Dr. Guilherme MouraCardiologista | Ecocardiografista
Ecocardiografia na TAVI · ASE/JASE 2018← Diretrizes | Em formato interativo

Revisão comentada · Dr. Guilherme Moura · Baseada no artigo original da ASE (JASE 2018)

Ecocardiografia · Cardiopatia estrutural · TAVI

Ecocardiografia no implante transcateter de valva aórtica (TAVI)

Do diagnóstico da estenose aórtica ao laudo pós-implante: anatomia da raiz, medida correta da VSVE, estenose de baixo gradiente, planejamento 3D, guia por ETE na sala, graduação da regurgitação paravalvar e complicações — com as figuras originais traduzidas e casos clínicos comentados.

ASE · JASE 201813 figuras traduzidas12 tabelas integrais75 casos clínicos comentadosGlossário de siglas

Hahn RT, Nicoara A, Kapadia S, Svensson L, Martin R. “Echocardiographic Imaging for Transcatheter Aortic Valve Replacement”. Focus Topic: Echocardiography in Structural Heart Disease Interventions — State-of-the-Art Reviews. J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33. doi:10.1016/j.echo.2017.10.022.

📄 Que documento é este?

Não é uma diretriz: é uma revisão de estado da arte publicada pela American Society of Echocardiography (ASE) no JASE em abril de 2018. Por isso o texto não traz classes de recomendação nem níveis de evidência próprios. Quando o artigo cita classes das diretrizes AHA/ACC (por exemplo, na Figura 3), elas aparecem aqui com as cores clínicas habituais e a indicação “diretriz citada”.

O artigo reflete o cenário de 2017–2018: indicação de TAVI classe I em risco cirúrgico proibitivo ou alto e classe IIa em risco intermediário (atualização AHA/ACC 2017). Desde então, diretrizes mais recentes ampliaram as indicações e novas gerações de próteses chegaram ao mercado; esta página reproduz fielmente o que o artigo afirma, sem atualizar condutas por conta própria.

⚠️ Aviso

Material educacional. Não substitui o julgamento clínico nem as diretrizes vigentes. Os nomes de dispositivos (Tabela 3) correspondem aos citados em 2018, alguns então em investigação. Figuras e tabelas reproduzidas de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33 (© American Society of Echocardiography), com tradução dos rótulos para fins educacionais.

🧠 Como ler esta página

Três camadas estão sempre separadas: 📄 O que o artigo afirma (pontos-chave, tradução fiel do conteúdo, com o local de origem) · 📖 Texto de suporte (síntese dos dados e estudos citados) · 🎓 Interpretação didática (leitura prática do autor desta revisão, nunca misturada com o texto do artigo).

Classes citadas pelo artigo (diretrizes AHA/ACC): Classe I Classe IIa Classe IIb · referência de origem: Tabela 1 Figura 3.

Terminologia: o original usa TAVR (transcatheter aortic valve replacement); aqui usamos TAVI, termo consagrado no Brasil. THV = prótese (valva) transcateter. PAR = regurgitação paravalvar (RPV, “leak” paravalvar).

📚 Siglas usadas nesta revisãoAbrir lista de siglasVer

2D/3D, bi/tridimensional · ACC, American College of Cardiology · ACD, artéria coronária direita · AG, anestesia geral · AHA, American Heart Association · AVA, área valvar aórtica · AVAi, AVA indexada · CCD/CCE/CNC, cúspides coronariana direita, coronariana esquerda e não coronariana · CIV, comunicação interventricular · CW, Doppler contínuo · DVI, índice adimensional (Doppler velocity index; razão VTI ou velocidade VSVE/valva) · EAo, estenose aórtica · ECR, ensaio clínico randomizado · ELI, índice de perda de energia (energy loss index) · ETE/ETT, ecocardiograma transesofágico/transtorácico · FEVE, fração de ejeção do VE · GM, gradiente médio · IAo, insuficiência (regurgitação) aórtica · IM/IT, insuficiência mitral/tricúspide · JST, junção sinotubular · MPR, reconstrução multiplanar · PAR/RPV, regurgitação paravalvar · PHT, tempo de meia-pressão · PW, Doppler pulsado · SC, sedação consciente · SIV, septo interventricular · SLG, strain longitudinal global · SV, seios de Valsalva · TAVI, implante transcateter de valva aórtica · TCE, tronco da coronária esquerda · TCMD, tomografia computadorizada multidetectores (MSCT) · TVA, troca valvar aórtica · VARC, Valve Academic Research Consortium · VD/VE, ventrículo direito/esquerdo · VS/VSi, volume sistólico/indexado · VSVE, via de saída do VE · VTI, integral velocidade-tempo · Zva, impedância valvuloarterial.

🔤 Siglas do artigo original em inglês (LVOT, TEE, MSCT, PAR…) com o termo completo e a tradução: veja o glossário completo.

🔥 O que você precisa lembrar deste artigo

Os quatro “Highlights” oficiais do artigo, desdobrados em FAZER · NÃO FAZER · CONSIDERAR.

HIGHLIGHT 1

O ecocardiografista é membro do Heart Team

O imagiologista participa da seleção, do planejamento, da sala e do seguimento; precisa conhecer a anatomia relevante para a prótese e cada passo do implante.

HIGHLIGHT 2

Eco é o método de escolha para morfologia e função

Número de cúspides, cálcio, gravidade da EAo, resposta do VE e valvopatias associadas são definidos pelo eco.

HIGHLIGHT 3

Eco complementa a TCMD no planejamento

A TCMD virou padrão para anel, acesso e coronárias, mas o ETE 3D mede anel, área e perímetro com resultados comparáveis, sem radiação nem contraste.

HIGHLIGHT 4

Eco é essencial na sala e no pós

Posição da prótese, leak paravalvar, derrame, obstrução coronariana, IM nova e ruptura: diagnóstico em tempo real.

NÃO FAZER

Medir a VSVE abaixo do anel

Medir 5–10 mm abaixo do anel (sobretudo com septo sigmoide) subestima a AVA pela equação de continuidade.

NÃO FAZER

Graduar leak por área ou comprimento do jato

A gravidade da RPV não deve ser avaliada pela área nem pelo comprimento do jato colorido.

CONSIDERAR

Escore de cálcio no baixo fluxo

Na EAo de baixo gradiente, o cálcio valvar na TCMD (≥1.275 UA em mulheres; ≥2.065 UA em homens) ajuda a separar EAo verdadeira de pseudograve.

CONSIDERAR

Abordagem multijanela

Olhar só a janela apical subestima a gravidade em até 50% dos pacientes; a paraesternal direita costuma revelar velocidades maiores.

FAZER

Varredura completa da prótese

Do ventrículo à aorta em eixo curto, com a VSVE logo abaixo do stent, para localizar, contar e graduar os jatos de forma multiparamétrica.

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Highlights” e Introdução (p. 405-7).

1Anatomia da raiz aórtica: o que importa para a TAVI

A raiz aórtica é um complexo — valva, anel, seios de Valsalva e junção sinotubular — e cada componente tem implicação direta no tamanho da prótese, no risco de obstrução coronariana e no risco de distúrbio de condução.

Perspectiva anatômica · p. 405📄 O que o artigo afirma
  • A caracterização do complexo da raiz aórtica (valva, anel, seios de Valsalva e junção sinotubular) é crítica para o planejamento e o sucesso da TAVI.
  • O anel anatômico corresponde às linhas semilunares de inserção dos folhetos; porém a medida do anel usada para dimensionar a prótese é feita nos pontos de inserção mais basais (ventriculares) dos folhetos — o anel ventricular, um anel “virtual”, já que mais da metade da sua circunferência é formada pela base dos triângulos interfolhetos.
  • O óstio da coronária esquerda costuma estar na porção posterior do seio esquerdo; o da direita, um pouco mais anterior e superior no seio direito. A posição mais baixa da coronária esquerda aumenta seu risco de obstrução por um folheto calcificado.
  • O feixe atrioventricular corre no topo do septo muscular, sob o septo membranoso, onde se divide em ramos direito e esquerdo — por isso fica sob risco de lesão na TAVI, a depender em parte da profundidade do implante.
📖 Texto de suporte — relações anatômicas
  • A valva normal tem três folhetos sustentados pelos seios esquerdo, direito e não coronariano.
  • O folheto coronariano direito repousa sobre a porção muscular do septo interventricular; o não coronariano é adjacente ao septo membranoso e ao folheto anterior mitral; o coronariano esquerdo é contínuo com o folheto anterior mitral (cortina aortomitral) e com o septo muscular.
  • Entre as linhas de inserção semilunares ficam os triângulos (trígonos) fibrosos interfolhetos.
  • As coronárias nascem a distâncias variáveis da base das cúspides esquerda e direita.
Ilustração da raiz aórtica aberta, traduzida, mostrando junção sinotubular, óstios da coronária direita e do tronco da coronária esquerda, anel basal tracejado, septo membranoso em azul, nó atrioventricular, septo interventricular e ramos direito e esquerdo (anterior e posterior) do feixe, além do folheto anterior mitral
Figura 1 – Sistema de condução e sua relação com a raiz aórticaToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

O nó atrioventricular situa-se tipicamente no assoalho do átrio direito, logo posterior e inferior ao septo membranoso (região em azul). O nó e o feixe AV correm então no topo do septo muscular, sob o septo membranoso, onde se dividem em ramos esquerdo e direito.

ACD, artéria coronária direita; ant., anterior; post., posterior; SIV, septo interventricular; TCE, tronco da coronária esquerda.

Nota de fidelidade: a legenda original diz “aortic valve node”; pelo contexto (e pela própria figura, que rotula “A-V node”), trata-se do nó atrioventricular. No texto do artigo, a frase sobre o trajeto do feixe AV aparece repetida em sequência; foi reproduzida uma vez.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Valva aórtica bicúspide

Perspectiva anatômica · p. 405-6📄 O que o artigo afirma
  • A bicúspide foi critério de exclusão dos primeiros ensaios de TAVI e pode associar-se a piores desfechos do procedimento que a valva trivalvulada.
  • Diferenças anatômicas: anel maior e mais circular, seios de Valsalva e aorta ascendente maiores e calcificação anular mais excêntrica — o que pode contribuir para mais RPV e mais distúrbios de condução após a TAVI.
  • O Bicuspid TAVR Registry mostrou boas taxas de sucesso com próteses de nova geração; dimensionamento pela TCMD e técnicas de implante aprimoradas podem mitigar as complicações.
  • Classificação de Sievers e Schmidtke: tipo 0 (sem rafe), tipo 1 (uma rafe, mais comumente entre as cúspides coronarianas esquerda e direita) e tipo 2 (duas rafes). O tipo 1 com fusão esquerda-direita pode ter melhores desfechos pós-TAVI que os demais.
Quadro didático – Tricúspide × bicúspide na perspectiva da TAVI
CaracterísticaValva tricúspideValva bicúspideImplicação citada pelo artigo
AnelOvalMaior e mais circularDimensionamento diferente; TCMD ajuda
Seios e aorta ascendente—Maiores—
Cálcio anular—Mais excêntricoMais RPV e distúrbios de condução
Abertura sistólica (eixo curto)Fluxo nas três comissuras“Boca de peixe”, sem abertura na rafeDiagnóstico pelo eco (seção 2)

Quadro elaborado a partir do texto do artigo; “—” indica característica não detalhada no texto.

🎓 Interpretação didática — três pontos anatômicos que viram perguntas na sala
  1. Onde medir? No anel virtual (pontos basais de inserção), não na linha de coaptação nem 5–10 mm abaixo.
  2. Qual coronária preocupa? A esquerda, mais baixa e atrás — e o folheto coronariano esquerdo calcificado é o que a “empurra”.
  3. Por que BAV/BRE? O feixe está logo abaixo do septo membranoso; prótese mais funda = mais contato com o sistema de condução.
❓ Pergunta-chavePor que se diz que o anel aórtico usado na TAVI é “virtual”?Ver resposta

Resposta: porque o plano medido é o que une os pontos de inserção mais basais dos três folhetos (anel ventricular), e mais da metade da circunferência desse plano passa pela base dos triângulos interfolhetos, sem uma estrutura anatômica contínua.

💡 Não existe “anel” histológico circular: daí o erro sistemático das medidas lineares 2D (seção 7).

❓ Pergunta-chaveQue características da bicúspide explicam mais leak e mais marca-passo após TAVI?Ver resposta

Resposta: anel maior e mais circular, raiz e aorta ascendente maiores e cálcio anular mais excêntrico.

💡 O tipo 1 com fusão esquerda-direita parece ter melhores desfechos que outros fenótipos.

❓ Pergunta-chaveQual folheto é contínuo com o folheto anterior mitral?Ver resposta

Resposta: o coronariano esquerdo (cortina aortomitral), que também se relaciona com o septo muscular. O não coronariano é adjacente ao septo membranoso e ao folheto anterior mitral.

💡 Por isso cálcio na cortina aortomitral e implante baixo podem interferir com a valva mitral.

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Anatomic Perspective” (p. 405-6) e Figura 1.

2Morfologia da valva aórtica e cálcio

Antes da TAVI é essencial distinguir bicúspide de tricúspide e descrever a quantidade e a distribuição do cálcio — inclusive fora dos folhetos.

Pré-procedimento · Morfologia · p. 406📄 O que o artigo afirma
  • Distinguir bicúspide de tricúspide é essencial antes da TAVI; embora vários métodos avaliem valva e raiz, o diagnóstico de bicúspide é tipicamente feito pelo ecocardiograma.
  • Eixo curto em sístole: abertura típica em “boca de peixe” e ausência de abertura na rafe. No eixo longo, o abaulamento sistólico (doming) pode ser outra pista.
  • Com boa janela transtorácica e sem cálcio denso: sensibilidade >70% e especificidade >90%; ainda assim, a dúvida persiste em 10% a 15% dos pacientes.
  • Com calcificação e redução da excursão sistólica, o Doppler colorido ajuda: na valva trivalvulada deve-se ver fluxo nas três comissuras.
  • Além do número de cúspides, localização e gravidade do cálcio fazem parte da avaliação morfológica. A TCMD tornou-se o método principal para quantificar a carga de cálcio.
  • Calcificação ectópica da VSVE prediz RPV.
  • No baixo fluxo, a gravidade do cálcio ajuda a separar EAo verdadeiramente grave de pseudograve. Pontos de corte específicos por sexo para EAo grave: ≥1.275 UA em mulheres e 2.065 UA em homens.
  • O cálcio valvar é menor nas mulheres mesmo após indexação por tamanho corporal ou área do anel, em linha com achados de mais fibrose nas mulheres.
Quadro didático – Pistas ecocardiográficas de valva bicúspide citadas no artigo
CorteAchadoComentário
Eixo curto, sístoleAbertura em “boca de peixe”; sem abertura na rafeAchado principal
Eixo longoAbaulamento sistólico (doming)Pista adicional
Doppler colorido, eixo curtoFluxo nas três comissuras = trivalvulada; ausência em uma comissura sugere fusãoÚtil quando o cálcio limita a excursão
Desempenho (boa janela, pouco cálcio)Sensibilidade >70%; especificidade >90%Dúvida residual em 10%–15%
🎓 Interpretação didática

Em idoso com valva muito calcificada, a imagem 2D “parece” bicúspide ou tricúspide com a mesma facilidade. Procure ativamente o fluxo colorido nas três comissuras; se a dúvida persistir, diga isso no laudo e sugira correlação com a TCMD — o artigo admite incerteza em até 15% dos casos.

💡 Pérola prática

Descreva no laudo o cálcio ectópico da VSVE (por exemplo, na face ventricular do folheto anterior mitral). Ele prediz leak paravalvar e também é fonte de erro na medida da VSVE (seção 3).

❓ Pergunta-chaveValva muito calcificada, mobilidade reduzida: como o Doppler colorido ajuda a contar as cúspides?Ver resposta

Resposta: na trivalvulada sem fusão comissural, vê-se fluxo colorido nas três comissuras; a ausência de fluxo em uma comissura sugere fusão (bicúspide).

💡 O movimento anormal das duas cúspides pode não ser percebido quando o cálcio reduz a excursão.

❓ Pergunta-chaveQuais os pontos de corte de escore de cálcio para EAo grave citados?Ver resposta

Resposta: ≥1.275 unidades arbitrárias em mulheres e 2.065 em homens (TCMD).

💡 Servem principalmente para separar EAo verdadeira de pseudograve no baixo fluxo.

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Morphology of the Aortic Valve” (p. 406).

3Gravidade da estenose aórtica e as armadilhas da AVA

O eco define a gravidade da EAo e a resposta do coração a ela (remodelamento e função do VE, IM, hipertensão pulmonar). Os parâmetros dividem-se em dependentes e independentes do fluxo.

Tabela 1 – Parâmetros ecocardiográficos padrão usados para avaliar a gravidade da EAo
ParâmetroLeveModeradaGrave
Anatomia valvar
  • Calcificação ou espessamento leve dos folhetos, com redução da mobilidade sistólica
  • Calcificação leve a moderada dos folhetos de valva bicúspide ou trivalvulada, com alguma redução da mobilidade sistólica, ou
  • Alterações reumáticas com fusão comissural
  • Calcificação acentuada dos folhetos ou estenose congênita, com abertura dos folhetos gravemente reduzida
Parâmetros quantitativos (dependentes do fluxo)
Velocidade de pico (m/s)2,0–2,93–3,9≥4
Gradiente médio (mmHg)<2020–39≥40
Parâmetros quantitativos (independentes do fluxo)
Índice Doppler (adimensional)>0,50,26–0,5≤0,25
AVA (cm²)>1,51,1–1,5≤1,0
AVA indexada (cm²/m²)*>0,850,61–0,85≤0,6

*Indexar a área valvar é particularmente importante em pacientes pequenos, com altura <135 cm (65 polegadas), superfície corporal <1,5 m² ou índice de massa corporal <22 kg/m².

Na primeira linha, a célula da coluna “Parâmetro” está vazia no original.

A medida da VSVE: o maior erro da equação de continuidade

Avaliação da gravidade · p. 407📄 O que o artigo afirma

O maior erro no cálculo da AVA é o diâmetro da VSVE elevado ao quadrado. Cuidados ao medi-lo na EAo:

  • Medir no início a meio da sístole (quando a VSVE elíptica é mais circular), na imagem que mostra o maior diâmetro.
  • Medir de borda interna a borda interna: do ponto em que a cúspide anterior (coronariana direita) encontra o septo anterior até o “anel virtual” posterior, onde o triângulo interfolhetos posterior encontra o folheto anterior mitral. Não usar o cálcio ectópico como borda.
  • Medir abaixo do anel subestima a AVA em relação à derivada do cateterismo — especialmente com septo sigmoide.
  • A AVA calculada com a VSVE medida no nível do anel é mais acurada e reprodutível.
  • Como o erro está no diâmetro ao quadrado, a razão VVSVE/Vjato ou VTIVSVE/VTIvalva é bom indicador: índice Doppler ≤0,25 indica estenose grave.
Quatro painéis de ecocardiograma, traduzidos: em A e C, cortes de eixo longo com seta amarela medindo o diâmetro da VSVE; em B e D, os planos ortogonais simultâneos mostrando a cúspide coronariana direita anteriormente e o trígono entre as cúspides coronariana esquerda e não coronariana posteriormente
Figura 2 – Otimização ecocardiográfica transtorácica e transesofágica da medida da VSVEToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

Imagem biplanar simultânea, transtorácica (A, B) e transesofágica (C, D): uma valva aórtica adequadamente centrada no eixo longo (A ou C) mostra a inserção da cúspide coronariana direita (CCD) anteriormente (B ou D) e o trígono interfolhetos (entre a cúspide coronariana esquerda [CCE] e a não coronariana [CNC]) posteriormente. O diâmetro sagital máximo da VSVE (seta amarela) deve ser medido de borda interna a borda interna, do ponto de inserção da CCD/borda septal até o trígono posterior/borda do folheto anterior mitral. A medida deve evitar incluir o cálcio ectópico do folheto anterior mitral.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

📖 Texto de suporte — 3D, TCMD e o método “híbrido”
  • A planimetria 3D da valva e da área da VSVE é acurada, reprodutível e se compara bem à TCMD; alguns estudos sugerem que usar a área direta da VSVE na equação de continuidade dá AVA mais acurada.
  • Porém, Clavel et al. compararam a equação de continuidade com a VSVE planimetrada na TCMD (“híbrido”) e a ecocardiográfica padrão: o híbrido não melhorou a correlação com o gradiente, a concordância gradiente–AVA nem a predição de mortalidade. Os limiares de excesso de mortalidade diferiram: AVA ≤1,0 cm² (eco) versus ≤1,2 cm² (híbrido).
  • Esses achados e outros estudos de desfecho sustentam o uso continuado do diâmetro linear da VSVE para calcular a AVA, como recomendam as diretrizes.
📖 Texto de suporte — indexação pela superfície corporal
  • A ASE recomenda indexar a AVA à superfície corporal, sobretudo em pacientes pequenos (altura <135 cm, SC <1,5 m² ou IMC <22 kg/m²). A diretriz ACC usa AVAi ≤0,6 cm²/m² para EAo grave.
  • Indexar pode não ser apropriado em obesos.
  • Alguns autores propõem corte indexado <0,5 cm²/m², que reduziria inconsistências com os valores não indexados e poderia melhorar a predição de desfechos.

Armadilhas de medida (Tabela 2)

Tabela 2 – Resumo das armadilhas de medida e técnicas recomendadas para a quantificação acurada da AVA
ArmadilhaExemplo incorretoMedida corretaExemplo correto
Sobretudo na hipertrofia septal superior, há estreitamento progressivo da VSVE dentro do VE; medir o diâmetro 5–10 mm abaixo do anel resulta em subestimação significativa da AVA pela equação de continuidade (EC)VSVE medida abaixo do anel (seta vermelha)Medir o diâmetro da VSVE no nível do anel aórticoVSVE medida no anel (seta verde)
Cálcio ectópico é frequente na VSVE, na face ventricular do recorte A2 da valva mitral, e não é circunferencial; medir por dentro dessa crista de cálcio resulta em subestimação significativa da AVA pela ECMedida por dentro do cálcio ectópico (seta vermelha)Excluir a calcificação ectópica da VSVE ou do anel ao medir o anelMedida excluindo o cálcio (seta verde)
Há aceleração de fluxo proximal à região de estenose; posicionar a amostra do Doppler pulsado no anel (vermelho) resulta em superestimação da AVA pela EC Doppler colorido mostrando a aceleração de fluxo e as amostras vermelha e verdeNo nível da amostra vermelha Espectro do Doppler pulsado na amostra vermelhaPosicionar a amostra do Doppler pulsado em uma região logo proximal à aceleração de fluxo, de modo que o espectro não mostre cliques de abertura ou fechamentoNo nível da amostra verde Espectro do Doppler pulsado na amostra verde
O espectro do Doppler pulsado adequado deve representar fluxo laminar (sem alargamento espectral) e traçar a velocidade modal (a velocidade mais frequentemente amostrada no espectro, não a velocidade máxima de poucas hemácias); traçar o espectro tênue superestima o volume sistólico e a AVATraçado vermelho do envelope tênueReduzir o ganho ou aumentar o “reject” resulta em espectro que mostra a velocidade modal; a interface preto-branco deve então ser traçadaTraçado verde da velocidade modal
A imagem fora do eixo da vena contracta (porção mais estreita e de maior velocidade do jato) leva à subestimação da gravidade da estenose; ver um “duplo envelope”, com fluxo denso da VSVE (traçado azul) e fluxo transaórtico mais tênue (traçado vermelho), pode indicar que o feixe está angulado para longe da vena contractaDuplo envelope com traçados azul e vermelhoAjustar a janela para encontrar o espectro de Doppler contínuo mais denso e uniformeEnvelope contínuo denso traçado em verde
A direção do jato transaórtico costuma ser anterior e para a direita; assumir a velocidade de pico de uma única janela apical subestima a gravidade da estenose em até 50% dos pacientesDoppler contínuo pela janela apical com Vmáx 4,73 m/sNeste paciente, a janela paraesternal direita mostrou velocidades de pico 0,5 m/s maiores; a abordagem multijanela é sempre recomendadaDoppler contínuo pela paraesternal direita com Vmáx 5,25 m/s

Imagens reproduzidas do artigo original; os textos dentro das imagens são anotações do equipamento (por exemplo, AoV VTI, Vmax, Pk Grad, Mn Grad) e foram mantidos. Toque/clique em cada imagem para ampliar.

EC, equação de continuidade.

🧠 Para memorizar — as 6 armadilhas da AVA

Erros que SUBESTIMAM a AVA (fazem a EAo parecer mais grave): VSVE medida abaixo do anel · VSVE medida por dentro do cálcio ectópico.
Erros que SUPERESTIMAM a AVA: amostra do PW dentro da zona de aceleração · traçar o envelope tênue do PW em vez da velocidade modal.
Erros que SUBESTIMAM a gravidade pelo CW: feixe fora do eixo (duplo envelope) · janela única apical.

❓ Pergunta-chaveSe não confio na medida da VSVE, qual parâmetro uso?Ver resposta

Resposta: o índice Doppler (adimensional): VVSVE/Vjato ou VTIVSVE/VTIvalva; ≤0,25 indica estenose grave.

💡 Ele elimina o termo que mais erra (diâmetro ao quadrado), mas ainda depende da amostra correta do PW.

❓ Pergunta-chaveAVA planimetrada na TCMD e aplicada na continuidade é melhor que a do eco?Ver resposta

Resposta: no estudo de Clavel et al., não: não melhorou a concordância nem a predição de mortalidade, e o limiar de excesso de mortalidade mudou (≤1,2 cm² no método híbrido versus ≤1,0 cm² no eco).

💡 Misturar métodos exige limiares próprios; o artigo sustenta o diâmetro linear padrão.

❓ Pergunta-chaveQuando indexar a AVA e quando evitar?Ver resposta

Resposta: indexar sobretudo em pacientes pequenos (altura <135 cm, SC <1,5 m² ou IMC <22 kg/m²); pode não ser apropriado em obesos.

💡 Corte ACC: AVAi ≤0,6 cm²/m²; há proposta de <0,5 cm²/m².

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Assessment of Severity of AS” (p. 406-10), Tabela 1, Figura 2 e Tabela 2.

4EAo grave de baixo gradiente e planimetria

Até 40% dos pacientes com EAo têm hemodinâmica discordante: gradiente médio baixo com área valvar gravemente reduzida. Entender fluxo, FEVE e tempo de ejeção resolve a maior parte dos casos.

EAo grave de baixo gradiente · p. 407📄 O que o artigo afirma
  • Até 40% dos pacientes podem ter Doppler discordante: GM <40 mmHg com AVA ≤1,0 cm². Muitos têm baixo fluxo, definido como volume sistólico indexado <35 mL/m².
  • As diretrizes AHA/ACC dividem a EAo grave sintomática (estágio D) em: D1 alto gradiente; D2 baixo fluxo/baixo gradiente com FEVE reduzida; D3 baixo gradiente com FEVE normal.
  • D2 clássica (GM <40, AVA ≤1 cm², FEVE <50%): frequentemente associada a DAC, mas pode haver doença intrínseca do miocárdio ou desproporção de pós-carga. Como a área valvar é dependente do fluxo, usa-se o eco com dobutamina em dose baixa para aumentar o fluxo transvalvar evitando isquemia (protocolo nas diretrizes da ASE).
  • D3 “paradoxal”: várias situações reduzem o fluxo com FEVE normal — taquicardia, bradicardia, hipertensão, cavidade pequena, disfunção diastólica grave, valvopatia mitral ou tricúspide grave, hipertensão pulmonar e disfunção do VD. As diretrizes AHA/ACC não defendem dobutamina com FE >50%; o escore de cálcio pela TCMD pode ser útil.
  • Usando fluxo (normal >200 mL/s) e gradiente (alto >40 mmHg) podem ser gerados quatro categorias: fluxo normal/gradiente alto, fluxo normal/gradiente baixo, baixo fluxo/gradiente alto e baixo fluxo/gradiente baixo.
  • O fluxo normal com gradiente baixo é mais difícil de explicar; pode decorrer de usar o volume sistólico (VSi ≥35 mL/m²) para definir “fluxo normal”. Fluxo (mL/s) = volume sistólico ÷ tempo de ejeção — pacientes com volume sistólico normal e tempo de ejeção prolongado podem ter gradiente baixo.
Fluxograma traduzido com três ramos: EAo moderada, EAo de alto gradiente e EAo de baixo gradiente; este último dividido por FEVE menor ou maior que 50% e pelo volume sistólico indexado menor ou maior que 35 mL/m², chegando a seis categorias com estágios B2?, C2, D1, D2, D3 e D4?, cada uma com ilustração do coração e do envelope de Doppler, e a indicação de troca valvar aórtica abaixo: requer ECR, I, I, IIa, IIa e IIa?
Figura 3 – Classificação e caracterização dos tipos de EAo segundo AVA, gradiente, FEVE e fluxoToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

Classificação dos tipos de EAo incluindo apenas as categorias associadas a sintomas e/ou FEVE reduzida. Não inclui o estágio C1 (EAo de alto gradiente, assintomática, com FEVE preservada). O ponto de interrogação indica rótulos de estágio ou indicações de troca valvar aórtica (TVA) propostos, mas não incluídos nas diretrizes, que precisarão ser testados e validados.

Leitura em texto: EAo moderada (AVA >1,0 cm², AVAi >0,6 cm²/m² e GM <40 mmHg) com FEVE reduzida e sintomas (estágio B2?) → indicação de TVA: requer ECR. EAo de alto gradiente (GM ≥40 mmHg; AVA ≤1,0 cm² e AVAi ≤0,6 cm²/m²) com FEVE reduzida sem sintomas (estágio C2) → I; com sintomas (estágio D1) → I. EAo de baixo gradiente (AVA ≤1,0 cm², AVAi ≤0,6 cm²/m² e GM <40 mmHg): FEVE <50% → “clássica” baixo fluxo/baixo gradiente (estágio D2) → IIa; FEVE ≥50% e VSi <35 mL/m² → “paradoxal” baixo fluxo/baixo gradiente com sintomas (estágio D3) → IIa; FEVE ≥50% e VSi ≥35 mL/m² → fluxo normal/baixo gradiente com sintomas (estágio D4?) → IIa?

As classes são as das diretrizes AHA/ACC citadas pelo artigo. AVAi, AVA indexada; ECR, ensaio clínico randomizado; GM, gradiente médio; VSi, volume sistólico indexado. Reproduzida com permissão de Clavel et al.

Nota de fidelidade: na figura original, as caixas de indicação IIa aparecem em cor salmão; aqui, no texto, foram usadas as cores clínicas padrão da página para as classes. A figura traduzida mantém as cores originais.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Planimetria

Planimetria · p. 407-10📄 O que o artigo afirma
  • A planimetria direta 2D e 3D do orifício estenótico também pode definir a gravidade.
  • Okura et al.: a planimetria 2D transtorácica teve baixo erro-padrão de estimativa em relação à área medida por planimetria ao ETE, à equação de continuidade e à fórmula de Gorlin (0,04, 0,09 e 0,10 cm², respectivamente).
  • A planimetria e a fórmula de Gorlin medem a área anatômica (Gorlin usa coeficiente de correção para a contração do fluxo). A contração do fluxo forma a vena contracta além do orifício anatômico; a área da vena contracta é a área efetiva calculada pela equação de continuidade — teoricamente diferente da planimetrada.
  • A AVA planimetrada em 3D pode ser mais acurada (permite alinhar as pontas de todos os folhetos no eixo curto); pode ser maior que a 2D e mostra menor diferença média em relação à equação de continuidade.
Quadro didático – Como pensar a EAo discordante (síntese do texto e da Figura 3)
CenárioFEVEVSiFerramenta citada
D2 — baixo fluxo/baixo gradiente “clássica”<50%Geralmente <35 mL/m²Eco com dobutamina em dose baixa
D3 — “paradoxal”≥50%<35 mL/m²Escore de cálcio na TCMD (dobutamina não defendida com FE >50%)
Fluxo normal/baixo gradiente (D4?, proposto)≥50%≥35 mL/m²Considerar fluxo = VS ÷ tempo de ejeção (tempo de ejeção prolongado)
🎓 Interpretação didática — antes de chamar de “paradoxal”

Na discordância, refaça primeiro o básico da Tabela 2: VSVE no anel, PW fora da aceleração, envelope modal, CW multijanela. Muitas “paradoxais” são erro de medida. Depois, procure as causas de baixo fluxo citadas (hipertensão, cavidade pequena, FA/taquicardia, IM ou IT grave, disfunção de VD) e só então leve ao cálcio da TCMD.

❓ Pergunta-chaveQual a diferença conceitual entre AVA planimetrada e AVA pela continuidade?Ver resposta

Resposta: a planimetria (e Gorlin) mede a área anatômica; a continuidade mede a área efetiva (vena contracta), que é menor por causa da contração do fluxo.

💡 Discrepância pequena é esperada; a 3D aproxima as duas.

❓ Pergunta-chavePor que dobutamina não é usada no D3?Ver resposta

Resposta: as diretrizes AHA/ACC citadas não defendem dobutamina com FE >50%; nesses casos o escore de cálcio pela TCMD pode ajudar.

💡 Dobutamina é ferramenta do D2 (FEVE reduzida).

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Low-Gradient, Severe AS” e “Planimetry” (p. 407-10), Figura 3.

5Outras medidas de gravidade e teste de esforço

Recuperação de pressão, índice de perda de energia e impedância valvuloarterial não são de uso rotineiro, mas trazem informação prognóstica em subgrupos. O teste de esforço define o status de sintomas.

Outras medidas · p. 410📄 O que o artigo afirma
  • Resistência valvar, recuperação de pressão, perda de energia e complacência/impedância arterial não são recomendadas para uso clínico rotineiro, mas algumas têm valor prognóstico em subgrupos.
  • Recuperação de pressão: pode explicar diferenças entre gradientes do cateterismo e do eco. A queda de pressão líquida entre VE e aorta ascendente é a medida fisiopatologicamente relevante e mais representativa da área geométrica.
  • ELI (índice de perda de energia) considera a área valvar efetiva e a área da aorta ascendente; é menos dependente do fluxo que gradiente ou velocidade, incorpora a recuperação de pressão e equivale aproximadamente à área efetiva do cateterismo. Num subestudo do SEAS, o ELI reclassificou 47,5% dos pacientes de grave para não grave. A perda de energia é mais relevante em aortas pequenas (<30 mm). ELI ≤0,5–0,6 cm²/m² é compatível com EAo grave.
  • Zva (impedância valvuloarterial) reúne a carga valvar e a resistência vascular. Hipertensão arterial concomitante está presente em 35%–51% dos pacientes com EAo. Hachicha et al.: mortalidade 2,76 vezes maior com Zva ≥4,5 e 2,30 vezes com Zva entre 3,5 e 4,5 mmHg·mL−1·m², após ajuste.
ELI = [ AEO × AA ÷ (AA − AEO) ] ÷ SC
Zva = (PAS + ΔPmédio) ÷ VSi

AEO, área efetiva do orifício; AA, área da aorta ascendente; SC, superfície corporal; PAS, pressão arterial sistólica; ΔPmédio, gradiente médio; VSi, volume sistólico indexado.

Teste de esforço na EAo

Stress testing in AS · p. 410-11📄 O que o artigo afirma

Indicações: definir a etiologia dos sintomas na doença não grave, confirmar o status assintomático na doença grave e avaliar pacientes com disfunção valvar e miocárdica concomitante. Pelo mau prognóstico associado ao início dos sintomas, determinar o status sintomático é papel importante do teste em quem relata não ter sintomas com EAo grave.

Critérios de teste ergométrico positivo na EAo:

  • surgimento de sintomas (dispneia limitante, dor ou aperto torácico, tontura, síncope);
  • arritmias (três extrassístoles ventriculares consecutivas ou outras arritmias ventriculares complexas);
  • pressão arterial que não sobe 20 mmHg, ou queda ≥10 mmHg;
  • infradesnível de ST horizontal ou descendente (≥1 mm em homens, ≥2 mm em mulheres) ou infradesnível ≥5 mm medido 80 ms após o ponto J.

Mesmo com teste negativo, o prognóstico pode não ser benigno (risco de sintomas e morte súbita). Em EAo moderada ou grave, aumento do gradiente médio ≥18–20 mmHg ao esforço prediz progressão para sintomas e eventos adversos. O ensaio Early-TAVR (NCT03042104) estava recrutando à época para testar a TAVI em assintomáticos.

🎓 Interpretação didática

Em EAo grave “assintomática” no consultório, o teste ergométrico desmascara sintomas em muitos idosos que reduziram a atividade sem perceber. Registre não só sintoma, PA e ECG, mas também — se fizer eco de esforço — o delta do gradiente médio: aumento ≥18–20 mmHg é marcador de risco.

❓ Pergunta-chaveEm que paciente o ELI tem mais chance de reclassificar a gravidade?Ver resposta

Resposta: quando a aorta ascendente é grande, a recuperação de pressão é pequena; em aortas pequenas (<30 mm) a perda de energia é mais relevante e o ELI pode reclassificar (47,5% no subestudo do SEAS).

💡 ELI ≤0,5–0,6 cm²/m² é compatível com EAo grave.

❓ Pergunta-chaveQuais respostas tornam o teste ergométrico positivo na EAo?Ver resposta

Resposta: sintomas, arritmia ventricular complexa, PA que não sobe 20 mmHg ou cai ≥10 mmHg, e infradesnível de ST (≥1 mm homens, ≥2 mm mulheres, ou ≥5 mm a 80 ms do J).

💡 Teste negativo não garante evolução benigna.

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Other Measures of AS Severity” e “Stress Testing in AS” (p. 410-11).

6Ventrículo esquerdo, strain e valvopatias associadas

Toda avaliação de EAo inclui tamanho das câmaras, função ventricular e valvopatias concomitantes — elas mudam o prognóstico após a TAVI.

Anormalidades associadas · p. 411-12📄 O que o artigo afirma
  • Na EAo crônica, o aumento da espessura parietal mantém o estresse e a FE normais; são frequentes o remodelamento concêntrico (massa normal) e a hipertrofia concêntrica (massa aumentada).
  • A parede espessada associa-se a alterações do manuseio do cálcio, do citoesqueleto, apoptose e mais colágeno, com redução detectável da deformação e da complacência antes de qualquer queda da FE — evoluindo para menor volume sistólico, pressões de enchimento elevadas e IC com FE preservada. Por isso strain e função diastólica podem ser marcadores precoces.
  • O consenso EACVI/ASE de padronização do strain define terminologia, dados armazenados, modos de medida, definições e saída de resultados, para reduzir a variabilidade entre fabricantes.
📖 Texto de suporte — FE e strain
  • FE: sobrecarga pressórica prolongada (sobretudo com hipertensão) reduz FEVE e débito; FE reduzida e função renal ruim associam-se a mais mortalidade, com ou sem intervenção. Metanálise de 26 estudos (~6.900 pacientes): FE basal baixa = maior mortalidade após TAVI, apesar de melhora significativa e sustentada da função do VE.
  • SLG: com FE normal, quanto mais grave a EAo, menor o SLG. SLG prediz mortalidade por todas as causas e superou escore de risco, cardiopatia isquêmica e FE em pacientes encaminhados à cirurgia. No baixo fluxo/baixo gradiente com FE preservada, SLG associou-se de forma independente à sobrevida após troca valvar; com FE reduzida, o SLG sob dobutamina acrescentou valor prognóstico ao de repouso. O SLG 3D pode prever melhor que o 2D. Em EAo moderada/grave com DAC, strain longitudinal apical e médio piores predisseram estenose coronariana significativa.
  • Assintomáticos: Taniguchi et al. (pareamento por propensão) — incidência em 5 anos de morte por todas as causas 15,4% vs 26,4% (P = ,009) e de hospitalização por IC 3,8% vs 19,9% (P < ,001), menores na estratégia de troca valvar inicial vs conservadora. O strain foi postulado como marcador precoce para definir o momento da intervenção.
  • Carasso et al.: assintomáticos com EAo grave tinham strain longitudinal baixo com strain circunferencial apical e rotação supranormais (compensação); nos sintomáticos, o longitudinal era ainda menor e sem compensação circunferencial. Outros autores: ajustando para gravidade e FE, apenas o strain longitudinal basal (não o SLG) predisse status sintomático; após TAVI, a melhora do SLG pode vir só dos segmentos basais e médios.
📖 Texto de suporte — função diastólica

O efeito da função diastólica no desfecho é controverso. Biner et al.: sobrevida em 1 ano significativamente maior com E/e′ <15 do que com E/e′ ≥15, tanto em sintomáticos com FEVE ≤50% quanto em assintomáticos com FEVE >50%. E/e′ elevado pode associar-se a maior mortalidade/morbidade hospitalar. Outros estudos mostraram melhora diastólica após a intervenção sem associação entre função diastólica basal e desfechos.

Valvopatias concomitantes

Quadro didático – IM e IT concomitantes na TAVI (dados citados do PARTNER)
LesãoPrevalênciaEvolução após intervençãoImpacto prognóstico
IM moderada/grave (PARTNER IA, Barbanti et al.)~20%Melhorou em 69,4% (cirurgia) e 57,7% (TAVI); piora foi incomumMortalidade em 2 anos maior só no grupo cirúrgico (49,8% vs 28,1%; HR ajustado 1,73; IC 95% 1,01–2,96; P = ,04); sem efeito adverso no grupo TAVI. IM persistente não afetou o remodelamento do VE
IT moderada/grave (PARTNER IIB)26,6%~30% melhoraram para menos que moderada em 30 dias — associada a melhor sobrevida em 1 anoIT mais grave associada a maior mortalidade em 1 ano (P < ,001), assim como aumento de AD/VD e disfunção de VD. Com IM mínima, IT grave manteve associação após ajuste (HR 3,20; IC 95% 1,50–6,82; P = ,003); com IM moderada/grave concomitante, não

Pacientes com IT moderada/grave também tinham menor FEVE e VSi, AE maior, mais IM moderada/grave, AD e VD maiores, pior função de VD e PSVD mais alta. A literatura cirúrgica sobre tratar IM significativa concomitante à EAo é conflitante.

🎓 Interpretação didática — o que não pode faltar no laudo pré-TAVI
  • Geometria do VE (remodelamento × hipertrofia) e massa.
  • FEVE e SLG — sobretudo se FE normal e paciente “assintomático”.
  • E/e′ (≥15 marcou pior sobrevida em 1 ano).
  • IM: grau e mecanismo; IT: grau, VD e AD — a IT importa muito, especialmente com IM mínima.
❓ Pergunta-chaveIM moderada funcional antes da TAVI: deve contraindicar o procedimento?Ver resposta

Resposta: pelos dados do PARTNER IA citados, não: a IM melhorou em 57,7% após TAVI, raramente piorou, e não houve aumento de mortalidade em 2 anos no grupo TAVI (o excesso foi no grupo cirúrgico).

💡 Documente mecanismo e grau para comparar depois.

❓ Pergunta-chaveFE normal e EAo grave: por que medir strain?Ver resposta

Resposta: porque a queda da deformação longitudinal precede a queda da FE e prediz mortalidade; foi postulado como marcador precoce para o momento da intervenção em assintomáticos.

💡 Um estudo sugeriu que o strain longitudinal basal, mais que o global, se relaciona com sintomas.

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Detection of Associated Ventricular and Valvular Abnormalities” (p. 411-12).

7Próteses transcateter e planejamento pré-implante

O imagiologista eficaz no Heart Team precisa entender a anatomia relevante para cada dispositivo e cada passo do implante. A TCMD é padrão para anel, acesso e coronárias; o eco é insubstituível no ambiente dinâmico da sala.

Imaging for TAVR · p. 412📄 O que o artigo afirma
  • A imagem multimodal no programa de TAVI inclui TCMD, ressonância, fluoroscopia e eco, com os objetivos de seleção adequada, guia do procedimento e detecção de complicações.
  • A TCMD tornou-se o padrão pré-procedimento para área e perímetro do anel, acesso vascular, posição das coronárias, carga de cálcio e ângulos de projeção fluoroscópica; mas a dinâmica da sala exige comunicação constante e adaptação, e para isso o eco é a modalidade ideal.
  • Os achados intraprocedimento devem ser interpretados no contexto da hemodinâmica, influenciada pela anestesia e pelo procedimento; o ETE intraprocedimento, com 3D em tempo real, fornece informação fisiológica contínua no planejamento, no guia e na detecção de complicações.

Exemplos de próteses (Tabela 3)

Tabela 3 – Exemplos de próteses transcateter comercialmente disponíveis ou em estudo (2018)
Prótese (fabricante)ExemploCaracterísticasNuances do procedimento/da imagem
SAPIEN 3 (Edwards Lifesciences), comercialmente disponívelPrótese SAPIEN 3
  • Armação de cobalto-cromo
  • Folhetos de pericárdio bovino
  • Manguito de PET
  • Expansível por balão, tipicamente implantada sob estimulação rápida
  • Encurta a partir da extremidade da saia
  • O posicionamento pelo eco garante que a extremidade aórtica fique abaixo da junção sinotubular e cubra os folhetos nativos
  • Pode ser ideal com alto risco de obstrução coronariana e anatomia aórtica distorcida
  • Pode ser apropriada para valva aórtica bicúspide
EvolutPro (Medtronic), comercialmente disponívelPrótese EvolutPro
  • Posição supra-anular da valva
  • Folhetos de pericárdio porcino
  • Envoltório externo de PET
  • Armação autoexpansível
  • Reposicionável
  • Não requer estimulação rápida
  • A posição ideal da extremidade ventricular, após o implante, é 2–4 mm abaixo do anel nativo (e não ≥6 mm)
  • Pode ser mais difícil de posicionar com precisão com aorta horizontal ou distorção do anel/JST
  • Pode ser ideal com bioprótese mitral prévia
  • Já foi usada na IAo primária
Lotus Edge (Boston Scientific, Natick, MA), em investigaçãoPrótese Lotus Edge
  • Expansão mecânica do dispositivo
  • Reposicionável antes da liberação
  • Saia Adaptive Seal
  • Não requer estimulação rápida
  • Depende do posicionamento fluoroscópico, com auxílio do eco para avaliar leak paravalvar e necessidade de reposicionar
  • Pode ser apropriada para valva bicúspide
ACURATE neo (Boston Scientific), em investigaçãoPrótese ACURATE neo
  • Valva supra-anular
  • Autoexpansível
  • Parcialmente recapturável
  • Três arcos estabilizadores
  • Não requer estimulação rápida
  • Posicionamento ecocardiográfico da extremidade ventricular abaixo do anel
  • Já foi usada na IAo primária
JenaValve (JenaValve, Munique, Alemanha), em investigaçãoPrótese JenaValve
  • Posicionamento anatômico guiado por “feelers”
  • Ancoragem aos folhetos nativos pelo JenaClip
  • Recuperável e reposicionável
  • Não requer estimulação rápida
  • Guia ecocardiográfico do posicionamento anatômico, para alinhar os clipes às comissuras
  • Trata EAo primária e IAo primária
Centera (Edwards Lifesciences), em investigaçãoPrótese Centera
  • Stent autoexpansível de nitinol com valva de pericárdio bovino
  • Posição anular
  • Tecido de PET
  • Liberação motorizada
  • Reposicionável e recuperável
  • Eco para avaliar leak paravalvar e necessidade de reposicionar

IAo, insuficiência aórtica; JST, junção sinotubular; PET, polietileno tereftalato. Situação regulatória referente a 2018.

Avaliação pré-implante

Tabela 4 – Avaliação estrutural e funcional pré-procedimento pelo ecocardiograma
EstruturaItens a avaliar
Valva e raiz aórtica — morfologia da valva
  • Confirmar a patologia
  • Avaliar presença de IAo
  • Número de cúspides (bicúspide/tricúspide)
  • Volume e distribuição das calcificações
Dimensões do complexo aortoanular
  • Dimensões do anel (diâmetros maior, menor e médio, perímetro, área)
  • Diâmetro dos seios de Valsalva
  • Diâmetro da junção sinotubular
  • Distâncias do anel aos óstios coronarianos
Hemodinâmica da valva aórtica
  • Velocidade de pico, gradientes de pico e médio e área valvar calculada
  • Índice adimensional
  • Volume sistólico e volume sistólico indexado
VSVE
  • Extensão e distribuição do cálcio
  • Presença de septo sigmoide e de estreitamento dinâmico
Valva mitral
  • Gravidade e mecanismo da IM
  • Presença de estenose mitral
  • Gravidade da calcificação ectópica do folheto anterior
Tamanho e função do VE
  • Excluir trombo intracavitário
  • Avaliação da contratilidade segmentar
  • FE
  • Volume sistólico e débito cardíaco
Coração direito
  • Tamanho e função do VD
  • Morfologia e função da valva tricúspide
  • Estimativa das pressões na artéria pulmonar
Pericárdio
  • Presença de derrame pericárdico

No original, a tabela é uma lista hierárquica de uma coluna; aqui foi organizada em duas colunas, sem alteração do conteúdo.

Predeployment imaging · p. 412-16📄 O que o artigo afirma
  • A avaliação pré-procedimento da raiz é fundamental para escolher a prótese: anel e sua geometria, raiz e VSVE, angulação da aorta (ângulo aortoventricular), altura das coronárias e quantidade/distribuição do cálcio.
  • Subdimensionar pode causar RPV ou embolização; superdimensionar pode causar ruptura da raiz, oclusão coronariana ou distúrbios de condução.
  • O eco 2D subestima consistentemente o anel, por três razões: (1) uma medida linear supõe anel circular, mas ele é quase sempre oval; (2) o plano sagital pode não cortar a dimensão máxima (imagem de ponto de inserção a ponto de inserção, em vez de inserção ao trígono fibroso); (3) o eixo longo costuma representar o menor diâmetro.
  • Estudos mostraram menos RPV mais que discreta quando o anel foi dimensionado pela TCMD em vez do eco 2D.
  • O eco 3D supera essas limitações (área e perímetro). O ETT 3D não tem resolução espacial suficiente; a reconstrução multiplanar do ETE 3D dá resultados comparáveis à TCMD, sem radiação nem contraste. Software mitral usado para planimetria indireta do anel: ETE 3D e TCMD previram RPV ≥ discreta com acurácia equivalente.
  • Também medir seios de Valsalva, aorta na JST e distância dos óstios ao anel. Como o óstio esquerdo está no plano coronal, sua altura só é medida por reconstrução multiplanar.
  • Registro multicêntrico de obstrução coronariana após TAVI: a coronária esquerda foi a mais acometida (88,6%), com altura média do óstio menor (10,6 ± 2,1 vs 13,4 ± 2,1 mm) e seio de Valsalva menor (28,1 ± 3,8 vs 31,9 ± 4,1 mm) que nos controles (P < ,001).
  • Descrever o cálcio na raiz, sua extensão para VSVE e cortina aortomitral e a proximidade dos óstios. Avaliar hipertrofia septal basal e medioventricular: há relatos de obstrução dinâmica subvalvar com instabilidade após o implante.
Dois painéis de ETE 3D traduzidos: A, planimetria direta, com área de 450 mm² e perímetro de 75 mm; B, planimetria indireta com software mitral, com marcadores A, P, PM e AL, área de 485 mm² e perímetro de 78 mm
Figura 4 – Reconstrução multiplanar de um conjunto de dados 3D por dois métodosToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

(A) Reconstrução multiplanar do plano anular virtual (quadro vermelho) obtida alinhando o plano transverso de eixo longo (quadro verde) e o plano coronal (quadro azul); o anel é medido por planimetria direta. (B) Método de planimetria indireta, que usa um pacote de software mitral (QLAB MVQ, Philips Medical Systems, Andover, MA), “enganando” o sistema para medir o anel aórtico como se fosse mitral. Os dois quadrantes superiores de (B) mostram o posicionamento dos marcadores anulares “anterior” (A), “posterior” (P), “posteromedial” (PM) e “anterolateral” (AL). Em rotações sucessivas dos dois planos ortogonais de eixo longo (quadros verde e vermelho), o plano anular é identificado e mostrado automaticamente no eixo curto do plano azul (pontos azuis). O plano anular completo é criado sem planimetrar de fato no eixo curto — por isso, método “indireto”. Ambos fornecem área, perímetro e dimensões máxima e mínima do anel.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Reconstrução multiplanar de ETE 3D: em A, três planos ortogonais numerados alinhados ao eixo longo da aorta e ao óstio da coronária esquerda (setas vermelhas); em B, plano coronal com a distância do ponto de inserção da cúspide coronariana esquerda ao óstio (seta vermelha) e o comprimento da cúspide (seta verde)
Figura 5 – Altura da coronária esquerda medida por reconstrução multiplanarToque/clique na imagem para ampliar

Como a coronária esquerda está no plano coronal, medir a altura do tronco exige imagem 3D e reconstrução. Na reconstrução multiplanar (A), o plano azul é primeiro alinhado ao eixo longo da aorta a partir do plano sagital (vermelho). Depois, o plano azul é alinhado, no plano transverso (verde), com a coronária esquerda (seta vermelha). O plano coronal (azul) passa a ser o plano da coronária esquerda. Esse plano (B) é usado para medir a distância do ponto de inserção da cúspide coronariana esquerda ao óstio da coronária esquerda (seta vermelha) e o comprimento da cúspide coronariana esquerda (seta verde).

Figura sem textos a traduzir além de números e rótulos D1/D2 do equipamento.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

🎓 Interpretação didática — por que o eco 2D “erra para menos”

Imagine um anel oval de 21 × 27 mm. O corte paraesternal de eixo longo quase sempre passa pelo menor diâmetro (ântero-posterior). Se você usar 21 mm como “o anel”, escolherá uma prótese pequena — e o resultado clássico é leak paravalvar. Área e perímetro (TCMD ou ETE 3D) resolvem isso.

❓ Pergunta-chaveQuais as três razões pelas quais o eco 2D subestima o anel?Ver resposta

Resposta: anel oval tratado como circular; plano que não corta a dimensão máxima (inserção a inserção em vez de inserção ao trígono); e o eixo longo representa geralmente o menor diâmetro.

💡 Subdimensionar → RPV ou embolização; superdimensionar → ruptura, oclusão coronariana ou distúrbio de condução.

❓ Pergunta-chaveQue achados anatômicos se associaram à obstrução coronariana no registro citado?Ver resposta

Resposta: envolvimento da coronária esquerda (88,6%), altura do óstio menor (10,6 vs 13,4 mm) e seios de Valsalva menores (28,1 vs 31,9 mm).

💡 A altura da coronária esquerda só se mede por reconstrução multiplanar (plano coronal).

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Imaging for TAVR” e “Predeployment Imaging” (p. 412-16), Tabelas 3 e 4, Figuras 4 e 5.

8ETE intraprocedimento: fios, valvoplastia e posicionamento

A grande vantagem do ETE é a monitorização contínua de todas as etapas. Na instabilidade aguda, ele diagnostica de imediato as complicações do fio, do sistema de entrega ou da valvoplastia.

Tabela 5 – ETE estrutural e funcional intraprocedimento
EtapaO que o ETE faz
Posicionamento dos fios (marca-passo, pigtail e fio-guia)
  • Pode facilitar o cruzamento da valva aórtica
  • Identificar aprisionamento no aparelho valvar mitral
  • Excluir derrame pericárdico novo/agravado
  • Identificar trombo nos fios ou cateteres
Valvoplastia aórtica por balão
  • Avaliar a relação entre o cálcio dos folhetos e as paredes da raiz
  • Excluir derrame pericárdico novo/agravado
  • Excluir IM nova/agravada
  • Avaliar a mobilidade das cúspides e a gravidade da IAo
  • Excluir nova alteração da contratilidade segmentar ou confirmar fluxo nas coronárias pelo Doppler colorido
Posicionamento e implante da prótese
  • Expansível por balão: confirmar a posição da extremidade aórtica abaixo da JST e cobrindo os folhetos; observar o deslocamento do cálcio (risco de ruptura ou de oclusão coronariana) durante a insuflação controlada
  • Autoexpansível: confirmar a posição da extremidade ventricular 2–4 mm abaixo do plano anular; confirmar a posição final após a liberação
Canulação transapical
  • Confirmar o local da punção transapical (longe do septo interventricular e do VD)
  • Avaliar a posição retrógrada do fio-guia através da valva aórtica
  • Excluir aprisionamento no aparelho mitral e IM agravada
Avaliação pós-implante
  • Avaliar a prótese: posição, forma, gradiente de pico/médio e AVA
  • Presença de regurgitação central ou paravalvar
  • Patência das coronárias
  • Derrame pericárdico ou ruptura focal
  • Função ventricular e das demais valvas

JST, junção sinotubular.

Intraprocedural imaging · p. 416-17📄 O que o artigo afirma
  • Fios habitualmente confirmados pela fluoroscopia, mas visíveis ao eco: marca-passo na ponta do VD, fio-guia rígido transvalvar no VE e pigtail nos seios de Valsalva — no nível da cúspide não coronariana (próteses autoexpansíveis) ou da coronariana direita (expansíveis por balão).
  • Fios podem causar trombo, perfuração ventricular, derrame pericárdico e lesão do aparelho mitral com piora da IM.
  • A pré-dilatação por valvoplastia com estimulação ventricular rápida pode ser feita; a aortografia durante a insuflação informa sobre possível oclusão coronariana por folhetos/cálcio e sobre o tamanho adequado (leak em torno do balão insuflado).
  • Após desinsuflar, se houver instabilidade, excluir: derrame/tamponamento por ruptura da raiz, disfunção grave de VE ou VD por oclusão coronariana aguda, ou IAo aguda grave.
  • Implante alto (muito aórtico): embolização para a aorta, lesão da íntima, IAo ou obstrução dos óstios. Implante baixo (muito ventricular): interferência no aparelho mitral e IM, lesão do nó AV e distúrbios de condução, ou embolização para o VE.
  • SAPIEN 3: profundidade final 1–2 mm abaixo do anel; como encurta apenas pelo lado ventricular, o posicionamento antes do implante foca a extremidade aórtica, que deve cobrir os folhetos nativos e ficar abaixo da JST.
  • CoreValve Evolut R: profundidade ótima 2–4 mm abaixo do anel. A liberação é controlada, em minutos; inicialmente a borda posterior fica mais alta que a anterior e, após a liberação completa, a prótese pivota, a borda anterior sobe e a valva se alinha ao eixo da aorta.
Duas imagens de fluoroscopia traduzidas: A, posição do cateter pigtail, do fio de marca-passo e do fio-guia; B, insuflação máxima do balão com seta indicando calcificação da cúspide coronariana esquerda
Figura 6 – Fluoroscopia durante a TAVIToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

(A) Imagem fluoroscópica dos fios mostrando as posições relativas do cateter pigtail no seio de Valsalva coronariano direito, do fio de marca-passo no VD e do fio-guia no VE. (B) Insuflação máxima do balão: a cúspide coronariana esquerda calcificada aparece ocluindo o tronco da coronária esquerda; além disso, a injeção de contraste revela leak significativo em torno do balão subdimensionado, indicando risco de regurgitação paravalvar.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Quatro imagens de ETE com a prótese delineada em pontilhado: A e B, prótese expansível por balão antes e depois do implante; C e D, prótese autoexpansível antes e depois da liberação
Figura 7 – Posição pré-implante e final da prótese aórtica transcateterToque/clique na imagem para ampliar

(A) Prótese expansível por balão antes do implante: a borda aórtica está abaixo da junção sinotubular e cobrindo os folhetos. Após o implante (B), a borda ventricular deve ficar 1 a 2 mm abaixo do anel, mas a posição final pode depender do grau de superdimensionamento. (C) Prótese autoexpansível antes do implante: as bordas ventriculares em geral não ficam simetricamente abaixo do anel (mais baixas anteriormente), mas devem ficar 3 a 5 mm abaixo do plano anular. Após a liberação das abas aórticas (D), a prótese tipicamente pivota, a borda anterior sobe e a valva se alinha coaxialmente ao eixo longo da aorta.

Nota de fidelidade: para a prótese autoexpansível, a legenda da Figura 7 cita 3 a 5 mm abaixo do plano anular, enquanto o texto e as Tabelas 3, 5 e 11 citam 2 a 4 mm (e “não ≥6 mm”). Ambos os valores estão no original e foram mantidos. Também há diferença no pigtail: o texto o situa na cúspide não coronariana para autoexpansíveis e na coronariana direita para expansíveis por balão; a legenda da Figura 6 mostra o pigtail no seio coronariano direito.

Figura sem textos a traduzir (apenas letras dos painéis).

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Quadro didático – Profundidade de implante citada no artigo
PróteseReferência para posicionarProfundidade finalOnde aparece
SAPIEN 3 (balão)Extremidade aórtica: cobrir folhetos e ficar abaixo da JST1–2 mm abaixo do anelTexto (p. 416), Figura 7B
Evolut R/EvolutPro (autoexpansível)Extremidade ventricular abaixo do anel2–4 mm (não ≥6 mm)Texto, Tabelas 3, 5 e 11
Autoexpansível (legenda)Bordas ventriculares assimétricas, mais baixas anteriormente3–5 mmLegenda da Figura 7C
🎓 Interpretação didática — o que olhar quando a pressão cai na sala
  1. Pericárdio: derrame novo? (ruptura da raiz, perfuração do VD pelo marca-passo, do VE pelo fio rígido).
  2. Paredes: nova hipocinesia segmentar? (coronária — sobretudo TCE).
  3. Aorta: IAo aguda grave após valvoplastia ou prótese mal posicionada?
  4. Mitral: fio preso no aparelho subvalvar, IM nova?
  5. VSVE: obstrução dinâmica após aliviar a pós-carga (hipertrofia septal)?
❓ Pergunta-chavePor que na SAPIEN 3 o foco do posicionamento é a borda aórtica?Ver resposta

Resposta: porque a prótese encurta apenas pelo lado ventricular ao ser expandida; a borda aórtica deve cobrir os folhetos nativos e ficar abaixo da JST.

💡 Profundidade final desejada: 1–2 mm abaixo do anel.

❓ Pergunta-chaveInstabilidade logo após desinsuflar o balão: o que excluir além do efeito da estimulação rápida?Ver resposta

Resposta: derrame/tamponamento por ruptura da raiz, disfunção grave de VE/VD por oclusão coronariana aguda e IAo aguda grave.

💡 O ETE responde às três perguntas em segundos.

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Intraprocedural Imaging” (p. 416-17), Tabela 5, Figuras 6 e 7.

9Pós-implante imediato e regurgitação paravalvar

A RPV é a complicação mais comum da TAVI e pode ser tratada na própria sala — desde que seja reconhecida, localizada e graduada corretamente.

Postprocedural imaging · p. 417-19📄 O que o artigo afirma
  • Avaliar imediatamente após a TAVI: posição da prótese, mobilidade dos folhetos e forma da prótese implantada. Oclusão coronariana e ruptura aórtica costumam vir com comprometimento hemodinâmico importante.
  • RPV mais que discreta: 0% a 24% na experiência inicial e 0% a 6% com as gerações atuais (2018).
  • A avaliação rápida é essencial: a RPV pode ser tratada na sala com pós-dilatação por balão, valve-in-valve ou dispositivo de oclusão paravalvar. É particularmente importante após prótese reposicionável; cineangiografia e hemodinâmica invasiva têm limitações (Tabela 6).
  • O eco (ETT ou ETE) é o método preferido: identifica local, número e extensão dos jatos, distingue transvalvar (central) de paravalvar e define a etiologia — posição subótima, sub ou superexpansão, assimetria, ou cálcio anular/subanular ectópico.
  • Local e etiologia definem o manejo: valve-in-valve para IAo central; para RPV, pós-dilatação, oclusor ou valve-in-valve.
Tabela 6 – Limitações de outras modalidades intraprocedimento para avaliar a RPV
CineangiografiaParâmetros hemodinâmicos

Dependente de:

  • Experiência do observador
  • Intensidade da fluoroscopia
  • Volume de contraste injetado
  • Tipo e posição da ponta do cateter

Incapacidade de diferenciar regurgitação intra de paravalvar

Exposição à radiação

Exposição a contraste angiográfico

Acurácia e reprodutibilidade limitadas

Incapacidade de diferenciar regurgitação intra de paravalvar

Influenciados pela complacência anormal do ventrículo e da aorta

Dependentes da frequência cardíaca

Sobreposição significativa entre os graus de regurgitação

Quatro painéis de ETE: A, eixo curto com jato paravalvar na comissura entre as cúspides coronariana esquerda e não coronariana (seta branca); B, eixo longo com zona de convergência proximal; C, transgástrico com a área do jato; D, Doppler contínuo com tempo de meia-pressão de 258 ms
Figura 8 – Imagem da regurgitação aórtica paravalvarToque/clique na imagem para ampliar

A RPV deve ser avaliada por múltiplos parâmetros e a partir de múltiplos planos. (A) Eixo curto mostrando que o jato regurgitante provavelmente se origina na comissura entre as cúspides coronariana esquerda e não coronariana (seta branca). (B) Eixo longo mostrando a zona de convergência proximal (seta branca); (C) corte transgástrico com a área do jato bem visualizada. Importante: a gravidade da regurgitação não deve ser avaliada pela área nem pelo comprimento do jato. O tempo de meia-pressão relativamente curto (D) pode resultar de complacência ventricular ou aórtica anormal e é menos diagnóstico nessa população.

Figura sem textos a traduzir além das anotações do equipamento.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Varredura da prótese · p. 418-19📄 O que o artigo afirma
  • Varrer a prótese da extremidade distal (aórtica) à proximal (ventricular): jatos centrais ocorrem no nível da coaptação dos folhetos; jatos paravalvares aparecem na borda proximal (ventricular) da prótese.
  • Usar múltiplos eixos curtos, com a maior taxa de quadros possível, incluindo a VSVE logo abaixo do stent — para confirmar que os jatos chegam ao VE.
  • Limitação do eixo curto 2D: se o plano estiver baixo demais (ventricular), superestima por mostrar o “spray” do jato; se alto demais (aórtico), o fluxo nos seios pode ser confundido com regurgitação — ou a regurgitação pode não aparecer.
  • Artefatos de “twinkling” no Doppler colorido ocorrem sobre superfícies muito refletoras, como o stent; são pancíclicos e o Doppler espectral mostra sinais não fisiológicos.
  • O ETE oferece 2D de melhor qualidade e conjuntos 3D com Doppler colorido que permitem planimetrar a área da vena contracta. Shibayama et al.: forma mais elíptica no nível comissural, maior expansão e orientação “antianatômica” (comissuras da prótese a ≥60° das nativas) associaram-se a regurgitação transvalvar.
Três cortes de eixo curto traduzidos: A, artefato de cor sobre a armação metálica; B, nível dos seios de Valsalva; C, nível da VSVE com seta amarela indicando jato que alcança o ventrículo
Figura 9 – Imagem da regurgitação paravalvar e artefato de corToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

O “artefato de twinkling” do Doppler colorido é visto sobre toda a armação metálica da prótese, em sístole (e também em diástole) (A). Múltiplos cortes de eixo curto, ajustados para a maior taxa de quadros, devem varrer desde o meio da prótese (B), para avaliar regurgitação central, até a VSVE imediatamente proximal ao stent (C), para confirmar que os jatos chegam ao VE. SV, seios de Valsalva.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Reconstrução multiplanar de ETE 3D com Doppler colorido, traduzida, com o plano vermelho alinhado ao eixo curto da vena contracta e área planimetrada de 0,08 cm²
Figura 10 – Conjunto de dados 3D da RPV mostrada na Figura 8Toque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

A reconstrução multiplanar permite alinhar o eixo curto da vena contracta (plano vermelho), que pode ser planimetrado para estimar a gravidade. Neste caso, apesar do tempo de meia-pressão de 258 ms, o jato representa RPV discreta.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Tabela 7 – Limitações das técnicas e parâmetros ecocardiográficos na avaliação da RPV
Parâmetros ecocardiográficosArmadilhas
Parâmetros estruturais
  • Profundidade de implante (ME AV LAX, TG LAX, TG profundo cinco câmaras)
  • Configuração da prótese implantada (ME AV SAX)
  • Artefatos (ex.: sombra acústica, lobo lateral)
  • Localização incerta do plano nas imagens de eixo curto (ex.: ventricular ou aórtico demais)
Parâmetros do Doppler colorido (ME AV LAX, TG LAX, TG profundo cinco câmaras, ME AV SAX)
  • Largura da vena contracta
  • Área da vena contracta
  • Extensão circunferencial
  • Múltiplos jatos com origens em níveis diferentes
  • Jatos excêntricos, tangenciais ao plano anular aórtico
  • Artefatos (ex.: twinkling, sombra acústica)
  • Localização incerta do plano no eixo curto (ex.: ventricular ou aórtico demais)
  • Irregularidade do orifício regurgitante
Doppler e parâmetros quantitativos
  • Tempo de meia-pressão
  • Reversão holodiastólica do fluxo aórtico
  • Volume regurgitante
  • Fração regurgitante
  • Dependentes da complacência ventricular e aórtica
  • Dependentes da frequência cardíaca e da pressão arterial sistêmica
  • Variabilidade inter e intraobservador significativa nos parâmetros quantitativos
Imagem 3D
  • Muito dependente da experiência do operador
  • Baixa resolução espacial e temporal, sobretudo nos conjuntos 3D com cor

LAX, eixo longo; ME, medioesofágico; SAX, eixo curto; TG, transgástrico.

📖 Texto de suporte — VARC-2 e o esquema de cinco classes
  • O VARC-2 propôs abordagem multiparamétrica e multijanela com esquema de três classes (discreta, moderada, grave). Em 1.255 ETT de cinco registros de TAVI, a combinação dos parâmetros VARC-2 foi factível em apenas 53%; em 40% a graduação apoiou-se em um único critério VARC-2 confiável somado a parâmetros não VARC, e em 7% apenas em parâmetros não VARC.
  • Para melhorar factibilidade e acurácia, foi proposto um esquema unificador de cinco classes (Tabela 8), mais granular para os jatos “entre graus”, mas que pode ser recolhido ao de três classes: discreta e discreta-a-moderada → discreta; moderada e moderada-a-grave → moderada.
  • Jones et al. (unicêntrico, retrospectivo): aumento escalonado da mortalidade em 1 ano para cada grau, mesmo após ajuste (idade, sexo, STS, FEVE e IAo prévia) — HR 2,26 por aumento de 1+ (IC 95% 1,48–3,43; P < ,001); mortalidade em 1 ano duas vezes maior com IAo discreta (1+ e 1 a 2+) do que com IAo trivial a 1+.
  • O PARTNER II, com o mesmo esquema, mostrou que RPV discreta e discreta-a-moderada não se associaram a piores desfechos em relação a ausente/mínima.
Tabela 8 – Esquema unificador para graduar a gravidade da regurgitação paravalvar
Esquema de três classesMínimaDiscretaModeradaGrave
Esquema unificador de cinco classesMínimaDiscretaDiscreta a moderadaModeradaModerada a graveGrave
Cineangiografia
Grau angiográficoGrau 1Grau 1Grau 1Grau 2Grau 3Grau 4
Hemodinâmica invasiva
Índice de IAo‡>25>25>2510–2510–25<10
Ecocardiografia com Doppler — parâmetros estruturais
• Stent da próteseGeralmente normalGeralmente normalNormal/anormal†Normal/anormal†Geralmente anormal†Geralmente anormal†
◦ Tamanho do VE§NormalNormalNormalNormal/levemente dilatadoLeve/moderadamente dilatadoModerada/gravemente dilatado
Parâmetros Doppler (qualitativos ou semiquantitativos)
• Características do jato: origem extensa/largaAusenteAusenteAusentePresentePresentePresente
Múltiplos jatosPossívelPossívelFrequentemente presentesFrequentemente presentesGeralmente presentesGeralmente presentes
Trajeto do jato visível ao longo do stentAusenteAusentePossívelFrequentemente presenteGeralmente presentePresente
Convergência de fluxo proximal visívelAusenteAusenteAusentePossívelFrequentemente presenteFrequentemente presente
◦ Largura da vena contracta (mm)*: Doppler colorido<2<22–44–55–6>6
◦ Área da vena contracta (mm²)‖: Doppler colorido 3D<55–1010–2020–3030–40>40
• Largura do jato na origem (% do diâmetro da VSVE): Doppler colorido*Estreita (<5)Estreita (5–15)Intermediária (15–30)Intermediária (30–45)Larga (45–60)Larga (>60)
◦ Densidade do jato: Doppler contínuoIncompleta ou tênueIncompleta ou tênueVariávelDensaDensaDensa
◦ Taxa de desaceleração do jato (PHT, ms): Doppler contínuo‡,§Lenta (>500)Lenta (>500)Lenta (>500)Variável (200–500)Variável (200–500)Rápida (<200)
◦ Reversão diastólica do fluxo na aorta descendente: Doppler pulsado‡,§AusenteAusente ou breve, protodiastólicaIntermediáriaIntermediáriaHolodiastólica (velocidade diastólica final >20 cm/s)Holodiastólica (velocidade diastólica final >25 cm/s)
• Extensão circunferencial da RPV (%): Doppler colorido<10<1010–2020–30>30>30
Parâmetros Doppler (quantitativos)
◦ Fração regurgitante (%)<15<1515–3030–4040–50>50
◦ Área efetiva do orifício regurgitante (mm²)¶<5<55–1010–2020–30>30

Fonte: Pibarot et al.

• Parâmetros mais frequentemente aplicáveis e usados para graduar a RPV pelo eco.

◦ Parâmetros menos frequentemente aplicáveis, por limitações de factibilidade ou acurácia das medidas e/ou interação com outros fatores.

*Parâmetros em geral avaliados visualmente.

†Anormalidades de posição do stent (baixo ou alto demais), de implante e/ou de circularidade.

‡Parâmetros influenciados pela complacência do VE e da aorta. Assim, um gradiente diastólico final aorta–VE baixo por disfunção diastólica moderada ou grave concomitante do VE pode gerar falso-positivos. A alta dependência da reversão do fluxo aórtico em relação à complacência aórtica limita consideravelmente a utilidade desse parâmetro na população idosa submetida a TAVI. Esses parâmetros também são influenciados pela frequência cardíaca.

§Aplica-se à RPV crônica, mas é menos confiável na avaliação periprocedimento ou pós-procedimento precoce.

‖A área da vena contracta é medida por planimetria da vena contracta do(s) jato(s) em imagens de Doppler colorido 2D ou 3D no eixo curto.

¶A área efetiva do orifício regurgitante é calculada dividindo o volume regurgitante pela integral velocidade-tempo do fluxo de IAo ao Doppler contínuo.

CW, Doppler contínuo; PHT, tempo de meia-pressão; PW, Doppler pulsado. No original, o tamanho do VE aparece como subitem dos parâmetros estruturais; a extensão circunferencial de “moderada a grave” e “grave” é >30% em ambas as colunas, conforme impresso.

Tabela 9 – Avaliação ecocardiográfica abrangente após a TAVI
DomínioCâmarasPrótese transcateter
Estrutura
  • Dimensões e volume do VE, espessura parietal, massa
  • Dimensões (diastólicas), espessura parietal e função do VD
  • Posição em relação ao anel
  • Estabilidade/movimento da prótese
  • Expansão/forma e regiões de separação em relação ao anel
Função
  • Alterações da contratilidade segmentar
  • FE
  • Mobilidade dos folhetos, incluindo abertura e fechamento
Hemodinâmica
  • Volume sistólico do VE
  • Volume sistólico do VD (para avaliar a RPV)
  • Pressão na artéria pulmonar
  • Velocidade transaórtica de pico
  • Gradientes transaórticos de pico e médio
  • AVA
  • Gravidade e localização da regurgitação
Outros
  • Outras valvopatias concomitantes
  • Compressão ou comprometimento de estruturas anatômicas adjacentes
Complicações estruturais · p. 419📄 O que o artigo afirma

A maioria das lesões da raiz é catastrófica, mas algumas são insidiosas, com acúmulo lento de derrame e apresentação tardia com tamponamento. É necessário alto grau de alerta para lesão estrutural como causa de instabilidade em todas as fases. Há relatos de CIV iatrogênica; deve-se interrogar rotineiramente o septo interventricular, sobretudo na região perimembranosa.

🚫 Erro clássico

Graduar o leak pela área ou comprimento do jato ou pelo PHT isolado. Use o conjunto da Tabela 8, priorizando os parâmetros marcados com “•” (stent, características do jato, largura na origem, extensão circunferencial).

❓ Pergunta-chaveOnde nasce um jato paravalvar e onde nasce um jato central?Ver resposta

Resposta: o central nasce no nível da coaptação dos folhetos da prótese; o paravalvar aparece na borda proximal (ventricular) do stent, por fora dele.

💡 Varra do aórtico ao ventricular e confirme na VSVE logo abaixo do stent.

❓ Pergunta-chaveComo reconhecer o artefato de twinkling?Ver resposta

Resposta: sinal colorido sobre a armação metálica, pancíclico (sístole e diástole), com Doppler espectral mostrando sinais não fisiológicos.

💡 Regurgitação verdadeira é diastólica e tem espectro coerente.

❓ Pergunta-chaveComo o esquema de cinco classes conversa com o VARC-2?Ver resposta

Resposta: recolhe-se: discreta e discreta-a-moderada → discreta; moderada e moderada-a-grave → moderada; mínima e grave permanecem.

💡 No PARTNER II, discreta e discreta-a-moderada não pioraram desfechos; em Jones et al., cada 1+ elevou o risco (HR 2,26).

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Postprocedural Imaging” (p. 417-19), Tabelas 6–9, Figuras 8–10.

10Sedação, ETT na sala e complicações

A padronização do procedimento levou à TAVI sob sedação (“abordagem minimalista”), o que limita o ETE e transfere ao ETT o guia e a vigilância. O ecocardiografista precisa estar na sala.

Procedural and postprocedural imaging with TTE · p. 419-23📄 O que o artigo afirma
  • Os primeiros ensaios exigiam anestesia geral (AG) e ETE. Hoje há sedação sem intubação com anestesiologista (cuidado anestésico monitorado) ou sem ele (sedação consciente, “abordagem minimalista”), que limita o ETE e passa a depender do ETT.
  • Benefícios: menos UTI, menor permanência e menor custo — a pesar contra relatos de mais RPV, uso de contraste nefrotóxico e maior morbidade da conversão para AG. Alguns centros mantêm AG + ETE em protocolo “fast track”, também com menor permanência e custo.
  • Registro brasileiro: o uso de ETE para monitorar o procedimento foi fator protetor contra mortalidade total (HR 0,57) e tardia (HR 0,47).
  • Registro europeu TCVT (ESC): sobrevida em 1 ano semelhante entre AG e SC (log-rank P = ,1505), mas no tercil mais alto de EuroSCORE logístico a AG teve maior mortalidade. A AG teve maior sucesso imediato e menos complicações periprocedimento; a SC teve tendência a mais eventos combinados (IAM, AVC maior e morte hospitalar): 7,0% vs 5,3% (P = ,053).
  • Características do paciente e experiência do centro influenciam: na DPOC (Condado et al.), sem diferença em complicações e mortalidade em 30 dias; a abordagem minimalista associou-se a melhor sobrevida em 1 ano (HR 0,28; IC 95% 0,08–0,97). Em centros de alto volume, desfechos semelhantes com SC — no estudo citado, o primeiro caso com SC ocorreu após 300 casos sob AG.
Tabela 10 – Pontos fortes e fracos do ETT versus ETE
ParâmetroETTETE
Sedação durante a TAVI
  • Nenhuma necessária (sedação apenas para o procedimento)
  • AG, cuidado anestésico monitorado ou SC
Vantagens de imagem
  • Janelas padrão para avaliar estrutura e função ventricular e valvar
  • Maior resolução com altas taxas de quadros em 2D e 3D
  • Imagem contínua durante o procedimento, qualquer que seja a via de acesso
  • Imagem pré-procedimento pode evitar complicações (ex.: RPV, ruptura anular/aórtica, oclusão coronariana)
  • Diagnóstico intraprocedimento imediato de complicações
Desvantagens de imagem
  • Qualidade dependente do paciente (morfologia torácica, hiperinsuflação pulmonar, posicionamento subótimo)
  • Atraso do procedimento durante a aquisição (para minimizar radiação ao ecocardiografista)
  • Imagem não contínua durante o procedimento
  • Baixa resolução e baixa taxa de quadros em 2D e 3D
  • Janelas limitadas nas vias de acesso não transfemorais
  • Qualidade dependente do paciente (sombra acústica do cálcio, posição do coração em relação ao esôfago e ao estômago)
  • Interferência da sonda com a fluoroscopia (minimizada pela articulação da sonda)
Outras vantagens
  • Recuperação e alta precoces
  • Necessidade de monitorização pós-procedimento (pode não diferir da do ETT)
Outras desvantagens
  • Possível maior exposição do ecocardiografista à radiação
  • Interferência com o campo estéril
  • Trauma de orofaringe, esôfago ou estômago

Na linha “Outras vantagens”, o original lista a necessidade de monitorização pós-procedimento na coluna do ETE, como reproduzido.

ETT na sala: basal, durante e logo após o implante

Transthoracic echocardiography · p. 423-26📄 O que o artigo afirma
  • A interpretação imediata e acurada exige tipicamente um ecocardiografista médico na sala; treinamento e experiência adequados são obrigatórios. O transdutor fica dentro do plano fluoroscópico — trabalho em equipe: não fazer ETT durante fluoroscopia simultânea.
  • Basal: avaliar tamanho e função ventricular e todas as valvas, e identificar as melhores janelas para comparar depois. Com o paciente em decúbito e o campo estéril, pode ser necessária uma janela paraesternal “baixa” — não recomendada para medidas do VE, mas muitas vezes ideal, em idosos, para VSVE, anel e raiz. A imagem multiplanar simultânea ajuda, mas a baixa taxa de quadros limita o Doppler colorido. Janelas paraesternais podem ser limitadas pela sombra posterior da prótese e por jatos perpendiculares ao feixe.
  • Logo após o implante: posição, forma e mobilidade dos folhetos em biplano. O paraesternal eixo longo é o melhor para a posição final; o eixo curto é essencial para forma e para RPV/IAo central. Avaliar contratilidade de VE e VD (alterações em território coronariano sugerem obstrução coronariana aguda). As janelas apicais são essenciais para a avaliação hemodinâmica completa.
ETT biplanar traduzido: A, janela paraesternal baixa com eixo curto ortogonal mostrando cálcio volumoso na VSVE (seta amarela); B, imagem multiplanar da valva aórtica (círculo amarelo) com cálcio volumoso da cúspide coronariana direita
Figura 11 – Imagem transtorácica basal pela janela paraesternal de eixo longoToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

(A) Imagem biplanar simultânea a partir de uma janela “baixa”, comum com o paciente em decúbito dorsal. O eixo curto ortogonal no nível da VSVE mostra cálcio volumoso (seta amarela) projetando-se nesse espaço. (B) Imagem multiplanar simultânea da valva aórtica (círculo amarelo), com calcificação muito volumosa da cúspide coronariana direita. A seta branca tracejada no eixo longo (à esquerda) indica o nível do eixo curto ortogonal (à direita).

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Tabela 11 – Resumo das recomendações de imagem por ETT durante a TAVI
EtapaRecomendações de imagemExemplo
Posição do fio rígido
  1. Imagem do fio: garantir posição estável no ventrículo, sem enredamento no aparelho mitral/piora da IM
  2. Excluir perfuração e derrame pericárdico
Imagem biplanar simultânea do fio (setas amarelas e linha tracejada) Imagem biplanar apical do fio rígido no VE
Posicionamento da prótese
  1. Expansível por balão — SAPIEN 3: a borda de saída da prótese deve cobrir os folhetos nativos e ficar abaixo da junção sinotubular; a posição final ótima cobre os folhetos nativos
  2. Autoexpansível — EvolutPro: a borda do stent proximal deve ficar 2–4 mm abaixo do anel
A mesma imagem paraesternal de eixo longo com a SAPIEN 3 crimpada (seta verde em A e cilindro verde em B) abaixo da junção sinotubular (seta amarela em A), mas cobrindo os folhetos (linhas vermelhas tracejadas em B) ETT paraesternal eixo longo com a prótese crimpadaver original em inglês (PDF)
Imediatamente após o implante
  1. Avaliar posicionamento, forma e mobilidade dos folhetos do stent; fazer medidas hemodinâmicas completas, incluindo a área efetiva do orifício
  2. Avaliar a RPV com imagens de eixo curto da VSVE logo apical à borda de entrada da prótese, e com cortes apicais, para confirmar que o jato chega ao ventrículo; comprimento e área do jato paravalvar não são usados para graduar a regurgitação, mas podem ajudar a identificar local e número de jatos
  3. Excluir complicações (ver Tabela 12)
Imagem paraesternal pós-TAVI da nova prótese em eixo longo (A) e eixo curto (B) ETT paraesternal eixo longo e eixo curto com a prótese implantadaver original em inglês (PDF) Cortes apicais da prótese evitam a sombra que pode limitar a avaliação da RPV pelas janelas paraesternais ETT apical 5 câmaras com Doppler coloridover original em inglês (PDF)

LAX, eixo longo. Rótulos das imagens traduzidos para o português; anotações do equipamento mantidas.

📖 Texto de suporte — ressalvas da graduação da RPV pelo ETT na sala
  1. Comprimento e área do jato colorido, PHT (Doppler contínuo) e reversão holodiastólica na aorta descendente (Doppler pulsado) são muito influenciados por pressão arterial, complacência do VE e da aorta. Nessa população idosa, aorta não complacente e VE hipertrofiado podem invalidar os índices padrão: volume regurgitante grande (≥60 mL) ocorre na IAo crônica grave com VE dilatado, mas num VE pequeno e hipertrófico a IAo aguda grave pode corresponder a volume regurgitante bem menor.
  2. A natureza atípica e irregular dos jatos de RPV limita a acurácia dos parâmetros usados para valvas nativas ou cirúrgicas.
  3. Desenhos proprietários de prótese podem exigir algoritmos de imagem específicos.
Tabela 12 – Complicações da TAVI diagnosticadas pelo ETT
ComplicaçãoAvaliação ecocardiográfica transtorácica
Instabilidade hemodinâmica
a. Regurgitação transvalvar ou RPV grave
  • Avaliar o local da regurgitação (central vs paravalvar)
  • Avaliar a posição da prótese
  • Avaliar a gravidade da IAo
b. IM grave
  • Avaliar a gravidade da IM e a anatomia do aparelho mitral: perfuração valvar, ruptura de cordas, tethering dos folhetos
c. Derrame pericárdico
  • Avaliar fisiologia de tamponamento e possível etiologia (ex.: perfuração de câmara, dissecção aórtica)
d. Disfunção ventricular
  • Avaliar alterações segmentares ou globais do VE ou do VD
  • Identificar o óstio coronariano; usar Doppler colorido para avaliar o fluxo
e. Ruptura ou dissecção aórtica
  • Examinar raiz/aorta ascendente em busca de hematoma periaórtico, dissecção ou ruptura
  • Avaliar derrame pericárdico/tamponamento
f. Sangramento maior
  • Avaliar tamanho e função ventricular (colabamento das paredes por hipovolemia)
Outras complicações do procedimento
a. Identificar trombo em fios/cateteres
  • Quando identificado, pode-se administrar heparina suplementar
b. Mau posicionamento da prótese
  • Alta ou baixa demais em relação ao anel, com instabilidade hemodinâmica: pode-se implantar rapidamente uma segunda prótese
  • Embolização da prótese (para o VE ou para a aorta) pode exigir intervenção cirúrgica
c. Fístula/perfuração
  • Comunicação interventricular
  • Fístula aortocavitária (tipicamente para a VSVD ou o átrio direito)

VSVD, via de saída do ventrículo direito.

ETT traduzido: A, paraesternal eixo longo com Doppler colorido mostrando fluxo turbulento através do septo membranoso (seta amarela); B, Doppler contínuo com fluxo pancíclico de alta velocidade, gradiente de pico 113 mmHg
Figura 12 – Ruptura septal ventricular agudaToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

(A) Imagem 2D e Doppler colorido simultâneo no paraesternal de eixo longo, com fluxo turbulento através do septo membranoso (seta amarela). (B) O Doppler contínuo mostra fluxo pancíclico de alta velocidade.

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

⚠️ Lembrete de segurança

Na abordagem minimalista, combine com a equipe pausas na fluoroscopia para adquirir imagens: o artigo destaca a possível maior exposição do ecocardiografista à radiação e a interferência com o campo estéril.

❓ Pergunta-chaveQual janela do ETT define melhor a posição final e qual avalia melhor a RPV?Ver resposta

Resposta: paraesternal eixo longo para a posição final; eixo curto (VSVE logo abaixo do stent) para forma e RPV; apicais para hemodinâmica e para evitar a sombra posterior do stent.

💡 Comprimento/área do jato só localizam e contam jatos, não graduam.

❓ Pergunta-chaveO que o registro brasileiro mostrou sobre o ETE?Ver resposta

Resposta: o ETE para monitorar o procedimento foi fator protetor contra mortalidade total (HR 0,57) e tardia (HR 0,47).

💡 Outros registros (TCVT, DPOC) mostram resultados semelhantes com sedação em centros experientes.

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Procedural and Postprocedural Imaging with TTE” (p. 419-26), Tabelas 10–12, Figuras 11 e 12.

11AVA e seguimento após a TAVI

Após a TAVI faz-se avaliação abrangente de câmaras e valvas (Tabela 9). O cálculo correto da área efetiva da prótese depende de onde se mede a VSVE e se coloca o Doppler pulsado.

Postprocedural assessment · p. 426-27📄 O que o artigo afirma
  • O cálculo acurado da área valvar pós-TAVI exige medir o volume sistólico da VSVE.
  • Prótese expansível por balão: pela aceleração de fluxo dentro do stent, o diâmetro da VSVE deve ser medido da borda externa à borda externa da armação, com a amostra do Doppler pulsado logo apical à borda proximal do stent. Essa medida correlaciona-se melhor com o gradiente médio.
  • O Doppler contínuo através da prótese confirma gradientes e permite calcular a área.
  • Se a VSVE não puder ser medida com acurácia, registrar o índice adimensional (DVI), útil no seguimento de longo prazo. Relatos do PARTNER sugerem DVI normal >0,45 para a prótese expansível por balão.
  • Se o stent faz protrusão na VSVE sem contato com o tecido ao redor (sobretudo com fluxo por fora do stent de entrada), o volume sistólico medido nessa região pode ser inválido. Pode-se usar o diâmetro interno a interno no nível das inserções dos folhetos protéticos, com o PW no mesmo nível, mas pela aceleração de fluxo a área tende a ser superestimada.
  • Prótese autoexpansível: estudos iniciais sugeriam medir a VSVE logo abaixo das inserções visíveis dos folhetos, de borda interna a interna; ensaios recentes usaram a borda externa a externa da extremidade ventricular da prótese.
ETT traduzido: A, eixo longo com o diâmetro da VSVE de 2,3 cm medido de borda externa a borda externa do stent; B, Doppler pulsado com amostra logo apical à borda proximal do stent; C, Doppler contínuo com velocidade máxima de 214 cm/s, gradiente médio de 8 mmHg, DVI de 0,58 e AVA de 2,69 cm² pela VTI
Figura 13 – Medida da AVA após a TAVIToque/clique na imagem para ampliar · traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês (PDF)

Pela aceleração de fluxo dentro da prótese expansível por balão, o diâmetro da VSVE deve ser medido de borda externa a borda externa da armação (A), com a amostra do Doppler pulsado logo apical à borda proximal do stent (B). O Doppler contínuo é então usado para calcular a AVA (C).

Anotações do equipamento mantidas no original (AV VTI, Vmax, Vmean, Max PG, Mean PG, AV VR, AVA [VTI], AVA [Vmax]).

Reproduzida de Hahn RT et al., J Am Soc Echocardiogr 2018;31:405-33.

Quadro didático – Onde medir a VSVE depois da TAVI
SituaçãoDiâmetroAmostra do PWObservação
Prótese expansível por balão (padrão)Borda externa a externa do stentLogo apical à borda proximal do stentMelhor correlação com o gradiente médio
Stent em protrusão na VSVE, sem contato com o tecidoInterno a interno, no nível das inserções protéticasNo mesmo nívelTende a superestimar a área (aceleração de fluxo)
Prótese autoexpansívelEstudos iniciais: interno a interno logo abaixo das inserções; ensaios recentes: externo a externo da extremidade ventricular—Padronize no seu serviço e descreva no laudo
VSVE não mensurável——Registrar DVI (normal >0,45 na prótese por balão, PARTNER)
✅ Conclusão dos autores

Em 10 anos, a TAVI passou a ser padrão de cuidado para inoperáveis, opção equivalente para alto risco e uma consideração para risco intermediário com EAo grave sintomática (cenário de 2018). Compreender a variabilidade anatômica, as restrições da prótese e o valor da imagem ecocardiográfica é importante para qualquer membro do Heart Team.

❓ Pergunta-chavePor que medir a VSVE pela borda externa do stent na prótese por balão?Ver resposta

Resposta: porque há aceleração de fluxo dentro do stent; o PW posicionado logo apical à borda proximal, combinado ao diâmetro externo a externo, mostrou a melhor correlação com o gradiente médio.

💡 Se a medida não for confiável, registre o DVI (>0,45 é normal para a prótese por balão).

Fonte: Hahn et al., JASE 2018 — “Postprocedural Assessment” e “Conclusions” (p. 426-28), Figura 13.

🚫 10 coisas para parar de fazer

Todas sustentadas pelo texto do artigo.

  1. Medir a VSVE 5–10 mm abaixo do anel — subestima a AVA (Tabela 2).
  2. Usar o cálcio ectópico como borda da VSVE — subestima a AVA (Tabela 2, Figura 2).
  3. Colocar o PW dentro da zona de aceleração — superestima a AVA (Tabela 2).
  4. Traçar o envelope tênue do PW em vez da velocidade modal — superestima VS e AVA (Tabela 2).
  5. Confiar numa única janela apical para o jato — subestima a gravidade em até 50% (Tabela 2).
  6. Usar o diâmetro do anel no eixo longo 2D como “o anel” para escolher a prótese — o anel é oval e o 2D subestima (p. 414).
  7. Graduar o leak pela área ou comprimento do jato (Figura 8, Tabela 11).
  8. Confiar no PHT ou na reversão holodiastólica isolados no idoso pós-TAVI — dependem da complacência e da FC (Tabela 8, notas ‡ e §).
  9. Chamar de regurgitação o twinkling sobre o stent — é pancíclico e não fisiológico (Figura 9).
  10. Fazer ETT durante fluoroscopia simultânea — exposição desnecessária do ecocardiografista (p. 423).

12Checklist do laudo (pré, sala e pós)

Marque enquanto revisa um exame. Construído a partir das Tabelas 4, 5, 9, 11 e 12.

Pré-TAVI

Na sala

Pós-implante

📌 O artigo em 2 minutos

  1. O anel da TAVI é virtual: plano dos pontos basais de inserção dos folhetos.
  2. Coronária esquerda baixa + folheto esquerdo calcificado = risco de obstrução; altura só por MPR.
  3. Bicúspide: anel maior e circular, cálcio excêntrico → mais RPV e marca-passo.
  4. EAo grave: Vmáx ≥4 m/s, GM ≥40 mmHg, AVA ≤1,0 cm², AVAi ≤0,6 cm²/m², DVI ≤0,25.
  5. O maior erro da AVA é a VSVE ao quadrado: meça no anel, borda interna a interna.
  6. Baixo fluxo = VSi <35 mL/m²; D2 → dobutamina; D3 → escore de cálcio (≥1.275 UA mulheres; ≥2.065 homens).
  7. Zva ≥4,5 e ELI ≤0,5–0,6 cm²/m² trazem prognóstico; não são rotina.
  8. Eco 2D subestima o anel; TCMD ou ETE 3D (área e perímetro) reduzem RPV.
  9. SAPIEN 3: borda aórtica abaixo da JST, final 1–2 mm; Evolut: 2–4 mm (não ≥6).
  10. RPV: varrer do aórtico ao ventricular, graduar com Tabela 8, nunca por área/comprimento do jato.
  11. Twinkling é pancíclico; jato verdadeiro chega ao VE abaixo do stent.
  12. Pós-TAVI por balão: VSVE externa a externa, PW logo abaixo do stent; DVI normal >0,45.

🔤 Glossário de siglas do artigo original

As 77 siglas que aparecem no artigo em inglês — no texto, nas tabelas, nas figuras e nas telas do equipamento —, com o termo original e a tradução. As marcadas com ★ constam da lista oficial de abreviaturas do artigo.

Quadro didático – Siglas do artigo (inglês → português)
SiglaTermo original (inglês)Tradução
Anatomia e estruturas
LV ★Left ventricle / left ventricularVentrículo esquerdo
LVOT ★Left ventricular outflow tractVia de saída do ventrículo esquerdo
RVOTRight ventricular outflow tractVia de saída do ventrículo direito
IVSInterventricular septumSepto interventricular
SOVSinuses of ValsalvaSeios de Valsalva
STJSinotubular junctionJunção sinotubular
RCCRight coronary cuspCúspide coronariana direita
LCCLeft coronary cuspCúspide coronariana esquerda
NCCNoncoronary cuspCúspide não coronariana
RCARight coronary arteryArtéria coronária direita
LMLeft main coronary arteryTronco da coronária esquerda
A-V nodeAtrioventricular nodeNó atrioventricular
ant / postAnterior / posterior (ramos do feixe esquerdo, Figura 1)Anterior / posterior
A / P / PM / ALAnterior / posterior / posteromedial / anterolateral (marcadores anulares, Figura 4)Anterior / posterior / posteromedial / anterolateral
Doenças e condições
AS ★Aortic stenosisEstenose aórtica
ARAortic regurgitationInsuficiência (regurgitação) aórtica
MR ★Mitral regurgitationInsuficiência mitral
TR ★Tricuspid regurgitationInsuficiência tricúspide
PAR ★Paravalvular aortic regurgitationRegurgitação aórtica paravalvar (“leak” paravalvar)
Procedimentos e dispositivos
TAVR ★Transcatheter aortic valve replacementImplante transcateter de valva aórtica (TAVI)
AVRAortic valve replacementTroca valvar aórtica
THV ★Transcatheter heart valvePrótese (valva) transcateter
PETPolyethylene terephthalatePolietileno tereftalato (tecido da saia/manguito da prótese)
Métodos de imagem e cortes
TTE ★Transthoracic echocardiographyEcocardiograma transtorácico
TEE ★Transesophageal echocardiographyEcocardiograma transesofágico
MSCT ★Multislice computed tomographyTomografia computadorizada multidetectores (multicorte)
2D ★Two-dimensionalBidimensional
3D ★Three-dimensionalTridimensional
MEMidesophagealMedioesofágico
TGTransgastricTransgástrico
LAXLong-axisEixo longo
SAXShort-axisEixo curto
AV LAX / AV SAXAortic valve long-axis / short-axisEixo longo / eixo curto da valva aórtica
Apical 5ChApical five-chamber viewApical cinco câmaras
QLAB MVQQLAB Mitral Valve Quantification (Philips)Software de quantificação da valva mitral (usado na planimetria indireta do anel)
Doppler e medidas hemodinâmicas
CWContinuous-wave (Doppler)Doppler contínuo
PWPulsed-wave (Doppler)Doppler pulsado
VTIVelocity-time integralIntegral velocidade-tempo
AVA ★Aortic valve areaÁrea valvar aórtica
AVAiIndexed aortic valve areaÁrea valvar aórtica indexada
MGMean gradientGradiente médio
SViStroke volume indexVolume sistólico indexado
BSA ★Body surface areaSuperfície corporal
CEContinuity equationEquação de continuidade
PHTPressure half-timeTempo de meia-pressão
ELI ★Energy loss indexÍndice de perda de energia
Zva ★Valvuloarterial impedanceImpedância valvuloarterial
AR indexAortic regurgitation indexÍndice de regurgitação aórtica (hemodinâmica invasiva)
Função ventricular
EF ★Ejection fractionFração de ejeção
LVEFLeft ventricular ejection fractionFração de ejeção do ventrículo esquerdo
GLS ★Global longitudinal strainStrain longitudinal global
E/e′Ratio of mitral E velocity to tissue Doppler e′ velocityRazão entre a onda E mitral e a velocidade e′ do Doppler tecidual
Anestesia e sala
GA ★General anesthesiaAnestesia geral
CS ★Conscious sedationSedação consciente (“abordagem minimalista”)
Anotações das telas do equipamento (figuras)
AoV / AVAortic valveValva aórtica
VmaxMaximal (peak) velocityVelocidade máxima (de pico)
VmeanMean velocityVelocidade média
Pk Grad / Max PGPeak gradient / maximal pressure gradientGradiente de pico (máximo)
Mn Grad / Mean PGMean gradient / mean pressure gradientGradiente médio
AV VRAortic valve velocity ratioRazão de velocidades (índice adimensional)
AVA (VTI) / AVA (Vmax)Aortic valve area by VTI / by peak velocityÁrea valvar aórtica pela VTI / pela velocidade máxima
AI P½tAortic insufficiency pressure half-timeTempo de meia-pressão da insuficiência aórtica
bpmBeats per minuteBatimentos por minuto
FRFrame rateTaxa de quadros
WFWall filterFiltro de parede
MI / TISMechanical index / thermal index (soft tissue)Índice mecânico / índice térmico (tecidos moles)
Estudos, escores e estatística
PARTNER ★Placement of Aortic Transcatheter ValvesColocação de Valvas Aórticas Transcateter (ensaios de TAVI)
VARC ★Valve Academic Research ConsortiumConsórcio Acadêmico de Pesquisa em Valvas (definições padronizadas de desfecho)
STSSociety of Thoracic Surgeons (risk score)Escore de risco da Sociedade de Cirurgiões Torácicos
RCTRandomized controlled trialEnsaio clínico randomizado
HR ★Hazard ratioRazão de riscos (hazard ratio)
CIConfidence intervalIntervalo de confiança
Sociedades e publicações
AHA ★American Heart AssociationAssociação Americana do Coração
ACC ★American College of CardiologyColégio Americano de Cardiologia
ASEAmerican Society of EchocardiographySociedade Americana de Ecocardiografia
JASEJournal of the American Society of EchocardiographyRevista da Sociedade Americana de Ecocardiografia
CCFCleveland Clinic Foundation (crédito da Figura 1)Fundação Cleveland Clinic

Nesta página, o texto em português usa as siglas consagradas no Brasil (por exemplo, VSVE para LVOT, ETE para TEE, TCMD para MSCT); a correspondência está na caixa “Siglas usadas nesta revisão”, no início da página. Atenção a duas siglas ambíguas na literatura em inglês: BAV pode significar bicuspid aortic valve (valva aórtica bicúspide) ou balloon aortic valvuloplasty (valvoplastia aórtica por balão); HR é hazard ratio no texto, mas heart rate (frequência cardíaca) nas telas do equipamento.

13Desafio final: casos integradores

Casos mais longos que cruzam várias seções do artigo. Responda e leia o comentário completo.

Nenhuma questão respondida ainda.