Revisão comentada · Dr. Guilherme Moura · Baseada na diretriz oficial da Sociedade Brasileira de Cardiologia
Diretriz SBC sobre diagnóstico e tratamento da cardiomiopatia hipertrófica
Revisão prática e interativa, organizada pelas perguntas que surgem no consultório: diagnostiquei CMH — o que peço? Para todos? Ressonância para todo mundo? Teste de esforço? Como tratar? Quando usar o mavacanteno? Quem precisa de CDI? Cada pergunta é respondida no ponto adequado do texto, ao lado das recomendações oficiais com classe e nível de evidência.
- Sociedade
- SBC · DEIC/GEMIC
- Ano
- 2024
- Recomendações
- 102
- Perguntas
- 27
- Casos
- 100
- Figuras
- 20
“Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024” (Fernandes F, Simões MV et al.; DEIC e GEMIC da SBC). Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240415.
Primeira diretriz brasileira dedicada exclusivamente à cardiomiopatia hipertrófica (CMH), elaborada pelo Departamento de Insuficiência Cardíaca (DEIC) e pelo Grupo de Estudos de Miocardiopatias (GEMIC) da SBC. O título oficial traz o ano 2024 (Arq Bras Cardiol, volume 121, número 7); é comum encontrá-la citada como “diretriz de 2025” por causa da data de circulação.
Novidades em relação à prática anterior: incorporação dos inibidores da miosina cardíaca (mavacanteno, aprovado pela ANVISA em 02/01/2023), novos fatores de risco de morte súbita (FE < 50%, aneurisma apical, realce tardio ≥ 15%), algoritmo de CDI estratificado por idade, ablação septal por radiofrequência e anticoagulação na FA independente do CHA2DS2-VASc.
Material educacional baseado na diretriz oficial. Não substitui julgamento clínico individualizado. Doses e contraindicações devem ser conferidas em bula. Onde esta revisão vai além do texto da diretriz, isso aparece marcado como 🎓 Interpretação didática.
Classe de recomendação (cores clínicas):
Nível de evidência (cores do site, sem relação com a classe):
Três camadas estão sempre separadas: Recomendação formal (transcrição do texto oficial, com classe e nível) · 📖 Texto de suporte (síntese fiel do documento) · 🎓 Interpretação didática (leitura prática do autor desta revisão). As 🩺 Perguntas práticas (borda azul) respondem às dúvidas de consultório no ponto do texto em que a diretriz trata do assunto.
| Categoria | Definição |
|---|---|
| Classes (graus) de recomendação | |
| Classe I | Condições para as quais há evidências conclusivas ou, em sua ausência, consenso geral de que o procedimento é seguro e útil/eficaz. |
| Classe IIa | Condições para as quais há evidências conflitantes e/ou divergência de opinião sobre segurança e utilidade/eficácia do procedimento; peso ou evidência/opinião a favor do procedimento. A maioria dos estudos/especialistas aprova. |
| Classe IIb | Condições para as quais há evidências conflitantes e/ou divergência de opinião sobre segurança e utilidade/eficácia do procedimento. Segurança e utilidade/eficácia menos bem estabelecida, não havendo predomínio de opiniões a favor. |
| Classe III | Condições para as quais há evidências e/ou consenso de que o procedimento não é útil/eficaz e, em alguns casos, pode ser prejudicial. |
| Níveis de evidência | |
| Nível A | Dados obtidos a partir de múltiplos estudos randomizados de bom porte, concordantes e/ou de metanálise robusta de estudos clínicos randomizados. |
| Nível B | Dados obtidos a partir de metanálise menos robusta, a partir de um único estudo randomizado ou de estudos não randomizados (observacionais). |
| Nível C | Dados obtidos de opiniões consensuais de especialistas. |
Na diretriz, a Tabela 1 é um quadro de texto (não uma figura); aqui está reproduzida integralmente em formato de tabela.
📚 Siglas usadas nesta revisãoAbrir lista de siglasVer
ACO, anticoagulante oral · AE, átrio esquerdo · ASA, ablação (alcoolização) septal com álcool · AVC, acidente vascular cerebral · AVK, antagonista da vitamina K · BAV, bloqueio atrioventricular · BCCND, bloqueador dos canais de cálcio não di-hidropiridínico (verapamil, diltiazem) · BNP/NT-proBNP, peptídeo natriurético tipo B / porção N-terminal · BRA, bloqueador do receptor AT1 da angiotensina II · BRE, bloqueio de ramo esquerdo · CDI, cardiodesfibrilador implantável · CF, classe funcional (NYHA) · CMH, cardiomiopatia hipertrófica · CRT, terapia de ressincronização cardíaca · DAE, diâmetro do átrio esquerdo · DAV, dispositivo de assistência ventricular · DOAC, anticoagulante oral direto · ECG, eletrocardiograma · ETE/ETT, ecocardiograma transesofágico/transtorácico · FA, fibrilação atrial · FE/FEVE, fração de ejeção (do VE) · FV, fibrilação ventricular · G+/F−, genótipo positivo/fenótipo negativo · GLS, strain longitudinal global · HVE, hipertrofia ventricular esquerda · IC, insuficiência cardíaca · iSGLT2, inibidor do SGLT2 · MS/MSC, morte súbita/morte súbita cardíaca · MSA, movimento sistólico anterior da valva mitral · NYHA, New York Heart Association · OTSVE, obstrução do trato de saída do VE · PCR, parada cardiorrespiratória · PN, peptídeos natriuréticos · RF, radiofrequência · RM, regurgitação mitral · RMC, ressonância magnética cardiovascular · SARC+/SARC−, CMH com/sem mutação sarcomérica · TC, tomografia computadorizada · TcAS, troponina cardíaca de alta sensibilidade · TMO, tratamento médico otimizado · TRS, terapia de redução septal · TSVE/VSVE, trato/via de saída do VE · TVNS/TVS, taquicardia ventricular não sustentada/sustentada · VD/VE, ventrículo direito/esquerdo.
Mantidas como estão no PDF e sinalizadas aqui; a página reproduz cada recomendação exatamente como publicada.
- BCCND (verapamil/diltiazem): o texto da seção 4.1.1.1 diz “Classe I, nível de evidência C”; a Tabela 12 traz Classe I, nível B.
- Mavacanteno: o texto diz FEVE ≥ 55% e gradiente de 50 mmHg; a Tabela 12 diz gradiente > 50 mmHg e FEVE > 55%; a Figura 14 usa FEVE ≥ 55%.
- Fatores de risco de morte súbita: a Tabela 17 e a Figura 18 usam idade “< 40 anos”, FE “< 50%” e TVNS “≥ 3 episódios, ≥ 10 batimentos, ≥ 200 bpm”; a Tabela 18 usa “≤ 40 anos”, FE “≤ 50%” e TVNS “> 3, > 10, FC > 200”.
- CDI em prevenção secundária: o texto da seção 4.2.6 diz “Classe I, nível de evidência A”; a Tabela 18 traz I B. A Figura 18 escreve “CDI deve ser considerado 2b” para TVNS com idade > 40 anos, enquanto a Tabela 18 diz “pode ser considerado”.
- Limiar de gradiente para redução septal: “> 50 mmHg” na Tabela 14 e “≥ 50 mmHg” na Tabela 16 (ablação por RF).
- Tabela 7: a frase introdutória do texto diz “recomendações para o emprego da RMC”, mas a tabela trata da tomografia.
- Tabela 29 (gravidez): a cardioversão elétrica aparece como “Classe II”, sem especificar IIa ou IIb (mantida como “II”, em cinza).
- Frequência da obstrução: ≈ 75% dos pacientes na seção 2.5 e ≈ 2/3 na seção 3.4.
- Figura 16: o fluxograma traz “Gradiente VSVD > 100 mmHg” no ramo que favorece a miectomia; pelo contexto, refere-se à via de saída do VE.
- Figura 19: as duas caixas de fenótipo estão rotuladas “Forma não obstrutiva”; pelo conteúdo (inotrópicos negativos e terapias de redução septal), a da esquerda corresponde à forma obstrutiva.
- Seção 4.8.1.1 (crianças): o texto cita “idade maior que 30 anos” como fator de risco para MSC, em aparente contradição com o restante da seção, que destaca maior risco em adolescentes e adultos jovens.
🩺 Perguntas práticas — roteiro do consultório
Clique na pergunta para ir direto ao ponto do texto em que ela é respondida (a resposta abre automaticamente). Cada resposta traz o que a diretriz diz, com classe e nível de evidência, e — quando necessário — uma interpretação didática claramente identificada.
1 · Acabei de diagnosticar
- Diagnostiquei (ou suspeito de) CMH: quais exames peço? Para todos?
- O ECG normal afasta CMH? O que procurar no traçado?
- Devo pedir BNP/NT-proBNP e troponina?
- O gradiente em repouso veio < 30 mmHg. Encerro a investigação de obstrução?
- Teste ergométrico: peço? Para quem? Ou eco com esforço?
- Ressonância magnética para todo mundo?
- Tem angina: preciso investigar as coronárias? Com qual exame?
- Quando suspeitar que não é CMH sarcomérica (fenocópia)?
2 · Genética e família
- Teste genético para todos os pacientes?
- Como e com que frequência rastrear os familiares?
- Familiar com a mutação e eco normal (G+/F−): o que fazer? Pode fazer esporte?
3 · Tratamento
4 · Morte súbita e arritmias
🔥 O que você precisa lembrar desta diretriz
Síntese das mensagens centrais, organizada em FAZER · NÃO FAZER · CONSIDERAR (cada cartão remete a recomendações formais da página).
Diagnóstico por imagem
Espessura diastólica ≥ 15 mm em qualquer segmento (ou ≥ 13 mm em familiar de paciente com CMH ou com teste genético positivo), sem outra causa que a justifique. ETT inicial é Classe I.
Procurar a obstrução
Gradiente < 50 mmHg em repouso → manobras provocativas (Valsalva/ortostase) (I B) e, se sintomático, eco com esforço (I B). Obstrução: ≥ 30 mmHg; significativa: ≥ 50 mmHg.
RMC na maioria
Classe I para eco inconclusivo, diagnóstico diferencial de fenocópias e aprimorar a estratificação de risco (realce tardio, aneurisma apical).
Estratificar o risco de MS sempre
Na visita inicial e anualmente: PCR/TV/FV, síncope inexplicada, história familiar de MS, HVE ≥ 28 mm, aneurisma apical, FEVE < 50%, TVNS, realce tardio ≥ 15%.
Betabloqueador primeiro
Sintomáticos, obstrutivos ou não: betabloqueador (I B); BCCND se intolerância/ineficácia (I B). Mavacanteno (IIa B) na forma obstrutiva que persiste sintomática.
FA = anticoagular
Um episódio de FA clínica basta: DOAC (1ª linha), independentemente do CHA2DS2-VASc (I B). Aneurisma apical também é indicação (I B).
Antiplaquetário no lugar de ACO
Antiplaquetários não previnem AVC na CMH com FA e devem ser evitados (III B).
Redução septal no assintomático
CMH obstrutiva assintomática com capacidade normal ao exercício: TRS não indicada (III C); troca valvar mitral não é alternativa para aliviar a VSVE (III C).
CDI em G+/F−
Genótipo positivo sem fenótipo: CDI ou fármaco para prevenção primária não recomendados (III C).
Evitar vasodilatadores
Especialmente na forma obstrutiva (IIa C). Digoxina deve ser evitada (pode piorar a obstrução).
Teste genético e família
Teste genético para identificar familiares em risco (IIa B); ETT em todos os parentes de 1º grau (I B).
Centro de referência
Terapias avançadas decididas em Heart Team (I C); TRS em centro com excelência de resultados (I C).
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — síntese do autor a partir das Tabelas 5, 6, 10, 11, 12, 14, 18, 22 e 27.
1Definição, epidemiologia e história natural
A CMH é a cardiopatia genética mais prevalente. A maioria dos portadores é assintomática e tem expectativa de vida normal; a minoria complicada concentra morte súbita, IC e FA — e é ela que a diretriz ensina a identificar.
- A CMH é definida pela presença de hipertrofia do miocárdio, que aumenta a espessura das paredes, sem dilatação ventricular nas fases iniciais, na ausência de outras doenças cardíacas, sistêmicas, metabólicas ou sindrômicas que justifiquem essa alteração.
- O diagnóstico é estabelecido por imagem (ecocardiografia 2D ou RMC): em adultos, espessura diastólica final ≥ 15 mm em qualquer segmento dos ventrículos, ou ≥ 13 mm em familiares de um paciente com CMH ou em conjunto com teste genético positivo.
- Pediatria: os valores devem ser indexados à superfície corporal (z-score). ACC/AHA consideram z-score > 2,5 hipertrofia patológica em crianças assintomáticas sem história familiar; com história familiar positiva, valores acima de 2 desvios-padrão bastam para o diagnóstico precoce. Em adultos, o septo de 15 mm corresponde a z-score de 6 a 7, e o de 13 mm, a 4 a 6.
- Herança autossômica dominante, predominantemente por mutações em genes de proteínas sarcoméricas, com grande diversidade de sintomas, evolução, prognóstico e penetrância.
- Como a obstrução da VSVE está presente ou surge ao longo do tempo na maioria, mas 1/3 permanece não obstrutivo, o comitê recomenda o termo CMH (com ou sem obstrução da via de saída).
- Mecanismos dos sintomas: disfunção diastólica, IC com FE preservada ou reduzida, obstrução da VSVE com ou sem insuficiência mitral significativa, disfunção autonômica, isquemia e arritmias.
- Reportada em 122 países (90% da população mundial). Prevalência clássica (ecocardiográfica) de 1:500; incluindo portadores de variantes patogênicas (G+/F−), 1:200.
- Estimativa de cerca de 400 mil pessoas afetadas no Brasil.
- Pode se manifestar da infância à oitava década. Coortes recentes: cerca de 46% têm evolução benigna, com expectativa de vida normal; o restante pode evoluir com sintomas progressivos ou eventos adversos.
- Eventos principais: morte súbita, isquemia, limitação funcional progressiva (obstrução da VSVE ou disfunção diastólica), disfunção sistólica, FA com risco trombótico e arritmias ventriculares. O risco pode ser maior em quem é diagnosticado cedo ou tem variante sarcomérica patogênica.
- Fatores relacionados à morte súbita citados: idade < 30 anos, MSC abortada, arritmias ventriculares sustentadas, espessura máxima do VE, síncope arrítmica, história familiar de MSC, TVNS, FEVE < 50% e fibrose extensa na RMC (> 15–20%). Em jovens de alto risco, deve ser considerado o CDI.
- IC: em seguimento médio de 6 anos, 17% evoluíram para CF III/IV e 55% permaneceram em CF I; a FA foi a variável mais associada à IC progressiva.
- 30 a 40% terão eventos adversos (morte súbita; sintomas progressivos por obstrução ou disfunção diastólica; IC por disfunção sistólica; FA com AVC). Com terapias contemporâneas, a mortalidade caiu para < 1,0%/ano.

*Com adequada estratificação de risco de morte súbita e implante de CDI, a incidência de morte súbita pode ser reduzida para cerca de 1%. IC: insuficiência cardíaca. Adaptada a partir de Maron et al.
Leitura em texto: portador de CMH → assintomático/não diagnosticado ou diagnóstico definido → evolução benigna/estável (46%; sobrevida semelhante à população geral) ou curso sintomático/complicações: IC progressiva (43%; 90% dos casos de IC são obstrutivos), FA (17%) e arritmia ventricular/morte súbita (6%); a IC pode evoluir para IC avançada (mais comum nos não obstrutivos).

CMH: cardiomiopatia hipertrófica; MS: morte súbita; ECG: eletrocardiograma; ECO: ecocardiograma; RMC: ressonância magnética cardiovascular; TC: tomografia computadorizada.
Diante de todo paciente com CMH, três perguntas organizam a conduta: (1) é obstrutiva ou não (em repouso e sob provocação)? (2) tem sintomas atribuíveis à doença? (3) qual o risco de morte súbita? A primeira e a segunda definem o tratamento dos sintomas (Figuras 13–15); a terceira, independentemente das outras duas, define o CDI (Figura 18).
❓ Pergunta-chaveSepto de 14 mm em um homem de 35 anos sem familiares afetados e sem teste genético: é CMH?Ver resposta
Resposta: pelo critério adulto, não preenche o diagnóstico isoladamente.
O corte é ≥ 15 mm; ≥ 13 mm só vale para familiar de paciente com CMH ou com teste genético positivo. Um septo de 14 mm em indivíduo sem esses contextos pede busca de outras causas (hipertensão, estenose aórtica, membrana subaórtica, coração de atleta) e, se a dúvida persistir, RMC e eventualmente teste genético para aumentar a certeza diagnóstica em hipertrofia limítrofe.
💡 O teste genético pode aumentar a certeza diagnóstica em hipertrofia limítrofe ou moderada, como em atletas ou hipertensos suspeitos de também ter CMH (seção 3.7.1).
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 1, 1.1, 1.2 e 1.3; Figura 1 e Figura Central.
2Quadro clínico e fisiopatologia
Dispneia, dor torácica, palpitações e síncope resultam da interação de seis elementos: obstrução dinâmica da VSVE, isquemia, arritmias, insuficiência mitral, disfunção diastólica e disfunção autonômica.
- Arritmias e síncope: extrassístoles, FA/flutter, TVNS ou TVS; taquicardia paroxística supraventricular quando associada a pré-excitação (que aumenta o risco de FA e síncope). A morte súbita pode ser a primeira manifestação, principalmente no exercício — é a principal causa de morte súbita em atletas. Palpitações, pré-síncope e síncope sugerem arritmia.
- Dor torácica: isquemia por desbalanço oferta/consumo (alterações microvasculares, hipertrofia, estresse parietal, obstrução, compressão de vasos intramurais). Na angina típica, sobretudo em mais velhos e com fatores de risco, é importante excluir doença coronariana epicárdica com angiotomografia ou cineangiocoronariografia (que também mostram ponte miocárdica).
- IC: cerca de 90% dos pacientes com síndrome de IC têm obstrução dinâmica da VSVE (repouso ou esforço). Dispneia de esforço e fadiga predominam; ortopneia e DPN são menos comuns. Predomínio de FE preservada, pacientes mais jovens, menor mortalidade; IC avançada com congestão grave é rara. A obstrução e os sintomas flutuam com posição, hidratação, alimentação, álcool e tudo que aumente contratilidade ou reduza o volume do VE. Na forma não obstrutiva, a evolução costuma ser favorável (transplante em 2–3%).
- Hipercontratilidade: a hipertrofia está ligada ao aumento da ativação da miosina; mutações em diferentes componentes do sarcômero participam desse processo (Figura 2).
- Obstrução dinâmica (2.5): presente em ≈ 75% (repouso ou provocada). Mecanismos: hipertrofia septal com estreitamento do TSVE e fluxo que desloca anteriormente os folhetos mitrais (MSA); alterações da valva mitral e dos músculos papilares (Figura 3). Pico ≥ 30 mmHg classifica como obstrutiva; ≥ 50 mmHg (repouso ou provocado) define obstrução significativa, em que a redução septal pode ser considerada conforme sintomas e refratariedade. Manobras com eco simultâneo (Valsalva, ortostase, nitrito de amilo, exercício) podem ser necessárias quando o gradiente de repouso é ausente ou < 30 mmHg.
- Isquemia (2.6): disfunção microvascular, menor densidade arteriolar, hipertrofia da média arteriolar, pressões intracavitárias elevadas e ponte miocárdica reduzem a oferta; hipertrofia e estado hiperdinâmico aumentam o consumo. Consequências: instabilidade elétrica, fibrose, infarto, aneurisma e disfunção sistólica. Aterosclerose sobreposta piora o prognóstico.
- Arritmias e síncope (2.7): síncope relatada em 16% (inexplicada em 91%); eventos arrítmicos mais frequentes em quem tem síncope (7,7% vs. 3,6%). Outros mecanismos: obstrução (no esforço ou logo após o pico) e vasovagal (com pródromos). Gatilhos de baixo débito: hipovolemia, diuréticos, vasodilatadores, anemia grave. É a extensão (não a mera presença) do realce tardio que se associa a mais TVNS.
- Insuficiência mitral (2.8): ligada ao MSA (jato meso-telessistólico, posterior ou lateral; jatos centrais/anteriores também ocorrem) ou a anomalias primárias (folheto alongado, inserção anômala/deslocamento anterior de papilares).
- Disfunção diastólica (2.9): enchimento dependente da sístole atrial → má tolerância à FA; associação entre fibrose atrial, CMH e FA.
- Disfunção autonômica (2.10): resposta anormal da PA ao exercício, recuperação lenta da FC, vasodilatação comprometida.

Adaptada a partir de Baron e Maron.

Adaptada a partir de Young et al.
❓ Pergunta-chavePor que o paciente obstrutivo piora depois do almoço, após uma taça de vinho ou ao se levantar rápido?Ver resposta
Resposta: porque o gradiente é dinâmico.
A diretriz lista posição, hidratação, alimentação, consumo de álcool e qualquer fator que aumente a contratilidade ou reduza o volume do VE (taquicardia, hipovolemia) como desencadeadores. Menor pré-carga ou pós-carga e maior contratilidade estreitam a via de saída e acentuam o MSA. Isso explica sintomas que variam entre dias ou horas.
💡 Pela mesma razão, vasodilatadores, desidratação e diuréticos em excesso podem precipitar síncope (seção 2.7).
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 2.1 a 2.10; Figuras 2 e 3.
3Exames complementares: visão geral, ECG e biomarcadores
A abordagem diagnóstica usa imagem para identificar o fenótipo — com foco em reconhecer a forma obstrutiva —, apoiada pela história clínica, pelo exame físico, pela história familiar e pela avaliação genética (Figura Central).
🩺 Pergunta práticaDiagnostiquei (ou suspeito de) CMH. Quais exames peço? Para todos?Ver resposta
Resposta curta: para todos: história com heredograma, exame físico, ECG, ecocardiograma completo com manobras provocativas e a estratificação do risco de morte súbita. A maioria também terá indicação de RMC. O restante (eco com esforço, Holter/monitorização prolongada, TC/coronariografia, teste genético, teste cardiopulmonar) depende de sintomas e de dúvidas específicas.
O que a diretriz recomenda formalmente
- ETT na avaliação inicial de todo suspeito Classe IEvidência B — com laudo contendo os itens da Tabela 3.
- ETT com manobras provocativas (Valsalva e/ou ortostase) se gradiente no TSVE < 50 mmHg Classe IEvidência B.
- ETT com esforço se sintomático sem gradiente ≥ 50 mmHg em repouso/manobra Classe IEvidência B; pode ser feito no assintomático Classe IIaEvidência C.
- RMC para eco inconclusivo, diferencial de fenocópias e aprimoramento da estratificação de risco (realce tardio, alterações anatômicas) — todas Classe IEvidência B. Ver “RMC para todo mundo?”.
- Fatores de risco de MS devem ser pesquisados em toda avaliação clínica Classe IEvidência C; se houver dúvida na indicação de CDI, monitorização prolongada (TVNS) e RMC são indicadas Classe IEvidência C.
- TC para avaliação não invasiva de doença coronária e trajeto das coronárias Classe IEvidência B; para dor torácica com risco intermediário de DAC Classe IIaEvidência C.
- Teste genético quando há suspeita de outra condição genética (fenocópia) Classe IEvidência B; para facilitar a identificação de familiares em risco Classe IIaEvidência B.
- Teste cardiopulmonar se sintomas persistentes, para quantificar a limitação e selecionar candidatos a transplante Classe IEvidência B.
Exames sem recomendação formal específica
O ECG aparece na Figura Central e está alterado em até 90% dos pacientes, mas a diretriz não traz tabela de recomendação para ele; o mesmo vale para BNP/NT-proBNP e troponina, descritos como marcadores prognósticos, não diagnósticos (ver pergunta sobre biomarcadores).
- Todos: anamnese dirigida (dispneia, angina, palpitação, síncope — e a circunstância da síncope), heredograma de 3 gerações com MS na família, exame físico, ECG de 12 derivações, ETT completo com Valsalva/ortostase.
- Quase todos: RMC com realce tardio (diferencial de fenocópia + fibrose + aneurisma apical) e Holter de 24 h (TVNS entra no algoritmo de CDI — ver Holter).
- Conforme o caso: eco com esforço (sintomático sem gradiente ≥ 50), angio-TC/cateterismo (angina, fatores de risco, pré-procedimento), teste genético (fenocópia, rastreio familiar), teste cardiopulmonar (sintomas persistentes, IC avançada), laboratório dirigido se houver pista de fenocópia (CPK, transaminases, função renal etc.).
3.1 Eletrocardiografia
- As alterações não têm padrão característico (expressão genética variável), o que inviabiliza caracterizar gravidade pelo ECG. Podem indicar fibrose nas paredes anterior e lateral.
- ECG anormal em 90% dos indivíduos com CMH e em 75% dos familiares assintomáticos, mas as alterações não são específicas. Na pediatria, majoritariamente alterado — nas formas sarcoméricas, antes mesmo da HVE ao eco.
- Padrões de pseudoinfarto (Q proeminentes inferolaterais; R proeminentes precordiais). Critérios de voltagem isolados são raros (2%). Bloqueio completo de ramo é incomum — sugere intervenção prévia para aliviar a obstrução.
- Evolução temporal: inicialmente aumento de voltagem e alterações ST-T; ao longo das décadas, aumento atrial esquerdo e prolongamento do QRS; nas fases tardias, com fibrose significativa, pode surgir BRE. Achados característicos na forma apical (Figura 4).
| Alteração |
|---|
| Desvio do eixo para esquerda; |
| Anormalidades da onda P, refletindo aumento atrial esquerdo ou biatrial e prolongamento da onda P (um preditor de desenvolvimento futuro de fibrilação atrial). |
| Ondas Q rápidas e profundas nas derivações inferiores (DII, DIII, aVF) ou precordiais, mais comuns nas derivações laterais (D1, aVL, V4-V6) associadas a sinais clássicos de hipertrofia ventricular esquerda. |
| Alterações da repolarização com infradesnivelamento do segmento ST (> -0,2 mV) e ondas T negativas profundas (ondas T negativas gigantes); nas derivações laterais é um marcador de CMH apical. |
| O intervalo QTc > 480 ms é mais comum em pacientes com CMH e reflete hipertrofia cardíaca, fibrose e obstrução da via de saída. |

Fonte: Arquivo pessoal dos autores.
🩺 Pergunta práticaO ECG normal afasta CMH? O que procurar no traçado?Ver resposta
Resposta: não afasta. O ECG está alterado em cerca de 90% dos pacientes e em 75% dos familiares assintomáticos — ou seja, uma minoria tem traçado normal, e o diagnóstico é por imagem (eco ou RMC).
Procure (Tabela 2): desvio do eixo para a esquerda; P sugestiva de aumento atrial (P prolongada prediz FA futura); ondas Q profundas e estreitas inferiores/laterais (pseudoinfarto); infradesnível de ST e T negativas gigantes (nas laterais, marcador de CMH apical); QTc > 480 ms.
💡 Pistas de fenocópia no ECG (seção 3.8): PR curto → Fabry; pré-excitação → Danon/PRKAG2 (e Pompe); baixa voltagem desproporcional à espessura e pseudoinfarto → amiloidose. Bloqueio completo de ramo é incomum na CMH e sugere procedimento prévio (ou fibrose em fase tardia).
💡 Na seção 3.4.1, a RMC é indicada no familiar com ECG alterado e ETT aparentemente normal.
3.2 Biomarcadores
- BNP/NT-proBNP podem estar alterados, mas não são específicos para o diagnóstico; correlacionam-se com pior CF e gravidade ao eco (gradiente no TSVE, espessura septal, grau de insuficiência mitral).
- Troponina de alta sensibilidade acima de 0,014 ng/mL em 54% dos portadores (em um estudo), correlacionada à espessura septal e ao diâmetro do AE.
- PN e TcAS são preditores de eventos (morte por todas as causas, morte CV, transplante, hospitalização por IC), mas não predizem morte súbita nem implante de CDI. Metanálise: NT-proBNP e PCR ultrassensível predizem morte CV; TcAS prediz o combinado de IC, arritmias ventriculares malignas e AVC.
🩺 Pergunta práticaDevo pedir BNP/NT-proBNP e troponina?Ver resposta
O que a diretriz diz: não há recomendação formal de dosagem rotineira no diagnóstico. Os biomarcadores não fazem o diagnóstico de CMH e não entram na decisão de CDI (não predizem morte súbita), mas são marcadores prognósticos de morte, transplante e hospitalização por IC.
Há dois cenários em que aparecem de forma explícita:
- Cirurgia não cardíaca de risco intermediário a alto: ECG, BNP ou NT-proBNP e troponina antes da operação, no PO imediato e 1×/dia no 1º e 2º dias Classe IEvidência C (seção 14).
- IC em estágio avançado: BNP e troponina compõem a avaliação na Figura 19 (seção 12).
Um valor basal de NT-proBNP pode servir de referência para seguimento de sintomas e de resposta ao tratamento — mas um BNP normal não “libera” o paciente da estratificação de risco de morte súbita, que segue os fatores da Tabela 17.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seção 3 (introdução), 3.1, 3.2 e 3.8; Tabela 2; Figura 4.
4Ecocardiograma, obstrução da via de saída e rastreio familiar
O ETT é o método fundamental e inicial: faz o diagnóstico, localiza a hipertrofia, mede o gradiente (em repouso e provocado), descreve o aparelho mitral e acompanha a evolução.
4.1 Diagnóstico e técnica (seção 3.3)
- Diagnóstico com espessura diastólica ≥ 15 mm sem condição que justifique a HVE em VE não dilatado; ≥ 13 mm pode ser diagnóstico em pacientes com história familiar de CMH ou mutação conhecida. Crianças: z-score > 2.
- Medidas na diástole, guiadas pelo ECG, no momento do maior diâmetro do VE, evitando cortes oblíquos e a inclusão de cordoalhas e trabeculações.
- Ao identificar HVE, procurar causas que a justifiquem: estenose aórtica, membrana subaórtica, coarctação.
- Contraste tem ainda mais valor em familiares com genética positiva, em alterações sugestivas ao ECG e nas formas apicais.
- Eco 3D correlaciona-se melhor com a RMC para massa e deve ser o método de escolha para essa finalidade, se disponível. Parede livre do VD: subcostal, final da diástole, sem gordura epicárdica.

AE: átrio esquerdo; VE: ventrículo esquerdo; VD: ventrículo direito. Fonte: Arquivo pessoal dos autores.
| Item do laudo |
|---|
| Volume indexado do AE |
| Espessura do SIV, PP |
| Localização dos segmentos com aumento da espessura miocárdica |
| Fração de ejeção ventricular esquerda |
| Descrição de aneurisma apical quando presente |
| Avaliação de strain longitudinal global se disponível |
| Análise da função diastólica |
| Descrição da presença de gradiente intraventricular (em VSVE, médio ventricular ou apical) e mensuração do gradiente em repouso e após manobras provocativas |
| Descrever presença de MSA da VM |
| Descrever anatomia e presença de anormalidades da VM, bem como dos músculos papilares e aparato subvalvar |
| Descrição da insuficiência mitral e mecanismos |
AE: átrio esquerdo; SIV: septo interventricular; PP: parede posterior; VSVE: via de saída ventricular esquerda; MSA: movimento sistólico anterior; VM: valva mitral.
4.2 Função sistólica e diastólica (seções 3.3.1 e 3.3.2)
- FEVE em geral preservada ou hiperdinâmica; < 10% têm FEVE reduzida, e FEVE < 0,50 indica pior prognóstico.
- Strain longitudinal global (GLS): ferramenta promissora no diferencial das fenocópias (sobretudo pela análise visual paramétrica — Fabry e amiloidose) e na estratificação com FEVE preservada; relação inversa entre espessura/fibrose e GLS. Permite identificar aneurisma apical, associado a maior risco de morte súbita (Figuras 6 e 7).
- Disfunção diastólica — parâmetros de maior acurácia: volume do AE > 34 mL/m²; e′ lateral e septal < 8 cm/s; velocidade de RT > 2,8 m/s; E/e′ média > 14. Em casos difíceis, duração de A e Ar (ausentes na FA). Na FA: TD < 150 ms e E/e′ elevada. Insuficiência mitral ≥ moderada pode superestimar velocidades e o AE.
- Padrão restritivo (grau III ou IV) associa-se a pior prognóstico, independentemente da obstrução. Strain atrial pode mostrar alterações precoces (valor potencial para prever FA). O eco sob estresse físico ajuda a revelar disfunção diastólica incipiente, além da obstrução dinâmica.

Fonte: Arquivo pessoal dos autores.

AD: átrio direito; AE: átrio esquerdo; VD: ventrículo direito; VE: ventrículo esquerdo. Fonte: Arquivo pessoal dos autores.
4.3 Obstrução do TSVE e insuficiência mitral (seção 3.4)
- Obstrução dinâmica em ≈ 2/3 dos indivíduos considerando repouso + manobras. Forma obstrutiva: gradiente máximo ≥ 30 mmHg em repouso ou com manobras (Valsalva, esforço).
- Além do septo, o aparelho valvar e subvalvar é decisivo: deslocamento anterior dos papilares, inserção anômala (inclusive direta no folheto anterior ou na VSVE), falsas cordas, cordas secundárias, bandas musculares, alongamento do folheto anterior, hipertrabeculação apical. Anomalias de papilares podem causar obstrução médio-ventricular.
- Fenótipos obstrutivos são mais sintomáticos e associam-se a morte súbita; as manobras (Valsalva, nitrito de amilo quando disponível, estresse físico) desmascaram quase 1/3 dos pacientes.
- Insuficiência mitral: quantificação desafiadora; integrar volume do AE, grau de obstrução e extensão do jato. Jatos de saída > 5,5 m/s devem ser suspeitos de contaminação pela insuficiência mitral. A curva da IM é arredondada e presente na contração isovolumétrica; a da obstrução tem formato em “adaga”, com pico tardio.
🩺 Pergunta práticaO gradiente em repouso veio < 30 mmHg (ou ausente). Encerro a investigação de obstrução?Ver resposta
Resposta: não. Quase 1/3 dos obstrutivos só é identificado com provocação.
- Gradiente < 50 mmHg em repouso → ETT com manobras provocativas (Valsalva e/ou ortostase) Classe IEvidência B.
- Persistindo < 50 mmHg e o paciente for sintomático → ETT com esforço Classe IEvidência B. No assintomático, o eco com esforço pode ser realizado Classe IIaEvidência C.
Classificação: pico ≥ 30 mmHg (repouso ou provocado) = CMH obstrutiva; ≥ 50 mmHg = obstrução significativa — limiar que entra nas indicações de mavacanteno e de redução septal.
💡 Ao medir, diferencie a curva em adaga (obstrução) da curva arredondada da IM; velocidade > 5,5 m/s na via de saída sugere contaminação pelo jato mitral.
🩺 Pergunta práticaTeste ergométrico: peço? Para quem? Ou é melhor o eco com esforço?Ver resposta
O que a diretriz diz: o exame de esforço com recomendação formal na avaliação da CMH é o ecocardiograma com esforço físico — porque o objetivo principal é medir o gradiente provocado (e a função diastólica sob esforço):
- Sintomático sem gradiente ≥ 50 mmHg em repouso/manobra → ETT com esforço Classe IEvidência B.
- Assintomático sem gradiente ≥ 50 mmHg → pode ser realizado Classe IIaEvidência C.
O teste ergométrico convencional não tem recomendação diagnóstica própria. Ele aparece em contextos específicos:
- Prescrição de exercício: a Tabela 24 usa a resposta da PA ao esforço (normal, atenuada < 20 mmHg, queda) e as arritmias induzidas para definir a intensidade; a estratificação “usando escores específicos e parâmetros observados no esforço” é Classe IEvidência C (seção 13).
- G+/F− com história familiar de MS que deseja esporte competitivo: liberação pode ser considerada com teste ergométrico e Holter a cada 1–2 anos Classe IIbEvidência C. Sem história familiar de MS, o G+/F− não precisa de teste ergométrico para avaliar risco (seção 3.7.3).
- Morte súbita: o comportamento da PA no teste ergométrico deixou de ser valorizado como marcador de risco (seção 4.2.5).
O teste cardiopulmonar é recomendado nos sintomas persistentes, para quantificar a limitação e selecionar candidatos a transplante Classe IEvidência B.
Se o serviço tem eco de esforço, prefira-o: responde de uma vez à pergunta da obstrução e ainda fornece capacidade funcional, resposta pressórica e arritmias. O ergométrico isolado serve sobretudo para prescrever exercício e objetivar sintomas, não para diagnosticar ou estratificar morte súbita.
4.4 Rastreio de familiares (seção 3.4.1)
- ETT é o método de escolha no rastreamento, integrado à avaliação clínica e ao ECG. A periodicidade varia com a idade, a patogenicidade do gene e a idade de início dos sintomas nos familiares acometidos (Tabela 4).
- Avaliar a qualquer momento se surgirem dispneia, palpitações, tonturas ou síncope.
- A RMC deve ser reservada, no rastreio, para janela acústica limitada ou para ECG alterado com ETT aparentemente normal.
| Situação clínica | Periodicidade de realização do ETT |
|---|---|
| Crianças e adolescentes com variantes patogênicas E/OU com familiares com início precoce dos sinais e sintomas de CMH | 1 ou 2 anos |
| Crianças e adolescentes sem as condições descritas acima | 2 a 3 anos |
| Adultos | 3 a 5 anos |
| Avaliação clínica, ETT e ECG em qualquer momento na presença de sintomas como dispneia, palpitações, tonturas ou síncope. | |
ETT: ecocardiograma transtorácico; CMH: cardiomiopatia hipertrófica; ECG: eletrocardiograma.
O ETT é recomendado na avaliação inicial de pacientes suspeitos de CMH.
Repetir o ETT é recomendado em pacientes com CMH exibindo mudança do estado clínico ou que tenham apresentado evento clínico ou complicação.
Repetir o ETT é recomendado em pacientes com CMH a cada 1 ou 2 anos, mesmo na ausência de progressão de sintomas ou complicações, para avaliar grau de HVE, obstrução do TSVE, regurgitação mitral e função sistólica do VE.
Realizar o ETT com manobras provocativas (manobra de Valsalva e/ou ortostase) é recomendado nos pacientes com CMH com gradiente no TSVE < 50 mmHg.
Recomenda-se realizar ETT com esforço em pacientes com CMH sintomáticos que não apresentem gradiente do TSVE ≥ 50 mmHg em repouso ou manobra provocativa.
O ETT com esforço pode ser realizado em pacientes com CMH assintomáticos que não apresentem gradiente do TSVE ≥ 50 mmHg em repouso ou manobra provocativa.
O ETT com uso de contraste ecocardiográfico pode ser usado em situações em que o ETT sem contraste é inconclusivo quanto à caracterização da HVE.
O ETE pode ser usado em pacientes com CMH em que o ETT é inconclusivo ou para o planejamento de TRS ou melhor avaliação do aparato valvar mitral.
Recomenda-se a realização de ETE durante a realização de miectomia cirúrgica.
Recomenda-se a realização de ETE ou ETT, com uso de contraste ecocardiográfico, durante procedimento de alcoolização septal, para avaliar o território de irrigação da artéria septal alvo do procedimento.
Recomenda-se realizar o ETT 3 a 6 meses após o TRS para avaliar o resultado do procedimento.
Recomenda-se realizar o ETT em parentes de primeiro grau de pacientes com CMH, como estratégia inicial de screening.
ETT: ecocardiografia transtorácica; ETE: ecocardiografia transesofágica; CMH: cardiomiopatia hipertrófica; HVE: hipertrofia ventricular esquerda; TSVE: trato de saída do ventrículo esquerdo; VE: ventrículo esquerdo; TRS: terapia de redução septal.
O laudo da Tabela 3 é a “lista de verificação” do exame: volume do AE, espessuras e segmentos hipertróficos, FEVE, aneurisma apical, GLS, função diastólica, gradiente (local, repouso e provocado), MSA, anatomia mitral/papilar e mecanismo da IM. Cada item alimenta uma decisão (FA, CDI, mavacanteno, tipo de redução septal).
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 3.3, 3.3.1, 3.3.2, 3.4 e 3.4.1; Tabelas 3, 4 e 5; Figuras 5, 6 e 7.
5Ressonância magnética cardíaca e tomografia
A RMC confirma o diagnóstico quando o eco não basta, diferencia fenocópias e, sobretudo, caracteriza o tecido: o realce tardio e o aneurisma apical entraram no algoritmo de morte súbita.
5.1 Ressonância magnética cardíaca (seções 3.5 e 3.10)
- Boa resolução temporal e espacial e elevada resolução de contraste (perfusão, edema, fibrose). Identifica formas não convencionais (apical, hipertrofias localizadas) e defeitos adicionais como aneurisma de ponta; alta reprodutibilidade para volumes, massas, espessuras e função de ambos os ventrículos; técnicas dinâmicas estimam o gradiente na VSVE (Figura 8).
- Útil em ecocardiogramas inconclusivos ou conflitantes e para detalhar anatomia (implante anormal de papilares, extensão dos folhetos, inserção direta de papilares na mitral, feixes acessórios, bandas) — relevante em candidatos a tratamento cirúrgico/intervencionista.
- Disfunção contrátil com dilatação marca pior prognóstico; discinesias, aneurismas apicais e segmentos afilados (muitas vezes com fibrose) são vistos de modo preciso.
- Realce tardio: presença (sobretudo > 1 segmento) = pior prognóstico e maior risco de MS arrítmica; ≥ 15% da massa aumenta esse risco ao menos 2 vezes e pode indicar evolução para forma dilatada. Realce ausente ou em poucas regiões = baixo risco de MS arrítmica.
- Padrões no diferencial (3.10): cardiopatia hipertensiva — ausente ou muito discreto; CMH — mesocárdico em pontos isolados, nos locais de maior hipertrofia, sobretudo nas junções do septo com a parede livre do VD; amiloidose — subendocárdico circunferencial; Fabry — mesocárdico inferolateral basal e médio, com T1 nativo baixo (característico). Diferenciar CMH de coração de atleta é particularmente relevante.
- Mapa T1/volume extracelular: distingue CMH de Fabry e fases iniciais de hipertrofia hipertensiva; dados preliminares sugerem associação com arritmias.

A: Imagem em cine SSFP diastólica em corte de 3 câmaras. B: Imagem em cine SSFP sistólica em corte de 3 câmaras. A seta azul mostra o movimento anterior sistólico do folheto anterior da valva mitral. A seta vermelha mostra a regurgitação mitral. C: Imagem diastólica em SSFP do eixo curto medial, mostrando maior espessura de 28 mm, no segmento anterosseptal medial. D: Realce tardio em eixo curto mostrando realce tardio com padrão mesocárdico (seta vermelha) acometendo 8% da massa do VE. VE: ventrículo esquerdo, Ao: aorta, AE: átrio esquerdo. Fonte: Arquivo pessoal dos autores.
O título original diz “RMC de pacientes de 49 anos”; trata-se de um único paciente.
Recomenda-se o emprego da RMC para confirmar o diagnóstico em casos de ecocardiografia inconclusiva.
Recomenda-se o emprego da RMC para realizar diagnóstico diferencial de fenocópias de hipertrofia miocárdica, incluindo coração de atleta, amiloidose, doença de Fabry e hipertrofia secundária à hipertensão.
Recomenda-se o emprego da RMC para o aprimoramento da estratificação de risco, incluindo melhor análise de alterações anatômicas e da presença de realce tardio.
Recomenda-se o emprego da RMC para a complementação diagnóstica para a medida da espessura miocárdica, variações da anatomia dos músculos papilares, diagnóstico de isquemia miocárdica e definição da presença de obstrução na via de saída do VE.
O emprego da RMC deve ser considerado para a identificação e o diagnóstico de realce tardio para estimar o risco de morte súbita e, como critério adicional, para decidir pelo implante de desfibrilador, em especial nos casos em que os outros critérios não foram conclusivos.
O emprego da RMC deve ser considerado para aprimorar a análise da anatomia e dos mecanismos de obstrução da via de saída do VE em pacientes candidatos a tratamento cirúrgico ou intervencionista.
RMC: ressonância magnética cardiovascular; VE: ventrículo esquerdo.
🩺 Pergunta práticaRessonância magnética para todo mundo?Ver resposta
O que a diretriz diz: não existe uma frase literal “RMC para todos”, mas as indicações Classe I da Tabela 6 cobrem a imensa maioria dos pacientes com fenótipo de CMH:
- confirmar o diagnóstico quando o eco é inconclusivo Classe IEvidência B;
- diagnóstico diferencial de fenocópias (atleta, amiloidose, Fabry, hipertensão) Classe IEvidência B;
- aprimorar a estratificação de risco (alterações anatômicas e realce tardio) Classe IEvidência B;
- complementar espessura, anatomia dos papilares, isquemia e obstrução Classe IEvidência B.
E é decisiva em duas situações: quando a indicação de CDI é duvidosa (realce tardio ≥ 15% e aneurisma apical) Classe IEvidência C (Tabela 18) / Classe IIaEvidência B (Tabela 6), e no planejamento de redução septal Classe IIaEvidência B. O aneurisma apical “pode não ser detectado pelo ecocardiograma e sim na RMC” (seção 4.2.5.1).
Onde a diretriz restringe: no rastreio de familiares, a RMC é reservada para janela acústica limitada ou ECG alterado com ETT aparentemente normal (seção 3.4.1); no G+/F−, apenas “em casos duvidosos” Classe IEvidência C (Tabela 11).
Sem RMC disponível ou contraindicada: TC pode ser considerada para anatomia/função e para realce tardio Classe IIbEvidência C.
Na prática: paciente com CMH estabelecida → RMC pelo menos uma vez, idealmente na avaliação inicial (diferencial + fibrose + aneurisma). Familiar em rastreio com eco normal → não precisa de RMC de rotina, só se a janela for ruim ou o ECG for anormal. A diretriz não define intervalo para repetir a RMC; repetir quando a decisão de CDI estiver em aberto ou houver mudança clínica é uma leitura razoável, não uma recomendação formal.
5.2 Tomografia computadorizada (seção 3.6)
- Experiência limitada a poucos centros; útil para função sistólica e até fibrose — opção quando o eco não é conclusivo e a RMC não está disponível. Alta resolução espacial para valva mitral, papilares e feixes atípicos.
- Avalia as coronárias: obstruções (presentes em 7 a 19% dos casos), trajetos intramiocárdicos, compressão significativa e primeiros ramos septais — dado fundamental no planejamento intervencionista, em especial percutâneo.
A TC é recomendada para a avaliação não invasiva de doença coronária e do trajeto das artérias coronárias em pacientes com diagnóstico de cardiomiopatia hipertrófica.
A TC é recomendada para a análise das artérias coronárias e dos ramos septais para o planejamento de tratamento invasivo da cardiomiopatia hipertrófica.
A TC deve ser considerada para a avaliação de dor torácica em pacientes com cardiomiopatia hipertrófica com risco intermediário para doença arterial coronária.
A TC pode ser considerada para a avaliação da anatomia e função ventricular em pacientes com suspeita de cardiomiopatia hipertrófica com ecocardiogramas conflitantes ou inconclusivos com contraindicação à ressonância ou sem ressonância disponível.
A TC pode ser considerada para a identificação e quantificação de realce tardio em pacientes com diagnóstico de cardiomiopatia hipertrófica com ecocardiogramas conflitantes ou inconclusivos com contraindicação à ressonância ou sem ressonância disponível.
TC: tomografia computadorizada. No texto da diretriz, a frase que apresenta esta tabela menciona “RMC” por engano (ver notas de fidelidade).
🩺 Pergunta práticaPaciente com CMH e angina: preciso investigar as coronárias? Com qual exame?Ver resposta
Resposta: sim, quando a angina é típica — sobretudo em mais velhos e com fatores de risco. A dor torácica na CMH é mais comumente isquemia “própria” da doença (microvascular, hipertrofia, obstrução), mas a DAC epicárdica deve ser excluída (seção 2.2), e a aterosclerose sobreposta piora o prognóstico.
- Angiotomografia: avaliação não invasiva de DAC e do trajeto coronariano Classe IEvidência B; dor torácica com risco intermediário de DAC Classe IIaEvidência C. Também mostra ponte miocárdica.
- Sintomático com evidência de isquemia → angiografia coronária (TCMD ou invasiva) Classe IEvidência B.
- Antes da miectomia, se houver fatores de risco para aterosclerose → angiografia coronária (TCMD ou invasiva) Classe IEvidência B. Antes de alcoolização, a TC mapeia os ramos septais Classe IEvidência B.
💡 Ponte intramiocárdica também pode causar angina e é vista na angio-TC ou no cateterismo.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 2.2, 3.5, 3.6 e 3.10; Tabelas 6, 7 e 13; Figura 8.
6Genética, rastreio familiar e genótipo positivo/fenótipo negativo
No paciente com diagnóstico clínico certo, o teste genético “apenas confirma”; o grande valor está no diferencial de fenocópias e na família — inclusive para dar alta a quem não herdou a variante.
6.1 Importância do diagnóstico genético (seção 3.7.1)
- Aumenta a certeza diagnóstica em hipertrofia limítrofe ou moderada (atletas, hipertensos suspeitos de CMH).
- Identifica crianças e adultos com doença subclínica, candidatos a controle mais rígido de fatores de risco e monitorização mais rigorosa. Diagnóstico molecular não significa doença, e sim risco aumentado.
- O rastreamento genético de pacientes e familiares é mais custo-efetivo que o rastreamento clínico isolado; identificada a mutação, o familiar sem ela pode ser assegurado de que não tem risco de desenvolver a doença (Figura 9).
- Sequenciamento de nova geração é o método de escolha; o painel de genes varia entre provedores.
| Vantagem |
|---|
| Maior precisão do diagnóstico |
| Melhor compreensão da progressão da doença e avaliação de risco |
| Decisões de tratamento e gerenciamento mais informadas |
| Capacidade de identificar portadores de CMH nas famílias e fornecer aconselhamento genético |
| Potencial para medicina personalizada baseada em mutações genéticas específicas |
CMH: cardiomiopatia hipertrófica.

CMH: cardiomiopatia hipertrófica.
Leitura em texto: suspeita de CMH → teste genético (objetivos: confirmar o diagnóstico clínico; identificar a mutação responsável na família; prever a progressão; orientar acompanhamento e tratamento). Teste positivo → rastreio familiar: positivo → seguimento clínico individualizado conforme apresentação fenotípica positiva ou negativa; negativo → sem indicação de novos testes genéticos adicionais. Teste negativo ou variante de significado indeterminado → vigilância clínica.
6.2 Mutações sarcoméricas (seção 3.7.2)
- Diagnóstico molecular em 45 a 60% dos casos; cerca de 70% das variantes estão em MYH7 e MYBPC3. Demais (TNNI3, TNNT2, TPM1, MYL3) são menos frequentes. Em 30 a 40% não se identifica a mutação causal.
- SARC+: mais jovens ao diagnóstico, mais história familiar de CMH/MS, hipertrofia maior e assimétrica, mais fibrose e disfunção microvascular, menos obstrução em repouso, mais MS. SARC−: mais comorbidades (hipertensão, obesidade), mais septo sigmoide, menos fibrose, mais obstrução.
- Registro ShaRe (4.591 pacientes, 5,4 anos): mutação sarcomérica prediz desfechos adversos, incluindo arritmias ventriculares; múltiplas mutações → apresentação mais precoce e grave (transplante/DAV). A doença pode não ser exclusivamente monogênica (moduladores genéticos, epigenéticos e ambientais).
| Gene | Fenótipo |
|---|---|
| Mutações no filamento fino (TNNT2, TNNI3, TPM1 e ACTC) | Hipertrofia leve e atípica (padrões concêntricos e apicais) Aumento da fibrose do VE Maior taxa de progressão para IC Maior probabilidade de remodelamento levando a disfunção sistólica ou diastólica grave |
| Mutações na TNNI3 | Fenótipo restritivo |
| Mutações no ACTC | Hipertrofia apical |
| Mutações no MYH7 | Maior taxa de FA (independente de fatores clínicos e ecocardiográficos) Idade mais precoce no diagnóstico Evolução mais frequente para transplante cardíaco Mais arritmias ventriculares Mais doença do sistema de condução Fenótipo restritivo |
| Mutações no MYBPC3 | Início em idosos e penetrância mais baixa |
| Mutações no PLN | Taquicardia ventricular não sustentada |
VE: ventrículo esquerdo; IC: insuficiência cardíaca; FA: fibrilação atrial. Adaptada de Maron et al.
Em pacientes com uma apresentação fenotípica de CMH, quando há suspeita de outra condição genética, recomenda-se a investigação genética para CMH e outras causas genéticas de espessamento miocárdico inexplicável (“fenocópias”).
Em pacientes com CMH, deve ser considerada a realização do teste genético para facilitar a identificação de familiares em risco de desenvolver CMH.
A triagem de parentes de primeiro grau de pacientes com CMH com teste genético deve ser considerada.
Em pacientes com CMH, o teste genético na avaliação do risco de MS pode ser considerado.
Para pacientes com CMH que realizaram testes genéticos e não apresentaram variantes patogênicas (ou seja, abrigam apenas variantes benignas/provavelmente benignas), o teste genético familiar não é recomendado.
CMH: cardiomiopatia hipertrófica; MS: morte súbita.
🩺 Pergunta práticaTeste genético para todos os pacientes com CMH?Ver resposta
O que a diretriz diz: a força da recomendação depende do objetivo.
- Suspeita de outra condição genética (fenocópia) → investigar CMH e outras causas genéticas Classe IEvidência B.
- Para identificar familiares em risco → deve ser considerado em pacientes com CMH Classe IIaEvidência B; triagem genética de parentes de 1º grau também Classe IIaEvidência B.
- Para estratificar risco de MS → pode ser considerado Classe IIbEvidência B.
- Probando sem variante patogênica (só benignas/provavelmente benignas) → não testar familiares Classe IIIEvidência B.
Teste negativo ou VUS → vigilância clínica da família (Figura 9). Método: sequenciamento de nova geração.
“Para todos” é uma leitura razoável quando há família a rastrear (IIa B): o teste do probando é o que permite, depois, testar os parentes e dar alta a quem é G−. Ele não muda isoladamente a indicação de CDI e não é pré-requisito para tratar.
🩺 Pergunta práticaComo e com que frequência rastrear os familiares?Ver resposta
- Quem: parentes de 1º grau — ETT como estratégia inicial Classe IEvidência B, integrado a avaliação clínica e ECG; teste genético deve ser considerado Classe IIaEvidência B se o probando tiver variante patogênica.
- Com que frequência (assintomáticos, Tabela 4): crianças/adolescentes com variante patogênica e/ou familiares com início precoce → 1–2 anos; demais crianças/adolescentes → 2–3 anos; adultos → 3–5 anos. Com sintomas (dispneia, palpitações, tontura, síncope) → avaliação clínica, ETT e ECG a qualquer momento.
- RMC no rastreio: só com janela limitada ou ECG alterado com ETT normal.
- Corte diagnóstico no familiar: espessura ≥ 13 mm.
- Familiar G− (sem a variante do probando): não há risco de desenvolver a doença; sem novos testes (Figura 9).
6.3 Genótipo positivo / fenótipo negativo (seção 3.7.3)
- Portadores de variante sarcomérica sem hipertrofia ao eco/RMC. Valor prognóstico e história natural não bem estabelecidos; a conversão depende do tipo de mutação, raça e gênero.
- Coortes pediátricas: 6% (12 anos de seguimento) e 5% (≈ 7 anos) desenvolveram fenótipo, sem eventos; em < 12 anos, 15,3% em 6 anos (52% antes dos 10 anos). Adultos (Maurizi): ≈ 10% converteram, 0,3%/ano, evolução benigna.
- Prognóstico benigno, raramente MS. Portanto, sem restrição a esportes competitivos, sem indicação de Holter ou teste ergométrico para risco de MS, sem terapia farmacológica preventiva e sem CDI primário. Com história familiar de MS, avaliação particularizada.
Recomenda-se seguimento clínico, ECG, e imagem cardíaca (ETT) a cada 1 a 2 anos em crianças e adolescentes até os 30 anos de idade; e RMC em casos duvidosos.
Recomenda-se seguimento clínico, ECG, e imagem cardíaca (ETT) a cada 3 a 5 anos a partir da idade adulta; e RMC em casos duvidosos.
A liberação para participação em esportes competitivos de qualquer intensidade deve ser considerada em indivíduos sem história familiar de morte súbita.
A liberação para participação em esportes competitivos de qualquer intensidade pode ser considerada, com avaliação prévia por teste ergométrico e ECG de 24 horas, a cada 1 a 2 anos, em indivíduos com história familiar de morte súbita.
O CDI ou a terapêutica farmacológica para prevenção primária de morte súbita não são recomendados.
ETT: ecocardiograma transtorácico; RMC: ressonância magnética cardiovascular; ECG: eletrocardiograma; CDI: cardiodesfibrilador implantável.
🩺 Pergunta práticaFamiliar com a mutação e eco normal (G+/F−): o que fazer? Pode fazer esporte?Ver resposta
- Seguimento: clínico + ECG + ETT a cada 1–2 anos em crianças e adolescentes até os 30 anos Classe IEvidência C; a cada 3–5 anos na idade adulta Classe IEvidência C; RMC só em casos duvidosos.
- Esporte competitivo: sem história familiar de MS → liberação deve ser considerada, em qualquer intensidade Classe IIaEvidência C; com história familiar de MS → pode ser considerada, com teste ergométrico e Holter a cada 1–2 anos Classe IIbEvidência C.
- CDI ou fármaco preventivo: não recomendados Classe IIIEvidência C.
💡 Note a diferença entre as tabelas: o rastreio do familiar sem genética conhecida (Tabela 4) muda de ritmo na adolescência; o do G+/F− (Tabela 11) mantém 1–2 anos até os 30 anos.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 3.4.1, 3.7.1, 3.7.2 e 3.7.3; Tabelas 4, 8, 9, 10 e 11; Figura 9.
7Fenocópias: quando não é CMH sarcomérica
Fenocópias têm imagem indistinguível da CMH sarcomérica, mas mecanismos, história natural e tratamento diferentes — algumas com terapia específica que muda a evolução se iniciada cedo.
- O contexto clínico é fundamental: dados demográficos, laboratório, evolução e ECG. Pistas: idade de início da HVE, modo de herança, manifestações extracardíacas e exames complementares.
- Idade (Figura 10): neonatal — doença de Pompe, filho de mãe diabética, mitocondriopatias; 0–20 anos — Danon, RASopatias (Noonan, Leopard); adolescência — ataxia de Friedreich, distrofias musculares; 20–30 anos — PRKAG2, coração de atleta; ~40 anos — Fabry; > 60 anos — amiloidose e hipertensão.
- História familiar: heredograma de 3 gerações. Fabry e Danon são ligadas ao X — podem ser excluídas se um homem afetado tem o pai também afetado (transmissão pai→filho). PRKAG2 é autossômica dominante, com quadro semelhante ao de Fabry. Na herança ligada ao X a expressão é maior nos homens.
- Laboratório e sinais extracardíacos: CPK elevada (distrofias, Pompe, Danon); TGO/TGP elevadas (Danon); alteração de marcha (Friedreich); déficit cognitivo (Danon); angioqueratomas e córnea verticilata (Fabry); lentigos, surdez e baixa estatura (Leopard); macroglossia, púrpura periorbitária, polineuropatia, túnel do carpo bilateral, rotura do bíceps, estenose lombar (amiloidose); fraqueza muscular (distrofias); retinopatia hipertensiva (hipertensão) (Figura 11).
- ECG (3.8): PR < 120 ms → Fabry (também infra de ST inferior, QRS largo, BRD, r em aVL > 11 mm); pré-excitação → Danon e PRKAG2 (e Pompe); amiloidose → voltagem desproporcional à espessura, pseudoinfarto, pouca progressão de r V1–V3, baixa voltagem no plano frontal, FA, bloqueios, Sokolow < 15 mm.
- Eco (3.9) — amiloidose: desproporção voltagem × espessura simétrica, derrame pericárdico discreto, septo interatrial espessado, miocárdio refringente, strain com padrão “cereja no bolo” (preservação apical).

*Tratamento específico (legenda da figura).
Leitura em texto (seção 3.7.5): período neonatal — Pompe, recém-nascido de mãe diabética, mitocondriopatias; 0 a 20 anos — Danon, RASopatias (Noonan, Leopard); adolescência — ataxia de Friedreich e distrofias musculares; 20 a 30 anos — PRKAG2, coração de atleta; 40 anos — Fabry; após 60 anos — amiloidose e hipertensão.

Bruscky, LVR. Diagnóstico diferencial das cardiomiopatias que cursam com hipertrofia ventricular. ECG: eletrocardiograma; ECO: ecocardiograma; RNM-RT: ressonância magnética com realce tardio; ICFEP: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; AVC: acidente vascular cerebral; IC: insuficiência cardíaca; BAV: bloqueio atrioventricular; VE: ventrículo esquerdo; HVE: hipertrofia ventricular esquerda; VSVE: via de saída do ventrículo esquerdo; MSA: movimento sistólico anterior. Reproduzida a partir de Bruscky et al.

RNM: ressonância magnética.
Principais fenocópias (seção 3.11)
AL ou ATTR
Multissistêmica (túnel do carpo, hematomas fáceis, macroglossia, neuropatia, hepatomegalia). ECG de baixa voltagem; eco com hipertrofia biventricular, valvas espessadas, dilatação biatrial, disfunção diastólica; formas obstrutivas assimétricas também descritas. Realce subendocárdico é patognomônico e prognóstico.
Deficiência de α-galactosidase A
Acúmulo de Gb3; HVE concêntrica é a apresentação mais comum; 0,5–12% dos “CMH” em séries. PR curto em ≈ 40% (condução nodal acelerada, não via acessória), FA ≈ 17%, arritmias ventriculares 8%, BAV, dilatação de aorta. T1 nativo baixo. Importância: terapia específica.
PRKAG2, Danon (LAMP2), Pompe, Forbes
< 1% dos adultos com HVE inexplicada. HVE extrema, progressão precoce para dilatação, pré-excitação e doença de condução. PRKAG2: AD, HVE simétrica maciça (> 30 mm) sem obstrução, FA/flutter e marca-passo na 3ª–4ª décadas. Danon: ligada ao X, miocardiopatia grave, CPK e transaminases elevadas, déficit intelectual, WPW em até 2/3 dos homens; considerar CDI (limiares de desfibrilação altos).
Citopatias, Barth, Friedreich
Miopatia, fadiga, oftalmoplegia, surdez, atraso psicomotor; hipertrofia concêntrica discreta não obstrutiva que pode evoluir para dilatação. Investigação: hemograma, CPK, transaminases, albumina, lactato/piruvato, aminoácidos, acilcarnitinas, ácidos orgânicos urinários; sequenciamento do mtDNA. Barth (TAZ, ligada ao X): neutropenia, ácido 3-metilglutacônico. Friedreich (FXN, AR): ataxia, diabetes, aspecto granular ao eco.
Noonan e afins
≈ 18% da CMH na infância e ≈ 42% em < 1 ano. Genes PTPN11 (estenose pulmonar), RAF1, MRAS, RIT1 (CMH). Formas graves no lactente com IC: mortalidade de 70% em 1 ano; fora disso, a hipertrofia tende a regredir.
Hiperoxalúria primária
Muito rara; AR; IC por disfunção sistólica/restritiva, HVE em 1/3, distúrbios do ritmo, litíase, nefrocalcinose e insuficiência renal progressiva.
🩺 Pergunta práticaQuando suspeitar que não é CMH sarcomérica (fenocópia)?Ver resposta
Desconfie diante de “bandeiras vermelhas” que a diretriz lista:
- Idade atípica: lactente (Pompe, RASopatias, mitocondriais), adolescente com sinais neuromusculares, > 60 anos (amiloidose, hipertensão).
- Herança: padrão ligado ao X (Fabry, Danon) ou materno (mitocondrial).
- Sinais extracardíacos: túnel do carpo bilateral, rotura do bíceps, estenose lombar, macroglossia, neuropatia (amiloidose); angioqueratomas, córnea verticilata, hipoidrose, AVC no jovem (Fabry); fraqueza muscular, CPK/transaminases elevadas, déficit cognitivo (Danon, distrofias).
- ECG: PR curto (Fabry), pré-excitação (Danon/PRKAG2), baixa voltagem desproporcional (amiloidose), BAV.
- Imagem: hipertrofia simétrica/concêntrica, maciça sem obstrução (PRKAG2), derrame pericárdico, septo interatrial espessado, strain “cereja no bolo”, realce subendocárdico (amiloidose) ou inferolateral basal com T1 baixo (Fabry).
Condutas formais: RMC para o diferencial Classe IEvidência B; investigação genética para CMH e outras causas de espessamento inexplicado quando há suspeita de outra condição genética Classe IEvidência B.
💡 O motivo de insistir: segundo a seção 3.7.4, algumas fenocópias têm a evolução natural modificada quando o tratamento é instituído precocemente — a diretriz destaca a doença de Fabry, que tem terapia específica, e a Figura 10 marca com asterisco as etiologias com tratamento específico. (No texto da seção 3.11.1, o tratamento da amiloidose é descrito como “geralmente de suporte”.)
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 3.7.4 a 3.11.8; Figuras 10, 11 e 12.
8Tratamento medicamentoso e inibidores da miosina
O tratamento farmacológico é a primeira opção na CMH sintomática, obstrutiva ou não. Não há evidência clara de redução de mortalidade, mas a terapia otimizada melhora sintomas e reduz a necessidade de redução septal.
- Portadores G+/F− são acompanhados periodicamente (seção 6).
- Fenótipo de CMH com evolução assintomática e benigna, baixo risco de MS — cerca de 50%: tratamento medicamentoso ou intervenções não são necessários; reavaliação periódica do risco e da progressão.
- Curso com complicações em 40 a 50%: risco aumentado de MS, sintomas de IC e FA — opções nas Figuras 13, 14 e 15.

CMH: cardiomiopatia hipertrófica; MS: morte súbita; CDI: cardiodesfibrilador implantável; TMO: tratamento médico otimizado.

CMH: cardiomiopatia hipertrófica; FEVE: fração de ejeção ventricular esquerda. No original, a figura grafa “Varapamil/diltiazen”.
Leitura em texto: assintomático → manter sem drogas. Dispneia/fadiga aos esforços → tratamento medicamentoso (betabloqueador ou verapamil/diltiazem ou disopiramida). Progressão para sintomas refratários → FEVE < 55%: terapia de redução septal; FEVE ≥ 55%: terapia de redução septal ou mavacanteno.

CMH: cardiomiopatia hipertrófica; MS: morte súbita; FE: fração de ejeção; BCC: bloqueador dos canais de cálcio; ICFEr: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida; IECA: inibidores da enzima de conversão da angiotensina II; BRA: bloqueador do receptor da angiotensina; INRA: inibidor da neprilisina e do receptor da angiotensina; MRA: antagonista do receptor mineralocorticoide; iSGLT2: inibidores do cotransportador sódio-glicose 2; CDI: cardiodesfibrilador implantável.
Leitura em texto: avaliar risco de MS. Assintomático → seguimento clínico (normalmente sem tratamento farmacológico). Dispneia aos esforços → FE preservada: betabloqueador ou BCC não di-hidropiridínico; sintomas progressivos e congestão → diuréticos. FE reduzida (CMH estágio final) → tratamento para ICFEr (betabloqueador, IECA/BRA/INRA, MRA, iSGLT2) → CDI e transplante cardíaco.
🩺 Pergunta práticaPaciente com CMH assintomático: preciso tratar?Ver resposta
Resposta: em geral, não há tratamento farmacológico para os sintomas — mas há tarefas obrigatórias.
- Figura 14 (obstrutiva): assintomático → manter sem drogas. Figura 15 (não obstrutiva): seguimento clínico, normalmente sem tratamento farmacológico.
- Redução septal na obstrutiva assintomática com capacidade normal ao exercício: não indicada Classe IIIEvidência C.
- O que sempre fazer: estratificar o risco de MS (pode haver indicação de CDI mesmo sem sintomas — Figura 18), ETT a cada 1–2 anos Classe IEvidência C, procurar obstrução provocada, orientar exercício (Tabela 24), rastrear a família e anticoagular se surgir FA.
“Assintomático” precisa ser confirmado: muitos pacientes reduzem as atividades sem perceber. Se houver dúvida, um teste de esforço objetiva a capacidade funcional — capacidade normal ao exercício é justamente o critério usado na recomendação Classe III contra redução septal.
8.1 Betabloqueadores (seção 4.1.1)
- Indicados para alívio sintomático (angina, dispneia), nas formas obstrutivas ou não. Racional: mais tempo diastólico, melhor perfusão coronariana, menor consumo de O2, menos taquiarritmias; reduzem o aumento do gradiente induzido por catecolaminas.
- Ensaio randomizado cruzado (29 pacientes): metoprolol reduziu a obstrução em repouso e no exercício, aliviou sintomas e melhorou a qualidade de vida na CMH obstrutiva. Consenso: betabloqueadores são a base do tratamento clínico.
8.2 Bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropiridínicos (seção 4.1.1.1)
- Verapamil e diltiazem aliviam sintomas na obstrutiva; têm efeito vasodilatador, além de inotrópico e cronotrópico negativos.
- Verapamil: dose inicial de 40 mg 3×/dia, até máximo de 480 mg/dia; indicado quando os betabloqueadores são contraindicados ou ineficazes. Monitoramento rigoroso com obstrução grave (≥ 100 mmHg) ou PSAP elevada — pode provocar edema pulmonar.
- Verapamil IV: aumento discreto da FC, queda da PAS e, em dose alta, redução do gradiente basal (94 → 49 mmHg). Observacional (78 pacientes): melhora de sintomas em 54% e do tempo de exercício.
- Relatos de colapso hemodinâmico com gradientes em repouso > 80–100 mmHg e sintomas de IC (bradicardia importante, baixo débito).
- Conclusão do texto: BCCND recomendados para controle de sintomas, obstrutivos ou não, em substituição ao betabloqueador quando não tolerado ou ineficaz (o texto diz Classe I, nível C; a Tabela 12 diz I B).
8.3 Mavacanteno (seção 4.1.2.1)
- Primeiro inibidor alostérico seletivo da ATPase da miosina cardíaca: reduz as pontes cruzadas actina-miosina e a contratilidade; principal atributo clínico é reduzir o gradiente da VSVE (efeito inotrópico negativo, como a disopiramida).
- EXPLORER-HCM (251 pacientes, 30 semanas; gradiente > 50 mmHg, NYHA II–III, > 90% com betabloqueador/BCC; dose titulada de 2,5 a 15 mg/dia): desfecho primário (melhora de VO2 pico com ou sem melhora de classe) em 37% vs. 17% (p < 0,0001); reduziu gradientes pós-exercício e melhorou a CF; perfil de eventos adversos comparável ao placebo.
- Qualidade de vida (KCCQ ≥ 20 pontos): 36% vs. 15%; NNT = 5; os ganhos retornaram à linha de base após a suspensão.
- Subestudo eco: resolução do MSA em 80,9% vs. 34,0%; melhora de volume atrial, E/e′ lateral e NT-proBNP. Subestudo RMC (35 pacientes): redução do índice de massa do VE (−15,8 g/m²) e redução maior da FEVE (−6,6% vs. −3,9%), sem mudança no realce tardio ou no volume extracelular.
- VALOR-HCM (112 pacientes com indicação de redução septal, maioria NYHA III–IV, gradiente pós-esforço médio 84 mmHg): após 16 semanas, permaneceram elegíveis ou foram operados 18% com mavacanteno vs. 77% com placebo.
- ANVISA aprovou em 02/01/2023 para CMH obstrutiva sintomática, CF II e III da NYHA.
- Recomendação do texto: considerar em adultos com CMH obstrutiva, FEVE ≥ 55%, gradiente de 50 mmHg em repouso ou provocação, CF II–III apesar de betabloqueador ou BCCND em doses máximas toleradas — IIa B. Na forma não obstrutiva, o estudo ODYSSEY-HCM estava em andamento quando a diretriz foi escrita.
8.4 Aficanteno, disopiramida e bloqueio do SRAA (seções 4.1.2.2 a 4.1.2.4)
- Aficanteno: segundo inibidor da miosina, meia-vida mais curta, equilíbrio em 2 semanas, janela terapêutica possivelmente mais ampla. Fase II (REDWOOD-HCM, n = 41): reduziu gradientes em repouso e com Valsalva. Aguardavam-se estudos de fase III para permitir recomendação.
- Disopiramida: antiarrítmico classe I com efeito inotrópico negativo; reduz o gradiente; em estudo retrospectivo, 66% não precisaram de intervenção invasiva. Efeitos: prolonga QTc (≈ 19 ms com 300 mg), anticolinérgicos (boca/olhos secos, retenção urinária, constipação — atenuáveis com piridostigmina), pode acelerar a condução AV na FA. Diretrizes internacionais a recomendam após falha de betabloqueador/BCC, preferencialmente associada a eles. Não está disponível no Brasil.
- Inibidores do SRAA: reservados para CMH em fase de IC com FE reduzida sem padrão obstrutivo; nos não obstrutivos sem disfunção, individualizar. Losartana: sem redução de massa, mas bem tolerada e útil para hipertensão concomitante. Metanálise de BRA: sem benefício em hipertrofia ou FE. VANISH (valsartana em CMH sarcomérica inicial): sugeriu retardar a progressão, mas precisa de confirmação.
Recomenda-se o uso de betabloqueadores, em pacientes sintomáticos para a redução de sintomas nas formas obstrutivas ou não.
Recomenda-se o uso de bloqueadores dos canais do cálcio não dihidropiridínicos em pacientes intolerantes aos betabloqueadores ou quando os betabloqueadores forem ineficazes, nas formas obstrutivas ou não.
Deve ser considerado o uso de mavacanteno em pacientes adultos com forma obstrutiva, com gradiente intraventricular > 50 mmHg em repouso ou sob provocação, com FEVE > 55%, que persistam sintomáticos apesar do uso de betabloqueadores ou bloqueadores dos canais de cálcio não dihidropiridínicos em máximas doses toleradas, em CF II-III da NYHA, para redução de sintomas e do gradiente intraventricular.
Deve ser considerado o uso de bloqueadores dos canais do cálcio não dihidropiridínicos em associação aos betabloqueadores para controle de frequência cardíaca e melhora de sintomas.
Pode ser considerado o uso de bloqueadores do receptor AT1 da angiotensina-II para a melhora da capacidade física e controle da hipertensão arterial sistêmica.
Deve ser considerado evitar-se o uso de vasodilatadores, especialmente em pacientes com a forma obstrutiva.
FEVE: fração de ejeção ventricular esquerda. Ver notas de fidelidade: o texto traz nível C para os BCCND e FEVE ≥ 55% para o mavacanteno.
🩺 Pergunta práticaPaciente sintomático: como tratar, passo a passo?Ver resposta
1. Defina o fenótipo
Obstrutivo (≥ 30 mmHg em repouso ou provocado; ≥ 50 = significativo) ou não obstrutivo; FEVE preservada ou reduzida. Sem gradiente em repouso, não esqueça manobras e eco com esforço.
2. CMH obstrutiva sintomática (Figura 14)
- Betabloqueador Classe IEvidência B, titulado até a dose máxima tolerada.
- Intolerância ou ineficácia → verapamil ou diltiazem Classe IEvidência B (cautela se gradiente ≥ 100 mmHg ou PSAP elevada). Associação BB + BCCND para FC e sintomas Classe IIaEvidência C.
- Persistem sintomas (CF II–III), gradiente > 50 mmHg, FEVE ≥ 55% → mavacanteno Classe IIaEvidência B ou redução septal se CF III–IV (Figura 14). (Disopiramida consta na figura, mas não está disponível no Brasil.)
- Refratário, CF III–IV, gradiente > 50 mmHg → terapia de redução septal Classe IEvidência B; FEVE < 55% → redução septal (não mavacanteno).
3. CMH não obstrutiva sintomática (Figura 15)
- FE preservada: betabloqueador ou BCCND; sintomas progressivos e congestão → diuréticos.
- FE reduzida (estágio final): tratamento de ICFEr (betabloqueador, IECA/BRA/INRA, ARM, iSGLT2), suspender inotrópicos negativos (verapamil/diltiazem) Classe IIaEvidência C, avaliar CDI e transplante (seção 12).
4. Em todos
Evitar vasodilatadores Classe IIaEvidência C, tratar FA (controle de ritmo preferido + anticoagulação), estratificar o risco de MS e orientar exercício.
🩺 Pergunta práticaQuando usar o mavacanteno?Ver resposta
Critérios da recomendação Classe IIaEvidência B — todos devem estar presentes:
- Adulto com CMH obstrutiva;
- gradiente intraventricular > 50 mmHg em repouso ou sob provocação;
- FEVE > 55% (texto e Figura 14: ≥ 55%);
- sintomático em CF II–III da NYHA;
- apesar de betabloqueador ou BCCND em doses máximas toleradas.
Objetivo: reduzir sintomas e o gradiente. Na Figura 14, com sintomas refratários e FEVE ≥ 55%, o mavacanteno é alternativa à redução septal; com FEVE < 55%, a opção é a redução septal. No VALOR-HCM, apenas 18% dos candidatos a redução septal em uso de mavacanteno continuaram elegíveis ou foram operados após 16 semanas (vs. 77% com placebo).
Quando NÃO usar (pela diretriz)
- CMH não obstrutiva (sem evidência à época; ODYSSEY-HCM em andamento).
- FEVE abaixo do limiar; paciente assintomático; sem tentativa prévia de betabloqueador/BCCND otimizados; crianças.
Pontos de atenção descritos na diretriz
- Reduz a FEVE (subestudo de RMC: −6,6% vs. −3,9%).
- O benefício em qualidade de vida desaparece com a suspensão.
- Aprovado pela ANVISA (02/01/2023) para CMH obstrutiva sintomática, CF II e III.
A diretriz não detalha o esquema de titulação nem a vigilância ecocardiográfica da FEVE e do gradiente durante o uso; esses itens, assim como interações medicamentosas e contracepção, devem seguir a bula aprovada. Como o fármaco reduz a FEVE, o ecocardiograma seriado faz parte do acompanhamento na prática.
🩺 Pergunta práticaQuais medicamentos evitar na CMH?Ver resposta
- Vasodilatadores — especialmente na forma obstrutiva Classe IIaEvidência C (reduzem pós-carga/pré-carga e aumentam o gradiente; também são gatilho de síncope).
- Digoxina — deve ser evitada no controle de frequência da FA pelo efeito inotrópico positivo, que pode piorar a obstrução (seção 4.3.2).
- Verapamil/diltiazem com cautela em gradiente ≥ 100 mmHg (ou > 80–100 mmHg com IC) ou PSAP elevada: risco de edema pulmonar e colapso hemodinâmico.
- Inotrópicos negativos (verapamil/diltiazem) quando a FEVE cai para < 50% e há IC avançada: considerar suspender Classe IIaEvidência C.
- Diuréticos em excesso / hipovolemia: gatilho de síncope por baixo débito; em contrapartida, são importantes na congestão da forma não obstrutiva/restritiva.
- Antiplaquetários no lugar de anticoagulante na FA: evitar Classe IIIEvidência B.
- Prostaglandinas para indução do parto: não aconselhadas (efeito vasodilatador) — seção 4.8.2.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 4, 4.1, 4.1.1, 4.1.1.1, 4.1.2.1 a 4.1.2.4 e 4.3.2; Tabela 12; Figuras 13, 14 e 15.
9Terapias de redução septal
Cerca de 5 a 10% dos obstrutivos permanecem refratários aos fármacos. Para eles: miectomia cirúrgica, alcoolização septal ou — em situações selecionadas — ablação septal por radiofrequência, sempre em centro experiente e com decisão em Heart Team.
Alternativas invasivas para CMH obstrutiva com gradiente no TSVE acima de 50 mmHg (repouso ou provocação) e sintomas em CF III–IV a despeito do tratamento medicamentoso otimizado.
9.1 Alcoolização septal — ASA (seção 4.2.1)
- Proposta em 1995: injeção seletiva de álcool em ramo septal → cicatriz localizada → redução do gradiente, da IM e da pressão diastólica final, com melhora de sintomas, capacidade funcional e qualidade de vida; efeitos secundários em FA e hipertensão pulmonar.
- Vantagens sobre a miectomia: menos dor (sem esternotomia), menor internação; mortalidade < 1% em centros experientes. Sem ensaio randomizado ASA vs. miectomia; registros mostram reduções de gradiente menores com ASA, sobretudo com gradiente basal > 100 mmHg e septo > 30 mm, com melhora de CF semelhante. Doença intrínseca do aparelho mitral ou papilar favorece a miectomia.
- MitraClip pode ser útil em refratários não apropriados para redução septal (15 pacientes, idade média 79,5 anos; gradiente 75,8 → 11,0 mmHg; seguimento máximo de 6 meses).
- Mortalidade global e MS a longo prazo semelhantes à miectomia e a controles não obstrutivos.
- Principal complicação: BRD e, eventualmente, BAV avançado — marca-passo definitivo em 7–20% (metanálise com 4.213 pacientes: 10% vs. 5% na miectomia). Preditores: idade avançada, BRE prévio, BAV periprocedimento, QRS > 120 ms. Telemetria por 48 h com marca-passo provisório; Holter 24 h antes da alta.
- Eco (ETT ou ETE) com contraste é essencial; se o contraste não se limitar ao septo basal adjacente ao contato mitro-septal, o procedimento deve ser abandonado. Grandes volumes de álcool (> 2–3 mL), rápidos ou em múltiplos ramos não estão indicados. CIV pós-procedimento é rara, mas mais frequente com septo ≤ 16 mm.
Recomenda-se o emprego de estudo hemodinâmico invasivo em pacientes com CMH candidatos para terapia de redução septal nos quais há dúvida quanto à presença e gravidade da obstrução da via de saída do VE nos exames não invasivos; pode-se recomendar o cateterismo cardíaco esquerdo invasivo com manometria.
Recomenda-se o emprego de estudo hemodinâmico invasivo em paciente com CMH sintomáticos com evidência de isquemia; a angiografia coronária (TCMD ou invasiva) é recomendada.
Recomenda-se o emprego de estudo hemodinâmico invasivo em pacientes com CMH que têm fatores de risco para aterosclerose coronária; a angiografia coronária (TCMD ou invasiva) é recomendada antes da miectomia cirúrgica.
CMH: cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva; VE: ventrículo esquerdo; TCMD: tomografia computadorizada de múltiplos detectores.
A terapia de redução septal é recomendada em pacientes com CMH obstrutiva com gradiente em repouso ou provocado > 50 mmHg na via de saída do VE e em classe funcional III-IV da NYHA, apesar de medicação otimizada.
A terapia de redução septal é recomendada em pacientes com síncope de esforço causada por gradiente de repouso ou provocado na via de saída do VE > 50 mmHg, apesar de terapia médica otimizada.
É recomendada a realização da terapia de redução septal por operadores experientes, trabalhando dentro de um Heart Team com experiência no manejo de pacientes com CMH.
É recomendada a realização da terapia de redução septal em pacientes com CMH obstrutiva com sintomas importantes (NYHA III-IV), apesar de tratamento otimizado, nos quais a cirurgia é contraindicada ou de alto risco pela presença de comorbidades importantes ou idade avançada; recomenda-se a ASA na presença de anatomia favorável e realizada em centros com experiência.
A miectomia cirúrgica deve ser preferida em relação à ASA em pacientes com indicação de terapia de redução septal e que requeiram outra intervenção cirúrgica (ou seja, reparo ou substituição mitral, intervenção no músculo papilar, doença coronária multiarterial, estenose aórtica).
Em todos os pacientes submetidos a ASA, recomenda-se a realização de ecocardiograma transtorácico ou transesofágico com auxílio de contraste de ecocardiografia durante o procedimento, para guiar o procedimento e determinar a correta localização do ramo que se direciona à porção septal.
Para pacientes sintomáticos com CMH obstrutiva, a terapia de redução septal em pacientes elegíveis, realizada em centros com experiência, pode ser considerada como alternativa ao aumento de medicação após decisão compartilhada incluindo os riscos e benefícios.
A terapia de redução septal pode ser considerada para pacientes com sintomas com CF II da NYHA, com presença de: progressiva hipertensão pulmonar causada pela obstrução do TSVE ou insuficiência mitral, aumento atrial esquerdo com mais de 1 episódio de FA, baixa capacidade funcional atribuída a obstrução em teste de esforço gradientes > 100 mmHg em adulto jovem e criança.
Em pacientes com CMH obstrutiva assintomáticos com capacidade normal ao exercício, a terapia de redução septal não está indicada.
Em pacientes com CMH obstrutiva sintomáticos, nos quais a terapia de redução septal é uma opção, a substituição valvar mitral não deve ser recomendada como opção para aliviar a via de saída do VE.
ASA: alcoolização septal; VE: ventrículo esquerdo; CMH: cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva; TSVE: trato de saída do ventrículo esquerdo; FA: fibrilação atrial.
9.2 Miectomia septal (seção 4.2.2)
- Morrow: ressecção retangular do septo protruso abaixo do anel aórtico; reduz significativamente ou abole o gradiente em ≈ 90%, com redução do MSA e alívio de sintomas; expectativa de vida semelhante à da população geral.
- Técnica estendida (guiada por ETE): ressecção mais ampla, profunda, em direção à ponta, liberando os papilares; abordagens mitrais (folheto anterior alongado, papilares anômalos, cordas secundárias) para reduzir a IM.
- Bom prognóstico: idade < 50 anos, AE < 46 mm, ausência de FA, sexo masculino; parede posterior > 13 mm é preditor negativo.
- Complicações (incomuns em centros de referência): BAV total, CIV, regurgitação aórtica. Metas da AHA/ACC na Tabela 15.
- Em 2.268 pacientes, a indicação precoce (CF II) associou-se a menor mortalidade e menos necessidade de CDI vs. indicação convencional, com sobrevida semelhante à da população pareada.
- Escolha individualizada em Heart Team: fragilidade, anatomia coronária para ablação septal e aparelho mitral (Figuras 16 e 17).
| Alvo de resultados no tratamento cirúrgico | Resultados desejados |
|---|---|
| Mortalidade em 30 dias | ≤ 1% |
| Complicações adversas em 30 dias (tamponamento, infecção e sangramento maior) | ≤ 10% |
| Necessidade de marca-passo por bloqueio AV | ≤ 5% |
| Abordagem mitral no primeiro ano | ≤ 5% |
| Insuficiência mitral residual moderada/severa | ≤ 5% |
| Necessidade de refazer o procedimento | ≤ 3% |
| Melhora da classe funcional – NYHA | > 90% |
| Gradiente pressórico na via de saída do VE (repouso e provocada) < 50 mmHg | > 90% |
AV: atrioventricular; VE: ventrículo esquerdo.

CMH: cardiomiopatia hipertrófica; TMO: tratamento médico otimizado; VSVE: via de saída do ventrículo esquerdo; BRE: bloqueio do ramo esquerdo. No original, um dos itens que favorecem a miectomia está grafado “Gradiente VSVD > 100mmHg” (refere-se à VSVE).
Leitura em texto — favorecem miectomia: valvopatia associada com necessidade de cirurgia; hipertrofia importante (septo > 30 mm); artéria septal de pequeno calibre; coronariopatia multiarterial; gradiente > 100 mmHg; obstrução médio-apical; jovem; BRE. Favorecem alcoolização: programação de intervenção por MitraClip; gradiente VSVE < 100 mmHg; alto risco cirúrgico; septo < 30 mm; idosos. Decisão compartilhada com o paciente.

Adaptada de Nishimura e Holmes Jr.
9.3 Ablação septal por cateter de radiofrequência (seção 4.2.3)
- Ainda considerada experimental; alternativa à ASA quando a anatomia/território da artéria septal não é adequado. Lesão de 5 a 12 mm de profundidade; acesso retroaórtico ou transeptal; planejamento conforme a extensão da hipertrofia.
- Mortalidade intraoperatória < 2%; 1,8% em 1 ano; redução esperada do gradiente de 60 a 90%; BAV total/marca-passo de 0 a 25% conforme a técnica (Valdigem et al.: BRE ≈ 10%, nenhum marca-passo). A redução do gradiente é progressiva em 3 a 6 meses (às vezes até 1 ano).
O uso de ablação septal com RF pode ser considerado nos pacientes com cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, com gradiente intraventricular ≥ 50 mmHg em repouso ou durante provocação, sintomáticos em CF III-IV da NYHA, apesar do tratamento clínico otimizado, quando o risco cirúrgico para miectomia for elevado, a anatomia coronariana não for favorável para alcoolização septal e for realizada por equipe experiente em ablação por cateter com RF e mapeamento eletroanatômico, quando disponível.
A ablação septal com RF pode ser considerada em portadores de gradiente residual após miectomia ou alcoolização septal quando a nova intervenção com a mesma modalidade não é factível ou desejada.
A equipe para realização da ablação septal com RF deve ser composta por pelo menos um eletrofisiologista experiente em casos complexos de ablação por cateter com RF, um ecocardiografista experiente em avaliações de pacientes com cardiopatias complexas e um cardiologista com experiência em terapia intensiva.
RF: radiofrequência.
🩺 Pergunta práticaQuando indicar miectomia ou alcoolização septal? Qual escolher?Ver resposta
Quando indicar
- Obstrutiva com gradiente > 50 mmHg (repouso ou provocado) e CF III–IV apesar de medicação otimizada Classe IEvidência B.
- Síncope de esforço causada por gradiente > 50 mmHg apesar do tratamento Classe IEvidência B.
- CF II com hipertensão pulmonar progressiva pela obstrução/IM, AE aumentado com > 1 episódio de FA, baixa capacidade funcional atribuída à obstrução no teste de esforço ou gradiente > 100 mmHg em adulto jovem/criança Classe IIbEvidência B; como alternativa a intensificar a medicação, após decisão compartilhada Classe IIbEvidência B.
- Não no assintomático com capacidade normal ao exercício Classe IIIEvidência C; não trocar a valva mitral para aliviar a VSVE quando a redução septal é opção Classe IIIEvidência C.
Qual escolher (Tabela 14 + Figura 16)
- Miectomia se precisar de outra cirurgia (mitral, papilar, DAC multiarterial, estenose aórtica) Classe IEvidência B; também favorecem: septo > 30 mm, gradiente > 100 mmHg, septal pequena, obstrução médio-apical, jovem, BRE prévio.
- Alcoolização se a cirurgia é contraindicada ou de alto risco (comorbidades, idade avançada) com anatomia favorável, em centro experiente Classe IEvidência B; também favorecem: septo < 30 mm, gradiente < 100 mmHg, idosos, plano de MitraClip.
- Ablação por RF se o risco cirúrgico é alto e a anatomia coronariana não favorece a ASA Classe IIbEvidência B, ou gradiente residual pós-miectomia/ASA Classe IIbEvidência C.
- Sempre por operadores experientes em Heart Team Classe IEvidência C, em centro de referência Classe IEvidência C; ETT 3–6 meses depois Classe IEvidência B.
💡 Alternativa farmacológica para quem tem FEVE ≥ 55%: mavacanteno (Figura 14; VALOR-HCM).
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 4.2, 4.2.1, 4.2.2 e 4.2.3; Tabelas 13 a 16; Figuras 16 e 17.
10Estratificação do risco de morte súbita e CDI
Com estratificação adequada e CDI, a mortalidade caiu de até 6%/ano (era pré-CDI) para cerca de 0,5%/ano. O desafio atual é implantar em quem precisa — e evitar implantes desnecessários.
- Marcadores evoluíram: o comportamento da PA no teste ergométrico deixou de ser valorizado; a TVNS vale em determinadas circunstâncias; HVE extrema passou de > 30 mm para ≥ 28–29 mm; história familiar de MS passou a valer até 50 anos (antes, < 40).
- Fatores atuais: história pessoal (PCR, TVS/FV, síncope inexplicada), história familiar, eco/RMC (HVE extrema, FE < 50%, aneurisma apical, realce tardio) e Holter (TVNS) — Tabela 17.
- Idade: risco muito baixo em > 60 anos clinicamente estáveis (benefício do CDI duvidoso); maior em crianças e adolescentes (coorte sueca: 7,2%/ano entre 9 e 13,9 anos vs. 1,7%/ano após 16 anos).
- Novos fatores: FE ≤ 50% (“fase final”: sobrevida média de 8,4 anos; pior com fibrose, múltiplas variantes, FA e FE < 35%); fibrose — risco linear até 15%, depois mais íngreme; ausência de realce = baixo risco; aneurisma apical (acinético ou discinético, de qualquer tamanho) — pode não ser visto ao eco, e sim na RMC.
- Pelo menos um fator de risco basta para conferir alto risco e justificar o CDI; fatores se potencializam (na disfunção ventricular, a fibrose ganha mais peso).
- Estratificação na visita inicial e repetida anualmente; decisão compartilhada, sobretudo quando a indicação é ambígua.
| Fator de risco | Caracterização |
|---|---|
| História pessoal: antecedente de taquicardia ventricular sustentada sincopal/FV | Prevenção secundária: alto risco de novos eventos recorrentes |
| História pessoal: síncopes inexplicadas | Pelo menos um episódio de perda transitória da consciência, descartando-se ser: pela obstrução do TSVE ou vasovagal. Maior importância se ocorrido nos últimos 6 meses. |
| História familiar: MS na família | MS provável ou certa atribuível a CMH em ≥ 1 parente de 1º ou 2º grau com ≤ 50 anos de idade. Se de 3º grau: quando múltiplos. |
| ECO/RNM: HVE ≥ 28 mm | Espessura de parede ≥ 28 mm em qualquer segmento de parede ventricular, por ECO/RNM. |
| ECO/RNM: disfunção sistólica | FE < 50% por ECO ou RNM |
| ECO/RNM: aneurisma apical de VE | Presente: maior risco |
| RMC: realce tardio > 15% | Realce tardio difuso e extenso quantificado ou estimado por inspeção visual compreendendo ≥ 15% da massa total do VE. |
| Holter: TVNS | TVNS valorizar se episódios de TVNS são frequentes (≥ 3), mais longos (≥ 10 batimentos) e mais rápidos (≥ 200 batimentos por minuto) |
TSVE: trato de saída de ventrículo esquerdo; MS: morte súbita, RNM: ressonância do coração, ECO: ecocardiograma; TVNS: taquicardia ventricular não sustentada; CMH: cardiomiopatia hipertrófica; FE: fração de ejeção; FV: fibrilação ventricular; HVE: hipertrofia ventricular esquerda; VE: ventrículo esquerdo; RMC: ressonância Magnética Cardíaca.
- Estima o risco de MSC em 5 anos por regressão logística com: idade, diâmetro do AE, gradiente máximo da VSVE, síncope inexplicada, TVNS (FC > 120 bpm) e história familiar de MS em 1º grau com < 40 anos. Categorias: baixo < 4%, intermediário 4–6%, alto ≥ 6% (CDI recomendado na mais alta).
- Limitações: não inclui FE < 50%, aneurisma apical e realce tardio; valoriza AE e gradiente, não claramente associados à MS; utilidade incerta após miectomia/ASA; não recomendada em < 16 anos (há modelo pediátrico — HCM Risk-Kids — validado retrospectivamente, risco ≥ 6% identificando 70% dos eventos).
- Coortes: calculadora com sensibilidade de 33% vs. 95% da abordagem por fatores de risco; especificidade 92% vs. 78% (potencial de 20% menos implantes); NNT comparável (7,2 vs. 6,6). 36% recebem a primeira terapia apropriada após 10 anos do implante.

TV: taquicardia ventricular; FV: fibrilação ventricular; HVE: hipertrofia ventricular esquerda; MS: morte súbita; TVNS: taquicardia ventricular não sustentada; CDI: cardiodesfibrilador implantável; FC: frequência cardíaca. *Múltiplos episódios (≥ 3), FC > 200 e ≥ 10 batimentos. **Tomada de conduta guiada por Heart Team.
No ramo da TVNS com idade > 40 anos, a figura escreve “CDI deve ser considerado 2b”, enquanto a Tabela 18 diz “pode ser considerado” (IIb B).
Os seguintes fatores de risco devem ser pesquisados em toda avaliação clínica: PCR abortada, TV/FV. Síncopes inexplicadas, história familiar de MS < 50 anos de idade, acentuada HVE (≥ 28mm), aneurisma apical, FEVE < 50%.
Em casos de dúvida na indicação de CDI, a realização de pesquisa de TVNS por monitorização prolongada e a realização de ressonância de coração para pesquisa de realce tardio e aneurisma apical são indicadas.
O uso da calculadora eletrônica deve ser considerado para avaliar o risco de morte em 5 anos em pacientes com mais de 16 anos no processo de decisão compartilhada quanto ao implante de CDI.
Havendo evidências de ter ocorrido PCR reanimada por TVS ou FV, o implante de CDI está indicado.
O implante de CDI deve ser considerado em pacientes com idade inferior ou igual a 40 anos na presença de pelo menos um dos seguintes fatores de risco: síncopes inexplicadas (excluindo-se ser vasovagal ou atribuída à OTSVE), acentuada HVE (espessura septal ≥ 28 mm), história familiar de MS com idade ≤ 50 anos de idade, aneurisma apical de VE e disfunção sistólica (fração de ejeção ≤ 50%).
O implante de CDI deve ser considerado em pacientes com idade maior que 40 e inferior ou igual a 60 anos na presença de pelo menos um dos seguintes fatores de risco: síncopes inexplicadas (excluindo-se ser vasovagal ou atribuída à OTSVE), acentuada HVE (espessura septal ≥ 28 mm), história familiar de MS com idade ≤ 50 anos de idade, aneurisma apical de VE e disfunção sistólica (fração de ejeção ≤ 50%) em decisão compartilhada.
O implante de CDI pode ser considerado em pacientes com idade superior a 60 anos na presença de pelo menos um dos seguintes fatores de risco: síncopes inexplicadas (excluindo-se ser vasovagal ou atribuída à OTSVE), acentuada HVE (espessura septal ≥ 28 mm), história familiar de MS com idade ≤ 50 anos de idade, aneurisma apical de VE e disfunção sistólica (fração de ejeção ≤ 50%).
O implante de CDI deve ser considerado na presença de TVNS, principalmente se houver múltiplos episódios (> 3), episódios mais rápidos (FC > 200) e mais longos (> 10 batimentos) se a idade for inferior a 40 anos.
O implante de CDI pode ser considerado na presença de TVNS, principalmente se houver múltiplos episódios (> 3), episódios mais rápidos (FC > 200) e mais longos (> 10 batimentos) se a idade for maior ou igual a 40 anos.
TV: taquicardia ventricular; FV: fibrilação ventricular; PCR: parada cardiorrespiratória; MS: morte súbita; HVE: hipertrofia ventricular esquerda; FEVE: fração de ejeção ventricular esquerda; CDI: cardiodesfibrilador implantável; TVNS: taquicardia ventricular não sustentada; TVS: taquicardia ventricular sustentada; OVSVE: obstrução na via de saída de ventrículo esquerdo; VE: ventrículo esquerdo; FC: frequência cardíaca. O texto (seção 4.2.6) cita “Classe I, nível A” para CDI após TVS/MSC revertida/FV; a tabela traz I B. O realce tardio ≥ 15% isolado (“pode ser considerado”, 2b na Figura 18) não tem linha própria na tabela.
🩺 Pergunta práticaQuem precisa de CDI?Ver resposta
Siga a Figura 18, de cima para baixo, parando no primeiro degrau positivo (decisão em Heart Team):
- PCR reanimada por TVS/FV (prevenção secundária) → CDI indicado Classe IEvidência B.
- ≥ 1 fator de risco maior — síncope inexplicada (não vasovagal, não obstrutiva), HVE ≥ 28 mm, MS familiar ≤ 50 anos, aneurisma apical, FE < 50%:
- ≤ 40 anos → deve ser considerado Classe IIaEvidência B (“fortemente considerado” na figura);
- > 40 e ≤ 60 anos → deve ser considerado, em decisão compartilhada Classe IIaEvidência B;
- > 60 anos → pode ser considerado Classe IIbEvidência B.
- Só TVNS relevante (múltiplos episódios, rápidos, longos) → < 40 anos: deve ser considerado Classe IIaEvidência A; ≥ 40 anos: pode ser considerado Classe IIbEvidência B.
- Só realce tardio ≥ 15% → CDI pode ser considerado (2b na Figura 18).
- Nenhum fator → CDI não indicado (3 na Figura 18).
Múltiplos fatores pesam a favor do implante em qualquer degrau. Em dúvida → monitorização prolongada para TVNS + RMC (realce e aneurisma) Classe IEvidência C; calculadora em > 16 anos Classe IIaEvidência B.
💡 Não indicam CDI por si: G+/F− (Classe IIIEvidência C), biomarcadores, gradiente isolado, FA. A síncope só conta se inexplicada — síncope de esforço por obstrução é indicação de redução septal, não de CDI.
🩺 Pergunta práticaDevo usar a calculadora HCM Risk-SCD?Ver resposta
Sim, como apoio — mas ela não substitui a pesquisa dos fatores de risco.
- Deve ser considerada para avaliar o risco de MS em 5 anos em pacientes com > 16 anos, no processo de decisão compartilhada Classe IIaEvidência B. Cortes: < 4% baixo, 4–6% intermediário, ≥ 6% alto.
- Limitações: ignora FE < 50%, aneurisma apical e realce tardio; incerta após miectomia/ASA; não usar em < 16 anos (HCM Risk-Kids na pediatria).
- Desempenho: maior especificidade (92%) e menor sensibilidade (33%) que a abordagem por fatores de risco (95%/78%).
Use os fatores de risco (Figura 18) como “rede” para não perder ninguém e a calculadora como “lente” para conversar sobre a magnitude do risco com o paciente — especialmente quando a indicação é IIa/IIb e a decisão é compartilhada. Calculadora baixa com aneurisma apical não “desindica” o CDI: o aneurisma não está no modelo.
🩺 Pergunta práticaHolter de 24 h: para todos? Repetir quando?Ver resposta
O que a diretriz diz:
- A TVNS no Holter é um dos fatores de risco de MS (Tabela 17) e um degrau próprio do algoritmo de CDI (Figura 18).
- Os fatores de risco devem ser pesquisados em toda avaliação clínica Classe IEvidência C, e a estratificação deve ser feita na visita inicial e repetida anualmente (seção 4.2.5.1).
- Em dúvida na indicação de CDI, a pesquisa de TVNS por monitorização prolongada é indicada Classe IEvidência C.
- Holter também aparece: na gestação (monitorização de rotina), antes da alta após alcoolização septal, e a cada 1–2 anos no G+/F− com MS familiar que deseja esporte competitivo Classe IIbEvidência C. No G+/F− sem esse contexto, não há recomendação de Holter.
Como a TVNS muda a indicação de CDI (sobretudo em < 40 anos, IIa A), na prática o Holter de 24 h entra na avaliação inicial de todo paciente com fenótipo e é repetido junto com a reestratificação anual — e antes, se houver palpitações ou síncope. A diretriz não fixa formalmente esse intervalo para o Holter; ela fixa a reestratificação anual do risco.
🩺 Pergunta práticaComo fica o seguimento de rotina do paciente com CMH?Ver resposta
- ETT a cada 1–2 anos, mesmo estável Classe IEvidência C; repetir a qualquer momento se mudar o quadro ou houver evento/complicação Classe IEvidência B.
- Estratificação do risco de MS na visita inicial e anualmente; fatores pesquisados em toda avaliação Classe IEvidência C.
- FA: procurar ativamente (o escore HCM-AF estima o risco em 5 anos); anticoagular no primeiro episódio clínico.
- Família: rastreio periódico (Tabela 4) e aconselhamento genético.
- Após redução septal: ETT em 3–6 meses Classe IEvidência B.
- Sintomas persistentes: teste cardiopulmonar Classe IEvidência B.
10.1 Escolha e programação do CDI (seção 4.2.7)
- Fatores: prevenção primária ou secundária, idade, biotipo, ritmo de base (sinusal, bradiarritmia, FA), acesso venoso, arritmia documentada (TV monomórfica vs. polimórfica/FV).
- Ritmo sinusal com condução AV preservada em prevenção primária: CDI transvenoso de coil único ou subcutâneo, sobretudo em jovens. Transvenoso: permite estimulação na bradicardia, mas tem eletrodo intravascular (disfunção, infecção, endocardite, extração). Subcutâneo: remoção mais fácil, mas é maior, bateria menos durável, mais choques inapropriados por oversensing de onda T e miopotenciais; menor experiência no Brasil.
- TV monomórfica recorrente: sistema intravascular (terapia antitaquicardia) com programação para minimizar choques.
- Câmara única: menos complicações. Estimulação persistente do VD reduziu agudamente a obstrução, mas o benefício a longo prazo só persistiu em > 65 anos. Dupla câmara ajuda a discriminar TV de taquicardias supraventriculares, com mais complicações.
- CRT: resposta inferior à das outras cardiomiopatias; comprometida por fibrose extensa e FE < 35%; benefício mais evidente com BRE, QRS muito largo e FE entre 35% e 50%.
Nos pacientes com CMH com indicação de CDI para prevenção de morte súbita, CDIs transvenoso de câmara única, câmara dupla ou subcutâneo são recomendados. A escolha do melhor dispositivo deve ser feita após uma discussão compartilhada que deve levar em consideração as preferências do paciente, seu estilo de vida e a necessidade potencial de estimulação para bradicardia ou de utilização do mecanismo antitaquicardia para término de TV monomórfica sustentada.
Em pacientes com CMH que estão recebendo um CDI transvenoso, os sistemas com coil único são recomendados.
Os CDIs de dupla câmara devem ser considerados para pacientes com necessidade de estimulação atrial ou sequencial atrioventricular para pacientes com bradicardia mais acentuada ou anormalidades importantes da condução atrioventricular, ou como uma tentativa de aliviar os sintomas da CMH obstrutiva (a maioria comumente em pacientes > 65 anos de idade).
Em pacientes adultos selecionados com CMH recebendo um CDI com IC classe funcional II a IV da NYHA ambulatorial, bloqueio de ramo esquerdo e FEVE < 50%, a CRT deve ser considerada para redução dos sintomas.
Em pacientes com CMH nos quais uma decisão foi feita para implante de CDI e que têm taquicardias atriais paroxísticas ou FA, CDIs de dupla câmara podem ser considerados.
CMH: cardiomiopatia hipertrófica; CDI: cardiodesfibrilador implantável; TV: taquicardia ventricular; IC: insuficiência cardíaca; FEVE: fração de ejeção ventricular esquerda; CRT: terapia de ressincronização cardíaca; FA: fibrilação atrial.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 4.2.4 a 4.2.7; Tabelas 17, 18 e 19; Figura 18.
11Fibrilação atrial e anticoagulação
A FA é a arritmia mais comum na CMH (≈ 20%), mal tolerada pelo VE rígido e com alto risco tromboembólico. Na CMH, o primeiro episódio clínico já indica anticoagulação — sem CHA2DS2-VASc.
- FA em ≈ 20% (centros de referência), ≈ 6 vezes a população geral; mais morbidade, AVC e pior qualidade de vida. Predisponentes: AE aumentado e idade; também obstrução da VSVE, onda P > 140 ms, taquiarritmias atriais, ST-T alterado, extrassístoles ventriculares, realce tardio, reserva coronariana anormal. Escore HCM-AF (validado): risco de FA em 5 anos (AE, idade, idade ao diagnóstico, sintomas de IC).
- Controle do ritmo é a estratégia ideal: a perda da contração atrial piora a CF e aumenta internações; o controle precoce evita o ciclo vicioso de remodelamento.
- Controle de frequência, se escolhido: BCCND, betabloqueadores ou combinação; evitar digoxina (inotrópico positivo pode piorar a obstrução).
- Antiarrítmicos: amiodarona e sotalol seguros (sotalol sobretudo em jovens, pelos efeitos de longo prazo da amiodarona); considerar proarritmia pela HVE; propafenona com dados limitados — restrita a portadores de CDI. Eficácia menor que sem CMH: ritmo sinusal em 62% em 1 ano e 42% em 3 anos; amiodarona suspensa por efeitos adversos em 19%.
- Ablação por cateter: segura, mas com mais recidiva (dobro do controle em metanálises); 61% em ritmo sinusal em 6 anos; com antiarrítmico, sucesso de 75% após o primeiro procedimento; indicação precoce parece importante; lesões além do isolamento das veias pulmonares. Ablação cirúrgica durante a miectomia: ≈ 70% livres de FA em 3 anos (tamanho do AE prediz recidiva). Ablação do nó AV + marca-passo em refratários. Oclusor de apêndice atrial esquerdo não é padrão.
Em situações em que a estratégia seja o controle de frequência, são recomendados betabloqueadores ou bloqueador do canal de cálcio (verapamil ou diltiazem).
Em portadores de CMH e FA sintomática, a estratégia de controle de ritmo pela ablação por cateter deve ser considerada.
Em uma estratégia de controle do ritmo, a cardioversão elétrica ou drogas antiarrítmicas devem ser consideradas.
Em pacientes que necessitam de miectomia cirúrgica, a ablação de FA concomitante deve ser considerada.
CMH: cardiomiopatia hipertrófica; FA: fibrilação atrial.
| Medicamento | Eficácia | Efeito colateral | Toxicidade | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Propafenona | ? | ? | Pró-arritmia | Recomendado o uso em pacientes com CDI. |
| Sotalol | Moderada | Fatiga Bradicardia | QTc prolongado Pró-arritmia | O uso deve ser considerado. |
| Amiodarona | Moderada-alta | Bradicardia | Fígado, pulmão, tireoide, pele neurológico | O uso deve ser considerado. |
“?” como no original (dados insuficientes). Grafia “Fatiga” mantida do original.
- Coorte de 4.821 pacientes sem FA prévia: eventos embólicos de 2,9% em 5 anos e 6,4% em 10 anos. Com FA: prevalência e incidência anual de tromboembolismo de 27,1% e 3,8%.
- FA surge mais cedo, é paroxística em 2/3; o risco tromboembólico não difere entre paroxística e persistente/permanente e não depende do número de paroxismos.
- Com tratamento contemporâneo, a FA não é mais fator independente de mortalidade. Outros fatores tromboembólicos: AE (cada 1 mm aumenta o risco, exponencial até 45–50 mm), idade, IC, realce tardio (> 14,4% preditor independente), obstrução, MSA, IM.
- CHADS2 e CHA2DS2-VASc funcionaram mal na CMH; a medida mais importante é a anticoagulação por toda a vida em todos com ≥ 1 episódio de FA, mesmo com ritmo sinusal restaurado. DOAC pelo menos tão seguros e eficazes quanto a varfarina (inclusive na ablação). Subtratamento é frequente (15,3% com ACO ao diagnóstico de FA).
- FA subclínica < 24 h em dispositivos: risco de AVC é metade do da FA clínica e o sangramento continua alto → individualizar (ARTESIA e NOAH em andamento à época).
- Aneurisma apical: alto risco de MS e de tromboembolismo; trombo mesmo em aneurismas pequenos; nenhum evento embólico em quem recebia ACO.
A identificação de um ou mais episódios de FA sintomáticos em eletrocardiograma de superfície é suficiente para recomendar anticoagulação oral com DOAC (ou varfarina) após a avaliação dos riscos individuais dos pacientes para esses medicamentos.
A anticoagulação é recomendada com DOAC (1ª linha) ou antagonista da vitamina K (2ª linha), independentemente do escore de CHA2DS2VASC.
Em portadores de CMH e FA assintomática detectada em dispositivos internos ou externos, com duração maior que 24 horas, a anticoagulação é recomendada com DOAC (1ª linha) e antagonista da vitamina K (2ª linha), independentemente do escore de CHA2DS2VASC.
O uso de anticoagulante oral para profilaxia de eventos embólicos é recomendado em pacientes com CMH e aneurisma apical de VE, independentemente do tamanho do aneurisma após avaliação dos riscos individuais dos pacientes para uso de anticoagulantes orais.
Em portadores de CMH e FA assintomática detectada em dispositivos internos ou externos, com duração maior que 5 minutos e menor que 24 horas, a anticoagulação com DOAC (1ª linha) ou antagonista da vitamina K (2ª linha) deve ser considerada, sempre considerando a carga total de FA, a duração dos episódios, os fatores de risco para tromboembolismo e o risco de sangramento do paciente.
Agentes antiplaquetários não fornecem a prevenção adequada para acidente vascular cerebral no paciente com CMH e FA e, portanto, devem ser evitados.
FA: fibrilação atrial; DOAC: anticoagulantes orais diretos; CMH: cardiomiopatia hipertrófica; VE: ventrículo esquerdo.
🩺 Pergunta práticaApareceu FA: anticoagulo mesmo com CHA₂DS₂-VASc baixo?Ver resposta
Sim. Na CMH, os escores de risco “funcionaram mal”.
- ≥ 1 episódio de FA sintomática no ECG → anticoagular Classe IEvidência B, com DOAC (1ª linha) ou AVK (2ª linha), independentemente do CHA2DS2-VASc Classe IEvidência B — por toda a vida, mesmo que volte ao ritmo sinusal.
- FA assintomática em dispositivo: > 24 h → anticoagular Classe IEvidência C; entre 5 min e 24 h → deve ser considerada, ponderando carga, duração, fatores de risco e sangramento Classe IIaEvidência C.
- Aneurisma apical (mesmo sem FA, qualquer tamanho) → anticoagular Classe IEvidência B.
- AAS/antiplaquetário não substitui Classe IIIEvidência B.
E o ritmo? Controle do ritmo é preferido (ablação na FA sintomática Classe IIaEvidência B; cardioversão ou antiarrítmicos Classe IIaEvidência B — amiodarona/sotalol; propafenona só com CDI). Se for controle de frequência: betabloqueador ou verapamil/diltiazem Classe IEvidência C; evitar digoxina.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 4.3.1 a 4.3.4; Tabelas 20, 21 e 22.
12IC em estágio avançado, transplante e assistência ventricular
Incomum (2–3% em centros de referência), mas responsável por 2/3 dos óbitos. Dois caminhos: o obstrutivo (reversível com redução septal) e o de fibrose/remodelamento (irreversível, com disfunção sistólica ou fisiologia restritiva).
- Progressão para CF III/IV: 1,6%/ano (não obstrutiva), 3,2% (obstrução provocada) e 7,4% (obstrução em repouso).
- Fenótipo obstrutivo: VE hiperdinâmico, pouca fibrose — revertido por redução septal. Fenótipo de fibrose extensa e remodelamento: IC avançada irreversível, resposta ruim aos fármacos, transplante a considerar. Jovens não obstrutivos podem ter IC restritiva grave com FE > 50%.
- CMH é rara entre hospitalizados por IC (0,5%; mortalidade 3,4%). Definição de IC avançada (Metra et al., adotada pela diretriz brasileira de IC): sintomas refratários (NYHA III/IV) com disfunção grave de VE, ou sintomas refratários com PN persistentemente elevados na disfunção diastólica grave.
- Farmacológico: CMH terminal com disfunção sistólica → tratamento de IC (IECA/BRA, betabloqueadores, espironolactona, diuréticos); considerar interromper verapamil/diltiazem ou trocar por betabloqueador; poucos relatos com sacubitril-valsartana e iSGLT2; a terapia reduz sintomas, mas não altera o curso. CRT pode ajudar com retardo de condução. Piora funcional com FE > 50% (até 50%): fisiologia restritiva — diuréticos de alça são importantes. Priorizar ritmo sinusal.
- Não farmacológico: exercícios leves, sem sintomas, de preferência supervisionados; controle da obesidade (acentua obstrução e IC).
- Transplante: refratários, não candidatos a outra intervenção, com comprometimento importante de qualidade e expectativa de vida; 2–3% dos transplantes (ISHLT). Em São Paulo, internados com necessidade de diurético endovenoso entram em prioridade condição 3.
- DAV: cavidades pequenas e fisiologia restritiva limitam; pode ser considerado com contraindicação ao transplante ou indisponibilidade de órgão; melhor sobrevida com diâmetro diastólico do VE > 46 mm (46–50 mm).
O teste cardiopulmonar deve ser realizado em pacientes com CMH com sintomas persistentes para quantificar o grau de limitação funcional e contribuir para a seleção de potenciais candidatos ao transplante cardíaco.
Pacientes com CMH que desenvolvem disfunção de VE (FEVE < 50%) e IC avançada devem receber tratamento medicamentoso guiado por diretrizes de IC.
Pacientes com CMH não obstrutiva que evoluem com disfunção de VE (FEVE < 50%) e IC avançada são potenciais candidatos ao transplante cardíaco e devem ser considerados para implante de cardiodesfibrilador implantável.
Pacientes com CMH que desenvolvem disfunção de VE (FEVE < 50%) e IC avançada, a descontinuação de agentes inotrópicos negativos como verapamil ou diltiazem deve ser considerada.
Recomenda-se a consideração de transplante cardíaco para pacientes com CMH não obstrutiva que evoluem com IC avançada com sintomas limitantes ou arritmias malignas refratárias, apesar da terapia otimizada guiada por diretrizes.
Pacientes com CMH não obstrutiva com disfunção de VE que evoluem com IC avançada com sintomas limitantes refratárias à terapia guiada por diretrizes devem ser considerados para dispositivo de assistência ventricular se houver contraindicação ao transplante cardíaco.
CMH: cardiomiopatia hipertrófica; VE: ventrículo esquerdo; FEVE: fração de ejeção ventricular esquerda; IC: insuficiência cardíaca. No original, o nível da 4ª recomendação aparece como “C300” (número de referência colado ao nível C).

CMH: cardiomiopatia hipertrófica; IC: insuficiência cardíaca; ECG: eletrocardiograma; TCP: teste cardiopulmonar; BNP: peptídeo natriurético tipo B; FEVE: fração de ejeção ventricular esquerda; FA: fibrilação atrial; iECA: inibidores da enzima de conversão da angiotensina II; ARA-II: antagonistas dos receptores de angiotensina II; BRE: bloqueio de ramo esquerdo; CDI: cardiodesfibrilador implantável. *Realizar ecocardiograma com provocação se não houver gradiente em repouso. No original, as duas caixas de fenótipo estão rotuladas “Forma não obstrutiva”; pelo conteúdo (inotrópicos negativos e redução septal), a da esquerda corresponde à forma obstrutiva.
🩺 Pergunta práticaO paciente evoluiu com FE < 50%: o que muda no tratamento?Ver resposta
- FE < 50% é fator de risco de MS (degrau de “≥ 1 fator” da Figura 18) e marca a “fase final” (sobrevida média de 8,4 anos).
- Iniciar tratamento de IC guiado por diretrizes Classe IEvidência C (Figura 15: betabloqueador, IECA/BRA/INRA, ARM, iSGLT2; diuréticos).
- Suspender verapamil/diltiazem (inotrópicos negativos) deve ser considerado Classe IIaEvidência C.
- Não obstrutiva com IC avançada: potencial candidato a transplante e deve ser considerado para CDI Classe IIaEvidência B; transplante se sintomas limitantes ou arritmias refratárias Classe IEvidência C; DAV se contraindicação ao transplante Classe IIaEvidência C.
- CRT se BRE, CF II–IV e FEVE < 50% em quem recebe CDI Classe IIaEvidência B.
- Teste cardiopulmonar para quantificar a limitação Classe IEvidência B.
💡 Mavacanteno não é opção aqui: o critério exige FEVE > 55% (Tabela 12), e o fármaco reduz a FEVE.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 4.4.1 a 4.4.4; Tabela 23; Figura 19.
13Atividade física e reabilitação
A CMH ainda responde pelo maior número de mortes súbitas no exercício, mas a proscrição generalizada deu lugar à prescrição estratificada: intensidade conforme risco de MS, gradiente, resposta pressórica e arritmias no esforço.
- Fatores intrínsecos (genética, estímulo adrenérgico) e extrínsecos (desidratação, esteroides anabolizantes, ambiente) predispõem à MS.
- Reabilitação: melhora de ≥ 1 classe funcional em 50% (20 pacientes); benefício em capacidade (32 pacientes). ECR (18–80 anos; excluídos síncope no exercício, TV, obstrução refratária em avaliação para redução septal, hipotensão ao esforço > 20 mmHg, descompensação, CDI ou redução septal recente, FE < 55%): +1,27 mL/kg/min no VO2 vs. atividade usual em 16 semanas, sem eventos adversos (sem poder para segurança).
- Atividade não supervisionada pode ser benéfica e segura sem marcadores de risco de MS; com resposta anormal da PA ou arritmias, preferir ambiente supervisionado.
| Parâmetro | Assintomático + boa capacidade de exercício | Sintomas relacionados à CMH, mas sem relação com o exercício | História de PCR, síncope ou sintomas durante o exercício |
|---|---|---|---|
| Escore HCM Risk-SCD para morte súbita em 5 anos | Baixo risco (< 4%) | Moderado risco (≥ 4% e < 6%) | Alto risco (≥ 6%) |
| Gradiente de via de saída | Ausente/baixo (< 30 mmHg no repouso/exercício) | Moderado (30 a 49 mmHg no repouso ou exercício) | Alto gradiente (> 50 mmHg no repouso ou exercício) |
| Resposta da PA ao exercício | Normal | Atenuada (< 20 mmHg de incremento na PA sistólica) | Queda da PA no esforço |
| Arritmia induzida pelo exercício | Sem arritmias | Extrassístoles ventriculares no exercício | TVNS ou TVS no esforço |
| Intensidade de exercício sugerida | Alta intensidade | Moderada intensidade | Baixa intensidade |
PA: pressão arterial; PCR: parada cardiorrespiratória; TVNS: taquicardia ventricular não sustentada; TVS: taquicardia ventricular sustentada; CMH: cardiomiopatia hipertrófica. Adaptado de Semsarian et al. A primeira coluna (“Parâmetro”) foi acrescentada para leitura; no original, os perfis de paciente formam o cabeçalho das colunas.
Recomenda-se a estratificação de risco para a classificação dos pacientes quanto à prescrição de atividade física usando escores específicos e parâmetros observados no esforço.
A reabilitação cardiopulmonar com treinamento estruturado e não supervisionado é recomendada para pacientes com CMH com intuito de melhora de capacidade funcional em indivíduos de baixo risco.
A reabilitação cardiopulmonar em paciente com CMH na presença de gradiente na VSVE ≥ 50 mmHg em repouso/Valsalva, em ambiente supervisionado poderá ser considerada
Não se recomenda a reabilitação cardiopulmonar de alta ou moderada intensidade em indivíduos com CMH e história prévia de síncope aos esforços, taquicardia ventricular ou morte súbita abortada.
CMH: cardiomiopatia hipertrófica; VSVE: via de saída do ventrículo esquerdo. No original, o nível da última recomendação aparece como “C301” (número de referência colado ao nível C).
🩺 Pergunta práticaPaciente com CMH pode fazer exercício? E esporte competitivo?Ver resposta
Pode — e, no baixo risco, deve: reabilitação/treinamento estruturado, mesmo não supervisionado, é recomendado para melhorar a capacidade funcional em indivíduos de baixo risco Classe IEvidência B.
Como decidir a intensidade (Tabela 24)
Estratifique com escores e parâmetros do esforço Classe IEvidência C: HCM Risk-SCD, gradiente, resposta da PA e arritmias no exercício. O pior parâmetro tende a definir a coluna:
- Baixo risco (< 4%), gradiente < 30 mmHg, PA normal, sem arritmias → alta intensidade.
- Risco 4–6%, gradiente 30–49, PA atenuada, extrassístoles → moderada.
- Risco ≥ 6%, gradiente > 50, queda da PA, TVNS/TVS no esforço; ou PCR/síncope/sintomas no exercício → baixa intensidade.
- Gradiente ≥ 50 mmHg em repouso/Valsalva → reabilitação em ambiente supervisionado pode ser considerada Classe IIbEvidência C.
- Síncope aos esforços, TV ou MS abortada → não fazer reabilitação de moderada/alta intensidade Classe IIIEvidência C.
- Evitar desidratação e anabolizantes (fatores extrínsecos de MS).
Esporte competitivo: a diretriz só traz recomendação formal para o G+/F− (Tabela 11): liberação deve ser considerada sem MS familiar Classe IIaEvidência C; com MS familiar, pode ser considerada com teste ergométrico e Holter a cada 1–2 anos Classe IIbEvidência C. Para quem tem fenótipo, não há recomendação específica de esporte competitivo além da prescrição por intensidade da Tabela 24.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 3.7.3 e 4.5; Tabelas 11, 24 e 25.
14Avaliação perioperatória em cirurgias não cardíacas
Variação de volume, vasodilatação e estímulo adrenérgico provocam ou agravam o gradiente e a isquemia. O risco de infarto ou óbito foi quase o triplo em uma série norte-americana.
- 227 pacientes com CMH vs. 554 controles pareados: infarto ou óbito OR 2,82 e morte OR 1,61 após ajuste. Outras séries: sem mais mortalidade, mas consistentemente mais complicações CV — sobretudo descompensação de IC.
- Mecanismos: shift volêmico e vasodilatação aumentam ou provocam gradiente (mesmo em quem não tinha obstrução em repouso); oscilações pressóricas e de hemoglobina desequilibram oferta/consumo; arritmias por estímulo adrenérgico e distúrbios eletrolíticos.
- Não há estudos de intervenção; estratificação e terapia devem ser otimizadas antes de cirurgias eletivas, idealmente em centro de referência (anestesista, intensivista e cardiologista experientes).
- ECO se o último tem > 1 ano ou mudaram os sintomas, antes de risco moderado/alto. ECG, troponina-US e BNP mesmo em CF I–II, como base para monitorização. Manter betabloqueadores. Avaliar volemia; operar no primeiro horário, evitando jejum longo e hipovolemia.
- Procedimentos longos ou com grande shift volêmico: PA invasiva e cateter venoso central mandatórios, terapia guiada por alvos; ETE transoperatório em centros experientes. Monitorização nas primeiras 48 h, com BNP e troponina-US diários.
- Anestesia: agentes de menor impacto hemodinâmico. Geral vs. regional é polêmico — sem associação com desfechos nas séries, mas bloqueios (queda do retorno venoso e vasodilatação) são menos atraentes nos sintomáticos com gradiente expressivo; anestesia geral em 89% em um centro de referência.
- O pré-operatório também é oportunidade de diagnóstico; em eletivas, estratificar e tratar primeiro.
É recomendada a realização de ECO nos casos de suspeita de CMH, em casos em que o último ECO foi há mais de 1 ano e/ou com mudança de sintomas.
Recomenda-se manter o betabloqueador em todo perioperatório.
Recomenda-se a realização de eletrocardiograma, BNP ou NT-proBNP e troponina antes de operações de risco intermediário a alto, e repeti-los no PO imediato e 1 vez ao dia no 1° e 2° dia PO.
Deve ser considerada a monitorização hemodinâmica com pressão arterial invasiva, catéter venoso central e terapia hemodinâmica guiada por alvo durante cirurgias de alto risco intrínseco.
Pode ser considerada a realização de eco transesofágico durante a operação com alto risco para a avaliação de volemia e gradiente intraventricular em centros com experiência.
ECO: ecocardiograma; CMH: cardiomiopatia hipertrófica; BNP: peptídeo natriurético tipo B; NT-proBNP: fração N-terminal do peptídeo natriurético do tipo B; PO: pós-operatório.
🩺 Pergunta práticaPaciente com CMH vai fazer cirurgia não cardíaca: o que pedir e o que orientar?Ver resposta
Antes
- Eco se suspeita de CMH, último eco > 1 ano ou mudança de sintomas Classe IEvidência C.
- Risco intermediário a alto: ECG + BNP/NT-proBNP + troponina basais Classe IEvidência C.
- Eletivas: completar estratificação de risco e otimizar o tratamento antes (inclusive CDI/redução septal se indicados).
Durante
- Manter o betabloqueador Classe IEvidência C; operar cedo, evitar jejum prolongado e hipovolemia.
- Alto risco intrínseco: PA invasiva, CVC e terapia guiada por alvos Classe IIaEvidência C; ETE intraoperatório em centros experientes Classe IIbEvidência C.
- Preferir agentes de menor impacto hemodinâmico; cautela com bloqueios no paciente sintomático com gradiente expressivo.
Depois
- Repetir ECG, BNP e troponina no PO imediato e 1×/dia no 1º e 2º dias Classe IEvidência C; monitorização e reavaliação cardiológica nas primeiras 48 h.
Pense “gradiente dinâmico” durante todo o perioperatório: hipovolemia, vasodilatação, taquicardia e inotrópicos aumentam a obstrução. A hipotensão no obstrutivo pede volume e vasoconstritor, não inotrópico.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seção 4.6; Tabela 26.
15Centros de referência multidisciplinares
A CMH é comum, mas pouco habitual para a maioria dos cardiologistas: casos sintomáticos podem levar meses ou anos até o diagnóstico correto. Terapias avançadas exigem Heart Team e volume.
- Centros de referência devem oferecer testes e aconselhamento genético, CDI, eco com exercício, RMC, ablação septal com álcool, miectomia, manejo de arritmias e pesquisa multicêntrica (Tabela 28).
- A necessidade de redução septal é um dos principais motivos de encaminhamento: melhores resultados e menos complicações em centros experientes.
- Objetivo: “cuidado certo” — eficaz, para o doente certo, na hora certa, da maneira certa, com o resultado certo, com decisão compartilhada e valor em saúde; ensino, educação do público, associações de pacientes, telecardiologia, gestão da qualidade e registros.
A tomada de conduta sobre terapias avançadas em pacientes com CMH deve ser feita mediante discussão em Heart Team multidisciplinar.
Deve ser considerado o encaminhamento ou acompanhamento conjunto para um centro de referência dos pacientes com diagnóstico de CMH necessitando abordagem diagnóstica e/ou terapêutica especializada.
Recomenda-se o encaminhamento dos pacientes necessitando de terapia de redução septal para centro de referência com excelência de resultados dessas intervenções
CMH: cardiomiopatia hipertrófica.
| Componente |
|---|
| Médicos |
| Cardiologista (adulto e pediátrico) |
| Especialista em ecocardiografia |
| Especialista em ressonância magnética cardíaca e tomografia computadorizada cardíaca |
| Especialista em eletrofisiologia |
| Especialista em marca-passo e CDI |
| Cirurgião cardíaco |
| Cardiologista intervencionista |
| Geneticista |
| Outros profissionais |
| Enfermeiro(a) |
| Psicólogo(a) |
| Nutricionista |
| Assistente social |
| Ginecologista – obstetra |
| Métodos diagnósticos |
| Análise genética |
| Aconselhamento genético |
| Ecocardiograma em repouso e exercício |
| Ressonância magnética cardíaca |
| Tomografia computadorizada cardíaca |
| Holter de 24 horas |
| Monitor de evento arrítmicos de longa permanência |
| Estudo eletrofisiológico |
| Teste ergométrico |
| Teste cardiopulmonar |
| Cineangiocoronariografia |
| Estudo hemodinâmico invasivo |
| Procedimentos terapêuticos |
| Miectomia septal cirúrgica |
| Ablação septal com álcool |
| Ablação de FA |
| Implante de CDI |
CDI: cardiodesfibrilador implantável; FA: fibrilação atrial.
🩺 Pergunta práticaQuando encaminhar o paciente com CMH para um centro de referência?Ver resposta
- Sempre que houver indicação de redução septal — encaminhar para centro com excelência de resultados Classe IEvidência C.
- Decisões sobre terapias avançadas (redução septal, CDI em zona cinzenta, transplante/DAV, ablação de FA) → Heart Team multidisciplinar Classe IEvidência C.
- Qualquer necessidade de abordagem diagnóstica ou terapêutica especializada → encaminhamento ou acompanhamento conjunto deve ser considerado Classe IIaEvidência C: suspeita de fenocópia, genética/aconselhamento, eco de esforço ou RMC indisponíveis, CF III–IV, gestação de risco, cirurgia não cardíaca de alto risco (“idealmente” em centro de referência).
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seção 4.7; Tabelas 27 e 28.
16Situações especiais: crianças, adolescentes e gravidez
Na pediatria, a CMH é mais grave, mais genética e mais letal por morte súbita; na gestação, o risco depende da obstrução, das arritmias e da função ventricular — estratificado pela classificação modificada da OMS.
16.1 Crianças e adolescentes (seções 4.8.1 e 4.8.1.1)
- Incidência de 0,24 a 0,47/100.000 crianças/ano; 25–50% das miocardiopatias pediátricas; segundo fenótipo mais observado. Picos no 1º ano de vida (3× mais diagnosticada) e na adolescência.
- Herança autossômica dominante, expressividade variável e penetrância dependente da idade; na pediatria predominam variantes sarcoméricas — exceto em lactentes < 1 ano, em que história familiar e variantes sarcoméricas são menos comuns (erros inatos do metabolismo, síndromes).
- Fenótipo completo pode surgir só na 2ª–3ª décadas. Diagnóstico no 1º ano = prognóstico substancialmente pior. Mortalidade anual maior que em adultos; mais da metade por morte súbita em assintomáticos.
- Atrasos do desenvolvimento, dismorfias e comprometimento neurológico, hepático e renal apontam para erros inatos e síndromes.
- ShaRe (1.128 crianças de 1 a 18 anos): CMH sarcomérica = mais arritmias ventriculares e IC avançada; variante sarcomérica = risco 67% maior de desfechos, IC 2× maior.
- Marcadores clássicos de MS: síncope inexplicada, história familiar de MS por CMH, hipertrofia maciça e TVNS. Metanálise (Xia): síncope, TVNS e obstrução da VSVE associadas à MS em crianças; a história familiar não foi fator de risco (diferente da ESC).
- O escore da ESC não é usado em < 16 anos; o HCM Risk-Kids (síncope inexplicada, espessura máxima, diâmetro do AE, gradiente, TVNS) foi validado externamente e pode guiar o CDI.
🩺 Pergunta práticaCriança ou adolescente com CMH: o que muda?Ver resposta
- Diagnóstico: z-score (> 2 ao eco; ACC/AHA: > 2,5 em assintomáticos sem história familiar), não o corte de 15 mm. O ECG costuma estar alterado antes da HVE nas formas sarcoméricas.
- Etiologia: no lactente, pensar em Pompe, filho de mãe diabética, mitocondriais e RASopatias (≈ 42% em < 1 ano); procurar dismorfias e atraso do desenvolvimento.
- Morte súbita: é a principal causa de óbito, sobretudo em adolescentes; use o HCM Risk-Kids, não o HCM Risk-SCD (< 16 anos). No algoritmo de CDI, crianças entram no grupo < 40 anos.
- Rastreio familiar: eco a cada 1–2 anos em crianças/adolescentes com variante patogênica ou com familiares de início precoce; 2–3 anos nos demais (Tabela 4). G+/F−: 1–2 anos até os 30 anos (Tabela 11).
- Redução septal pode ser considerada em CF II com gradiente > 100 mmHg em adulto jovem e criança Classe IIbEvidência B.
16.2 Gravidez e parto (seção 4.8.2)
- Aumento do débito, queda da resistência vascular e hipercoagulabilidade favorecem IC, arritmias e tromboembolismo.
- Aconselhamento reprodutivo: planejar conforme sintomas, grau de comprometimento (ETT e/ou RMC), obstrução, terapêutica e estudo genético.
- OMS modificada: classe II — CMH sem obstrução e sem complicadores (boa evolução); classe III — obstrução importante, arritmias sintomáticas e/ou disfunção sistólica moderada (gravidez desaconselhada); classe IV — disfunção ou obstrução graves e sintomáticas (contraindicação). Complicadores: IC prévia, arritmia ventricular complexa, FA, MS na família. Mulheres após redução septal não estão incluídas nas categorias (falta de dados).
- Genética: transmissão autossômica dominante; triagem com testes genéticos ou imagem/ECG no planejamento.
- Gestação: seguimento multidisciplinar, eco materno e fetal, Holter 24 h de rotina. Betabloqueadores (propranolol ou succinato de metoprolol), com ou sem antagonista do cálcio (preferencialmente verapamil) — seguros, não teratogênicos, eficazes; ajustar pela hipotensão. CDI se houver indicação; ablação com mapeamento eletroanatômico em arritmia instável refratária.
- FA: risco marcadamente aumentado de AVC — anticoagulação com varfarina deve ser considerada, independentemente do CHA2DS2-VASc (a Tabela 29 cita AVK ou HBPM conforme a idade gestacional); cardioversão elétrica não tem contraindicação na gestação.
- Obstétrico: baixo peso e prematuridade. Parto vaginal é seguro; cesárea para OMS III/IV ou indicação obstétrica. Prostaglandinas para indução não aconselhadas (vasodilatação). Bloqueio anestésico pode ser considerado na OMS II; anestesia geral reservada sobretudo para OMS IV.
Recomenda-se o emprego da classificação da OMS-modificada para estratificação de risco da gravidez
Recomenda-se o uso de betabloqueadores cardiosseletivos e os antagonistas dos canais de cálcio para o controle dos sintomas, e deve-se ter apoio na monitorização do crescimento e vitalidade fetal.
A cardioversão elétrica deve ser considerada perante a fibrilação atrial persistente ou mal tolerada.
A anticoagulação com antagonistas da vitamina K ou heparina de baixo peso molecular deve ser considerada na fibrilação atrial, a depender da idade gestacional.
O parto vaginal é a primeira escolha para pacientes em Classe I/II-OMSm, e o parto cesárea deve ser considerado para Classes III/IV-OMSm.
OMS: Organização Mundial da Saúde. A classe da cardioversão elétrica aparece no original apenas como “II” (sem “a” ou “b”); está mostrada em cinza para não atribuir uma classe que o documento não define.
🩺 Pergunta práticaPaciente com CMH quer engravidar: o que avaliar?Ver resposta
- Classificar o risco pela OMS modificada Classe IEvidência C com ETT (± RMC): sem obstrução e sem complicadores → OMS II (boa evolução); obstrução importante, arritmia sintomática ou disfunção moderada → OMS III (desaconselhar); disfunção ou obstrução graves e sintomáticas → OMS IV (contraindicar).
- Complicadores: IC prévia, arritmia ventricular complexa, FA, MS na família.
- Aconselhamento genético (herança autossômica dominante) e discussão de CDI/ablação antes de engravidar, se indicados.
- Medicações: betabloqueador cardiosseletivo e/ou antagonista do cálcio para sintomas Classe IEvidência C, com monitorização do crescimento e da vitalidade fetal.
- FA na gestação: anticoagular (AVK ou HBPM conforme a idade gestacional) Classe IIaEvidência C; cardioversão se persistente ou mal tolerada (Classe II, C).
- Parto: vaginal na OMS I/II; cesárea a considerar na OMS III/IV Classe IIaEvidência C; evitar prostaglandinas para indução.
A diretriz não aborda o mavacanteno na gestação; na prática, a bula deve ser consultada antes de qualquer planejamento reprodutivo em uso desse fármaco.
Fonte: Diretriz SBC de CMH 2024 — seções 4.8.1, 4.8.1.1 e 4.8.2; Tabela 29.
🚫 10 coisas para parar de fazer na CMH
Cada item tem base em recomendação formal ou no texto da diretriz.
1. Encerrar a investigação com gradiente de repouso baixo
Gradiente < 50 mmHg → manobras (I B); sintomático → eco com esforço (I B). Quase 1/3 só aparece com provocação.
2. Usar o CHA2DS2-VASc para decidir anticoagulação
FA clínica na CMH → anticoagular, independentemente do escore (I B).
3. Prescrever AAS para “proteger” da FA
Antiplaquetários não previnem AVC na CMH com FA e devem ser evitados (III B).
4. Usar digoxina para controlar a frequência
Efeito inotrópico positivo pode piorar a obstrução (seção 4.3.2); prefira betabloqueador ou verapamil/diltiazem (I C).
5. Usar vasodilatadores no obstrutivo
Considerar evitar vasodilatadores, especialmente na forma obstrutiva (IIa C).
6. Indicar redução septal no assintomático
Obstrutivo assintomático com capacidade normal ao exercício: TRS não indicada (III C).
7. Trocar a valva mitral para aliviar a VSVE
Quando a redução septal é opção, a substituição mitral não deve ser recomendada para isso (III C).
8. Implantar CDI no G+/F−
CDI ou fármacos para prevenção primária não recomendados no genótipo positivo sem fenótipo (III C).
9. Testar geneticamente a família quando o probando não tem variante patogênica
Só variantes benignas/provavelmente benignas → teste familiar não recomendado (III B).
10. Prescrever exercício moderado/intenso após síncope de esforço ou TV
Reabilitação de alta ou moderada intensidade não recomendada com síncope aos esforços, TV ou MS abortada (III C).
Fonte: Tabelas 5, 10, 11, 12, 14, 20, 22 e 25; seção 4.3.2.
✓Checklist prático da consulta
Marque durante a consulta (as marcações ficam só nesta tela e podem ser limpas no botão “Limpar respostas e checklist”).
📌 A diretriz em 2 minutos
- Diagnóstico: espessura ≥ 15 mm (≥ 13 mm em familiar ou genética +); crianças por z-score.
- Obstrução: ≥ 30 mmHg define; ≥ 50 mmHg é significativa. Sempre provocar (Valsalva/ortostase) e, se sintomático, eco com esforço.
- RMC: Classe I para diferencial de fenocópias e estratificação (realce tardio, aneurisma apical).
- Genética: fenocópia suspeita (I B); família (IIa B); probando sem variante patogênica → não testar família (III B).
- Família: ETT nos parentes de 1º grau (I B); adultos a cada 3–5 anos; G+/F− sem CDI nem fármaco (III C).
- Tratamento: betabloqueador (I B) → BCCND (I B) → mavacanteno (IIa B: obstrutivo > 50 mmHg, FEVE > 55%, CF II–III) → redução septal (I B: CF III–IV, > 50 mmHg).
- Evitar: vasodilatadores (IIa C), digoxina, antiplaquetário no lugar de ACO (III B).
- CDI: secundária (I B); ≥ 1 fator de risco → IIa até 60 anos, IIb > 60; TVNS → IIa A < 40 anos; realce ≥ 15% isolado → 2b; nada → não indicado.
- FA: anticoagular com DOAC desde o 1º episódio, sem CHA2DS2-VASc (I B); controle do ritmo preferido.
- FE < 50%: fator de risco de MS; tratar como ICFEr, suspender verapamil/diltiazem, pensar em transplante.
- Exercício: treinamento recomendado no baixo risco (I B); intensidade pela Tabela 24.
- Gravidez: OMS modificada (I C); parto vaginal na OMS I/II; sem prostaglandina para indução.
🎓Desafio final — 20 casos integradores
Casos que cruzam diagnóstico, estratificação de risco, tratamento e situações especiais. Escolha uma alternativa e leia o comentário completo.
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