Dr. Guilherme MouraCardiologista | Ecocardiografista
Síndrome Coronariana Crônica · SBC 2025← Diretrizes | Em formato interativo

Revisão comentada · Dr. Guilherme Moura · Baseada na diretriz oficial da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Cardiologia · Doença coronariana · SBC 2025

Síndrome Coronariana Crônica

Diretriz Brasileira de Cardiologia 2025

Revisão interativa • Diagnóstico • Estratificação • Tratamento • Revascularização

SBC 2025Classe · Nível de evidência em cada recomendação16 capítulos · 90 questões + desafio de 25Fluxogramas recriados

Cesar LAM, Gowdak LHW, Pavanello R, Ferreira JFM, et al. Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619.

⚠️ Aviso

Material educacional baseado na Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025 da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Não substitui julgamento clínico individualizado. Doses e contraindicações devem ser conferidas no documento original e na bula.

Nível de leitura:
Nível 3 (aprofundamento) = accordions “Entender melhor” e “📚 Evidência”.
🧠 Como ler este material

Classe I Classe IIa Classe IIb Classe III Nível A/B/C — badges usados apenas quando a diretriz traz recomendação formal (a SBC usa “grau de recomendação” e “nível de evidência”). Blocos ✅ Recomendação da diretriz transcrevem o documento; blocos 💡 Interpretação prática são leitura didática e não têm classe/nível. Quando não há recomendação formal: “Discussão baseada no texto da diretriz”.

🫀Síndrome Coronariana Crônica em 5 minutos

Mapa mental inicial — o que você precisa ter na cabeça antes de aprofundar.

1 · Definição

SCC é a doença coronariana entendida como um contínuo: evolução em geral silenciosa por anos, com momentos de agudização. Conceito introduzido pela ESC em 2019 e adotado pela SBC.

2 · Espectro clínico

Angina/equivalente com DAC obstrutiva; fase estável pós-SCA, ICP ou CRM; disfunção de VE/IC isquêmica; assintomático com teste alterado; angina sem DAC obstrutiva (ANOCA/INOCA).

3 · DAC aterosclerótica

Principal causa de morte no Brasil entre as doenças não transmissíveis. Muitos pacientes — sobretudo mulheres — têm angina e isquemia sem obstrução, mas geralmente com aterosclerose.

4 · Sintomas

Angina típica = 3 critérios (desconforto retroesternal característico + esforço/estresse + alívio com repouso/nitrato em até 10 min). Típica em só 10–15% dos casos investigados.

5 · Diagnóstico

Probabilidade pré-teste (PPT) guia o exame: ≤5% sem testes; >5–15% ajustar PPT ou angioTC; >15–50% prova funcional ou angioTC; >50–85% prova funcional; >85% cineangiocoronariografia.

6 · Anatomia

AngioTC: Classe I-A como exame inicial em PPT intermediária/intermediária-alta sem diagnóstico anatômico prévio. Cateterismo quando há angina limitante apesar do TMO, disfunção de VE ou isquemia importante.

7 · Função (isquemia)

Eco de estresse, SPECT/PET e RMC de estresse (Classe I). TE diagnóstico só como alternativa sem imagem (IIb). Anatomia ≠ isquemia: lesões intermediárias → fisiologia (FFR/iFR).

8 · Risco

Baixo <1%/ano, intermediário 1–3%, alto >3% de morte CV ou IAM. Alto risco: Duke <−10; isquemia ≥10% do VE; ≥3/16 segmentos ao eco; TCE, triarterial proximal ou DA proximal.

9 · Prevenção de eventos

AAS 100 mg (I-A pós-IAM/revascularização), LDL <50 mg/dL + redução ≥50% (I-A), SGLT2i e GLP-1 RA no DM2 (I-A), iECA com disfunção/IC/DM (I-A), reabilitação (I-A), vacinação.

10 · Sintomas

Não há antianginoso “de primeira linha” universal: individualizar por FE, PA, FC e mecanismo (Figura 17). Combinar mecanismos; reavaliar a cada 30 dias enquanto sintomático.

11 · Revascularização

Dois objetivos distintos: prognóstico (multiarterial, TCE, disfunção de VE — CRM I-A) e sintomas (angina limitante sob TMO — ICP I-A). ICP de rotina não reduz eventos em toda a SCC.

12 · INOCA/ANOCA

Isquemia/angina sem obstrução: disfunção microvascular (RFC <2,0; IMR ≥25) e vasoespasmo (acetilcolina). Tratamento estratificado (CorMiCa).

Figura Central da Diretriz SBC 2025: espectro clínico das síndromes coronarianas crônicas (angina com DAC obstrutiva, fase estável após SCA/ICP/CRM, disfunção ventricular de origem isquêmica, assintomático com teste alterado, ANOCA/INOCA), pilares do tratamento (estilo de vida, medicamentos, vacinação, ICP, CRM) e abordagem brasileira para tratamento personalizado da angina por FE, PA e FC.
Figura Central – Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.

🔥O que você precisa guardar desta diretriz

Os pontos que mais modificam conduta, extraídos diretamente das recomendações.

🔬 DIAGNÓSTICO

A PPT decide o primeiro exame

≤5%: sem testes · >5–15%: ajustar PPT ou angioTC · >15–50%: prova funcional ou angioTC · >50–85%: prova funcional · >85%: cineangiocoronariografia (Figura 16).

✅ FAZER

AngioTC como exame inicial

Em PPT intermediária/intermediária-alta sem diagnóstico anatômico prévio IA; também quando testes funcionais são incertos/conflitantes IA.

🚫 EVITAR

Escore de cálcio para “descartar” DAC em sintomático

Não usar para afastar estenose significativa em suspeita de angina ou SCA IIIB — pode haver obstrução sem cálcio.

🚫 EVITAR

TE diagnóstico com ECG não interpretável

Infra ST ≥1 mm em repouso, BRE ou digital: não usar TE com intuito diagnóstico IIIC. Prefira imagem.

🔬 DIAGNÓSTICO

Imagem funcional em PPT moderada/alta

Eco de estresse IB; SPECT ou, preferencialmente, PET IB; RMC de perfusão IA.

🧠 MEMORIZAR

Alto risco por modalidade

Duke <−10 · SPECT ≥10% do VE · eco ≥3/16 segmentos · RMC ≥2 segmentos de perfusão ou ≥3 disfuncionais à dobutamina · TCE/triarterial proximal/DA proximal (Tabela 14).

💊 TRATAMENTO

LDL-C: dupla meta

Redução ≥50% do basal e LDL <50 mg/dL IA; <40 mg/dL se 2º evento em até 2 anos IIbB. Estatina alta intensidade → + ezetimiba → + iPCSK9.

💊 TRATAMENTO

DM2 + SCC

iSGLT2 IA e agonista GLP-1 IA para prevenção secundária; combinação IC; + pioglitazona sem IC IIaB.

🩸 ANTITROMBÓTICOS

Pós-ICP eletiva

Clopidogrel por pelo menos 6 meses IA; 3 meses se alto risco de sangramento IIaA. Clopidogrel é o P2Y12 de escolha na SCC.

🚫 EVITAR

Prasugrel/ticagrelor na terapia tripla

Não recomendados com AAS + anticoagulante IIIC (Tabela 15). Com ACO, prefira DOAC + clopidogrel.

⚠️ CONSIDERAR

Antianginoso individualizado

Sem hierarquia de 1ª/2ª linha: escolha por FE, PA, FC e mecanismo (Figura 17) IC; combinação de mecanismos é mais efetiva IC.

🚫 EVITAR

Betabloqueador na angina vasoespástica

Pode precipitar espasmo. Preferir bloqueador de canal de cálcio; nitrato de longa ação se persistir sintomático.

🔬 DIAGNÓSTICO

Anatomia ≠ isquemia

Estenose intermediária sem isquemia prévia documentada: avaliação funcional invasiva antes da ICP IA. FFR ≤0,80 (ou iFR <0,89 nos ensaios).

✅ FAZER

CRM para prognóstico

Multiarterial com DA proximal e SYNTAX >23; multiarterial com disfunção de VE; lesão de TCE IA (Tabela 35).

⚠️ CONSIDERAR

ICP para sintomas

Estenose significativa + angina típica limitante sob terapia otimizada IA. ICP não deve ser rotina para reduzir eventos na totalidade da SCC.

✅ FAZER

Imagem intravascular na ICP complexa

IVUS ou OCT para guiar ICP complexa IA; IVUS para avaliar estenose de TCE IIaB.

🧠 MEMORIZAR

Microcirculação

RFC <2,0 ou IMR >25 = função microcirculatória anormal. Medir resistência microcirculatória com sintomas persistentes e FFR preservada IIaC.

🚫 EVITAR

Fibrato, TRH e nitrato isolado

Fibrato para risco CV com TG >200 em estatina IIIA; TRH para redução de risco IIIC; nitrato de longa ação em monoterapia IIIC.

🧭Do sintoma à decisão terapêutica

Fluxograma-mestre que integra os capítulos 2 a 6 da diretriz. Cada caixa remete à figura/tabela de origem.

Síntese didática · Figuras 15, 16, 17 e 19 · Tabelas 14, 21, 27 e 35Raciocínio da Diretriz SBC 2025 na SCC

1 · Sintoma compatível?Dor/desconforto torácico ou equivalente (dispneia, dor no braço ao esforço). Excluir SCA/angina instável (Quadro 4) e causas não coronárias (Quadros 1, 5 e 6).
↓
2 · Avaliação clínicaAnamnese (típica/atípica/não anginosa), CCS, exame físico, comorbidades, ECG, laboratório (Tabela 3) e ecocardiograma transtorácico (FEVE, segmentar, diagnósticos alternativos) IB.
↓
3 · Qual a probabilidade pré-teste de DAC obstrutiva?Modelo com que o avaliador esteja familiarizado (Quadro 7) + fatores que aumentam a PPT: FR, TE alterado, ECG com onda Q, disfunção de VE, aterosclerose não coronária, escore de cálcio elevado (Figura 15).
↓
≤5%Sem novos testes
>5–15%Ajustar PPT ou angioTC
>15–50%Prova funcional ou angioTC
>50–85%Prova funcional
>85%Cineangiocoronariografia
↓
4 · DAC confirmada — qual o risco?Baixo <1%/ano · intermediário 1–3% · alto >3% (morte CV/IAM). Critérios de alto risco na Tabela 14.
↓
5a · Reduzir eventos (todos)Estilo de vida, reabilitação, vacinação, AAS/P2Y12, LDL <50 mg/dL e ≥50%, SRAA quando indicado, SGLT2i/GLP-1 no DM2, PA 120–129/70–79.
5b · Controlar sintomasNitrato de ação curta + antianginosos individualizados por FE, FC, PA e mecanismo (Figura 17). Reavaliar a cada 30 dias.
↓
6 · Angina limitante apesar do TMO, disfunção de VE, isquemia moderada/importante ou anatomia de alto risco?Cateterismo com intenção de revascularizar; lesão intermediária → FFR/iFR.
↓
PrognósticoTCE, multiarterial com DA proximal/SYNTAX >23, multiarterial com disfunção de VE → CRM IA · Heart Team (Figura 19)
SintomasEstenose significativa + angina típica limitante sob TMO → ICP IA
↓
7 · SeguimentoReavaliar FEVE 8–12 semanas após revascularização; ECG anual; teste de estresse e eco a cada 3–5 anos podem ser realizados; metas de LDL, PA, glicemia e adesão.

Versão didática construída a partir das Figuras 15, 16, 17 e 19 e do texto dos capítulos 2 a 6 e 20 da Diretriz SBC 2025. Não substitui a leitura das figuras originais.

🩻 ANATOMIA CORONÁRIA

  • AngioTC, cineangiocoronariografia, IVUS/OCT
  • Mostra onde e quanto há de placa/estenose
  • Estenose ≥50% (RMC/perfusão em geral detecta estenoses ≥50%); intermediária ≈40–70%
  • Luminograma não informa limitação de fluxo

⚡ SIGNIFICÂNCIA FUNCIONAL

  • Eco de estresse, SPECT/PET, RMC de estresse, FFR/iFR/QFR
  • Mostra se a lesão limita fluxo e causa isquemia
  • FFR ≤0,80 = isquemia significativa
  • Pode haver isquemia sem obstrução (INOCA) e estenose sem isquemia

Box didáticoAnatomia ≠ isquemia

Estenose anatômica(ex.: 60% à angiografia)
↓
Pode ou nãolimitar o fluxo coronário
↓
Sem isquemia prévia documentadaFFR/iFR/QFR invasivos antes da ICP IA
Isquemia documentada (testes não invasivos)Correlacionar território, sintomas e anatomia
↓
FFR ≤0,80Lesão funcionalmente significativa → revascularizar se indicado
FFR >0,80Adiar intervenção com segurança; TMO

Adaptado rigorosamente aos conceitos das seções 2.2.7 e 6.2 da Diretriz SBC 2025.

🛡️ TRATAR RISCO (reduzir eventos)

  • AAS 75–100 mg; clopidogrel se intolerância; DAPT/COMPASS em alto risco isquêmico
  • Estatina alta intensidade + ezetimiba + iPCSK9 (LDL <50)
  • iECA/BRA (disfunção de VE, IC, DM, HAS, DRC)
  • iSGLT2 e agonista GLP-1 (DM2)
  • Colchicina 0,5 mg (IIb) em alto risco
  • Reabilitação, cessação do tabagismo, vacinas
  • CRM em anatomias selecionadas

💊 TRATAR ANGINA (reduzir sintomas)

  • Nitrato de ação curta (alívio imediato) IB
  • Betabloqueador, BCC, trimetazidina, ranolazina IB
  • Ivabradina (FC ≥70, ritmo sinusal)
  • Nitrato de ação prolongada (adjuvante)
  • ICP para angina limitante sob TMO IA

Ranolazina, trimetazidina, ivabradina e BCC não demonstraram reduzir morte/IAM na SCC.

1Visão geral: conceito e espectro da SCC

A SCC substitui a ideia de “doença coronária estável” por um contínuo de risco, com fases subclínicas, agudizações e diferentes estratégias em cada momento.

📌 Resumo
  • Conceito surgido em 2019 (ESC): a doença coronariana é um contínuo, silenciosa por anos, com momentos de agudização.
  • Um evento agudo muda a curva de eventos futuros.
  • Muitos pacientes (especialmente mulheres) têm angina e isquemia sem obstrução coronária, embora geralmente com aterosclerose.
  • Angina é sintoma; isquemia é achado objetivo em exame funcional.

Cinco apresentações clínicas (Tabela 1)

Tabela 1 – Características de apresentação clínica da SCC
#Perfil
1Alta após internação por SCA ou após procedimento de revascularização coronariana.
2Disfunção sistólica do VE e DAC conhecida ou suspeita, ou cardiomiopatia estabelecida considerada de origem isquêmica.
3Sintomas de angina estável (ou equivalentes isquêmicos, como dispneia ou dor no braço ao esforço) tratados clinicamente, com ou sem teste de imagem positivo.
4Angina com evidência de vasoespasmo coronariano ou angina microvascular, com ou sem aterosclerose.
5Diagnóstico baseado exclusivamente em estudo de triagem (teste de estresse, angioTC) em que o médico conclui haver doença coronariana.
Gráfico da história natural da SCC: eventos cardíacos adversos maiores ao longo do tempo, da fase subclínica ao diagnóstico recente e de longa data, com trajetória de maior risco (fatores mal controlados) e de menor risco (prevenção adequada e revascularização).
Figura 1 – Ilustração esquemática da história natural das síndromes coronarianas crônicas
AVC: acidente vascular cerebral; ECA: enzima conversora de angiotensina; ECAM: eventos cardíacos adversos maiores; SCA: síndrome coronariana aguda.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.

Angina ≠ isquemia ≠ obstrução

Discussão baseada no texto da diretrizA angina pode decorrer de mecanismos além da obstrução epicárdica: disfunção endotelial, vasoespasmo, alterações microvasculares ou disfunções metabólicas — que podem coexistir. Em quase 400 mil angiografias eletivas, apenas 41% dos pacientes com isquemia funcional tinham DAC obstrutiva. Há angina sem isquemia detectável e isquemia silenciosa é comum.
💡 Pérola prática — o alerta do DISCHARGE

A diretriz pede cautela com estimativas populacionais europeias (homens >70 anos com “angina típica” com <30% de chance de obstrução). No DISCHARGE, a anamnese foi feita após a randomização: 38% tinham dor não anginosa e 36% angina atípica. História clínica precisa continua sendo decisiva — grandes centros veem muito mais DAC obstrutiva em homens com angina típica.

❓ Pergunta-chaveUm paciente com angina típica e angiografia sem obstruções tem “dor não coronária”?Ver resposta

Resposta curta: não necessariamente.

Explicação: a diretriz enfatiza que mesmo na angina típica muitos não têm obstruções; mecanismos microvasculares, vasoespásticos e endoteliais podem causar isquemia (ANOCA/INOCA), frequentemente com aterosclerose não obstrutiva.

Na prática: considere avaliação da microcirculação (RFC, IMR) e teste de acetilcolina — medir resistência microcirculatória em sintomas persistentes com FFR preservada IIaC.

❓ Pergunta-chaveQual a diferença conceitual entre angina e isquemia?Ver resposta

Resposta curta: angina é sintoma; isquemia é achado objetivo em exames funcionais.

Pode haver angina sem isquemia detectável (considerar outras causas de dor/dispneia) e isquemia silenciosa. Equivalentes isquêmicos isolados (dispneia, fadiga) têm valor diagnóstico limitado — a diretriz sugere chamá-los de “sintomas relacionados à isquemia miocárdica”.

🩺 Na práticaPaciente de 62 anos, 8 meses após IAM com ICP, assintomático: ele é um paciente com SCC (perfil 1 da Tabela 1) — está no período de maior risco da curva e precisa de prevenção secundária plena, não de “alta do cardiologista”.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 1 e 2.1–2.1.1; Figura Central; Figura 1; Tabela 1.

2Avaliação clínica

História clínica detalhada, exame físico, comorbidades, fatores de risco e impacto na qualidade de vida guiam a estratificação e a necessidade de exames.

📌 Resumo
  • Angina é o sintoma inicial em ~50% dos pacientes com SCC e dobra a incidência de eventos e custos.
  • Típica = 3 critérios; atípica = 2; não anginosa = 0–1.
  • Gravidade pela CCS (I–IV); reconhecer os subtipos de angina instável.
  • Laboratório inicial: perfil lipídico IA, hemograma IB, glicemia + HbA1c IB, creatinina/TFG IA, tireoide IC.

Como reconhecer angina?

Quatro ilustrações do tórax mostrando as regiões mais comuns de angina e irradiações: precórdio e braço esquerdo, ambos os braços, mandíbula/região retroesternal e dorso.
Figura 2 – Distribuição das regiões do tórax mais comuns para queixa de angina e irradiações
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.

Quadro 2Classificação da dor torácica com base nos sintomas

Critério 1Desconforto retroesternal com qualidade e duração características
Critério 2Desencadeado por esforço físico ou estresse emocional
Critério 3Alívio com repouso e/ou nitrato sublingual em até 10 minutos
↓
Angina típica3 de 3 critérios
Angina atípica2 de 3 critérios
Dor não anginosa1 ou nenhum critério

Terminologia exatamente como no Quadro 2 da diretriz. Classificação subjetiva, mas útil para estimar a probabilidade de DAC.

EXEMPLO · TÍPICA

Aperto retroesternal ao subir ladeira

Dura 3–5 min, cede ao parar. Três critérios → angina típica.

EXEMPLO · ATÍPICA

Queimação precordial em repouso

Característica e aliviada com nitrato, mas sem relação com esforço → 2 critérios.

EXEMPLO · NÃO ANGINOSA

Pontada que piora à inspiração

Dor relacionada à respiração/posição raramente é isquêmica → 0–1 critério.

EQUIVALENTE

Dispneia isolada aos esforços

>50 anos: PPT de DAC obstrutiva 20–32% (homens) e 9–14% (mulheres). Interpretar com cautela.

Quadro 3 – Gravidade da angina (Canadian Cardiovascular Society)
ClasseDescrição
IAngina apenas com esforço físico intenso ou prolongado
IILimitação leve com esforço moderado (subir escadas, andar rápido)
IIILimitação significativa com esforço leve (andar um quarteirão)
IVAngina em repouso ou com qualquer nível de atividade física
Quadro 4 – Subtipos clínicos de angina instável (alto risco de evolução para infarto)
SubtipoDescrição
Início recenteMenos de 2 meses, classe III ou IV da CCS
Em crescendoAumento de frequência, intensidade ou menor limiar de esforço
Em repousoEpisódios com duração ≥20 minutos, em repouso
❓ Pergunta-chaveDor desencadeada por esforço e aliviada em repouso em poucos minutos deve ser interpretada como quê?Ver resposta

Resposta curta: depende do terceiro critério — se o desconforto também for retroesternal com qualidade e duração características, é angina típica; se não, angina atípica (2 critérios).

Implicação prática: a tipicidade entra na estimativa da probabilidade pré-teste, que define o exame inicial (Figura 16). A angina típica responde por apenas 10–15% dos casos com suspeita de DAC.

Discussão baseada no texto da diretriz (Quadro 2).

❓ Pergunta-chaveAngina de início há 5 semanas, CCS III: é SCC?Ver resposta

Resposta curta: não — é um subtipo de angina instável (início recente, <2 meses, CCS III–IV), condição com alto risco de evolução para infarto (Quadro 4).

Implicação: o manejo sai do fluxo ambulatorial da SCC.

Roteiro de consulta da dor torácica

Tabela 2 – Aspectos clínicos da dor torácica a serem avaliados
ParâmetroAspectos a observarPergunta ao paciente
TipoAperto, pressão, queimação, peso ou desconforto mal definido“Como é a sensação?” (nem sempre é “dor”)
LocalizaçãoRetroesternal ou precordial“Mostre com a mão onde sente.”
IrradiaçãoMais comum para braço esquerdo; ambos os braços, mandíbula, pescoço, dorso“A sensação vai para algum lugar?”
Duração2 a 10 minutos; muito fugaz ou por horas é menos sugestiva“Quanto tempo dura?”
DesencadeantesEsforço, estresse emocional, frio, refeições copiosas“O que provoca?”
AlívioCessação do esforço, repouso, nitrato sublingual“O que faz passar? Em quanto tempo?”
AssociadosDispneia, sudorese, náuseas, sensação de morte iminente, fadiga, síncope“Sente mais alguma coisa junto?”
COMPLETAR A HISTÓRIA

Fatores de risco e comorbidades

HAS, tabagismo, dislipidemia, diabetes, obesidade, sedentarismo, estresse psicossocial, história familiar de DAC precoce, DRC, AVC, doença vascular periférica.

COMPLETAR A HISTÓRIA

DAC conhecida

IAM prévio, ICP/CRM, disfunção de VE; sintomas pós-prandiais ou nas primeiras horas da manhã são comuns na angina.

Exame físico

Discussão baseada no texto da diretrizCostuma ser normal, mas revela indícios de risco: halo corneano (<40 anos sugere dislipidemia), fundo de olho (HAS/DM), xantomas (hipercolesterolemia familiar), sinal de Frank (prega diagonal do lóbulo), sopros carotídeos/femorais (doença vascular aumenta a probabilidade de DAC). Ajuda no diagnóstico diferencial: cardiomiopatia hipertrófica e valvopatias como causa de angina não coronariana.

⚠️ Nem toda dor torácica é coronária

Ilustração do tórax e abdome superior com as causas de dor por localização: isquemia miocárdica, pericardite, dissecção aórtica, embolia pulmonar, espasmo esofágico, colecistite, úlcera, pancreatite, pneumonia, entre outras.
Figura 3 – Localizações mais comuns de desconforto/dor torácica e suas causas
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
CARDIOVASCULARES

Cardíacas / vasculares

Angina estável/instável, infarto, pericardite, miocardite; dissecção de aorta, tromboembolismo pulmonar.

PULMONARES

Pulmonares

Pneumotórax, pneumonia, pleurite, hipertensão pulmonar, embolia pulmonar.

GASTROINTESTINAIS

Digestivas

DRGE, úlcera péptica, esofagite, espasmo esofágico, colecistite, pancreatite.

MUSCULOESQUELÉTICAS

Parede torácica

Costocondrite, distensão/contratura muscular, fraturas costais, lesões cervicais.

PSICOGÊNICAS / OUTRAS

Outras

Ansiedade, pânico, herpes-zóster (fase pré-vesicular), anemia grave, síndrome de hiperviscosidade.

Quadro 5 – Condições cardíacas que podem precipitar isquemia (sem lesão crítica)
CondiçãoMecanismo provável
Estenose aórticaAumento da pós-carga e redução da perfusão subendocárdica
Insuficiência aórtica graveRedução da pressão diastólica e do fluxo coronariano
Cardiomiopatia hipertróficaHipertrofia com compressão intramiocárdica
TaquiarritmiasAumento do consumo de O2
Hipertensão arterial severaSobrecarga do VE e aumento da demanda
Insuficiência cardíacaRedução do débito e da reserva coronariana
⚠️ Atenção — estados de alto consumo

Febre, hipertireoidismo, cocaína (causa frequente de SCA em jovens por vasoconstrição + descarga adrenérgica), taquiarritmias e estresse emocional podem provocar angina, especialmente com lesões não críticas (Figura 3 relaciona localização da dor e causas: isquemia miocárdica, pericardite, dissecção aórtica, lesão mediastinal, embolia pulmonar, espasmo esofágico, colecistite, úlcera, pancreatite, pneumonia, pleurisia, infarto esplênico, abscesso subdiafragmático, causas cervicais e da caixa torácica).

❓ Pergunta-chaveHipertenso grave com angina e coronárias sem lesão crítica: qual mecanismo a diretriz aponta?Ver resposta

Resposta curta: aumento da tensão parietal do VE com isquemia subendocárdica.

Mecanismo semelhante ocorre na estenose aórtica e na cardiomiopatia hipertrófica (hipertrofia e redução da reserva coronariana). O ecocardiograma é a ferramenta para identificar essas causas coexistentes IB.

Avaliação laboratorial

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 3/8

Perfil lipídico, incluindo LDL-C.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 3/8

Hemograma completo, incluindo hemoglobina.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 3/8

Triagem de diabetes com glicemia de jejum e HbA1c, com adição do teste de tolerância se inconclusivos.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 3/8

Creatinina e estimativa da função renal.

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 3/8

Avaliação da função tireoidiana.

POR QUÊ?

Anemia, tireoide, DM, rim

Anemia associa-se a ECAM (subestudo TIME). Hipotireoidismo: causa secundária de dislipidemia — iniciar estatina após normalizar hormônios (risco de miosite). Glicemia próxima de 126 mg/dL já confere alto risco; meta de HbA1c <7% para a maioria. Creatinina isolada é insuficiente: estimar TFG (<60 mL/min/1,73 m² aumenta risco CV).

SELECIONADOS

Exames adicionais

ApoB e Lp(a) em risco muito alto ou DAC precoce familiar; BNP/NT-proBNP se suspeita de disfunção de VE (dispneia); troponina de alta sensibilidade como marcador prognóstico em casos selecionados; microalbuminúria em hipertensos; ácido úrico, PCR-us.

❓ Pergunta-chaveTroponina ultrassensível discretamente elevada em paciente estável: o que significa?Ver resposta

Resposta curta: marcador de risco, não diagnóstico de infarto.

Ensaios de alta sensibilidade detectam níveis subclínicos em DRC, sepse, embolia pulmonar e quimioterapia. Na DAC estável, troponina persistentemente elevada associa-se a maior risco de morte CV/IAM; concentrações >10 ng/L identificam risco ~50% maior, mesmo após ajuste para gravidade da DAC (seção 3.1.1). O escore ABC-CHD combina troponina, NT-proBNP e LDL-C.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.1.2, 2.1.3, 2.2.4 e 3.1.1; Quadros 1–6; Tabelas 2, 3 e 8; Figuras 2 e 3.

3Teste ergométrico e ecocardiografia

TE: acessível e prognóstico, mas com papel diagnóstico restrito. Eco transtorácico: modalidade de primeira linha. Eco de estresse: diagnóstico, prognóstico e viabilidade.

📌 Resumo
  • TE para tolerância ao esforço, sintomas, arritmias, PA e risco IC; diagnóstico só se imagem indisponível IIbB; nunca diagnóstico com ECG não interpretável IIIC.
  • Capacidade funcional (METs) = variável prognóstica de maior impacto.
  • Eco TT: função global/segmentar e diagnósticos alternativos IB; strain global IIaB; repetir sem mudança clínica IIIC.
  • Eco de estresse em sintomático com PPT intermediária/alta IB; acurácia 85–90%, VPN 93–100%.

Teste ergométrico

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 4

O TE é recomendado em pacientes selecionados (quando houver perspectiva de impactar estratégia diagnóstica ou manejo) para avaliação de tolerância ao exercício, sintomas, arritmias, resposta da PA e estratificação de risco.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 4

Pode ser considerado como alternativa para confirmar e descartar DAC quando métodos de imagem não invasivos não estão disponíveis.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 4

Pode ser considerado para refinar a estratificação de risco e tratamento.

Classe IIINível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 4

Não é recomendado com intuito diagnóstico em pacientes com depressão do ST ≥1 mm em repouso, bloqueio de ramo esquerdo ou em uso de digitálicos.

O que analisar no TE (seções 2.2.1 e 3.1.2)
VariávelAchadoSignificado
STDepressão ≥1 mm a 0,80 s do ponto J, horizontal ou descendenteAlteração mais preditiva de isquemia; magnitude, precocidade, nº de derivações e tempo de normalização indicam gravidade
ST na recuperaçãoDepressão assintomática na recuperação3–4× mais eventos (MSC e morte coronária); >5 min persistente = risco elevado
Supra de STEm derivações sem área inativaAlteração mais grave: isquemia transmural (raro, 0,1%); risco de TV/FV; localiza a artéria
PASCurva deprimida/queda progressiva; elevação paradoxal no 1º min da recuperaçãoDAC grave com comprometimento da função ventricular
Capacidade funcionalHomens com FR: <5 METs → risco de morte em 6 anos 4–4,5× maior; >10 METs → excelente prognóstico. Mulheres: <5 METs = 3× a mortalidade das que atingem >8; 5–8 METs = 2×Variável prognóstica de maior impacto já estabelecida
Protocolo de BruceSupera o 3º estágio → mortalidade anual <1%; não alcança 5 METs → ~5%/anoPrognóstico
OutrosResposta cronotrópica inadequada, arritmias ventriculares complexas, sintomas em baixa cargaAlto risco

Seção 3.1.2Escore de Duke

Tempo de exercício (min) − 5 × depressão do ST (mm) − 4 × índice anginosoÍndice anginoso (como no texto da diretriz): 1 = sem angina · 2 = com angina · 3 = angina limitante
≥ +5Baixo risco (mortalidade anual ≤1%)
−10 a +4Risco intermediário (1–3%)
< −10Alto risco (>3%)

Observação: a formulação original do escore (Mark et al., ref. 48 da diretriz) pontua o índice anginoso como 0 (sem angina), 1 (angina não limitante) e 2 (angina limitante). As faixas de classificação acima são as da diretriz.

💡 Pérola prática

Menos de 50% dos TE isquêmicos têm angina clínica. ECG “não interpretável” para o TE: BRE, marcapasso, pré-excitação, infra de ST ≥1 mm em repouso e digital → realizar método de imagem.

⚠️ Limitação

O papel diagnóstico do TE isolado é secundário (IIb) — sua força atual está no prognóstico, na capacidade funcional e na prescrição de exercício/reabilitação.

❓ Pergunta-chavePaciente com BRE e dor torácica típica: posso pedir TE para diagnóstico?Ver resposta

Não. BRE torna o ECG não interpretável para isquemia; TE com intuito diagnóstico é IIIC. Escolha método de imagem (eco de estresse, cintilografia com estresse farmacológico, RMC ou angioTC conforme PPT).

Ecocardiograma transtorácico

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 5

Avaliar função global e segmentar do VE, volumes, função diastólica, função do VD, estimar a PSAP, refinar a estratificação de risco e guiar o tratamento.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 5

Avaliar diagnósticos diferenciais ou coexistentes de dor precordial ou dispneia (doença valvar, hipertrofia, cardiomiopatia, derrame pericárdico).

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 5

Avaliar strain longitudinal global (função sistólica global e regional) se FEVE normal e alta probabilidade clínica de DAC — interpretado de forma comparativa, mesmo fabricante/versão de software e condições de carga semelhantes.

Classe IIINível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 5

Reavaliação periódica de pacientes estáveis sem mudança clínica.

Discussão baseada no texto da diretrizFEVE pelo Simpson biplano ou, se disponível, 3D (mais acurado). Função segmentar pelo WMSI. Strain longitudinal global <16% = disfunção subclínica; redução regional do strain (mapa polar) pode sugerir isquemia ou fibrose de forma mais acurada que o WMSI.

Ecocardiograma sob estresse

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 6

Investigação de isquemia e estimativa do risco de eventos em indivíduo sintomático com probabilidade pré-teste intermediária ou alta.

Seção 2.2.2.2Cascata isquêmica (sequência de manifestações)

1Alteração da perfusão
2Alteração da contratilidade segmentar
3Alterações no ECG
4Angina

A ordem explica por que métodos de imagem detectam isquemia antes do ECG e do sintoma.

ESTRESSORES

Três modalidades

Esforço (esteira/bicicleta), vasodilatador (dipiridamol ± atropina) ou adrenérgico (dobutamina ± atropina). Todos com acurácia 85–90% em PPT intermediária/alta; exame normal: VPN 93–100% para eventos.

CONTRASTE

Ecocardiografia com contraste miocárdico

Usar em estudos tecnicamente difíceis: melhora bordas endocárdicas, volumes/FE, detecta trombos e permite avaliar perfusão miocárdica (incremento diagnóstico e prognóstico).

Quatro imagens apicais de ecocardiograma com medidas de volume do VE sem contraste (linha superior) e com contraste ultrassonográfico (linha inferior).
Figura 4 – Diferenças nos volumes diastólico final e sistólico final observadas no mesmo paciente sem contraste (parte superior) e com UEAs e imagens de baixo IM (parte inferior)
Linha superior, da esquerda para a direita: quantificação do VE pré-contraste do volume diastólico final (306 mL) e volume sistólico final (246 mL) para estimativa da FEVE. Linha inferior, da esquerda para a direita: quantificação do VE pós-contraste do volume diastólico final (391 mL) e do volume sistólico final (308 mL) para estimativa da FEVE. Um aumento acentuado no tamanho do volume é observado após o contraste. FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; VE: ventrículo esquerdo; IM: infarto do miocárdio; UEA: unidade de avaliação de esforço.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Duas imagens apicais de três câmaras: em A, sem contraste, parede inferolateral e ápice não visibilizados; em B, com contraste, segmentos delineados e trombo apical.
Figura 5 – Imagem obtida no plano apical de três câmaras, demonstrando, em A, impossibilidade de visibilização da parede lateral inferior e ápice
Em B, observa-se além do delineamento adequado dos segmentos não visibilizados previamente, o aparecimento de um trombo apical.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Ecocardiograma de perfusão com microbolhas em quatro câmaras: perfusão normal em repouso, defeito apical com adenosina, defeito extenso com dobutamina, curvas de reposição e cineangiocoronariografia correspondente.
Figura 6 – Plano apical de quatro câmaras de dois exames de estresse farmacológico no mesmo paciente, associado a contrastes por microbolhas a fim de se avaliar a motilidade e perfusão miocárdica
Em A, nota-se a perfusão normal em repouso; em B, um defeito de perfusão transmural em um único segmento apical durante o estresse pela adenosina; e, em C, um extenso defeito de perfusão apical transmural em ao menos dois segmentos, associado a alterações da motilidade no mesmo território (acinesia). Em D, por meio de um software específico, são geradas as curvas de intensidade acústica/tempo, demonstrando uma reserva de fluxo coronário muito deprimida em ambas as formas de estresse. Em E, há angiografia coronária em oblíqua anterior esquerda (OAE) demonstrando obstrução grave em artéria descendente anterior e circunflexa.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
💡 Pérola prática (prognóstico — seção 3.1.3)

Alterações induzidas em ≥3 dos 16 segmentos = risco anual >3%. Eco de estresse normal = risco <1%/ano, semelhante à cintilografia normal. Útil pós-IAM para viabilidade e extensão de necrose.

❓ Pergunta-chavePor que o eco de estresse detecta isquemia antes do ECG?Ver resposta

Porque, na cascata isquêmica, a perfusão e depois a contratilidade se alteram antes das mudanças eletrocardiográficas e da angina. Métodos que avaliam contratilidade (eco) ou perfusão (contraste, SPECT, PET, RMC) são mais sensíveis que o ECG de esforço.

❓ Pergunta-chaveDevo repetir o ecocardiograma anualmente em paciente estável?Ver resposta

Não se não houver mudança clínica: IIIC. No seguimento pós-revascularização/SCA, a diretriz sugere reavaliar a FEVE 8–12 semanas após revascularização; eco TT e teste de estresse podem ser realizados a cada 3–5 anos.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.1, 2.2.2, 3.1.2 e 3.1.3; Tabelas 4, 5 e 6; Figuras 4–6.

4Medicina nuclear: SPECT, PET e CZT

Imagem fisiológica que avalia todo o espectro da doença isquêmica — da DAC epicárdica obstrutiva à disfunção microvascular.

📌 Resumo
  • SPECT com estresse ou, preferencialmente, PET em PPT moderada/alta para diagnosticar/quantificar isquemia e cicatriz, estimar risco e (PET) quantificar fluxo IB.
  • Cintilografia normal: ~99% de sobrevida livre de eventos; eventos crescem exponencialmente com a carga isquêmica.
  • Isquemia reversível ≥10% do VE = alto risco (>3%/ano).
  • PET é padrão-ouro de perfusão, mas indisponível no país (radiofármacos); SPECT CZT permite fluxo absoluto e reserva com tecnécio.
Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 7

Em SCC suspeita com PPT de DAC obstrutiva moderada ou alta, a SPECT com estresse ou, preferencialmente, a perfusão por PET é recomendada para: diagnosticar e quantificar isquemia e/ou cicatriz; estimar o risco de eventos; quantificar o fluxo miocárdico (PET).

Mosaico das aplicações da cardiologia nuclear: perfusão, função ventricular, metabolismo, inervação, microcirculação e sincronização.
Figura 7 – Aplicações da cardiologia nuclear na doença isquêmica cardíaca
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Cenários favoráveis às técnicas nucleares: obesidade, pobre janela acústica, disfunção renal, marcapasso/CDI, arritmias e doença pulmonar.
Figura 8 – Possibilidades de aplicação das técnicas nucleares
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Gated-SPECT com extensa isquemia induzida por estresse em parede anterior, septo e ápice, com mapas polares de estresse, repouso e reversibilidade e extensão do defeito de 45% no estresse e 0% no repouso.
Figura 9 – NA GATED-SPECT: isquemia estresse induzida de grande extensão
Nota-se extensa área de hipocaptação envolvendo as paredes anterior, região septal, ápice, estendendo-se, ainda, à porção distal das paredes inferior e lateral, evidenciada em coloração azul e delimitada no mapa polar (MP) de estresse por linha branca (imagem superior à esquerda). O MP representativo da perfusão em repouso evidencia distribuição homogênea do radiofármaco, traduzindo perfusão normal. A representação gráfica dos escores de estresse (setas pretas), evidencia a graduação numérica da intensidade da hipocaptação e o número de segmentos acometidos (canto inferior direito), com os somatórios SSS = 25, SRS = 0 e SDS – 25 (canto superior direito), além do porcentual de miocárdio em risco estimado em 45% do ventrículo esquerdo (carga isquêmica). A cinecoronariografia evidenciou lesão proximal suboclusiva de artéria descendente anterior. SDS: somatório da diferença dos escores (summed difference score); SRS: somatório do escore de repouso (summed rest score); SSS: somatório do escore de estresse (summed stress score). Fonte: Arquivo pessoal.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Discussão baseada no texto da diretrizSPECT com sestamibi/tetrofosmina-99mTc (isquemia) e, em casos específicos, tálio-201 (viabilidade). Duas etapas (repouso e estresse). Estresse físico é a escolha se o paciente atinge ≥5 METs (informações diagnósticas e prognósticas adicionais); farmacológico para limitação física, contraindicação ao TE, BRE ou dispositivos. Quantifica o déficit em % do VE (SSS, SRS, SDS), volumes e FE em repouso/estresse. Desvantagem: radiação (reduzida com CZT e protocolos individualizados).

Quantidade de isquemia × decisão clínica

Gráficos de barras de eventos em 3 anos por porcentagem de isquemia (<5%, 5–10%, >10%) e fração de ejeção, separados para mulheres e homens.
Figura 10 – Taxa ajustada de morte cardíaca ou infarto do miocárdio em pacientes do sexo feminino e masculino encaminhados à cintilografia de perfusão miocárdica em função do porcentual de isquemia e função sistólica do ventrículo esquerdo (adaptado de Sharir et al
87). FE: fração de ejeção; FEM.: feminino; MASC.: masculino.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Gráfico de mortalidade cardíaca por faixa de miocárdio isquêmico com tratamento clínico versus revascularização, e curva de hazard ratio cruzando por volta de 10–12% de isquemia.
Figura 11 – Taxa de morte cardíaca estratificada pela quantificação da isquemia (SPECT) e modalidade de tratamento (adaptado de Hachamovitch et al
90). Revasc.: revascularização; SPECT: tomografia computadorizada por emissão de fóton único; TMO: tratamento medicamentoso otimizado.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
⚠️ Atenção — ISCHEMIA

Observacionais: benefício quando a carga isquêmica ultrapassa 10–12% do VE. O ISCHEMIA (randomizado) não mostrou redução de eventos com revascularização vs TMO na isquemia pelo menos moderada (seguimento inicial 3,2 anos; ~25% incluídos por TE de alto risco sem imagem). Subestudos: possível benefício da estratégia invasiva com IC e FEVE 35–45%. ISCHEMIA-Extended (mediana 5,7 anos): sem diferença em mortalidade total; menor mortalidade CV com estratégia invasiva em 7 anos, com maior mortalidade não CV. O ISCHEMIA não questionou a estratificação de risco.

📚 Evidência que sustenta esta recomendação — ISCHEMIA
Estudo
ISCHEMIA
População
SCC com isquemia pelo menos moderada em provas funcionais não invasivas
Intervenção
Estratégia invasiva inicial (cateterismo + revascularização)
Comparador
TMO, com cateterismo se falha clínica
Principal resultado
Sem redução do desfecho composto em 3,2 anos; extensão com menor mortalidade CV em 7 anos, maior não CV, sem diferença em mortalidade total
Como influencia a recomendação
Isquemia moderada não obriga cateterismo: estratégia conservadora é aceitável se não houver FEVE ≤35%, TCE ≥50% à angioTC ou angina limitante (seção 2.2.7).
❓ Pergunta-chaveCintilografia com isquemia de 15% do VE e angina controlada: devo cateterizar?Ver resposta

Resposta curta: pode ir ao cateterismo com intenção de revascularizar ou seguir inicialmente com tratamento clínico.

A diretriz permite estratégia conservadora na isquemia moderada/importante desde que não haja FEVE ≤35%, lesão de TCE ≥50% à angioTC ou angina limitante — mantendo a possibilidade de cateterismo conforme evolução. Isquemia ≥10% define alto risco (Tabela 14).

Discussão baseada no texto da diretriz (seção 2.2.7).

💡 Marcadores de alto risco na cintilografia (seção 3.1.4)

Defeito reversível ≥10% da massa do VE, FE reduzida, volumes aumentados, captação pulmonar aumentada e dilatação transitória do VE ao estresse.

🟠 PET e SPECT CZT

Painel de imagens de PET/TC: perfusão relativa, FEVE em repouso e estresse, reserva de fluxo, escore de cálcio, angioTC coronária e imagens de fusão.
Figura 13 – Imagens de perfusão por PET/TC: informações abrangentes
AngioTC: angiotomografia; TC: tomografia computadorizada; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; rep.: repouso; PET: tomografia por emissão de pósitrons. Adaptado Cheng et al.21
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Quadro-resumo da PET na diretriz
StatusPadrão-ouro não invasivo de perfusão; indisponível no país pela falta dos radiofármacos (82Rb, 13N-amônia, 15O-água).
DiferencialQuantifica de forma absoluta o fluxo sanguíneo miocárdico (FSM) em estresse e repouso e a reserva de fluxo coronariana (RFC).
MicrocirculaçãoAvalia desde DAC multiarterial até disfunção microvascular difusa; RFC anormal associa-se a eventos mesmo sem estenoses (sobretudo diabéticos); medidas seriadas podem mostrar resposta ao tratamento.
Viabilidade18F-FDG-PET/CT = padrão-ouro de metabolismo glicolítico; SPECT com tálio-201 se PET indisponível.
SPECT CZTAquisições dinâmicas com tecnécio-99m: FSM absoluto e RFC com menor custo e ampla disponibilidade; boa correlação com PET, mas estudos pequenos e unicêntricos.
Diagrama de modalidades diagnósticas para DAC obstrutiva, não obstrutiva ou ambas: teste ergométrico, angioTC, cineangiocoronariografia, SPECT, PET/SPECT CZT, eco de estresse, RMC, RMC com espectroscopia e RFC invasiva.
Figura 12 – Modalidades para avaliação de doença arterial coronariana obstrutiva e não obstrutiva
AngioTC: angiotomografia; CZT: cádmio, zinco e telúrio; DAC: doença arterial coronariana; PET: tomografia por emissão de pósitron; RFC: reserva de fluxo coronariana; RMC: ressonância magnética cardíaca; SPECT: tomografia computadorizada por emissão de fóton único. Adaptado de Koilpillai et al.100
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
❓ Pergunta-chaveQual o diferencial da PET em relação à SPECT convencional?Ver resposta

Quantificação absoluta do fluxo miocárdico e da reserva de fluxo — o que permite detectar doença multiarterial balanceada e disfunção microvascular, além de perfusão relativa. Por isso a Tabela 7 cita a PET como preferencial IB, embora ainda indisponível no Brasil.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.3, 2.2.3.1–2.2.3.3 e 3.1.4; Tabela 7; Figuras 7–13.

5🩻 Escore de cálcio coronariano e angiotomografia

A tomografia avalia coronárias de duas formas: cálcio (sem contraste) e luminografia com contraste (placa, estenose, composição).

📌 Resumo
  • Escore de cálcio: reestratificação de assintomáticos de risco intermediário IA; não para afastar estenose em sintomáticos IIIB nem em DAC obstrutiva conhecida IIIC.
  • AngioTC: exame inicial em PPT intermediária/intermediária-alta sem diagnóstico anatômico prévio IA.
  • Alto VPN; VPP crescente, maior com FFR-TC.
  • Limitações: DRC/alergia a contraste, cálcio extenso.

Escore de cálcio: o que mede e o que não mede

✅ Mede

  • Presença e carga de cálcio coronário (marcador de aterosclerose)
  • Modifica muito o risco de evento isquêmico (mais específico que placas carotídeas)
  • Exame simples, sem contraste, <10 min
≠

❌ Não mede

  • Grau de estenose luminal
  • Placas não calcificadas
  • Isquemia
  • “Zero” não exclui obstrução em sintomático
Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 9

Reestratificação de risco em assintomáticos com escore de risco clínico intermediário.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 9

Reestratificação em assintomáticos com DM ou síndrome metabólica e risco clínico intermediário; em assintomáticos de risco intermediário para orientar prevenção primária medicamentosa; em portadores de hipercolesterolemia familiar heterozigótica.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 9

Reestratificação em assintomáticos de risco clínico baixo com história familiar de DAC precoce; triagem para pesquisa de isquemia em assintomáticos com DM; melhor estratificação em pacientes sem DAC conhecida com testes de isquemia negativos.

Classe IIINível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 9

Para afastar estenose coronária significativa em sintomáticos com suspeita de angina estável ou síndrome coronária aguda.

Classe IIINível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 9

Uso em pacientes com DAC obstrutiva conhecida.

Na extração do PDF, os agrupamentos das linhas da Tabela 9 sob “I B” e “IIa B” foram reconstruídos pela disposição do texto; confira a tabela original.

❓ Pergunta-chaveUm escore de cálcio zero exclui DAC em qualquer paciente?Ver resposta

Não. Estudos mostram obstruções significativas mesmo sem calcificação; o critério deve ser usado com cautela, especialmente em risco moderado-alto. Por isso é IIIB para afastar estenose em sintomáticos.

Por outro lado, no PROMISE, 84% dos eventos adversos maiores ocorreram em pacientes com escore >0 — alguns autores sugerem o escore antes de outros exames em sintomáticos de baixo risco.

Angiotomografia coronariana (angioTC)

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 11

PPT intermediária / intermediária-alta: como exame inicial para diagnóstico ou estratificação de risco de doença obstrutiva em pacientes sem diagnóstico anatômico prévio.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 11

PPT intermediária / intermediária-alta: diagnóstico em pacientes com testes funcionais incertos/conflitantes, como alternativa ao estudo invasivo.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 10

Baixo risco pré-teste: diagnóstico com testes funcionais incertos/conflitantes, como alternativa ao estudo invasivo.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 10

Baixo risco pré-teste: como primeira opção diagnóstica na dor torácica.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 10

Baixo risco pré-teste: estimativa da carga aterosclerótica sem diagnóstico prévio de DAC.

AVALIA

Luz, parede e placa

Estenose, carga e composição da placa; placas de alto risco (baixo realce, remodelamento positivo, “anel de napkin”); estenoses proximais.

FFR-TC

Anatomia + função

Reserva fracionada de fluxo derivada da TC numa única aquisição; aumenta o VPP. Limitações: disponibilidade e custo. SYNTAX III Revolution: TC com FFR ajuda a escolher ICP vs CRM.

LIMITAÇÕES

Quem não é bom candidato

DRC ou alergia a contraste (restrição); calcificação extensa dificulta a visualização do lúmen (ex.: DRC). Qualidade depende do preparo (FC, ritmo) — detalhes técnicos na diretriz de TC/RM da SBC.

🩻 Quando pensar primeiro em anatomia?
  • PPT intermediária ou intermediária-alta, sem anatomia prévia conhecida (I-A).
  • Testes funcionais conflitantes ou inconclusivos (I-A).
  • PPT baixa (>5–15%) em que se deseja ajustar a probabilidade (Figura 16).
  • Quando excluir lesão de TCE ≥50% muda a conduta (estratégia conservadora do ISCHEMIA).

Interpretação prática baseada nas Tabelas 10–11 e Figura 16.

❓ Pergunta-chaveQuando a angioTC é mais útil?Ver resposta

Nos grupos de probabilidade intermediária — é ali que a tomografia alcança seus melhores resultados. Modelos mais recentes de PPT são mais fiéis que os antigos (que superestimam a chance de estenose), e alguns autores recomendam calcular a PPT antes de solicitar a angioTC.

❓ Pergunta-chavePaciente com alta carga de cálcio ainda pode ser adequadamente avaliado pela angioTC?Ver resposta

Com limitação. A diretriz cita o alto grau de calcificação coronária (ex.: DRC) como fator que dificulta a visualização do lúmen. Nesses casos, um teste funcional pode ser mais informativo.

Discussão baseada no texto da diretriz (seções 2.2.5 e 16.1).

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.5, 2.2.5.1, 2.2.5.2 e 3.1.6; Tabelas 9, 10 e 11.

6Ressonância magnética cardiovascular e viabilidade

Um exame, múltiplos parâmetros: isquemia, fibrose/necrose, viabilidade e função biventricular (padrão-ouro de função global e segmentar).

📌 Resumo
  • Perfusão sob estresse vasodilatador (dipiridamol/adenosina) IA; contratilidade com dobutamina IB.
  • Perfusão: mais sensível; dobutamina: mais específica.
  • RMC de estresse negativa: <1% eventos/ano; prognóstico não inferior à FFR (3,7% vs 3,6%).
  • Viabilidade pelo realce tardio: transmuralidade 25–50% = zona intermediária → reserva contrátil/PET.
  • Viabilidade não deve ser pré-requisito isolado para decidir revascularização (STICH, REVIVED).

Isquemia pela RMC

Tabela 12 – Pesquisa de DAC pela RMC: isquemia miocárdica
Indicação / cenárioClasseNível
Perfusão sob estresse farmacológico com dipiridamol/adenosinaIA
Contratilidade sob estresse com dobutaminaIB
Angina estável/equivalente com PPT intermediária de DACIB
Identificar e quantificar isquemia em DAC conhecida (exceto anatomia de alto risco*)IB
DAC não obstrutiva conhecida e/ou suspeita de INOCAIIaC

*Anatomia de alto risco: estenose >50% em TCE e triarteriais com acometimento proximal.

Discussão baseada no texto da diretrizCom vasodilatador, a resistência microvascular se equaliza e a perfusão passa a depender da estenose epicárdica → defeitos de perfusão sugerem estenose (geralmente ≥50%). Defeitos subendocárdicos difusos que não respeitam territórios sugerem doença microvascular (INOCA). Realce tardio é analisado junto: área de IM prévio pode ter defeito e não é isquemia; isquemias extensas (>90% de obstrução) podem ter déficit nas duas fases. Por isso alguns serviços usam protocolo stress-only. Na dobutamina, isquemia = déficit contrátil novo ou resposta bifásica; sensibilidade 81–84% para obstrução ≥50%; exame normal: <2% de eventos em 2 anos.

Estados do miocárdio

Seções 2.2.6 e 15.1Do miocárdio normal à fibrose

NormalPerfusão e contração preservadas
IsquêmicoDefeito de perfusão/contração só ao estresse; reversível
AtordoadoIsquemia aguda; disfunção por horas a dias após reperfusão, com resolução espontânea
HibernanteLesão fixa + isquemia recorrente não letal: “down-regulation” adaptativa; viável
FibróticoNecrose substituída por fibrose (realce tardio); recuperação altamente improvável

Esquema didático com os conceitos usados pela diretriz (realce tardio, viabilidade, hibernação e atordoamento).

Viabilidade pela RMC

Tabela 13 – Pesquisa de DAC pela RMC: viabilidade miocárdica
RecomendaçãoClasseNível
Detecção de infarto agudo e crônico pelo realce tardioIA
Diagnóstico diferencial com etiologia não isquêmica (outras cardiomiopatias)IB
Viabilidade no cenário pré-revascularização pelo realce tardio*I*B*
Detectar trombo ventricularIB
Avaliação de aneurisma de VEIB
Função regional em repouso e estresseIIaB

*Refere-se à escolha da RMC como método preferencial para pesquisar viabilidade — não à pesquisa de viabilidade em si como estratégia pré-revascularização.

Fluxograma de viabilidade miocárdica por RMC no cenário crônico: anatomia passível de revascularização, isquemia significativa, realce tardio <25%, 25–50% ou >50% e reserva metabólica ou contrátil.
Figura 14 – Avaliação de viabilidade miocárdica pela ressonância magnética (cenário crônico)
ECO: ecocardiograma; PET: tomografia por emissão de pósitrons; RMC: ressonância magnética cardíaca; RTM: realce tardio miocárdico.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Anatomia coronária passível de revascularização?
↓
NÃOTratamento clínico otimizado
SIMTransmuralidade do realce tardio (RTM)
↓
RTM <25%Isquemia miocárdica significativa?
SIM Revascularização + TCO
NÃO TCO
RTM 25–50%Reserva metabólica (PET) ou contrátil (eco ou RMC com dobutamina)?
SIM Revascularização + TCO
NÃO TCO
RTM >50%Tratamento clínico otimizado

Versão didática baseada na Figura 14 (algoritmo da III Diretriz de TC e RM da SBC). TCO = tratamento clínico otimizado.

⚠️ O que STICH e REVIVED mudaram
  • STICH: CRM + TMO reduziu mortalidade em 10 anos em FEVE reduzida; o benefício independeu da viabilidade (subestudo, 601 pacientes).
  • REVIVED-BCIS2: 700 pacientes, FEVE ≤35% e viabilidade em ≥4 segmentos — ICP não reduziu morte/internação por IC (37,2% vs 38,0%; HR 0,99).
  • Fibrose (realce tardio): cada +10% → +18% de risco de eventos; prediz menor recuperação da FEVE.
  • Metanálise (STICH, PARR-2, HEART, REVIVED): sem diferença de mortalidade.

Resumo da diretriz (15.6): DAC com FEVE ≤35% passível de CRM → encaminhar prontamente; benefício da CRM independe da viabilidade; ICP não reduziu morte/internação por IC; viabilidade → melhor prognóstico e FEVE com TMO ± cirurgia; fibrose prediz pior prognóstico.

❓ Pergunta-chaveUm clássico em que a pesquisa de viabilidade ainda tem papel?Ver resposta

Paciente com disfunção de VE e parede anterior acinética ou discinética — a RMC permanece ferramenta importante para avaliar viabilidade e prognóstico. Transmuralidade intermediária (25–50%) pode se beneficiar de reserva contrátil com dobutamina ou PET.

❓ Pergunta-chaveViabilidade ausente contraindica CRM em FEVE ≤35%?Ver resposta

Não. A diretriz afirma que a viabilidade não deve ser pré-requisito para a decisão; no STICH o benefício da CRM foi independente da viabilidade.

Discussão baseada no texto da diretriz (seções 15.4–15.6).

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.6, 3.1.5 e 15; Tabelas 12 e 13; Figura 14.

7Cateterismo cardíaco e 🧭 como investigar suspeita de SCC

Coronariografia continua padrão-ouro anatômico, mas deve, quando possível, ser precedida da otimização clínica. A escolha do primeiro exame parte da probabilidade pré-teste.

📌 Resumo
  • Indicações do cateterismo: angina limitante/progressiva ou queda da capacidade funcional apesar do TMO; disfunção de VE e/ou IC novos; isquemia moderada a importante (com intenção de revascularizar — ou estratégia conservadora se sem FEVE ≤35%, TCE ≥50% ou angina limitante).
  • PPT: ≤5% nada; >5–15% ajustar/angioTC; >15–50% funcional ou angioTC; >50–85% funcional; >85% cateterismo.
  • Não há modelo de PPT ideal para brasileiros: use o que conhece, com julgamento clínico.

Cateterismo: o que oferece e quando indicar

O QUE OFERECE

Anatomia detalhada

Vasos e lesões, bifurcações, comprimento, calibre, cálcio, trombo, dissecção, leito distal, colaterais, stents e enxertos, geometria — estima carga de doença, potencial de revascularização e riscos. Pode incluir pressões de VE/aorta e ventriculografia. Acesso radial preferencial; baixas taxas de complicação.

LIMITAÇÕES

É um luminograma

Não define significado funcional de lesões intermediárias/ambíguas (usar FFR/índices não hiperêmicos ou QFR) e informa pouco sobre a placa (usar IVUS/OCT). Não diagnostica INOCA sem avaliação fisiológica.

Seção 2.2.7Quando encaminhar ao cateterismo

Angina limitante e/ou progressivaou redução da capacidade funcional apesar do TMO
Disfunção de VE e/ou ICnovos
Isquemia moderada a importantecateterismo com intenção de revascularizar ou TMO inicial
↓
Conservador inicial é aceitável se NÃO houver:FEVE ≤35% · lesão de TCE ≥50% à angioTC · angina limitante
❓ Pergunta-chaveQuando NÃO usar o cateterismo como exame inicial?Ver resposta

Na maioria dos sintomáticos com PPT até 85%: a diretriz reserva a cineangiocoronariografia como exame direto para PPT muito alta (>85%) e, fora disso, para as indicações clínicas acima, idealmente após otimizar o tratamento. Nas demais faixas, preferem-se angioTC ou provas funcionais.

Probabilidade pré-teste e escolha do exame

Esquema de probabilidade pré-teste para pós-teste: fatores que aumentam a probabilidade (fatores de risco, teste ergométrico alterado, ECG com onda Q, disfunção ventricular, aterosclerose não coronária, escore de cálcio elevado) e testes diagnósticos.
Figura 15 – Tomada de decisão em pacientes sintomáticos com suspeita de SCC
ECG: eletrocardiograma.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Probabilidade pré-teste(idade, sexo, tipo de dor ± dispneia; modelo à escolha — Quadro 7)
↓
Aumentam a probabilidade pré-testeFatores de risco (HAS, DM, dislipidemia, tabagismo, obesidade, história familiar) · TE alterado · ECG de repouso com onda Q ou outras alterações isquêmicas · Disfunção ventricular · Aterosclerose não coronariana · Escore de cálcio elevado
↓
Testes diagnósticos(Figura 16)
↓
Probabilidade pós-teste

Versão didática baseada na Figura 15 da Diretriz SBC 2025.

Faixas de probabilidade pré-teste e exames sugeridos: muito alta >85% cineangiocoronariografia; alta >50–85% prova funcional; moderada >15–50% prova funcional ou angiotomografia; baixa >5–15% ajustar PPT ou angiotomografia; muito baixa ≤5% sem novos testes.
Figura 16 – Exames diagnósticos de acordo com a probabilidade pré-teste de DAC obstrutiva
DAC: doença arterial coronariana.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Muito alta>85%
Cineangiocoronariografia
Alta>50–85%
Prova funcional
Moderada>15–50%
Prova funcional ou angiotomografia
Baixa>5–15%
Ajustar PPT ou angiotomografia
Muito baixa≤5%
Sem necessidade de novos testes diagnósticos

Versão didática baseada na Figura 16. Texto da seção 3.1.7: PPT <5% não requer investigação; 5–15% avaliação individual; 15–85% testes funcionais ou anatômicos; >85% geralmente permite diagnóstico clínico.

Quadro 7 – Modelos de estimativa de PPT de DAC obstrutiva
ModeloOrigemVariáveisPontos fortesLimitações
Diamond-Forrester1979 · EUAIdade, sexo, tipo de dorSimples, rápido, historicamente influenteSuperestima a PPT atual; dados dos anos 1970
Diamond-Forrester modificado (PROMISE)2018Idade, sexo, tipo de dorRecalibrado; melhor acurácia contemporâneaTrês variáveis, sem outros FR
CAD Consortium Basic2012 · EuropaIdade, sexo, tipo de dorReprodutível; base da ESC 2013Tende a superestimar em sintomas atípicos
CAD Consortium Clinical (Genders)2012 · Europa+ tabagismo, DM, HASMais acurado; incorporado na ESC 2019Requer mais informações
ESC 2019 recalibrado2019Idade, sexo, tipo de dor, dispneiaMais próximo da realidade; PPT mais baixaPode subestimar com FR importantes
Percepção clínica—Julgamento médicoComplementa os modelos; importante no SUS heterogêneoAlta variabilidade

🧮 Calculadora de probabilidade clínica — modelo RF-CL (ESC 2024)

⚖️ Nota de fidelidade — ferramenta externa à diretriz SBC

A Diretriz SBC 2025 não tem calculadora própria e não define o modelo ideal para a população brasileira: sugere usar o modelo de probabilidade pré-teste (PPT) com que o avaliador esteja mais familiarizado, somado à percepção clínica (Quadro 7, seção 3.1.7). O modelo abaixo — RF-CL (Risk Factor-weighted Clinical Likelihood) — vem da Diretriz ESC 2024 de Síndromes Coronarianas Crônicas (Vrints C et al. Eur Heart J. 2024;45:3415–537), que é a referência 2 da própria diretriz SBC. Ele é apresentado como apoio à estimativa, não como recomendação da SBC.

Diferenças a lembrar: (1) a ESC 2024 troca “angina típica/atípica/não anginosa” por um escore de sintomas de 0 a 3 pontos; (2) no critério de alívio, a ESC usa “em até 5 min”, enquanto o Quadro 2 da SBC usa “em até 10 minutos”; (3) o Quadro 7 da SBC compara o modelo “ESC 2019 recalibrado”, e não o RF-CL, que é posterior.

Recomendações da ESC 2024 sobre a estimativa da probabilidade

Recomendações formais da ESC 2024 (Tabela de Recomendações 3), traduzidas — não são recomendações da SBC.

Classe INível B🌐 Recomendação da ESC 2024 (não SBC) · Tab. de Recomendações 3

Recomenda-se estimar a probabilidade pré-teste de DAC epicárdica obstrutiva com o modelo de probabilidade clínica ponderada por fatores de risco (RF-CL).

Classe INível C🌐 Recomendação da ESC 2024 (não SBC) · Tab. de Recomendações 3

Recomenda-se usar dados clínicos adicionais (ex.: exame das artérias periféricas, ECG de repouso, ecocardiograma de repouso, presença de calcificações vasculares em exames de imagem prévios) para ajustar a estimativa do modelo RF-CL.

Classe IIaNível B🌐 Recomendação da ESC 2024 (não SBC) · Tab. de Recomendações 3

Em indivíduos com probabilidade pré-teste muito baixa (≤5%) de DAC obstrutiva, deve-se considerar adiar novos testes diagnósticos.

Classe IIaNível B🌐 Recomendação da ESC 2024 (não SBC) · Tab. de Recomendações 3

Em indivíduos com probabilidade pré-teste baixa (>5–15%), o escore de cálcio (CACS) deve ser considerado para reclassificar e identificar mais indivíduos com probabilidade clínica ponderada pelo CACS muito baixa (≤5%).

Classe IIbNível C🌐 Recomendação da ESC 2024 (não SBC) · Tab. de Recomendações 3

Em indivíduos com probabilidade inicialmente baixa (>5–15%), o teste ergométrico e a detecção de doença aterosclerótica em artérias não coronárias podem ser considerados para ajustar a estimativa.

Figura 4 da ESC 2024 traduzida: passo 1, escore de sintomas de 0 a 3 pontos pela dor torácica (tipo e localização, agravada por estresse físico ou emocional, aliviada com repouso ou nitrato em até 5 minutos, 1 ponto cada) ou dispneia aos esforços (2 pontos); passo 2, número de fatores de risco de 0 a 5; passo 3, tabela de probabilidade clínica por idade de 30 a 80 anos, sexo, escore de sintomas e número de fatores de risco, colorida em muito baixa, baixa e moderada.
Figura 4 (ESC 2024) – Estimativa da probabilidade clínica de doença arterial coronariana obstrutiva
Traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês · © ESC 2024 (Vrints et al., dados de Winther et al.). Clique para ampliar.
Legenda original: o escore de sintomas substitui a terminologia anterior, potencialmente enganosa — três características = “típica” (aqui 3 pontos), duas = “atípica” (2 pontos), nenhuma ou uma = “não cardíaca/não anginosa” (0–1 ponto). História familiar = ≥1 parente de primeiro grau com sinais precoces de DAC (homens <55 e mulheres <65 anos); tabagismo = atual ou prévio; dislipidemia, hipertensão e diabetes = presentes no momento do diagnóstico. Os valores da tabela são probabilidades clínicas em %.
Leitura em texto da Figura 4

Passo 1 – Escore de sintomas (0–3). Sintoma principal: dor torácica (0–3 pontos: 1 ponto para desconforto constritivo retroesternal ou no pescoço, mandíbula, ombro ou braço; 1 ponto se agravada por estresse físico ou emocional; 1 ponto se aliviada por repouso ou nitrato em até 5 min) ou dispneia (falta de ar e/ou dificuldade para respirar agravada pelo esforço = 2 pontos).

Passo 2 – Número de fatores de risco (0–5): história familiar, tabagismo, dislipidemia, hipertensão e diabetes.

Passo 3 – Tabela RF-CL: reproduzida integralmente no quadro abaixo.

Valores da Figura 4 (ESC 2024) – probabilidade clínica de DAC obstrutiva (%) por idade, sexo, escore de sintomas e nº de fatores de risco (0–1 / 2–3 / 4–5)
IdadeEscore 0–1 pontoEscore 2 pontosEscore 3 pontos
MulheresHomensMulheresHomensMulheresHomens

Cada célula mostra os três valores para 0–1, 2–3 e 4–5 fatores de risco. Cores: muito baixa (≤5%) · baixa (>5–15%) · moderada (>15–50%). Valores conferidos célula a célula com a Figura 4 (p. 3439) e com o painel 1 da Figura 5 (p. 3448) da ESC 2024.

Calculadora interativaEstime a probabilidade clínica (RF-CL)

Paciente
Passo 1 · Sintoma principal
Passo 2 · Fatores de risco
Modificadores não incluídos no modelo

Não altere os fatores de risco acima: eles já estão no RF-CL. Marque só o que o modelo não considera.

Preencha idade, sexo, sintoma e fatores de risco.

Ferramenta educacional. Resultado = valor exato da tabela da Figura 4 (ESC 2024); fora de 30–80 anos o modelo não fornece estimativa. Os avisos sobre modificadores são qualitativos: a ESC afirma que, além do CACS-CL, nenhum método validado fornece valores ajustados ao RF-CL — o ajuste é julgamento clínico.

Figura 5 da ESC 2024 traduzida: passo 1, tabela RF-CL (Classe I); passo 2, ajustar a probabilidade por achados clínicos anormais (Classe I): alterações no ECG de repouso, teste ergométrico anormal, disfunção do VE, arritmia ventricular, doença arterial periférica, calcificação coronária em TC de tórax prévia; passo 3, considerar reclassificar a RF-CL baixa com o escore de cálcio (Classe IIa), com nomograma que relaciona a RF-CL no eixo horizontal e a probabilidade ponderada pelo CACS no eixo vertical, com curvas para CACS 0, 1–9, 10–99, 100–399, 400–999 e 1000 ou mais.
Figura 5 (ESC 2024) – Ajuste e reclassificação da probabilidade clínica estimada de DAC obstrutiva
Traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês · © ESC 2024. Clique para ampliar.
Como ler o nomograma do escore de cálcio (passo 3)
  1. Localize a RF-CL do paciente no eixo horizontal (0–80%).
  2. Suba até a curva do CACS medido (0; 1–9; 10–99; 100–399; 400–999; ≥1000).
  3. Leia no eixo vertical a CACS-CL e a faixa colorida: azul = muito baixa (≤5%), verde = baixa (>5–15%), amarelo = moderada (>15–50%), laranja = alta (>50–85%), vermelho = muito alta (>85%).

A página não converte o nomograma em números: as curvas são lidas graficamente, como na figura original. Leitura didática: a curva de CACS 0 fica na faixa azul ao longo da faixa de RF-CL baixa, o que explica a reclassificação para muito baixa; CACS mais altos deslocam a probabilidade para cima.

🧭 Para que serve o passo 2 da Figura 5 (ajuste por achados clínicos)?

O RF-CL só “vê” idade, sexo, sintoma e cinco fatores de risco. Os seis achados do passo 2 também aumentam a chance de DAC obstrutiva, mas não entram na conta — se um deles estiver presente, o número da tabela provavelmente está baixo demais. A ESC 2024 manda ajustar (Classe I, Nível C), mas não diz quanto: além do CACS-CL, nenhum método validado converte esses achados em porcentagem; o ajuste é julgamento clínico.

Onde muda a conduta: quase só nas faixas muito baixa (≤5%) e baixa (>5–15%) — justamente as que autorizam não investigar ou adiar. Acima disso o paciente já seguirá para exame.

💡 Interpretação práticaA tabela deu ≤15% e há um desses achados? Não use o número para dispensar a investigação — trate como, no mínimo, uma faixa acima. Leitura didática: a ESC afirma apenas que, com achados que indicam subestimação, o exame deve ser escolhido pela probabilidade ajustada (seção 3.3.4).
Quadro didático – O que cada achado do passo 2 sugere e o que fazer
AchadoO que sugereO que fazer
Onda Q ou alteração de ST/T no ECG de repousoInfarto prévio silencioso ou isquemiaEcocardiograma: alteração segmentar no território → provável DAC já estabelecida (RMC com realce tardio confirma infarto crônico — SBC Tabela 13, I-A)
Teste ergométrico com achados anormaisJá é evidência de isquemia, não “risco de base”Seguir para imagem (funcional ou angio-TC)
Disfunção do VE (grave ou segmentar)Possível cardiomiopatia isquêmicaInvestigar a etiologia; muda urgência e tipo de exame
Arritmia ventricularPossível substrato isquêmicoNão conduzir como dor de baixo risco
Doença arterial periféricaAterosclerose sistêmicaProbabilidade coronária maior que a da tabela
Calcificação coronária em TC de tórax préviaPlaca coronária já documentadaO passo 3 (escore de cálcio / CACS-CL) tende a reclassificar para cima

Exemplo: homem de 52 anos, dor com 2 características (2 pontos), 1 fator de risco → RF-CL 6% (baixa). Sem achados do passo 2: pode-se adiar ou usar o escore de cálcio para reclassificar (ESC IIa B). O mesmo paciente com onda Q inferior: os 6% deixam de valer para decidir — eco (alteração segmentar inferior?) e investigação, não “adiar testes”.

Em resumo: o passo 1 dá o número; o passo 2 avisa quando não confiar nele para mandar o paciente para casa.

🩺 10 casos clínicos: do sintoma à conduta com o RF-CL

Leia o caso, faça sua estimativa (probabilidade, faixa, ajuste, exame e o que mais pedir) e só depois toque em “Ver resolução comentada”. São 5 casos intermediários e 5 difíceis. Cada resolução percorre a rota completa: escore de sintomas → fatores de risco → tabela → ajuste por achados clínicos → escore de cálcio → conduta (SBC Figura 16 e ESC Figura 6) → o que mais pedir. Recomendações da ESC são identificadas como tal; as da SBC, com tabela de origem.

IntermediárioDifícil
Caso 1 · IntermediárioMulher de 63 anos, “angina típica”

Aposentada, hipertensa e dislipidêmica (em uso de losartana e sinvastatina 20 mg). Há 2 meses tem aperto retroesternal ao subir dois lances de escada, que cede em cerca de 3 minutos ao parar. Nunca fumou; sem diabetes; pai com IAM aos 70 anos. PA 132/80 mmHg, FC 74 bpm, exame físico normal. ECG de repouso normal. Qual a probabilidade clínica? O que pedir? Precisa de mais alguma coisa?

Ver resolução comentada

Passo 1 – Escore de sintomas: desconforto constritivo retroesternal (1) + desencadeado por esforço físico (1) + alívio com repouso em até 5 min (1) = 3 pontos. Na terminologia da SBC (Quadro 2), seria angina típica.

Passo 2 – Fatores de risco: hipertensão (1) + dislipidemia (1) = 2. A história familiar não conta: o pai teve IAM aos 70 anos, e a definição exige DAC precoce (homem <55 anos).

Passo 3 – Tabela: mulher, 60–69 anos, 3 pontos, coluna 2–3 fatores → RF-CL = 14% (baixa).

Ajuste (passo 2 da Figura 5): ECG normal; nenhum achado que indique subestimação até aqui. O ecocardiograma ainda faz parte da avaliação inicial e pode mudar o ajuste.

Escore de cálcio (passo 3 da Figura 5): na faixa baixa, a ESC recomenda considerar o CACS para reclassificar (Classe IIa, Nível B, ESC). CACS 0 → CACS-CL tende a cair para muito baixa e permitir adiar testes; CACS elevado → a probabilidade sobe e orienta o exame seguinte.

Conduta: SBC Figura 16 (baixa) → ajustar a PPT ou angiotomografia. ESC Figura 6 → ajustar a probabilidade ou angio-TC; a angio-TC é recomendada na faixa >5–50% para diagnosticar DAC obstrutiva e estimar risco (Classe I, Nível A, ESC). Com sintomas que limitam a vida diária, a angio-TC direta é a opção mais resolutiva; o CACS isolado é alternativa se os sintomas forem leves.

Precisa de mais algo? Sim: ecocardiograma transtorácico na avaliação inicial da SCC suspeita (SBC Tabela 5, Classe I, Nível B) e laboratório da Tabela 3 da SBC (perfil lipídico I-A, hemograma I-B, glicemia + HbA1c I-B, creatinina/TFG I-A, função tireoidiana I-C). Teste ergométrico para diagnóstico não é a melhor escolha se há imagem disponível (SBC IIb B; ESC: não recomendado para descartar DAC na faixa >5–50% se houver angio-TC ou imagem funcional — Classe III, Nível C).

💡 Pérola: “angina típica” em mulher não garante probabilidade alta — aqui deu 14%. É exatamente o cenário em que o modelo evita o cateterismo desnecessário, mas não autoriza ignorar o sintoma.
Caso 2 · IntermediárioHomem de 58 anos com dispneia

Motorista, tabagista ativo (30 maços-ano), diabético, hipertenso e com LDL-C de 142 mg/dL. Há 3 meses sente falta de ar ao subir rampas, sem dor torácica. Nega ortopneia. PA 148/90 mmHg, IMC 31 kg/m², ausculta normal. ECG: ritmo sinusal, sem alterações. Creatinina 0,9 mg/dL. Qual a probabilidade? Qual exame? Precisa de mais algo?

Ver resolução comentada

Passo 1: sintoma principal = dispneia aos esforços → 2 pontos. Não se somam pontos de dor: conta o sintoma principal.

Passo 2: tabagismo + diabetes + hipertensão + dislipidemia = 4 fatores. A obesidade não entra no RF-CL (é modificador citado pela SBC na Figura 15).

Passo 3: homem, 50–59 anos, 2 pontos, coluna 4–5 → RF-CL = 17% (moderada).

Ajuste: ECG normal. A obesidade sugere que a estimativa pode estar levemente subestimada, mas não muda a faixa: o paciente já será investigado.

Escore de cálcio: a reclassificação pelo CACS é recomendada para a faixa baixa; na moderada, a decisão já é investigar.

Conduta: SBC Figura 16 (>15–50%) → prova funcional ou angiotomografia; angio-TC como exame inicial em PPT intermediária sem anatomia prévia é Classe I, Nível A (SBC Tabela 11). ESC: angio-TC Classe I, Nível A (>5–50%) ou imagem funcional (eco de estresse, SPECT/PET, RMC — Classe I, Nível B, >15–85%). Com função renal normal e sem alergia, a angio-TC é a opção natural; o eco de estresse é igualmente válido.

Precisa de mais algo? Ecocardiograma (SBC Tabela 5, I-B): na dispneia, além de função global e segmentar, busca diagnósticos alternativos (valvopatia, disfunção diastólica, hipertensão pulmonar). Laboratório da Tabela 3; BNP/NT-proBNP pode ser útil na suspeita de disfunção de VE com dispneia (texto da SBC, seção 2.2.4). Cessação do tabagismo e controle da PA começam já, independentemente do resultado.

💡 Pérola: dispneia de esforço é equivalente anginoso e vale 2 pontos — não descarte a investigação por “não ter dor”.
Caso 3 · IntermediárioMulher de 52 anos, dor em pontada

Hipertensa, IMC 34 kg/m², não fumante, sem diabetes. Há 10 dias tem dor em pontada na região paraesternal esquerda, de segundos de duração, que piora ao girar o tronco e à palpação do 4º arco costal. Sem relação com esforço; não melhora com repouso. ECG normal. Pede “um exame do coração”. Qual a probabilidade? Precisa de algum exame cardiológico?

Ver resolução comentada

Passo 1: pontada paraesternal (não é desconforto constritivo) = 0; sem relação com esforço = 0; sem alívio com repouso = 0 → 0 ponto (coluna 0–1).

Passo 2: hipertensão = 1 fator. Obesidade não é fator do RF-CL.

Passo 3: mulher, 50–59 anos, 0–1 ponto, coluna 0–1 → RF-CL = 1% (muito baixa).

Ajuste: ECG normal, sem doença arterial periférica conhecida. A obesidade (Figura 15 da SBC) não muda o raciocínio diante de uma dor com padrão claramente musculoesquelético (costocondrite — Quadro 6 da SBC).

Conduta: SBC Figura 16 (≤5%) → sem necessidade de novos testes diagnósticos. ESC: adiar novos testes deve ser considerado (Classe IIa, Nível B), salvo sintomas persistentes após excluir causas não cardíacas.

Precisa de mais algo? Para DAC, não. O foco é tratar a causa provável da dor e manejar o risco cardiovascular global (PA, peso). Se a dor mudar de padrão (passar a surgir aos esforços), a estimativa deve ser refeita.

💡 Pérola: o modelo também protege contra o excesso de exames: probabilidade muito baixa com explicação alternativa clara = tranquilizar, tratar a causa e reavaliar se o quadro mudar.
Caso 4 · IntermediárioHomem de 71 anos, aperto ao caminhar

Hipertenso, ex-tabagista (parou há 15 anos). Sem diabetes; LDL-C 98 mg/dL sem tratamento. Há 6 semanas sente aperto retroesternal ao caminhar dois quarteirões, que cede em 2 minutos de repouso; os episódios estão estáveis. PA 138/78 mmHg; ECG normal. Creatinina 1,2 mg/dL (TFGe 60 mL/min/1,73 m²). Qual a probabilidade? Qual o melhor primeiro exame?

Ver resolução comentada

Passo 1: constritivo retroesternal (1) + esforço (1) + alívio ≤5 min (1) = 3 pontos.

Passo 2: hipertensão + tabagismo prévio = 2 fatores. LDL-C de 98 mg/dL sem diagnóstico de dislipidemia não conta — o modelo usa dislipidemia presente no diagnóstico.

Passo 3: homem, 70–80 anos, 3 pontos, coluna 2–3 → RF-CL = 44% (moderada). A tabela não passa de 45%.

Ajuste: ECG normal; aguardar o ecocardiograma. Sem achados que reclassifiquem por enquanto.

Conduta: SBC Figura 16 → prova funcional ou angiotomografia. ESC Figura 6 → angio-TC ou imagem funcional. Aos 71 anos, a chance de calcificação coronária extensa é maior, e a SBC lembra que cálcio extenso dificulta a visualização do lúmen na angio-TC — uma imagem funcional (eco de estresse, cintilografia ou RMC de estresse — Classe I) é escolha muito razoável; a angio-TC continua válida, inclusive se a imagem funcional for inconclusiva (ESC, Classe I, Nível B).

Precisa de mais algo? Ecocardiograma (SBC Tabela 5, I-B) e laboratório da Tabela 3. Iniciar já nitrato de ação curta para as crises (SBC Tabela 21, I-B) e terapia preventiva (o modelo estima a doença; não substitui a prevenção). Se a angina piorar para esforços mínimos, reavaliar a estratégia (caso 9).

💡 Pérola: 44% é o teto prático do RF-CL para essa idade — e mesmo assim cai na faixa “moderada”, em que a investigação é não invasiva primeiro, não o cateterismo direto.
Caso 5 · IntermediárioMulher de 45 anos, dor no estresse

Advogada, sem comorbidades, não fumante, sem história familiar. Relata episódios de aperto retroesternal durante discussões no trabalho, que duram 20–30 minutos e passam sozinhos; nunca durante exercício (corre 5 km três vezes por semana sem sintomas). ECG normal. Muito ansiosa com a possibilidade de “infarto”. Qual a probabilidade? Precisa investigar?

Ver resolução comentada

Passo 1: desconforto constritivo retroesternal (1) + agravado por estresse emocional (1 — o critério é “físico ou emocional”) + alívio só após 20–30 min (0) = 2 pontos.

Passo 2: 0 fator.

Passo 3: mulher, 40–49 anos, 2 pontos, coluna 0–1 → RF-CL = 1% (muito baixa).

Ajuste: ECG normal. Um dado pesa a favor da baixa probabilidade de DAC obstrutiva: tolera exercício vigoroso sem sintomas.

Conduta: SBC Figura 16 (≤5%) → sem necessidade de novos testes diagnósticos para DAC obstrutiva; ESC: adiar testes (Classe IIa, Nível B). Explicar com clareza o significado do resultado ajuda a reduzir a ansiedade — fator psicossocial que a SBC reconhece (capítulo 11).

Precisa de mais algo? Não para DAC obstrutiva. Se os episódios persistirem ou mudarem (repouso, madrugada, alívio com nitrato), pensar em outros mecanismos, como vasoespasmo (caso 10). A ESC considera dor desencadeada por estresse emocional um possível equivalente anginoso (Classe IIa, Nível B) — por isso ela pontua — mas o RF-CL estima obstrução, e aqui ela é muito improvável.

💡 Pérola: 2 pontos não é sinônimo de investigação: sexo feminino, 45 anos e ausência de fatores mantêm a estimativa em 1%.
Caso 6 · DifícilHomem de 54 anos, 6%… e ondas Q

Diabético há 8 anos, sem outros fatores. Refere aperto retroesternal ao subir ladeira, que melhora em 10–15 minutos de repouso. ECG: ondas Q de V1 a V3. Ecocardiograma: FEVE 46%, acinesia do septo anterior e do ápice. Nunca teve internação ou dor prolongada. Qual a probabilidade pelo modelo? Ela ainda serve? O que fazer?

Ver resolução comentada

Passo 1: constritivo retroesternal (1) + esforço (1) + alívio só após 10–15 min (0 na ESC) = 2 pontos. (Pela SBC — alívio em até 10 minutos — o caso ficaria no limite entre típica e atípica.)

Passo 2: diabetes = 1 fator.

Passo 3: homem, 50–59 anos, 2 pontos, coluna 0–1 → RF-CL = 6% (baixa).

Ajuste — aqui o número perde o valor: ondas Q em parede anterior + acinesia segmentar no mesmo território + FEVE reduzida são achados do passo 2 da Figura 5 (ESC: ajustar, Classe I, Nível C) e da Figura 15 da SBC. Mais do que “aumentar a probabilidade”, eles sugerem infarto prévio silencioso — o paciente provavelmente já tem DAC.

O que fazer: confirmar e estratificar. RMC com realce tardio detecta infarto crônico (SBC Tabela 13, I-A) e quantifica a extensão da necrose; a RMC também avalia isquemia em DAC conhecida (SBC Tabela 12, I-B). Com disfunção de VE, a SBC lista disfunção ventricular esquerda nova como indicação de cateterismo (seção 2.2.7) — decisão a ser individualizada após a RMC. Prevenção secundária já: estatina de alta intensidade com meta de LDL <50 mg/dL e redução ≥50% (SBC Tabela 16, I-A), AAS se infarto confirmado (I-A), iSGLT2 ou agonista de GLP-1 no DM2 (SBC Tabela 20, I-A), iECA pela disfunção e pelo diabetes (SBC Tabela 18, I-A).

Precisa de mais algo? Laboratório da Tabela 3, BNP/NT-proBNP pela disfunção de VE e controle glicêmico. O escore de cálcio não acrescenta nada aqui.

💡 Pérola: o RF-CL estima a probabilidade em quem ainda não tem diagnóstico. Quando o ECG e o eco já mostram cicatriz, a pergunta deixa de ser “tem DAC?” e passa a ser “qual o risco e como tratar?”.
Caso 7 · DifícilMulher de 58 anos, 3% e um achado incidental

Hipertensa e dislipidêmica, nunca fumou, sem diabetes. Relata aperto retroesternal aos esforços maiores, que melhora após cerca de 15 minutos de repouso. ECG normal. Fez TC de tórax há 6 meses por nódulo pulmonar: o laudo descreve “calcificações coronárias extensas em descendente anterior”. A paciente pode ficar sem exames? Qual o próximo passo?

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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + esforço (1) + alívio só após 15 min (0) = 2 pontos.

Passo 2: hipertensão + dislipidemia = 2 fatores.

Passo 3: mulher, 50–59 anos, 2 pontos, coluna 2–3 → RF-CL = 3% (muito baixa).

Ajuste: “calcificação coronária em TC de tórax prévia” é exatamente um dos seis achados do passo 2 da Figura 5 (ESC: usar dados clínicos adicionais, incluindo calcificações vasculares em exames prévios, para ajustar — Classe I, Nível C). A Figura 15 da SBC também lista “escore de cálcio elevado”. Conclusão: os 3% não autorizam adiar a investigação. A ESC é explícita: se o cálcio é alto e há achados indicando que o RF-CL subestima, o exame deve ser escolhido pela probabilidade ajustada e pela carga de cálcio.

Qual exame: a probabilidade ajustada é incerta, mas claramente mais alta que 3%. Com calcificação extensa, a angio-TC pode ter a avaliação do lúmen prejudicada (texto da SBC); uma prova funcional com imagem (eco de estresse, cintilografia ou RMC de estresse) é uma escolha coerente. Um escore de cálcio formal pode quantificar a carga e, pelo nomograma da Figura 5, mostrar o quanto a probabilidade sobe.

Precisa de mais algo? Ecocardiograma (SBC Tabela 5), laboratório (Tabela 3) e prevenção mais intensiva: há aterosclerose coronária documentada, independentemente de haver obstrução.

💡 Pérola: leia os laudos antigos — a calcificação coronária em TC feita por outro motivo é um modificador oficial da ESC e muda a conduta mesmo com RF-CL “muito baixa”.
Caso 8 · DifícilHomem de 47 anos, faixa baixa e escore de cálcio

Hipertenso e tabagista ativo. Há 1 mês tem episódios de aperto retroesternal em repouso, sem relação com esforço, que cedem com nitrato sublingual (prescrito no pronto-socorro) em 2 minutos. ECG, eco e troponinas no PS normais. Sintomas leves, não limitantes. Qual a probabilidade? O escore de cálcio ajuda? E se o resultado vier 0 — ou 250?

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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + sem relação com esforço ou estresse (0) + alívio com nitrato em ≤5 min (1) = 2 pontos.

Passo 2: hipertensão + tabagismo = 2 fatores.

Passo 3: homem, 40–49 anos, 2 pontos, coluna 2–3 → RF-CL = 6% (baixa).

Ajuste: ECG e eco normais — nenhum achado do passo 2 da Figura 5.

Escore de cálcio: é o cenário exato do passo 3 da Figura 5 — RF-CL baixa: considerar o CACS para reclassificar (Classe IIa, Nível B, ESC).

  • CACS 0: no nomograma, a curva de CACS 0 fica na faixa azul nessa altura do eixo → CACS-CL muito baixa (≤5%) → novos testes podem ser adiados (ESC). Atenção: a ESC lembra que entre pacientes jovens com DAC obstrutiva uma proporção maior tem CACS 0 (58% dos <40 anos).
  • CACS 250 (faixa 100–399): a curva correspondente desloca a probabilidade para cima (para fora da faixa muito baixa) → investigar com angio-TC ou imagem funcional, guiado pela probabilidade ajustada.

Conflito aparente com a SBC: a SBC classifica o escore de cálcio para afastar estenose em sintomáticos como Classe III, Nível B (Tabela 9). A ESC não usa o CACS isoladamente: ele entra combinado ao RF-CL (CACS-CL) apenas na faixa baixa. Pela SBC (Figura 16), a faixa baixa admite ajustar a PPT ou angiotomografia — a angio-TC direta é uma alternativa igualmente defensável.

Precisa de mais algo? Os sintomas em repouso com alívio rápido por nitrato levantam também a possibilidade de vasoespasmo (caso 10) — o RF-CL não avalia esse mecanismo. Cessação do tabagismo é obrigatória (e é gatilho de vasoespasmo). Laboratório da Tabela 3.

💡 Pérola: CACS-CL é ferramenta de reclassificação na faixa baixa, não exame para “descartar DAC” em qualquer sintomático — essa é a ponte entre a recomendação IIa da ESC e o III da SBC.
Caso 9 · DifícilHomem de 78 anos, 45% e angina aos mínimos esforços

Diabético, hipertenso, dislipidêmico e ex-tabagista. Há 4 meses apresenta aperto retroesternal ao caminhar cerca de 50 metros, que cede em 2 minutos de repouso; o padrão está estável desde o início, sem dor em repouso nem piora recente. TFGe 32 mL/min/1,73 m². ECG: infradesnivelamento de ST de 0,5 mm em V4–V6. Eco: FEVE 55%, sem alteração segmentar. Qual a probabilidade? O modelo basta? Qual a estratégia?

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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + esforço (1) + alívio ≤5 min (1) = 3 pontos.

Passo 2: DM + HAS + dislipidemia + tabagismo prévio = 4 fatores.

Passo 3: homem, 70–80 anos, 3 pontos, coluna 4–5 → RF-CL = 45% (moderada) — o maior valor da tabela.

Ajuste: alteração de ST/T no ECG de repouso (passo 2 da Figura 5) e disfunção renal importante (TFGe 32; a ESC cita a disfunção renal grave entre as condições não refletidas no modelo) → a probabilidade real provavelmente é alta. Some-se a angina em esforço mínimo.

Estratégia: a ESC recomenda, em sintomas novos (sem diagnóstico prévio de DAC) muito sugestivos de DAC obstrutiva que ocorrem em baixo nível de esforço, cateterismo com vistas à revascularização como primeiro exame após avaliação pelo cardiologista (Classe I, Nível C, ESC). Na SBC, angina limitante é indicação de cateterismo, quando possível após otimizar o tratamento clínico (seção 2.2.7). Atenção ao tempo de história: se o mesmo quadro tivesse começado há menos de 2 meses, angina de início recente em CCS III–IV seria angina instável (SBC Quadro 4) e sairia do fluxo ambulatorial da SCC; o mesmo vale para piora em crescendo ou dor em repouso ≥20 min.

A DRC muda o como, não o se: TFGe <60 é condição de alto risco para nefropatia por contraste (SBC seção 6.6): hidratação com soro fisiológico 0,9% (1,0–1,5 mL/kg/h por 3–12 h antes e 6–24 h depois, em eletivos), menor volume de contraste (relação contraste/TFG <3,7; idealmente técnica ultrabaixa), contraste iso ou hiposmolar. A angio-TC acrescentaria contraste e tende a ser limitada pelo cálcio; se se optar por um teste não invasivo antes, a SBC aponta a cintilografia com estresse farmacológico como o exame não invasivo mais indicado na DRC (seção 16.1). Decisão compartilhada com o paciente (idade, fragilidade, preferências) e discussão em Heart-Kidney Team (SBC Tabela 41, I-C).

Precisa de mais algo? Otimizar já os antianginosos (SBC Tabela 21) — ranolazina e trimetazidina não devem ser usadas com TFG <30 (aqui é 32) e a trimetazidina deve ser reduzida para 35 mg 1×/dia com TFG <60 —, AAS, estatina e controle glicêmico.

💡 Pérola: o RF-CL nunca passa de 45%. Probabilidades “alta” e “muito alta” surgem do ajuste clínico — e angina aos mínimos esforços é o dado que mais pesa.
Caso 10 · DifícilMulher de 50 anos, dor de madrugada

Tabagista ativa, sem outros fatores. Há 2 meses acorda às 5 h com aperto retroesternal intenso, que cede em 3 minutos com o nitrato sublingual que um colega lhe deu; tolera bem caminhadas e academia. Usa triptano para enxaqueca. ECG de repouso normal; eco normal. Qual a probabilidade de DAC obstrutiva? O resultado encerra a investigação?

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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + sem relação com esforço ou estresse (0) + alívio com nitrato ≤5 min (1) = 2 pontos.

Passo 2: tabagismo = 1 fator (coluna 0–1).

Passo 3: mulher, 50–59 anos, 2 pontos, coluna 0–1 → RF-CL = 2% (muito baixa).

A armadilha: o RF-CL estima DAC epicárdica obstrutiva. O padrão — dor em repouso na madrugada, alívio rápido com nitrato, boa tolerância ao esforço, tabagismo e uso de triptano (vasoconstritor) — sugere angina vasoespástica, que o modelo não avalia. Probabilidade baixa de obstrução não exclui isquemia sem obstrução (ANOCA/INOCA).

O que fazer: ESC: Holter (ECG ambulatorial) deve ser considerado na suspeita de angina vasoespástica (Classe IIa, Nível B, ESC). O teste provocativo com acetilcolina intracoronária é a principal ferramenta diagnóstica do vasoespasmo (SBC seção 12.1.6). Tratamento: bloqueador de canal de cálcio como droga preferida, nitrato de ação rápida nas crises e nitrato de longa ação se persistir sintomática; betabloqueador é contraindicado (SBC seção 5.11). Suspender gatilhos: tabagismo e, em conjunto com o neurologista, rever o triptano.

Precisa de mais algo? Afastar SCA se houver episódio prolongado (troponina). Laboratório da Tabela 3. Se o diagnóstico permanecer incerto após testes não invasivos, a ESC recomenda cateterismo com avaliação funcional invasiva para confirmar ou excluir DAC obstrutiva ou ANOCA/INOCA (Classe I, Nível B, ESC).

💡 Pérola: “probabilidade muito baixa” responde à pergunta do modelo — obstrução epicárdica. Quando a história aponta outro mecanismo (vasoespasmo, microcirculação), a investigação segue outro caminho.

Valores de RF-CL conferidos na tabela da Figura 4 (ESC 2024). Casos fictícios, com finalidade educacional.

Texto de suporte (ESC 2024, seção 3.1.3 e 3.3.4)
  • O RF-CL inclui sexo, idade, sintomas e número de fatores de risco, sem perder acurácia em relação a modelos mais complexos. Classifica como muito baixa (≤5%) três vezes mais pessoas que o modelo ESC-PTP de 2019 (38% vs 12%).
  • Taxas anualizadas de IAM e morte previstas: 0,5% (muito baixa), 1,1% (baixa) e 2,1% (moderada).
  • Ajuste individual pode ser necessário com fator de risco isolado grave ou comorbidade não refletida no modelo: hipercolesterolemia familiar, disfunção renal grave, doenças reumáticas/inflamatórias, DAP.
  • Teste ergométrico negativo na faixa baixa permite reclassificar para muito baixa; porém a angio-TC como primeiro teste dá informação mais acurada.
  • CACS = 0 tem VPN >95% para DAC obstrutiva — mas, entre pacientes com DAC obstrutiva, 58% dos <40 anos têm CACS 0 (vs 9% aos 60–69 anos). Com o CACS-CL, 54% (vs 38% com o RF-CL) ficaram como muito baixa nas coortes de validação externa.
  • Pacientes com probabilidade ≤15% são ~85% dos que chegam com sintomas novos.
  • Muito baixa: adiar testes salvo sintomas persistentes com causas não cardíacas excluídas. Baixa: benefício incerto, testar se sintomas limitantes. Moderada, alta e muito alta: incentivar investigação.
Quadro didático – Faixas de probabilidade: conduta da SBC (Figura 16) e da ESC 2024 (Figura 6)
FaixaSBC 2025 – Figura 16ESC 2024 – Figura 6 (primeiro exame)
Muito baixa ≤5%Sem necessidade de novos testesAdiar novos testes
Baixa >5–15%Ajustar PPT ou angiotomografiaAjustar a probabilidade clínica ou angio-TC
Moderada >15–50%Prova funcional ou angiotomografiaAngio-TC ou imagem funcional (PET/SPECT, RMC, eco de estresse)
Alta >50–85%Prova funcionalImagem funcional (PET/SPECT, RMC, eco de estresse)
Muito alta >85%CineangiocoronariografiaCineangiocoronariografia

A Figura 16 da SBC e a Figura 6 da ESC 2024 usam as mesmas cinco faixas e condutas equivalentes. Atenção: a tabela do RF-CL só chega a “moderada” (máximo 45%); as faixas alta e muito alta surgem após ajuste clínico ou pelo CACS-CL.

Casos práticos com o RF-CL

CASO 1 · BAIXA + ONDA Q

Mulher, 45 anos

Desconforto retroesternal em aperto ao subir ladeira, que cede em 3 min de repouso (3 pontos). HAS, DM, dislipidemia e tabagismo (4 fatores). RF-CL = 12% (baixa). ECG: ondas Q em DII, DIII e aVF.

Raciocínio: onda Q é achado do passo 2 da Figura 5 (ajuste, Classe I na ESC) e da Figura 15 da SBC → os 12% provavelmente subestimam. Eco transtorácico (SBC Tabela 5, I-B): se houver alteração segmentar inferior, pensar em infarto prévio (RMC com realce tardio confirma; Tabela 13, I-A) e conduzir como SCC; se o eco for normal, investigar (angio-TC) em vez de “não testar”.

CASO 2 · DISPNEIA

Homem, 62 anos

Dispneia aos esforços moderados, sem dor (2 pontos). HAS e DM (2 fatores). RF-CL = 17% (moderada).

Raciocínio: a dispneia vale 2 pontos no RF-CL. Faixa >15–50% → prova funcional ou angio-TC (SBC Figura 16; ESC Figura 6). Eco transtorácico também ajuda a excluir causas não coronárias da dispneia.

CASO 3 · MUITO BAIXA

Homem, 35 anos

Dor em pontada, sem relação com esforço, que não melhora com repouso (0 ponto). Ex-tabagista (1 fator). RF-CL = 1% (muito baixa).

Raciocínio: ≤5% → sem novos testes (SBC Figura 16); ESC: adiar testes (IIa B), salvo sintomas persistentes após excluir causas não cardíacas.

❓ Pergunta-chaveSe o paciente já tem hipertensão, diabetes e dislipidemia computados no RF-CL, devo “subir” a probabilidade por esses mesmos fatores (Figura 15 da SBC)?Ver resposta

Não. Esses fatores já entram no passo 2 do RF-CL; somá-los de novo superestima a probabilidade. Os modificadores que acrescentam informação são os que o modelo não considera: alterações do ECG de repouso, teste ergométrico anormal, disfunção do VE, arritmia ventricular, aterosclerose não coronária e calcificação coronária — além de obesidade (Figura 15 da SBC) e das condições citadas pela ESC (hipercolesterolemia familiar, disfunção renal grave, doença inflamatória).

Interpretação didática baseada na Figura 15 (SBC) e nas Figuras 4–5 (ESC 2024).

❓ Pergunta-chaveO RF-CL substitui a classificação típica/atípica do Quadro 2 da SBC?Ver resposta

Na ESC 2024, sim: o escore de sintomas (0–3) substitui a terminologia anterior, considerada potencialmente enganosa. A SBC 2025 mantém típica/atípica/não anginosa (Quadro 2). Na prática, a correspondência é direta (3 critérios = 3 pontos; 2 = 2 pontos; 0–1 = 0–1 ponto), com duas diferenças: a dispneia isolada vale 2 pontos no RF-CL, e o alívio é “em até 5 min” na ESC, contra “em até 10 minutos” na SBC.

Fonte: Vrints C et al. 2024 ESC Guidelines for the management of chronic coronary syndromes. Eur Heart J. 2024;45(36):3415–537 — seção 3.1.3, Tabela de Recomendações 3, Figuras 4, 5 e 6. Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seção 3.1.7, Quadro 7, Figuras 15 e 16.

🧮 Segundo modelo: CAD Consortium (Genders et al., BMJ 2012)

⚖️ Nota de fidelidade — modelo citado pela SBC, equação da publicação original

O CAD Consortium é um dos modelos listados pela própria SBC no Quadro 7 (referência 18 da diretriz), em duas versões: modelo básico (“derivado de grande coorte europeia, usado nas diretrizes ESC 2013”; limitação: “ainda tende a superestimar em pacientes com sintomas atípicos”) e modelo clínico (“modelo clínico completo, incorporado nas diretrizes ESC 2019”; ponto forte: “mais acurado; considera fatores de risco adicionais”; limitação: “requer mais informações; menos usado em serviços com limitações de dados clínicos”).

A SBC não traz a equação nem uma recomendação com classe e nível para este modelo. A diretriz não estabelece uma recomendação específica para esta situação (qual modelo usar): ela orienta usar o modelo com que o avaliador esteja mais familiarizado, somado à percepção clínica (seção 3.1.7).

Origem dos números desta seção: interceptos e coeficientes da Tabela 4 do apêndice on-line de Genders TS et al. (BMJ 2012;344:e3485). A calculadora foi conferida com o exemplo da Figura A2 do mesmo apêndice (resultado idêntico: 15%, 40% e 7%). Observação: o Quadro 7 da SBC lista “idade, sexo, tipo de dor, tabagismo, diabetes, hipertensão” para o modelo clínico; a publicação original inclui também dislipidemia — aqui seguimos a publicação.

O que o modelo é (e o que não é)

Ficha técnica do CAD Consortium (Genders, BMJ 2012)
ItemO que diz a publicação
População5.677 pacientes com dor torácica estável, sem DAC prévia (excluídos IAM e revascularização prévios), de 18 hospitais da Europa e dos EUA, encaminhados para angio-TC ou cineangiocoronariografia.
Desfecho previstoDAC obstrutiva: ≥1 vaso com estenose ≥50% na cineangiocoronariografia.
Três versõesBásico: idade, sexo, tipo de dor. Clínico: + diabetes, hipertensão, dislipidemia e tabagismo. Clínico + escore de cálcio: + escore de cálcio (Agatston), em escala logarítmica.
Tipo de dorTípica = 3 critérios: (1) dor ou desconforto retroesternal, (2) provocada por esforço ou estresse emocional, (3) aliviada por repouso e/ou nitroglicerina. Atípica = 2 critérios. Inespecífica = 0–1 critério. (Sem limite de tempo para o alívio.)
Definições mais usadasDiabetes: glicemia de jejum ≥7 mmol/L (≈126 mg/dL) ou tratamento. Hipertensão: PA ≥140/90 mmHg ou anti-hipertensivo. Dislipidemia: colesterol total ≥5,2 mmol/L (≈200 mg/dL) ou hipolipemiante. Tabagismo: atual ou prévio.
DesempenhoEstatística C (validação cruzada): básico 0,77 → clínico 0,79 → com escore de cálcio 0,88. Calibração satisfatória nas bases de baixa prevalência.
O que não entraDispneia (o modelo é só para dor torácica), história familiar, ECG, ecocardiograma, doença vascular extracardíaca.
Ver a equação e os coeficientes (Tabela 4 do apêndice)

Probabilidade = 1 / (1 + e−L), em que L = intercepto + soma dos coeficientes presentes. Idade em anos; sexo masculino = 1; dor típica ou atípica = 1 (referência: inespecífica); fatores de risco = 1 se presentes; escore de cálcio entra como ln(CAC + 1). A variável “setting” (ambiente de alta prevalência) é fixada em 0 ao aplicar o modelo a pacientes novos, como determina a publicação.

Coeficientes β (apêndice de Genders, BMJ 2012, Tabela 4)
VariávelBásicoClínicoClínico + cálcio
Intercepto−6,917−7,539−5,975
Idade (por ano)0,0630,0620,011
Sexo masculino1,3581,3320,786
Dor atípica0,6580,6330,718
Dor típica1,9751,9982,024
Diabetes—0,8280,658
Hipertensão—0,3380,235
Dislipidemia—0,4220,185
Tabagismo—0,4610,207
ln(CAC + 1)——0,577
Diabetes × dor típica—−0,402−0,780

A interação “diabetes × dor típica” é negativa: no diabético com dor típica, o diabetes acrescenta menos do que acrescentaria a um paciente com dor atípica — a dor típica já “carrega” boa parte da probabilidade. A publicação também traz o termo “setting × ln(CAC+1)”, que se anula com setting = 0.

Conferência: exemplo da Figura A2 do apêndice (homem, 50 anos, dor atípica, diabetes, hipertensão, dislipidemia, tabagismo, escore de cálcio 0) → básico 15%, clínico 40%, clínico + cálcio 7%; a calculadora abaixo reproduz os três valores. O texto do artigo cita “2%” para mulher de 50 anos com dor inespecífica e sem fatores de risco; pela equação do apêndice, o modelo clínico dá 1,2% (o básico, 2,3%) — as duas leituras ficam na faixa muito baixa.

Calculadora interativaCAD Consortium — básico, clínico e clínico + cálcio

Paciente
Tipo de dor (critérios)

Fatores de risco (modelo clínico)

História familiar não faz parte deste modelo.

Escore de cálcio (opcional)

Preencha idade, sexo e tipo de dor.

Ferramenta educacional. Resultado = equação logística da publicação (setting = 0), arredondado para inteiro. As faixas e condutas seguem a Figura 16 da SBC. O número não substitui o julgamento clínico nem os modificadores da Figura 15 da SBC (ECG, eco, doença vascular extracardíaca etc.), que o modelo não inclui.

RF-CL × CAD Consortium: o que muda na prática

Comparação didática entre os dois modelos
AspectoRF-CL (ESC 2024)CAD Consortium clínico (2012)
FormatoTabela (faixas de idade de 10 anos; 0–1, 2–3, 4–5 fatores)Equação contínua (cada ano e cada fator contam)
SintomaEscore 0–3; alívio em até 5 min; dispneia vale 2 pontosTípica / atípica / inespecífica; sem limite de tempo; sem dispneia
Fatores de riscoContados, com peso igual (inclui história familiar)Pesos diferentes (diabetes > tabagismo > dislipidemia > HAS); sem história familiar
Cálcio coronárioNomograma separado (CACS-CL, Figura 5 da ESC)Versão própria “clínico + cálcio” (equação)
Teto do resultadoMáximo 45% (só chega a “moderada”)Pode chegar a >85% (ex.: 91% no homem de 80 anos com dor típica e vários fatores)
Onde apareceESC 2024 (Classe I, Nível B — recomendação da ESC)Quadro 7 da SBC 2025 (sem classe/nível)
Os mesmos pacientes nos dois modelos (valores calculados pela equação e lidos na Figura 4 da ESC)
PacienteRF-CLCAD básicoCAD clínicoLeitura
Homem 50 a, dor atípica, DM + HAS + dislipidemia + tabagismo (exemplo da Figura A2)17 moderada15 baixa40 moderadaMesma faixa, mas o CAD clínico pesa muito mais os quatro fatores. Com escore de cálcio 0, o modelo clínico + cálcio cai para 7%.
Mulher 45 a, dor típica, DM + HAS + dislipidemia + ex-tabagista12 baixa11 baixa25 moderadaOs modelos discordam na faixa: baixa (ajustar PPT ou angio-TC) × moderada (prova funcional ou angio-TC). Angio-TC é conduta comum às duas faixas.
Homem 70 a, dor típica, sem fatores de risco44 moderada70 alta53 altaO RF-CL tem teto de 45%; o CAD Consortium leva o idoso com dor típica para a faixa alta (prova funcional, pela Figura 16 da SBC).
Mulher 58 a, dor atípica, HAS + dislipidemia3 muito baixa7 baixa7 baixaPerto da fronteira de 5%: muito baixa (adiar testes) × baixa (ajustar PPT ou angio-TC). Sintomas e modificadores decidem.
Homem 62 a, só dispneia aos esforços, HAS + DM17 moderadanão se aplicanão se aplicaO CAD Consortium não foi construído para dispneia; aqui só o RF-CL (ou o julgamento clínico) estima a probabilidade.
💡 Interpretação prática
  • O RF-CL tende a dar números mais baixos que o CAD Consortium no mesmo paciente — ele foi construído com dados mais recentes, em que a prevalência de DAC obstrutiva nos pacientes testados caiu.
  • Quando os dois modelos caem em faixas diferentes, não existe regra da SBC para desempatar: escolha o modelo com que você trabalha (SBC, seção 3.1.7), registre a escolha e use os modificadores da Figura 15 e a percepção clínica.
  • Na prática, a discordância costuma ocorrer entre faixas vizinhas cujas condutas se sobrepõem (a angio-TC aparece em “baixa” e em “moderada” na Figura 16 da SBC).
  • Dispneia isolada → use o RF-CL. Diabético com vários fatores → o CAD clínico mostra melhor o peso de cada fator. Idoso com dor típica → o CAD Consortium não tem o teto de 45%.

🩺 6 casos clínicos com o CAD Consortium

Calcule (use a calculadora acima, se quiser), compare com o RF-CL e decida a conduta antes de abrir a resolução. Casos 1–3 intermediários; 4–6 difíceis.

IntermediárioDifícil
Caso 1 · IntermediárioHomem de 55 anos, alívio demorado

Motorista, hipertenso em uso de anlodipino, tabagista atual (20 cigarros/dia). Aperto retroesternal ao carregar peso, que cede só após 15–20 minutos de repouso. Sem diabetes; colesterol total 182 mg/dL sem tratamento. ECG e ecocardiograma normais. Qual a probabilidade pelos dois modelos e o que pedir?

Ver resolução comentada

Tipo de dor (CAD Consortium): retroesternal (1) + provocada por esforço (1) + aliviada por repouso (1) = típica, porque o modelo não impõe limite de tempo para o alívio. Atenção: pela ESC 2024 (alívio em até 5 min), o alívio em 15–20 min não pontua → 2 pontos; pelo Quadro 2 da SBC (até 10 min), também não seria típica.

CAD Consortium: se classificada como típica → básico 47%, clínico 50% (limite superior da faixa moderada); se o avaliador considerar atípica (alívio prolongado) → básico 19%, clínico 20%. Fatores: HAS e tabagismo (dislipidemia ausente: CT <200 mg/dL sem tratamento).

RF-CL: homem 50–59 anos, 2 pontos, 2 fatores (coluna 2–3) → 11% (baixa).

Leitura: o mesmo relato cai em “baixa” (RF-CL) e “moderada” (CAD Consortium, nas duas leituras do tipo de dor). Um alívio que demora 15–20 minutos é pouco característico de angina estável e merece reavaliação da história.

Conduta: moderada (SBC Figura 16) → prova funcional ou angiotomografia; baixa → ajustar PPT ou angiotomografia. A angiotomografia atende às duas faixas e é Classe I, Nível A como exame inicial em PPT intermediária sem anatomia prévia (SBC, Tabela 11). Precisa de mais algo? Laboratório inicial (Tabela 3 da SBC) e cessação do tabagismo — independente da probabilidade.

Caso 2 · IntermediárioMulher de 66 anos, diabética, angina típica

Diabética em uso de metformina (HbA1c 7,8%). Nega HAS, dislipidemia e tabagismo. Há 4 meses, aperto retroesternal ao subir a ladeira, que cede em 3 minutos de repouso; padrão estável. ECG normal; eco com FEVE 62%, sem alteração segmentar.

Ver resolução comentada

CAD Consortium: dor típica (3 critérios). Básico (idade, sexo, dor) = 31%. Clínico (+ diabetes) = 26% — a interação diabetes × dor típica faz o diabetes somar pouco quando a dor já é típica (sem diabetes, o clínico daria 19%). Os dois em faixa moderada.

RF-CL: mulher 60–69, 3 pontos, 1 fator (coluna 0–1) → 10% (baixa).

Por que tanta diferença? O RF-CL foi construído com dados contemporâneos, em que a prevalência de DAC obstrutiva é menor, sobretudo em mulheres; o CAD Consortium é de 2012. A SBC lembra que modelos antigos tendem a superestimar (Quadro 7).

Conduta: moderada → prova funcional ou angiotomografia (SBC Figura 16); baixa → ajustar PPT ou angiotomografia. Angiotomografia como ponto comum (SBC, Classe I, Nível A em PPT intermediária). Se a função renal ou o cálcio extenso limitarem a angio-TC, prova funcional com imagem. Mais algo? Perfil lipídico, creatinina/TFG e as metas de prevenção do diabético não dependem do resultado.

Caso 3 · IntermediárioHomem de 42 anos com história familiar forte

Dor em pontada no hemitórax esquerdo, em repouso, que dura horas e não melhora com repouso. Dislipidêmico (LDL-C 190 mg/dL) e tabagista. Pai com IAM aos 50 anos. ECG normal.

Ver resolução comentada

Tipo de dor: não é retroesternal, não é provocada por esforço, não alivia com repouso → inespecífica (0 critério).

CAD Consortium: básico 5%; clínico (dislipidemia + tabagismo) = 6% (baixa). A história familiar não entra neste modelo.

RF-CL: homem 40–49, 0–1 ponto, 3 fatores (inclui história familiar precoce) → 4% (muito baixa).

Leitura: os dois ficam abaixo ou perto de 5–6%: a dor é pouco sugestiva de isquemia. O problema principal deste paciente é risco cardiovascular (LDL-C 190 mg/dL + tabagismo + história familiar), não probabilidade de estenose. Tratar risco ≠ tratar angina.

Conduta: muito baixa → sem novos testes diagnósticos; baixa → ajustar PPT ou angio-TC (SBC Figura 16). Investigar causa não cardíaca da dor. Mais algo? Sim: abordar o LDL-C 190 mg/dL (considerar hipercolesterolemia familiar), cessação do tabagismo e estratificação de risco em prevenção primária — fora do escopo do modelo de PPT.

Caso 4 · DifícilMulher de 72 anos com dispneia

Hipertensa, diabética e dislipidêmica. Há 3 meses, falta de ar ao caminhar uma quadra; nega dor torácica. ECG com sobrecarga atrial esquerda; eco com FEVE 58%, sem alteração segmentar, disfunção diastólica grau I. Qual modelo usar?

Ver resolução comentada

CAD Consortium: não se aplica. O modelo foi derivado em pacientes com dor torácica; não há variável para dispneia. Colocar “dor inespecífica” para uma dispneia daria um número sem base.

RF-CL: dispneia aos esforços = 2 pontos; 3 fatores (coluna 2–3); mulher 70–80 → 10% (baixa).

Ajuste: eco sem alteração segmentar e ECG sem onda Q — nenhum modificador que indique subestimação. Mas a dispneia tem diagnóstico diferencial amplo (IC com FE preservada, valvopatia, pulmonar, anemia).

Conduta: baixa → ajustar a PPT ou angiotomografia (SBC Figura 16); ESC: escore de cálcio pode reclassificar (Classe IIa, Nível B, ESC). Em idosa diabética, cálcio coronário costuma ser elevado e pode limitar a angio-TC — prova funcional com imagem é alternativa. 💡 Interpretação prática: investigar também as outras causas de dispneia (ex.: peptídeo natriurético, hemograma, função pulmonar, conforme a clínica).

Caso 5 · DifícilHomem de 60 anos, quatro fatores e escore de cálcio zero

Diabético, hipertenso, dislipidêmico e ex-tabagista. Dor em aperto na face lateral do hemitórax esquerdo (não retroesternal, sem irradiação), aos esforços, que cede em 2–3 minutos de repouso. Escore de cálcio realizado há 1 mês em outro serviço: 0. ECG e eco normais.

Ver resolução comentada

Tipo de dor: provocada por esforço + aliviada por repouso, sem localização retroesternal → atípica (2 critérios); no RF-CL, 2 pontos.

CAD Consortium: básico 25%; clínico 55% (alta); clínico + cálcio (CAC 0) → 7% (baixa).

RF-CL: homem 60–69, 2 pontos, 4 fatores (coluna 4–5) → 25% (moderada). Na ESC, o CACS-CL (Figura 5) só é recomendado para reclassificar a faixa baixa (Classe IIa, Nível B, ESC); aqui a RF-CL é moderada.

A armadilha: o CAC 0 derruba a probabilidade calculada, mas a SBC é explícita: o escore de cálcio não deve ser usado para afastar estenose em sintomáticos (Classe III, Nível B) — há obstruções sem calcificação. O número de 7% é uma informação, não uma liberação.

Conduta: pela PPT clínica (moderada a alta), seguir com prova funcional ou angiotomografia (SBC Figura 16). A angio-TC é atraente aqui: CAC 0 sugere boa qualidade de imagem, e ela detecta placa não calcificada. Mais algo? Controle intensivo dos fatores de risco do diabético, independente do resultado.

Caso 6 · DifícilHomem de 68 anos, angina típica e cálcio 450

Diabético, hipertenso e dislipidêmico; nunca fumou. Angina típica estável (CCS II) há 4 meses. Escore de cálcio de 450 em check-up prévio. ECG normal; eco com FEVE 55%, sem alteração segmentar. TFGe 70 mL/min/1,73 m².

Ver resolução comentada

CAD Consortium: básico 67%; clínico 77% (alta); clínico + cálcio (CAC 450) → 80% (alta). Com CAC 0, o mesmo paciente cairia para 11% — mostra o peso do cálcio no modelo.

RF-CL: homem 60–69, 3 pontos, 3 fatores → 35% (moderada). Com CAC 450, o nomograma CACS-CL da Figura 5 desloca a probabilidade para cima (leitura gráfica).

Leitura: todos os caminhos apontam para probabilidade relevante; o CAD Consortium chega à faixa alta, o RF-CL fica em moderada (teto de 45%).

Conduta: alta (>50–85%) → prova funcional (SBC Figura 16) para documentar isquemia e sua extensão; moderada → prova funcional ou angio-TC. Com CAC 450, a angio-TC pode ter acurácia reduzida pelo cálcio extenso (limitação citada pela SBC). Cateterismo direto fica para PPT >85%, angina refratária ao TMO ou disfunção de VE. Mais algo? A TFGe de 70 mL/min/1,73 m² não impede contraste, se a angio-TC ou o cateterismo vierem a ser necessários.

❓ Pergunta-chaveQual modelo é “o certo” para o Brasil: RF-CL ou CAD Consortium?Ver resposta

Nenhum foi validado como ideal para a população brasileira. A SBC 2025 diz isso explicitamente e sugere usar o modelo mais familiar ao avaliador, somado à percepção clínica (seção 3.1.7, Quadro 7). A diretriz não estabelece uma recomendação específica para esta situação.

💡 Interpretação prática: escolha um, use sempre o mesmo e conheça suas armadilhas — RF-CL: alívio em até 5 min, teto de 45%; CAD Consortium: sem dispneia, sem história familiar, tende a dar valores maiores.

❓ Pergunta-chavePosso usar o “clínico + cálcio” para dispensar exames quando o escore de cálcio é zero?Ver resposta

Não como regra. O modelo reduz muito a probabilidade com CAC 0, mas a SBC classifica o uso do escore de cálcio para afastar estenose em sintomáticos como Classe III, Nível B. Em sintomático, o CAC 0 entra no raciocínio, mas não substitui a avaliação da faixa clínica e dos modificadores.

Fonte: Genders TS, Steyerberg EW, Hunink MG et al. Prediction model to estimate presence of coronary artery disease: retrospective pooled analysis of existing cohorts. BMJ 2012;344:e3485 — texto, Tabelas 1 e 2 e apêndice on-line (Tabela 4 e Figura A2). Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seção 3.1.7, Quadro 7, Figuras 15 e 16, Tabela 11. ESC 2024, Figuras 4 e 5.

🧪 Tabela comparativa dos métodos

Síntese didática (capítulos 2 e 3) — sem superioridade universal entre métodos
MétodoMelhor aplicaçãoVantagensLimitaçõesQuando preferir
Teste ergométricoTolerância, sintomas, PA, arritmias, prognóstico (I-C)Barato, disponível, METs, DukeDiagnóstico só IIb; ECG não interpretável (III)CF preservada e ECG interpretável; imagem indisponível
Eco de estresseIsquemia e risco em PPT intermediária/alta (I-B)Sem radiação; viabilidade; acurácia 85–90%Janela acústica (contraste ajuda)CF preservada (esforço) ou farmacológico; ECG não interpretável
SPECTIsquemia/cicatriz, quantificação, risco (I-B)Funciona em obesos, DRC, arritmias, dispositivosRadiaçãoJanela ruim, BRE/marcapasso (farmacológico)
PETPerfusão + fluxo absoluto/RFC (I-B, preferencial)Padrão-ouro; microvascular; viabilidade (FDG)Indisponível no paísSuspeita de microvascular/multiarterial balanceada (onde houver)
Escore de cálcioReestratificar assintomáticos (I-A)Sem contraste, rápidoNão exclui estenose em sintomáticos (III-B)Prevenção primária de risco intermediário
AngioTCExame inicial em PPT intermediária (I-A)Alto VPN; placa; FFR-TCContraste, cálcio extensoSem anatomia prévia; testes funcionais conflitantes
RMCPerfusão (I-A), dobutamina (I-B), viabilidade, fibroseSem radiação; subendocárdio; função padrão-ouroGadolínio na DRC avançada; disponibilidadeIsquemia + viabilidade/diagnóstico diferencial
CateterismoPPT >85%, angina refratária ao TMO, disfunção de VEAnatomia e possibilidade de tratamentoInvasivo; luminogramaQuando se planeja revascularizar
💡 Critérios práticos da diretriz para o exame inicial (seção 3.1.7)
  • Capacidade funcional preservada → iniciar com TE ou eco de estresse.
  • ECG basal não interpretável → método de imagem (eco, cintilografia, RMC).
  • Acesso local: custo, tempo, familiaridade da equipe.
  • DRC ou alergia a contraste → restrição à angioTC.
❓ Pergunta-chaveQual exame escolher primeiro?Ver resposta

Depende da PPT e do paciente. Moderada (>15–50%): prova funcional ou angioTC; alta (>50–85%): prova funcional; muito alta: cateterismo. Ajuste pela capacidade funcional, ECG basal, disponibilidade, função renal e alergia.

Discussão baseada na Figura 16 e na seção 3.1.7.

❓ Pergunta-chaveExiste um modelo de PPT recomendado para a população brasileira?Ver resposta

Não. A diretriz sugere usar o modelo com que o avaliador esteja mais familiarizado, considerando limitações e valorizando a percepção clínica, pois não há definição do modelo ideal para brasileiros.

A diretriz não estabelece uma recomendação específica de modelo.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.7 e 3.1.7; Quadro 7; Figuras 15 e 16.

8📊 Depois do diagnóstico: qual é o risco desse paciente?

O risco na DAC estável é heterogêneo. Integra-se clínica, função ventricular, provas funcionais e anatomia.

📌 Resumo
  • Morte CV/IAM não fatal: baixo <1%/ano, intermediário 1–3%, alto >3%.
  • FEVE é um dos marcadores prognósticos mais importantes.
  • Tabela 14 define alto risco por modalidade.
  • Clínica de maior risco: angina recente/crescendo, IC isquêmica, SCA prévia; TRA 2°P (9 variáveis); biomarcadores (ABC-CHD).
<1% ao anoRisco baixo
1–3% ao anoRisco intermediário
>3% ao anoRisco alto
Tabela 14 – Definições de alto risco de eventos por modalidade
ModalidadeDefinição de alto risco
Teste ergométricoEscore de Duke <−10 (mortalidade CV >3%/ano)
Cintilografia de perfusãoIsquemia reversível ≥10% da massa do VE
Eco de estresseAlterações de contratilidade induzidas em ≥3 de 16 segmentos
RMCIsquemia induzida ≥2 segmentos ou ≥3 segmentos disfuncionais à dobutamina
AngioTC / cineangiocoronariografiaEstenose de TCE, DAC de três vasos com lesões proximais ou DA proximal
CLÍNICA

Avaliação inicial

Angina de início recente ou em crescendo, IC isquêmica, SCA prévia. TRA 2°P: idade, DM, HAS, tabagismo, DAP, AVC prévio, CRM, IC e disfunção renal. Fatores socioeconômicos e acesso ao sistema. ECG (Q, arritmias; IA aplicada ao ECG promissora) e radiografia (cardiomegalia, aneurisma, congestão).

BIOMARCADORES

Troponina, NT-proBNP, LDL

Troponina-as persistentemente elevada → maior risco; >10 ng/L ≈ 50% mais eventos. NT-proBNP preditor independente (coorte >13 mil). ABC-CHD: troponina, NT-proBNP, LDL-C + DM, tabagismo, DAP.

IMAGEM

Além da estenose

AngioTC: volume total de placa, baixo realce, remodelamento positivo, núcleo necrótico, “napkin-ring”, estenose proximal; escores integrados (ex.: Comprehensive Atherosclerotic Risk Score). RMC: isquemia e realce tardio preditores fortes (metanálise >67 mil).

BAIXO RISCO

Testes normais

Eco de estresse, cintilografia e RMC de estresse normais → <1% ao ano. Bruce além do 3º estágio → <1%/ano.

❓ Pergunta-chaveQuais achados ao TE indicam alto risco além do Duke?Ver resposta

Depressão de ST em baixa carga ou em múltiplas derivações, persistente >5 min na recuperação; angina/dispneia ao esforço; baixa capacidade funcional (<5 METs ≈ 5%/ano); arritmias ventriculares complexas; resposta pressórica anormal/queda de PAS; incompetência cronotrópica.

❓ Pergunta-chaveAngioTC mostra estenose proximal de DA de 75% em paciente pouco sintomático. Qual o significado prognóstico?Ver resposta

É critério de alto risco na Tabela 14 (DA proximal). Na Tabela 35, doença multiarterial com envolvimento proximal da DA e SYNTAX >23 é indicação de CRM IA; lesão uniarterial deve ser integrada a sintomas e isquemia (Heart Team/Figura 19).

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, capítulo 3 (3.1–3.1.6); Tabela 14.

9🩸 Terapia antitrombótica

AAS como base; clopidogrel como alternativa e como P2Y12 de escolha após ICP eletiva; intensificação (DAPT prolongada ou rivaroxabana 2,5 mg) em alto risco isquêmico e baixo risco hemorrágico; DOAC + clopidogrel quando há indicação de anticoagulação.

📌 Resumo
  • AAS 100 mg/dia pós-IAM ou revascularização IA; sem IAM/revascularização IIbC.
  • Clopidogrel se intolerância ao AAS IB.
  • Pós-ICP eletiva: clopidogrel ≥6 meses IA; 3 meses se alto risco de sangramento IIaA.
  • DAPT de longo prazo: alto risco isquêmico + baixo sangramento IIaA.
  • ACO após ICP: DOAC + antiplaquetário IA; AAS suspenso após 1 semana se baixo risco trombótico IIaB.

Fármacos

Antiplaquetários na SCC (seções 4.1.1–4.1.2)
FármacoMecanismoPontos da diretriz
AASInibição irreversível da COX (TXA2), seletividade COX-175–100 mg/dia; ↓ ECAM ~21% pós-IAM e 37% nos demais (redução relativa)
ClopidogrelTienopiridínico, bloqueio irreversível do P2Y12; ativado pelo CYP2C19CAPRIE: benefício discreto vs AAS (5,32% vs 5,83%), significativo só na DAP; perda de função do CYP2C19 e omeprazol reduzem efeito
PrasugrelTienopiridínico irreversível, efeito rápido e previsívelSuperior ao clopidogrel na SCA com angioplastia; mais sangramento com AVC prévio; sem benefício >75 anos ou <60 kg
TicagrelorBloqueador reversível, sem ativação metabólicaPEGASUS: IAM prévio (<3 anos) + fator de risco; dispneia geralmente leve e autolimitada

Recomendações formais

No PDF, estas recomendações estão reunidas na Tabela 15, cujo título é “Recomendações para o Uso de Anticoagulantes no Contexto da ICP”, embora inclua também antiplaquetários fora da ICP.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

AAS 100 mg/dia é recomendado para pacientes com infarto prévio ou submetidos à revascularização miocárdica, com ou sem infarto prévio.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Clopidogrel 75 mg/dia é recomendado como alternativa à aspirina em pacientes com intolerância.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Clopidogrel pode ser alternativa ao AAS, com efeito no mínimo similar, para DAC ou em pacientes com doença arterial periférica ou AVC isquêmico prévio.

Classe IIbNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

AAS 100 mg/dia pode ser considerado em DAC sem infarto prévio ou revascularização.

Classe IIaNível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

DAPT por longo prazo pode ser considerada em pacientes com alto risco de eventos cardiovasculares e baixo risco de sangramento.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

AAS 100 mg/dia é recomendado para pacientes submetidos a ICP.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Clopidogrel 75 mg/dia é recomendado após ICP por pelo menos 6 meses.

Classe IIaNível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Clopidogrel 75 mg/dia pode ser considerado por pelo menos 3 meses após ICP se elevado risco de sangramento.

🩸 Situação clínica × terapia (síntese da Tabela 15 e seções 4.1, 21)
Situação clínicaTerapiaDuraçãoClasseNível
IAM prévio ou revascularizaçãoAAS 100 mgContínuoIA
DAC sem IAM/revascularizaçãoAAS 100 mgContínuoIIbC
Intolerância ao AASClopidogrel 75 mgContínuoIB
Pós-ICP eletivaAAS + clopidogrel≥6 mesesIA
Pós-ICP + alto risco de sangramentoAAS + clopidogrel≥3 meses (Fig. 23: 1 ou 3 meses)IIaA
Alto risco isquêmico + baixo sangramentoDAPT de longo prazo>6 meses (até 30 meses nos estudos)IIaA
Necessidade de ACO após ICPDOAC + antiplaquetáriover Figura 24IA
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — COMPASS
Estudo
COMPASS
População
27.395 pacientes com DAC e alto risco (aterosclerose em ≥2 territórios ou ≥2 fatores: tabagismo, DM, TFG <60, IC, AVC isquêmico)
Intervenção
AAS 100 mg + rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia
Comparador
AAS isolado (ou rivaroxabana 5 mg)
Principal resultado
↓ eventos CV (HR 0,76; IC95% 0,66–0,86) em 23 meses, com mais sangramento maior; reduções absolutas em diabéticos, DAP, DRC e tabagistas; consistente no COMPASS-PCI
Como influencia a recomendação
Sustenta a “inibição de via dupla” como segunda droga anti-isquêmica em SCC com elevada carga isquêmica, pesando o risco hemorrágico (seção 19.1).
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — PEGASUS e THEMIS
Estudo
PEGASUS e THEMIS
População
PEGASUS: IAM prévio + outro fator (idade >65, DM, DRC, multiarterial). THEMIS: diabéticos sem IAM prévio
Intervenção
Ticagrelor + AAS
Comparador
AAS + placebo
Principal resultado
PEGASUS: ↓ MACE (HR 0,84). THEMIS: ↓ eventos (HR 0,90) com mais sangramento maior (HR 2,32)
Como influencia a recomendação
Base para DAPT prolongada em alto risco isquêmico e baixo risco de sangramento (IIa A).

🩸 Como pensar a duração da dupla antiagregação?

Fluxograma de antiagregação após ICP com stent farmacológico na SCC: DAPT com AAS e clopidogrel; sem alto risco de sangramento, DAPT 6 meses ou mais; com alto risco, 1 a 3 meses.
Figura 23 – Antiagregação plaquetária após ICP na síndrome coronariana crônica
AAS: ácido acetilsalicílico; DAPT: dupla antiagregação plaquetária; ICP: intervenção coronária percutânea
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
SCC · ICP com stent farmacológicoDAPT (AAS + clopidogrel)
↓
Alto risco de sangramento?(ARC-HBR ou PRECISE-DAPT ≥25)
↓
SIMDAPT 1 ou 3 mesesdepois antiplaquetário único
NÃODAPT 6 mesesou >6 meses (até 30 m) se alto risco isquêmico
Alto risco de sangramento
DAPT 1 m
→ 3 m
monoterapia
Padrão
DAPT 6 m
monoterapia
Alto risco isquêmico / baixo sangramento
DAPT >6 m (até 30 m)

Versão didática baseada na Figura 23 da Diretriz SBC 2025 (escala aproximada em meses).

⬆️ Favorece mais proteção isquêmica

  • IAM prévio, doença multiarterial, DAP
  • DM, DRC, idade >65 (PEGASUS)
  • Revascularização incompleta; não revascularizados
  • Escore DAPT ≥2 (com a ressalva da Tabela 29)
⚖️

⬇️ Maior preocupação com sangramento

  • Critérios ARC-HBR (≥1 maior ou ≥2 menores)
  • PRECISE-DAPT ≥25
  • Idade ≥75, ACO crônica, DRC, anemia, plaquetopenia
  • Câncer ativo, sangramento prévio, fragilidade/quedas

Fatores listados a partir do texto das seções 4.1.3, 6.5 e 20.3. A regra “≥1 critério maior ou ≥2 menores” é a definição ARC-HBR original; a diretriz apresenta as definições de critério maior (risco de sangramento ≥4%/ano ou HIC ≥1%/ano) e menor.

Risco de sangramento

Tabela 28 – Critérios ARC-HBR no momento da ICP
Critérios maioresCritérios menores
Uso crônico de anticoagulante oralIdade ≥75 anos
DRC com ClCr <30 mL/minDRC com ClCr 30–59 mL/min
Hemoglobina <11 g/dLHb 11–12,9 g/dL (homens) ou 11–11,9 g/dL (mulheres)
Hemorragia com hospitalização/transfusão nos últimos 6 meses ou recorrenteHemorragia com hospitalização/transfusão nos últimos 12 meses
Plaquetas <100.000/μL; diátese hemorrágica; cirrose/hipertensão portalUso prolongado de AINE ou esteroide
Malignidade ativa (exceto pele não melanoma) nos últimos 12 mesesQualquer AVC isquêmico prévio sem critério maior
HIC espontânea prévia; HIC traumática em 12 meses; MAV cerebral; AVC isquêmico moderado/grave em 6 meses—
Grande cirurgia não adiável; grande cirurgia/trauma em 30 dias—

A posição exata de “Idade ≥75 anos” e “uso prolongado de AINE/esteroide” na coluna de critérios menores segue a definição ARC-HBR; confira a diagramação da Tabela 28 no PDF.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 29

Usar os critérios ARC-HBR para identificar pacientes com alto risco de sangramento para DAPT encurtada.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 29

PRECISE-DAPT ≥25 para identificar alto risco de sangramento para DAPT encurtada (escore aplicado na alta).

Classe IIbNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 29

Usar o modelo de trade-off ARC-HBR para predição de infarto, trombose de stent e sangramento maior.

Classe IIINível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 29

Usar o escore DAPT para decisão do tempo de DAPT.

⚠️ Atenção — escore DAPT

O texto descreve que, após 1 ano sem eventos, escore DAPT ≥2 favorece prolongar e <2 aumenta sangramento sem benefício. Mas a Tabela 29 classifica seu uso para decidir o tempo de DAPT como III-C (desenvolvido para DAPT padrão de 1 ano, sem representar os stents atuais).

❓ Pergunta-chavePós-ICP eletiva: ticagrelor ou prasugrel no lugar do clopidogrel?Ver resposta

Não há evidência de superioridade na angioplastia eletiva (ALPHEUS: ticagrelor não superior, mais sangramento menor em 30 dias). O clopidogrel é o IP2Y12 de escolha após stent na SCC.

Anticoagulação, fibrilação atrial e pós-ICP

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 50

Na FA elegível para NOAC, o NOAC deve ser preferido ao antagonista da vitamina K.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 50

Anticoagulação de longo prazo na FA com CHA₂DS₂-VASc ≥2 (homens) ou ≥3 (mulheres).

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 50

Pode ser considerada com CHA₂DS₂-VASc ≥1 (homens) ou ≥2 (mulheres).

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Com indicação de anticoagulação após ICP, usar preferencialmente DOAC associado à terapia antiplaquetária.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Após ICP com anticoagulação, o AAS pode ser suspenso após 1 semana, mantendo anticoagulante + clopidogrel, se o risco de trombose for baixo.

Classe IIaNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Terapia tripla (AAS + clopidogrel + anticoagulante) por pelo menos 1 mês se risco de trombose muito alto.

Classe IIbNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Terapia dupla anticoagulante + prasugrel ou ticagrelor em substituição à tripla, se sangramento elevado.

Classe IIINível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 15

Prasugrel e ticagrelor não são recomendados como terapia tripla com AAS e anticoagulante.

Entender melhor — Tabela 51 (pós-angioplastia + FA/outra indicação de ACO)
Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 51

AAS e clopidogrel devem ser administrados pré-procedimento no implante eletivo de stent.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 51

NOAC em dose plena (dabigatrana 150 mg 2×/dia, rivaroxabana 20 mg/dia, apixabana 5 mg 2×/dia ou edoxabana 60 mg/dia) preferencialmente ao AVK, combinado a antiplaquetário.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 51

Doses ajustadas de NOAC conforme critérios de bula, com antiplaquetário simples ou duplo.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 51

Após ICP sem complicações, suspender precocemente (<1 semana) o AAS e manter ACO + clopidogrel se baixo risco de trombose ou se o sangramento prevalecer.

Classe IIaNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 51

Terapia tripla por 1 mês quando o risco de trombose de stent superar o de sangramento.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 51

ACO + ticagrelor como alternativa à tripla em risco moderado a alto de trombose ou resistência ao clopidogrel.

Classe IIbNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 51

Ticagrelor ou prasugrel não são recomendados como parte da terapia tripla com AAS e anticoagulante.

Classe IIINível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 51

Terapia dupla ou tripla com ACO + prasugrel (com ou sem AAS) não é recomendada como alternativa à tripla com clopidogrel.

Note a discrepância do documento: a não recomendação de ticagrelor/prasugrel na terapia tripla aparece como IIb-C na Tabela 51 e III-C na Tabela 15.

Tabela de antiagregação após stent em paciente com ACO: terapia tripla peri-ICP, depois terapia dupla com ACO e clopidogrel e ACO isolado aos 6–12 meses, conforme risco trombótico e de sangramento.
Figura 24 – Antiagregação plaquetária após ICP em pacientes em uso de ACO
ACO: anticoagulação oral; DAPT: dupla antiagregação plaquetária; ICP: intervenção coronária percutânea.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Estratégia padrão
Tripla
ACO + clopidogrel até 12 m
ACO
Alto risco trombótico / baixo sangramento
Tripla 1 m
ACO + clopidogrel até 12 m
ACO
Baixo risco trombótico / alto sangramento
Tripla
ACO + clop. até 6 m
ACO isolado
Tripla = ACO + DAPT (peri-ICP)DuplaACO isolado

Versão didática baseada na Figura 24. Texto (21.2): DAPT a todos durante a ICP até a alta, podendo chegar a 1 mês conforme risco trombótico; clopidogrel + DOAC por 6–12 meses; depois ACO isolado. Na SCC com FA, após 12 meses o ACO isolado é a abordagem padrão.

📚 Evidência que sustenta esta recomendação — AUGUSTUS
Estudo
AUGUSTUS
População
4.614 pacientes com FA e SCA e/ou ICP (fatorial 2×2)
Intervenção
Apixabana vs AVK; AAS vs placebo (todos com P2Y12)
Comparador
—
Principal resultado
Menos sangramento com apixabana; AAS aumentou sangramento sem reduzir eventos isquêmicos
Como influencia a recomendação
Fundamenta DOAC + P2Y12 sem AAS como padrão, com AAS curto (até 30 dias) apenas se risco trombótico alto.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — AFIRE
Estudo
AFIRE
População
2.236 pacientes com FA e DAC estável (35% IAM prévio)
Intervenção
Rivaroxabana isolada
Comparador
Rivaroxabana + antiplaquetário
Principal resultado
Monoterapia não inferior (HR 0,72) em 24 meses
Como influencia a recomendação
Apoia ACO isolado na fase crônica da SCC com FA.
❓ Pergunta-chavePaciente com FA, CHA₂DS₂-VASc 4, ICP eletiva não complicada, baixo risco trombótico: esquema?Ver resposta

DOAC em dose plena + clopidogrel, suspendendo o AAS em até 1 semana IIaB, por 6–12 meses; depois DOAC isolado. Evitar ticagrelor/prasugrel na tripla.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 4.1, 6.5, 19 e 21; Tabelas 15, 28, 29, 50 e 51; Figuras 23 e 24.

10Manejo lipídico

O LDL-C é o principal alvo: relação causal demonstrada por epidemiologia, randomização mendeliana e ensaios clínicos. A diretriz adota metas de LDL-C.

📌 Resumo
  • Meta: LDL-C <50 mg/dL e redução ≥50% do basal IA.
  • <40 mg/dL se 2º evento vascular em até 2 anos em estatina máxima IIbB.
  • Escalonamento: estatina alta intensidade IA → + ezetimiba IB → + iPCSK9 IA.
  • Lp(a): sem fármaco aprovado; TG: estatina primeiro; EPA (etil icosapente) 4 g IIbB; fibrato para risco CV IIIA.

🎯 Qual é a meta?LDL-C na SCC (Tabela 16)

Todos com SCCLDL-C <50 mg/dL + redução ≥50% do basal
I A
2º evento vascular em até 2 anos(em estatina máxima tolerada)
LDL-C <40 mg/dL · IIb B
↓
1 · Estatina de alta intensidadeaté a dose máxima tolerada (I-A)
2 · + Ezetimibase meta não atingida (I-B)
3 · + Inibidor da PCSK9se ainda fora da meta (I-A)

Por que também a redução percentual? Mesmo quem tem LDL <100 mg/dL no primeiro evento se beneficia de redução significativa. Cada ~39 mg/dL de redução ≈ 20–25% menos eventos recorrentes.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 16

Em SCC recomenda-se redução do LDL-C de 50% a partir dos níveis basais, associada a meta abaixo de 50 mg/dL.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 16

SCC com segundo evento vascular em até 2 anos do primeiro, em terapia máxima tolerada com estatina: meta abaixo de 40 mg/dL pode ser considerada.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 16

Prescrever estatina de alta intensidade até a dose máxima tolerada para a meta de LDL-C.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 16

Se a meta não for atingida com a dose máxima tolerada de estatina, a combinação com ezetimiba é recomendada.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 16

Em uso de estatina máxima + ezetimiba sem atingir a meta, a combinação com inibidor da PCSK9 é recomendada.

No PDF, estas recomendações de LDL-C estão dentro da “Tabela 16 – Recomendações para Lipoproteínas Ricas em Triglicerídeos”.

Hipolipemiantes discutidos na diretriz
FármacoMecanismoRedução de LDLEvidência
Estatinas potentesInibição da HMG-CoA redutase~50%Mais potente > menos potente; dose maior > menor
EzetimibaInibe absorção intestinal de colesterol+18–25%IMPROVE-IT (pós-SCA): ↓ eventos; ainda subutilizada
Evolocumabe / alirocumabeAnticorpos anti-PCSK9 (↑ reciclagem do receptor de LDL)~60%FOURIER: LDL mediano 30 mg/dL, ↓15% do composto em 2,2 anos; FOURIER-OLE: seguro até ~5 anos, inclusive LDL <20; “efeito legado”. Custo limita uso
InclisiranasiRNA que inibe síntese hepática de PCSK9; SC a cada 3–6 meses (0, 3 meses e depois semestral)~48–52% (ORION-9/10/11)Desfecho clínico em andamento (ORION-4, término previsto 2026); reações no local da injeção
Ácido bempedoicoInibe síntese de colesterol acima da estatina; pró-droga ativada no fígado (não causa miopatia)~21% (monoterapia em intolerantes: pouco >20%)CLEAR Outcomes: 13,3% vs 11,7% (RRR 13%); ↑ enzimas hepáticas, gota, colelitíase
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — FOURIER / FOURIER-OLE
Estudo
FOURIER / FOURIER-OLE
População
DCV aterosclerótica estabelecida em estatina
Intervenção
Evolocumabe
Comparador
Placebo
Principal resultado
LDL mediano 30 mg/dL; −15% no composto em 2,2 anos; na extensão (6.559 pacientes, ~5 anos) sem aumento de eventos adversos, mesmo com LDL <20; menor morte CV com início precoce
Como influencia a recomendação
Sustenta metas baixas de LDL e a adição de iPCSK9 (I-A) quando estatina + ezetimiba não bastam.
❓ Pergunta-chaveLDL-C de 62 mg/dL em uso de rosuvastatina 40 mg + ezetimiba em paciente com SCC. Próximo passo?Ver resposta

Adicionar inibidor da PCSK9 IA — meta <50 mg/dL (e redução ≥50% do basal) não atingida com estatina máxima + ezetimiba.

Lp(a): quando medir e por quê?

QUANDO MEDIR

Risco muito alto ou DAC precoce familiar

A diretriz cita a Lp(a) (e apoB) como úteis nesses pacientes. A diretriz não estabelece recomendação formal com classe/nível para dosagem de Lp(a).

INTERPRETAÇÃO

Risco genético, linear e causal

Correlação linear com aterosclerose e eventos; associada a estenose aórtica calcificada. Não é modificada por dieta ou exercício.

LIMITAÇÃO TERAPÊUTICA

Sem fármaco aprovado

Seria preciso reduzir 60–100 mg/dL (150–250 nmol/L) para ~20–30% menos risco. Niacina e iPCSK9 (−20–30%) não provaram benefício específico.

EM ESTUDO

Pelacarsen e olpasiran

Lp(a)HORIZON (pelacarsen, ~−80%; Lp(a) >70 mg/dL) e OCEAN (olpasiran, até −90%; >200 nmol/L).

Lipoproteínas ricas em triglicerídeos

Discussão baseada no texto da diretrizSão preditoras fortes e independentes de eventos; o colesterol remanescente é o principal responsável; randomização mendeliana sugere causalidade (também com inflamação). Base: dieta, restrição de álcool e atividade física. Primeira linha farmacológica: estatinas (alvo não HDL/apoB). Pemafibrato em diabéticos com dislipidemia aterogênica: reduzir TG sem reduzir partículas com apoB não reduziu risco → fibratos para risco CV não devem mais ser considerados. REDUCE-IT (EPA purificado): 20% vs 16,2% (RRR 26%, NNT 28); STRENGTH (EPA+DHA) neutro — possível papel do placebo de óleo mineral no REDUCE-IT.
Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 16

Estatina como primeira escolha para reduzir risco CV em SCC com triglicerídeos acima de 200 mg/dL.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 16

SCC com TG acima de 135 mg/dL em estatina e mudança de estilo de vida: ômega-3 (etil icosapente) 4 g/dia pode ser considerado em combinação com estatina.

Classe IIINível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 16

Em uso de estatina com TG acima de 200 mg/dL, fibratos não devem ser considerados para reduzir o risco cardiovascular.

❓ Pergunta-chavePor que a diretriz não recomenda fibrato para reduzir risco CV em quem tem TG >200 mg/dL em estatina?Ver resposta

Porque reduzir TG sem reduzir partículas contendo apoB (pemafibrato, em diabéticos já em estatina) não reduziu eventos. Classe IIIA.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seção 4.2 (4.2.1–4.2.3); Tabela 16.

11Terapias para redução de eventos

Além de antitrombóticos e lípides: bloqueio do SRAA, colchicina, antidiabéticos com benefício CV, controle pressórico, vacinação e estilo de vida.

📌 Resumo
  • iECA (ou BRA se intolerância) de rotina com disfunção de VE, IC e/ou DM IA; em todos com DAC IIaB.
  • Antagonista da aldosterona pós-IAM com FEVE ≤35% e DM ou IC IIaA.
  • Colchicina pode ser considerada IIbB.
  • DM2: iSGLT2 e GLP-1 RA IA.
  • PA: 120–129/70–79 mmHg em adultos IA; não baixar de 120/70.
  • TRH não recomendada IIIC; reabilitação IA.
Terapias modificadoras de prognóstico (síntese)
TerapiaQuem se beneficiaObjetivoClasseNível
AAS 100 mgIAM prévio / revascularizados↓ eventos aterotrombóticosIA
Estatina alta intensidade (+ eze + iPCSK9)Todos com SCCLDL <50 e ≥50%IA
iECA/BRADisfunção de VE, IC, DM↓ morte, IAM, AVC, ICIA
iECA/BRATodos com DAC (rotina)—IIaB
Espironolactona/eplerenonaPós-IAM, FEVE ≤35%, DM ou IC, medicação otimizada↓ morte/eventosIIaA
Sacubitril/valsartanaIC com FEVE ≤35% sintomáticaSubstituir iECA; ↓ hospitalização e morte por ICsem classe na tabela da diretriz
iSGLT2 · GLP-1 RADM2Prevenção secundáriaIA
Colchicina 0,5 mgAlto risco residual apesar do TMO↓ eventos coronarianos recorrentesIIbB
Reabilitação cardíacaSCC↓ mortalidade, IAM, hospitalização; ↑ qualidade de vidaIA
Rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia + AASSCC com elevada carga isquêmica, pesando sangramento↓ ECAMrecomendação textual (seção 19.1), sem classe

Bloqueio do SRAA

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 18

iECA (ou BRA nos intolerantes) de rotina quando há disfunção ventricular e/ou IC e/ou diabetes mellitus.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 18

De rotina em todos os pacientes com DAC.

Classe IIaNível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 18

Bloqueadores da aldosterona em pós-IAM com medicação otimizada, FEVE ≤35% e diabetes ou IC.

Discussão baseada no texto da diretrizEm SCC com FEVE preservada, nem todos os estudos mostraram benefício do iECA; metanálise de 24 estudos: benefício apenas vs placebo, não vs controle ativo, e principalmente com taxas de eventos altas. O texto diz que o iECA em SCC sem IC e sem alto risco “geralmente não é recomendado”, orientando seu uso para meta pressórica — enquanto a Tabela 18 traz “rotina em todos com DAC” como IIa-B. Devem ser considerados com HAS, FEVE <40%, DM ou DRC, salvo contraindicação (insuficiência renal grave, hipercalemia). Antagonistas da aldosterona: cautela com função renal e hipercalemia.

Hipertensão arterial

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 49

Estratégias não farmacológicas como primeira linha em todos os estágios.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 49

Metas de PA na DAC crônica — adultos: PAS 120–129 / PAD 70–79 mmHg; idoso hígido: 130–139 / 70–79; idoso frágil: 140–149 / 70–79.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 49

HAS com IAM recente (<12 meses): betabloqueador e iSRAA como primeira linha.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 49

Com angina: betabloqueadores e/ou BCC di-hidropiridínicos de longa duração.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 49

Adicionar DHP, tiazídico de ação prolongada, antagonista mineralocorticoide e/ou agonista alfa-2 conforme necessário.

Classe IIINível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 49

Uso concomitante de iECA e BRA.

💡 Pérola prática

No texto (cap. 18) o objetivo é PAS <130 e PAD <80 mmHg (IIa-B), evitando <120/70 (curva J — CLARIFY). Começar com combinação dupla imediata (iSRAA + BB ou BCC); tripla com tiazídico; 4º fármaco = espironolactona; depois alfa-2 agonista.

🫀 DAC + diabetes

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 20

DM2: inibidores de SGLT2 para prevenção secundária de eventos ateroscleróticos recorrentes.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 20

DM2: agonistas do receptor de GLP-1 para prevenção secundária.

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 20

DM2: combinação de iSGLT2 e GLP-1 RA deve ser considerada para reduzir risco residual.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 20

DM2 sem IC, já em iSGLT2 + GLP-1 RA: adição de pioglitazona pode ser considerada.

PIOGLITAZONA

PROactive e IRIS

Redução de eventos ateroscleróticos (desfecho secundário no PROactive; primário no IRIS pós-AVC), mas +2% hospitalização por IC → não usar na IC.

iSGLT2

Mais IC, menos aterosclerose

Efeito precoce (~30 dias) na IC; proteção aterosclerótica confirmada em metanálises, possivelmente subestimada.

GLP-1 RA

Claro benefício aterosclerótico

Em prevenção secundária com DM2 e também em obesos sem DM2 (−1,5% absoluto; HR 0,80). Associações desde o início são razoáveis.

Meta glicêmica citada no texto: HbA1c <7% para a maioria dos adultos (seção 2.1.3). Na angina do diabético, a ranolazina deveria ser preferida (capítulo 12). Metformina é contraindicada na DRC estágio ≥3 (seção 16.4).

Colchicina

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 19

A adição de colchicina pode ser considerada para reduzir os eventos coronarianos agudos recorrentes.

RACIONAL E BENEFÍCIO

Anti-inflamatório (tubulina, NLRP3)

LODOCO-2 (5.522 DAC crônica, 0,5 mg/dia): HR 0,69 no composto; metanálises favoráveis com heterogeneidade.

RISCOS E SELEÇÃO

Índice terapêutico estreito

Morte não CV 0,2% maior no LODOCO-2 (HR 1,51; IC 0,99–2,31); metabolizada por CYP3A4/P-gp (interações). Limitar a quem permanece em alto risco apesar do TMO. CLEAR SYNERGY (pós-IAM agudo): sem benefício.

Entender melhor — outras terapias anti-inflamatórias

CIRT (metotrexato): interrompido por futilidade, com toxicidade. CANTOS (canaquinumabe, IL-1β, IAM prévio e PCR-us ≥2 mg/L): HR 0,85, mas custo impediu adoção. Ziltivekimabe (anti-IL-6) reduziu marcadores inflamatórios em DRC; ensaio fase 3 em andamento (o PDF nomeia os estudos como RESCUE e ZEUS).

Outras medidas com impacto em eventos

Classe IIINível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 17

Terapia de reposição hormonal não é recomendada para redução de risco em mulheres na pós-menopausa.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Seção 9.1.2

Reabilitação cardíaca baseada em exercício para portadores de SCC.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 36.2

Aeróbico: 150–300 min/semana de moderada intensidade ou 75–150 min/semana de alta intensidade.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 36.2

Fortalecimento muscular de moderada ou alta intensidade, grandes grupos musculares, 2 dias/semana.

VACINAS (Tabela 36.1)

Influenza, pneumococo, covid-19

>60 anos: influenza quadrivalente de alta dose preferível. Pneumocócica conjugada (reforço >60 anos, preferencialmente VPC20) + VPP23 (reforço em 5 anos); iniciar pela conjugada, intervalo mínimo de 2 meses. Covid-19: esquema primário + reforço anual.

DIETA (Quadro 8)

Padrões à base de vegetais

Frutas/hortaliças 400 g/dia; cereais integrais ≥50%; açúcar <10% (idealmente 5%); sem gordura trans; sal 5 g/dia; álcool <100 g etanol/semana — e o álcool não deve ser recomendado como proteção CV.

PESO E OUTROS

Peso, tabaco, psique, adesão

Perda de 5% melhora parâmetros metabólicos; déficit ≥500 kcal/dia; cintura ≥102 cm (H) / ≥88 cm (M). Tabagismo ativo/passivo, vapes e poluição aumentam risco. Depressão é fator de risco independente; ~40% têm depressão/ansiedade.

❓ Pergunta-chavePaciente com SCC, FEVE 55%, normotenso, sem DM nem DRC: iECA é obrigatório?Ver resposta

Não é obrigatório. A Tabela 18 traz iECA de rotina em todos com DAC como IIaB; o texto ressalta que, sem IC e sem alto risco, o benefício é incerto e o uso é orientado para metas pressóricas. Com disfunção de VE, IC ou DM → IA.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 4.3–4.6, 7, 8, 9, 10, 11 e 18; Tabelas 17–20, 36.1, 36.2 e 49; Quadro 8.

12💊 Como tratar a angina?

Tratamento clínico ótimo = controla satisfatoriamente os sintomas e previne eventos, com máxima adesão e mínimos efeitos adversos. Não existe antianginoso “ideal” universal.

📌 Resumo
  • Individualizar a escolha inicial IC; combinar mecanismos diferentes IC; reavaliar a cada 30 dias enquanto sintomático IC.
  • Nitrato de ação curta para alívio imediato IB.
  • BB, BCC, trimetazidina e/ou ranolazina: opções em mono ou combinação IB.
  • BB (bisoprolol, carvedilol, succinato de metoprolol) com FEVE ≤40% IA.
  • Ivabradina: disfunção de VE e FC ≥70 IIaB; sem disfunção, FC ≥70 e ritmo sinusal IIbB.
  • Nitrato de longa ação em monoterapia IIIC.

🛡️ Redução de eventos

AAS/P2Y12, estatina + ezetimiba + iPCSK9, iECA/BRA quando indicados, iSGLT2/GLP-1 RA, reabilitação. Betabloqueador reduz mortalidade na ICFER e pós-CRM; após IAM com FEVE preservada o REDUCE-AMI não mostrou benefício; em SCC sem ICFER ou sem IAM no último ano, sem benefício prognóstico.

≠

💊 Controle de sintomas

Nitratos, betabloqueadores, BCC, ivabradina, ranolazina, trimetazidina. Melhoram angina, isquemia e tolerância ao esforço, mas BCC, ivabradina, ranolazina, trimetazidina e alopurinol não reduziram desfechos duros na SCC; nitrato de longa ação associou-se a mais eventos.

Recomendações (Tabela 21)

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

A escolha inicial do antianginoso deve ser individualizada: comorbidades, perfil hemodinâmico, tolerância, interações, preferências do médico e do paciente e disponibilidade.

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Combinar antianginosos com mecanismos diferentes é mais efetivo que a monoterapia.

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Enquanto sintomático, avaliar a cada 30 dias com ajuste progressivo.

Classe IIaNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Telemedicina pode ser oferecida para reavaliação em intervalos menores.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Bisoprolol, carvedilol e succinato de metoprolol são recomendados na angina com FEVE ≤40%.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Nitratos de ação curta para alívio imediato da angina de esforço.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, trimetazidina e/ou ranolazina são opções (mono ou combinação).

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Ivabradina deve ser considerada com disfunção ventricular e FC ≥70 bpm apesar do betabloqueador ou quando este é contraindicado.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Ivabradina pode ser considerada sem disfunção ventricular, com FC ≥70 bpm e ritmo sinusal.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Nitratos de ação prolongada podem ser considerados quando o paciente permanece sintomático com outros antianginosos.

Classe IIINível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 21

Nitratos de ação prolongada não devem ser usados em monoterapia, salvo impossibilidade de outros antianginosos.

Antianginosos, um a um

Antianginosos na diretriz (capítulo 5)
ClasseMecanismoQuando utilizarQuando evitarPrincipal vantagem / dado prático
Betabloqueadores↓ FC e contratilidade, ↑ diástole, evita pico pressóricoFC alta, HAS, FEVE ≤40% (bisoprolol, carvedilol, succinato de metoprolol), FA, pós-IAMAngina vasoespástica; asma/DPOC broncorreativa; BAV 2º grau; FC ≤55; cautela com verapamil/diltiazem; DAP (evitar/cautela)Alvo FC 55–60 bpm em repouso; retirar gradualmente. Bisoprolol: único não contraindicado na DPOC
TrimetazidinaInibe 3-cetoacil-CoA tiolase (↓ β-oxidação, ↑ glicose)Duplo produto controlado e ainda sintomático; PA ou FC baixas; IC (adjuvante); DM; FATFG <30 mL/min/1,73 m²Sem efeito hemodinâmico. 35 mg 2×/dia ou 80 mg 1×/dia; TFG <60 → 35 mg 1×/dia. ATPCI: sem parkinsonismo e sem redução de eventos
Verapamil↓ condução AV, inotrópico negativo, vasodilataçãoFC alta, vasoespasmoAssociação com BB não recomendada (bloqueio); disfunção de VE; ivabradinaBoa segurança, risco de bloqueio, bradicardia e IC
DiltiazemSimilar ao verapamil, menor depressão miocárdicaAngina de esforço e vasoespástica; hipertireoidismoDisfunção de VE; ivabradina; cautela com BB (vigiar FC)Bem tolerado; vantagens sobre verapamil
Di-hidropiridínicos (nifedipino de ação prolongada, anlodipino)Vasodilatação; ↑ FC reflexaHAS, FC baixa, vasoespasmo, combinação com BBFA (↑ FC); hipotensão; DAP crítica; cautela na disfunção de VEAssociação com BB mais eficaz; edema de MMII
IvabradinaInibe corrente If do nó sinusalFC ≥70 em ritmo sinusal; disfunção de VE com FC ≥70 apesar de BB; PA baixa com FC alta; microvascularFC <70 bpm; FA (inefetiva, ↑ risco de FA); IAM; hepatopatia grave; verapamil/diltiazem; inibidores fortes do CYP3A4; drogas que ↑ QTcInicial ≤5 mg 2×/dia; manutenção ≤7,5 mg 2×/dia; FC <50 → 2,5 mg 2×/dia; suspender se sem resposta em 3 meses
RanolazinaInibe corrente tardia de sódio (↓ sobrecarga de cálcio)Adição a outros antianginosos; PA ou FC baixas; DM (droga preferida); FA paroxística; microvascularInsuficiência hepática ou renal (TFG <30), QTc longo ou drogas que o prolongam; monoterapia sem benefício500 mg 2×/dia → 1.000 mg 2×/dia; sinvastatina ≤20 mg; ↑ digoxina; ↑ por cetoconazol, diltiazem, verapamil; checar QTc
Nitratos de ação curta (dinitrato de isossorbida, propatilnitrato SL)Vasodilatação coronária e periférica (NO)Alívio imediato e profilaxia situacional (esforço, sexo, refeições, frio)CMH obstrutiva, estenose aórtica grave, inibidores da PDE-5Repetir a cada 5 min; máx. 15 mg em 15 min (isossorbida); usar sentado
Nitratos de longa açãoIdemAdjuvante se sintomático; vasoespasmo persistenteMonoterapia (III-C); mesmas contraindicaçõesIntervalo livre de 10–14 h (tolerância); retirada gradual; associação a mais eventos
AlopurinolInibe xantina oxidase——600 mg melhorou isquemia em pequenos estudos; grande ECR (>5 mil) sem redução de eventos nem melhora de angina/qualidade de vida
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — SIGNIFY · BEAUTIFUL · SHIFT (ivabradina)
Estudo
SIGNIFY · BEAUTIFUL · SHIFT (ivabradina)
População
Angina com FEVE preservada (SIGNIFY) ou deprimida (BEAUTIFUL); IC com FEVE reduzida (SHIFT)
Intervenção
Ivabradina
Comparador
Placebo
Principal resultado
Sem redução de desfechos na angina; SHIFT: ↓ mortalidade e hospitalização por IC. Sinal de dano no subgrupo com angina limitante do SIGNIFY atribuído a dose alta (10 mg 2×/dia), FC-alvo baixa (60) e uso com BCC não DHP
Como influencia a recomendação
Explica o limite de dose (≤7,5 mg 2×/dia), a contraindicação com diltiazem/verapamil e a classe IIa apenas com disfunção de VE.
❓ Pergunta-chaveNitrato sublingual: sentado, deitado ou em pé?Ver resposta

Sentado. Em ortostase há risco de síncope; em decúbito aumenta o retorno venoso e a pré-carga. Dose pode ser repetida a cada 5 min até alívio ou até 15 mg em 15 min (dinitrato de isossorbida).

Individualização do tratamento antianginoso

Quadro da abordagem brasileira para tratamento personalizado da angina por FE (≥50% ou <50%), PA (≥ ou <120/70) e FC (≥ ou <70), com antianginosos preferenciais em verde e associáveis em azul, além de INOCA (doença microvascular e vasoespasmo).
Figura 17 – Abordagem brasileira para tratamento personalizado da angina
Abordagem para tratamento personalizado da angina, considerando fração de ejeção, pressão arterial, frequência cardíaca e mecanismos por trás da isquemia miocárdica. Os antianginosos em cada quadro estão dispostos em ordem alfabética. Em verde, estão os antianginosos preferenciais em cada situação descrita; em azul, estão os antianginosos que podem sem associados para efeito aditivo no controle dos sintomas. BCC: bloqueadores de canais de cálcio; FC: frequência cardíaca (em bpm); FE: fração de ejeção; INOCA: isquemia sem obstrução das artérias coronárias (ischemia with no obstructive coronary arteries); PA: pressão arterial (em mmHg). *Não devem ser utilizados em associação com ivabradina e BCC di-hidropiridínicos. **Não utilizar em FC ≤ 55 bpm. As cores dessa figura não representam os graus de recomendação e níveis de evidência.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto ampliada (útil no celular)
PreferencialPode ser associadoFármacos em ordem alfabética. Cores não representam classe/nível.

FE ≥ 50%

FC ≥70 · PA ≥120/70
Betabloqueadorou BCC não DHP*
BCC DHPIvabradinaNitratoRanolazinaTrimetazidina
FC ≥70 · PA <120/70
Ivabradina
RanolazinaTrimetazidina
FC <70 · PA ≥120/70
BCC DHP
Betabloqueador**NitratoRanolazinaTrimetazidina
FC <70 · PA <120/70
RanolazinaTrimetazidina
FE <50%
Betabloqueador**
Ivabradina (FC ≥70)TrimetazidinaBCC DHP (cautela)
Diltiazem/verapamil: não
INOCA · doença microvascular
BetabloqueadorBCCIvabradina
RanolazinaTrimetazidina
INOCA · vasoespasmo
Bloqueador de canais de cálcioNitrato de ação rápida (crise)
Nitrato de longa duração
Betabloqueador: contraindicado

*Não associar com ivabradina e BCC di-hidropiridínico. **Não utilizar com FC ≤55 bpm. Versão didática baseada na Figura 17 e no texto da seção 5.11 da Diretriz SBC 2025: a extração do PDF não preserva a posição de cada fármaco nos quadros; a distribuição acima segue as regras explícitas do texto — confira a figura original.

SE FC ALTA (>70)

Reduzir FC

BB, verapamil/diltiazem ou ivabradina. Ivabradina + BB é segura se FC segue >70. Ivabradina + diltiazem/verapamil: contraindicada. BB + verapamil/diltiazem: cautela (BAV). Reduzir dose se FC <50.

SE FC BAIXA (<55)

Não usar redutores de FC

Preferir DHP e nitratos (taquicardia reflexa); considerar ranolazina e trimetazidina.

SE PA ALTA

BB e DHP

Não reduzir abaixo de 120/70 mmHg (curva J; CLARIFY) — não se sabe se vale para revascularizados.

SE PA BAIXA

Evitar BCC, nitratos e BB

Preferir ivabradina (se FC alta), trimetazidina ou ranolazina. CLARIFY: PAS <120 e PAD <70 ↑ morte CV, IAM e AVC.

SE DISFUNÇÃO DE VE / IC

Betabloqueador

Evitar BB com atividade simpatomimética intrínseca; ivabradina se FC >70 na dose máxima de BB (SHIFT); não usar diltiazem/verapamil; DHP com cautela; trimetazidina pode ser benéfica.

SE FA

BB e BCC não DHP

Ivabradina inefetiva e ↑ risco de FA (RR 1,15); evitar DHP e nitratos (↑ FC); ranolazina e trimetazidina podem ser associadas.

SE DIABETES

Ranolazina preferida

Reduz HbA1c e angina; trimetazidina pode ajudar; carvedilol/nebivolol melhoram sensibilidade à insulina.

SE DRC

TFG <30

Não prescrever ranolazina nem trimetazidina; sem contraindicação às demais.

SE DPOC/ASMA

Beta-1 seletivo

Bisoprolol é o único BB não contraindicado na DPOC; asma/DPOC broncorreativa contraindicam BB → ivabradina, diltiazem ou verapamil. Com HP e disfunção de VD: sem BCC não DHP e sem BB não seletivo.

SE DAP

BB com cautela

Evitar vasodilatadores (BCC/nitratos) na isquemia crítica; preferir ivabradina, ranolazina e trimetazidina.

SE BAV

Sem BB e BCC não DHP

Clara contraindicação no BAV de 2º grau: usar outros agentes.

SE HIPERTIREOIDISMO

Propranolol

BB não seletivo, diltiazem, verapamil ou ivabradina (se BB contraindicado); evitar vasodilatadores.

🩺 Na práticaMulher de 70 anos, SCC, FEVE 60%, PA 108/64 mmHg, FC 58 bpm em uso de BB, ainda com angina CCS II: não aumentar BB nem acrescentar BCC/nitrato (PA e FC baixas). Associar ranolazina ou trimetazidina (conferindo TFG e QTc) e reavaliar em 30 dias.
❓ Pergunta-chaveQual a lógica de combinar antianginosos precocemente?Ver resposta

Pacientes têm comorbidades e mecanismos de angina sobrepostos; combinar 2–3 fármacos de mecanismos complementares reduz frequência de angina e consumo de nitrato e aumenta o tempo até angina/isquemia IC. A resposta deve ser reavaliada em 30 dias; efetividade plena exige 3–6 meses.

❓ Pergunta-chavePor que não usar ivabradina em paciente com FA?Ver resposta

Pela seletividade pela corrente If do nó sinusal, é inefetiva na FA e pode aumentar o risco dessa arritmia (metanálise: RR 1,15). Preferir BB e BCC não DHP.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, capítulo 5 (5.1–5.11); Tabela 21; Figura 17 e Figura Central.

13🫀 Quando o tratamento clínico não é suficiente? Revascularização

Dois pilares distintos: revascularizar para melhorar prognóstico (subgrupos anatômicos específicos) e para controlar sintomas (angina limitante apesar do TMO).

📌 Resumo
  • Prognóstico: CRM I-A em multiarterial com DA proximal e SYNTAX >23, multiarterial com disfunção de VE e lesão de TCE.
  • Sintomas: ICP I-A com estenose significativa e angina típica limitante sob terapia otimizada.
  • ICP não deve ser rotina para reduzir eventos na totalidade da SCC.
  • SYNTAX para estimar complexidade IIbB; Heart Team.

1 · Revascularizar para PROGNÓSTICO

  • Doença multiarterial (sobretudo DA proximal, SYNTAX >23)
  • Disfunção ventricular esquerda
  • Lesão de tronco da coronária esquerda
  • Diabetes com DAC multiarterial
  • Maior benefício demonstrado com CRM
≠

2 · Revascularizar para SINTOMAS

  • Angina limitante e prejuízo da qualidade de vida apesar do TMO tolerado
  • Correlação acurada entre sintoma, lesão e isquemia
  • Maior preditor de melhora após ICP: angina típica em TMO (ORBITA-2)
  • ICP ou CRM

ICP como estratégia prognóstica e sintomática

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 27

Controle de sintomas em estenoses coronarianas significativas e angina típica limitante sob terapia otimizada.

Classe IIaNível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 27

Doença multiarterial com morfologia apropriada para ICP (complexidade anatômica menor ou moderada).

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 27

Acometimento significativo do TCE com morfologia apropriada para ICP (complexidade menor ou moderada).

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 27

Estenose luminal com acometimento significativo do fluxo aferido por método invasivo.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 27

Estenose luminal não significativa com características de vulnerabilidade por imagem intravascular.

Discussão baseada no texto da diretrizMASS (10 anos, multiarteriais): tratamento clínico com mais morte cardíaca e IAM que a CRM. ISCHEMIA: subgrupo com maior severidade anatômica teve menos óbito/IAM em 4 anos com estratégia invasiva (−6,3%), menos IAM espontâneo (HR 0,53) — e IAM espontâneo dobra o risco de morte. Metanálise antiga (25 ECR, 19.806 pacientes) mostrou menor mortalidade CV, mas estudos dos últimos 10–15 anos não mantêm o resultado, exceto para CRM. Conclusão da diretriz: ICP na SCC é indicada para territórios com obstrução significativa e repercussão hemodinâmica; redução de eventos só ocorre em subgrupos específicos.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — ORBITA-2 e ORBITA-STAR
Estudo
ORBITA-2 e ORBITA-STAR
População
Angina estável com isquemia, tratados de forma cega (placebo-controlado)
Intervenção
ICP
Comparador
Procedimento simulado
Principal resultado
ORBITA-2: ICP reduziu sintomas, mas ~60% continuaram com sintomas apesar da eliminação da isquemia; gravidade dos sintomas não se relacionou com isquemia, FFR ou estenose. ORBITA-STAR: quando a insuflação do balão reproduzia a angina habitual, a chance de resolução após ICP era maior
Como influencia a recomendação
Antes de indicar ICP para sintomas, confirme que a queixa é realmente angina e correlacione sintoma, anatomia e isquemia.

Escores de complexidade anatômica

Tabela 22 – Características angiográficas que aumentam a complexidade
Doença multivascular
Grande área de miocárdio em risco (TCE ou DA proximal)
Doença difusa em vaso-alvo
Oclusão crônica
Bifurcações complexas ou trifurcações
Calcificações severas
Tortuosidade acentuada
Comprimento total da lesão >20 mm
Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 23

Em DAC multiarterial, avaliar a complexidade (como o escore SYNTAX) pode ser útil para estimar risco de eventos e orientar a revascularização.

SYNTAX

Para que serve

Quantifica carga aterosclerótica e complexidade anatômica; preditor independente de ECAM e mortalidade após ICP. Não estratifica risco após CRM. Limitações: cálculo complexo e variabilidade interobservador.

SYNTAX II / II-2020

Anatomia + clínica

Incorpora variáveis clínicas; discriminação modesta, mas úteis na decisão. Cortes usados nos estudos: >23 (multiarterial) e >32 / <32 (TCE).

Cirurgia de revascularização miocárdica

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 35

Doença de múltiplos vasos principais envolvendo a DA com SYNTAX >23, FEVE preservada, com envolvimento proximal da DA.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 35

Doença de múltiplos vasos principais e disfunção ventricular esquerda.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 35

Lesão de tronco da artéria coronária esquerda.

Tabela 34 – Subgrupos com indicação de CRM
Anatomia / extensãoEspecialmente com
Doença de múltiplos vasos · SYNTAX >23 · DA proximal · Lesão de TCEDiabetes · Disfunção de VE · IAM sem supra de ST
Discussão baseada no texto da diretrizO evento agudo decorre sobretudo da ruptura/erosão de placas leves a moderadas, distantes da estenose grave. A CRM, com enxertos distais, protege contra lesões atuais e futuras; a ICP trata apenas a lesão estável.
Quatro curvas de mortalidade em longo prazo: SYNTAX (três artérias, 10 anos), FREEDOM (diabéticos, 7,5 anos), STICH (cardiomiopatia isquêmica, 10 anos) e EXCEL (tronco, 5 anos).
Figura 18 – Redução de mortalidade por todas as causas em longo prazo
EXCEL: Evaluation of XIENCE Everolimus Eluting Stent Versus Coronary Artery Bypass Surgery for Effectiveness of Left Main Revascularization; FREEDOM: Future Revascularization Evaluation in Patients with Diabetes Mellitus: Optimal Management of Multivessel Disease; STICH: Surgical Treatment for Ischemic Heart Failure; SYNTAX: Synergy Between PCI with Taxus and Cardiac Surgery.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
MULTIARTERIAL

SYNTAX, MASS-II, FAME-3

SYNTAX 5 anos: ICP preditor independente de morte cardíaca (+40% em 3 vasos). MASS-II: CRM −44% no composto vs TMO; ICP = TMO. FAME-3: ICP guiada por FFR não atingiu não inferioridade vs CRM em 1 ano; 3 anos 18,6% vs 12,5%; 5 anos sem diferença em morte/AVC/IAM, com mais IAM e revascularização na ICP.

DIABETES

BARI 2D, FREEDOM

BARI 2D: no estrato CRM, menos eventos (22,4% vs 30,5%). FREEDOM: CRM superior (menos morte e IAM, mais AVC). Metanálise de 28.846: mais mortalidade em 5 anos com ICP.

DISFUNÇÃO DE VE

STICH/STICHES

10 anos: menor morte total, CV, súbita e por IAM com CRM + TMO. FEVE ≤35% passível de CRM → encaminhar prontamente.

TRONCO

SYNTAX, EXCEL, NOBLE

SYNTAX >32: CRM. SYNTAX <32: NOBLE (MACCE 28% vs 19%, favorável à CRM; mortalidade 9% vs 9%); EXCEL (mortalidade 13,0% vs 9,9%). Grupo ESC/EACTS 2022: SYNTAX 0–32 → CRM I-A; ICP IIa-A.

Dois fluxogramas para revascularização: lesão de tronco ≥50% e DAC multiarterial, considerando alto risco cirúrgico, leitos distais, escore SYNTAX e FEVE, com indicações de CRM e ICP e Heart Team.
Figura 19 – Para redução de morte cardiovascular, especialmente em diabéticos, essa é a orientação inicial para indicar revascularização miocárdica conforme a anatomia e as variáveis básicas de avaliação clínica e de exames habituais de avaliação da fração de ejeção do ventrículo esquerdo
CRM: cirurgia de revascularização do miocárdio; DA: descendente anterior; DAC: doença arterial coronariana; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; ICP: intervenção coronária percutânea; SYNTAX: Synergy between PCI with Taxus and Cardiac Surgery; TCE: tronco da coronária esquerda.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Cenário ALesão de TCE ≥50% ou “tronco-equivalente”
Cenário BDAC multiarterial
↓
Variáveis consideradas na árvore da figura
Alto risco cirúrgico?Artéria derradeira?Leitos distais adequados?Escore SYNTAX >33?FEVE <50%?DA proximal?Oclusão total crônica?
↓
HEART TEAM
↓
CRMClasse I
ICPClasse IIa
ICPClasse IIb

Representação dos elementos da Figura 19. A extração de texto do PDF não permite reconstruir com segurança cada ramo SIM/NÃO; por isso não se reproduz a árvore completa aqui — consulte a figura original para o caminho exato. Leitura coerente com o texto: CRM favorecida com maior complexidade (SYNTAX elevado), FEVE reduzida, DA proximal e leitos distais adequados; ICP como alternativa quando o risco cirúrgico é alto ou a anatomia é favorável.

❓ Pergunta-chaveDiabético com DAC triarterial, SYNTAX 28, FEVE 50%, bom candidato cirúrgico: ICP ou CRM?Ver resposta

CRM. Múltiplos vasos com DA proximal e SYNTAX >23 = IA; diabetes reforça (FREEDOM: menor mortalidade com CRM; SYNTAX: diferença de morte por IAM maior em DM, 3 vasos e SYNTAX >23).

❓ Pergunta-chaveQual o papel da CRM no alívio da angina em comparação à ICP?Ver resposta

Ambas melhoram a angina no 1º mês (recuperação mais rápida com ICP), mas a partir de 6 meses o alívio é melhor após CRM, com menor uso de antianginosos; benefício maior com SYNTAX alto (subestudo SYNTAX). No FREEDOM, vantagem da CRM em 1–2 anos; no NOBLE, mais angina com ICP em 5 anos.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 6.1, 6.4 e 6.7; Tabelas 22, 23, 27, 34 e 35; Figuras 18 e 19.

14🧪 A lesão é realmente funcionalmente significativa? FFR, iFR e imagem intravascular

Fisiologia invasiva para decidir se tratar; imagem intravascular para decidir como tratar (e, no tronco, também se tratar).

📌 Resumo
  • Angina/equivalente, sem avaliação prévia de isquemia, estenose intermediária → fisiologia invasiva antes da ICP IA.
  • FFR ≤0,80 = isquemia significativa; nos ensaios: FFR <0,80 ou iFR <0,89.
  • IVUS em TCE IIaB; imagem em estenoses intermediárias IIbB; FFR preferida para intermediárias.
  • IVUS/OCT para guiar ICP complexa IA; baixa complexidade IIbB.

ConceitoFFR = Pd / Pa durante hiperemia máxima

Esquema de artéria com estenose: pressão aórtica proximal (Pa) e distal (Pd); FFR é a razão Pd sobre Pa Pa (aorta / proximal) Pd (distal à lesão) estenose → fluxo →
FFR ≤0,80Isquemia significativa → justifica revascularização
FFR >0,80Adiar intervenção com segurança
iFR, dPR, RFR, DFRÍndices não hiperêmicos (sem adenosina); iFR <0,89 nos ECR

Representação gráfica do conceito descrito na seção 6.2.1.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 24

Na doença coronariana crônica com angina ou equivalente, sem avaliação prévia de isquemia e com estenoses angiograficamente intermediárias, recomenda-se avaliação funcional invasiva antes de prosseguir com a ICP.

Classe IIaNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 24

A medição da resistência microcirculatória deve ser considerada com sintomas persistentes e coronárias angiograficamente normais ou estenoses moderadas com FFR e índices não hiperêmicos preservados.

Discussão baseada no texto da diretrizFFR é o padrão atual para estenoses de grau intermediário (geralmente 40–70%) sem isquemia em testes não invasivos, ou em multiarteriais. Índices derivados da angiografia (QFR/μFR) dispensam fio de pressão e adenosina; o QFR/μFR é o único prospectivamente validado (FAVOR III China: 5,8% vs 8,8% em 1 ano; HR 0,65).
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — FAME-2
Estudo
FAME-2
População
DAC crônica com estenose ≥50% e FFR ≤0,80
Intervenção
ICP + TMO
Comparador
TMO
Principal resultado
↓ composto de morte, IAM ou revascularização urgente, sustentado por menos revascularização urgente e IAM espontâneo em 5 anos
Como influencia a recomendação
Base da ICP guiada por fisiologia (I-A/I-B) e da estratégia focada apenas nas lesões isquêmicas.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — DEFINE-FLAIR e iFR-SWEDEHEART
Estudo
DEFINE-FLAIR e iFR-SWEDEHEART
População
Estenoses intermediárias
Intervenção
Revascularização guiada por iFR (<0,89)
Comparador
Guiada por FFR (<0,80)
Principal resultado
MACE em 1 ano 6,8% vs 7,0% (não inferior); SWEDEHEART 5 anos 21,5% vs 19,9% (HR 1,09)
Como influencia a recomendação
Índices não hiperêmicos são alternativas aceitáveis à FFR.
❓ Pergunta-chaveUma estenose angiográfica de 60% significa necessariamente isquemia?Ver resposta

Não. Estenoses intermediárias podem ou não limitar o fluxo; a coronariografia é um luminograma. Sem isquemia prévia documentada, faça FFR/iFR antes da ICP IA.

❓ Pergunta-chaveQuando uma lesão intermediária deve ser avaliada com FFR/iFR?Ver resposta

Quando o paciente tem angina ou equivalente e não há avaliação prévia de isquemia (ou há achados não invasivos indisponíveis/inconsistentes), especialmente em multiarteriais, para identificar as lesões realmente limitantes e simplificar ou evitar intervenções.

Imagem intravascular: diagnóstico × guia da intervenção

🔎 Diagnóstico / avaliação da estenose

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 25

IVUS deve ser considerado para avaliar a gravidade de estenoses em tronco de coronária esquerda.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 25

Imagem intracoronária (IVUS ou OCT) pode ser considerada na avaliação de estenoses intermediárias.

FFR deve ser preferida para estenoses intermediárias (fora do TCE).

≠

🛠️ Guia da ICP

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 26

IVUS ou OCT devem ser utilizados para guiar ICP complexa*.

Classe IIbNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 26

IVUS ou OCT podem ser considerados para guiar ICP de baixa complexidade.

*TCE, bifurcações verdadeiras com grande área em risco, falha de stent, lesões longas. Cabe ao operador julgar urgência, capacidade do cateter cruzar a lesão e aptidão técnica.

Valores de corte de área luminal mínima (ALM) citados
ContextoCritério
Não tronco (IVUS × FFR, registro)ALM <2,4 / <2,7 / <3,6 mm² para vasos <3,0 / 3,0–3,5 / >3,5 mm
IVUS vs FFR (ECR, lesões 40–70%)ICP se ALM ≤3 mm² ou 3–4 mm² com carga de placa >70% — IVUS não inferior à FFR em 24 meses
OCT vs FFR (unicêntrico, n = 350)Área de estenose ≥75%, ou 50–75% com ALM <2,5 mm², ou ruptura de placa
Tronco (IVUS)Revascularizar se ALM <6 mm²; adiar com ≥6 mm² (sobrevida semelhante em 2 anos); adiamento favorável com >7,5 mm²; asiáticos: 4,5–4,8 mm²
💡 Pérola prática

IVUS (resolução axial ~150 µm) vs OCT (10–15 µm). Na falência de stent, a imagem esclarece o mecanismo: hipoexpansão, dissecção de borda, cobertura incompleta, subdimensionamento, proliferação neointimal, malaposição, encurtamento ou fratura. Em lesões em série e ponte miocárdica, o IVUS supre limitações da fisiologia.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.7, 6.2 e 6.3; Tabelas 24, 25 e 26.

15Angina microvascular, INOCA/ANOCA e vasoespasmo

“Doença isquêmica cardíaca” (DIC) é o termo mais adequado: inclui DAC aterosclerótica, INOCA, ANOCA, MINOCA, dissecção espontânea, doença microvascular, vasoespasmo e embolia/trombose coronária.

📌 Resumo
  • ~2/3 das mulheres e ≥1/3 dos homens com isquemia não têm DAC obstrutiva.
  • DMV: sintomas + ausência de obstrução + isquemia objetiva + função microvascular alterada (FFR >0,80; RFC <2,0; IMR >25).
  • Vasoespasmo: acetilcolina intracoronária; BCC são as drogas preferidas; BB contraindicados.
  • Tratamento estratificado por teste invasivo melhora angina (CorMiCa).
Siglas que você precisa dominar
ANOCAAngina with no obstructive coronary artery disease — angina sem obstrução coronária.
INOCAIschemia with no obstructive coronary arteries — isquemia documentada sem obstrução (estenoses <50%); mais comum em mulheres de 45–65 anos; associa-se a angina recorrente, hospitalizações, coronariografias repetidas e eventos.
MINOCAInfarto sem obstrução: vasoespasmo, disfunção microvascular, trombose/embolia, ruptura de placa, DEAC. 5–10% dos IAM; diagnóstico transitório — buscar a causa.
CMD / DMVDisfunção/doença microvascular coronariana: remodelamento estrutural (↓ condutância) e/ou distúrbio vasomotor arteriolar.
VPCVasoespasmo coronariano: vasoconstrição reversível focal ou difusa; mais prevalente em mulheres de 40–70 anos.

Seções 2.2.7, 6.2.4 e 12.1.4Como diagnosticar INOCA no laboratório de hemodinâmica

Angina + isquemia em prova funcionalAngioTC/cateterismo sem lesões obstrutivas (>50%)
↓
1 · Afastar estenose epicárdica funcionalmente significativaFFR >0,80
↓
RFC <2,0Reserva de fluxo reduzida (termodiluição + pressão)
IMR ≥25 (texto: >25 para decisão)Índice de resistência microvascular elevado
Teste de acetilcolinaEspasmo microvascular (angina + alteração de ECG sem espasmo epicárdico) ou espasmo epicárdico

A diretriz cita “IMR ≥25” (seção 2.2.7) e “IMR >25 unidades” / “IRM >25” (seções 6.2.4 e 12.1.4).

Angina vasoespástica × angina microvascular (síntese didática)
VasoespásticaMicrovascular
MecanismoVasoconstrição reversível epicárdica (focal/difusa) ou microvascularRemodelamento estrutural e/ou distúrbio vasomotor arteriolar
DiagnósticoTeste provocativo com acetilcolina intracoronária (mulheres respondem a doses menores)RFC <2,0, IMR >25 com FFR >0,80; PET/CZT/RMC não invasivos
Tratamento preferidoBCC (previnem espasmo em ~90%); nitrato de ação curta na crise; nitrato de longa ação se sintomático (uso intermitente); altas doses de BCC na refratáriaSem classe específica comprovada: redução de FC (BB, diltiazem/verapamil, ivabradina) + ranolazina ou trimetazidina; BB se hiperatividade adrenérgica; imipramina/antagonistas da adenosina se hiperalgesia
EvitarBetabloqueadores; drogas ilícitas, anfetaminas, gás butano, álcool, antienxaquecosos vasoconstritores—
PrognósticoRecorrência 3,9–18,6%; arritmias e morte súbita possíveisAngina recorrente, hospitalizações, eventos maiores
Classe IIaNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 24

Medir resistência microcirculatória em sintomas persistentes com coronárias normais ou estenoses moderadas e FFR/índices não hiperêmicos preservados.

Classe IIaNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 12

RMC em DAC não obstrutiva conhecida e/ou suspeita de INOCA.

📚 Evidência que sustenta esta recomendação — CorMiCa
Estudo
CorMiCa
População
151 pacientes com angina sem DAC obstrutiva
Intervenção
Tratamento estratificado pelos resultados de RFC, IMR e acetilcolina
Comparador
Cuidado padrão (com procedimento diagnóstico simulado)
Principal resultado
Melhora significativa dos escores de angina em 1 ano
Como influencia a recomendação
Fundamenta a investigação invasiva completa e o tratamento dirigido ao endotipo.

Doença isquêmica na mulher

APRESENTAÇÃO

Sintomas “atípicos” e prodrômicos

Dor no dorso/pescoço, fadiga, náuseas; pródromos (falta de ar, fadiga incomum). Angina estável é a apresentação mais comum. Placa menos volumosa e calcificada, erosão frequente, doença difusa com disfunção microvascular.

DESFECHOS

Pior prognóstico pós-IAM

Mortalidade/reospitalização 26% vs 19% (1 ano) e 47% vs 36% (5 anos). Mulheres <50 anos: mortalidade hospitalar ainda maior. Menos terapias oportunas e sub-representação em ensaios.

DEAC

Dissecção espontânea

1–4% das SCA; causa mais comum de IAM na gravidez (até 43%). Displasia fibromuscular 50–86%. Evitar terapia hormonal e gravidez futura; reabilitação modificada.

EMBOLIA

Trombose/embolia coronária

Incidência ~0,06%; endocardite 40–53% dos casos; direta, paradoxal ou iatrogênica (ICP mais comum).

❓ Pergunta-chaveMulher de 52 anos, angina de esforço, cintilografia com isquemia e angioTC sem obstrução: próximo passo?Ver resposta

Suspeitar de INOCA. Avaliação invasiva da microcirculação (FFR, RFC, IMR) e teste de acetilcolina permitem definir endotipo e tratar de forma estratificada (CorMiCa). Resistência microcirculatória: IIaC.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.7, 6.2.3–6.2.4, 5.11, 12 e 13; Tabelas 12 e 24.

16Situações especiais

Contraste e função renal, alergia, DRC, câncer, angina refratária, pós-SCA, pós-ICP, pós-CRM e atividade física/sexual.

📌 Resumo
  • NIC: ↑ creatinina >0,5 mg/dL ou >25% em 48–72 h; TFGe <60 = alto risco; volume de contraste/TFG >3,7 ↑ risco.
  • Só hidratação e menos contraste comprovadamente reduzem NIC; N-acetilcisteína sem evidência.
  • Alergia: contraste iso/hiposmolar IA + profilaxia com corticoide e anti-histamínico.
  • DRC: Heart-Kidney Team IC; 3 fatores (idade ≥50, DM, DCV) estratificam.
  • Angina refratária: recanalização de oclusão crônica IIaA; laser transmiocárdico IIIA.

Contraste, função renal e alergia

Tabela 30 – Escore de risco de NIC
FatorPontos
Hipotensão5
Balão intra-aórtico5
ICC (NYHA III/IV)5
Idade >75 anos4
Anemia3
Diabetes3
Volume de contraste1 a cada 100 mL
Creatinina >1,5 mg/dL4
ou TFG (mL/min/1,73 m²)2 (40–60) · 4 (20–40) · 6 (<20)
Tabela 31 – Risco de NIC e diálise
PontosNICDiálise
≤57,5%0,04%
6–1014%0,12%
11–1626,1%1,09%
≥1657,3%12,6%
FAZER

Proteção renal

Calcular TFG (creatinina isolada é pouco sensível). Hidratação com SF 0,9% EV 1,0–1,5 mL/kg/h por 3–12 h antes e 6–24 h após (eletivos); preferir infusão por horas a bolus; soro a manitol/furosemida. Contraste hiposmolar ou isosmolar; técnica de volume ultrabaixo (contraste/TFGe <1) em DRC, IRA prévia, transplante renal, disfunção de VE grave e ICP complexa.

SEM EVIDÊNCIA

Prevenção farmacológica

N-acetilcisteína não previne NIC. BCC, prostaglandinas, antagonistas da adenosina, peptídeo natriurético atrial e iECA sem benefício/conflitantes. Bicarbonato: resultados divergentes.

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 32

Utilização de contraste isosmolar ou hiposmolar.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 32

Prednisona 50 mg 13 h, 7 h e 1 h antes do procedimento.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 32

Difenidramina 50 mg IV ou IM 1 h antes.

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 32

Fexofenadina 180 mg, 1 cp/dia durante 3 dias antes.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 33

Emergência: hidrocortisona 500 mg IV.

Classe INível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 33

Emergência: difenidramina 50 mg IV ou IM 1 h antes.

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 33

Emergência: fexofenadina 180 mg VO 1 h antes.

Reações “alérgicas” ao contraste ocorrem em ≤1% (graves 0,04%), são anafilactoides (não IgE); recorrência de 16–44% em quem já reagiu. O texto também cita prednisona 20 mg + fexofenadina 180 mg VO 3 dias antes; as Tabelas 32–33 trazem os esquemas com classe/nível acima.

Doença renal crônica

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabelas 41/45

Decisão diagnóstica e terapêutica discutida por um “Heart-Kidney Team” (cardiologista clínico e intervencionista, cirurgião cardiovascular e nefrologista).

Classe INível A✅ Recomendação da diretriz · Tabela 42

DRC estágios 3 a 5: estratificar para DAC com critérios clínicos (fatores de risco), independentemente de sintomas e nível funcional.

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 43

Sem nenhum dos três fatores (idade ≥50 anos, diabetes, DCV) = baixo risco, sem investigação aprofundada; com ≥1 fator = estratificar com métodos não invasivos e invasivos.

Classe IIbNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabelas 44/45

Teste não invasivo positivo ou alto risco clínico/múltiplos fatores → estudo invasivo.

Classe IIbNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 45

DAC obstrutiva em segmentos proximais das artérias principais: revascularização cirúrgica ou percutânea visando reduzir risco CV.

Classe IIINível C✅ Recomendação da diretriz · Tabelas 44/45

Revascularização de rotina em assintomáticos por possibilidade de transplante (“intervenção profilática”), salvo inequívoco impacto prognóstico.

Classe IIaNível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 45

DRC estágios 3 a 5: tratar para prevenção secundária de eventos.

Curvas de sobrevida livre de eventos cardiovasculares por número de fatores de risco: risco baixo 94%, intermediário 85%, alto 75% e muito alto 56%.
Figura 21 – Sobrevida livre de eventos cardiovasculares combinados de acordo com o número de fatores de risco
AVC: acidente vascular cerebral; CV: cardiovascular; IAM: infarto agudo do miocárdio; ICC: insuficiência cardíaca congestiva. Fonte: De Lima, Gowdak & de Paula, 2012.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Duas curvas de sobrevida na DRC estágio 5 (coorte KiHeart): eventos combinados e infarto, comparando estenose ≥70% versus normais/estenoses <70%.
Figura 22 – Sobrevida livre de eventos cardiovasculares combinados (esquerda) e infarto do miocárdio (direita) em pacientes com DRC estágio 5 submetidos à cinecoronariografia (coorte KiHeart)
DRC: doença renal crônica.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Discussão baseada no texto da diretrizCintilografia com estresse farmacológico é o teste não invasivo mais indicado; angioTC limitada por nefrotoxicidade e calcificação; gadolínio contraindicado na DRC avançada. ISCHEMIA-CKD: sem diferença inicial; em 5,7 anos, menor mortalidade CV contrabalançada por maior não CV. Doses: iECA/BRA — elevação de creatinina até 15% é esperada, suspender se >30%; atenolol/bisoprolol/nadolol reduzir dose; metformina contraindicada DRC ≥3; varfarina e apixabana são os anticoagulantes indicados.

Cardio-oncologia

Classe INível C✅ Recomendação da diretriz · Tabela 48

Decisão por intervenção baseada em tipo de tumor, expectativa de vida, risco de sangramento e urgência cirúrgica; no frágil, procedimento menos invasivo possível; decisão compartilhada cardiologista–oncologista.

Classe IIaNível B✅ Recomendação da diretriz · Tabela 48

Stent farmacológico preferível em pacientes oncológicos; DAPT pode ser mantida com plaquetas >30 mil se não houver contraindicação.

Angina refratária

DefiniçãoAngina limitante (ou equivalente) >3 meses, por isquemia na presença de DAC, não controlada por tratamento clínico otimizado (incluindo combinação de antianginosos tolerados), em inelegíveis à revascularização. Prevalência 5–15%; eventos combinados/morte 7,7% e 4,4% em 1 ano. Encaminhar a centros multiprofissionais dedicados.
Tabela 40 – Tratamento da angina refratária
TerapiaClasseNível
Recanalização percutânea de oclusão total crônicaIIaA
Reabilitação cardiovascular baseada em exercícioIIbB
Neuroestimulação medularIIbC
AcupunturaIIbA
Transplante cardíacoIIbC
Revascularização transmiocárdica a laserIIIA

Outras (Tabela 39): ondas de choque (sem evidência suficiente), redutor do seio coronário e contrapulsação externa (não disponíveis no Brasil), terapia celular/gênica (experimental), aférese de Lp(a) (indisponível).

Pós-SCA, pós-ICP e pós-CRM

PÓS-SCA

Estratificar para planejar

Escores SMART, EUROASPIRE, GRACE, ProACS. Alto risco de IC: Killip, FEVE <40%, FEVE 40–45% com enchimento restritivo/IM significativa/WMSI elevado, BNP, diurético de alça. Alto risco trombótico: DAP, angina/IAM prévio, multiarterial, revascularização incompleta, não revascularizados. Baixo risco: uma consulta especializada no 1º ano e atenção primária.

SEGUIMENTO

Após revascularização

FEVE em 8–12 semanas; ECG anual; teste de estresse e eco a cada 3–5 anos podem ser feitos; exames laboratoriais periódicos; telemedicina útil.

Tabela 52 – Prevenção secundária após CRM
Terapia / açãoRecomendaçãoClasseNível
GeraisReintroduzir terapia médica otimizadaIA
GeraisEncaminhar à reabilitaçãoIA
AntitrombóticoAAS em até 6 h e por tempo indefinido (texto: 100–325 mg)IA
AntitrombóticoDAPT com ticagrelor ou clopidogrel em selecionados de baixo risco de sangramento (até 1 ano)IIbB
AntitrombóticoVarfarina ou DOAC ≥4 semanas na FA pós-operatória (revertida ou ≥24 h)IIaB
iECA/BRA/ARNIReintrodução logo que toleradoIC
EstatinasReintrodução logo que toleradoIC
BetabloqueadoresReintrodução precoce para reduzir FA pós-operatóriaIB
BCCPrecoce com enxerto radial, por pelo menos 1 anoIB
SeguimentoImagem (funcional/anatômica) se sintomas recorrentes ou perda de funçãoIB
SeguimentoReestratificar após 5 anos em assintomáticos de alto riscoIIbC

Exercício e atividade sexual

Tabela 37 – Estratificação de risco para exercício na DAC crônica
BaixoIntermediárioAlto
Capacidade funcionalTE >7 METs; TCPE Weber A ou VO₂ >85%TE 5–7 METs; VO₂ 60–85%TE <5 METs; VO₂ <60%
SintomasAusentesCF I–II, angina e/ou ICCF III–IV
IsquemiaAusenteAcima de 6 METs / 15 mL/kg/minAbaixo de 6 METs / 15 mL/kg/min
OutrosSem arritmia ventricular complexaSem arritmia ventricular complexaIRC dialítica, dessaturação ao esforço, arritmia complexa

Tabela 38: aeróbico ≥2×/semana, 30→60 min, 40–80% da FC de reserva (baixo risco I-A; intermediário/alto: aeróbico I-A, resistido IIa-C); se isquemia, 10 bpm abaixo da FC de positivação; PA em repouso >160/105 → ajustar fármacos antes; durante o exercício manter ≤180/105 mmHg. Treino no limiar de isquemia em angina refratária: ambiente monitorizado (IIb-C). Reabilitação domiciliar em baixo risco: IIa-A.

Fluxograma do cardiopata isquêmico que deseja atividade sexual: história, exame e exames; baixo, intermediário e alto risco, com condutas e níveis de atividade KiTOMI, KiTOMI e KiT.
Figura 20 – Cardiopata isquêmico que deseja ter atividade sexual
NYHA: New York Heart Association; CCS: Canadian Cardiovascular Society; Kit: Kiss and Touch; KITOM: Kiss, Touch, Oral and Masturbation; KiTOMI: Kiss, Touch, Oral, Masturbation and Intercourse. Com permissão do Canadian Journal of Cardiology.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
AvaliaçãoHistória com anamnese sexual IIa C · Exame físico IIa C · Exames de sangue I B
↓
Baixo riscoNYHA I, CCS I–II, sexo assintomático → manter tratamento, sem testes adicionais; tratar disfunção erétil I A · KiTOMI
Risco intermediárioNYHA II–III, CCS III; sexo pode induzir exacerbações → considerar avaliação cardiológica; teste de esforço IIa B; reestratificar
Alto riscoNYHA IV, cardiopatia instável, sintomático no sexo → sexo não indicado III C; estabilizar e reavaliar (retomar com KiT)

Versão didática baseada na Figura 20. Atividade sexual habitual = 2–4 METs. Inibidores da PDE-5 não devem ser usados com nitratos.

❓ Pergunta-chaveQual a relação volume de contraste/TFG que eleva significativamente o risco de NIC?Ver resposta

>3,7. Já a técnica de volume “ultrabaixo” busca relação contraste/TFGe <1.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 6.6, 9, 14, 16, 17, 20, 21 e 22; Tabelas 30–33, 37–48, 52; Figuras 20–22.

🚫Erros que devemos evitar na Síndrome Coronariana Crônica

Somente condutas com recomendação classe III ou contraindicação explícita no texto da diretriz.

III-C

TE diagnóstico com ECG não interpretável

Infra ST ≥1 mm em repouso, BRE ou digital (Tabela 4).

III-C

Repetir eco em estável sem mudança clínica

Tabela 5.

III-B / III-C

Escore de cálcio para afastar estenose em sintomáticos ou em DAC obstrutiva conhecida

Tabela 9.

III-C

Nitrato de longa ação em monoterapia

Salvo impossibilidade de outros antianginosos (Tabela 21).

CONTRAINDICADO

Betabloqueador na angina vasoespástica

Pode precipitar espasmo (seções 5.1 e 5.11).

CONTRAINDICADO

Ivabradina + verapamil/diltiazem; ivabradina com FC <70

Também inefetiva na FA (seção 5.7/5.11).

NÃO USAR

Diltiazem/verapamil na disfunção de VE

Podem piorar a disfunção (seção 5.11).

NÃO PRESCREVER

Ranolazina/trimetazidina com TFG <30

Seção 5.11.

NÃO REDUZIR

PA abaixo de 120/70 mmHg

Curva J (CLARIFY), seções 5.11 e 18.

III-C

Prasugrel/ticagrelor na terapia tripla

Tabela 15 (IIb-C na Tabela 51).

III-C

Escore DAPT para decidir o tempo de DAPT

Tabela 29.

III-A

Fibrato para reduzir risco CV em estatina com TG >200

Tabela 16.

III-C

Terapia de reposição hormonal para reduzir risco

Tabela 17.

III-A

iECA + BRA concomitantes

Tabela 49.

NÃO INDICAR

Pioglitazona na IC

+2% hospitalização por IC (PROactive).

SEM EVIDÊNCIA

N-acetilcisteína para prevenir NIC

Seção 6.6.5.

III-C

Revascularização “profilática” pré-transplante renal em assintomático

Tabelas 44/45.

III-A

Revascularização transmiocárdica a laser

Tabela 40.

NÃO ROTINA

ICP como substituto de prevenção / para reduzir eventos em todos

Redução de eventos só em subgrupos (seção 6.4).

NÃO USAR

Inibidor da PDE-5 com nitrato; álcool como proteção CV

Seções 9.1.4 e 8.

🎯Números que você precisa memorizar

Todos conferidos no texto, tabelas ou figuras da diretriz.

<50 mg/dL + ≥50%
Meta de LDL-C na SCC
Tabela 16 · I-A
<40 mg/dL
2º evento em até 2 anos
Tabela 16 · IIb-B
TG >135 · 4 g
Etil icosapente com estatina
Tabela 16 · IIb-B
5 · 15 · 50 · 85%
Cortes de PPT (Figura 16)
Figura 16
<1 · 1–3 · >3%/ano
Risco baixo, intermediário, alto
Capítulo 3
≥+5 · <−10
Duke: baixo / alto risco
Seção 3.1.2
≥10% do VE
Isquemia de alto risco (SPECT)
Tabela 14
≥3 de 16
Segmentos no eco de estresse
Tabela 14
≥2 / ≥3 segm.
RMC: perfusão / dobutamina
Tabela 14
≤0,80
FFR com isquemia significativa
Seção 6.2.1
<0,89
iFR para revascularizar (ECR)
Seção 6.2.2
RFC <2,0 · IMR >25
Função microcirculatória anormal
Seção 6.2.4
<6 mm²
ALM no TCE (IVUS) para revascularizar
Seção 6.3.2
SYNTAX >23
Multiarterial → CRM
Tabela 35
RTM 25–50%
Transmuralidade intermediária → reserva contrátil/PET
Figura 14
SL <16%
Strain global: disfunção subclínica
Seção 2.2.2.1
<5 · >10 METs
Pior / excelente prognóstico (homens)
Seção 2.2.1
55–60 bpm
FC-alvo do betabloqueador
Seção 5.1
5 → 7,5 mg 2×
Ivabradina: inicial / máxima; 2,5 mg se FC <50
Seção 5.7
500 → 1.000 mg 2×
Ranolazina
Seção 5.8
10–14 h
Intervalo livre de nitrato
Seção 5.9
120–129 / 70–79
Meta de PA (adultos)
Tabela 49 · I-A
6 m · 3 m · 1 m
DAPT pós-ICP: padrão / HBR (IIa-A) / HBR (Fig. 23)
Tabela 15 · Figura 23
PRECISE-DAPT ≥25
Alto risco de sangramento
Tabela 29 · IIa-B
75–100 mg
Dose de AAS
Seção 4.1.1
0,5 mg/dia
Colchicina
Seção 4.5 · IIb-B
>0,5 mg/dL ou >25%
Definição de NIC (48–72 h)
Seção 6.6.1
3,7
Contraste (mL)/TFG que ↑ NIC
Seção 6.6.3
>10 ng/L
Troponina-as: ~50% mais eventos
Seção 3.1.1
>3 meses
Definição de angina refratária
Capítulo 14

✅Checklist do paciente com suspeita ou diagnóstico de SCC

Marque durante a consulta (as marcações ficam só nesta sessão do navegador).

📌Síndrome Coronariana Crônica em 3 minutos

  1. SCC é um contínuo de risco; o evento agudo muda a curva de eventos.
  2. Angina é sintoma; isquemia é achado objetivo; obstrução é anatomia — os três podem não coincidir.
  3. Angina típica = 3 critérios (característica + esforço/estresse + alívio ≤10 min); atípica = 2; não anginosa = 0–1.
  4. Angina instável: início recente CCS III–IV, crescendo, repouso ≥20 min.
  5. Laboratório: lipídios (I-A), creatinina/TFG (I-A), hemograma (I-B), glicemia + HbA1c (I-B), tireoide (I-C).
  6. Eco TT na avaliação diagnóstica inicial da SCC suspeita: função global/segmentar e diagnósticos diferenciais (I-B); não repetir sem mudança clínica (III-C).
  7. PPT: ≤5% nada; >5–15% ajustar/angioTC; >15–50% funcional ou angioTC; >50–85% funcional; >85% cateterismo.
  8. AngioTC como exame inicial em PPT intermediária sem anatomia prévia: I-A.
  9. Escore de cálcio reestratifica assintomáticos (I-A); não descarta estenose em sintomáticos (III-B).
  10. Eco de estresse (I-B), SPECT/PET (I-B, PET preferencial), RMC de perfusão (I-A).
  11. TE: prognóstico (I-C); diagnóstico só sem imagem (IIb-B); nunca com BRE/infra ST/digital (III-C).
  12. Risco anual: <1% baixo, 1–3% intermediário, >3% alto.
  13. Alto risco: Duke <−10; SPECT ≥10%; eco ≥3/16; RMC ≥2 segm.; TCE/triarterial proximal/DA proximal.
  14. Isquemia moderada sem FEVE ≤35%, TCE ≥50% ou angina limitante pode começar com TMO (ISCHEMIA).
  15. AAS 100 mg: I-A pós-IAM/revascularização; clopidogrel se intolerância (I-B).
  16. Pós-ICP eletiva: clopidogrel ≥6 meses (I-A); 3 meses se HBR (IIa-A); clopidogrel é o P2Y12 de escolha.
  17. DAPT longa ou rivaroxabana 2,5 mg + AAS: alto risco isquêmico com baixo risco de sangramento.
  18. ACO + ICP: DOAC + clopidogrel; AAS por ≤1 semana (ou até 1 mês se risco trombótico alto); ACO isolado após 12 meses.
  19. LDL <50 mg/dL e ≥50% (I-A); estatina → ezetimiba → iPCSK9.
  20. Fibrato para risco CV: III-A; EPA 4 g com TG >135: IIb-B; TRH: III-C.
  21. DM2: iSGLT2 e GLP-1 RA I-A; pioglitazona IIa-B (sem IC).
  22. iECA: I-A com disfunção de VE, IC ou DM; colchicina IIb-B.
  23. PA-alvo 120–129/70–79 (adultos); evitar <120/70.
  24. Antianginoso: individualizar por FE, FC, PA e mecanismo; combinar; reavaliar em 30 dias.
  25. Vasoespasmo: BCC; betabloqueador contraindicado. FA: ivabradina inefetiva.
  26. CRM I-A: multiarterial com DA proximal e SYNTAX >23, multiarterial com disfunção de VE, TCE.
  27. ICP I-A para angina típica limitante sob TMO; não como rotina para reduzir eventos.
  28. Lesão intermediária sem isquemia documentada: FFR/iFR antes da ICP (I-A); FFR ≤0,80.
  29. IVUS/OCT para guiar ICP complexa (I-A); IVUS no TCE (IIa-B; ALM <6 mm²).
  30. INOCA: RFC <2,0, IMR >25, acetilcolina; tratamento estratificado.

🎓Desafio final — 25 questões

Casos integrados que misturam todos os capítulos. Escolha uma alternativa e depois abra a resposta comentada.

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Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619.