede de suporte, moradia, situação socioeconômica, lazer, sobrecarga do cuidador | Escala de Zarit |
| Revisão medicamentosa | Polifarmácia, medicamentos potencialmente inapropriados, interações, duplicidades, adesão | Critérios de Beers; STOPP/START; desprescrição |
| Comorbidades e privações sensoriais | Doenças crônicas, incontinência, lesões por pressão, visão e audição | Testes simples de consultório |
| Questões existenciais | Valores, crenças, fontes de esperança, prioridades; diretivas antecipadas de vontade | FICA (Fé, Importância, Comunidade, Ação); HOPE |
Síntese em tabela do texto das seções 2.2.2.1 a 2.2.2.8. AVD: atividades da vida diária; CAM: Confusion Assessment Method; MEEM: Miniexame do Estado Mental; MoCA: Montreal Cognitive Assessment.
- Ao ignorar fragilidade, risco de quedas, déficit cognitivo incipiente e sobrecarga do cuidador, a avaliação padrão falha em prevenir desfechos adversos, inclusive mortalidade.
- A AGA detecta fragilidade, sarcopenia, risco de quedas, desnutrição, incontinência, depressão, alterações cognitivas, problemas sociais e sobrecarga do cuidador.
- Benefícios: preservar ou recuperar independência, melhorar qualidade de vida, reduzir complicações; a revisão farmacoterápica reduz polifarmácia e eventos adversos; intervenções em mobilidade, ambiente e suporte social reduzem quedas, hospitalizações e institucionalização.
- Promove o cuidado centrado na pessoa e a decisão compartilhada, adequando a intensidade do tratamento; reconhece o cuidador como parte do processo.
- O objetivo não é apenas prolongar a vida, mas preservar autonomia, funcionalidade, segurança, qualidade de vida e dignidade.
Fragilidade e doença cardiovascular
- Fragilidade: síndrome do envelhecimento com prejuízo da capacidade de responder ao estresse físico, mental e social; aumenta quedas, perda funcional, hospitalização prolongada, institucionalização e mortalidade.
- A relação é bidirecional: DCV é fator de risco para fragilidade e fragilidade é fator de risco para DCV (Figura 2.1). Fatores comuns: inflamação, trombose, ↑ fator VIII, dímero-D e proteína C-reativa.
- Prevalência de fragilidade em idosos com DCV: 25–60%, até 80% na IC. Piora desfechos (sangramento, tromboembolismo, reinternação) e aumenta a mortalidade independentemente da idade e da DCV.
- Na comunidade, OR de 2,7 a 4,1 para associação fragilidade–DCV. Achados subclínicos (HVE ao eco, alteração segmentar, alterações de ECG, hipertensão sistólica, espessura íntima-média carotídea, AVC na RM, ITB < 0,8) associam-se individualmente a fragilidade e mortalidade.
Quem rastrear
- Objetivo: estabelecer o risco inicial para decisões epidemiológicas e terapêuticas (invasivas ou não), reduzindo mortalidade, deterioração funcional e perda de qualidade de vida. Não há consenso, mas os conceitos se assemelham.
- A AHA não tem recomendação formal; a força-tarefa da International Conference on Frailty and Sarcopenia Research (2019) recomenda rastrear todos os idosos com instrumento validado e adequado ao contexto (recomendação forte), excluindo idealmente a incapacidade da triagem; se positivo, avaliação clínica abrangente (recomendação forte).
- A ESC aconselha rastrear a partir de 65 anos com condições especiais e todos acima de 70 anos.
- Todos os idosos com DCV e idade ≥ 70 anos.
- Idosos com DCV e ≥ 65 anos com condições clínicas especiais: recebendo apoio de assistência social ou atendimento domiciliar, internados em hospital ou instituição de longa permanência; perda de peso significativa e não intencional (por exemplo, > 5% em 1 ano ou > 3 kg em 3 meses).
- Pacientes com múltiplas condições crônicas ou doenças específicas: DM; DPOC ou outras doenças respiratórias debilitantes; AVC; doenças neurodegenerativas (síndromes demenciais, Parkinson); ICFEp ou ICFEr; câncer; doença renal crônica; infecção pelo HIV.
- Pacientes que serão submetidos a intervenções cardíacas: TAVI; cirurgia cardíaca (CRM, substituição valvar); ICP; SCA (IAMCSST e IAMSSST); indicação de dispositivos eletrônicos (marcapasso, ressincronizador, CDI).
Instrumentos: grupo A (físicos) e grupo B (multidimensionais)
- Há mais de 60 escalas; a maioria foi validada em populações muito diferentes. O instrumento ideal tem alta sensibilidade e especificidade, é prático, rápido e validado para o contexto. A AHA não endossa um instrumento; a ESC recomenda instrumentos conforme risco e população.
- Grupo A — doença sistêmica (IC, IAM, FA, hipertensão) com necessidade de avaliação de risco epidemiológico → instrumentos de fragilidade física: Fenótipo de Fried (Johns Hopkins) e Short Physical Performance Battery (SPPB).
- Grupo B — procedimento de média ou alta complexidade (implante de valva aórtica, CRM, troca valvar) → instrumentos multidimensionais: Índice de Fragilidade, Índice Prognóstico Multidimensional derivado da AGA ou Escala de Fragilidade de Edmonton (EFS). Quando se precisa de rapidez: Escala de Fragilidade Clínica (CFS) ou o Conjunto de Ferramentas Essenciais para a Fragilidade.
| Instrumento | O que avalia | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|---|
| Grupo A — aspectos físicos | |||
| Fenótipo de Fried (Johns Hopkins) | Perda de peso, exaustão, fraqueza (preensão palmar), lentidão da marcha e gasto energético pregresso | Muito usado, validado em diversas etnias e grupos | Requer dinamômetro, cronômetro e espaço; questionário de gasto energético demorado (alguns substituem por sentar-levantar ou pela pergunta sobre dificuldade nas atividades do último mês) |
| Short Physical Performance Battery | Equilíbrio (3 posições), levantar-se da cadeira e marcha | Avalia desempenho muscular e sistemas nervosos periférico e central; validado em várias línguas e populações | Requer tempo, espaço e instrumentos |
| Grupo B — aspectos multidimensionais | |||
| Escala de Fragilidade Clínica (CFS) | Escala de 9 pontos de vulnerabilidade clínica | Fácil, sem instrumentos; muito usada, sobretudo no pré-operatório | Interpretação subjetiva; exige conhecer as AVD do paciente |
| Escala de Fragilidade de Edmonton (EFS) | 11 itens: cognição, saúde geral, independência, suporte social. 0–4 não frágil; 5–6 vulnerável; 7–8 leve; 9–10 moderada; 11 severa | Rápida e validada em diversas populações | Mais adequada ao hospital; demorada na emergência; requer treinamento; sensibilidade relativamente menor |
| Conjunto de Ferramentas Essenciais para a Fragilidade | 4 itens: testes funcionais, laboratoriais e de cognição | Rápida, sem aspectos subjetivos; alta especificidade para mortalidade em TAVI e troca valvar | Requer exames laboratoriais e tempo para a parte cognitiva; mais usada em estudos de risco pré-operatório |
Síntese em tabela do texto da diretriz. AVD: atividades da vida diária; TAVI: implante transcateter de valva aórtica.
Marcadores isolados de fragilidade
- Cinco critérios de instrumentos completos podem ser usados isoladamente como rastreio rápido; quem pontua deve depois ser avaliado por instrumento amplo.
- Lentidão da marcha (5 m, ritmo confortável, cronômetro do primeiro passo após a partida ao primeiro passo após a chegada, média de 3 tentativas): lento < 0,83 m/s (> 6 s); muito lento < 0,65 m/s (> 7,7 s); extremamente lento < 0,50 m/s (> 10 s).
- Fraqueza (dinamômetro, 3 medidas, maior valor da mão dominante): homens < 30 kg; mulheres < 20 kg.
- Perda de peso não intencional autorrelatada ou aferida ≥ 4,54 kg no último ano.
- Prejuízo nutricional: albumina sérica < 3,5 g/dL.
- Anemia: hemoglobina < 13 g/dL (homens) ou < 12 g/dL (mulheres).
Marcadores positivos indicam risco elevado de fragilidade e pedem avaliação por instrumento amplo (Fried/SPPB no grupo A; CFS, EFS ou ferramentas multidimensionais no grupo B).
Duas perguntas resolvem a escolha do instrumento: para que quero saber da fragilidade? Para prognóstico de uma doença crônica (grupo A), meça o corpo — marcha, força, Fried, SPPB. Para decidir um procedimento (grupo B), meça a pessoa inteira — CFS, Edmonton, ferramentas multidimensionais. E, na falta de tempo, um cronômetro e 5 metros já separam quem precisa de avaliação completa.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.2 e 2.3; Figura 2.1.
3Polifarmácia, depressão e ansiedade
Diretriz · seções 2.4 e 2.5
Cinco ou mais medicamentos definem polifarmácia; dez ou mais, hiperpolifarmácia — mas o que importa é se ela é apropriada. Depressão afeta 20–30% dos pacientes com DCV e piora prognóstico; a sertralina é o antidepressivo com melhor evidência cardiovascular, sempre começando baixo e progredindo devagar.
Polifarmácia: conceitos, causas e consequências
- A multimorbidade (HAS, DM, DCV, doenças osteoarticulares e neurodegenerativas) leva ao uso de múltiplos fármacos. Contribuem: acompanhamento por vários especialistas, fragmentação do cuidado, falta de revisão sistemática, automedicação e uso prolongado de fármacos indicados para condições agudas.
- Definição quantitativa mais usada: uso simultâneo de ≥ 5 medicamentos; polifarmácia excessiva (hiperpolifarmácia): ≥ 10, com risco muito maior de eventos adversos.
- Definição qualitativa: polifarmácia apropriada — todos os medicamentos com indicação clara, eficácia comprovada, segurança adequada e alinhamento aos objetivos do paciente; inadequada — fármacos sem indicação atual, duplicidades, doses inapropriadas ou risco maior que o benefício.
- Prevalência em ≥ 65 anos: 40–60%, podendo passar de 70% em hospitais e instituições de longa permanência. No Brasil, alta na atenção primária, sobretudo em idosos, mulheres e baixa escolaridade, com uso frequente de medicamentos potencialmente inapropriados.
- Principal determinante: multimorbidade, sobretudo quando diretrizes por doença geram prescrições cumulativas. Também: múltiplos prescritores sem coordenação, automedicação (fitoterápicos, suplementos, isentos de prescrição).
- Consequências: reações adversas, interações, declínio funcional e cognitivo, quedas, menor adesão, hospitalizações evitáveis, custos; a polifarmácia excessiva associa-se a maior mortalidade, sobretudo em frágeis com multimorbidade. As alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas do envelhecimento potencializam esses riscos.
Como evitar a polifarmácia inadequada
| Estratégia | Como funciona |
|---|---|
| Revisão periódica da farmacoterapia | Avalia indicação, eficácia, segurança, dose e duração; identifica duplicidades e interações |
| Desprescrição | Redução ou interrupção planejada e individualizada de fármacos sem benefício ou com risco; reduz a carga medicamentosa sem aumento significativo de eventos adversos |
| Critérios explícitos | Critérios de Beers e outras ferramentas identificam medicamentos potencialmente inapropriados |
| Abordagem multiprofissional | Otimiza a farmacoterapia e a segurança do paciente |
| Educação de pacientes e cuidadores | Uso racional, adesão e menos automedicação |
| Priorizar medidas não farmacológicas e coordenar níveis de atenção | Paciente no centro do processo decisório; polifarmácia como indicador de qualidade do cuidado |
Barreiras: resistência dos prescritores, pouco tempo de consulta e ausência de sistemas integrados de informação. Soluções propostas: educação permanente, apoio à decisão clínica e modelos centrados no paciente.
Depressão e ansiedade no idoso com DCV
- Prevalência de depressão na DCV: 20–30%. Associa-se a eventos adversos, pior adesão e pior qualidade de vida.
- Tratar a depressão melhora sintomas, qualidade de vida e adesão, mas não há evidência robusta de que algum antidepressivo isoladamente reduza MACE ou mortalidade de forma consistente.
- ELSA-Brasil (Kemp et al., 15.105 adultos de 35–74 anos): depressão maior com ansiedade → 3× mais chance de DAC; depressão isolada ~2×; ansiedade isolada ~1,5×, após ajuste para fatores tradicionais.
- Avaliação inicial: anamnese considerando farmacocinética/farmacodinâmica do idoso e fragilidade; exames para causas reversíveis — hemograma, hormônios tireoidianos, eletrólitos, funções renal e hepática e vitamina B12 (hipotireoidismo, anemia, deficiência de B12).
- Depois: avaliação cardiovascular ampla (IC, arritmias, IAM, angina, valvopatias; PA, FC, congestão). Triagem de depressão integrada à avaliação cardiológica, sobretudo após eventos coronarianos. Revisar comorbidades e todos os medicamentos (inclusive venda livre e fitoterápicos), com atenção a QT e arritmias.
| Escala | Uso |
|---|---|
| PHQ-2 | Triagem inicial rápida de humor deprimido e anedonia |
| PHQ-9 | Gravidade dos sintomas e acompanhamento da resposta terapêutica |
| GDS-15 | Avaliação da depressão no idoso |
| HADS | Contexto cardiológico e condições médicas gerais — reduz a influência de sintomas somáticos |
GDS-15: Escala de Depressão Geriátrica; HADS: Hospital Anxiety and Depression Scale; PHQ: Questionário de Saúde do Paciente.
Tratamento não farmacológico
- Reabilitação cardíaca com exercício: intervenção central — reduz mortalidade e hospitalizações, melhora capacidade funcional e qualidade de vida e reduz de forma clinicamente relevante os sintomas depressivos (aptidão cardiorrespiratória, modulação autonômica, menos inflamação, efeitos psicossociais, preservação muscular e autonomia).
- Terapia cognitivo-comportamental: primeira linha, eficácia comparável à farmacoterapia a curto prazo, menos recaídas; combinada a antidepressivo em quadros moderados; especialmente relevante quando há contraindicação, intolerância ou risco com antidepressivos.
- Eletroconvulsoterapia: depressão grave resistente ou risco iminente (ideação suicida). Segura em idosos com DCV — inclusive com marcapasso ou CDI — com avaliação cardiológica prévia, monitorização hemodinâmica e equipe experiente; em dependentes de marcapasso, manejo do dispositivo e monitorização durante e após.
Tratamento farmacológico
- Antes de iniciar: ECG (QT, condução, ritmo), funções renal e hepática, eletrólitos (potássio, magnésio, sódio — risco de arritmia e hiponatremia); glicemia e lipídios conforme o risco.
- MACE (morte CV, IAM e AVC não fatais) é o desfecho usual de segurança. ISRSs têm perfil favorável, sem aumento consistente de MACE; SADHART-CHF: sertralina neutra para MACE na IC com depressão. A AHA destaca os ISRSs como opção segura.
- Sertralina: evidência cardiovascular mais consistente — preferida em idosos com DCV e maior risco CV. Escitalopram: boa tolerabilidade e poucas interações, evidência de MACE menos robusta. Vortioxetina: dados favoráveis, mas limitados para MACE.
- Citalopram e escitalopram prolongam o QT de forma dose-dependente: ECG basal e monitorização quando indicada, corrigir eletrólitos; escitalopram limitado a 10 mg/dia em idosos.
- Estudos sub-representam idosos frágeis e desfechos relevantes (hipotensão ortostática, hiponatremia, síncope, quedas, declínio funcional) → “começar baixo e progredir lentamente”, com monitorização e associação a medidas não farmacológicas.
| Antidepressivo | Dose de referência em idosos com DCV | Certeza da evidência (GRADE)* | Força da recomendação** | Principais considerações clínicas |
|---|---|---|---|---|
| Sertralina | 25–200 mg/dia | Moderada | Forte a favor | Primeira escolha na DCV; melhor evidência cardiovascular entre os ISRSs. |
| Escitalopram | 5–10 mg/dia | Moderada | Forte a favor | Boa tolerabilidade; atenção ao prolongamento do QT em pacientes de risco. |
| Citalopram | 10–20 mg/dia | Baixa | Condicional | Risco de prolongamento do QT dose-dependente; requer monitorização em pacientes selecionados. |
| Vortioxetina | 5–15 mg/dia | Baixa | Condicional | Alternativa aos ISRSs; possível benefício cognitivo; evidência cardiovascular limitada. |
| Mirtazapina | 7,5–30 mg/dia | Baixa | Condicional | Útil em insônia e perda de apetite; risco de sedação e hipotensão ortostática. |
| Bupropiona de liberação sustentada ou estendida | 150–300 mg/dia | Baixa | Condicional | Útil para evitar disfunção sexual e ganho de peso; monitorar PA. |
| Venlafaxina de liberação prolongada | 37,5–150 mg/dia | Baixa | Condicional contra uso rotineiro | Pode elevar PA e FC; evitar em hipertensão arterial sistêmica não controlada e insuficiência cardíaca descompensada. |
| Desvenlafaxina | 50–100 mg/dia | Muito baixa | Condicional contra uso rotineiro | Evidência limitada; possível aumento de PA e FC. |
| Trazodona | 25–150 mg/dia | Muito baixa | Condicional contra uso rotineiro | Uso preferencial para insônia; risco de sedação, quedas e hipotensão. |
| Vilazodona | 10–30 mg/dia | Muito baixa | Condicional contra uso rotineiro | Evidência insuficiente em DCV; uso individualizado. |
| Tricíclicos | Nortriptilina 10–75 mg/dia (excepcional) | Baixa | Forte contra uso rotineiro | Alto risco cardiovascular e anticolinérgico; evitar em idosos com DCV. |
DCV: doença cardiovascular; FC: frequência cardíaca; GRADE: Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation; ISRSs: inibidores seletivos da recaptação de serotonina; PA: pressão arterial. Nota: as doses devem ser individualizadas conforme fragilidade, funções renal e hepática, comorbidades, polifarmácia e interações medicamentosas. Recomenda-se iniciar o tratamento com doses baixas e titulação lenta. *Certeza da evidência (GRADE): avaliada com base em risco de viés, consistência, precisão, evidência indireta e aplicabilidade clínica. **Força da recomendação: baseada no balanço entre benefícios e riscos na população-alvo (forte ou condicional, a favor ou contra).
- Metanálise em rede de Pillinger et al.: 151 ECRs, > 58 mil participantes, 30 antidepressivos — grande heterogeneidade de efeitos cardiometabólicos, hemodinâmicos e fisiológicos, o que reforça a individualização (Tabela 2.2).
| Antidepressivo | Peso | Colesterol total | Glicemia | Frequência cardíaca | Pressão arterial |
|---|---|---|---|---|---|
| Sertralina | Leve | Sem alteração | Sem alteração | Neutro/leve | Neutro |
| Escitalopram | Leve | Sem alteração | Sem alteração | Neutro | Neutro |
| Citalopram | Leve | Sem alteração | Sem alteração | Neutro | Neutro |
| Vortioxetina | Neutro | Sem alteração | Sem alteração | Neutro | Neutro |
| Mirtazapina | Ganho de peso | Aumento leve | Aumento leve | Neutro | Neutro |
| Bupropiona | Redução de peso | Sem alteração | Sem alteração | Aumento leve | Neutro |
| Venlafaxina | Redução leve | Aumento | Sem alteração | Aumento | Aumento |
| Desvenlafaxina | Redução leve | Aumento | Sem alteração | Aumento | Aumento |
Fonte: baseado em Pillinger et al.
Cuidados de segurança
| Risco | Quem tem mais risco | Conduta |
|---|---|---|
| Sangramento (sobretudo gastrointestinal) com ISRS/ISRSN — redução da serotonina plaquetária | Primeiros meses; uso de AAS, dupla antiagregação ou anticoagulante; sangramento GI prévio; fragilidade | Avaliar risco hemorrágico, considerar gastroproteção, orientar sinais de sangramento |
| Hiponatremia (SIADH) com ISRS/ISRSN | Frágeis, mulheres, baixo peso, insuficiência renal, tiazídicos, hiponatremia prévia | Sódio antes de iniciar e nas primeiras semanas nos de maior risco; se significativa, rever necessidade e medicamentos e considerar bupropiona ou mirtazapina |
| Interações via CYP2D6 | Paroxetina, fluoxetina e bupropiona (inibidores potentes) + betabloqueadores como metoprolol | Bradicardia e hipotensão: preferir antidepressivo com menor interação; monitorar PA, FC e ECG se sintomas ou risco arrítmico |
| Prolongamento do QT | Citalopram/escitalopram, DCV, distúrbios eletrolíticos, arritmias, outros fármacos que prolongam o QT | ECG basal e periódico quando indicado; corrigir eletrólitos; escitalopram ≤ 10 mg/dia |
Reavaliação estruturada entre 6 e 12 semanas após início ou ajuste: resposta, adesão, efeitos adversos, risco CV, sangramento, sódio, hipotensão, arritmias e quedas, com PHQ-9 ou GDS-15; considerar psicoterapia, reabilitação cardíaca e intervenções psicossociais. AAS: ácido acetilsalicílico; ISRSN: inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina; SIADH: síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético.
Idoso coronariopata deprimido, em uso de AAS e metoprolol: a escolha natural é sertralina em dose baixa, com sódio de controle nas primeiras semanas e atenção a sangramento. Fluoxetina e paroxetina inibem a CYP2D6 e potencializam o metoprolol; tricíclicos estão fora; venlafaxina eleva PA e FC. E não esqueça a TCC e a reabilitação cardíaca, que tratam a depressão e o coração ao mesmo tempo.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.4 e 2.5; Tabelas 2.1 e 2.2.
4Cuidados paliativos cardiológicos e vacinação
Diretriz · seções 2.6 e 2.7
Cuidado paliativo na IC é para todos, não só para o estágio D: o encaminhamento passou a ser guiado por necessidades, e não apenas por prognóstico. Vacinar o idoso é componente obrigatório do cuidado e indicador de qualidade — influenza de alta dose, VPC20, VSR, herpes-zóster recombinante, covid-19 e dTpa.
Cuidados paliativos: para quem
- Foco em idosos (≥ 60 anos) e muito idosos (≥ 80 anos) com doença cardiovascular avançada. As diretrizes atuais recomendam cuidados paliativos para todos os pacientes com IC, não apenas no estágio D — mudança de paradigma.
- População prioritária: IC avançada (estágios C/D, NYHA III–IV), hospitalizações recorrentes; DAC com angina refratária sem opção de revascularização; valvopatia grave sem indicação de intervenção cirúrgica ou percutânea; hipertensão pulmonar avançada (classe funcional OMS III–IV); não candidatos a transplante com CDI com choques recorrentes ou dispositivo de assistência ventricular esquerda.
- Complexidade geriátrica reforça a indicação: fragilidade (CFS ≥ 5), comprometimento cognitivo ou demência moderada a grave, multimorbidade e polifarmácia.
- Modelos: especializados (equipes multidisciplinares), integrados à cardiologia (cogestão em ambulatórios de IC ou geriatria), cuidados paliativos primários pela própria equipe de cardiologia com apoio consultivo, e atendimento domiciliar. A distinção entre CP primário (todos os clínicos) e especializado (nível secundário) orienta a alocação de recursos.
- Componentes: avaliação sistemática de sintomas (dispneia, dor, fadiga, ansiedade, depressão) com KCCQ, MLHFQ e ESAS; planejamento antecipado de cuidados e metas terapêuticas; gestão de dispositivos (incluindo desativação do CDI, quando apropriado); desprescrição focada em sintomas e segurança; suporte ao cuidador.
Quando encaminhar ao cuidado paliativo especializado
| Domínio | Critérios |
|---|---|
| a) Baseados em doença |
|
| b) Baseados em necessidades |
|
| c) Baseados em tempo |
|
| Sinais de alerta para introdução precoce | BNP/NT-proBNP persistentemente elevados apesar de terapia otimizada; marcadores geriátricos — declínio funcional recente, sarcopenia, fragilidade |
BNP: peptídeo natriurético tipo B; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; KCCQ: Kansas City Cardiomyopathy Questionnaire; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B; NYHA: New York Heart Association.
Qualquer critério justifica discutir encaminhamento; na ausência deles, o cuidado paliativo primário (pela própria equipe) continua indicado para todo paciente com IC.
- Benefícios na IC: melhor qualidade de vida e controle de sintomas (dispneia, dor), melhor classe funcional, menos depressão e ansiedade, mais diretivas antecipadas, menos uso de serviços, menos internações e dias de internação, menor custo; melhora do bem-estar espiritual e do suporte social.
- Ensaios heterogêneos: o PAL-HF mostrou benefício em qualidade de vida, ansiedade, depressão e bem-estar espiritual versus cuidado usual; outros foram mistos ou negativos → adaptar a intervenção às necessidades e desejos de pacientes e cuidadores.
- No idoso, incorporar a AGA (fragilidade, cognição, funcionalidade, síndromes geriátricas) e os determinantes sociais (moradia, acesso a alimentos frescos, transporte).
- “Pergunta surpresa” — “Você ficaria surpreso se esse paciente morresse no próximo ano?”: na IC avançada, mortalidade em 1 ano de ~50% com resposta “não surpreso” versus 10% com “surpreso”.
- Barreiras: encaminhamento subótimo e tardio (versus câncer), pouca formação dos cardiologistas, escassez de especialistas em CP cardiovascular, dificuldade de identificar candidatos e confusão dos pacientes entre CP e hospice.
Vacinação do idoso: princípios
- Objetivos: reduzir morbimortalidade por infecções, prevenir descompensação de doenças crônicas, reduzir eventos cardiovasculares associados a infecções e promover envelhecimento saudável e funcional.
- A imunossenescência reduz a efetividade vacinal. Estratégias: doses mais altas de antígeno (influenza de alta dose) ou adjuvantes (VSR, herpes-zóster). Para bactérias encapsuladas (pneumococo, meningococo, Haemophilus influenzae), preferir vacinas conjugadas às polissacarídicas (resposta T-dependente, memória imunológica).
- Coberturas aquém do ideal: a prescrição médica deve fazer parte do padrão de cuidado. A vacinação é componente obrigatório do cuidado clínico, responsabilidade de toda a equipe e indicador de qualidade assistencial.
- Todo indivíduo ≥ 60 anos deve ter o estado vacinal avaliado; toda consulta é oportunidade de prescrever vacinas. Não esquecer vacinas “antigas”, como a do tétano acidental. Comorbidades, fragilidade e risco podem indicar ou contraindicar vacinas não rotineiras (hepatite A, tríplice viral, febre amarela).
- Na consulta: vacinas não registradas no cartão não são válidas — vacinar, sem dano ao paciente; com comorbidades, consultar os calendários especiais da SBIm (Tabela 2.3); ESAVI raramente contraindica, exceto anafilaxia à vacina em questão; surtos podem indicar vacinas não rotineiras (tríplice viral, hepatite A, meningocócica, Hib); registrar em prontuário; notificação de ESAVI é obrigatória.
- Fenômeno de Arthus: hipersensibilidade tipo III por imunocomplexos no local da aplicação, 4–12 h após, em previamente sensibilizados; não confundir com alergia, celulite ou abscesso; controle fácil com anti-histamínicos.
| Grupo especial | Vacinas ADICIONAIS recomendadas, além do calendário de vacinação do idoso | Vacinas disponíveis nos CRIE |
|---|---|---|
| Diabetes | – | Influenza, covid-19, VPP23 |
| Cardiopatia e/ou pneumopatia crônicas | – | Influenza, covid-19, VPP23 |
| Hepatopatias crônicas | Hepatite A | Influenza, covid-19, hepatite A, hepatite B, VPP23 |
| Doença renal crônica | Hepatite A | Influenza, covid-19, VPP23, hepatite B |
| Asplenia anatômica ou funcional, hemoglobinopatias, doenças de depósito e outras condições associadas à disfunção esplênica | Hepatite A; Hib; MenACWY; MenB | Influenza, covid-19, hepatite A, hepatite B, VPC13, VPP23, Hib, MenACWY, MenB |
| Vivendo com HIV/aids | MenACWY; MenB; Hepatite A; Hib | Influenza, covid-19, VPC13, VPP23, Hib, hepatite A, hepatite B, MenACWY, MenB |
| Doenças oncológicas em atividade | MenACWY; MenB; Hepatite A; Hib | Influenza, covid-19, VPC13, VPP23, Hib, hepatite A, MenB |
| Doenças autoimunes que levam à imunossupressão | MenACWY; MenB; Hepatite A; Hib | VPC13, VPP23, MenC, Hib, hepatite B, hepatite A; se em risco epidemiológico: febre amarela, conforme recomendações do Ministério da Saúde |
| Pessoas em uso de medicações imunossupressoras | MenACWY; MenB; Hepatite A; Hib | VPC13, VPP23, MenC, Hib, hepatite B, hepatite A |
| Candidatos a transplante ou transplantados de órgãos sólidos | MenACWY; MenB; Hepatite A; Hib | VPC13, VPP23, MenACWY, Hib, hepatite B, hepatite A |
| Pessoas transplantadas de células-tronco hematopoiéticas | – | VPC13, VPP23, MenACWY, Hib, hepatite B, Hepatite A |
| Vacinação de conviventes domiciliares de imunossuprimidos | SCR; varicela | Influenza, SCR, varicela |
CRIE: Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais; Hib: vacina contra Haemophilus influenzae tipo B; MenACWY: vacina meningocócica conjugada contra os sorogrupos A, C, W e Y; MenB: vacina meningocócica contra o sorogrupo B; MenC: vacina meningocócica conjugada contra o sorogrupo C; SCR: vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola); VPC13: vacina pneumocócica conjugada 13-valente; VPP23: vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente. Fonte: Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais; Calendários de vacinação SBIm pacientes especiais – 2025.
Calendário do idoso (SBIm/SBGG)
- Influenza: universal para idosos; preferir alta dose; na indisponibilidade, dose padrão.
- Covid-19: recomendação vigente em 28 de março de 2026 — duas doses anuais com intervalo de 6 meses.
- Pneumocócicas: estratégia preferencial VPC20 em dose única; previamente vacinados podem se beneficiar da VPC20; não há necessidade de VPP23 após VPC20; alternativa: esquema sequencial VPC13 ou VPC15 seguida de VPP23; aplicação simultânea permitida.
- VSR (recombinante adjuvantada ou recombinante A e B): dose única; recomendada a partir de 60 anos, especialmente com maior risco de evolução grave ou descompensação; rotina a partir de 70 anos, independentemente de fatores de risco.
- Herpes-zóster adjuvantada: duas doses com intervalo de 2 meses, independentemente de história prévia; após um episódio, pode ser aplicada logo após a resolução (para não perder a oportunidade) ou após 6 meses, a critério médico.
- dTpa/dT: coqueluche é grave no idoso e o tétano acidental é mais prevalente nessa faixa; preferir dTpa no reforço a cada 10 anos; primovacinação: 1 dose de dTpa + 2 de dT (0–2–4 a 8 meses).
- Hepatite B: três doses (0–1–6 meses); quem iniciou, continua respeitando 4 meses entre a segunda e a terceira dose.
- Febre amarela: não contraindicada no idoso imunocompetente, mas pesar o risco raro (0,25–0,4/100.000 doses) de doença viscerotrópica aguda; recomendar se o risco de infecção superar o de evento grave; pode ser simultânea às demais. Contraindicações: alergia à proteína do ovo ou a componentes; imunossupressão por doença ou tratamento; doença falciforme em uso de hidroxiureia (vacinar se neutrófilos > 1.500 células/mm³); doenças do timo (miastenia gravis, timoma, ausência ou remoção do timo).
| Vacina | Indicação | Estratégia preferencial | Esquema | Aplicação simultânea | Contraindicações | Disponibilidade |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Influenza | Rotina | Preferir vacina de alta dose; se indisponível, vacina de dose padrão | Dose anual | Sim | Alergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anterior | SUS (dose padrão) e privado (ambas) |
| Covid-19 | Rotina | Conforme calendário anual vigente¹ | Conforme calendário anual vigente | Sim | Alergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anterior | SUS |
| Pneumocócicas | Rotina | VPC20 | Dose única | Sim | Alergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anterior | Privado |
| Alternativa: | VPC13 ou VPC15 + VPP23 | Esquema sequencial | Sim | |||
| Vírus sincicial respiratório | Rotina | NA | Dose única | Sim | Alergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anterior | Privado |
| Herpes-zóster (recombinante) | Rotina | NA | 2 doses (0–2 meses) | Sim | Alergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anterior | Privado |
| dTpa/dT | Rotina | Preferir dTpa para reforço | Reforço a cada 10 anos | Sim | Alergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anterior | dT (SUS); dTpa (privado e SUS para profissionais de saúde) |
| Primovacinação (não vacinados) | dTpa – dT – dT | |||||
| Hepatite B | Rotina | – | 3 doses (0–1–6 meses) | Sim | Alergia grave (anafilaxia) a componente ou dose anterior; púrpura trombocitopênica após dose anterior | SUS (hepatite B) e privado (hepatite A e B) |
| Febre amarela | Conforme risco epidemiológico | Avaliação individual risco-benefício | Dose única | Sim | Nota | SUS e privada |
dT: difteria e tétano; dTpa: difteria, tétano e coqueluche acelular (adulto); NA: não se aplica; SUS: Sistema Único de Saúde; VPC13: vacina pneumocócica conjugada 13-valente; VPC15: vacina pneumocócica conjugada 15-valente; VPC20: vacina pneumocócica conjugada 20-valente; VPP23: vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente. Nota (febre amarela): contraindicações específicas no texto acima. Fonte: Calendário de vacinação do idoso. São Paulo: SBIm; 2025.
Na consulta cardiológica do idoso, “cartão de vacina” entra no mesmo nível de “lista de medicamentos”. Sem registro, considera-se não vacinado. A mensagem prática: influenza de alta dose todo ano, VPC20 uma vez (sem VPP23 depois), VSR dose única (rotina a partir de 70 anos), zóster recombinante em 2 doses, covid-19 duas vezes ao ano e dTpa a cada 10 anos.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.6 e 2.7; Tabelas 2.3 e 2.4.
5Atividade física e vitamina D
Diretriz · seções 2.8 e 2.9
Exercício é a intervenção não farmacológica mais potente do envelhecimento: reduz DCV em 30–40% e quedas em ~23%. Prescreva multicomponente (aeróbico + força + equilíbrio). A vitamina D, ao contrário, tem benefício modesto: suplementação empírica diária a partir de 75 anos, nunca megadoses intermitentes.
Benefícios da atividade física
- Reduz mortalidade por todas as causas; benefícios cardiovasculares, metabólicos, funcionais e psicocognitivos. Ajuda a controlar a HAS (sobretudo por redução da resistência vascular periférica), melhora lipídios, adiposidade e glicemia.
- Cardiovascular: ↑ captação e utilização de O₂; ↓ FC e PA para uma mesma carga; ↓ demanda miocárdica de O₂ → mais tolerância ao esforço.
- Mais ativos têm ~30–40% menos risco de DCV, independentemente de idade, sexo e grupo populacional. Relação dose-resposta com mortalidade, com benefício mesmo abaixo dos volumes recomendados.
- No idoso: força, equilíbrio, mobilidade, independência; prevenção e tratamento da fragilidade; saúde óssea; possivelmente cognição.
- Quedas (metanálises de ECRs, idosos na comunidade): programas estruturados reduzem a taxa de quedas em ~23% (razão de taxas 0,77; IC95% 0,71–0,83) e o risco de ≥ 1 queda em 15% (RR 0,85; IC95% 0,81–0,89), sobretudo em alto risco e frágeis.
- Benefícios práticos listados: condicionamento e saúde, densidade óssea, equilíbrio, postura e flexibilidade, força, controle do peso, humor, sono e menos estresse.
Como prescrever
- Antes: avaliação clínica e funcional individualizada (comorbidades, limitações, risco CV, risco de quedas); a AGA ajuda em frágeis e multimórbidos. ECG, ecocardiograma e teste ergométrico conforme história, sintomas, exame e risco — não de rotina para todos.
- Meta: 150–300 min/semana moderada ou 75–150 min/semana vigorosa (ou combinação), individualizada pelo princípio FITT (frequência, intensidade, tempo, tipo).
- Programa multicomponente: aeróbico (caminhada, bicicleta, natação), força dos principais grupos musculares ≥ 2 dias/semana com progressão gradual, equilíbrio regular (sobretudo com risco de quedas), flexibilidade e treino funcional quando apropriado.
- Progressão: primeiro frequência e duração, depois intensidade. Aquecimento e desaquecimento quando úteis.
- Frágeis, sarcopenia avançada, demência ou institucionalizados: exercícios simples, supervisionados, de força, equilíbrio, mobilidade e tarefas funcionais. Não há volume único de treino resistido; mesmo baixo volume beneficia se consistente. Em frágeis, a força é componente essencial.
| Modalidade (tipo) | Frequência | Intensidade | Tempo |
|---|---|---|---|
| Aeróbica | 3/5 vezes na semana | Leve/moderada | 150/300 min. leve ou 75/150 min. vigorosa |
| Fortalecimento muscular | > 2 vezes semana | - | 20/30 min./sessão |
| Equilíbrio | > 3 vezes semana | Individualizada | 10/20 min./sessão |
| Flexibilidade | > 2 vezes semana | Leve/moderada | 10/15 min./sessão |
| Atividade funcional | Diário | Leve/moderada | Variável |
Transcrição fiel da tabela. Observe que o texto da seção 2.8.1 fala em 150–300 min/semana de intensidade moderada (a tabela traz “leve”) e em força “idealmente em pelo menos dois dias por semana”.
Vitamina D: fisiologia, deficiência e dosagem
- Hormônio lipossolúvel com ação em osso, músculo, imunidade, cérebro e coração, via receptor de vitamina D. Mais de 90% vem da exposição solar; o restante de alimentos e suplementos (D2 ergocalciferol, D3 colecalciferol). A deficiência reduz densidade óssea, força e equilíbrio e aumenta quedas e fraturas.
- No idoso: menor produção cutânea, menos mobilidade e sol, isolamento social, menor massa gorda (biodisponibilidade) e declínio da função renal.
- Dosar 25(OH)D em grupos de risco: > 75 anos, doenças osteometabólicas ou DRC, gestantes, lactantes, fatores de risco para osteoporose.
- Alvos: > 20 ng/mL na população geral saudável até 60 anos; 30–60 ng/mL em grupos de risco, incluindo idosos; > 100 ng/mL é tóxico.
Quando e como suplementar
- ≥ 75 anos: a Sociedade Americana de Endocrinologia sugere suplementação empírica (potencial redução de mortalidade), sem triagem rotineira dos níveis. Pode ser via alimentos fortificados, polivitamínicos ou suplemento diário. Nos ensaios com benefício de mortalidade, 400–3.333 UI/dia (média ponderada ~900 UI/dia).
- Doses diárias menores são preferíveis a doses altas intermitentes (maiores que semanais): regimes mensais ou anuais aumentaram quedas e fraturas.
- National Academy of Medicine: 600 UI/dia (19–70 anos) e 800 UI/dia (> 70 anos); limite superior tolerável 4.000 UI/dia (possíveis eventos adversos nesse nível). A AGS sugere 25(OH)D mínima de 30 ng/mL em idosos, sobretudo frágeis e com risco de quedas e fraturas.
- VITAL (25.871) e D-Health (21.315), em populações saudáveis: sem benefício em eventos CV, câncer ou DM; no VITAL, 2.000 UI/dia por 5,3 anos não reduziu quedas nem fraturas.
- Metanálise de 2026 (69 ECRs, 153.902 participantes): pouco ou nenhum efeito de cálcio, vitamina D ou combinação sobre fraturas e quedas em adultos da comunidade sem alto risco. Em ≥ 75 anos, provável pequena redução da mortalidade por todas as causas, sem benefício em fraturas; possível redução de quedas com doses usuais, não com doses altas.
- Benefício mais consistente de vitamina D + cálcio: redução de fraturas, sobretudo de quadril, em idosos institucionalizados ou com maior risco de deficiência. Cálcio individualizado conforme a ingestão dietética.
- DRC: vitamina D e sobretudo análogos ativos individualizados (função renal, cálcio, fósforo, PTH, estágio); análogos ativos não são rotina para todos.
- Indivíduos saudáveis de 19 a 74 anos sem fatores de risco (sem evidência de benefício da suplementação ou da triagem populacional);
- Níveis séricos > 100 ng/mL — interromper (toxicidade, hipercalcemia);
- Hipercalcemia ou hiperfosfatemia — contraindicada;
- Hipersensibilidade aos componentes da formulação;
- Megadoses intermitentes (mensais ou anuais) — aumento paradoxal de quedas em idosos;
- Com o objetivo exclusivo de retardar o envelhecimento.
Para o idoso cardiopata, a receita que mais muda desfecho é a do exercício: força duas vezes por semana, equilíbrio três vezes, caminhada na maioria dos dias — supervisionado se frágil. A vitamina D entra como coadjuvante: diária, em dose fisiológica, a partir dos 75 anos ou no grupo de risco; nunca “500 mil UI uma vez por ano”, que aumenta quedas.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.8 e 2.9; Tabela 2.5.
6Risco cirúrgico no idoso e diabetes no idoso frágil
Diretriz · seções 2.10 e 2.11
No idoso, o risco cirúrgico depende menos da idade e mais de reserva, fragilidade, comorbidades e capacidade funcional. RCRI + capacidade funcional (DASI) + fragilidade documentada + delirium + otimização + decisão compartilhada. No diabetes, a curva é em U: metas de HbA1c conforme o estado de saúde, e escolha do fármaco conforme fragilidade e peso.
Avaliação perioperatória: o que muda no idoso
- Idosos são hoje o principal grupo cirúrgico. A avaliação pré-operatória deve ir além do risco cardiovascular e incluir aspectos funcionais, cognitivos, nutricionais, sociais e medicamentosos, buscando vulnerabilidades modificáveis.
- A Diretriz SBC 2024 de Avaliação Cardiovascular Perioperatória fornece o arcabouço para risco e exames; este capítulo (DECAGE) complementa com AGA, fragilidade e decisão compartilhada, em recomendações GRADE.
- Nove eixos: AGA; estratificação cardiovascular; fragilidade; capacidade funcional; exames complementares; decisão multidisciplinar; delirium e cognição; otimização clínica e medicamentosa; risco-benefício e metas de cuidado.
- Pós-operatório: complicações CV, delirium, declínio funcional, desnutrição e eventos adversos de medicamentos — mobilização precoce, revisão terapêutica e reabilitação interdisciplinar.
- A AGA (ou ao menos triagem geriátrica estruturada) no pré-operatório de idosos selecionados melhora desfechos como delirium e recuperação funcional.
Sugere-se realizar avaliação geriátrica ampla (funcional, cognitiva, nutricional, social e de polifarmácia) no pré-operatório de idosos, especialmente naqueles submetidos a cirurgias de risco intermediário ou alto ou com vulnerabilidade geriátrica, utilizando os achados para orientar a otimização clínica e a prevenção de delirium.
Estratificação de risco cardiovascular
- Abordagem sequencial da SBC 2024, que mantém o RCRI como principal ferramenta para estimar MACE (infarto, edema agudo de pulmão, arritmias graves ou morte CV) em cirurgia não cardíaca.
- Seis variáveis: tipo de cirurgia, DAC, IC, doença cerebrovascular, creatinina > 2 mg/dL e diabetes insulinodependente. Risco baixo (0), intermediário (1–2) e alto (≥ 3).
- Limitação no idoso: reserva reduzida e fragilidade podem subestimar o risco real. Em multimórbidos, dependentes ou cirurgias de alto risco, considerar MICA ou Gupta (idade, função renal, ASA, dependência funcional).
- Integrar sempre escore + capacidade funcional (METs ou DASI) + julgamento clínico (fragilidade, polifarmácia, nutrição).
Recomenda-se utilizar escores clínicos validados (preferencialmente o RCRI) como base da estratificação de risco cardiovascular no pré-operatório, sem substituir a avaliação clínica e a capacidade funcional. Em casos específicos, considerar o MICA ou o Gupta Perioperative Cardiac Risk Calculator como ferramentas complementares.
A definição de “cirurgia de alto risco” segue o RCRI original (Lee, 1999). No idoso, o RCRI pode subestimar o risco: some capacidade funcional e fragilidade.
Fragilidade e capacidade funcional
- Fragilidade é preditor independente de mortalidade, complicações, tempo de internação e institucionalização. Deve ser rotina no pré-operatório, sobretudo em cirurgias de risco intermediário ou alto. Instrumentos mais usados: CFS (destaque pela aplicabilidade e correlação com mortalidade e perda funcional), Risk Analysis Index (RAI) e Fried.
- Frágeis têm risco 2 a 4 vezes maior de eventos CV e complicações maiores, independentemente do RCRI. Avaliar, documentar e usar para comunicação de risco e planejamento.
- Capacidade funcional reflete a reserva global; no idoso depende da interação entre sarcopenia, fragilidade e doenças crônicas. < 4 METs = maior risco. Na incerteza, usar o DASI: < 34 pontos correlaciona-se com eventos CV em 30 dias e mortalidade.
- AHA/ACC 2024: DASI preferencial (Classe IIa), superior à estimativa subjetiva. ESC 2022: avaliação funcional como etapa essencial; exames só se mudarem conduta.
- No idoso, interpretar à luz de limitações locomotoras, osteoarticulares e sensoriais; complementar com mobilidade, velocidade da marcha ou sentar-levantar.
Recomenda-se realizar a avaliação e a documentação pré-operatórias da fragilidade com um instrumento validado (por exemplo, CFS, RAI ou critérios de Fried) em idosos submetidos a cirurgias de risco intermediário ou alto, orientar a comunicação do risco, a otimização e a tomada de decisão compartilhada.
Recomenda-se estimar a capacidade funcional de forma estruturada no pré-operatório, preferencialmente utilizando o Duke Activity Status Index (DASI). Um valor < 4 equivalentes metabólicos ou escore DASI < 34 deve ser considerado indicativo de risco aumentado, devendo os resultados orientar a necessidade de exames complementares e otimização clínica.
Itens e pesos do DASI original (Hlatky et al., 1989); METs = (0,43 × DASI + 9,6) ÷ 3,5. Ponto de corte da diretriz: DASI < 34 ou < 4 METs = risco aumentado.
Exames complementares
- Pedir apenas se o resultado puder mudar a conduta (adiar para otimizar, indicar ou evitar revascularização, ajustar anestesia/monitorização, intensificar vigilância), considerando capacidade funcional, risco da cirurgia, sintomas e probabilidade pré-teste.
- ETT: sintomas novos ou piora da IC, dispneia inexplicada, sopro sugestivo de valvopatia moderada a grave, ou valvopatia conhecida sem ETT recente (≈ 12 meses) com mudança clínica. Não rotineiro em assintomáticos estáveis.
- Testes de estresse: capacidade < 4 METs ou incerta + cirurgia de risco intermediário ou alto, se o resultado mudar a conduta. Evitar rastreamento indiscriminado.
- ECC/ATCC: ATCC em probabilidade pré-teste intermediária quando o teste funcional for inconclusivo ou indisponível e o achado mudar a conduta; não para rastrear baixo risco.
- BNP/NT-proBNP em idosos de risco elevado (DAC, IC, DRC, baixa capacidade) ou cirurgia de risco intermediário/alto; troponina basal e pós-operatória em alto risco para detectar injúria miocárdica (pior prognóstico).
- Revascularização: só pelos critérios habituais (angina refratária, DAC de alto risco), nunca como estratégia rotineira de redução do risco perioperatório.
Sugere-se a realização de exames complementares somente quando seus resultados puderem modificar a conduta. O ecocardiograma transtorácico pode ser considerado na presença de sintomas novos, piora clínica, suspeita de valvopatia ou ausência de avaliação recente; o teste de estresse pode ser considerado em pacientes com capacidade funcional < 4 equivalentes metabólicos ou incerta antes de cirurgias de risco intermediário ou alto; e a dosagem pré-operatória de BNP/NT-proBNP e o monitoramento perioperatório de troponina podem ser considerados em pacientes de alto risco para refinar a estratificação de risco e orientar a vigilância. Deve-se evitar a realização indiscriminada de exames de rastreamento.
BNP: peptídeo natriurético tipo B; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B.
Decisão multidisciplinar e delirium
- Interação estruturada entre cardiologia, geriatria, cirurgia, anestesiologia, enfermagem e fisioterapia, com paciente e família. A SBC 2024 propõe o Perioperative Risk Team: coordena a comunicação, uniformiza condutas e discute também potencial de recuperação funcional, preferências, prognóstico global e objetivos de cuidado.
- Em frágeis ou multimórbidos, impacto funcional e qualidade de vida podem pesar mais do que a mortalidade isolada. Reunião de caso interdisciplinar = boa prática.
- Delirium pós-operatório: 15–50% dos idosos; alteração aguda da atenção e da consciência; associa-se a mortalidade, declínio funcional, institucionalização e pior qualidade de vida.
- Fatores de risco: idade avançada, demência, benzodiazepínicos, alcoolismo, polifarmácia, déficits visuais ou auditivos, desnutrição, anemia e cirurgia de grande porte. Rastreio cognitivo breve (Mini-Cog ou MoCA) no pré-operatório.
- Prevenção não farmacológica multimodal: reorientação frequente, ambiente calmo e iluminado, óculos e aparelhos auditivos, controle da dor, correção hidroeletrolítica, sono e mobilização precoce. Evitar benzodiazepínicos e anticolinérgicos; antipsicótico profilático não é rotina.
Sugere-se que pacientes idosos, especialmente os frágeis ou com múltiplas comorbidades, sejam avaliados por uma equipe multidisciplinar perioperatória (cardiologia, geriatria, cirurgia, anestesiologia) e participem da decisão compartilhada sobre a conduta cirúrgica, considerando risco, prognóstico e valores individuais.
Sugere-se que todos os idosos sejam avaliados quanto ao risco de delirium no pré-operatório e que se implementem medidas preventivas não farmacológicas (reorientação, controle do sono, estimulação sensorial, mobilização precoce, hidratação e manejo adequado da dor). O uso rotineiro de benzodiazepínicos e medicamentos anticolinérgicos deve ser evitado.
Otimização pré-operatória
| Condição | Conduta |
|---|---|
| Princípio | Adiar cirurgia eletiva se houver descompensação potencialmente reversível; a urgência é o fator decisivo |
| IC e DAC | Euvolemia, controle de sintomas e GDMT (betabloqueador, IECA/BRA/ARNI, ARM, iSGLT2). Não iniciar betabloqueador imediatamente antes da cirurgia; manter se já em uso e tolerado. Revascularizar só pelas indicações habituais |
| Anemia e nutrição | Investigar e tratar anemia ferropriva e outras (ferro IV se pouco tempo); rastrear desnutrição (MNA reduzida); suplementação proteico-calórica e de vitamina D conforme deficiência |
| DPOC/asma e tabagismo | Otimizar broncodilatação (LAMA, LABA ou corticoide inalatório conforme fenótipo), tratar exacerbações, cessar tabagismo idealmente ≥ 4 semanas antes; fisioterapia respiratória |
| Glicemia e DM | Controle seguro, sem hipoglicemia; metas moderadas na internação (≈ 140–180 mg/dL); ajustar insulina e hipoglicemiantes no dia do procedimento |
| Rim e eletrólitos | Corrigir distúrbios, revisar nefrotóxicos, ajustar doses à TFG, hidratação criteriosa |
| Apneia obstrutiva do sono | Triagem (STOP-Bang) se suspeita; CPAP perioperatório quando indicado; vigilância pós-operatória |
| Polifarmácia | Medication review com critérios de Beers 2023 (benzodiazepínicos, anticolinérgicos, hipnóticos, AINEs, sulfonilureias de longa ação); desprescrever inapropriados, sobretudo em frágeis |
| Antitrombóticos e outros | Seguir SBC 2024 para antiagregantes e anticoagulantes; manter estatinas (considerar iniciar em cirurgia vascular); avaliar suspensão de IECA/BRA na manhã da cirurgia em procedimentos de maior risco hemodinâmico |
AINEs: anti-inflamatórios não esteroides; ARM: antagonista do receptor mineralocorticoide; ARNI: inibidor do receptor de angiotensina-neprilisina; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador sódio-glicose-2; LABA: beta-agonista de longa ação; LAMA: antagonista muscarínico de longa ação; MNA: Miniavaliação Nutricional; TFG: taxa de filtração glomerular.
Recomenda-se adiar cirurgias eletivas para corrigir/estabilizar descompensações (insuficiência cardíaca congestiva, doença pulmonar obstrutiva crônica/asma, descontrole glicêmico e distúrbios hidroeletrolíticos); tratar anemia e desnutrição; promover a cessação do tabagismo; realizar triagem e manejo da apneia obstrutiva do sono; e revisar a farmacoterapia, com atenção a medicamentos potencialmente inapropriados (Beers 2023). Recomenda-se também manter as terapias cardiovasculares indicadas (por exemplo, estatinas e betabloqueadores já em uso) e ajustar os antitrombóticos conforme o risco.
Risco-benefício e objetivos de cuidado
- Integrar parâmetros CV, expectativa de vida, funcionalidade, qualidade de vida e preferências. Idade isolada não contraindica cirurgia; o benefício depende da probabilidade de recuperação funcional e do impacto em sintomas e bem-estar.
- Complicações podem resultar em dependência funcional permanente em frágeis, com declínio cognitivo ou multimorbidade.
- Instrumentos: CFS, DASI, Charlson Comorbidity Index, Clinical Prediction of Mortality — sempre à luz dos valores do paciente.
- Se o risco superar o benefício ou o procedimento não se alinhar às metas (conforto, autonomia, controle de sintomas): estratégias não cirúrgicas ou abordagem conservadora/paliativa, com equipe multidisciplinar e, se necessário, cuidados paliativos.
Recomenda-se realizar análise individualizada de risco-benefício antes da indicação cirúrgica em idosos, integrando risco cardiovascular, expectativa de vida, funcionalidade e preferências do paciente; promover decisão compartilhada; e considerar alternativas menos invasivas ou cuidados paliativos quando o procedimento não se alinhar às metas pessoais do paciente.
| Domínio avaliado | Recomendação resumida | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|---|
| Avaliação geriátrica ampla | Avaliação multidimensional (funcional, cognitiva, nutricional, social e medicamentosa) em idosos com risco intermediário/alto ou vulnerabilidade geriátrica; usar achados para otimização e prevenção de delirium. | Condicional | Moderada |
| Estratificação de risco cardiovascular (RCRI e similares) | Aplicar o RCRI como escore principal, associado à avaliação funcional; considerar MICA/Gupta em casos complexos. | Forte | Moderada |
| Fragilidade | Avaliar e documentar fragilidade (Escala Clínica de Fragilidade, Risk Analysis Index, critérios de Fried); usar o resultado para comunicação de risco e decisão compartilhada. | Forte | Moderada |
| Capacidade funcional (METs/DASI) | Avaliar a capacidade funcional com instrumentos estruturados (DASI < 34 ou < 4 METs = alto risco); usar resultado para definir exames e condutas. | Forte | Moderada |
| Exames complementares | Solicitar exames somente se alterarem conduta; considerar peptídeo natriurético tipo B/troponina em pacientes de alto risco. | Condicional | Moderada |
| Discussão multidisciplinar e decisão compartilhada | Implementar equipe perioperatória integrada (cardiologia, geriatria, cirurgia, anestesiologia); decisões compartilhadas com paciente/família. | Condicional | Baixa |
| Delirium e complicações cognitivas | Triagem de risco e medidas preventivas não farmacológicas (sono, reorientação, mobilização, hidratação); evitar benzodiazepínicos. | Condicional | Moderada |
| Otimização clínica e medicamentosa | Corrigir descompensações, tratar anemia/desnutrição, cessar tabagismo, revisar polifarmácia (Beers 2023) e manter terapias essenciais. | Forte | Moderada |
| Risco-benefício e objetivos de cuidado | Integrar risco cardiovascular, funcionalidade e metas pessoais; considerar condutas menos invasivas ou cuidados paliativos quando apropriado. | Forte | Moderada |
DASI: Duke Activity Status Index; METs: equivalentes metabólicos; MICA: Myocardial Infarction or Cardiac Arrest; RCRI: Revised Cardiac Risk Index. Nota de fidelidade: no quadro do texto (seção 2.10.6) a recomendação de equipe multidisciplinar aparece com certeza moderada; na síntese executiva, baixa — ambas transcritas como no original.
Diabetes no idoso frágil
- 24% dos indivíduos de 65 a 99 anos têm DM (158,3 milhões no mundo), mais ainda entre frágeis (relação bidirecional).
- Critérios diagnósticos iguais aos do adulto jovem: jejum ≥ 126 mg/dL; ao acaso ≥ 200 mg/dL com sintomas; 2 h após 75 g ≥ 200 mg/dL; ou HbA1c ≥ 6,5%.
- Ensaios não mostraram benefício do controle intensivo em idosos com DM2 (sobretudo doença longa e DCV): curva em U — hipo e hiperglicemia associam-se a desfechos negativos. Metas conforme comorbidades, função, autonomia, fragilidade e expectativa de vida (Tabela 2.6); AGA e rastreio de fragilidade orientam o tratamento.
- Equipe multidisciplinar (psicossocial, educação, barreiras à adesão, alimentação, reabilitação, incapacidades). Não frágil e sem síndromes geriátricas: HbA1c < 7,5%.
- GLP-1 RA e iSGLT2 reduzem risco CV e progressão renal (iSGLT2 também desfechos de IC). Metanálise (93.502 participantes): redução de DCV e MACE inclusive em ≥ 75 anos — mas seguimento > 2 anos (exceto PIONEER 6, 1,3 ano): pesar em frágeis com baixa expectativa de vida.
| Perfil | Preferência | Observações |
|---|---|---|
| Frágil com baixo peso e HbA1c < 10% | iDPP-4 (primeira escolha) | Não promove perda de peso; baixo risco de hipoglicemia |
| Frágil com IMC normal e HbA1c < 10% | Metformina, iSGLT2 (além de iDPP-4) | Podem levar à perda de peso — atenção ao risco nutricional |
| Mais gordura e sarcopenia, limitação funcional pelo excesso de peso | GLP-1 RA, individualizado | Pesar tempo até o benefício e risco de anorexia e perda muscular; evidência escassa em frágeis |
| Sulfonilureias | Menos recomendadas | Hipoglicemia, menor proteção CV e renal; ainda muito usadas pela realidade econômica |
| Pioglitazona | Pode ser usada com precauções | Evitar em IC, osteoporose ou câncer de bexiga; neutra no peso, pouca hipoglicemia; reduz MACE (metanálise 2020), mas ↑ hospitalização por IC |
| HbA1c > 10% | Insulina 0,1–0,2 U/kg, mono ou combinada, titulação lenta | Exceto urgência hiperglicêmica; hipoglicemia → quedas, convulsões, eventos CV, demência, fragilidade; ultralenta tem menos hipoglicemia que NPH |
| Muito comprometido, baixa expectativa de vida, paliativo | Insulina basal em baixa dose | Foco no controle de sintomas da hiperglicemia |
GLP-1 RA: agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1; iDPP-4: inibidor da dipeptidil peptidase 4; IMC: índice de massa corporal; iSGLT2: inibidor do cotransportador sódio-glicose-2; NPH: insulina de ação intermediária; SBD: Sociedade Brasileira de Diabetes.
| Características e estado de saúde | Racional | Meta de HbA1C | Metas de CGM | Glicemia de jejum ou pré-prandial | Glicemia antes de dormir |
|---|---|---|---|---|---|
| Saudável (poucas doenças crônicas coexistentes, estado cognitivo e funcional intacto) | Maior expectativa de vida | < 7,0–7,5% | TIR 70–180 mg/dL de 70% e TBR < 4% | 80–130 mg/dL | 80–180 mg/dL |
| Complexo/intermediário (múltiplas doenças crônicas coexistentes ou duas ou mais deficiências nas AVDs ou comprometimento cognitivo leve a moderado) | Expectativa de vida variável. Considerar: gravidade das comorbidades; limitações cognitivas e funcionais; fragilidade; relação risco-benefício dos medicamentos para diabetes; preferência individual. | < 8,0% | TIR 70–180 mg/dL de 50% e TBR < 1% | 90–150 mg/dL | 100–180 mg/dL |
| Saúde muito complexa/precária (doenças crônicas de longa duração; estágio terminal; comprometimento cognitivo moderado a grave; ou duas ou mais deficiências nas AVDs) | A expectativa de vida restante limitada torna o benefício mínimo. | Evitar metas baseadas na HbA1C; as decisões devem basear-se na prevenção da hipoglicemia e da hiperglicemia sintomática. | 100–180 mg/dL | 110–200 mg/dL |
AVDs: atividades da vida diária; CGM: monitoramento contínuo da glicose; HbA1C: hemoglobina glicada; TBR: tempo abaixo da faixa; TIR: tempo dentro da faixa. Adaptado de: American Diabetes Association Professional Practice Committee for Diabetes.
Ferramenta didática que combina a Tabela 2.6 com a sequência de escolha descrita no texto; não substitui o julgamento clínico (IC, DRC e DCV podem priorizar iSGLT2/GLP-1 RA).
Idosa de 84 anos, CFS 6, para colecistectomia: RCRI 0 não a torna “baixo risco”. DASI baixo, fragilidade documentada, Mini-Cog alterado, anemia e benzodiazepínico noturno — tudo isso muda o plano: ferro IV, retirada gradual do benzodiazepínico, medidas antidelirium e decisão compartilhada sobre o que ela espera da cirurgia. E se for diabética e emagrecida, iDPP-4 em vez de sulfonilureia, com meta de HbA1c < 8%.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 2.10 e 2.11; quadros de recomendação, síntese executiva 2.10.10 e Tabela 2.6.
7Aterosclerose subclínica e prevenção primária da dislipidemia
Diretriz · seções 3.1 e 3.2
Estratifique pelo fluxograma das Diretrizes Brasileiras 2025 (PREVENT): aterosclerose subclínica já coloca o idoso em alto risco. Até 75 anos, trate como o não idoso; depois dos 75, individualize — o ECC zero permite não iniciar estatina, e fragilidade, comorbidades e expectativa de vida pesam tanto quanto o LDL-c.
Particularidades do idoso
- Em idosos, tratar dislipidemia vai além de metas rígidas de LDL-c: considerar funcionalidade, fragilidade, comorbidades e preferências; abordagem centrada no paciente e decisão compartilhada, sobretudo > 75 anos (SBC, ESC e AHA/ACC).
- Dislipidemia aumenta com a idade, com frequência associada a aterosclerose subclínica, DM e síndrome metabólica. A polifarmácia causa dislipidemia secundária (tiazídicos, betabloqueadores, corticoides) e interações com hipolipemiantes.
- Frágeis têm mais eventos adversos medicamentosos → AGA antes de iniciar ou intensificar a terapia hipolipemiante.
- Exemplo da diretriz: um idoso de 80 anos ativo e sem comorbidades pode se beneficiar de metas agressivas; outro da mesma idade com fragilidade avançada, não.
- Estratificar pelo PREVENT (Figura 3.2) e definir metas pela categoria (Figura 3.3). A presença de aterosclerose subclínica já classifica o idoso como alto risco, com metas bem mais rigorosas.
- Prevenção secundária: benefício claro e consistente mesmo em idosos. Primária: ponderar riscos e benefícios; a aterosclerose subclínica dá base sólida para decidir.
- No idoso: o uso da escala de fragilidade e a avaliação de comorbidades e interações medicamentosas são fundamentais; o uso de escores de risco é limitado; o ECC pode ser usado em casos específicos.
- No indivíduo com evento clínico prévio, a recorrência de evento pode indicar risco extremo — atenção à terapia combinada intensiva desde o início.
- No adulto (> 30 anos): calcular risco pelo PREVENT, identificar agravantes e fatores específicos das mulheres; o ECC pode ser útil a partir de 40 anos.
Estratificação e metas
| Categoria | Um dos seguintes critérios | Meta de LDL-c |
|---|---|---|
| Risco baixo | Risco estimado em 10 anos < 5%, sem fator agravante de risco e com LDL-c < 160 mg/dL; ausência de DM2 | < 115 mg/dL e redução ≥ 30% |
| Risco intermediário | a) Risco em 10 anos < 5%, com fator agravante ou LDL-c 160–189 mg/dL; b) risco entre 5 e < 20%, sem fator agravante; c) DM2 < 50 anos (homem) ou < 56 anos (mulher), sem EAR ou EMAR | < 100 mg/dL e redução ≥ 30% |
| Risco alto | a) Risco em 10 anos ≥ 20%; b) risco entre 5 e < 20% com fator agravante; c) aterosclerose subclínica: placas < 50% em ecografia de carótidas, ECC > 100 a < 300 UA ou percentil > 75, placas < 50% em ATCC, aneurisma de aorta abdominal; d) LDL-c ≥ 190 mg/dL ou 160–189 mg/dL com agravante; e) Lp(a) > 180 mg/dL (> 390 nmol/L); f) DM2 ≥ 50 anos (homem) ou ≥ 56 anos (mulher); g) DM2 (qualquer idade) com 1 ou 2 EAR, sem EMAR | < 70 mg/dL e redução ≥ 50% |
| Risco muito alto | a) Carga significativa de doença aterosclerótica, independentemente do território (coronário, cerebrovascular ou periférico) ou eventos clínicos prévios; b) obstrução ≥ 50% em qualquer território; c) ECC > 300 UA; d) DM2 com ≥ 3 EAR ou EMAR | < 50 mg/dL e redução ≥ 50% |
| Risco extremo | a) ≥ 2 eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores; b) 1 evento maior com ≥ 2 condições de alto risco | < 40 mg/dL e redução ≥ 50% |
Fatores agravantes de risco: história familiar de DCV prematura; adiposidade, MASLD e síndrome metabólica; condições inflamatórias crônicas; transplante de órgãos; fatores específicos das mulheres; Lp(a) > 50 mg/dL ou > 125 nmol/L; PCR-us ≥ 2,0 mg/L. EAR no DM2: DM2 há > 10 anos; história familiar de DAC prematura; síndrome metabólica; hipertensão; tabagismo ativo; doença renal de risco alto; placa < 50% em carótida ou coronária; ECC 10–300 UA; AAA; neuropatia autonômica CV incipiente; retinopatia não proliferativa leve. EMAR no DM2: SCA; IAM antigo ou angina estável; AVC aterotrombótico ou AIT; insuficiência vascular periférica ou amputação; estenose arterial > 50%; revascularização arterial; DM1 > 20 anos diagnosticado após 18 anos; ≥ 3 EAR; EMAR renal; CT > 310 ou LDL-c > 190 mg/dL; neuropatia autonômica CV instalada; retinopatia moderada a severa, proliferativa ou em progressão. Condições de alto risco (risco extremo): idade ≥ 65 anos; hipercolesterolemia familiar; revascularização em momento diferente do evento; diabetes; hipertensão; DRC com eTFG < 60; tabagismo atual; LDL-c persistentemente ≥ 100 mg/dL apesar de estatina máxima tolerada e ezetimiba. Eventos ateroscleróticos maiores: IAM; SCA no último ano; AVC isquêmico; DAP sintomática (claudicação com ABI < 0,85, revascularização ou amputação).
Risco na prevenção primária do idoso
- O risco absoluto sobe com a idade (maior peso no escore), mas a força da associação entre fatores de risco e eventos atenua-se. Escores antigos ignoravam o risco competitivo de morte não cardiovascular e podiam superestimar o risco e o benefício.
- A maioria das equações foi feita para < 80 anos; o PREVENT vai até 79 anos (bom desempenho em mais idosos). O SCORE2-OP (≥ 70 anos) foi calibrado para quatro regiões; as de risco moderado se aproximam da mortalidade brasileira — nelas, o risco em 10 anos é invariavelmente ≥ 20% a partir de 80 anos.
- Outros fatores do idoso: tabaco, álcool, poluição; DRC, hiperuricemia, distúrbios cognitivos; fragilidade, depressão, incapacidade.
- CHS: aterosclerose clínica em > 30%. CT > 240 mg/dL em 25% dos homens e 42% das mulheres idosos. Dislipidemias secundárias frequentes: hipotireoidismo, DM, intolerância à glicose, obesidade, síndrome nefrótica, tiazídicos e betabloqueadores não seletivos.
- “Paradoxo do colesterol”: a associação colesterol–DAC enfraquece e pode se inverter com a idade — desnutrição, fragilidade e doenças crônicas (câncer) reduzem o colesterol e aumentam a mortalidade ao mesmo tempo.
- Considerar estado geral e mental, condições socioeconômicas, apoio familiar, comorbidades e interações.
Tratamento
- Não farmacológico: mesmos princípios dos não idosos, atentos ao aporte calórico, proteico e vitamínico; atividade física; evidência sólida de benefício mesmo quando iniciado tardiamente.
- Estatinas são os fármacos de escolha. Prospective Studies Collaboration (61 estudos, ~900.000 pessoas de 40–89 anos): por ~39 mg/dL a menos de CT, ganho de 21/10⁵ pessoas-ano na 5ª década e 380/10⁵ na 9ª década (benefício absoluto maior no idoso).
- PROSPER (70–82 anos, alto risco): pravastatina 40 mg ↓ mortalidade coronária 24% em 3,2 anos. HPS (muitos > 65): sinvastatina 40 mg ↓ eventos coronários e cerebrovasculares. JUPITER (≥ 70 anos, PCR ≥ 2): rosuvastatina 20 mg ↓ 39% do desfecho primário, sem ↓ mortalidade. HOPE-3 (média 71 anos): ~25% de redução. CTT: ↓ 16% de eventos vasculares > 75 anos.
- STAREE em andamento (> 70 anos saudáveis). Estatinas não aumentam demência ou Alzheimer. A USPSTF considera a evidência insuficiente > 75 anos sem DCV — decisão individualizada; o SCORE2-OP estima anos livres de DCV ganhos por 1 mmol/L de LDL-c.
- Revisões sistemáticas (> 80 anos, 29 estudos): associação hipercolesterolemia–eventos é fraca; utilidade das estatinas em prevenção primária de octogenários incerta; usar com cautela conforme fragilidade, comorbidades, risco, expectativa de vida e preferência.
- Tratar idosos de alto ou muito alto risco, com metas semelhantes às dos não idosos.
- Ezetimiba — EWTOPIA 75 (> 75 anos, aberto): ↓ desfecho primário e revascularização, sem diferença em mortalidade e AVC (cautela: exclusões e desenho aberto).
- Ácido bempedoico — CLEAR Outcomes, 2.107 pacientes ≥ 75 anos (média 78,3; 30% prevenção primária): bem tolerado, eficácia e segurança semelhantes às dos mais jovens.
- Evolocumabe em aterosclerose ou DM sem IAM/AVC prévio, LDL-c ≥ 90 em estatina: benefício igual > 65 anos; ↓ 25% MACE de 3 pontos e 19% de 4 pontos. Sem dados com inclisirana.
As orientações para terapia não farmacológica devem obedecer aos mesmos princípios de indicação aplicados aos não idosos, observando-se as necessidades de aporte calórico, proteico e vitamínico, com recomendação da prática de atividade física. Reforçar a importância de abandonar o tabagismo e a ingestão de bebidas alcoólicas.
Princípios e estratificação
O tratamento de dislipidemia em idosos com até 75 anos de idade deve seguir as mesmas orientações dos não idosos.
Após os 75 anos, recomenda-se individualizar as doses de hipolipemiante, considerando a fragilidade, a presença de comorbidades, a expectativa de vida e o uso de polifarmácia.
Em adultos > 75 anos sem DASCV estabelecida, o LDL-c está associado à incidência de DASCV e deve ser medido como parte da estratificação do risco CV.
Em adultos > 75 anos com LDL-c entre 70 e 189 mg/dL, iniciar estatinas para a prevenção primária de eventos CV ateroscleróticos é razoável naqueles sem doenças limitantes.
Em adultos > 75 anos, a utilidade das equações de risco para avaliar o risco de DASCV em 5 a 10 anos parece incerta.
Em adultos > 75 anos, podem-se considerar modelos ajustados para riscos competitivos a fim de estimar o risco de DASCV e o potencial benefício das estatinas na prevenção primária para cada paciente.
Escore de cálcio na decisão
Em adultos > 75 anos com LDL-c entre 70 e 189 mg/dL, nos quais haja incerteza sobre o início do uso de estatinas, é razoável medir o ECC e não indicar estatina se ECC = 0.
Em adultos de 76 a 80 anos com LDL-c entre 70 e 189 mg/dL e ECC > 100 ou > percentil 75, em comparação com indivíduos pareados por idade, sexo e raça, é razoável adotar uma decisão compartilhada quanto ao início do uso de estatinas.
Segurança das estatinas
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, pode ser razoável usar estatinas para reduzir o risco de DASCV, apesar do risco potencial de sintomas musculares associados ao seu uso.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, pode ser razoável usar estatinas para reduzir o risco de DASCV, apesar do risco potencial de novos casos de diabetes melito tipo 2.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, pode ser razoável usar estatinas para reduzir o risco de DASCV, apesar do risco potencial de comprometimento cognitivo associado ao seu uso.
Expectativa de vida, fragilidade e decisão compartilhada
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, recomenda-se o uso de índices validados de mortalidade que incluam condições comórbidas e estado funcional para auxiliar os clínicos a incorporar a expectativa de vida remanescente do paciente à decisão sobre o uso de estatinas na prevenção de DASCV.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, pode ser útil integrar o rastreamento de fragilidade, demência e comprometimento funcional às decisões sobre o início do uso de estatinas na prevenção de DASCV.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV e tratados com estatinas, recomenda-se o monitoramento do LDL-c a cada 3 a 12 meses, conforme indicação clínica.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, a decisão compartilhada deve ser utilizada na tomada de decisões centradas no paciente sobre o uso de terapia com estatinas.
Desprescrição
Em adultos selecionados > 75 anos, sem DASCV, nos quais se considera a desprescrição, é razoável que a decisão seja compartilhada entre o clínico, o paciente e/ou o cuidador.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, a descontinuação da estatina pode aumentar o risco de eventos CV em comparação com a continuação do tratamento.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, com condições que limitem a expectativa de vida e sobrevida estimada < 1 ano, pode ser razoável descontinuar a estatina para melhorar a qualidade de vida.
Não estatinas
Em adultos > 75 anos, sem DASCV, mas com LDL-c acima dos limiares recomendados pelas diretrizes e fatores de risco adicionais, pode-se considerar o uso de ezetimiba para reduzir o risco de DASCV.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV e com intolerância às estatinas, pode-se considerar o uso de ácido bempedoico para reduzir o LDL-c e o risco de DASCV.
Em adultos > 75 anos, sem DASCV e com intolerância às estatinas, pode-se considerar o uso de terapias direcionadas à PCSK9 para reduzir o LDL-c e o risco de DASCV.
CV: cardiovascular; DASCV: doença aterosclerótica cardiovascular; ECC: escore de cálcio coronariano; LDL-c: colesterol de lipoproteína de baixa densidade; PCSK9: proprotein convertase subtilisin/kexin type 9. Os subtítulos em negrito foram acrescentados para facilitar a leitura; a ordem é a do original. É importante avaliar a polifarmácia e os critérios de Beers, incluindo critérios de desprescrição.
Três idosos de 78 anos com LDL-c 150 mg/dL e sem DASCV: o primeiro tem ECC = 0 — não iniciar estatina é razoável; o segundo tem ECC 250 UA (percentil > 75) — decisão compartilhada, com tendência a tratar; o terceiro está acamado, com demência avançada e expectativa de vida < 1 ano — se já usa, desprescrever pode melhorar a qualidade de vida. A idade é a mesma; a conduta, não.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 3.1 e 3.2; Figuras 3.1 a 3.3; quadros de recomendação.
8Escore de cálcio, angiotomografia e índice tornozelo-braquial
Diretriz · seções 3.3, 3.4 e 3.5
Escores clínicos superestimam o risco do idoso porque pesam demais a idade. O ECC mede a carga aterosclerótica real: ECC = 0 (eventos < 1%/ano) permite evitar estatina; ECC ≥ 100 ou percentil ≥ 75 sugere tratar. A ATCC não é exame de rotina no idoso. E no ITB, o erro clássico é chamar de normal um valor > 1,40.
Por que o escore de cálcio no idoso
- Escores baseados só em variáveis clínicas pesam fortemente a idade cronológica e tendem a superestimar o risco, levando a excesso de terapias preventivas e dificuldade de individualizar.
- O ECC (TC sem contraste) quantifica de modo objetivo e reprodutível a calcificação coronariana — medida anatômica que integra a exposição cumulativa aos fatores de risco.
- Debate em ≥ 65 anos: prevalência de ECC > 0 acima de 70% após os 70 anos reduz a discriminação; porém a calcificação é marcador de carga aterosclerótica cumulativa, acelerada por DM e HAS, e não só envelhecimento fisiológico.
- MESA: ECC elevado → mais eventos; ECC = 0 → prognóstico favorável. Blaha et al. (≥ 65 anos): ECC discrimina eventos coronarianos melhor do que a idade isolada. ECC > 300 ou > 400 UA = risco semelhante ao da prevenção secundária.
| Situação | O que a diretriz diz |
|---|---|
| ECC = 0 | Metanálises: ≥ 65 anos com ECC = 0 têm incidência anual de eventos < 1%; permite evitar terapias agressivas em risco clínico intermediário, reduzindo polifarmácia e eventos adversos; permite postergar ou evitar estatina em prevenção primária |
| ECC ≥ 100 ou percentil ≥ 75 | Risco significativamente elevado; forte indicativo para iniciar ou intensificar estatina, independentemente do LDL-c basal |
| Diabetes | Grande heterogeneidade: até 25% dos idosos diabéticos têm ECC = 0 (prognóstico melhor); ECC > 400 → aumento expressivo de mortalidade e eventos, justificando terapia intensiva |
| Hipertensão | Duração e mau controle da HAS correlacionam-se com o ECC; ECC elevado → mais IAM, IC e morte CV; identifica hipertensos “controlados” com alta carga aterosclerótica |
| Aspirina em prevenção primária | Controversa (sangramento GI e intracraniano). ECC ≥ 400 UA: possível benefício líquido se o risco hemorrágico for avaliado; ECC baixo ou zero: sangramento supera benefício — não recomendada |
| Frágil ou expectativa de vida limitada | Mesmo ECC alto pode não justificar terapia agressiva (benefício tardio); ECC é complementar, integrado à AGA |
Classificação técnica de Agatston citada no texto: 0 = nenhum; 1–99 = leve; 100–299 = moderado; 300 ≥ 400 = severo (redação do original). AHA/ACC: ECC pode ser considerado de 76 a 80 anos sem DM e com LDL-c 70–189 mg/dL; ESC/EAS e Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025: complementar em risco intermediário, sem limite etário rígido. Estratégia guiada por ECC parece custo-efetiva, reduzindo subtratamento e uso desnecessário de estatinas.
- Alta prevalência de positivos a partir de 75 anos: ECC > 0 não é automaticamente alto risco — olhar valor absoluto, percentil para idade e sexo e contexto.
- Não detecta placas não calcificadas (potencialmente vulneráveis, relevantes no DM): ECC baixo não exclui aterosclerose nem substitui exames anatômicos ou funcionais se houver suspeita de DAC.
- Pouca utilidade com DAC conhecida ou eventos prévios — já são alto risco; não recomendado de rotina.
- Escassez de ECRs em ≥ 75 anos; o PREVENTABLE está em andamento.
Angiotomografia de coronárias no idoso
- A ATCC tem alta sensibilidade para DAC em dor torácica estável com probabilidade pré-teste baixa a intermediária; o ECC é marcador robusto de carga aterosclerótica.
- Mas a ATCC não deve ser usada rotineiramente em todos os idosos > 65 anos, mesmo associada ao ECC: exames não diagnósticos (calcificação extensa), radiação, contraste iodado e rendimento incremental limitado.
- Uso combinado individualizado: probabilidade pré-teste, sintomas, capacidade funcional, comorbidades e, sobretudo, chance de mudar a conduta.
- O tratamento clínico otimizado (PA, estatina, DM, tabagismo) já é indicado na maioria dos idosos; placas na ATCC em assintomáticos ou sintomas atípicos raramente mudam a estratégia.
- Conclusão (evidências 2020–2026): o ECC é útil e seguro para estratificar idosos ≥ 65 anos, sobretudo com DM e HAS, evitando subtratamento e medicalização excessiva.
Índice tornozelo-braquial
- ITB ≤ 0,90 = DAP; ≥ 1,40 = artérias não compressíveis (calcificação da média — idosos, DM, DRC) → complementar com índice dedo-braquial (TBI) e/ou análise de ondas. Normal ≈ 1,0–1,3 (PAS no tornozelo igual ou pouco maior que no braço).
- Acurácia: sensibilidade ~75% e especificidade 86% para estenose ≥ 50% (outras séries: 68–84% e 84–99%). Sensibilidade menor em idosos, DM e DRC; no DM, o TBI pode ser mais sensível. ITB 0,90–1,30 não exclui DAP com suspeita alta.
- Prognóstico: ITB baixo → eventos CV, DAC, AVC, IC, eventos de membros e mortalidade; ITB > 1,30–1,40 também associa-se a maior mortalidade.
- Diagnóstico: sintomas ou sinais de DAP (dor/fadiga aos esforços, limitação de marcha, pulsos reduzidos, sopros, assimetria de PA, úlceras de difícil cicatrização, dor em repouso). Ausência de claudicação típica não exclui.
- Rastreio oportunístico: ≥ 65 anos com maior risco (tabagismo, DM, DRC, HAS, dislipidemia, aterosclerose em outro território, lesões nos pés, limitação de marcha sem causa). Sem fatores de risco: rastreio sistemático não recomendado.
- Doppler de onda contínua (8–10 MHz), esfigmomanômetro calibrado, manguito cobrindo ~40% da circunferência, ~2 cm acima do maléolo; decúbito dorsal por 5–10 min (sentado eleva artificialmente; se usado, registrar).
- ITB = maior PAS do tornozelo (tibial posterior ou pediosa) ÷ maior PAS braquial. Padronizar a sequência e repetir valores discrepantes; tremor e agitação podem exigir repetição.
- Classificação: ≤ 0,90 anormal (DAP); 0,91–0,99 limítrofe; 1,00–1,40 normal; > 1,40 não compressível.
- ITB normal ou limítrofe com sintomas persistentes → teste de exercício e/ou duplex; cuidado com falsos-positivos (queda > 20% pós-exercício gerou muitos falsos-positivos em saudáveis).
- Oscilometria: especificidade ~96%, sensibilidade ~69% — útil para triagem, confirmando com Doppler casos limítrofes, sintomáticos ou de alto risco. Na FA, a oscilometria não substitui o Doppler.
- No idoso: fragilidade, sarcopenia, artrose e pouca mobilidade mascaram claudicação; déficit cognitivo, depressão, neuropatia e sedentarismo reduzem a confiabilidade da história — valorizar pulsos, lesões tróficas e dor. ≥ 75 anos com DAP: avaliar fragilidade, sarcopenia, nutrição e mobilidade.
- DAP identificada → revisar risco global (hipolipemiante, antitrombótico se indicado, fatores de risco, cuidado com os pés), individualizando em polimedicados. Pós-revascularização: aumento ≥ 0,15 = melhora hemodinâmica.
- Lacunas: pouca evidência em frágeis, muito idosos, institucionalizados e com demência; sem intervalo único de repetição em assintomáticos.
Numerador: maior PAS do tornozelo de cada lado; denominador: maior PAS braquial. Na FA, preferir Doppler à oscilometria.
Em idosos com sintomas, sinais clínicos ou exame físico sugestivos de DAP, incluindo claudicação intermitente, dor em repouso, lesões tróficas em membros inferiores ou pulsos alterados, recomenda-se a mensuração do ITB de repouso por Doppler como primeiro teste diagnóstico não invasivo.
Em idosos assintomáticos com alto risco cardiovascular ou aterosclerose estabelecida em outros territórios, sugere-se a mensuração oportunística do ITB para detecção de DAP associada e melhor estratificação prognóstica, especialmente na presença de idade ≥ 65 anos, DM, tabagismo atual ou prévio, dislipidemia, hipertensão arterial, doença renal crônica ou doença aterosclerótica em outro território vascular.
Quando o ITB for > 1,40, ou quando houver forte suspeita de resultado falsamente normal por calcificação arterial ou artérias não compressíveis, recomenda-se complementar a avaliação com índice dedo-braquial, pressão digital, análise de ondas e/ou Doppler vascular.
Em idosos com sintomas sugestivos de DAP e ITB entre 0,91 e 1,40, recomenda-se prosseguir a investigação com ITB pós-exercício e/ou duplex arterial, em vez de encerrar a avaliação diagnóstica.
Nos casos de ITB limítrofe entre 0,91 e 0,99, sugere-se considerar ITB pós-exercício para confirmação diagnóstica, conforme contexto clínico.
Em idosos com DM, doença renal crônica, fragilidade, limitação de mobilidade ou comprometimento cognitivo, sugere-se limiar mais baixo para mensuração do ITB e, quando necessário, associação com índice dedo-braquial, pressão digital ou análise de ondas, reconhecendo que valores normais de ITB podem não excluir DAP com segurança nesses grupos.
No seguimento de idosos com DAP, sugere-se avaliação clínica longitudinal, incluindo sintomas, estado funcional, pulsos periféricos e inspeção dos pés. Após revascularização, sugere-se vigilância estruturada com ITB e duplex arterial conforme o tipo de procedimento e o contexto clínico.
DAP: doença arterial periférica; DM: diabetes melito; ITB: índice tornozelo-braquial.
Diabético de 79 anos com ferida no pé que não cicatriza e ITB 1,55: isso não é “ótimo”, é artéria que não se comprime. O próximo passo é TBI/pressão digital ou Doppler com análise de ondas. E se o ITB vier 1,10 com claudicação típica, a investigação continua (pós-exercício ou duplex) — no idoso, ITB normal não encerra a conversa.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 3.3 a 3.5; Figura 3.4; quadro de recomendações.
9Coronariopatia crônica no idoso
Diretriz · capítulo 4
A angina típica é minoria: dispneia, fadiga e queda funcional são os equivalentes anginosos, e a isquemia silenciosa chega a 40%. O teste ergométrico falha em até 30–40% — prefira imagem. Tratamento clínico otimizado primeiro (ISCHEMIA ≥ 75 anos), estatina de alta intensidade sempre, stent farmacológico com DAPT de 1 mês (SENIOR), fragilidade avaliada antes de qualquer procedimento.
Diagnóstico: o que muda no idoso
- Idosos deverão ser ~30% da população brasileira até 2050 (IBGE/Fiocruz). A DAC é a principal causa de mortalidade cardiovascular no Brasil.
- DAC crônica (síndrome coronariana crônica): angina estável, isquemia silenciosa, disfunção ventricular isquêmica e SCA prévia estabilizada; prevalência epidêmica ≥ 70 anos.
- A angina típica é menos frequente: alterações da nocicepção, menor sensibilidade autonômica e mudanças da fisiologia miocárdica levam a apresentações atípicas ou silenciosas.
- Equivalentes anginosos: dispneia aos esforços, fadiga desproporcional, síncope, tontura e piora funcional sem causa — muitas vezes atribuídos a IC, DPOC ou anemia, atrasando o diagnóstico.
- Isquemia silenciosa em até 40% dos idosos sem DAC prévia; episódios mais frequentes, mais longos e de pior prognóstico que nos jovens → investigação sistemática mesmo sem angina clássica.
| Método | Papel no idoso | Limitações |
|---|---|---|
| Teste ergométrico | Mantém valor prognóstico quando realizável (METs e comportamento hemodinâmico) | Não atingem ≥ 85% da FC máxima (descondicionamento, artrose, DAP, doença neurológica) → inconclusivo em até 30–40%; HVE, BRE, digoxina e repolarização alterada; menor sensibilidade e especificidade |
| Ecocardiograma de estresse (dobutamina ou exercício) | Imagem é a estratégia preferencial; avalia função segmentar e global, valvopatias e pressões de enchimento; boa acurácia mesmo com comorbidades | — |
| Cintilografia de perfusão (dipiridamol ou adenosina) | Útil em quem não se exercita; extensão e gravidade da isquemia; viabilidade | — |
| ATCC e ECC | ATCC na probabilidade intermediária (alta sensibilidade); ECC estratifica risco incremental | Calcificação extensa limita a interpretação e superestima estenoses |
| RMC | Isquemia, viabilidade e função sem radiação | Disponibilidade, tempo de exame, implantes incompatíveis |
| Cineangiocoronariografia | Padrão-ouro anatômico: isquemia significativa, discordância clínica–exames ou revascularização em consideração; FFR/iFR evitam intervenções desnecessárias | Mais risco: tortuosidade e calcificação, nefropatia por contraste, sangramento, menor reserva; complicações maiores 0,5–1,0% em ≥ 75 anos. Preferir via radial |
ATCC: angiotomografia computadorizada de coronárias; BRE: bloqueio de ramo esquerdo; ECC: escore de cálcio coronariano; FFR: reserva de fluxo fracionada; iFR: onda de pressão instantânea sem ondas (instantaneous wave-free ratio); HVE: hipertrofia ventricular esquerda; RMC: ressonância magnética cardíaca.
- Cenário habitual: HAS, DM, IC, FA, DRC, DPOC, anemia e doenças musculoesqueléticas. Polifarmácia em 50–80% dos idosos com DAC; pode mascarar ou mimetizar sintomas: bradicardia por betabloqueador/digoxina confundida com síncope de outra causa; hipotensão ortostática por diuréticos e anti-hipertensivos simulando equivalente isquêmico; AINEs descompensando IC ou rim.
- Diagnóstico diferencial de dor torácica e dispneia: estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, TEP, espasmo esofágico, osteoartrose cervical/torácica, hérnia de hiato e ansiedade.
- Fragilidade em ~30% dos idosos com síndrome coronariana crônica; preditor independente de morte, hospitalização, complicações pós-procedimento e pior qualidade de vida. Avaliar sistematicamente antes de qualquer decisão invasiva (Fried, CFS de 9 graus, índice de fragilidade cumulativo) e integrar a AGA (cognição, humor, AVD, suporte social, nutrição, quedas, polifarmácia).
Tratamento farmacológico
| Classe | Uso | Atenção no idoso |
|---|---|---|
| Betabloqueadores | Antianginoso de primeira linha; sobretudo com disfunção de VE ou IAM prévio | Bradicardia, hipotensão ortostática, disfunção sexual; iniciar baixo e titular devagar |
| Estatina de alta intensidade | Todos com DAC estabelecida, independentemente da idade | Função hepática, miopatia, interações via CYP3A4; dose escalonada |
| Ezetimiba → ácido bempedoico → iPCSK9 | Ezetimiba se a estatina não atingir a meta; ácido bempedoico se persistir acima ou houver intolerância a doses plenas; iPCSK9 reservado a maior risco em prevenção secundária | Ver reduções esperadas na Tabela 4.2 |
| AAS 75–100 mg/dia | Todos com DAC estabelecida, salvo contraindicação | Associar IBP (mais sangramento GI); DAPT só por período limitado após ICP |
| IECA/BRA | FE ≤ 40%, DM ou HAS não controlada | Monitorar função renal e potássio (hiperpotassemia, LRA) |
| Nitratos de longa ação | Angina não controlada com betabloqueador e/ou BCC | Hipotensão ortostática, síncope, cefaleia |
| BCC di-hidropiridínico (anlodipino, felodipino) | Alternativa ou complemento ao betabloqueador | Não di-hidropiridínicos (verapamil, diltiazem): evitar com disfunção de VE ou BAV |
| Ranolazina | Angina refratária | Segurança aceitável; poucos dados em octogenários |
| Ivabradina | Ritmo sinusal com FC ≥ 70 bpm e intolerância a betabloqueador, sobretudo com disfunção de VE | — |
BAV: bloqueio atrioventricular; BCC: bloqueador dos canais de cálcio; DAPT: dupla antiagregação plaquetária; IBP: inibidor de bomba de prótons; iPCSK9: inibidor da PCSK9; LRA: lesão renal aguda. Pacientes com DAC crônica são de muito alto risco (LDL-c < 50 mg/dL, redução ≥ 50%) ou risco extremo (≥ 2 eventos maiores ou 1 evento com ≥ 2 condições de alto risco: LDL-c < 40 mg/dL, redução > 50%). O benefício absoluto da hipolipemia é maior no idoso (Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025).
| Categoria de risco | Meta LDL-c | Redução LDL-c | Meta não HDL | Meta apolipoproteína B |
|---|---|---|---|---|
| Baixo | < 115 mg/dL | > 30% | < 145 mg/dL | < 100 mg/dL |
| Intermediário | < 100 mg/dL | > 30% | < 130 mg/dL | < 90 mg/dL |
| Alto | < 70 mg/dL | > 50% | < 100 mg/dL | < 70 mg/dL |
| Muito alto | < 50 mg/dL | > 50% | < 80 mg/dL | < 55 mg/dL |
| Extremo | < 40 mg/dL | > 50% | < 70 mg/dL | < 45 mg/dL |
HDL: lipoproteína de alta densidade; LDL-c: colesterol de lipoproteína de baixa densidade. Metas lipídicas em mg/dL. Risco extremo: dois ou mais eventos cardiovasculares maiores ou um evento com duas ou mais condições de alto risco.
| Terapia hipolipemiante | Redução do colesterol de lipoproteína de baixa densidade |
|---|---|
| EMI | ~30% |
| EAI | ~50% |
| EZE | ~20% |
| AB | ~23% |
| EZE + AB | ~38% |
| EAI + EZE | ~60% |
| EAI + AB | ~58% |
| EAI + AB + EZE | ~68% |
| PCSK9mAb | ~60% |
| PCSK9mAb + EZE | ~70% |
| EAI + PCSK9mAb | ~75% |
| EAI + EZE + PCSK9mAb | ~80% |
| EAI + EZE + AB + PCSK9mAb | ~86% |
AB: ácido bempedoico; EMI: estatina de moderada intensidade; EAI: estatina de alta intensidade; EZE: ezetimiba; PCSK9mAb: anticorpo monoclonal anti-PCSK9. Fonte: modificado de Rached et al. e Blumenthal et al.
Estimativa pelas reduções médias da Tabela 4.2; a resposta individual varia. Meta = valor absoluto e redução percentual mínima.
Revascularização, reabilitação e polifarmácia
- Decisão das mais complexas: anatomia, função de VE, comorbidades, fragilidade, preferências e expectativa de vida.
- ISCHEMIA (≥ 75 anos): estratégia invasiva precoce não reduziu MACE versus tratamento clínico otimizado, e o ganho sintomático foi menor que nos jovens → TCO como estratégia primária na DAC estável com isquemia moderada.
- SENIOR (≥ 75 anos): stent farmacológico + DAPT de 1 mês foi superior ao convencional, com menos eventos isquêmicos sem mais sangramento.
- CRM: preferida na multiarterial grave (triarterial, tronco), DAC complexa, DM e disfunção de VE, se houver boa reserva e risco cirúrgico não elevado; mortalidade operatória de até 5–8% em octogenários selecionados. Fragilidade é determinante na seleção.
- Reabilitação cardíaca: reduz morte CV e hospitalizações; no idoso o benefício é proporcionalmente igual ou maior, com ganho em quedas, cognição e fragilidade. Individualizar (intensidade moderada, resistência, equilíbrio), equipe multiprofissional; enfrentar barreiras (transporte, custo, locomoção, suporte social).
- Cascata de prescrições: efeito adverso interpretado como nova doença e tratado com outro fármaco. Beers (AGS): evitar AINEs (IC, sangramento GI), antiarrítmicos IA e IC (pró-arritmia), benzodiazepínicos (quedas, cognição), tricíclicos (anticolinérgicos, hipotensão ortostática). STOPP/START, idealmente com farmacêutico clínico (custo-efetivo).
Metas terapêuticas diferenciadas
| Parâmetro | Meta | Base |
|---|---|---|
| Pressão arterial | < 130/80 mmHg para a maioria dos idosos hipertensos (Diretriz Brasileira de HA 2025); frágeis, muito idosos ou expectativa de vida comprometida: menor valor tolerado | SPRINT (PAS < 120: menos eventos, mais hipotensão, síncope e LRA leve); SPRINT Senior (2.636 com ≥ 75 anos: −34% no desfecho composto); STEP (China, 110–130 vs. 130–150 mmHg: interrompido por superioridade da meta intensiva em 3,3 anos); metanálises sem aumento de efeitos adversos |
| LDL-c | < 55 mg/dL (texto e recomendação) — a Tabela 4.1 traz < 50 mg/dL para muito alto risco | Diretrizes brasileiras e internacionais |
| Glicemia | HbA1c 7,5–8,5% (conservadora) | Hipoglicemia precipita arritmias e isquemia no idoso |
| Frequência cardíaca | 55–60 bpm em repouso com FE preservada | Desde que sem bradicardia sintomática ou bloqueios |
Nota de fidelidade: o quadro de recomendações a seguir indica metas pressóricas individualizadas com PAS 130–150 mmHg em frágeis ou ≥ 80 anos; o texto menciona < 130/80 mmHg para a maioria e o máximo tolerado nos frágeis. A meta de LDL-c também difere entre o texto/recomendação (< 55) e a Tabela 4.1 (< 50). Ambos foram mantidos como no original.
- Cuidado multidisciplinar (cardiologia, geriatria, enfermagem, farmácia clínica, nutrição, fisioterapia, psicologia, serviço social). Cogestão cardiologia–geriatria = estado da arte (menos hospitalização, melhor controle de comorbidades, mais satisfação).
- Cuidados paliativos precoces na DAC avançada (disfunção grave, angina refratária, múltiplas internações) — não é abandono; planejamento antecipado (diretivas antecipadas, representante legal) para todos.
- Expectativa de vida pela idade biológica (fragilidade, função, comorbidades): o octogenário robusto pode se beneficiar como um jovem; o frágil de 70 anos, de foco em conforto. Time to benefit: revascularizar DAC multiarterial assintomática traz benefício de sobrevida só após anos.
- Decisão compartilhada com ferramentas de apoio (folhetos, vídeos, calculadoras para leigos), familiares e cuidadores.
- Fragilidade pré-procedimento (ICP, CRM, TAVI): frágeis na ICP têm mortalidade intra-hospitalar ~3,5× e total ~2,1× maior. Permite estratificar, selecionar, fazer pré-habilitação e ajustar expectativas.
- Desprescrição (ativa, gradual, monitorada, compartilhada): estatina com expectativa de vida muito limitada; AAS sem DAC estabelecida e com alto risco hemorrágico; anti-hipertensivos em excesso com hipotensão ortostática; anticolinérgicos que pioram a cognição.
- Fim de vida: tratar dispneia (opioides criteriosos), angina refratária, ansiedade (benzodiazepínicos) e depressão; equipes paliativas, idealmente no domicílio.
Avaliação e diagnóstico
Recomenda-se a avaliação geriátrica abrangente, incluindo rastreio de fragilidade, função cognitiva, capacidade funcional e polifarmácia, em todos os idosos com DAC crônica antes da definição da estratégia terapêutica.
Em idosos com DAC crônica e sintomas atípicos ou equivalentes anginosos, recomenda-se investigação sistemática de isquemia miocárdica, mesmo na ausência de angina típica.
Recomenda-se a utilização de métodos de imagem cardiovascular (ecocardiograma de estresse ou cintilografia miocárdica de perfusão) como estratégia diagnóstica preferencial em idosos incapazes de atingir carga adequada no teste ergométrico.
Estratégia terapêutica e procedimentos
Em idosos com DAC crônica estável e isquemia de moderada extensão sem sintomas limitantes, recomenda-se o tratamento clínico otimizado como estratégia terapêutica inicial, antes de considerar revascularização.
Recomenda-se o uso de stents farmacológicos com dupla antiagregação plaquetária de curta duração (1 mês) em idosos com ≥ 75 anos submetidos a intervenção coronariana percutânea eletiva.
Recomenda-se o uso preferencial da via radial em idosos submetidos ao cateterismo cardíaco diagnóstico ou terapêutico, visando reduzir complicações hemorrágicas no sítio de acesso.
Recomenda-se a avaliação da fragilidade por instrumento validado (critérios de Fried ou Escala de Fragilidade Clínica) como critério adicional na seleção de idosos candidatos a revascularização miocárdica cirúrgica ou percutânea.
Recomenda-se a decisão compartilhada entre o idoso, seus familiares ou cuidadores e a equipe de saúde na definição da estratégia de revascularização, considerando as preferências, os valores e a expectativa de vida do paciente.
Farmacoterapia
Recomenda-se o uso de estatinas de alta intensidade em dose escalonada, em monoterapia ou em combinação com hipolipemiantes adicionais, em idosos com alto ou muito alto risco cardiovascular.
Recomenda-se terapia com estatinas de alta intensidade em todos os idosos com DAC estabelecida, independentemente da idade, com meta de LDL-c < 55 mg/dL.
Recomenda-se o uso de ácido acetilsalicílico em baixa dose (75–100 mg/dia) associado a inibidor de bomba de prótons em todos os idosos com DAC estabelecida sem contraindicações formais.
Recomenda-se o uso de betabloqueadores como terapia antianginosa de primeira linha em idosos com DAC crônica, especialmente na presença de infarto prévio ou disfunção ventricular esquerda, com titulação gradual.
Recomenda-se a revisão sistemática e periódica das prescrições em idosos com DAC crônica, com identificação e suspensão de medicamentos potencialmente inapropriados segundo os Critérios de Beers ou a ferramenta STOPP/START.
Recomenda-se evitar o uso de anti-inflamatórios não esteroides em idosos com DAC crônica em virtude do risco de piora da função renal, elevação pressórica e descompensação de insuficiência cardíaca.
Metas, reabilitação e cuidados paliativos
Recomenda-se a inclusão de idosos com DAC crônica em programas de reabilitação cardíaca supervisionada baseada em exercício, adaptada às suas limitações funcionais.
Recomenda-se a adoção de metas pressóricas individualizadas em idosos com DAC crônica (PAS 130–150 mmHg em frágeis ou ≥ 80 anos), com monitoramento ativo de hipotensão ortostática.
Recomendam-se metas glicêmicas menos intensivas (HbA1c 7,5–8,5%) em idosos com DAC crônica e diabetes melito com alto risco de hipoglicemia.
Recomenda-se a integração precoce de cuidados paliativos em idosos com DAC crônica avançada, angina refratária ou disfunção ventricular grave, com foco no controle de sintomas e na qualidade de vida.
Recomenda-se a realização do planejamento antecipado de cuidados, incluindo discussão sobre diretivas antecipadas de vontade, com todos os idosos com DAC crônica avançada.
DAC: doença arterial coronariana; HbA1c: hemoglobina glicada; LDL-c: colesterol de lipoproteína de baixa densidade; PAS: pressão arterial sistólica. A recomendação sobre estatinas em dose escalonada aparece em quadro próprio na página 51; as demais formam o quadro das páginas 53–54. Para facilitar a leitura, as recomendações foram agrupadas por tema, com subtítulos acrescentados; o texto de cada uma é o original.
Octogenário com dispneia aos esforços e teste ergométrico ineficaz: o caminho é eco de estresse ou cintilografia, não “repetir a esteira”. Se a isquemia for moderada e os sintomas toleráveis, o ISCHEMIA ≥ 75 anos apoia começar pelo tratamento clínico otimizado (betabloqueador titulado, estatina de alta intensidade ± ezetimiba, AAS com IBP) e reabilitação. Se a angioplastia vier, via radial, stent farmacológico e DAPT de 1 mês.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 4; Tabelas 4.1 e 4.2; quadros de recomendação.
10Coronariopatia aguda no idoso
Diretriz · capítulo 5
Acima de 85 anos, só 40% dos infartados relatam dor torácica — dispneia, síncope, confusão, queda inexplicada e IC aguda podem ser a SCA. GRACE + fragilidade (EFS) estratificam; estratégia invasiva precoce se GRACE/TIMI alto; clopidogrel é o P2Y12 de escolha (POPular AGE); fibrinólise em meia dose a partir de 75 anos.
Manifestações clínicas
- 30–40% dos hospitalizados por SCA têm > 75 anos; o IAMSSST é o subtipo mais prevalente. Angina instável é frequente e menos letal; o IAMCSST é menos comum e mais letal.
- Infarto tipo 2 (desequilíbrio oferta/demanda sem ruptura de placa) é particularmente prevalente no idoso (IC, anemia, infecções), com pior prognóstico a longo prazo que o tipo 1.
- Mais comorbidades (HAS, DM, SCA/IAM prévios, doença vascular periférica, AVC, IC, DAC multiarterial) e síndromes geriátricas (fragilidade, multimorbidade, polifarmácia, déficits cognitivos e funcionais), preditoras de mau prognóstico.
- National Registry of Myocardial Infarction: dor torácica em apenas 40% dos > 85 anos (vs. 77% dos < 65). Dispneia como sintoma principal em até 49% dos ≥ 85 anos; síncope e confusão mental aguda em ~17%. Mulheres idosas: mais sintomas atípicos e déficit cognitivo.
- Menos comuns: queda inexplicada; dor abdominal/epigástrica; palpitações isoladas, tontura, fraqueza intensa ou mal-estar; náuseas e vômitos (24%); sudorese isolada; IC aguda ou choque cardiogênico como apresentação inicial.
- GRACE é o escore mais validado em idosos, inclusive > 80 anos; CFS, EFS e Fried agregam acurácia — a EFS discriminou melhor mortalidade e hospitalização prolongada e melhorou a discriminação somada aos escores clínicos. A idade pode superestimar o risco no GRACE.
- Fármacos: AINEs aumentam eventos coronarianos; antitrombóticos podem precipitar SCA por anemia aguda; a FDA contraindica prasugrel ≥ 75 anos (exceto risco muito elevado); clopidogrel + BCC pode reduzir a eficácia antiagregante.
- “Ausência de dor” ou “confusão mental” podem ocultar isquemia. Estratificar além da idade: fragilidade, comorbidades, funcionalidade e preferências.
Recomenda-se suspeitar de SCA em pacientes idosos mesmo na ausência de dor torácica típica, particularmente diante de dispneia súbita, síncope, confusão mental aguda, queda inexplicada, náuseas, vômitos ou piora funcional aguda.
Recomenda-se que pacientes idosos com SCA sejam submetidos à avaliação de fragilidade, cognição, funcionalidade e estado nutricional como parte integrante da estratificação prognóstica e da tomada de decisão terapêutica.
Recomenda-se utilizar o GRACE Score para a estratificação de risco inicial em idosos com SCA, preferencialmente associado a instrumentos de avaliação de fragilidade, como a Escala de Fragilidade de Edmonton, a Escala de Fragilidade Clínica e os critérios de Fried.
Recomenda-se avaliar sistematicamente comorbidades cardiovasculares e não cardiovasculares em idosos com SCA, incluindo insuficiência cardíaca, diabetes melito, doença renal crônica, anemia, doença cerebrovascular, doença arterial periférica, déficits cognitivos e multimorbidade.
Recomenda-se reconhecer insuficiência cardíaca aguda, edema agudo pulmonar ou choque cardiogênico como possíveis manifestações iniciais de SCA em idosos, mesmo sem sintomas anginosos clássicos.
SCA: síndrome coronariana aguda.
Exame físico
- Três objetivos: estratificar risco e complicações; identificar comorbidades; suspeitar e excluir diferenciais.
- Sinais vitais imediatos: PA nos dois braços, oximetria, cardioscopia + ECG de 12 derivações, FR, temperatura. Sinais de IC congestiva (turgência jugular, B3, estertores, edema agudo, edema de MMII) associam-se a maior morbimortalidade.
- Sopros: sistólico regurgitativo mitral ou em borda esternal esquerda médio-baixa → IM por disfunção/ruptura de papilar vs. comunicação interventricular pós-IAM; sopro “em diamante” aórtico irradiado para fúrcula e carótidas → estenose aórtica, muito prevalente no idoso.
- Hipotensão + perfusão ruim (enchimento capilar > 3 s, extremidades frias, livedo, oligúria, alteração aguda da consciência): choque; ultrassom point of care para diferenciar cardiogênico, hipovolêmico, distributivo e obstrutivo.
- Identificar fragilidade, sarcopenia, DPOC, demência, sequelas neurológicas, déficits sensoriais, nefropatia e hepatopatia. Diferenciais prioritários: TEP, dissecção de aorta, tamponamento e sepse.
Monitorização (pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação periférica de oxigênio, temperatura, eletrocardiograma).
Pesquisa de sinais de insuficiência cardíaca (terceira bulha, turgência jugular, estertores).
Ausculta de sopros para condições associadas ou complicações mecânicas.
Avaliação de perfusão orgânica e choque (tempo de enchimento capilar, livedo e débito urinário).
Uso de ultrassom point-of-care para diferenciação de dor torácica e, especialmente, do choque circulatório.
Diagnóstico na emergência
- Mortalidade do IAM > 75 anos chega a 1/3, o dobro dos mais jovens.
- ECG em até 10 min. No IAMSSST pode ser normal ou não diagnóstico em até 6%: repetir em curto intervalo se sintomático e em até 6 h se assintomático. GUSTO II: BRE, HVE e ritmo de marcapasso → pior prognóstico. Considerar equivalentes de oclusão (Winter, Wellens, Smith-Sgarbossa).
- Troponina: alterada também em choque, sepse, TEP, AVC, takotsubo e valvopatias; a troponina de alta sensibilidade tem sensibilidade diminuída em idosos, sobretudo > 70 anos.
- ECG e biomarcadores normais com suspeita clínica: teste ergométrico em baixo/intermediário risco estáveis após 9–12 h (acurácia limitada no idoso); eco (função, segmentar, dissecção, EAo crítica, takotsubo); cintilografia (VPN até 98%); ATCC (limitada por cálcio e arritmias); RM (miocardite, takotsubo, MINOCA); cinecoronariografia (padrão-ouro).
- Idosos são sub-representados nos ensaios. After Eighty (> 80 anos): invasiva precoce −24% nos desfechos maiores. Metanálise > 70 anos com IAMSSST: −59% em revascularização subsequente e −25% em IAM, AVC e IC semelhantes. Via radial preferencial.
Eletrocardiograma na abordagem inicial da síndrome coronariana aguda.
Biomarcadores, especialmente a troponina de alta sensibilidade.
Teste ergométrico.
Ecocardiograma de repouso.
Cintilografia miocárdica de perfusão.
Angiotomografia coronariana.
Ressonância magnética nuclear.
Angiografia coronariana invasiva.
Tratamento antitrombótico e adjuvante
| Fármaco | Dose / uso | Particularidade no idoso |
|---|---|---|
| Antiplaquetários (DAPT é o pilar) | ||
| AAS | Ataque 300 mg (não entérico); manutenção 81–100 mg/dia | — |
| Clopidogrel | P2Y12 de escolha no idoso | POPular AGE (≥ 70 anos, IAMSSST): eficácia semelhante a ticagrelor/prasugrel com menos sangramento. Com trombólise > 75 anos: 75 mg sem dose de ataque maior, depois 75 mg/dia |
| Ticagrelor | Ataque 180 mg; 90 mg 2×/dia | Situações selecionadas (IAMCSST, anatomia complexa) |
| Prasugrel | 10 mg/dia (dose plena) | Advertência > 75 anos; Elderly ACS 2 sem superioridade sobre clopidogrel; se indicado, 5 mg em selecionados |
| Duração da DAPT | Tradicionalmente ≥ 12 meses | Esquemas curtos em alto risco de sangramento; metanálise 2024: 3 meses após ICP em idosos é seguro e reduz sangramento |
| Anticoagulação parenteral (fase hospitalar, qualquer estratégia) | ||
| Heparina não fracionada | Bolus 60 UI/kg (máx. 4.000 UI) + 12 UI/kg/h (máx. 1.000 UI/h); TTPa 60–80 s | Útil na insuficiência renal importante |
| Enoxaparina | Ajustar em idosos e na disfunção renal; clearance 15–30 mL/min: 1 mg/kg/dia | Com fibrinólise ≥ 75 anos: sem bolus IV e 0,75 mg/kg SC 12/12 h |
| Fondaparinux | 2,5 mg SC 1×/dia | Contraindicado com clearance < 30 mL/min |
| FA concomitante e fibrinólise | ||
| FA + ICP | DOAC + clopidogrel, sem AAS (mais seguro que terapia tripla) | Tripla só nos primeiros dias (até ~5 dias ou alta); apixabana frequentemente preferida |
| Fibrinólise | ICP primária é preferencial; fibrinolítico se ICP não for possível em ~120 min | Alteplase ou tenecteplase em dose plena < 75 anos e meia dose ≥ 75 anos (STREAM e STREAM-2: menos sangramento, eficácia semelhante à ICP se precoce, até 3 h) |
DAPT: dupla antiagregação plaquetária; DOAC: anticoagulante oral direto; TTPa: tempo de tromboplastina parcial ativada.
Doses do texto da diretriz. As faixas de peso da tenecteplase seguem a bula (30–50 mg em dose plena); a diretriz indica meia dose a partir de 75 anos.
- Betabloqueadores: doses baixas e titulação gradual. IECA/BRA: alto risco (FEVE ≤ 40%, DM, hipertensão ou IAM anterior). Antagonistas da aldosterona: FEVE ≤ 40% com sintomas de IC ou DM (reduzem mortalidade e MACE). Estatina de alta intensidade para todos.
- Nitrato sublingual para a dor, IV se persistir. BCC não di-hidropiridínico na isquemia recorrente com contraindicação a betabloqueador, se não houver disfunção de VE, risco de choque ou BAV avançado sem marcapasso.
- Oxigênio só se saturação < 90%. Morfina IV se dor persistente apesar do anti-isquêmico otimizado. Evitar AINEs na internação. IBP se sangramento digestivo prévio ou alto risco (idosos, anticoagulados).
Estratégia invasiva e cirurgia
- Sarcopenia, fragilidade e síndromes geriátricas pioram os desfechos da ICP: individualizar com cognição, qualidade de vida, risco trombótico e hemorrágico e preferências — mas as síndromes geriátricas não entram formalmente nos escores de risco.
- IAMCSST: mesmas recomendações do não idoso — abrir a artéria culpada no procedimento índice e revascularização completa em até 45 dias; no choque cardiogênico, ICP da culpada é a primeira opção.
- IAMSSST: After Eighty (≥ 80 anos) favoreceu a invasiva (menos morte ou infarto); SENIOR-RITA (> 75 anos) sem diferença em morte CV ou IAM não fatal em 4,1 anos, mas metanálise mostra menos reinfarto; FIRE: revascularização completa reduziu desfechos (15,7% vs. 21%). A invasiva reduz isquemia recorrente e nova revascularização; dados compilados mostram redução de morte, reinfarto e AVC incapacitante — mas pode ser fútil ou danosa em alguns idosos.
- CRM: morbimortalidade em queda no idoso; fragilidade aumentou complicações, mortalidade e custos (2.137.618 pacientes). EXCEL ≥ 75 anos: mortalidade 16,6% (ICP) vs. 8,4% (CRM); morte, IAM, AVC ou nova revascularização 34% vs. 26% (HR 0,75). SYNTAX ≤ 22 favorece ICP; ≥ 33 favorece CRM; AVC precoce mais comum na CRM; sem diferença de memória em 10 anos. GOBCABE (> 75 anos): com ou sem CEC, sem diferença em AVC, diálise ou mortalidade em 5 anos (31% vs. 30%).
Na presença de IAMSSST e escore GRACE ou TIMI elevado, recomenda-se realizar estratégia invasiva precoce.
Em pacientes idosos com IAMCSST, dentro da janela terapêutica de reperfusão, recomenda-se intervenção coronariana percutânea primária.
Em pacientes idosos com SCA que apresentem choque cardiogênico, angina refratária ou instabilidade elétrica, recomenda-se realizar estratégia invasiva imediata.
As síndromes geriátricas e as preferências dos pacientes e de seus familiares devem ser consideradas na tomada de decisão sobre o manejo de pacientes idosos com SCA.
Em idosos com indicação de cirurgia de revascularização do miocárdio, recomenda-se a avaliação da complexidade anatômica e do risco cirúrgico esperado.
Recomenda-se integrar a avaliação sistemática de fatores geriátricos aos escores de risco para cirurgia de revascularização do miocárdio.
GRACE: Global Registry of Acute Coronary Events; IAMCSST: infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST; IAMSSST: infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST; SCA: síndrome coronariana aguda; TIMI: Thrombolysis in Myocardial Infarction.
Senhora de 87 anos trazida por “confusão desde ontem”, sem dor, troponina em ascensão e infra de ST: é SCA até prova em contrário. GRACE alto + EFS para calibrar; se a avaliação geriátrica e a família apontarem para invasiva, via radial e clopidogrel. Se fosse IAMCSST sem hemodinâmica em 120 minutos: tenecteplase em meia dose, clopidogrel 75 mg sem ataque e enoxaparina 0,75 mg/kg sem bolus.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 5; quadros de recomendação.
11Insuficiência cardíaca no idoso
Diretriz · capítulo 6
No idoso, a IC chega como fadiga, confusão, quedas, anorexia e declínio funcional — e é predominantemente ICFEp. Peptídeos com corte ajustado (NT-proBNP 1.800 pg/mL ≥ 75 anos para IC aguda), eco com E/e’ e H2FPEF. O que muda no tratamento não é a indicação, mas o início, a monitorização e o ajuste: quatro pilares na ICFEr mesmo nos frágeis; iSGLT2 e finerenona na ICFEp.
Apresentação e desafios diagnósticos
- No jovem: dispneia intensa, ortopneia, etiologia isquêmica, FE reduzida. No idoso: apresentação atípica e insidiosa — fadiga inexplicada, confusão mental, quedas recorrentes, declínio funcional sutil, caquexia — mascarada por DRC, FA e anemia. Predomina a ICFEp, agravada pelo inflammaging.
- A fragilidade duplica hospitalizações, triplica delirium e limita a terapia quádrupla (hipotensão, piora renal); IL-6 e TNF-α alimentam sarcopenia e disfunção endotelial.
- Prevalência > 10% a partir de 70 anos (2–3× após os 65). Pilares diagnósticos iguais aos do jovem (sintomas/sinais, anormalidade estrutural ou funcional e, idealmente, pressões de enchimento elevadas), com interpretação adaptada.
- Simuladores/mascaradores: DPOC, obesidade, insuficiência venosa, FA, DRC, anemia, hipertensão pulmonar, cardiomiopatias infiltrativas.
- (1) A dispneia pode faltar em quem tem pouca mobilidade; (2) os peptídeos sobem com a idade sem IC (FA, DRC, menor massa magra), reduzindo a especificidade — a “zona cinzenta” é mais frequente; integrar com clínica e eco.
- Sintomas mais úteis: ortopneia e dispneia paroxística noturna; também dispneia aos esforços, fadiga, edema e bendopneia. Atípicos: declínio funcional, confusão/delirium (hipoperfusão), anorexia e perda de peso (congestão esplâncnica), quedas (hipotensão ortostática, fraqueza), tosse crônica isolada e noctúria.
- Exame: B3 tem VPP reduzido; edema é multifatorial; estertores podem faltar com congestão significativa; turgência jugular e refluxo hepatojugular são os sinais mais específicos.
- BNP/NT-proBNP: alto valor preditivo negativo.
- ETT: exame central. Na ICFEp, E/e’ ≥ 15 sugere pressões de enchimento elevadas; volume do AE indexado e velocidade do jato tricúspide; strain longitudinal global e atrial detectam disfunção subclínica e ajudam a desmascarar o padrão pseudonormal.
- ICFEr: suspeita → biomarcadores → FEVE < 50% no eco → etiologia (~metade isquêmica: investigar DAC, salvo multimorbidade grave ou não candidatos à revascularização).
- ICFEp: forma predominante, sobretudo mulheres > 75 anos com HAS e FA. H2FPEF (0–9): ≥ 6 provável; 2–5 intermediária (eco de estresse ou cateterismo direito em repouso/exercício); 0–1 improvável. HFA-PEFF (ESC) em três etapas para casos complexos.
- Causas a lembrar: ATTR-CA (> 75 anos, subdiagnosticada), cardiomiopatia hipertensiva, valvopatias degenerativas, FA com atriopatia; RMC e cintilografia com pirofosfato de tecnécio-99m se suspeita infiltrativa.
- Iniciais: ECG (normal tem alto VPN), radiografia (sensibilidade 81% na IC aguda; até 20% sem congestão), peptídeos e laboratório completo.
- Diferenciais — dispneia: DPOC (coexiste em até 30%), TEP, anemia grave, hipertensão pulmonar primária, derrame pleural; edema: insuficiência venosa, síndrome nefrótica, linfedema, BCC, TVP; declínio funcional: hipotireoidismo, anemia, depressão, sarcopenia, fragilidade, neoplasia oculta. DPOC × IC: peptídeo elevado + alterações ao eco diferenciam; espirometria na dúvida.
- Particularidades: fragilidade em até 45% dos hospitalizados; déficit cognitivo compromete anamnese e adesão; polifarmácia; multimorbidade. Abordagem multidisciplinar reduz readmissões; AGA (Fried ou CFS, cognição, função, nutrição) no diagnóstico e no plano.
| Exame | Indicação principal | Particularidade no idoso | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|---|---|
| Eletrocardiograma de 12 derivações | Triagem inicial; identificação de arritmias, sobrecarga, bloqueios | FA presente em 30–50%; BRE orienta indicação de TRC; alto VPN quando normal | Forte | Alta |
| BNP ou NT-proBNP | Confirmação/exclusão de IC; estratificação prognóstica | Valores ajustados por idade obrigatórios (75 anos: 1.800 pg/mL); AUC-ROC reduzida com o envelhecimento | Forte | Alta |
| Ecocardiograma transtorácico | Confirmação diagnóstica; classificação por FE; função diastólica | Padrão pseudonormal frequente; SLG e strain atrial auxiliam na identificação de ICFEp; E/e’ ≥ 15 sugere pressões de enchimento elevadas | Forte | Alta |
| Hemograma completo | Anemia como fator agravante e precipitante | Presente em 30% dos idosos com IC; impacto funcional e prognóstico independente | Forte | Alta |
| Creatinina, ureia, TFG | Avaliação de síndrome cardiorrenal; ajuste terapêutico | Declínio agudo da TFGe comum após IECA/BRA – não suspender antes de avaliação | Forte | Alta |
| Eletrólitos (Na⁺, K⁺, Mg²⁺) | Distúrbios associados a diuréticos e SRAA; risco arrítmico | Hipocalemia e hipomagnesemia potencializam toxicidade de digoxina em idosos | Forte | Alta |
| Ferritina + saturação de transferrina | Deficiência de ferro – alvo terapêutico independente na IC | Deficiência de ferro em até 50% dos idosos com IC; melhora capacidade funcional e qualidade de vida | Forte | Alta |
| Glicemia e HbA1c | Diabetes melito tipo 2 como comorbidade prevalente e fator de risco | Comórbida em 40% dos idosos com IC; manejo integrado com iSGLT2 | Forte | Alta |
| Ressonância magnética cardíaca | Casos selecionados: suspeita de amiloidose, miocardite e cardiomiopatia infiltrativa | Importante para diagnóstico de amiloidose por TTR – prevalente em idosos acima de 75 anos | Condicional | Baixa |
AUC-ROC: área sob a curva receiver operating characteristic; BNP: peptídeo natriurético tipo B; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina; BRE: bloqueio de ramo esquerdo; FA: fibrilação atrial; FE: fração de ejeção; HbA1c: hemoglobina glicada; IC: insuficiência cardíaca; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2; NT-proBNP: N-terminal do peptídeo natriurético tipo B; SLG: strain longitudinal global; SRAA: sistema renina-angiotensina-aldosterona; TFGe: taxa de filtração glomerular estimada; TRC: terapia de ressincronização cardíaca; TTR: transtirretina; VPN: valor preditivo negativo. Fonte: elaborado pelos autores com base nas referências.
A diretriz exige valores ajustados por idade e cita 1.800 pg/mL a partir de 75 anos. Os demais cortes (300 pg/mL para exclusão; 450 < 50 anos; 900 entre 50 e 75) são os do estudo ICON, usados como referência. Integrar sempre com a clínica e o eco: a “zona cinzenta” é frequente no idoso.
Variáveis e pesos do escore original (Reddy, 2018); interpretação conforme a diretriz: 0–1 improvável, 2–5 intermediária, ≥ 6 provável.
Para pacientes idosos com suspeita de IC, recomenda-se a medição de BNP ou NT-proBNP, utilizando valores de corte ajustados para a idade, a fim de apoiar o diagnóstico ou a exclusão de IC (para exclusão de IC aguda: NT-proBNP; em pacientes com ≥ 75 anos: NT-proBNP 1.800 pg/mL). O efeito estimado da estratégia está presente segundo a literatura identificada nesta recomendação.
Para pacientes idosos com suspeita de IC e peptídeos natriuréticos elevados, recomenda-se a realização de ecocardiograma transtorácico para confirmação diagnóstica, avaliação da fração de ejeção e classificação do fenótipo (ICFEr ou ICFEp). O efeito estimado da estratégia está presente.
Para pacientes idosos com fração de ejeção preservada (≥ 50%) e suspeita clínica de ICFEp, recomenda-se a aplicação do escore H2FPEF ou do algoritmo HFA-PEFF como apoio diagnóstico. Nos casos intermediários (H2FPEF 2–5), recomenda-se ecocardiograma sob estresse ou avaliação hemodinâmica invasiva. O efeito estimado está provavelmente presente.
Para pacientes idosos com IC suspeita ou confirmada, recomenda-se avaliação laboratorial inicial completa, incluindo hemograma, função renal, eletrólitos, TSH, estudos de ferro e HbA1c, visando identificar fatores precipitantes e comorbidades tratáveis e orientar o ajuste terapêutico. O efeito estimado está presente.
Para pacientes idosos com IC, sugere-se avaliação geriátrica abrangente, incluindo triagem de fragilidade, cognição, funcionalidade e polifarmácia, de forma integrada à avaliação cardiológica e com abordagem multidisciplinar. O efeito estimado pode estar presente segundo a literatura identificada.
Para pacientes idosos com suspeita de IC com fração de ejeção reduzida (fração de ejeção < 50%), recomenda-se investigação etiológica dirigida, incluindo avaliação de doença arterial coronariana, valvopatias, amiloidose cardíaca por transtirretina e cardiomiopatias. O efeito estimado está provavelmente presente.
BNP: peptídeo natriurético tipo B; HbA1c: hemoglobina glicada; IC: insuficiência cardíaca; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; ICFEr: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida; NT-proBNP: fragmento N-terminal do peptídeo natriurético tipo B; TSH: hormônio estimulante da tireoide.
Princípios do tratamento no idoso
- PA mais baixa, sarcopenia, fragilidade, IC mais grave ao diagnóstico, déficit cognitivo, polifarmácia, pouco suporte social: mais intolerância e eventos adversos. Ensaios incluíram sobretudo homens jovens com ICFEr; na prática, mulheres idosas com ICFEp.
- Etiologias tratáveis no idoso: valvopatias degenerativas, cardiomiopatia hipertensiva, cardiotoxicidade medicamentosa e doenças infiltrativas (amiloidose).
- Princípios: doses iniciais menores; titular a cada 1–2 semanas (sintomas, sinais vitais, rim, eletrólitos, possibilidade de seguimento); ainda assim buscar as doses-alvo; revisar polifarmácia e desprescrever; incorporar a AGA e os objetivos de cuidado.
- Fármacos que precipitam descompensação e devem ser revistos: AINEs, tiazolidinedionas, verapamil/diltiazem, dronedarona e antiarrítmicos da classe I.
- Precipitantes evitáveis (20–50% na ICFEr): infecções, arritmias, excesso de sódio/líquidos, piora renal, fármacos deletérios, não adesão (multifatorial no idoso). Déficit cognitivo em até 40%: rastreio cognitivo rotineiro.
- O tratamento é definido pela FE, perfil clínico e tolerância — não pela idade. A GDMT melhora desfechos no idoso independentemente do grau de fragilidade.
| Condição geriátrica | Impacto na insuficiência cardíaca | Implicações clínicas |
|---|---|---|
| Fragilidade | Associada a maior mortalidade e hospitalizações | Avaliação geriátrica e abordagem multidisciplinar |
| Sarcopenia | Redução da capacidade funcional | Reabilitação e suporte nutricional |
| Déficit cognitivo | Redução da adesão terapêutica | Simplificação do regime medicamentoso |
ICFEr: os quatro pilares com adaptações geriátricas
- Betabloqueadores, IECA/ARNI, ARM e iSGLT2 mantêm eficácia em idosos, sem heterogeneidade por idade; mas idosos recebem menos doses-alvo e interrompem mais, muitas vezes por motivos evitáveis.
- ARNI: benefício de sobrevida sobre IECA/BRA sem atenuação com a idade, à custa de mais hipotensão sintomática. Medicare: benefício em 5 anos mesmo ajustando descontinuação (2,3%/mês com IECA/BRA vs. 1,9%/mês com ARNI); NNT 84 (66–74 anos) e 67 (≥ 85 anos). Menos piora renal e hipercalemia facilita introduzir o ARM. Iniciar com a menor dose; queda da TFGe de até 30% é aceitável.
- Betabloqueador: titular pela FC alcançada, não pela dose (CIBIS-ELD); doses intermediárias são melhores que nenhuma; com incompetência cronotrópica, reduzir em vez de retirar; atenção a fadiga e quedas. SENIORS (nebivolol, ≥ 70 anos, qualquer FE): ↓ morte ou hospitalização CV, sem ↓ isolada de mortalidade.
- ARM: hipercalemia e piora renal amplificadas (DRC, IECA/ARNI). Metanálise > 75 anos (RALES, EMPHASIS-HF, TOPCAT): −26% em morte CV ou hospitalização por IC. Espironolactona 12,5–25 mg/dia; K⁺ e TFGe em 1 e 4 semanas; eplerenona em homens (sem ginecomastia).
- iSGLT2: perfil mais seguro — sem ajuste por idade, menos risco renal, sem hipercalemia. DAPA-HF ≥ 75 anos (24,2%): HR 0,68 (0,53–0,88), p interação 0,76. Cuidado: depleção de volume em baixo peso ou com diurético de alça.
| Classe | Fármaco/dose-alvo | Dose inicial no idoso | Principal cuidado geriátrico | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|---|---|---|
| ARNI/IECA | Sacubitril-valsartana: 200 mg 2x/dia Enalapril: 20 mg 2x/dia Ramipril: 10 mg/dia | Sacubitril-valsartana: iniciar com 50 mg 2x/dia IECA: 1/2 da dose-alvo | Hipotensão sintomática e quedas. ARNI preferível a IECA: menor risco renal e hipercalemia; facilita titulação dos ARMs. Monitorar creatinina e K⁺ antes e após início | Forte | Alta |
| Betabloqueador | Carvedilol: 25 mg 2x/dia Succinato de metoprolol: 200 mg/dia Nebivolol: 10 mg/dia | Carvedilol: 3,125 mg 2x/dia Nebivolol: 1,25 mg/dia | Titulação guiada pela FC alcançada, não pela dose absoluta. Atenção à incompetência cronotrópica. Doses intermediárias podem ser suficientes. Cuidado com DPOC grave | Forte | Alta |
| ARM | Espironolactona: 25–50 mg/dia Eplerenona: 25–50 mg/dia | Espironolactona ou eplerenona: 12,5–25 mg/dia | Risco de hipercalemia e piora renal amplificada no idoso. Monitorar K⁺ e TFGe a cada 1–2 semanas nas primeiras 4 semanas. Suspender se K⁺ > 5,5 mEq/L ou TFGe < 30 | Forte | Alta |
| iSGLT2 | Dapagliflozina: 10 mg/dia Empagliflozina: 10 mg/dia | Mesma dose (não requer ajuste por idade) | Menor risco renal e de hipercalemia. Atenção à depleção volumétrica em idosos com baixo peso ou uso de diuréticos. Infecções geniturinárias mais frequentes | Forte | Alta |
ARM: antagonista do receptor mineralocorticoide; ARNI: inibidor do receptor de angiotensina e neprilisina; DPOC: doença pulmonar obstrutiva crônica; FC: frequência cardíaca; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2; TFGe: taxa de filtração glomerular estimada. Fonte: elaborado pelos autores com base nas referências.
- Diuréticos de alça: euvolemia com a menor dose; reduzem hospitalização, sem prova de mortalidade; no idoso, hipovolemia, piora renal, distúrbios de potássio, hipotensão postural e incontinência urinária — monitorar, sobretudo com IECA/ARNI/iSGLT2.
- Ivabradina: FE ≤ 35%, ritmo sinusal, FC ≥ 70 bpm apesar do tratamento ou intolerância a betabloqueador. SHIFT: benefício consistente, com tendência sem significância ≥ 75 anos. Efeitos: bradicardia, FA, náuseas, fosfenos.
- Hidralazina + nitrato: V-HeFT I, V-HeFT II (inferior ao enalapril) e A-HeFT com idades médias de 57–61 anos; ≥ 75 anos pouco representados; uso limitado por hipotensão.
- Ferro: deficiência em até 50% dos idosos com IC; FAIR-HF: carboximaltose férrica IV melhora classe funcional, TC6M e qualidade de vida, com ou sem anemia, sem diferença de eventos por idade.
- Digoxina: papel restrito (controle de FC na FA sintomática ou sintomas refratários); máximo 0,125 mg/dia, nível 0,5–0,9 ng/mL; toxicidade agravada por baixa massa muscular, DRC, hipocalemia, hipomagnesemia, amiodarona e antibióticos (arritmias e BAV). DIG: ↓ hospitalização, sem efeito em mortalidade.
- CDI (prevenção primária): FE ≤ 35% com GDMT, expectativa de vida > 1 ano e bom estado funcional. TRC: FE ≤ 35%, ritmo sinusal, QRS prolongado (sobretudo ≥ 150 ms) com BRE e sintomas. No idoso, individualizar — o benefício absoluto, sobretudo do CDI, é atenuado pelo risco competitivo de morte não arrítmica.
- Transplante: tratamento de escolha nos elegíveis, mas > 70 anos há mais complicações e menor sobrevida (critérios rigorosos). Assistência ventricular (destino ou ponte para decisão): ≥ 70 anos podem ganhar sintomas e qualidade de vida, com mais sangramento, infecção e tromboembolismo.
- Não farmacológico: educação, suporte nutricional, cessação do tabagismo, vacinação e reabilitação.
ICFEp no idoso
- Principal desafio terapêutico da cardiogeriatria: manejo de comorbidades e precipitantes é central (Tabela 6.4).
- EMPEROR-Preserved e DELIVER: iSGLT2 reduzem em 18–21% hospitalização por IC ou morte CV, com ou sem DM, em todo o espectro de FE > 40%.
- Finerenona (ARM não esteroidal; FINEARTS-HF): segundo pilar na ICFEp e na IC com FE melhorada; menos hipercalemia grave e sem ginecomastia; eficácia consistente em todos os quartis de idade, inclusive ≥ 80 anos (n = 1.412), e mantida com iSGLT2 (sinergia).
- Controle rigoroso da PA e diurético para euvolemia são insubstituíveis. Hipotensão ortostática em até 30%: investigar sistematicamente (quedas, síncope).
- Exercício supervisionado e reabilitação aumentam VO₂ máximo, capacidade e qualidade de vida — após avaliar fragilidade, com aeróbico moderado e resistência.
| Intervenção | Evidência principal | Particularidade no idoso | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|---|---|
| iSGLT2 (dapagliflozina ou empagliflozina) | EMPEROR-Preserved e DELIVER: redução de 18–21% no desfecho composto de hospitalização por IC ou morte CV vs. placebo; benefício independente da presença de DM | Não requer ajuste de dose por idade. Atenção à depleção volumétrica em idosos com baixo peso. Benefício estendido a todo o espectro de FE > 40% | Forte | Alta |
| Diuréticos de alça | Alívio de congestão: redução de dispneia e edema. Ausência de ensaio prospectivo de mortalidade na ICFEp | Risco de depleção volumétrica, hipotensão ortostática e quedas. Titular para euvolemia; evitar hipotensão. Monitorar função renal e eletrólitos | Forte | Moderada |
| ARM (espironolactona ou eplerenona) | TOPCAT: redução de hospitalizações por IC (benefício mais consistente na subanálise das Américas). Efeito mais evidente com FE na faixa inferior da ICFEp | Alto risco de hipercalemia no idoso. Monitorar K⁺ e TFGe 1–2 semanas após início. Contraindicados se TFGe < 30 ou K⁺ > 5,0 | Condicional | Moderada |
| Finerenona (ARM não esteroidal) 20–40 mg/dia | FINEARTS-HF (n = 6.001; seguimento 32 meses): redução de 16% no desfecho composto de morte CV e eventos totais de piora de IC (RR 0,84; IC95% 0,74–0,95; p = 0,007). Primeiro ARM com evidência definitiva em ICFEp/ICFEm. Benefício mantido em uso concomitante de iSGLT2 | Subanálise pré-especificada por idade: eficácia consistente em todos os quartis, incluindo ≥ 80 anos (n = 1.412), sem interação significativa. Menor risco de hipercalemia e ginecomastia vs. ARM esteroidais. Projeção: ganho de 2,0 anos livres de eventos para paciente com 65 anos | Forte | Alta |
| Sacubitril/valsartana | PARAGON-HF: redução não significativa do desfecho primário (p = 0,06); análises post-hoc sugerem efeito em mulheres e FE < 57% | Pode ser considerado em mulheres e ICFEp com FE na faixa inferior. Menor risco renal que IECA/BRA. Risco de hipotensão | Condicional | Baixa |
| Exercício físico e reabilitação cardíaca | Melhora clinicamente significativa de VO₂ máximo, capacidade funcional e qualidade de vida na ICFEp | Adaptação às limitações físicas do idoso. Reabilitação supervisionada com ênfase em exercício aeróbico moderado e de resistência. Avaliar fragilidade antes de prescrever | Forte | Moderada |
ARM: antagonista do receptor mineralocorticoide; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina; CV: cardiovascular; DM: diabetes mellitus; FE: fração de ejeção; IC: insuficiência cardíaca; ICFEm: insuficiência cardíaca com fração de ejeção melhorada; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2; RR: risco relativo; TFGe: taxa de filtração glomerular estimada; VO₂: consumo de oxigênio. Fonte: elaborado pelos autores com base nas referências.
Segurança, polifarmácia e cuidado multidisciplinar
- Eventos adversos são comuns na IC independentemente do tratamento; a GDMT adiciona risco incremental mínimo versus placebo — mas a menor reserva amplifica hipotensão, hipercalemia, piora renal e quedas.
- Polifarmácia é a regra. CHECK-HF: a cada 10 anos de idade, 10–29% menos chance de dose-alvo da GDMT e 32% mais uso de diurético por década — prioriza-se sintoma em vez de modificar a doença.
- Revisão periódica da lista; substituir ou retirar fármacos que descompensam ou interagem; STOPP/START (Tabela 6.5). AGA orienta decisões e seguimento; equipe de IC + geriatria reduz readmissões (Figura 6.1).
| Classe | Fármaco | Dose inicial | Dose máxima | Cuidados no idoso | Segurança no idoso | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| IECA | Captopril | 6,25 mg 3x/dia | 50 mg 3x/dia | Monitoramento da função renal e de potássio | Aumento de hipotensão ortostática. Tomar antes de deitar-se à noite. Diminuir diurético. Mais suscetível a disfunção renal | Forte | Alta |
| Enalapril | 2,5 mg 2x/dia | 10–20 mg 2x/dia | Forte | Alta | |||
| Lisinopril | 2,5–5,0 mg 1x/dia | 20–40 mg 1x/dia | Forte | Alta | |||
| Perindopril | 2,0 mg 1x/dia | 8,0–16 mg 1x/dia | Forte | Alta | |||
| Ramipril | 1,25–2,5 mg 1x/dia | 10 mg 1x/dia | Forte | Alta | |||
| BRA | Candesartana | 4,0–8,0 mg 1x/dia | 32 mg | Monitoramento da função renal e de potássio | Similar ao uso de IECA | Forte | Alta |
| Losartana | 25 mg 1x/dia | 50–100 mg | Forte | Alta | |||
| Valsartana | 40 mg 2x/dia | 320 mg | Forte | Alta | |||
| ARNI | Sacubitril/valsartana | 50 mg 2x/dia | 200 mg 2x/dia | Forte | Alta | ||
| Betabloqueador | Bisoprolol | 1,25 mg 1x/dia | 10 mg 1x/dia | Frequência cardíaca e pressão arterial devem guiar o ajuste de dose | Cuidado com bradicardia e hipotensão arterial | Forte | Alta |
| Carvedilol | 3,12–5 mg 2x/dia | 50 mg/dia | Forte | Alta | |||
| Succinato de metoprolol | 12,5–25 mg | 200 mg/dia | Forte | Alta | |||
| Nebivolol | 1,25 mg | 10 mg | Forte | Moderada | |||
| ARM | Espironolactona | 12,5–25 mg | 25–50 mg | Monitoramento do potássio | Aumento do risco de hipercalemia. Cuidado com ginecomastia e dor nas mamas | Forte | Alta |
| Eplerenona | 25 mg | 100 mg | Monitoramento do potássio | Forte | Alta | ||
| iSGLT2 | Finerenona* | 10 mg | 20 mg | Evitar sem clearance de creatinina | Infecção genital | Forte | Alta |
| Dapagliflozina | 10 mg | Forte | Alta | ||||
| Empagliflozina | 10 mg | 25 mg | Forte | Alta | |||
| Diurético de alça | Furosemida | 20–40 mg/dia 1 ou 2x/dia | 600 mg (usual 40–240 mg/dia) | Iniciar 20 mg/dia | Atenção ao balanço hídrico e distúrbio eletrolítico | Forte | Baixa |
| Torasemida | 5–10 mg/dia | 10–200 mg/dia | Fraca | Baixa | |||
| Bumetanida | 0,5–1 mg/dia | 1–10 mg/dia | Forte | Baixa | |||
| Tiazídico | Hidroclorotiazida | 25 mg | 200 mg/dia (usual 12,5–100 mg/dia) | Iniciar 12,5–25 mg | Monitoramento do estado volêmico e eletrolítico | Fraca | Baixa |
| Clortalidona | 12,5 mg/dia | 50 mg/dia | Fraca | Baixa | |||
| Indapamida | 2,5 mg/dia | 5,0 mg/dia | Fraca | Baixa | |||
| Poupador de K+ | Amilorida | 5 mg/dia | 5–10 mg/dia | Aumento do risco de hipercalemia | Fraca | Baixa |
ARM: antagonista de receptor mineralocorticoide; ARNI: inibidor de angiotensina-neprilisina; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador sódio-glicose tipo 2. *Na diagramação original, a finerenona (ARM não esteroidal) aparece na primeira linha do bloco iSGLT2; transcrita na mesma posição. Nesta tabela a força condicional aparece como “Fraca”.
Para pacientes idosos com ICFEr, recomenda-se a terapia médica guiada por diretrizes com os quatro pilares fundamentais (ARNI ou IECA/BRA, betabloqueador, ARM e iSGLT2), iniciando com doses reduzidas e titulando a cada 1–2 semanas conforme tolerância, com monitorização rigorosa de função renal, eletrólitos, pressão arterial e frequência cardíaca.
Para pacientes idosos com ICFEr, recomenda-se o uso preferencial de sacubitril/valsartana em detrimento de um IECA em razão do menor risco de piora renal e hipercalemia, o que facilita a introdução e a titulação do ARM.
Para pacientes idosos com ICFEr em uso de betabloqueadores, recomenda-se que a titulação seja guiada pela frequência cardíaca alcançada e não pela dose absoluta, dado que doses intermediárias podem ser suficientes e mais seguras nessa faixa etária.
Para pacientes idosos com ICFEp, recomenda-se o uso de iSGLT2 (dapagliflozina 10 mg/dia ou empagliflozina 10 mg/dia) para redução de hospitalizações por IC e morte cardiovascular, com benefício independente da presença de diabetes melito.
Para pacientes idosos com IC e deficiência de ferro (ferritina < 100 ng/mL ou saturação de transferrina < 20%), recomenda-se a reposição com carboximaltose férrica intravenosa para melhorar os sintomas, a capacidade funcional e a qualidade de vida.
Para pacientes idosos com IC, sugere-se a avaliação sistemática de polifarmácia e a revisão periódica das medicações, com desprescrição de fármacos que possam precipitar descompensação.
Para pacientes idosos com IC, sugere-se a inclusão em programa de reabilitação cardíaca e exercício físico supervisionado, adaptado às limitações funcionais e ao grau de fragilidade, com avaliação prévia da capacidade funcional.
ARNI: inibidor do receptor de angiotensina e neprilisina; ARM: antagonista do receptor de mineralocorticoide; BRA: bloqueador do receptor de angiotensina II; IC: insuficiência cardíaca; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; ICFEr: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina; iSGLT2: inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2.
Idosa de 84 anos, FE 30%, PA 102/64, TFGe 38: não é “frágil demais para GDMT”. Comece com dapagliflozina 10 mg (sem ajuste), sacubitril-valsartana 24/26 mg 2×/dia, espironolactona 12,5 mg com K⁺ em 1 e 4 semanas, e betabloqueador em dose baixa titulado pela FC. Retire o que atrapalha (AINE, diltiazem), dose ferritina e saturação, e aceite queda de até 30% da TFGe sem pânico.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 6; Tabelas 6.1 a 6.5; Figura 6.1; quadros de recomendação.
12Hipertensão arterial no idoso
Diretriz · capítulo 7
Hipertensão sistólica isolada por rigidez arterial em > 90% após os 70 anos. Meta < 130/80 mmHg para a maioria dos idosos; nos frágeis (CFS 6–9) ou com expectativa de vida < 3 anos, monoterapia em baixa dose e o menor valor bem tolerado. Pesquise hipotensão ortostática antes de iniciar ou intensificar, e não deixe a PAD baixa travar o tratamento.
Epidemiologia e fisiopatologia
- Condição cardiovascular crônica mais prevalente no idoso: > 60% a partir de 65 anos, > 75% na oitava década; risco ao longo da vida ~90%. Responde por > 70% dos casos de IAM, AVC e IC.
- Hipertensão sistólica isolada em > 90% após os 70 anos, pela rigidez arterial (mecanismo predominante: colágeno ↑, elastina ↓, calcificação medial, inflamação).
- Padrão hemodinâmico: PAS sobe progressivamente; PAD estabiliza e cai após 50–59 anos; amplia-se a pressão de pulso (marcador de risco). Velocidade de onda de pulso ↑.
- Outros mecanismos: disfunção endotelial (↓ NO), inflamação (PCR, IL-6, TNF), rim (↓ filtração e natriurese, SRAA alterado, sensibilidade ao sal), disfunção autonômica (↓ barorreflexo → variabilidade pressórica e hipotensão ortostática).
Medida da pressão arterial
- MAPA e MRPA cada vez mais indicadas no diagnóstico do idoso; automedida também. No consultório: técnica padronizada e aparelhos validados.
- Hiato auscultatório: estimar PAS pelo pulso radial e inflar 20–30 mmHg acima; oscilométricos não sofrem esse efeito.
- Pseudo-hipertensão (artéria rígida): se a PA parecer desproporcional à clínica, manobra de Osler e encaminhamento a centro de referência.
- Hipotensão ortostática: queda de PAS ≥ 20 e/ou PAD ≥ 10 mmHg; medir em supino e no 1º e no 3º minuto de pé, braço na altura do coração.
- Medida desacompanhada (como no SPRINT, testada no Brasil): identifica avental branco e efeito do avental branco, evitando ajustes desnecessários.
- MAPA: hipotensão postural, pós-prandial, medicamentosa ou situacional, disautonomia e síncope; normalidade igual à do adulto; descenso noturno reduzido, pressão de pulso alta e elevação matinal precoce → mais risco. MRPA: controle terapêutico; treinamento extra > 80 anos, baixa escolaridade, déficit cognitivo ou limitação física; telemonitoramento.
- Anamnese com funcionalidade e cognição; sintomas inespecíficos (tontura, fraqueza, instabilidade) muitas vezes são hipotensão ortostática ou efeito adverso. PA nos dois braços na primeira consulta (diferença > 15 mmHg sugere DAP), sentado e em ortostatismo; pulsos, sopros carotídeos e abdominais; nutrição, MEEM e teste de marcha.
- Estratificação: SCORE2-OP (≥ 70 anos); lesão de órgão-alvo e função renal. MAPA/MRPA superam o consultório na predição de risco.
Critério: queda de PAS ≥ 20 mmHg e/ou de PAD ≥ 10 mmHg (até 5 minutos em pé, segundo a seção 7.1.8.5). Na recomendação de situações especiais: PA em supino após 5 min de repouso e em ortostase após 3 min.
| Exame | Finalidade |
|---|---|
| Hemograma completo | Avaliar anemia e estado geral de saúde |
| Glicemia e HbA1c | Rastrear diabetes melito |
| Creatinina e TFG | Avaliar função renal |
| Potássio sérico | Detectar alterações eletrolíticas |
| Colesterol total e frações | Estratificação de risco cardiovascular |
| EAS (urina tipo I) e relação albumina/creatinina | Avaliar lesão renal |
| Eletrocardiograma | Detectar hipertrofia ventricular esquerda ou arritmias |
| Ecocardiograma | Avaliar função ventricular e espessura de parede |
| MAPA ou MRPA | Identificar hipertensão mascarada ou do avental branco |
| Ultrassonografia de carótidas | Avaliar aterosclerose subclínica |
| Fundoscopia | Detectar retinopatia hipertensiva |
| Funcionais: avaliação ortostática da pressão arterial, teste de caminhada, avaliação cognitiva e funcional | Detecção de fragilidade e tolerância terapêutica |
HbA1c: hemoglobina glicada; MAPA: monitorização ambulatorial da pressão arterial; MRPA: monitorização residencial da pressão arterial; TFG: taxa de filtração glomerular. Ecocardiograma e ultrassom de carótidas conforme suspeita clínica; microalbuminúria é marcador precoce de nefropatia hipertensiva e de risco CV.
Tratamento não farmacológico
- Mesmos princípios da população geral, com singularidades. A educação para o automanejo é a melhor intervenção não farmacológica para reduzir a PA no idoso, seguida pelo exercício aeróbico moderado.
Apoio multiprofissional e social (7.1.5.1)
Recomenda-se que o manejo da hipertensão arterial em idosos seja individualizado, considerando a presença de síndromes geriátricas, como fragilidade e sarcopenia, bem como os contextos clínico e funcional do paciente.
Recomenda-se a educação para o autocuidado como estratégia fundamental para o controle pressórico em idosos.
Recomenda-se o acompanhamento por equipe multiprofissional, incluindo nutricionistas, educadores físicos, psicólogos e gerontólogos, para promover intervenções integradas e individualizadas.
Recomenda-se o envolvimento ativo de familiares e cuidadores para favorecer a adesão às intervenções não farmacológicas e a manutenção das modificações no estilo de vida.
Recomenda-se que o planejamento terapêutico considere o estado funcional do paciente, sua capacidade para realizar atividades de vida diária e suas preferências e seus objetivos de cuidado.
Restrição de sódio e aumento da ingestão de potássio (7.1.5.2)
Recomenda-se a redução da ingestão de sódio como estratégia eficaz para a redução da pressão arterial, sendo particularmente benéfica em idosos.
Recomenda-se monitorar o sódio sérico em idosos submetidos a restrição de sódio, especialmente na presença de fatores que aumentem o risco de hiponatremia, como alterações fisiológicas do envelhecimento, comorbidades e uso de medicamentos potencialmente indutores de hiponatremia (por exemplo, diuréticos tiazídicos e inibidores seletivos da recaptação de serotonina).
Recomenda-se um padrão alimentar que associe redução da ingestão de sódio ao consumo adequado de potássio, por favorecer o controle da pressão arterial.
Recomenda-se evitar a suplementação excessiva de potássio, particularmente em idosos com disfunção renal, devido ao risco de hipercalemia.
Redução do peso e exercícios físicos (7.1.5.3)
Recomenda-se a avaliação da obesidade sarcopênica em idosos com hipertensão arterial, por constituir um importante fator de risco cardiovascular e estar associada a pior controle pressórico.
Recomenda-se a inclusão de exercícios isométricos no programa de exercícios físicos, quando clinicamente indicada, devido aos seus benefícios na redução da pressão arterial e na preservação da função e da massa muscular.
Recomenda-se a prática regular de exercício físico para a redução da pressão arterial, podendo ser utilizados tanto o Treinamento Intervalado de Alta Intensidade (HIIT) quanto o Treinamento Contínuo de Intensidade Moderada (TCIM), conforme avaliação clínica individual.
Recomenda-se que a modalidade, a intensidade e a progressão do exercício físico sejam individualizadas, considerando o estado funcional, as comorbidades, a capacidade física e a segurança do idoso.
Escolha dos anti-hipertensivos
- Individualizar (doenças associadas, interações, eventos adversos, fragilidade, cognição) e pensar também em qual fármaco evitar naquele idoso. Iniciar em baixas doses, com incrementos progressivos, buscando controle intensivo.
- Terapia combinada, preferencialmente em comprimido único, para a maioria. Monoterapia inicial em muito frágeis, > 80 anos ou com hipotensão ortostática sintomática.
- O risco de queda pode subir após iniciar ou titular (sobretudo diuréticos), mas o uso crônico e o controle da HAS reduziram desfechos em ECRs sem aumentar hipotensão ortostática ou quedas com lesão, mesmo com HO basal.
- Tiazídicos: 1ª linha, úteis na sistólica isolada; doses baixas (< 25 mg de HCTZ ou equivalente) reduzem morte e eventos com menos efeitos; monitorar eletrólitos, rim e HO. IECA: eficazes apesar da renina baixa; IC, disfunção de VE, DM com microalbuminúria; tosse, angioedema, hipercalemia. BRA: semelhante, com benefício em AVC. BCC di-hidropiridínico de longa ação: ótimo para a PAS, previne AVC, metabolicamente neutro; edema, cefaleia, rubor; evitar os de curta ação. Antagonistas da aldosterona: hipertensão resistente (superiores ao betabloqueador como 4ª droga). Betabloqueadores: não são 1ª linha, salvo DAC, IC ou arritmias.
- Evitar/cautela: doxazosina (hipotensão ortostática), metildopa e clonidina (SNC, bradicardia, HO), verapamil/diltiazem (pouca potência, condução, hipotensão), hidralazina (HO, taquicardia, retenção hídrica, angina).
| Aspecto clínico | Recomendação | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|---|
| Início em baixas doses e titulação progressiva | Recomendado | Forte | Alta |
| Terapia combinada (preferencialmente em dose fixa) | Recomendado para a maioria | Forte | Alta |
| Monoterapia inicial | Considerar em idosos frágeis (> 80 anos) ou com hipotensão ortostática | Condicional | Moderada |
| Monitoramento de hipotensão ortostática e quedas | Recomendado | Forte | Alta |
| Classe de fármaco | Situação clínica recomendada | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|---|
| Diuréticos tiazídicos e similares (hidroclorotiazida, clortalidona, indapamida) | Primeira linha, isoladamente ou em combinação; especialmente eficazes em hipertensão sistólica isolada | Forte | Alta |
| IECAs (enalapril, ramipril, lisinopril etc.) | Primeira linha, especialmente para IC, disfunção ventricular esquerda e diabetes com microalbuminúria | Forte | Alta |
| BRAs (losartana, valsartana, candesartana etc.) | Alternativa aos IECAs ou em associação com outras classes; benéficos em idosos com diabetes melito e prevenção de acidente vascular cerebral | Forte | Alta |
| Bloqueadores dos canais de cálcio di-hidropiridínicos (anlodipino, felodipino) | Primeira linha, isolados ou em combinação; eficazes na hipertensão sistólica isolada | Forte | Alta |
| Antagonistas da aldosterona (espironolactona, eplerenona) | Hipertensão resistente | Forte | Moderada |
| Betabloqueadores (atenolol, metoprolol, bisoprolol) | Não são primeira linha, exceto em IC, doença arterial coronariana ou arritmias | Fraca | Moderada |
| Alfabloqueadores (doxazosina, clonidina) | Evitar rotineiramente | Forte (contra) | Moderada |
| Agonistas centrais alfa-2 (metildopa, clonidina) | Evitar | Forte (contra) | Moderada |
| Bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropiridínicos (verapamil, diltiazem) | Evitar em monoterapia para hipertensão arterial sistêmica | Moderada (contra) | Baixa |
| Vasodilatadores periféricos (hidralazina) | Não recomendados como primeira linha | Fraca (contra) | Baixa |
BRA: bloqueador do receptor de angiotensina II; IC: insuficiência cardíaca; IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina. Transcrição fiel: a tabela lista a clonidina também entre os alfabloqueadores e usa “Moderada (contra)” como força para os BCC não di-hidropiridínicos.
Meta terapêutica
- Basear-se no estado funcional, mental e físico — não na idade cronológica. Ajustes a cada 4 semanas para evitar quedas bruscas da PA.
- Metanálises: PAS < 130 mmHg reduz eventos CV, mortalidade total e CV, sem aumentar eventos adversos graves → controle rigoroso em idosos funcionalmente independentes.
- SPRINT (9.361; incluía > 75 anos; < 120 vs. < 140 mmHg): menos eventos, discreto aumento de hipotensão, síncope, bradicardia e distúrbios eletrolíticos. SPRINT-MIND: progressão mais lenta de lesão de substância branca e menos declínio cognitivo. Risco cresce acima de 115 mmHg de PAS.
- Incerteza: estudos com idosos saudáveis; excluídos AVC recente, IC tratada, DRC, demência e perda de autonomia. PARTAGE (residentes frágeis de lares): sem benefício do tratamento intensivo e mortalidade até 2× maior > 80 anos.
- Recomendação da diretriz: < 130/80 mmHg para a maioria; redução excessiva pode prejudicar frágeis ou com expectativa de vida comprometida.
Situações especiais
| Situação | O que a diretriz diz |
|---|---|
| Fragilidade e expectativa de vida | Quantificar com instrumento validado (avaliação informal tem baixa acurácia) — CFS, validada no Brasil: pré-frágil = CFS 4; fragilidade severa = 7–9. São necessários ~3 anos de tratamento intensivo para benefício; expectativa < 3 anos → metas mais lenientes (ePrognosis). CFS 6–9 e/ou expectativa < 3 anos: monoterapia em baixa dose, meta pela tolerância. Fragilidade pode ser reversível: AGA ou 10-TaGA antes de chamar uma intervenção de “desproporcional” |
| Demência | HAS na meia-idade aumenta em 20–54% o risco de demência; PAF ajustada 7,1% (2º fator modificável, atrás da baixa escolaridade). CRHCP-3 (2025; 33.995; < 130/80 vs. usual): −15% de demência em 4 anos. Meta PAS < 130 mmHg para prevenir comprometimento cognitivo; rastreio periódico (10-Point Cognitive Screener) |
| Polifarmácia | 29,4% em > 80 anos no Brasil. Distinguir polifarmácia inapropriada de racional. Comprimido único, tabelas e pillboxes. Psicotrópicos causam HO e hiponatremia — revisá-los antes de reduzir anti-hipertensivos. Fármacos que elevam PA (cascata): antidepressivos, fenilefrina, pseudoefedrina, mirabegrona, AINEs. Interação anlodipino–sinvastatina. Evitar inércia terapêutica |
| Desprescrição | Com cautela (suspender estatina ou terapia de IC aumenta morbimortalidade). RETREAT-FRAIL (1.048 institucionalizados ≥ 80 anos, frágeis, PAS < 130; 38,4 meses): reduzir anti-hipertensivos não alterou eventos CV nem mortalidade (sem melhora de cognição, função ou qualidade de vida) — é segura nesse perfil |
| Hipotensão ortostática e pós-prandial | ~20% dos idosos. HO: queda ≥ 20/10 mmHg em até 5 min; pós-prandial: queda de PAS ≥ 20 mmHg 30–90 min após refeições. Anti-hipertensivos são a principal causa (número e dose, sobretudo nas primeiras semanas). HO: hidratação, condicionamento, mudanças posturais graduais, meias de compressão. Pós-prandial: refeições fracionadas com menos carboidrato, água gelada 30 min antes, cafeína 200–250 mg/dia, não tomar anti-hipertensivo junto às refeições. Refratários: fludrocortisona ou midodrina (cuidado com hipertensão supina). Hipertensão supina + HO: cabeceira elevada, evitar diurético e líquidos à noite, anti-hipertensivo de ação rápida à noite. Robusto ou levemente frágil: não usar HO como desculpa — o tratamento intensivo não aumentou HO e pode reduzi-la |
| PAD baixa e curva J | A hipótese de curva J (PAD < 70/60 → IAM) vem de dados observacionais; subgrupos com PAD < 60 em ECRs intensivos não tiveram mais eventos, e a randomização mendeliana (Arvanitis) não mostrou causalidade. PAD baixa no idoso reflete rigidez e fragilidade (marcador, não causa). Não deve impedir a otimização, com cautela apenas na DAC clinicamente manifesta |
Para idosos com fragilidade moderada a grave, expectativa de vida inferior a 3 anos ou hipotensão ortostática sintomática, recomenda-se individualizar a meta de PA, visando ao menor valor bem tolerado.
Como a segurança e a eficácia de metas intensivas de controle da PA são incertas em idosos com fragilidade moderada a grave, a fragilidade deve ser avaliada por meio de escalas validadas, como a Escala Clínica de Fragilidade, para diagnóstico e classificação de sua gravidade.
Recomenda-se a meta de PA sistólica ≤ 130 mmHg em adultos hipertensos, com o objetivo de prevenir comprometimento cognitivo leve e demência.
Antes de iniciar ou intensificar a terapia anti-hipertensiva, recomenda-se pesquisar hipotensão ortostática, aferindo-se a PA em posição supina (após 5 minutos de repouso) e, em seguida, em ortostase (após 3 minutos nessa posição).
Recomenda-se considerar a desprescrição de anti-hipertensivos em idosos com fragilidade moderada a grave, institucionalizados e em polifarmácia, quando mantiverem PA sistólica < 130 mmHg.
Em idosos sob polifarmácia, recomenda-se a utilização de combinações fixas de anti-hipertensivos em comprimido único, administrado uma vez ao dia, para melhorar a adesão.
PA: pressão arterial.
Duas senhoras de 82 anos com PA 158/62. A primeira é independente, CFS 3: combinação em comprimido único (BRA + BCC ou tiazídico), meta < 130/80, PAD baixa não é contraindicação. A segunda mora em ILPI, CFS 7, cai com frequência: começar com monoterapia em baixa dose, pesquisar HO antes, rever psicotrópicos e aceitar o menor valor bem tolerado — e, se já estiver com PAS < 130 e muitos remédios, a desprescrição é segura (RETREAT-FRAIL).
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, capítulo 7; Tabelas 7.1 a 7.3; quadros de recomendação.
13Insuficiência mitral
Diretriz · seção 8.1
A IM cresce com a idade (2,85% aos 70 e 6,45% aos 90 anos para moderada ou grave). Na primária, a doença é da valva: corrige-se no momento certo (FEVE ≤ 60%, LVESD ≥ 40 mm, FA, PSAP > 50), preferindo o reparo; TEER no alto risco. Na secundária, a doença é do ventrículo ou do átrio: primeiro GDMT, TRC, revascularização e controle da FA — depois TEER nos selecionados (COAPT, RESHAPE-HF2).
Epidemiologia, conceitos e novidades
- No Brasil, a doença reumática ainda é a principal causa de valvopatia mitral (> 90% da estenose e ~55–60% da IM), mas há transição para formas degenerativas e funcionais.
- EUA (11.911 ecocardiogramas): valvopatia moderada/grave de 0,7% (18–44 anos) a 13,2% (≥ 75 anos); a IM foi a mais frequente (1,7%). Prevalência global de IM (todos os graus) ~10,4%; primárias ~65% e secundárias ~35% dos casos isolados significativos; na IMpc, degenerativa ~61%.
- Metanálise 2025 (> 6 milhões, 20 estudos): IM moderada ou grave em 0,67%, chegando a ~2,85% aos 70 e 6,45% aos 90 anos. Migração (~281 milhões, 3,6% da população mundial) redistribui a doença reumática.
- Aparato mitral: folhetos, anel, cordas, papilares e miocárdio do VE e do AE. Primária: lesão intrínseca (reumática, prolapso, degeneração mixomatosa, deficiência fibroelástica, calcificação do anel); formas agudas (ruptura de cordas, endocardite) à parte. Secundária: alteração ventricular ou atrial com folhetos normais.
- Novidades 2020→2026 (Tabela 8.2): IM atrial como entidade formal, Heart Valve Center e Heart Team, eco 3D e RMC centrais, intervenção precoce refinada, TEER fortalecido (Classe I na IMS ventricular selecionada após GDMT), cirurgia minimamente invasiva, imagem multimodal e avaliação genética. Próteses mitrais não fazem parte do escopo.
| Aspecto | Brasil | Países desenvolvidos |
|---|---|---|
| Etiologia predominante da IM primária | Reumática | Degenerativa |
| Participação estimada da etiologia reumática na IM | ~55–60% | < 30% |
| Faixa etária típica | Adultos jovens; meia-idade; idosos | Predominantemente idosos |
| Principal mecanismo | Doença reumática crônica | Prolapso valvar mitral; deficiência fibroelástica |
| Tendência atual | Transição epidemiológica | Envelhecimento populacional |
IM: insuficiência mitral.
| Tópico | 2020 | 2026 |
|---|---|---|
| Insuficiência mitral secundária atrial | Pouco enfatizada | Entidade clínica formalmente definida, com seção específica |
| Heart Valve Center | Conceito limitado | Papel central na avaliação e no tratamento |
| Heart Team | Importante | Estrutura obrigatória para casos complexos |
| Ecocardiograma tridimensional | Ferramenta complementar | Componente central da avaliação anatômica e procedural |
| Ressonância magnética cardíaca | Papel secundário | Maior relevância na quantificação e no prognóstico |
| Insuficiência mitral primária assintomática | Critérios clássicos para intervenção | Refinamento dos critérios de intervenção precoce |
| TEER na insuficiência mitral primária | Alternativa para pacientes de alto risco | Recomendação fortalecida em pacientes selecionados |
| TEER na insuficiência mitral secundária ventricular | Recomendação mais restrita | Recomendação Classe I em pacientes selecionados após GDMT otimizada |
| Insuficiência mitral secundária atrial | Não possuía algoritmo específico | Algoritmo diagnóstico e terapêutico próprio |
| Cirurgia mitral minimamente invasiva | Pouco enfatizada | Recomendada em centros experientes e pacientes selecionados |
| Imagem multimodal integrada | Menor destaque | Estratégia formal de avaliação da insuficiência mitral |
| Avaliação genética na insuficiência mitral primária | Pouco abordada | Incluída na avaliação de casos selecionados |
GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; TEER: reparo transcateter borda a borda.
IM primária crônica: avaliação
- ~2/3 das IM significativas são primárias; degenerativa ~60% nos países desenvolvidos. Prolapso em 2–3% da população; flail por ruptura de cordas → IM importante, progressão rápida. Disjunção do anel mitral (MAD): arritmias ventriculares e morte súbita em subgrupos. Outras causas: endocardite, congênitas, doenças do tecido conjuntivo, calcificação anular, radioterapia.
- História natural da IMpc grave não é benigna: 5–7%/ano de sintomas, FA, IC ou intervenção nos assintomáticos. 20–40% dos “assintomáticos” têm limitação em teste de exercício (falsamente assintomáticos) — sobretudo idosos e sedentários; ergoespirometria ajuda.
- Sopro holossistólico apical irradiado para a axila (± B3) — intensidade não se correlaciona com gravidade. FA, hipertensão pulmonar e IC são marcos evolutivos.
- Ecocardiograma é o método de escolha (Tabela 8.3); eco 3D em jatos excêntricos (supera limitações do PISA 2D); SLG detecta disfunção subclínica; inteligência artificial ainda sem papel clínico.
- Cateterismo direito não é rotina: discrepância sintomas × eco, suspeita de hipertensão pulmonar ou quando mudar a estratégia. Onda V > 30 mmHg, PCP e PSAP elevadas → pior prognóstico; HP pós-capilar = PAPm > 20 com PCP > 15 mmHg (Tabela 8.4).
- Biomarcadores não definem gravidade; BNP elevado em assintomático com FE preservada é marcador independente de eventos → seguimento mais frequente (Tabela 8.5).
- RMC quando clínica e eco discordam: VR ≥ 55–60 mL e FR ≥ 40–50% → progressão; fração de esvaziamento do AE < 30% → eventos; fibrose (realce tardio) → arritmias e pior prognóstico (prolapso + MAD). TC: anel, cálcio e planejamento transcateter.
- Genética: não rotineira; considerar se início < 50 anos, mixomatosa exuberante, história familiar (prolapso, cirurgia mitral, morte súbita) ou síndromes (Marfan, Loeys-Dietz, Ehlers-Danlos); fenótipo arrítmico.
| Domínio | Parâmetro | Valor/definição | Relevância clínica |
|---|---|---|---|
| Quantificação da IM | EROA | ≥ 40 mm² | Compatível com IM grave; associada a maior mortalidade cardiovascular e insuficiência cardíaca |
| Quantificação da IM | Volume regurgitante | ≥ 60 mL | Compatível com IM grave |
| Quantificação da IM | Fração regurgitante | ≥ 50% | Compatível com IM grave |
| Remodelamento ventricular | FEVE | Avaliação seriada | Redução progressiva associa-se a pior prognóstico |
| Remodelamento ventricular | Volumes indexados do VE | Avaliação seriada | Maior valor prognóstico do que medidas lineares isoladas |
| Remodelamento atrial | Volume do AE | Avaliação seriada | Reflete sobrecarga volumétrica crônica e progressão da doença |
| Hipertensão pulmonar | PSAP | Avaliação seriada | Marcador de repercussão hemodinâmica avançada |
| Função ventricular subclínica | SLG | Menos negativo que aproximadamente −20% | Pode identificar disfunção ventricular antes da redução da FEVE |
| Anatomia valvar | Ecocardiografia 3D | Sempre que disponível | Melhor caracterização anatômica e planejamento terapêutico |
| Quantificação avançada | Eco 3D | Especialmente útil em jatos excêntricos ou complexos | Reduz limitações do PISA bidimensional |
| Fenótipo arrítmico | MAD | Pesquisa sistemática em PVM degenerativo | Associada a maior risco de arritmias ventriculares |
| Planejamento terapêutico | ETE | Casos selecionados | Fundamental para reparo cirúrgico ou transcateter |
AE: átrio esquerdo; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; ETE: ecocardiografia transesofágica; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IM: insuficiência mitral; MAD: disjunção do anel mitral; PISA: área de superfície de isovelocidade proximal; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar; PVM: prolapso da valva mitral; SLG: strain longitudinal global; VE: ventrículo esquerdo; 3D: tridimensional.
| Parâmetro hemodinâmico | IM leve | IM moderada | IM grave | Valor de referência | Aplicação clínica |
|---|---|---|---|---|---|
| Pressão atrial direita | Normal | Normal ou discretamente elevada | Frequentemente elevada | 2–8 mmHg | Avaliação da congestão sistêmica e da função ventricular direita |
| Pressão média da artéria pulmonar | < 20 mmHg | 20–25 mmHg | > 25 mmHg | < 20 mmHg | Diagnóstico e quantificação da hipertensão pulmonar |
| PCP/Wedge | ≤ 15 mmHg | 15–18 mmHg | > 18–20 mmHg | ≤ 15 mmHg | Estimativa da pressão atrial esquerda e das pressões de enchimento |
| Onda V da PCP | Pequena (< 15 mmHg) | 15–30 mmHg | > 30 mmHg | Variável | Marcador de repercussão hemodinâmica da insuficiência mitral |
| Resistência vascular pulmonar | Normal | Habitualmente normal | Pode estar elevada | < 2 WU | Diferencia componente pós-capilar de pré-capilar |
| Débito cardíaco | Normal | Normal | Pode reduzir-se | 4–8 L/min | Avaliação da função circulatória global |
| Índice cardíaco | Normal | Habitualmente preservado | Pode estar reduzido | ≥ 2,2 L/min/m² | Avaliação da reserva hemodinâmica |
| Saturação venosa mista de oxigênio | Normal | Habitualmente preservada | Pode reduzir-se | 60–80% | Equilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio |
| Pressão sistólica da artéria pulmonar | < 35 mmHg | 35–50 mmHg | > 50 mmHg | < 35 mmHg | Quantificação da repercussão pulmonar da doença |
IM: insuficiência mitral; PCP: pressão capilar pulmonar; WU: unidades Wood.
| Biomarcador | Significado biológico | Potencial aplicação clínica | Limitações atuais |
|---|---|---|---|
| BNP | Estresse parietal ventricular e sobrecarga volumétrica | Estratificação prognóstica complementar | Ausência de ponto de corte validado para indicação de intervenção |
| NT-proBNP | Estresse miocárdico e aumento das pressões de enchimento | Estratificação prognóstica complementar e seguimento longitudinal | Influenciado por idade, função renal e fibrilação atrial |
| Troponina cardíaca ultrassensível | Lesão miocárdica subclínica | Potencial marcador prognóstico complementar | Evidência insuficiente para uso rotineiro |
| ST2 solúvel | Remodelamento e fibrose miocárdica | Potencial marcador prognóstico complementar | Uso predominantemente investigacional |
| Galectina-3 | Fibrose e inflamação miocárdica | Potencial marcador prognóstico complementar | Uso predominantemente investigacional |
| Integração biomarcadores + imagem avançada | Avaliação combinada de remodelamento, fibrose e função ventricular | Estratégia emergente para pesquisa e estratificação prognóstica | Sem validação prospectiva para tomada de decisão clínica |
BNP: peptídeo natriurético tipo B; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B; ST2: suppression of tumorigenicity-2. Nota: atualmente, não existem valores de corte universalmente aceitos para BNP, NT-proBNP ou outros biomarcadores que permitam definir a gravidade da insuficiência mitral ou indicar intervenção valvar de forma isolada.
IM primária: tratamento, intervenção e seguimento
- Nenhum fármaco corrige ou retarda a IM primária com FE preservada. Controlar HAS, tratar FA e IC pelas diretrizes; diuréticos aliviam congestão mas não substituem a correção; vasodilatadores, IECA/BRA, ARNI e iSGLT2 não têm indicação rotineira sem outra indicação.
- Objetivo da intervenção: prevenir disfunção do VE, FA, hipertensão pulmonar e morte. No flail, cirurgia precoce melhora desfechos a longo prazo.
- Reparo > troca (menor mortalidade, preservação do VE, maior sobrevida). Centros especializados: reparo > 95% e mortalidade < 1% no prolapso degenerativo; minimamente invasiva comparável à esternotomia.
- TEER é a alternativa estabelecida no risco cirúrgico elevado/proibitivo; TMVR com próteses dedicadas é emergente para anatomia desfavorável. Casos complexos no Heart Team (reparabilidade, durabilidade, fragilidade, comorbidades). MAD, fibrose ou arritmias complexas ajudam a estratificar, mas não são indicação isolada.
- Seguimento (Tabela 8.7): sintomas, FA nova, hipertensão pulmonar ou queda da função motivam reavaliação; após intervenção, seguir função, durabilidade e recorrência. Tabela 8.8 lista as evidências incorporadas.
Gravidade é multiparamétrica; este cálculo considera grave se ao menos um critério quantitativo estiver presente. Decisão final no Heart Team, com fragilidade e preferências.
| Cenário clínico | Força da recomendação | Certeza de evidência | Intervenção recomendada | Metas |
|---|---|---|---|---|
| IM primária | ||||
| IM grave sintomática e risco operatório aceitável | Forte | Moderada | Intervenção valvar mitral, preferencialmente reparo cirúrgico (plastia). Padrão-ouro, benefício consistente. | |
| IM grave sintomática, anatomia favorável e risco cirúrgico elevado ou proibitivo | Forte | Moderada | Favorece TEER. Alternativa validada. | |
| IM grave assintomática com FEVE ≤ 60% ou LVESD ≥ 40 mm | Forte | Moderada | Intervenção valvar mitral, preferencialmente reparo cirúrgico (plastia). Intervenção precoce consolidada. | |
| IM grave. Quando a intervenção está indicada e a anatomia degenerativa é favorável ao reparo | Forte | Moderada | Preferir reparo cirúrgico da valva mitral à substituição valvar cirúrgica. | |
| IM grave assintomática com fibrilação atrial de início recente atribuída à IM | Forte | Moderada | Favorece a cirurgia. Depende da experiência local. | |
| IM grave assintomática com hipertensão pulmonar (PSAP > 50 mmHg em repouso) | Forte | Moderada | Favorece a cirurgia. Depende da experiência local. | |
| IM grave assintomática com elevada probabilidade de reparo durável (> 95%) e baixa mortalidade operatória em centro especializado | Condicional | Moderada | Considerar intervenção precoce, preferencialmente reparo cirúrgico. Centro experiente é chave. | |
| IM grave sintomática, anatomia desfavorável para TEER e risco cirúrgico elevado ou proibitivo | Condicional | Baixa | Considerar substituição valvar mitral transcateter com prótese dedicada em centros especializados | |
| IM secundária ventricular | ||||
| Sintomática com terapia otimizada | Forte | Moderada | Favorece TEER | COAPT-like |
| Necessidade de cirurgia cardíaca associada | Forte | Baixa | Favorece cirurgia | Consenso clínico |
| Alto risco cirúrgico isolado | Forte | Moderada | Favorece TEER | Individualizar |
| IM secundária atrial | ||||
| FE preservada + dilatação atrial | Condicional | Baixa | Favorece cirurgia | Fenótipo emergente |
| Alto risco cirúrgico | Fraca | Baixa | Favorece TEER | Evidência limitada |
| IM moderada + outra cirurgia associada | Condicional | Baixa | Favorece correção concomitante | Individualizar |
| IM grave + cirurgia de outra valva | Forte | Baixa | Favorece correção concomitante | Abordagem integrada |
| Pacientes sem elegibilidade para intervenção (fragilidade/baixa sobrevida) | Forte | Baixa | Favorece tratamento clínico/paliativo | Foco em qualidade de vida |
FE: fração de ejeção; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IM: insuficiência mitral; LVESD: diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar; TEER: reparo transcateter borda a borda.
| Gravidade da IM | Avaliação clínica | Ecocardiografia |
|---|---|---|
| Leve | 3–5 anos | 3–5 anos |
| Moderada | Anual | 1–2 anos |
| Grave assintomática (FEVE > 60% e LVESD < 40 mm) | 6–12 meses | 6–12 meses |
| Grave próxima ao limiar de intervenção* | 3–6 meses | 3–6 meses |
| Após intervenção cirúrgica ou transcateter | Individualizada | Conforme tipo de intervenção e achados evolutivos |
FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IM: insuficiência mitral; LVESD: diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo. *Pacientes com progressão das dimensões ventriculares, queda da FEVE, fibrilação atrial de início recente, hipertensão pulmonar ou outros marcadores de progressão clínica.
| Estudo/área | População | Principal achado | Impacto na SBC 2026 |
|---|---|---|---|
| UK Mini Mitral Trial | IM degenerativa com indicação cirúrgica | Minitoracotomia apresentou resultados clínicos comparáveis à esternotomia convencional | Fortalecimento da cirurgia minimamente invasiva em centros experientes |
| EXPAND Registry | Pacientes submetidos a TEER | Elevadas taxas de sucesso procedural e baixa insuficiência mitral residual em prática clínica contemporânea | Consolidação do TEER em pacientes adequadamente selecionados |
| CLASP IID | IM degenerativa elegível para TEER | Resultados clínicos e ecocardiográficos consistentes entre plataformas contemporâneas de reparo borda a borda | Consolidação das terapias borda a borda (edge-to-edge) |
| Imagem multimodal avançada (eco 3D, RMC e TC) | IM degenerativa | Melhor caracterização anatômica, quantificação da regurgitação e planejamento terapêutico | Maior protagonismo da imagem multimodal na tomada de decisão |
| Fenótipo arrítmico do prolapso valvar mitral | Prolapso valvar mitral | Associação entre disjunção do anel mitral, fibrose miocárdica e arritmias ventriculares | Estratificação de risco mais refinada em pacientes selecionados |
| Genética da doença degenerativa mitral | Doença mixomatosa e prolapso valvar mitral | Melhor compreensão da base genética da degeneração mixomatosa e do prolapso mitral | Inclusão da avaliação genética em cenários selecionados |
| TMVR com próteses dedicadas | IM grave de alto risco cirúrgico | Resultados iniciais promissores em pacientes não elegíveis para reparo | Inclusão da TMVR como terapia emergente para pacientes selecionados |
| Centros especializados em reparo mitral | IM degenerativa com anatomia reparável | Taxas de reparo superiores a 95% e mortalidade operatória inferior a 1% em centros experientes | Reforço da centralização de casos complexos e da avaliação por Heart Team |
3D: tridimensional; IM: insuficiência mitral; RMC: ressonância magnética cardíaca; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia; TC: tomografia computadorizada; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição transcateter da valva mitral.
IM secundária: fenótipos ventricular e atrial
- Forma mais frequente de IM na IC: moderada ou grave em 20–35% dos pacientes com IC. Etiologias: cardiopatia isquêmica (40–50%), cardiomiopatia dilatada não isquêmica (30–40%) e FA com IM atrial funcional (10–20%).
- Ventricular funcional: remodelamento excêntrico → deslocamento apical/lateral dos papilares → tethering (Carpentier IIIb); base de COAPT, MITRA-FR e RESHAPE-HF2.
- Atrial funcional: dilatação do AE e do anel, sem tethering relevante, em geral com FE preservada; nas séries de IM atrial grave, ~90% têm FA e > 80% AE muito dilatado (Tabela 8.9).
- Mesmos métodos da primária, mas lidos à luz do remodelamento (Tabela 8.10). Gravidade da IMS: EROA ≥ 0,20 cm², VR ≥ 30 mL, FR ≥ 50% — multiparamétrica, nenhum critério isolado. A IMS é dinâmica (Lancellotti): eco de estresse se sintomas desproporcionais. Eco 3D para tethering, anel e planejamento de TEER/TMVR.
- IM moderada a grave aumenta a mortalidade em ~40–70%, mesmo ajustando pela disfunção do VE; o prognóstico depende da interação IM × remodelamento × miocárdio. Grayburn: IM proporcional × desproporcional ao tamanho do VE. Disfunção de VD e hipertensão pulmonar são marcadores independentes. Sem escore prognóstico validado; STS-PROM e EuroSCORE II complementam o risco procedural (Tabela 8.11).
| Estudo | Pergunta científica | Principal contribuição | Impacto no campo |
|---|---|---|---|
| Otsuji et al. (2002) | A dilatação anular isolada pode gerar insuficiência mitral funcional sem doença ventricular? | Demonstrou que dilatação anular associada à fibrilação atrial pode produzir insuficiência mitral funcional na ausência de remodelamento ventricular significativo | Introdução do conceito de insuficiência mitral atrial funcional |
| Deferm et al. (2019) | Como se comportam os pacientes com insuficiência mitral atrial funcional? | Descreveu prevalência, características clínicas e desfechos associados ao fenótipo atrial | Consolidação da entidade clínica |
| Machino-Ohtsuka et al. (2016) | Quais são os marcadores anatômicos e ecocardiográficos da insuficiência mitral atrial funcional? | Caracterizou remodelamento atrial, dilatação anular e padrões ecocardiográficos específicos | Definição anatômica e ecocardiográfica do fenótipo |
| Estudos contemporâneos (2020–2025) | A insuficiência mitral atrial funcional representa uma entidade distinta da insuficiência mitral ventricular funcional? | Confirmação de mecanismos fisiopatológicos, prognóstico e potenciais estratégias terapêuticas próprios | Reconhecimento formal da insuficiência mitral atrial funcional como fenótipo distinto dentro da insuficiência mitral secundária |
| Método diagnóstico | IM primária crônica | IM secundária |
|---|---|---|
| Ecocardiografia transtorácica | Avaliação anatômica valvar e quantificação da regurgitação | Quantificação da regurgitação e caracterização do remodelamento ventricular ou atrial |
| Ecocardiografia transesofágica | Definição do mecanismo degenerativo e planejamento cirúrgico/transcateter | Planejamento de TEER/TMVR e avaliação anatômica avançada |
| Ecocardiografia tridimensional | Caracterização anatômica dos folhetos e do anel mitral | Avaliação do tethering e da geometria anular e planejamento estrutural |
| Ressonância magnética cardíaca | Quantificação da regurgitação, dos volumes ventriculares e de fibrose | Quantificação da regurgitação, caracterização miocárdica e avaliação do remodelamento ventricular |
| Tomografia computadorizada cardíaca | Avaliação anatômica complementar | Planejamento de procedimentos estruturais, especialmente TMVR |
| Biomarcadores (BNP/NT-proBNP) | Marcadores complementares de repercussão hemodinâmica | Marcadores prognósticos centrais associados à insuficiência cardíaca |
| Cateterismo cardíaco direito | Casos selecionados e discordância diagnóstica | Avaliação frequente da repercussão hemodinâmica e da hipertensão pulmonar |
BNP: peptídeo natriurético tipo B; IM: insuficiência mitral; NT-proBNP: peptídeo natriurético tipo B N-terminal; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição valvar mitral transcateter.
| Domínio | Marcador | Associação prognóstica |
|---|---|---|
| Gravidade da IM | EROA ≥ 0,20 cm² | ↑ Hospitalização por IC, ↑ mortalidade |
| Volume regurgitante ≥ 30 mL | ↑ Eventos cardiovasculares | |
| Fração regurgitante ≥ 50% | ↑ Progressão clínica | |
| Remodelamento do ventrículo esquerdo | Aumento do LVESV/LVEDV | ↑ Mortalidade |
| FEVE reduzida | ↑ Mortalidade e IC | |
| Ventrículo direito | Disfunção ventricular direita | Forte marcador prognóstico adverso |
| Circulação pulmonar | Hipertensão pulmonar | ↑ Mortalidade e pior resposta terapêutica |
| Hemodinâmica | PCP elevada/onda V proeminente | Maior repercussão hemodinâmica |
| Biomarcadores | BNP e NT-proBNP elevados | ↑ Hospitalização e mortalidade |
| AFMR | Dilatação atrial importante | ↑ Fibrilação atrial recorrente e IC |
| Ecocardiografia de estresse | Aumento da IM ao esforço | ↑ Sintomas e pior prognóstico |
AFMR: insuficiência mitral atrial funcional; BNP: peptídeo natriurético tipo B; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IC: insuficiência cardíaca; IM: insuficiência mitral; IMS: insuficiência mitral secundária; LVEDV: volume diastólico final do ventrículo esquerdo; LVESV: volume sistólico final do ventrículo esquerdo; NT-proBNP: N-terminal do peptídeo natriurético tipo B; PCP: pressão capilar pulmonar.
IM secundária: tratamento
- O fundamento é tratar a IC e a cardiopatia de base: GDMT (ARNI, betabloqueador, ARM, iSGLT2), TRC nos elegíveis (remodelamento reverso e redução da IM), revascularização quando indicada (avaliar viabilidade). A otimização clínica precede qualquer intervenção; a IM pode diminuir, por isso reavaliar antes de indicar terapia valvar.
- IM atrial: controle da FA, otimização da IC e redução da sobrecarga atrial (evidência menos robusta).
- Persistindo sintomas e IMS significativa apesar da GDMT: equipe multidisciplinar (IC, imagem, intervenção, cirurgia).
- MITRA-FR (304): sem benefício do TEER (54,6% vs. 51,3%) — VE muito dilatado (VDFi 135 mL/m²) e IM relativamente menor (EROA 31 mm²). COAPT (614): hospitalização por IC 35,8% vs. 67,9% (HR 0,53) e mortalidade 29,1% vs. 46,1% (HR 0,62) — IM mais grave (EROA 41 mm²) e VE menos remodelado (VDFi 101 mL/m²). RESHAPE-HF2 (505): 37,0 vs. 58,9 eventos/100 pacientes-ano (RR 0,64). EXPAND (> 1.000): sucesso > 95%, IM ≤ 2+ em ~90%; COAPT 5 anos: benefício durável. MATTERHORN: TEER não inferior à cirurgia, com menos complicações.
- TMVR (Intrepid 5 anos; SAPIEN M3 — ENCIRCLE, braço único, IM ≤ 1+, dock transeptal reduzindo embolização e obstrução da VSVE): recomendação condicional, baixa certeza, no Heart Team. TEER na IM atrial: dados observacionais de redução de morte ou hospitalização.
A GDMT otimizada para insuficiência cardíaca é recomendada como tratamento inicial para pacientes com IMS associada à disfunção ventricular esquerda.
A reavaliação clínica e ecocardiográfica após a otimização da GDMT é recomendada antes da consideração de terapias valvares cirúrgicas ou transcateter.
A terapia de ressincronização cardíaca é recomendada para pacientes elegíveis, de acordo com as diretrizes para insuficiência cardíaca.
A avaliação da viabilidade miocárdica e da necessidade de revascularização deve ser considerada em pacientes com cardiopatia isquêmica e IMS.
O controle da FA e das condições associadas deve ser considerado em pacientes com insuficiência mitral secundária à FA.
Pacientes com IMS persistente e sintomática, apesar de GDMT otimizada, devem ser avaliados pelo Heart Team para definição da estratégia terapêutica.
FA: fibrilação atrial; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; IMS: insuficiência mitral secundária.
| Cenário clínico | Classe | Nível de evidência | Intervenção recomendada |
|---|---|---|---|
| IMS grave sintomática persistente apesar de GDMT otimizada, anatomia favorável e avaliação por Heart Team. | Forte | Moderada | Reparo mitral (TEER) |
| IMS grave em pacientes submetidos a CRM ou outra cirurgia cardíaca concomitante. | Forte | Moderada | Correção cirúrgica da IM durante a cirurgia principal |
| IMS grave sintomática apesar de GDMT otimizada e elegível para intervenção. | Fraca | Moderada | Considerar TEER para redução de hospitalizações por insuficiência cardíaca e melhora prognóstica |
| IMS grave com anatomia desfavorável para TEER e risco cirúrgico aceitável. | Fraca | Baixa | Considerar cirurgia mitral em pacientes selecionados |
| IMS grave com anatomia desfavorável para TEER e risco cirúrgico elevado ou proibitivo. | Fraca | Baixa | Considerar TMVR com próteses dedicadas em centros especializados |
| IMS grave associada à insuficiência cardíaca avançada candidata a terapias avançadas. | Fraca | Baixa | Individualizar a estratégia terapêutica em centros especializados |
| IMS atrial sintomática persistente apesar do tratamento clínico otimizado. | Fraca | Moderada | Considerar TEER em pacientes selecionados após avaliação por Heart Team |
CRM: cirurgia de revascularização miocárdica; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; IMS: insuficiência mitral secundária; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição valvar mitral transcateter.
🎓 Ferramenta didática: compara o paciente com as médias dos dois ensaios (COAPT: EROA 41 mm², VDFi 101 mL/m²; MITRA-FR: 31 mm² e 135 mL/m²), ilustrando o conceito de IM proporcional × desproporcional (Grayburn). Não é critério formal da diretriz.
Seguimento e síntese
- Seguimento evita atraso terapêutico. Primária: FEVE, LVESD, AE, PSAP; FA nova, HP ou queda de função podem indicar intervenção mesmo sem sintomas. IMS: seguir também a cardiopatia (função, remodelamento, estabilidade, hospitalizações) — sem intervalos universais.
- ETT é o principal método; estresse, RMC ou TC se discordância. Pós-TEER: IM residual/recorrente, gradiente transmitral, remodelamento; pós-TMVR: prótese, gradientes, trombose, reintervenções.
| Gravidade da IM | Avaliação clínica | Ecocardiografia |
|---|---|---|
| Leve | 3–5 anos | 3–5 anos |
| Moderada | Anual | 1–2 anos |
| Grave assintomática (FEVE > 60% e LVESD < 40 mm) | 6–12 meses | 6–12 meses |
| Grave próxima ao limiar de intervenção* | 3–6 meses | 3–6 meses |
| Após reparo cirúrgico ou TEER | Individualizada | Basal pós-procedimento e seguimento periódico |
| Após substituição valvar cirúrgica ou TMVR | Individualizada | Basal pós-procedimento e seguimento periódico |
FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IM: insuficiência mitral; LVESD: diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição valvar mitral transcateter. *Pacientes com progressão das dimensões ventriculares, redução da FEVE, fibrilação atrial de início recente, hipertensão pulmonar, aumento da gravidade da regurgitação ou outros marcadores de progressão clínica.
| Estudo/tema | Ano | Tipo de evidência | População | Principal achado | Potencial impacto em 2026 |
|---|---|---|---|---|---|
| COAPT Post-Approval Study | 2023 | Registro de mundo real | IM secundária tratada com TEER | Reproduziu os benefícios observados no COAPT em população não selecionada | Validação externa dos resultados do TEER |
| COAPT – 5 anos | 2023 | Seguimento de ECR | IM secundária grave e insuficiência cardíaca sintomática | Benefício sustentado do TEER com redução de hospitalizações por insuficiência cardíaca e mortalidade | Consolida o TEER como terapia modificadora de prognóstico |
| RESHAPE-HF2 | 2024 | ECR | Insuficiência cardíaca sintomática com IM secundária moderada ou grave | Redução significativa de hospitalizações por insuficiência cardíaca e mortalidade cardiovascular | Reforça recomendação favorável ao TEER |
| MATTERHORN | 2024 | ECR | IM secundária grave elegível para cirurgia | TEER não inferior à cirurgia para desfechos clínicos compostos | Possível expansão das indicações de TEER em pacientes cirúrgicos selecionados |
| ENCIRCLE | 2025 | Estudo observacional multicêntrico | IM ≥ 3+, estenose mitral grave ou calcificação do anel mitral | Troca valvar (TMVR), prótese SAPIEN M3 | Fronteira terapêutica para pacientes não elegíveis para cirurgia ou TEER |
| AFMR/TEER (REVEAL-AFMR/OCEAN-Mitral) | 2026 | Estudo observacional multicêntrico | IM funcional atrial moderada-grave | TEER associado à redução de morte ou hospitalização por insuficiência cardíaca em comparação ao tratamento clínico | Potencial incorporação da AFMR como fenótipo terapêutico específico |
| TMVR – Intrepid (seguimento de 5 anos) | 2026 | Seguimento prospectivo | IM significativa e alto risco cirúrgico | Eliminação sustentada da IM, baixos gradientes transvalvares e melhora funcional duradoura entre sobreviventes | Fortalece TMVR como alternativa para anatomias desfavoráveis à cirurgia e ao TEER |
| TMVR – Plataformas contemporâneas (SUMMIT, APOLLO, Tendyne) | 2024–2026 | Estudos prospectivos e registros | Pacientes com IM significativa e anatomia complexa | Elevadas taxas de sucesso técnico e correção quase completa da regurgitação mitral | Principal fronteira terapêutica para pacientes não elegíveis ao reparo mitral transcateter TEER |
AFMR: insuficiência mitral funcional atrial; ECR: ensaio clínico randomizado; IM: insuficiência mitral; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição transcateter da valva mitral.
| Domínio | Insuficiência mitral primária | Insuficiência mitral secundária |
|---|---|---|
| Mecanismo da doença | Alteração estrutural da valva mitral | Remodelamento ventricular e/ou atrial com valva estruturalmente normal |
| Substrato predominante | Prolapso valvar mitral, degeneração mixomatosa, ruptura de cordas tendíneas, doença reumática | Cardiomiopatia isquêmica ou não isquêmica, remodelamento ventricular esquerdo, fibrilação atrial |
| Classificação de Carpentier | Tipo II (movimento excessivo) predominante | Tipo IIIb (restrição sistólica) predominante |
| Determinante prognóstico principal | Gravidade da lesão valvar | Gravidade da doença miocárdica subjacente |
| Evolução natural | Progressão da doença valvar | Progressão da insuficiência cardíaca e remodelamento ventricular |
| Objetivo terapêutico principal | Corrigir a lesão valvar | Tratar a doença ventricular e reduzir a regurgitação residual |
| Objetivo da intervenção | Correção definitiva da lesão valvar | Redução da carga hemodinâmica e melhora dos desfechos clínicos |
| Tratamento inicial | Avaliação para reparo ou substituição valvar | GDMT otimizada para insuficiência cardíaca |
| Papel da cirurgia | Estratégia de referência quando indicada | Mais seletiva e dependente do contexto clínico |
| Papel do TEER | Alternativa para pacientes de alto risco cirúrgico | Terapia central em pacientes selecionados após GDMT otimizada |
| Papel do TMVR | Estratégia emergente para anatomias complexas ou não reparáveis | Estratégia emergente com potencial expansão futura |
| Papel da imagem | Definição anatômica e reparabilidade valvar | Quantificação da regurgitação, avaliação do remodelamento cardíaco e seleção terapêutica |
| Marcadores de risco | Sintomas, FEVE, LVESD, hipertensão pulmonar e fibrilação atrial | FEVE, volumes ventriculares, remodelamento, hospitalizações por insuficiência cardíaca e mortalidade |
| Seguimento | Baseado na progressão da regurgitação e no surgimento de critérios de intervenção | Baseado na evolução da insuficiência cardíaca, no remodelamento cardíaco e na resposta ao tratamento |
| Heart Team | Definição da estratégia valvar | Integração entre insuficiência cardíaca, imagem cardiovascular, intervenção estrutural e cirurgia cardíaca |
FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; GDMT: terapia medicamentosa guiada por diretrizes; LVESD: diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo; TEER: reparo transcateter borda a borda; TMVR: substituição valvar mitral transcateter.
No idoso, a pergunta inicial é “primária ou secundária?”. Octogenário com flail posterior, FEVE 58% e LVESD 42 mm tem IM primária grave com gatilho de intervenção — reparo em centro experiente se o risco permitir, TEER se for alto. Já a idosa com FA permanente, AE gigante e FE preservada tem IM atrial: começa-se pelo controle da FA e da IC; TEER é recomendação fraca, depois do Heart Team.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seção 8.1; Tabelas 8.1 a 8.15; quadro de recomendações.
14Estenose mitral e estenose aórtica no idoso
Diretriz · seções 8.2 a 8.8
Na estenose mitral do idoso, separe a reumática (VMPCB se anatomia favorável) da degenerativa por calcificação anular (sem fusão comissural, VMPCB não funciona: tratamento clínico e intervenção só em refratários). Na estenose aórtica, classifique o fenótipo hemodinâmico, use o escore de cálcio na discordância, e decida TAVI × SAVR pelo Heart Team com a idade de 70 anos como referência — sempre medindo fragilidade.
Estenose mitral reumática
- A doença reumática é a principal causa, mas o envelhecimento aumenta a forma degenerativa. Reumática: espessamento, abertura em dome, fusão comissural e acometimento subvalvar; não é rara em idosos.
- Importante: AVM ≤ 1,5 cm². Com sintomas ou complicadores (PSAP > 50 mmHg ou FA de início recente), intervenção indicada; tratamento clínico só para alívio até a intervenção, salvo contraindicação (baixa expectativa de vida, fragilidade, comorbidades graves).
- Fármacos: diurético de alça (furosemida) e betabloqueador; com FA e contraindicação ao betabloqueador, BCC não di-hidropiridínico ou digoxina, mantendo FC ~50–60 bpm. Anticoagulação em qualquer FA (paroxística, persistente ou permanente) — varfarina superior aos DOACs nesse contexto.
- VMPCB é o método de escolha (menos invasiva, internação menor, tão eficaz quanto a comissurotomia aberta em selecionados), se: sem trombo no AE ao ETE; IM no máximo leve; morfologia favorável — escore de Block ≤ 8 e sem calcificação comissural.
- IT funcional moderada a grave associada: considerar tratá-la também (percutânea ou cirúrgica).
Valvuloplastia mitral percutânea por cateter-balão (8.2.1.1)
Recomenda-se a VMPCB em pacientes sintomáticos (classe funcional NYHA II–IV) com EM grave (AVM ≤ 1,5 cm²) que preencham os critérios de elegibilidade para o procedimento.
Sugere-se a VMPCB em pacientes assintomáticos com EM grave (AVM ≤ 1,5 cm²), elegíveis para o procedimento, que apresentem pressão sistólica da artéria pulmonar > 50 mmHg.
Sugere-se a VMPCB em pacientes assintomáticos com EM grave (AVM ≤ 1,5 cm²), elegíveis para o procedimento, que apresentem fibrilação atrial de início recente.
Sugere-se a VMPCB em pacientes gravemente sintomáticos (classe funcional NYHA III–IV), com EM grave, anatomia valvar subótima para o procedimento e que não sejam candidatos a cirurgia ou apresentem alto risco cirúrgico.
Cirurgia valvar aberta (8.2.1.2)
Recomenda-se o tratamento cirúrgico em pacientes gravemente sintomáticos (classe funcional NYHA III–IV) com estenose mitral grave que não sejam candidatos a VMPBC.
Recomenda-se o tratamento cirúrgico em pacientes gravemente sintomáticos (classe funcional NYHA III–IV) com estenose mitral grave após falha prévia da VMPBC.
Recomenda-se o tratamento cirúrgico em pacientes gravemente sintomáticos (classe funcional NYHA III–IV) com estenose mitral grave que necessitem de outro procedimento cirúrgico cardíaco concomitante.
Estenose mitral degenerativa (8.2.3)
Intervenção valvar em pacientes gravemente sintomáticos e cuidadosamente selecionados.
AVM: área valvar mitral; EM: estenose mitral; NYHA: New York Heart Association; VMPCB/VMPBC: valvuloplastia (valvotomia) mitral percutânea por cateter-balão (grafias do original).
Estenose mitral degenerativa (calcificação do anel)
- Sem fusão comissural: a calcificação do anel avança para a base dos folhetos e dá geometria tubular à valva. Muitas comorbidades ateroscleróticas.
- Calcificação anular em 8–15% da população e > 40% dos idosos, mas poucos têm estenose significativa. Mortalidade elevada: 22% em 1 ano e 56% em 5 anos. O grau de calcificação não prediz a progressão.
- Gravidade e tratamento clínico iguais aos da reumática, mas a VMPCB não é indicada. Tratamento medicamentoso tem papel central; intervenção reservada a refratários, após Heart Team e decisão compartilhada.
- Cirurgia convencional: altamente complexa (ruptura do anel, sutura difícil). Transcateter: valve-in-MAC, bioprótese transcateter ancorada na calcificação — mortalidade em 1 ano de 34,5%.
Estenose aórtica: epidemiologia e ecocardiograma
- Valvopatia mais prevalente no idoso. Grave sintomática não tratada: mortalidade de até 50% em 1–2 anos. ~13,6 milhões de casos e ~150.000 óbitos/ano no mundo. Prevalência 1–2% > 65 anos e 3–8% ≥ 75 anos (> 5% com formas graves). No Brasil, ~3% dos ~35 milhões de idosos (~1 milhão de casos). Subdiagnóstico, subtratamento e acesso restrito à TAVI.
- ETT de primeira linha: etiologia, mobilidade e cálcio, Vmax, gradiente médio (Bernoulli), AVE (continuidade; limitações na medida da VSVE), HVE, disfunção diastólica, hipertensão pulmonar; classificação do dano cardíaco extravalvar tem valor prognóstico.
- Concordante — alto gradiente: GM ≥ 40 mmHg, Vmax ≥ 4,0 m/s e AVE ≤ 1,0 cm² (≤ 0,6 cm²/m²): grave independentemente da FEVE ou do fluxo. Muito grave: Vmax ≥ 5,0 m/s ou GM ≥ 60 mmHg.
- Discordantes (AVE ≤ 1,0 com gradiente baixo): avaliar fluxo pelo IVS (baixo fluxo ≤ 35 mL/m²) — ver Tabela 8.16.
- BFBG com FE reduzida: eco com dobutamina (até 20 mcg/kg/min). Grave verdadeira: área fixa ≤ 1,0 cm² e Vmax ≥ 4 m/s (ou GM ≥ 40) em algum nível de fluxo. Pseudoestenose: área aumenta com o fluxo. Sem aumento do volume sistólico ≥ 20% = ausência de reserva contrátil/de fluxo.
- Índice adimensional (VTI VSVE/VTI aórtico): normal ~1,0; ≤ 0,25 compatível com grave. SLG com valor absoluto < 15% (> −15%) → pior prognóstico na grave assintomática. ETE: morfologia, planimetria, obstrução subvalvar. Medir com o paciente normotenso (hipertensão subestima a gravidade).
| Fenótipo hemodinâmico | Gradiente médio | AVE | IVS | FEVE | Características principais |
|---|---|---|---|---|---|
| EAo de alto gradiente (clássica) | ≥ 40 mmHg | ≤ 1,0 cm² | Geralmente normal | Preservada ou reduzida | Forma típica de EAo grave; diagnóstico direto quando parâmetros são concordantes. |
| EAo de baixo fluxo/baixo gradiente com FEVE reduzida | < 40 mmHg | ≤ 1,0 cm² | ≤ 35 mL/m² | < 50% | Pode representar estenose verdadeira grave ou pseudoestenose; ecocardiografia de estresse com dobutamina é útil. |
| EAo de baixo fluxo/baixo gradiente com FEVE preservada (baixo fluxo paradoxal) | < 40 mmHg | ≤ 1,0 cm² | ≤ 35 mL/m² | ≥ 50% | Associada a remodelamento concêntrico e cavidade ventricular pequena. |
| EAo de fluxo normal/baixo gradiente | < 40 mmHg | ≤ 1,0 cm² | > 35 mL/m² | ≥ 50% | Frequentemente representa estenose moderada ou erro de mensuração. |
| EAo discordante de alto gradiente | ≥ 40 mmHg | > 1,0 cm² | Variável | Variável | Geralmente indica EAo grave; avaliar possíveis estados reversíveis de alto fluxo. |
AVE: área valvar efetiva; EAo: estenose aórtica; IVS: índice de volume sistólico; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo.
Tomografia, teste de esforço, ressonância, cateterismo e biomarcadores
- Escore de cálcio valvar (TC): > 2.000 UA (homens) e > 1.200 UA (mulheres) fortemente indicativos de grave; > 3.000/> 1.600 aumentam a especificidade; < 1.600/< 800 tornam grave improvável. Cautela em bicúspide, amiloidose e estenose fibrótica (pós-reumática, actínica, inflamatória); TC com contraste avalia fibrose (útil em mulheres).
- TC: aorta (seios, junção sinotubular, ascendente — sobretudo bicúspide), morfologia e distribuição do cálcio, escolha SAVR × TAVI, prótese, anel, aorta em porcelana, acessos; ATCC ± FFR-CT como alternativa à angiografia no preparo.
- Teste de esforço para estratificar o “assintomático” (sintomas ocultos, capacidade reduzida, resposta pressórica anormal). Não fazer no sintomático. Eco de estresse farmacológico se não conseguir se exercitar; ergoespirometria para diferenciar limitação cardíaca, pulmonar ou descondicionamento.
- RMC: estrutura, volumes, função e massa quando o eco não basta; fibrose (realce tardio); aorta seriada na bicúspide; alternativa à TC no planejamento se contraindicação a contraste/radiação; não usar para quantificar a gravidade (velocidades menos acuradas que o Doppler).
- Cateterismo: só se não invasivos inconclusivos, discordância clínica–eco, ou coronariografia antes da SAVR.
- Peptídeos: valor prognóstico (progressão, intervenção, morte); indicação baseada neles depende da integração clínica (condicional, moderada).
- ATTR-CA em 10–16% dos pacientes de TAVI, sobretudo baixo fluxo/baixo gradiente; pior prognóstico, mas há melhora sintomática e funcional após intervenção.
Tomografia computadorizada (8.3.7)
Recomenda-se a utilização da TC para quantificar a calcificação valvar e confirmar a gravidade da estenose aórtica em pacientes com discordância entre os parâmetros ecocardiográficos, particularmente na estenose aórtica de baixo fluxo e baixo gradiente.
Recomenda-se a utilização dos escores de cálcio valvar obtidos por TC como ferramenta complementar para a definição da gravidade da estenose aórtica calcificada, considerando limiares específicos para o sexo.
Os escores de cálcio valvar devem ser interpretados com cautela em pacientes nos quais a estenose aórtica grave possa ocorrer com baixa carga de calcificação, como na presença de válvula aórtica bicúspide, amiloidose cardíaca e estenose predominantemente fibrótica (pós-reumática, induzida por radiação ou inflamatória).
Sugere-se a utilização da TC com contraste para avaliar a fibrose dos folhetos valvares como medida complementar da gravidade anatômica da estenose aórtica, especialmente em mulheres ou quando houver discrepância entre os achados clínicos e de imagem.
Recomenda-se a realização de TC para avaliação sistemática da raiz da aorta e da aorta torácica em pacientes com suspeita ou evidência de doença da aorta, particularmente na presença de válvula aórtica bicúspide, incluindo a mensuração dos seios de Valsalva, da junção sinotubular e da aorta ascendente.
Recomenda-se a utilização da TC como método complementar à ecocardiografia para caracterizar a morfologia valvar e a distribuição da calcificação e para planejar a estratégia de intervenção, incluindo a seleção da prótese e da via de tratamento (cirúrgica ou transcateter).
Recomenda-se a realização de TC como parte da avaliação pré-procedimento de pacientes candidatos a implante transcateter de valva aórtica, incluindo a avaliação do anel valvar, da aorta e dos acessos vasculares para o planejamento do procedimento.
Sugere-se a utilização da angiotomografia coronariana sincronizada ao eletrocardiograma, associada à FFR-CT, quando disponível, como alternativa à angiografia coronariana invasiva para a avaliação da doença arterial coronariana em pacientes selecionados durante o preparo para a intervenção valvar.
Teste de esforço (8.3.8)
Recomenda-se a realização de teste de esforço para a estratificação de risco em pacientes com estenose aórtica grave aparentemente assintomáticos ou com sintomas inespecíficos, com o objetivo de identificar sintomas ocultos, redução da capacidade funcional e resposta anormal da pressão arterial ao exercício.
Recomenda-se a substituição valvar aórtica em pacientes com estenose aórtica grave que desenvolvam sintomas claramente relacionados à valvopatia durante o teste de esforço.
Sugere-se considerar a substituição valvar aórtica em pacientes com estenose aórtica grave aparentemente assintomáticos que apresentem resposta pressórica anormal (queda da pressão arterial sistólica > 20 mmHg) ou baixa tolerância ao exercício durante o teste de esforço.
Sugere-se a realização de ecocardiografia sob estresse farmacológico (por exemplo, com dobutamina) em pacientes com estenose aórtica que não consigam realizar o teste de esforço, para avaliação da resposta hemodinâmica, da função ventricular esquerda e do aparecimento de sintomas.
Sugere-se a realização de teste cardiopulmonar de exercício como método complementar para diferenciar limitações funcionais de origem cardíaca, pulmonar ou decorrentes de descondicionamento físico e para refinar a estratificação de risco em pacientes com estenose aórtica.
Ressonância magnética cardíaca (8.3.9)
Recomenda-se a realização de RMC em pacientes com estenose aórtica quando a ecocardiografia não fornecer caracterização adequada da estrutura e da função cardíaca, para avaliação dos volumes ventriculares, da função sistólica e da massa ventricular.
Sugere-se a utilização da RMC para avaliação da fibrose miocárdica, especialmente por meio do realce tardio com gadolínio, como ferramenta complementar na estratificação de risco e na tomada de decisão clínica em pacientes selecionados com estenose aórtica grave.
Recomenda-se a utilização da RMC para avaliação seriada das dimensões da aorta torácica, particularmente em pacientes com válvula aórtica bicúspide, como alternativa aos métodos que envolvem exposição cumulativa à radiação ionizante.
Sugere-se a utilização da RMC como alternativa à tomografia computadorizada no planejamento de intervenções transcateter em pacientes selecionados, especialmente quando houver contraindicação ao uso de contraste iodado ou à exposição à radiação.
Recomenda-se não utilizar a RMC para quantificar a gravidade da estenose aórtica, devido à menor acurácia na estimativa das velocidades transvalvares em comparação com a ecocardiografia Doppler.
Peptídeos natriuréticos e amiloidose (8.3.11)
Sugere-se a dosagem de peptídeos natriuréticos (BNP ou NT-proBNP) na avaliação de pacientes com estenose aórtica, particularmente naqueles com sintomas de etiologia incerta ou múltiplas comorbidades, para auxiliar na diferenciação da origem dos sintomas e na estratificação prognóstica.
A substituição valvar aórtica precoce pode ser considerada em pacientes assintomáticos com estenose aórtica grave que apresentem níveis persistentemente elevados de peptídeos natriuréticos, especialmente quando superiores a três vezes o limite superior de referência ajustado para idade e sexo, na ausência de outras causas para essa elevação.
A investigação de ATTR-CA pode ser considerada em pacientes com estenose aórtica grave, especialmente na presença de fenótipos de baixo fluxo e/ou baixo gradiente ou de achados clínicos e ecocardiográficos sugestivos, uma vez que sua identificação pode contribuir para melhor compreensão da fisiopatologia, estratificação de risco e planejamento terapêutico.
A presença de ATTR-CA isoladamente não deve ser considerada contraindicação à intervenção valvar em pacientes com estenose aórtica grave. Sugere-se que a decisão entre implante transcateter ou substituição cirúrgica da valva aórtica seja individualizada, preferencialmente em discussão multidisciplinar, considerando estado funcional, fragilidade, comorbidades, expectativa de benefício clínico e preferências do paciente.
ATTR-CA: amiloidose cardíaca por transtirretina; BNP: peptídeo natriurético tipo B; FFR-CT: reserva de fluxo fracionada derivada de TC; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B; RMC: ressonância magnética cardíaca; TC: tomografia computadorizada.
Tratamento: clínico, grave sintomática, assintomática e moderada
- Nenhum fármaco modifica a história natural. Tratar HAS (preferir bloqueio do SRAA, titulando devagar); melhora clínica não deve atrasar a intervenção na grave sintomática com IC; estatina não previne progressão.
- Biopróteses dominam (sem anticoagulação crônica, durabilidade inversamente proporcional à idade); mecânicas duram mais, mas exigem anticoagulação (tromboembolismo e sangramento) — Figura 8.1.
- Assintomática grave: EARLY TAVR (901): TAVI precoce reduziu morte, AVC e hospitalização CV não planejada em 5 anos; EVoLVeD (fibrose na RMC): sem redução de morte ou hospitalização; RECOVERY (muito grave): menos morte CV com cirurgia precoce; AVATAR: menos desfechos compostos. Metanálise: menos hospitalização CV, IC e AVC, sem efeito em mortalidade (heterogeneidade). Precoce em selecionados de baixo risco com marcadores de alto risco, no Heart Team.
- Moderada: troca isolada não indicada; considerar se concomitante a CRM, aorta ou outra valva. TAVR UNLOAD (moderada + ICFEr): sem redução de desfechos maiores, mas melhor qualidade de vida. Desigualdade de acesso à TAVI; encaminhamento tardio frequente.
Tipo de prótese (8.3.13)
Recomenda-se o uso de prótese mecânica em pacientes mais jovens, tipicamente com menos de 60 anos, devido à sua maior durabilidade.
Recomenda-se o uso de bioprótese em pacientes com mais de 65 anos, nos quais sua durabilidade tende a ser suficiente ao longo da expectativa de vida, evitando a necessidade de anticoagulação oral crônica.
Sugere-se que a escolha entre prótese mecânica e bioprótese em pacientes entre 60 e 65 anos seja individualizada por meio de decisão compartilhada entre a equipe assistencial e o paciente, considerando expectativa de vida, risco de reintervenção, risco de sangramento, necessidade e capacidade de manter anticoagulação, comorbidades, estilo de vida e preferências do paciente.
Estenose aórtica grave sintomática (8.4)
Recomenda-se intervenção valvar precoce em pacientes com EAo grave sintomática, expectativa de vida superior a 1 ano e probabilidade razoável de recuperação funcional.
Recomenda-se a substituição valvar aórtica em todos os pacientes sintomáticos elegíveis com EAo grave de alto gradiente (gradiente médio ≥ 40 mmHg, velocidade máxima ≥ 4,0 m/s e área valvar efetiva ≤ 1,0 cm² ou ≤ 0,6 cm²/m²).
Recomenda-se a substituição valvar em pacientes com EAo de baixo fluxo/baixo gradiente e FEVE reduzida, após confirmação de EAo verdadeiramente grave por ecocardiografia de estresse com dobutamina e/ou tomografia computadorizada para quantificação do cálcio valvar.
Recomenda-se tratamento clínico otimizado, sem intervenção valvar, em pacientes com pseudoestenose aórtica.
Sugere-se a substituição valvar em pacientes com EAo de baixo fluxo/baixo gradiente e FEVE preservada (baixo fluxo paradoxal), após confirmação da gravidade da estenose por avaliação multimodal e da relação causal entre os sintomas e a valvopatia.
Recomenda-se seguimento clínico e ecocardiográfico periódico em pacientes com EAo de fluxo normal/baixo gradiente e FEVE preservada, quando a avaliação multimodal não confirmar estenose aórtica verdadeiramente grave.
Estenose aórtica grave assintomática (8.5)
Recomenda-se intervenção valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e fração de ejeção do ventrículo esquerdo < 50%, na ausência de outra causa identificável para a disfunção ventricular.
Sugere-se considerar substituição valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e marcadores prognósticos adversos, incluindo velocidade máxima transvalvar muito elevada (≥ 5,0–5,5 m/s), níveis significativamente elevados de peptídeos natriuréticos, calcificação valvar acentuada ou progressão rápida da estenose.
Recomenda-se vigilância clínica e ecocardiográfica rigorosa em pacientes assintomáticos com EAo grave que não apresentem disfunção ventricular ou marcadores prognósticos adversos que justifiquem intervenção precoce.
Opções de tratamento (8.6.1)
A escolha entre SAVR e TAVI deve ser realizada por decisão compartilhada no contexto do Heart Team, considerando idade, expectativa de vida, durabilidade da prótese, comorbidades, anatomia valvar e vascular e as preferências do paciente.
Sugere-se preferência por TAVI em pacientes mais idosos ou com risco cirúrgico aumentado, enquanto a SAVR permanece preferível em pacientes mais jovens, com baixo risco cirúrgico, maior expectativa de vida ou anatomia desfavorável ao procedimento transcateter.
A escolha do tipo de prótese cirúrgica (biológica ou mecânica) deve ser individualizada, considerando expectativa de vida, risco de anticoagulação, probabilidade de reintervenção e preferências do paciente.
Recomenda-se o uso de bioprótese em pacientes com contraindicação, baixa adesão ou recusa ao uso de anticoagulação oral.
Sugere-se preferência por próteses mecânicas em pacientes mais jovens (tipicamente < 60 anos) sem contraindicação à anticoagulação, considerando sua maior durabilidade.
Sugere-se individualização da escolha entre prótese mecânica ou biológica em pacientes entre 50 e 65 anos, considerando as preferências do paciente e o perfil individual de risco.
Sugere-se preferência por biopróteses em pacientes com mais de 65 anos, considerando a durabilidade esperada da prótese e a possibilidade de evitar anticoagulação oral crônica.
Sugere-se considerar o procedimento de Ross em pacientes jovens selecionados, particularmente quando a anticoagulação é indesejável ou contraindicada, desde que realizado em centros com experiência na técnica.
Sugere-se considerar a valvuloplastia aórtica por balão em situações específicas, como ponte para TAVI ou cirurgia em pacientes com estenose aórtica grave descompensada ou em pacientes que necessitam de cirurgia não cardíaca urgente de alto risco.
EAo: estenose aórtica; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; SAVR: substituição valvar aórtica cirúrgica; TAVI: implante de válvula aórtica transcateter. Nota de fidelidade: na diagramação original, a recomendação sobre valvuloplastia aórtica por balão aparece com força “Condicional” em célula verde.
Prótese cirúrgica, TAVI × SAVR, fragilidade e bicúspide
- Mecânica × biológica na SAVR: decisão compartilhada (valores, expectativa de vida, anticoagulação, reintervenções).
- TAVI é a estratégia predominante para EAo tricúspide na Europa e América do Norte em todos os perfis de risco (não inferior e às vezes superior); ensaios com 70–85 anos, pouca representação < 70 anos. TAVI < 65 anos cresce, com possível maior mortalidade em 5 anos que a cirurgia.
- Fragilidade: determinante central, independente dos escores; mais mortalidade, complicações, internação e pior recuperação. Registro de TAVI: excesso de mortalidade em nonagenários foi não cardiovascular; idade ≥ 90 não foi preditor independente — fragilidade e desnutrição foram.
- Bicúspide: EAo mais precoce, aortopatia. NOTION-2 (baixo risco): mais eventos com TAVI; BIVOLUTX: bons resultados precoces. Metanálises: mais eventos em 2 anos (TAVI 5.901 × SAVR 12.427) e melhor sobrevida tardia com SAVR (15 estudos, 22.085); Medicare: mais morte e AVC em 5 anos com TAVI. Nenhum ECR específico.
- Complicações: TAVI — mais complicações vasculares, regurgitação paravalvar e marcapasso (sobretudo autoexpansíveis), mas recuperação mais rápida; SAVR — mais sangramento maior, LRA e FA nova. Endocardite pós-TAVI: 0,3–2,0/100 pacientes-ano (semelhante à SAVR), alta mortalidade (~2/3 morrem em 5 anos).
- Durabilidade: sem diferença sistemática até 10 anos. Valve-in-valve (TAV-in-SAV, TAV-in-TAV) tem menor risco que redo SAVR, mas mais mismatch (TAV-in-SAV), risco de obstrução coronariana (neo-skirt, seios estreitos, sequestro sinusal) e acesso coronariano difícil; explante cirúrgico de TAVI: mortalidade > 10%.
Escolha da prótese na SAVR (8.7)
A escolha entre prótese mecânica e biológica para substituição valvar aórtica cirúrgica deve ser baseada em decisão compartilhada, considerando valores e preferências do paciente, expectativa de vida, riscos e implicações da anticoagulação oral, além da probabilidade e impacto de reintervenções ao longo do tempo.
Recomenda-se o uso de prótese biológica em pacientes de qualquer idade com contraindicação ao uso de anticoagulantes orais, dificuldade de manejo ou recusa ao uso desses fármacos.
Sugere-se preferência por prótese mecânica em pacientes com menos de 50 anos, na ausência de contraindicação à anticoagulação oral, devido à sua maior durabilidade.
Sugere-se individualização da escolha entre prótese mecânica e biológica em pacientes entre 50 e 65 anos, considerando fatores clínicos, risco hemorrágico, estilo de vida, expectativa de vida e preferências do paciente.
Sugere-se preferência por prótese biológica em pacientes com mais de 65 anos, considerando a menor probabilidade de necessidade de reintervenção ao longo da vida e a possibilidade de evitar anticoagulação oral crônica.
Transcateter × cirúrgica (8.7.1)
Sugere-se utilizar a idade de 70 anos como referência prática para auxiliar na escolha entre TAVI e SAVR, sempre integrada a uma avaliação clínica abrangente.
A decisão entre TAVI e SAVR deve ser individualizada no contexto do Heart Team, considerando expectativa de vida, comorbidades, fragilidade, características anatômicas e implicações do manejo ao longo da vida.
Recomenda-se a realização de angiotomografia computadorizada para planejamento do procedimento e definição da estratégia terapêutica em pacientes candidatos a intervenção valvar aórtica.
Recomenda-se SAVR em pacientes nos quais o acesso transfemoral para TAVI não seja viável.
Sugere-se considerar acessos alternativos para TAVI em pacientes selecionados sem possibilidade de acesso transfemoral, considerando que as evidências disponíveis são predominantemente observacionais.
Recomenda-se preferência por SAVR em pacientes com características anatômicas desfavoráveis ao TAVI, incluindo anel aórtico incompatível com dispositivos disponíveis, calcificação extensa do anel aórtico ou da via de saída do ventrículo esquerdo (com risco aumentado de regurgitação paravalvar ou ruptura) e alto risco de obstrução coronariana.
Sugere-se considerar TAVI em pacientes com condições que aumentem o risco cirúrgico, como aorta em porcelana, deformidades torácicas significativas ou cirurgia prévia de revascularização miocárdica com enxertos pérvios, quando tecnicamente apropriado.
Fragilidade (8.7.2)
Recomenda-se incorporar a avaliação sistemática da fragilidade na tomada de decisão entre TAVI e SAVR, especialmente no contexto da cardiogeriatria.
Sugere-se utilizar instrumentos validados para avaliação de fragilidade, incluindo o fenótipo de Fried, a Escala de Fragilidade Clínica, o EFT e índices multidimensionais que considerem desempenho físico, cognição, funcionalidade e estado nutricional.
Sugere-se a utilização do EFT, quando disponível, devido à sua melhor capacidade discriminativa em comparação com outras escalas de fragilidade.
Sugere-se considerar TAVI em pacientes com fragilidade moderada a grave, quando a intervenção estiver indicada, devido à menor agressão fisiológica e potencial recuperação mais rápida em comparação à cirurgia.
Em pacientes com fragilidade avançada, especialmente quando associada a dependência funcional significativa ou comorbidades graves, sugere-se uma abordagem centrada no paciente, considerando limitação de benefício esperado da intervenção e a possibilidade de cuidados paliativos quando apropriado.
Valva aórtica bicúspide (8.7.3)
Recomenda-se a substituição valvar aórtica cirúrgica como estratégia preferencial para o tratamento da estenose aórtica em valva bicúspide, especialmente em pacientes mais jovens, na presença de aortopatia associada ou de morfologia valvar desfavorável.
Sugere-se considerar o implante transcateter de valva aórtica em pacientes com estenose aórtica em valva bicúspide e risco cirúrgico elevado ou proibitivo, desde que apresentem anatomia favorável e após avaliação individualizada pelo Heart Team.
Durabilidade e reintervenções (8.7.5)
Recomenda-se SAVR como estratégia preferencial em pacientes com menos de 70 anos e baixo risco cirúrgico, considerando aspectos de manejo ao longo da vida e a limitada disponibilidade de dados randomizados nessa população.
Recomenda-se TAVI como modalidade preferencial em pacientes com 70 anos ou mais com estenose aórtica em valva tricúspide, desde que apresentem anatomia favorável e acesso transfemoral viável, visando redução de complicações precoces e recuperação mais rápida.
Recomenda-se que a escolha entre TAVI e SAVR em pacientes candidatos à bioprótese aórtica seja individualizada no contexto do Heart Team, considerando risco procedimental (incluindo anatomia e comorbidades), expectativa de vida, implicações do manejo ao longo da vida, possibilidade e complexidade de futuras reintervenções e preferências do paciente.
EFT: Essential Frailty Toolset; SAVR: substituição valvar aórtica cirúrgica; TAVI: implante transcateter de válvula aórtica. Notas de fidelidade: (1) o limite etário para preferir prótese mecânica aparece como < 60 anos (seção 8.3.13 e 8.6.1) e < 50 anos (seção 8.7) no original; (2) a recomendação SAVR < 70 anos aparece com certeza “Moderada” em célula amarela no original.
Resume as recomendações do capítulo; a decisão é sempre do Heart Team com o paciente e a família.
| Recomendação | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|
| Testes diagnósticos em pacientes com estenose valvar aórtica grave | ||
| Em pacientes com sinais ou sintomas de estenose aórtica ou com valva aórtica bicúspide, o ecocardiograma transtorácico está indicado para o diagnóstico preciso da etiologia, a avaliação da gravidade hemodinâmica e da função sistólica do ventrículo esquerdo e para a determinação do prognóstico e do momento ideal para a intervenção valvar. | Forte | Alta |
| Em pacientes com suspeita de estenose aórtica grave de baixo fluxo e baixo gradiente, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo preservada, recomenda-se a otimização do controle da pressão arterial antes da avaliação da gravidade da estenose por ecocardiograma transtorácico, ecocardiografia transesofágica, cateterismo cardíaco ou ressonância magnética cardíaca. | Forte | Baixa |
| Em pacientes com suspeita de estenose aórtica grave de baixo fluxo e baixo gradiente, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo reduzida, o teste de estresse com dobutamina em baixa dose, associado à avaliação ecocardiográfica ou hemodinâmica invasiva, é razoável para melhor definir a gravidade da estenose e avaliar a reserva contrátil. | Fraca | Baixa |
| Em pacientes com suspeita de estenose aórtica grave de baixo fluxo e baixo gradiente, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo normal ou reduzida, o cálculo da razão entre a velocidade no trato de saída do ventrículo esquerdo e a velocidade transaórtica é razoável para melhor definir a gravidade da estenose. | Fraca | Baixa |
| Em pacientes com suspeita de estenose aórtica grave de baixo fluxo e baixo gradiente, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo normal ou reduzida, a mensuração do escore de cálcio valvar aórtico por tomografia computadorizada é razoável para melhor definir a gravidade da estenose. | Fraca | Baixa |
| Em pacientes assintomáticos com estenose aórtica grave, o teste ergométrico é razoável para avaliar as alterações fisiológicas ao esforço e confirmar sintomas. | Fraca | Baixa |
| Em pacientes sintomáticos com estenose aórtica grave, o teste ergométrico não deve ser realizado para avaliar as alterações fisiológicas ao esforço e confirmar sintomas. | Fraca (contra) | Baixa |
| Pacientes sintomáticos com estenose aórtica grave | ||
| Substituição valvar em pacientes sintomáticos com EAo grave de alto gradiente (gradiente médio ≥ 40 mmHg, Vmax ≥ 4,0 m/s, AVE ≤ 1,0 cm² ou ≤ 0,6 cm²/m²). | Forte | Moderada |
| Substituição valvar em pacientes sintomáticos com EAo de baixo fluxo (IVS ≤ 35 mL/m²), baixo gradiente (< 40 mmHg) e FEVE reduzida (< 50%), após confirmação de gravidade. | Forte | Moderada |
| Substituição valvar em pacientes sintomáticos com EAo de baixo fluxo (IVS ≤ 35 mL/m²), baixo gradiente (< 40 mmHg) e FEVE preservada (≥ 50%), após confirmação de gravidade. | Fraca | Moderada |
| Pacientes assintomáticos com estenose aórtica grave | ||
| Substituição valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e FEVE < 50% sem outra causa. | Forte | Moderada |
| Substituição valvar em pacientes assintomáticos (confirmados por teste de esforço normal, se possível) com EAo grave de alto gradiente e FEVE ≥ 50% como alternativa à vigilância ativa. | Fraca | Alta |
| Substituição valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e FEVE ≥ 50%, se o risco do procedimento for baixo, na presença de um dos marcadores adversos (por exemplo, Vmax > 5 m/s, calcificação grave pela TC associada à progressão da Vmax ≥ 0,3 m/s/ano, BNP/NT-proBNP > 3 vezes o valor normal ou FEVE < 55% sem outra causa). | Fraca | Moderada |
| Substituição valvar em pacientes assintomáticos com EAo grave e queda sustentada na pressão arterial (> 20 mmHg) durante teste de esforço. | Fraca | Baixa |
| Modo de tratamento | ||
| Recomenda-se a substituição valvar em centros especializados no tratamento de valvopatias, que disponham de programas de cardiologia intervencionista e cirurgia cardíaca, de um Heart Team colaborativo e estruturado e de relatórios regulares sobre desfechos clínicos. | Forte | Baixa |
| Recomenda-se definir o modo de substituição valvar com base na avaliação, pelo Heart Team, das características clínicas, anatômicas e procedimentais, considerando o manejo ao longo da vida e a expectativa de vida. | Forte | Baixa |
| Recomenda-se TAVI em pacientes ≥ 70 anos com estenose de valva aórtica tricúspide, se a anatomia for adequada. | Forte | Alta |
| Recomenda-se SAVR em pacientes < 70 anos, se o risco cirúrgico for baixo. | Forte | Moderada |
| Recomenda-se SAVR ou TAVI para os demais candidatos à substituição valvar aórtica, conforme avaliação do Heart Team. | Forte | Moderada |
| O TAVI não transfemoral pode ser considerado em pacientes inadequados para cirurgia e com acesso transfemoral inapropriado. | Fraca | Moderada |
| O TAVI pode ser considerado para o tratamento da estenose grave da valva aórtica bicúspide em pacientes com risco cirúrgico aumentado, se a anatomia for adequada. | Fraca | Moderada |
| A valvuloplastia aórtica por balão pode ser considerada como ponte para SAVR ou TAVI em pacientes hemodinamicamente instáveis ou com EAo grave que necessitem de cirurgia não cardíaca urgente de alto risco. | Fraca | Muito baixa |
| A SAVR é recomendada em pacientes sintomáticos ou assintomáticos com EAo grave submetidos a CRM ou intervenção cirúrgica na aorta ascendente. | Forte | Muito baixa |
| A SAVR pode ser considerada em pacientes sintomáticos e assintomáticos com EAo moderada submetidos a CRM ou intervenção cirúrgica na aorta ascendente. | Fraca | Muito baixa |
AVE: área valvar efetiva; BNP: peptídeo natriurético tipo B; CRM: cirurgia de revascularização miocárdica; EAo: estenose aórtica; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IVS: índice de volume sistólico; NT-proBNP: fragmento N-terminal do pró-peptídeo natriurético tipo B; SAVR: substituição valvar aórtica cirúrgica; TAVI: implante transcateter de válvula aórtica; TC: tomografia computadorizada; Vmax: velocidade máxima do jato transvalvar. Adaptação da Diretriz SBC 2020 e de diretrizes internacionais ao GRADE, considerando fragilidade, expectativa de vida > 1 ano e decisão compartilhada pelo Heart Team.
Fragilidade e doença valvar degenerativa
- Relação bidirecional (inflammaging, estresse oxidativo, disfunção mitocondrial, metabolismo mineral): valvopatia → hipoperfusão e declínio funcional; fragilidade → menor reserva e tolerância hemodinâmica.
- Ir além da idade e de EuroSCORE II/STS: fragilidade, funcionalidade e nutrição — FRAIL, Modified Frailty Index, Essential Frailty Toolset.
- Fragilidade é dinâmica e modificável: pré-habilitação (exercício, nutrição, otimização clínica).
- Transcateter ajuda no maior risco cirúrgico, mas a fragilidade piora desfechos em qualquer estratégia. Pós-procedimento: mobilização precoce, reabilitação, nutrição e prevenção de delirium.
- Reserva funcional e estado nutricional podem determinar o prognóstico mais do que a idade cronológica — foco também em independência e qualidade de vida.
Nonagenário com EAo grave sintomática, anatomia tricúspide e acesso femoral bom, independente, bem nutrido: a idade sozinha não o exclui — a fragilidade e a desnutrição é que predizem mal desfecho. Se o EFT for baixo, TAVI transfemoral (Forte/Alta ≥ 70 anos). Se ele for acamado, com demência avançada, a conversa muda para conforto e cuidados paliativos.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 8.2 a 8.8; Tabela 8.16; Figura 8.1; quadros e tabela de recomendações.
15Síncope no idoso
Diretriz · introdução do capítulo 9 e seção 9.1 (capítulo inédito nesta edição)
Até 45% das quedas não acidentais do idoso podem ser síncope não reconhecida. História, exame com sinais vitais ortostáticos e ECG resolvem ~64% dos casos. Estratifique (FAINT = 0 identifica baixo risco), use o monitor de eventos implantável na síncope recorrente inexplicada e comece o tratamento pela revisão da prescrição.
Arritmias e síncope no envelhecimento
- Fibrose, degeneração do sistema de condução e rigidez favorecem bradi e taquiarritmias (FA, TSV, ventriculares; disfunção sinusal e BAV). O manejo é desafiado por fragilidade, multimorbidade, polifarmácia e alterações farmacológicas.
- Incidência de síncope > 2%/ano após 80 anos; até 40% da população terá um episódio na vida; em institucionalizados, 6–7%/ano (prevalência ~23%). Internação pode passar de 50% nos muito idosos.
- Recorrência 25–35% em 2 anos; consequências: quedas, trauma, fraturas, perda de independência, institucionalização. Mortalidade ~1–2% em 30 dias e 7–10% em 1 ano — maior com cardiopatia estrutural, ECG alterado ou suspeita arrítmica.
Definição, diferenciais e classificação
- Síncope: perda transitória e completa da consciência por hipoperfusão cerebral difusa, de início súbito, curta duração e recuperação espontânea e completa — o mecanismo precisa ser hipoperfusão difusa.
- Mimetizadores: crises epilépticas (confusão pós-ictal prolongada, mordedura da língua, liberação esfincteriana; epilepsia temporal pode até causar bradiarritmias), AVC/AIT, hipoglicemia e hiponatremia, causas psicogênicas.
- Maior desafio: síncope × queda — amnésia do evento, ausência de testemunhas, pródromos atípicos e muitos fatores de queda (marcha, neuropatia, vestíbulo, fraqueza).
- Três categorias: reflexa (vasovagal, situacional — micção, evacuação, tosse, deglutição, exercício —, hipersensibilidade do seio carotídeo, pródromos autonômicos, prognóstico favorável); hipotensão ortostática (hipovolemia, diuréticos, anti-hipertensivos, vasodilatadores, fármacos autonômicos, disautonomias); cardíaca (arritmias, EAo, CMH, IC, isquemia, TEP; súbita, sem pródromos, no esforço ou em repouso — maior relevância prognóstica). No idoso, mais HO e seio carotídeo, e frequentemente mais de um mecanismo no mesmo episódio.
- Insuficiência autonômica: primária (atrofia multissistêmica, Parkinson, demência com corpos de Lewy, falência autonômica pura) ou secundária (DM, amiloidose, autoimunes, hereditárias, deficiência de B12, neurotóxicos, HIV). Investigar a causa (Valsalva, respiração profunda, inclinação, norepinefrina supina/ortostática, exame neurológico); casos complexos em centros especializados, com equipe multidisciplinar.
| Condição | Características e sinais distintivos |
|---|---|
| Crises epilépticas | Diferenciam-se da síncope por sinais como confusão pós-ictal prolongada, mordedura de língua ou incontinência urinária. |
| Acidente vascular cerebral/ataque isquêmico transitório | Podem apresentar colapso súbito ou fraqueza; a presença de déficits neurológicos focais é o fator determinante para o diagnóstico. |
| Alterações metabólicas | Incluem hipoglicemia e hiponatremia, que podem causar tontura e confusão. Exige dosagem laboratorial. |
| Causas psicogênicas | Incluem ataques de pânico e pseudossíncopes. Suspeitar quando o número de síncopes é muito frequente e em pacientes com histórico de doença psiquiátrica. |
| Quedas inexplicadas | Na ausência de uma causa mecânica evidente, toda queda inexplicada em idosos deve motivar investigação para síncope, especialmente quando associada a amnésia do evento, trauma facial, cardiopatia estrutural, hipotensão ortostática ou alterações eletrocardiográficas. |
Avaliação inicial
- História + exame + ECG: causa definida (24%) ou altamente provável (40%) em ~64% dos casos, e base da estratificação de risco.
- Anamnese: posição, refeições, esforço, gatilhos; pródromos (autonômicos → reflexa; palpitações ou ausência → arritmia) e sua duração; testemunhas; recuperação; cardiopatia, arritmias, disautonomia; revisão medicamentosa.
- Exame: cardiovascular completo, neurológico básico e sinais vitais ortostáticos obrigatórios — PA e FC após ≥ 5 min em decúbito, em até 1 min de pé e após 3 min. Queda de PAS ≥ 20 ou PAD ≥ 10 mmHg = hipotensão ortostática, independentemente do aumento da FC.
- ECG obrigatório. Alto risco: BAV de 2º/3º grau, bloqueio bifascicular, bradicardia sinusal persistente < 50 bpm, taquiarritmias (sustentadas ou não), QT longo ou curto, ondas Q, pré-excitação.
| Categoria | Preditores de alto risco |
|---|---|
| História clínica |
|
| Exame físico |
|
| Eletrocardiograma |
|
Recomenda-se a realização de história clínica detalhada e exame físico completo em todos os pacientes com síncope.
Recomenda-se a realização de eletrocardiograma de 12 derivações na avaliação inicial de todos os pacientes com síncope.
Recomenda-se a aferição da pressão arterial e da frequência cardíaca em ortostase em todos os pacientes com síncope.
Recomenda-se a avaliação da causa da síncope e a estratificação do risco de morbimortalidade em curto e longo prazo em todos os pacientes.
A história clínica deve incluir a caracterização das circunstâncias do evento, dos sintomas prodrômicos, das informações de testemunhas e do período de recuperação, bem como a história médica pregressa, a revisão medicamentosa e a história familiar.
O exame físico deve incluir avaliação cardiovascular completa (palpação de pulsos, ausculta cardíaca), exame neurológico básico e medida de sinais vitais ortostáticos.
A pressão arterial e frequência cardíaca ortostáticas devem ser medidas após pelo menos 5 minutos em decúbito dorsal, imediatamente após assumir a posição ortostática (até 1 minuto) e novamente após 3 minutos em pé.
A queda da pressão arterial sistólica ≥ 20 mmHg ou da pressão arterial diastólica ≥ 10 mmHg ao assumir a posição ortostática é diagnóstica de hipotensão ortostática.
Pacientes de baixo risco com suspeita clínica de síncope reflexa ou hipotensão ortostática podem ser conduzidos em nível ambulatorial.
Pacientes de alto risco com suspeita clínica de síncope cardíaca ou causa indeterminada devem ser conduzidos em nível hospitalar.
Exames complementares
- Individualizar pelos achados iniciais; exames indiscriminados são caros e ineficazes.
- ETT se suspeita de cardiopatia estrutural (EAo, CMH, disfunção de VE, valvopatias, tamponamento, dissecção, sobrecarga de VD/TEP): sugere síncope cardíaca em ~48% desses casos; baixo rendimento como triagem sem evidência de cardiopatia.
- Monitorização prolongada conforme frequência dos episódios: Holter 24–48 h, monitor de eventos externo, monitor de eventos implantável (síncope recorrente inexplicada sem alto risco e com alta chance de recorrência, ou alto risco sem causa após avaliação). Diagnóstico em até 55% vs. 19% com estratégia convencional; subutilizado; ótimo no idoso (sem pródromos, amnésia).
- Teste de inclinação: confirma vasovagal; diferencia subtipos de hipotensão (o texto do original diz “hipertensão pulmonar”); ajuda quando a avaliação inicial não define reflexa, HO, POTS ou pseudossíncope; treina reconhecimento de pródromos e manobras; diferencia síncope com movimentos de epilepsia. Massagem do seio carotídeo durante o teste aumenta a acurácia — segura sem estenose carotídea significativa e sem AVC/AIT nos últimos 3 meses.
- Teste ergométrico se síncope durante ou logo após esforço (durante → cardíaca; após → cardíaca ou reflexa). Estudo eletrofisiológico: IAM prévio, cicatriz ou bloqueio bifascicular com síncope inexplicada; não se ECG e função normais.
- Laboratório dirigido (Hb, dímero-D, BNP, troponina, eletrólitos). TC/RM de crânio: rendimento < 0,1% — só com suspeita intracraniana ou trauma. Doppler de carótidas e EEG não são rotina. Doppler transcraniano: insuficiência vertebrobasilar e autorregulação cerebral.
O monitor de eventos implantável deve ser considerado em pacientes com síncope recorrente inexplicada após avaliação inicial completa e exclusão de causas que requeiram intervenção imediata, particularmente quando houver suspeita de arritmia intermitente.
O teste ergométrico deve ser recomendado em pacientes com síncope durante ou imediatamente após o esforço.
O teste de inclinação ortostática deve ser considerado em pacientes com síncope e suspeita de hipotensão ortostática tardia.
O ecocardiograma transtorácico deve ser recomendado em pacientes com suspeita de doença cardíaca estrutural.
A monitorização eletrocardiográfica prolongada pode ser solicitada em pacientes com suspeita de arritmia como causa da síncope.
O teste de inclinação deve ser considerado em pacientes com síncope inexplicada após avaliação inicial, quando houver suspeita de síncope reflexa.
A massagem do seio carotídeo deve ser considerada em pacientes com síncope de etiologia indeterminada compatível com mecanismo reflexo, na ausência de estenose carotídea crítica ou evento cerebrovascular.
O estudo eletrofisiológico deve ser considerado em pacientes com infarto prévio, cicatriz miocárdica ou bloqueio bifascicular, quando a síncope permanecer inexplicada após avaliação não invasiva.
Exames laboratoriais devem ser solicitados com base em achados clínicos específicos (hemoglobina, dímero-D, peptídeo natriurético tipo B, troponina e eletrólitos).
Tomografia computadorizada ou ressonância magnética de crânio não devem ser solicitadas rotineiramente, sendo apropriadas apenas quando houver suspeita de doença intracraniana ou traumatismo craniano.
A ultrassonografia de carótidas não deve ser solicitada na ausência de achados no exame físico compatíveis com estenose carotídea sintomática.
O eletroencefalograma não deve ser solicitado como parte da avaliação básica da síncope, sendo apropriado apenas quando houver suspeita de crise epiléptica.
No original, estas recomendações aparecem como “Forte” (célula verde); a marcação em vermelho (“contra rotina”) foi acrescentada para destacar que se trata de recomendação para não solicitar o exame rotineiramente.
Estratificação de risco: escore FAINT
- Curto prazo depende da causa e da reversibilidade (decide internação); longo prazo, da efetividade do tratamento e da doença de base.
- O Canadian Syncope Risk Score é o mais acurado, mas o FAINT foi desenvolvido para ≥ 60 anos: Failure (IC), Arrhythmia (arritmia prévia), Initial ECG anormal, NT-proBNP elevado, Troponina T de alta sensibilidade elevada; 1 ponto cada; FAINT = 0 = baixo risco de desfechos cardíacos graves em 30 dias.
- Derivação (3.177 idosos, média 73 anos): sensibilidade 96,7% e especificidade 22,2% para 0 vs. ≥ 1. Validação prospectiva (1.263, ≥ 40 anos): sensibilidade 96,7% e VPN 98,8%.
- Escores complementam, mas não substituem, o julgamento clínico (fragilidade, comorbidades, nuances da apresentação).
Os pontos de corte de NT-proBNP e troponina seguem o estudo original (não detalhados na diretriz). O escore complementa a Tabela 9.2 e o julgamento clínico.
A estratificação de risco deve ser realizada em todos os idosos que apresentem síncope ou pré-síncope.
Tratamento
- Tratar a causa; revisar desidratação, polifarmácia, eletrólitos e comorbidades. Reduzir ou trocar fármacos de HO: nitratos, BCCs, alfabloqueadores, alfa/betabloqueadores, diuréticos; e de ação central: tricíclicos, ISRS, antipsicóticos, fenotiazínicos, levodopa. Desprescrever é das principais estratégias.
- Reflexa e HO — não farmacológico primeiro: hidratação, liberar sal (sem contraindicação), manobras de contrapressão (cruzar pernas, contração isométrica, agachar) se houver pródromos e boa função, meias até a coxa ou com compressão abdominal, exercício estruturado/reabilitação autonômica (melhora barorreflexo; força de MMII aumenta volume plasmático e retorno venoso). Tilt training isolado tem baixa adesão; programas combinados são melhores. Evitar refeições volumosas, calor e mudanças posturais bruscas.
- Fármacos (evidência limitada): fludrocortisona (edema, hipocalemia, alcalose, ganho de peso, hipertensão supina); midodrina (agonista α1, não disponível no Brasil); droxidopa (HO neurogênica: Parkinson, falência autonômica pura, atrofia multissistêmica). Cabeceira elevada 10°; hipertensão supina extrema (> 180/110 mmHg): vasodilatador de curta ação ao deitar.
- Marcapasso na reflexa cardioinibitória recorrente, sobretudo nos mais idosos com episódios imprevisíveis e risco de trauma; melhor resultado com assistolia espontânea documentada (pausa sintomática > 3 s ou assintomática > 6 s) no monitor implantável. Cardioneuroablação: promissora, pouca experiência em idosos — centros experientes.
- Objetivo: menos recorrência, mas também menos quedas, trauma, perda funcional e hospitalizações.
A revisão sistemática da farmacoterapia e a identificação de medicamentos potencialmente associados à hipotensão ortostática, pré-síncope e síncope devem ser realizadas em todos os idosos com episódios sincopais.
A redução ou a substituição de medicamentos associados à hipotensão ortostática deve ser considerada sempre que clinicamente possível.
Medidas não farmacológicas, incluindo hidratação adequada, liberalização da ingestão de sódio (na ausência de contraindicações) e orientações comportamentais, devem constituir a primeira etapa do tratamento da síncope reflexa e da hipotensão ortostática.
Manobras de contrapressão física podem ser recomendadas em pacientes com síncope reflexa que apresentam pródromos reconhecíveis e capacidade funcional preservada.
Meias de compressão elástica e/ou compressão abdominal podem ser consideradas em pacientes com hipotensão ortostática sintomática.
Exercício físico estruturado e programas de reabilitação autonômica podem ser considerados para melhorar a tolerância ortostática e reduzir os sintomas.
O treinamento postural passivo (tilt training) pode ser considerado em pacientes selecionados e motivados.
A fludrocortisona pode ser considerada em pacientes com síncope reflexa recorrente ou hipotensão ortostática sintomática refratárias às medidas não farmacológicas.
A midodrina pode ser considerada em pacientes com hipotensão ortostática sintomática persistente apesar das medidas não farmacológicas.
A droxidopa pode ser considerada em pacientes com hipotensão ortostática neurogênica, particularmente quando associada a doenças neurodegenerativas.
Pacientes em uso de fludrocortisona, midodrina ou droxidopa podem ser monitorados quanto ao desenvolvimento de hipertensão supina e de outros efeitos adversos relacionados ao tratamento.
O implante de marca-passo pode ser considerado em casos selecionados de pacientes idosos com síncope reflexa cardioinibitória recorrente e assistolia espontânea documentada durante monitorização prolongada.
A cardioneuroablação pode ser considerada em casos selecionados de síncope reflexa cardioinibitória recorrente, preferencialmente em centros com experiência no procedimento.
Senhora de 86 anos “caiu no banheiro”, não lembra do evento e tem corte no supercílio: trauma facial + amnésia = trate como síncope até prova em contrário. Ortostáticos, ECG (BRE? PR longo?), revisão de doxazosina e tansulosina, FAINT. Se tudo for negativo e houver recorrência, monitor de eventos implantável — ele faz o diagnóstico em até metade dos casos.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, introdução do capítulo 9 e seção 9.1; Tabelas 9.1 e 9.2; Figuras 9.1 e 9.2; quadros de recomendação.
16Bradiarritmias e taquiarritmias no idoso
Diretriz · seções 9.2 e 9.3
Idosos ≥ 75 anos recebem 64% dos marcapassos. Antes de implantar, procure causas reversíveis (fármacos cronotrópicos negativos, potássio, tireoide, isquemia). A idade isolada não exclui marcapasso, TRC ou ablação — a ablação de TRN funciona em 94% dos > 75 anos. Nas ventriculares, o que define o prognóstico é a cardiopatia estrutural.
Bradiarritmias: apresentação e causas
- Fibrose do nó sinusal, do miocárdio atrial e do sistema de condução; disfunção sinusal e BAV predominam na 7ª–8ª décadas (ARIC, CHS, registros).
- Síncope é a manifestação mais impactante; também palpitações (bradi-taqui), intolerância ao esforço, fadiga, angina, oligúria. Incompetência cronotrópica em ~50% das disfunções sinusais. Evolução insidiosa, muitas vezes atribuída ao “envelhecimento” ou à fragilidade; coexistem DAC, IC, valvopatia, doença cerebrovascular e FA.
- Intrínsecas: Lev-Lenègre, cardiomiopatias, infiltrativas (amiloidose, sarcoidose). Extrínsecas: medicamentos (betabloqueadores, verapamil/diltiazem, digoxina, antiarrítmicos), metabólicas (hipercalemia, hipotireoidismo, hipóxia), disautonomia. Corrigir o reversível antes do marcapasso.
| Causas | Detalhamento |
|---|---|
| Causas intrínsecas | |
| Fibrose degenerativa | Doença de Lev-Lenègre |
| Cardiomiopatia | Isquêmica ou não isquêmica |
| Cardiopatia congênita | Defeitos estruturais congênitos |
| Isquemia/infarto | Infarto agudo do miocárdio, isquemia crônica |
| Infecção/inflamação | Doença de Chagas, difteria, endocardite infecciosa, doença de Lyme, miocardite, sarcoidose, toxoplasmose |
| Doenças infiltrativas | Amiloidose, hemocromatose, linfoma |
| Doenças reumatológicas | Artrite reumatoide, esclerodermia, lúpus eritematoso sistêmico |
| Trauma cirúrgico/procedimento | Ablação por cateter, cirurgia cardíaca congênita, miomectomia septal, cirurgia valvar (incluindo implante transcateter de valva aórtica) |
| Causas extrínsecas | |
| Perturbação autonômica | Hipersensibilidade do seio carotídeo, síncope neuromediada/pré-síncope, condicionamento físico, síncope situacional (tosse, defecação, micção, vômito, estimulação glótica, procedimentos médicos), sono (com ou sem apneia do sono) |
| Medicações | Betabloqueadores, bloqueadores de canais de cálcio não di-hidropiridínicos (verapamil, diltiazem), digoxina, antiarrítmicos, lítio, nutracêuticos |
| Distúrbios metabólicos | Acidose, hipercalemia, hipocalemia, hipotermia, hipotireoidismo, hipóxia |
| Distúrbios endócrinos | Doenças tireoidianas (hipotireoidismo e hipertireoidismo), doenças adrenais (feocromocitoma, hipoaldosteronismo) |
| Intoxicações | Mercúrio, cianeto, monóxido de carbono, “mad honey”, nicotina, maconha |
Bradiarritmias: investigação
- ECG de 12 derivações inicial; método de monitorização pela frequência dos sintomas: Holter 24–48 h (sintomas diários; também incompetência cronotrópica em ativos); monitores externos (2–6 semanas) para sintomas menos frequentes; monitor implantável (até 3 anos) se > 30 dias entre episódios e avaliação inconclusiva; teste ergométrico se sintomas ao esforço; estudo eletrofisiológico limitado (síncope recorrente inexplicada, sobretudo com bloqueio de ramo ou cicatriz na RMC).
Recomenda-se a realização do eletrocardiograma de 12 derivações para todos os pacientes com suspeita de bradiarritmia.
Recomenda-se a investigação de causas reversíveis (medicamentos cronotrópicos negativos, distúrbios eletrolíticos, hipotireoidismo) em todos os pacientes com bradicardia.
Recomenda-se a realização de monitorização eletrocardiográfica ambulatorial para estabelecer correlação entre sintomas e bradiarritmia, com o tipo de monitor escolhido com base na frequência e na natureza dos sintomas.
Recomenda-se a realização de Holter 24–48 horas para pacientes com sintomas diários (pré-síncope, síncope, palpitações, dispneia de esforço, fadiga desproporcional).
O Holter 24–48 horas pode ser considerado em pacientes assintomáticos com bradicardia sinusal e/ou bloqueios atrioventriculares.
Um monitor de eventos prolongado (looper externo, Holter de 7 dias) pode ser considerado em pacientes com sintomas semanais a mensais.
Um monitor de eventos implantável (looper) pode ser considerado em pacientes com sintomas infrequentes (> 30 dias entre eventos), suspeita de bradiarritmia e avaliação não invasiva inconclusiva.
O teste ergométrico pode ser realizado em pacientes com sintomas ao esforço e suspeita de incompetência cronotrópica ou bloqueio atrioventricular induzido pelo esforço.
O estudo eletrofisiológico pode ser considerado em casos selecionados com suspeita de bradiarritmia e testes não invasivos inconclusivos, quando o resultado alterar a conduta.
Bradiarritmias: tratamento
- Marcapasso definitivo é o tratamento das bradicardias sintomáticas; no Mobitz II e BAVT, melhora sobrevida e reduz síncope e IC. Indicações iguais às gerais, na ausência de causas reversíveis (medicamentos, IAM inferior, distúrbios eletrolíticos).
- Dupla câmara é o mais usado, sempre que houver correlação síncope–bradiarritmia (disfunção sinusal ou BAV). Sem correlação, segue classe I no BAV avançado (Mobitz II, BAVT) e no bloqueio de ramo com HV ≥ 70 ms. Disfunção sinusal com condução AV preservada: atrial ou dupla câmara em vez de ventricular isolado (sincronismo AV, menos FA e IC).
- CLS (closed loop stimulation): estimulação por bioimpedância/contratilidade, útil na síncope reflexa cardioinibitória com indicação de marcapasso, sobretudo com disautonomia.
- Marcapasso sem cabo-eletrodo (leadless): cápsula no VD via femoral, sem loja nem eletrodos; já indicado após complicações de dispositivos convencionais ou com obstrução venosa crítica; menos complicações (idade média dos estudos ~75–76 anos); a idade isolada ainda não é critério formal. Versões de dupla câmara surgindo.
- TRC: mesmas indicações de qualquer idade. Comorbidades predizem mais complicações que a fragilidade; fragilidade não contraindica, mas entra no risco-benefício. Considerar expectativa de vida, comorbidades e objetivos de cuidado.
Causas potencialmente reversíveis de bradicardia, incluindo o uso de fármacos cronotrópicos negativos, distúrbios hidroeletrolíticos e isquemia miocárdica, devem ser investigadas e corrigidas antes da indicação de marca-passo definitivo.
O implante de marca-passo definitivo está indicado em pacientes idosos com bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz II, bloqueio atrioventricular de alto grau ou bloqueio atrioventricular total não atribuível a causas reversíveis, independentemente da presença de sintomas.
O implante de marca-passo definitivo está indicado em pacientes idosos com disfunção sinusal sintomática (síncope, pré-síncope, tontura, fadiga) documentada por correlação eletrocardiográfica com bradicardia, na ausência de causas reversíveis.
O marca-passo de dupla câmara é preferível ao marca-passo ventricular isolado em pacientes idosos com bloqueio atrioventricular avançado ou disfunção sinusal, com o objetivo de preservar o sincronismo atrioventricular.
Em pacientes idosos com bloqueio de ramo e intervalo HV ≥ 70 ms ao estudo eletrofisiológico, recomenda-se o implante de marca-passo definitivo.
A terapia de ressincronização cardíaca deve ser considerada em pacientes idosos com as mesmas indicações aplicáveis à população geral (insuficiência cardíaca, fração de ejeção reduzida e bloqueio de ramo esquerdo), não devendo a idade, isoladamente, constituir fator limitante.
A idade cronológica isoladamente não deve constituir critério de exclusão para o implante de marca-passo em pacientes idosos com indicação bem estabelecida.
A fragilidade deve ser considerada na avaliação individualizada da relação risco-benefício, mas, isoladamente, não deve contraindicar o implante de marca-passo quando houver indicação clara e expectativa de benefício clínico.
Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares
- > 65 anos: risco 5× maior de TPSV. Extrassístoles atriais em ~86% (60–85 anos); frequentes associam-se a FA, AVC (HR 1,41) e mortalidade (HR 1,26) — reflexo de cardiomiopatia atrial. Taquicardia atrial = 23% das TSV > 70 anos; episódios de TSV em 84,4% (idade média 77) ao monitor, só 13,5% sintomáticos.
- Idosos com TSV têm mais síncope/pré-síncope apesar de FC mais lentas — queda abrupta da PA nos primeiros 10–30 s. Pior tolerância com disfunção diastólica, EAo grave, IC ou DAC.
- Extrassístoles ventriculares em 70–80% > 60 anos, geralmente assintomáticas. O prognóstico depende de cardiopatia estrutural: com IC, a TV passa de 2–4% para 20–80%; carga de EV ≥ 10% prediz IC em 15 anos (especificidade > 90%); EV multifocais e TVNS associam-se a morte e AVC. Sem cardiopatia, prognóstico semelhante ao da população geral. Disfunção de VE ou HVE com arritmia complexa = alto risco de morte súbita mesmo assintomático.
- ECG durante o episódio é a melhor prova de causalidade (fora do evento, rendimento de 3–26%). ETT para cardiopatia estrutural (exame alterado, ECG anormal, síncope, história familiar de miocardiopatia ou morte súbita).
- Monitor conforme frequência: Holter 24 h (diário), monitor externo ou Holter de 7 dias (esporádico), implantável em sintomas raros com instabilidade ou síncope recorrente inexplicada. RMC se suspeita de miocardiopatia arritmogênica, infiltrativa ou miocardite. Estudo eletrofisiológico se monitorização não diagnóstica com alta suspeita (síncope precedida de palpitações, taquicardia de QRS largo indeterminada).
O eletrocardiograma de 12 derivações deve ser realizado em todos os pacientes idosos com suspeita de taquiarritmia, idealmente durante o episódio arrítmico e após a cardioversão.
O ecocardiograma transtorácico deve ser realizado em pacientes com taquiarritmia documentada para avaliar cardiopatia estrutural.
O Holter de 24 ou 48 horas está indicado para pacientes com sintomas frequentes para correlação eletrocardiográfica.
O Holter de 7 dias, o monitor de eventos externo ou os dispositivos vestíveis são indicados para pacientes com sintomas menos frequentes.
O monitor de eventos implantável (looper) deve ser considerado em pacientes com sintomas infrequentes quando houver suspeita de causa arrítmica não esclarecida pela avaliação não invasiva.
O teste ergométrico deve ser considerado em pacientes com taquiarritmias claramente desencadeadas por esforço físico.
A ressonância magnética cardíaca deve ser considerada em pacientes com taquicardia ventricular para avaliação de cardiopatia estrutural e fibrose miocárdica.
O estudo eletrofisiológico está indicado em casos de taquiarritmias recorrentes com monitorização não invasiva inconclusiva ou quando se considera o planejamento terapêutico por ablação.
Tratamento das taquiarritmias
- Princípios iguais aos do jovem, modulados por cardiopatia, multimorbidade, polifarmácia, função, cognição e preferências.
- Taquicardia atrial não sustentada: em geral sem tratamento; tratar a base e gatilhos (cafeína em excesso, tabagismo, β-agonistas de ação rápida). Se necessário: BCC não di-hidropiridínico na DPOC sem disfunção de VE; betabloqueador cardiosseletivo em baixa dose nos demais.
- TPSV sustentada estável: Valsalva modificada primeiro; massagem do seio carotídeo em selecionados (sem estenose carotídea, sem AVC recente); adenosina sob monitorização; depois verapamil/diltiazem ou betabloqueador — com cautela no idoso (hipotensão, BAV, disfunção sinusal oculta). Instável: cardioversão sincronizada 50–100 J (Figura 9.4).
- Ablação é primeira linha na TPSV sintomática recorrente: sucesso > 95%, igual ao do jovem; TRN > 75 anos: sucesso de procedimento único 94,3%, eventos maiores < 3%; idade não é contraindicação. A TRN do idoso tende a ser mais lenta, recorrente e às vezes incessante.
- EV e TVNS sem cardiopatia: sem antiarrítmico; corrigir eletrólitos, isquemia, hipoxemia, hipertireoidismo, estimulantes. Sintomáticas ou com cardiopatia: betabloqueador. TV sustentada instável: cardioversão imediata; estável com cardiopatia: amiodarona (preferida com disfunção de VE/IC) ou sotalol; doses menores e titulação lenta.
- CDI em prevenção secundária (TV sustentada ou FV sem causa reversível) com expectativa de vida > 1 ano e estado funcional compatível. Ablação de TV na TV recorrente, tempestade elétrica ou intolerância (sucesso semelhante, mais complicações).
| Fármaco | Posologia habitual | Principais indicações | Principais cuidados e efeitos adversos |
|---|---|---|---|
| Metoprolol | 12,5–25 mg/dia, podendo titular até 200 mg/dia | Controle de frequência da FA, TPSV e extrassístoles sintomáticas | Bradicardia, hipotensão, fadiga e broncoespasmo. Iniciar com doses baixas e titular lentamente. |
| Bisoprolol | 1,25–2,5 mg/dia, podendo titular até 10 mg/dia | Controle de frequência da FA e TPSV | Bradicardia, hipotensão e fadiga. Menor potencial broncoconstritor. |
| Verapamil | 40–80 mg a cada 8 horas ou 120–240 mg/dia (liberação prolongada) | TPSV e controle de frequência da FA | Hipotensão, constipação, edema periférico, bradicardia e bloqueio AV. Evitar em insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida. |
| Diltiazem | 120–360 mg/dia | TPSV e controle de frequência da FA | Hipotensão, edema periférico e bradicardia. Geralmente mais bem tolerado do que o verapamil. |
| Propafenona | 150–300 mg a cada 8 horas | FA paroxística sem cardiopatia estrutural e TPSV recorrente | Pró-arritmia, bradicardia, tontura, gosto metálico e distúrbios de condução. Contraindicada em DAC ou cardiopatia estrutural significativa. |
| Sotalol | 40–80 mg a cada 12 horas, com ajuste conforme função renal | FA recorrente e algumas taquicardias ventriculares | Bradicardia, hipotensão, prolongamento do QT e torsades de pointes. Requer monitorização do QT e ajuste da dose conforme função renal. |
| Amiodarona | Ataque: 400–600 mg/dia; manutenção: 100–200 mg/dia | FA, flutter atrial, taquicardias ventriculares e pacientes com cardiopatia estrutural | Disfunção tireoidiana, toxicidade pulmonar, hepatotoxicidade, neuropatia, fotossensibilidade e alterações oculares. Requer monitorização periódica. |
| Adenosina | 6 mg EV em bolus rápido; se necessário, 12 mg e, posteriormente, 12 mg | Reversão aguda da TPSV por reentrada | Rubor, dispneia transitória, dor torácica, assistolia transitória e broncoespasmo. Administrar sob monitorização contínua e evitar em bloqueio atrioventricular de segundo ou terceiro grau, doença do nó sinusal, doença pulmonar broncoconstritiva ou broncoespástica conhecida e hipersensibilidade conhecida à adenosina. |
AV: atrioventricular; DAC: doença arterial coronariana; EV: endovenoso; FA: fibrilação atrial; TPSV: taquicardia paroxística supraventricular.
Octogenário com FC 38 e BAV 2:1: antes do marcapasso, cheque o que ele toma (atenolol + colírio de timolol + donepezila?), potássio e TSH. Se persistir sem causa reversível, marcapasso dupla câmara — idade e fragilidade, sozinhas, não contraindicam. Já a senhora de 79 anos com TRN incessante e hipotensão a cada crise é candidata a ablação, não a mais verapamil.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seções 9.2 e 9.3; Tabelas 9.3 e 9.4; Figuras 9.3 e 9.4; quadros de recomendação.
17Fibrilação atrial no idoso
Diretriz · seção 9.4
FA afeta 28,5% dos ≥ 85 anos, e quase 40% deles são frágeis. Triagem oportunística a partir de 65 anos. Com CHA₂DS₂-VA ≥ 2 (todo ≥ 75 anos já tem), anticoagular — idade, fragilidade e quedas não contraindicam. DOAC > varfarina, apixabana em destaque, evitar rivaroxabana como primeira escolha; escore de sangramento alto pede seguimento mais próximo, não suspensão. Controle precoce do ritmo nos sintomáticos com FA recente; idade não exclui ablação.
Epidemiologia e fragilidade
- Arritmia mais prevalente no idoso: 6,4% (65–69 anos) → 28,5% (≥ 85 anos). Framingham (1958–2007): incidência ajustada de 3,7 → 13,4/1.000 pessoas-ano (homens) e 2,5 → 8,6 (mulheres). Prevalência global dobrou de 1990 a 2019 (59,7 milhões); nos EUA, aumento de 2,5× até 2050, com > 50% dos pacientes com ≥ 80 anos.
- Fragilidade em 39,7% dos pacientes com FA; a FA acelera a progressão da fragilidade, que coexiste com déficit cognitivo e dependência.
Definição, classificação e diagnóstico
- ECG: RR irregulares (com condução AV preservada) e ausência de P definidas, com ondas f.
- FA clínica: registrada em ECG de 12 derivações ou de derivação única por ≥ 30 s, validada por médico (sintomática ou não). FA subclínica: sem sintomas, com registro de ritmo atrial acelerado por eletrodo de dispositivo implantável ou registro sugestivo em monitor implantável/vestível com duração < 30 s — fora dos grandes estudos: conduzir com cautela e individualizar.
- Duração: paroxística (< 7 dias), persistente (> 7 dias e < 1 ano), persistente de longa duração (> 1 ano, com estratégia de ritmo), permanente (decisão de não reverter) e pós-ablação (Figura 9.5).
- Monitorização: Holter de 1–7 dias, monitor externo loop (1–4 semanas), vestíveis (relógios, aplicativos), dispositivos implantáveis (monitores, marcapassos).
- Fatores: idade, sexo masculino, genética (> 160 mutações); HAS, IC (risco 4–6×), DM, refluxo, hipertireoidismo, infecções; obesidade, sedentarismo, apneia do sono, álcool, tabagismo. Cafeína moderada não faz mal.
- No idoso, 10–40% são assintomáticos; > 80 anos, palpitação em só 1 de cada 10; predominam fadiga, dispneia e tontura; a apresentação inicial pode ser AVC, embolia sistêmica ou IC.
Triagem
- STROKESTOP (28.768 suecos de 75–76 anos): mais detecção e pequena redução do desfecho composto. LOOP (6.004, 70–90 anos, monitor implantável): detecção HR 3,17, sem redução significativa de AVC. GUARD-AF (11.905, ≥ 70 anos, patch 14 dias): FA 5% vs. 3,3%, sem redução de hospitalização por AVC (interrompido pela pandemia).
- Diretrizes: triagem oportunística ≥ 65 anos; considerar sistemática ≥ 75 anos ou alto risco de AVC.
- Pulso radial: sensibilidade 87–100% (especificidade menor); ECG de 12 derivações = padrão-ouro; ECG de derivação única: sensibilidade 88–99%, especificidade 76–100%. Detecção cresce com o tempo: Holter 24 h 2,2%; monitor externo 7,4% (1 semana) e 14,8% (4 semanas); implantável 30–32% em 3 anos (vs. 3–12%); relógios: sensibilidade 94%, especificidade 93–96% (exigem confirmação).
- Frágeis: sem recomendação específica — pesar expectativa de vida, sangramento, adesão e preferências; em muito frágeis, a triagem pode não ser apropriada.
Recomenda-se a triagem oportunística para fibrilação atrial, por meio da palpação do pulso ou do ECG de 12 derivações, em indivíduos com idade ≥ 65 anos.
O ECG de superfície e a monitorização eletrocardiográfica com Holter de 24–72 horas podem ser realizados na avaliação de pacientes com AVC isquêmico ou embolia sistêmica e fatores de risco para fibrilação atrial.
A estratégia de rastreamento sistemático para detecção de fibrilação atrial deve ser individualizada de acordo com a suspeita clínica e o perfil de risco cardiovascular do paciente.
A monitorização eletrocardiográfica prolongada com monitor externo de eventos (2–4 semanas) ou dispositivo implantável pode ser utilizada em pacientes com AVC isquêmico criptogênico.
O monitor cardíaco implantável pode ser considerado em pacientes com AVC isquêmico criptogênico quando a monitorização externa prolongada for inconclusiva.
Em idosos frágeis, a decisão sobre o rastreamento de fibrilação atrial deve ser individualizada, considerando a expectativa de vida, o risco hemorrágico, a capacidade de adesão ao tratamento e as preferências do paciente.
AVC: acidente vascular cerebral; ECG: eletrocardiograma; FA: fibrilação atrial.
Anticoagulação
- Indicar pelo risco tromboembólico, não pela idade; idade avançada, fragilidade ou risco de quedas, isoladamente, não contraindicam. DOACs preferidos (menos hemorragia intracraniana). Individualizar com função, cognição, sangramento, expectativa de vida e preferências.
- CHA₂DS₂-VA: ferramenta mais validada; ≥ 75 anos = 2 pontos só pela idade → praticamente todos têm indicação. GARFIELD-AF estima AVC, sangramento e mortalidade em 2 anos (útil em multimórbidos) — Figura 9.6.
- Sangramento: HAS-BLED (acurácia modesta no idoso); A4C — desenvolvido para > 80 anos em DOAC (idade ≥ 85, anemia, albumina baixa, amiodarona, clearance baixo; ≥ 2 = alto risco); DOAC Score — melhor que HAS-BLED em usuários de DOAC. Nenhum incorpora fragilidade (Figura 9.7).
- Escore alto não contraindica: indica reavaliação em ~4 semanas (em vez de 4–6 meses) e correção de fatores modificáveis (PA, função renal, AINEs, álcool).
- Metanálise de octogenários (147.067): DOAC vs. varfarina — AVC RR 0,72; mortalidade RR 0,82; hemorragia intracraniana RR 0,47; sangramento maior e GI sem diferença. COMBINE-AF (frágeis ≥ 75 anos em varfarina): troca para DOAC reduziu AVC/embolia, sangramento fatal e intracraniano e morte, com mais sangramento GI (HR 1,83).
- Apixabana superior à varfarina em eficácia e segurança em qualquer idade (incluindo ≥ 80). ELDERCARE-AF (≥ 80 anos sem condição para dose padrão): edoxabana 15 mg/dia vs. placebo — AVC/embolia 2,3% vs. 6,7% (HR 0,34), sem aumento significativo de sangramento maior, independentemente da fragilidade. Rivaroxabana: 60% mais sangramento GI e intracraniano que a apixabana → evitar como primeira escolha.
- Função renal define dose e contraindicações; adesão e decisão compartilhada são essenciais.
Na Figura 9.6 a interpretação do CHA₂DS₂-VA traz “≥ 1 ponto: anticoagulação oral recomendada”; o quadro de recomendações da diretriz indica anticoagulação para CHA₂DS₂-VA ≥ 2 (Forte/Alta). Esta página segue o quadro de recomendações e mostra as duas leituras na calculadora.
A Figura 9.7 lista as alterações renal e hepática numa mesma linha (1 ponto); na versão original do escore, valem 1 ponto cada. Escore alto não contraindica a anticoagulação.
Recomenda-se anticoagulação oral para pacientes idosos com FA e CHA₂DS₂-VA ≥ 2 para prevenção de AVC e tromboembolismo sistêmico.
Os DOACs são preferíveis à varfarina em idosos sem estenose mitral moderada ou grave ou prótese valvar mecânica, devido à redução da mortalidade, de AVC e de hemorragia intracraniana.
A apixabana apresenta perfil superior de eficácia e segurança em pacientes ≥ 80 anos, com redução de AVC/embolia sistêmica e de sangramento maior, em comparação com a varfarina.
A decisão de anticoagular pacientes idosos frágeis deve ser individualizada por meio de avaliação geriátrica abrangente, considerando a relação risco-benefício; entretanto, a fragilidade isoladamente não contraindica a anticoagulação.
Os escores de risco hemorrágico HAS-BLED, A4C ou DOAC Score podem ser utilizados para identificar fatores de risco modificáveis e determinar a frequência das reavaliações clínicas, mas não para contraindicar a anticoagulação.
A rivaroxabana deve ser evitada em adultos ≥ 65 anos com FA devido às maiores taxas de sangramento em comparação com outros DOACs, exceto quando a administração em dose única diária puder melhorar a adesão ao tratamento.
A edoxabana 15 mg/dia pode ser considerada em pacientes muito idosos (≥ 80 anos) para os quais a anticoagulação em dose padrão seja contraindicada.
A aspirina, isoladamente ou em combinação com clopidogrel, não é recomendada como alternativa à anticoagulação em idosos com FA.
AVC: acidente vascular cerebral; DOAC: anticoagulante oral direto; FA: fibrilação atrial. A recomendação sobre aspirina aparece como “Forte” no original; a marcação em vermelho destaca que se trata de recomendação contra o uso.
- Alternativa na contraindicação absoluta à anticoagulação (hemorragia intracraniana, sangramento maior recorrente): ~90% dos trombos da FA não valvar vêm do apêndice; percutânea ou cirúrgica concomitante.
- Factível e segura ≥ 75 anos (eventos adversos 12–13%, semelhantes aos mais jovens). Mas ECR recente não mostrou não inferioridade versus o melhor tratamento médico (incluindo anticoagulação) em alto risco de AVC e sangramento, sem reduzir sangramento maior → reservar para contraindicação genuína, com decisão multidisciplinar.
Ritmo × frequência
- Estudos clássicos: sem superioridade do ritmo em mortalidade/MACE → frequência como estratégia inicial plausível. Metanálise (18 ECRs, 17.536): ritmo reduziu morte CV, AVC e hospitalização por IC, sobretudo com ablação. EAST-AFNET 4: controle precoce do ritmo reduziu morte CV, AVC e hospitalização por IC ou SCA na FA recente — o ritmo pode modificar a história natural.
- No idoso: ritmo nos sintomáticos, FA recente, IC ou para frear a progressão; idade não exclui ablação.
- Frequência: betabloqueador (DAC, ICFEr) ou diltiazem/verapamil (DPOC sem disfunção, FEVE > 40%); digoxina adjuvante (IC), pouco eficaz no esforço e com risco de intoxicação. Meta leniente < 100–110 bpm em assintomáticos com FE preservada; < 80 bpm se sintomas, piora da função ou suspeita de taquicardiomiopatia. Refratários: ablação do nó AV + marcapasso.
- Ritmo: amiodarona mais usada (eficaz, pouco inotrópica negativa; preferida com disfunção de VE/IC); sotalol e propafenona selecionados. CABANA: ablação > fármacos na manutenção do sinusal (recorrência 49,9% vs. 69,5%; HR 0,52) e em morte ou hospitalização CV (HR 0,83), sem redução isolada de mortalidade por intenção de tratar. ≥ 65 anos: ablação −24% de recorrência, menos cardioversão, hospitalização por IC e AVC; complicações 5,9%. Muito idosos e frágeis pouco representados.
Escolha entre ritmo e frequência
O controle precoce do ritmo (dentro de 1 ano do diagnóstico) deve ser considerado em pacientes idosos sintomáticos com fibrilação atrial recente, com o objetivo de reduzir morte cardiovascular, acidente vascular cerebral e hospitalização por insuficiência cardíaca ou síndrome coronariana aguda.
O controle da frequência é apropriado como estratégia inicial em pacientes idosos assintomáticos ou minimamente sintomáticos, com múltiplas comorbidades ou expectativa de vida limitada.
A escolha entre controle do ritmo e controle da frequência deve ser individualizada, considerando sintomas, comorbidades, funcionalidade, fragilidade, expectativa de vida e preferências do paciente.
A idade cronológica, isoladamente, não deve ser utilizada para excluir estratégias de controle do ritmo, incluindo a ablação por cateter.
Controle da frequência
Betabloqueadores ou bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropiridínicos (diltiazem ou verapamil) são recomendados como terapia de primeira linha para o controle da frequência.
Uma meta leniente de frequência cardíaca (100–110 bpm em repouso) é adequada para pacientes assintomáticos com função ventricular preservada.
Uma meta mais rigorosa de controle da frequência cardíaca (80 bpm em repouso) pode ser considerada em pacientes com sintomas persistentes, deterioração da função ventricular ou suspeita de cardiomiopatia induzida por taquicardia.
A digoxina pode ser utilizada como terapia adjuvante quando o controle da frequência não for alcançado com outros agentes, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca, mas seu uso requer cautela devido ao risco de intoxicação.
A ablação do nó atrioventricular com implante de marca-passo deve ser considerada em casos refratários ao tratamento farmacológico otimizado.
Controle do ritmo
A amiodarona é preferível em pacientes com disfunção ventricular esquerda ou insuficiência cardíaca devido à sua eficácia e ao menor efeito inotrópico negativo.
Sotalol e propafenona podem ser considerados em pacientes selecionados, respeitando-se as contraindicações e as funções cardíaca, renal e hepática.
Os antiarrítmicos devem ser iniciados em doses menores, com titulação gradual em idosos, devido às alterações farmacocinéticas, à redução das funções renal e hepática e ao maior risco pró-arrítmico.
A ablação por cateter deve ser considerada em pacientes idosos sintomáticos com fibrilação atrial recorrente, impacto na qualidade de vida e falha ou intolerância ao tratamento farmacológico.
A ablação por cateter pode ser realizada com segurança razoável em idosos selecionados, com melhora da qualidade de vida e redução da recorrência de fibrilação atrial, da necessidade de cardioversão elétrica, das hospitalizações por insuficiência cardíaca e da ocorrência de acidente vascular cerebral isquêmico.
A decisão pela ablação em idosos deve considerar fragilidade, estado funcional, carga de comorbidades, expectativa de vida e objetivos do cuidado, e não apenas a idade cronológica.
A ablação por cateter não deve ser realizada em pacientes com cardiomiopatias infiltrativas avançadas (amiloidose), estenose ou regurgitação mitral grave ou cor pulmonale, devido à baixa probabilidade de sucesso.
bpm: batimentos por minuto.
Idosa de 88 anos, FA permanente, CHA₂DS₂-VA 5, duas quedas no ano, clearance 32, Hb 10,8: A4C alto e HAS-BLED 3 não tiram a anticoagulação — mudam o seguimento (revisão em 4 semanas), corrigem o que dá (AINE, PA, anemia) e orientam a escolha: apixabana. Se nem a dose padrão for possível, edoxabana 15 mg (ELDERCARE-AF). AAS não é alternativa.
Fonte: Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026, seção 9.4; Figuras 9.5 a 9.7; quadros de recomendação.
🎯Treino e desempenho
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Modo prova
Casos sorteados de todas as seções. A correção só aparece no fim.
Revisão das erradas
Refaça só os casos que você errou (ou deixou em branco na prova). Acertou, sai da lista.
Por seção
Treine um tema específico, com os casos em nova ordem.
Flashcards
Cartões curtos com os números e critérios que mais caem. Toque no cartão para virar; marque “Sabia” ou “Revisar depois” — os de revisão voltam na mesma rodada e ficam salvos para depois.
🎓Desafio final — 20 casos integradores
Casos que cruzam capítulos: fragilidade, polifarmácia, risco cirúrgico, coronárias, insuficiência cardíaca, valvas e arritmias no mesmo paciente idoso. Escolha uma alternativa e leia o comentário completo.