Revisão comentada · Dr. Guilherme Moura · Baseada na diretriz oficial da Sociedade Brasileira de Cardiologia
Cardiologia · Doença coronariana · SBC 2025
Síndrome Coronariana Crônica
Diretriz Brasileira de Cardiologia 2025
Revisão interativa • Diagnóstico • Estratificação • Tratamento • Revascularização
Cesar LAM, Gowdak LHW, Pavanello R, Ferreira JFM, et al. Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619.
Material educacional baseado na Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – 2025 da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Não substitui julgamento clínico individualizado. Doses e contraindicações devem ser conferidas no documento original e na bula.
Classe I Classe IIa Classe IIb Classe III Nível A/B/C — badges usados apenas quando a diretriz traz recomendação formal (a SBC usa “grau de recomendação” e “nível de evidência”). Blocos ✅ Recomendação da diretriz transcrevem o documento; blocos 💡 Interpretação prática são leitura didática e não têm classe/nível. Quando não há recomendação formal: “Discussão baseada no texto da diretriz”.
🫀Síndrome Coronariana Crônica em 5 minutos
Mapa mental inicial — o que você precisa ter na cabeça antes de aprofundar.
1 · Definição
SCC é a doença coronariana entendida como um contínuo: evolução em geral silenciosa por anos, com momentos de agudização. Conceito introduzido pela ESC em 2019 e adotado pela SBC.
2 · Espectro clínico
Angina/equivalente com DAC obstrutiva; fase estável pós-SCA, ICP ou CRM; disfunção de VE/IC isquêmica; assintomático com teste alterado; angina sem DAC obstrutiva (ANOCA/INOCA).
3 · DAC aterosclerótica
Principal causa de morte no Brasil entre as doenças não transmissíveis. Muitos pacientes — sobretudo mulheres — têm angina e isquemia sem obstrução, mas geralmente com aterosclerose.
4 · Sintomas
Angina típica = 3 critérios (desconforto retroesternal característico + esforço/estresse + alívio com repouso/nitrato em até 10 min). Típica em só 10–15% dos casos investigados.
5 · Diagnóstico
Probabilidade pré-teste (PPT) guia o exame: ≤5% sem testes; >5–15% ajustar PPT ou angioTC; >15–50% prova funcional ou angioTC; >50–85% prova funcional; >85% cineangiocoronariografia.
6 · Anatomia
AngioTC: Classe I-A como exame inicial em PPT intermediária/intermediária-alta sem diagnóstico anatômico prévio. Cateterismo quando há angina limitante apesar do TMO, disfunção de VE ou isquemia importante.
7 · Função (isquemia)
Eco de estresse, SPECT/PET e RMC de estresse (Classe I). TE diagnóstico só como alternativa sem imagem (IIb). Anatomia ≠ isquemia: lesões intermediárias → fisiologia (FFR/iFR).
8 · Risco
Baixo <1%/ano, intermediário 1–3%, alto >3% de morte CV ou IAM. Alto risco: Duke <−10; isquemia ≥10% do VE; ≥3/16 segmentos ao eco; TCE, triarterial proximal ou DA proximal.
9 · Prevenção de eventos
AAS 100 mg (I-A pós-IAM/revascularização), LDL <50 mg/dL + redução ≥50% (I-A), SGLT2i e GLP-1 RA no DM2 (I-A), iECA com disfunção/IC/DM (I-A), reabilitação (I-A), vacinação.
10 · Sintomas
Não há antianginoso “de primeira linha” universal: individualizar por FE, PA, FC e mecanismo (Figura 17). Combinar mecanismos; reavaliar a cada 30 dias enquanto sintomático.
11 · Revascularização
Dois objetivos distintos: prognóstico (multiarterial, TCE, disfunção de VE — CRM I-A) e sintomas (angina limitante sob TMO — ICP I-A). ICP de rotina não reduz eventos em toda a SCC.
12 · INOCA/ANOCA
Isquemia/angina sem obstrução: disfunção microvascular (RFC <2,0; IMR ≥25) e vasoespasmo (acetilcolina). Tratamento estratificado (CorMiCa).
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
🔥O que você precisa guardar desta diretriz
Os pontos que mais modificam conduta, extraídos diretamente das recomendações.
A PPT decide o primeiro exame
≤5%: sem testes · >5–15%: ajustar PPT ou angioTC · >15–50%: prova funcional ou angioTC · >50–85%: prova funcional · >85%: cineangiocoronariografia (Figura 16).
AngioTC como exame inicial
Em PPT intermediária/intermediária-alta sem diagnóstico anatômico prévio IA; também quando testes funcionais são incertos/conflitantes IA.
Escore de cálcio para “descartar” DAC em sintomático
Não usar para afastar estenose significativa em suspeita de angina ou SCA IIIB — pode haver obstrução sem cálcio.
TE diagnóstico com ECG não interpretável
Infra ST ≥1 mm em repouso, BRE ou digital: não usar TE com intuito diagnóstico IIIC. Prefira imagem.
Imagem funcional em PPT moderada/alta
Eco de estresse IB; SPECT ou, preferencialmente, PET IB; RMC de perfusão IA.
Alto risco por modalidade
Duke <−10 · SPECT ≥10% do VE · eco ≥3/16 segmentos · RMC ≥2 segmentos de perfusão ou ≥3 disfuncionais à dobutamina · TCE/triarterial proximal/DA proximal (Tabela 14).
LDL-C: dupla meta
Redução ≥50% do basal e LDL <50 mg/dL IA; <40 mg/dL se 2º evento em até 2 anos IIbB. Estatina alta intensidade → + ezetimiba → + iPCSK9.
DM2 + SCC
iSGLT2 IA e agonista GLP-1 IA para prevenção secundária; combinação IC; + pioglitazona sem IC IIaB.
Pós-ICP eletiva
Clopidogrel por pelo menos 6 meses IA; 3 meses se alto risco de sangramento IIaA. Clopidogrel é o P2Y12 de escolha na SCC.
Prasugrel/ticagrelor na terapia tripla
Não recomendados com AAS + anticoagulante IIIC (Tabela 15). Com ACO, prefira DOAC + clopidogrel.
Antianginoso individualizado
Sem hierarquia de 1ª/2ª linha: escolha por FE, PA, FC e mecanismo (Figura 17) IC; combinação de mecanismos é mais efetiva IC.
Betabloqueador na angina vasoespástica
Pode precipitar espasmo. Preferir bloqueador de canal de cálcio; nitrato de longa ação se persistir sintomático.
Anatomia ≠ isquemia
Estenose intermediária sem isquemia prévia documentada: avaliação funcional invasiva antes da ICP IA. FFR ≤0,80 (ou iFR <0,89 nos ensaios).
CRM para prognóstico
Multiarterial com DA proximal e SYNTAX >23; multiarterial com disfunção de VE; lesão de TCE IA (Tabela 35).
ICP para sintomas
Estenose significativa + angina típica limitante sob terapia otimizada IA. ICP não deve ser rotina para reduzir eventos na totalidade da SCC.
Imagem intravascular na ICP complexa
IVUS ou OCT para guiar ICP complexa IA; IVUS para avaliar estenose de TCE IIaB.
Microcirculação
RFC <2,0 ou IMR >25 = função microcirculatória anormal. Medir resistência microcirculatória com sintomas persistentes e FFR preservada IIaC.
Fibrato, TRH e nitrato isolado
Fibrato para risco CV com TG >200 em estatina IIIA; TRH para redução de risco IIIC; nitrato de longa ação em monoterapia IIIC.
🧭Do sintoma à decisão terapêutica
Fluxograma-mestre que integra os capítulos 2 a 6 da diretriz. Cada caixa remete à figura/tabela de origem.
Síntese didática · Figuras 15, 16, 17 e 19 · Tabelas 14, 21, 27 e 35Raciocínio da Diretriz SBC 2025 na SCC
Versão didática construída a partir das Figuras 15, 16, 17 e 19 e do texto dos capítulos 2 a 6 e 20 da Diretriz SBC 2025. Não substitui a leitura das figuras originais.
🩻 ANATOMIA CORONÁRIA
- AngioTC, cineangiocoronariografia, IVUS/OCT
- Mostra onde e quanto há de placa/estenose
- Estenose ≥50% (RMC/perfusão em geral detecta estenoses ≥50%); intermediária ≈40–70%
- Luminograma não informa limitação de fluxo
⚡ SIGNIFICÂNCIA FUNCIONAL
- Eco de estresse, SPECT/PET, RMC de estresse, FFR/iFR/QFR
- Mostra se a lesão limita fluxo e causa isquemia
- FFR ≤0,80 = isquemia significativa
- Pode haver isquemia sem obstrução (INOCA) e estenose sem isquemia
Box didáticoAnatomia ≠ isquemia
Adaptado rigorosamente aos conceitos das seções 2.2.7 e 6.2 da Diretriz SBC 2025.
🛡️ TRATAR RISCO (reduzir eventos)
- AAS 75–100 mg; clopidogrel se intolerância; DAPT/COMPASS em alto risco isquêmico
- Estatina alta intensidade + ezetimiba + iPCSK9 (LDL <50)
- iECA/BRA (disfunção de VE, IC, DM, HAS, DRC)
- iSGLT2 e agonista GLP-1 (DM2)
- Colchicina 0,5 mg (IIb) em alto risco
- Reabilitação, cessação do tabagismo, vacinas
- CRM em anatomias selecionadas
💊 TRATAR ANGINA (reduzir sintomas)
- Nitrato de ação curta (alívio imediato) IB
- Betabloqueador, BCC, trimetazidina, ranolazina IB
- Ivabradina (FC ≥70, ritmo sinusal)
- Nitrato de ação prolongada (adjuvante)
- ICP para angina limitante sob TMO IA
Ranolazina, trimetazidina, ivabradina e BCC não demonstraram reduzir morte/IAM na SCC.
1Visão geral: conceito e espectro da SCC
A SCC substitui a ideia de “doença coronária estável” por um contínuo de risco, com fases subclínicas, agudizações e diferentes estratégias em cada momento.
- Conceito surgido em 2019 (ESC): a doença coronariana é um contínuo, silenciosa por anos, com momentos de agudização.
- Um evento agudo muda a curva de eventos futuros.
- Muitos pacientes (especialmente mulheres) têm angina e isquemia sem obstrução coronária, embora geralmente com aterosclerose.
- Angina é sintoma; isquemia é achado objetivo em exame funcional.
Cinco apresentações clínicas (Tabela 1)
| # | Perfil |
|---|---|
| 1 | Alta após internação por SCA ou após procedimento de revascularização coronariana. |
| 2 | Disfunção sistólica do VE e DAC conhecida ou suspeita, ou cardiomiopatia estabelecida considerada de origem isquêmica. |
| 3 | Sintomas de angina estável (ou equivalentes isquêmicos, como dispneia ou dor no braço ao esforço) tratados clinicamente, com ou sem teste de imagem positivo. |
| 4 | Angina com evidência de vasoespasmo coronariano ou angina microvascular, com ou sem aterosclerose. |
| 5 | Diagnóstico baseado exclusivamente em estudo de triagem (teste de estresse, angioTC) em que o médico conclui haver doença coronariana. |
AVC: acidente vascular cerebral; ECA: enzima conversora de angiotensina; ECAM: eventos cardíacos adversos maiores; SCA: síndrome coronariana aguda.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Angina ≠ isquemia ≠ obstrução
A diretriz pede cautela com estimativas populacionais europeias (homens >70 anos com “angina típica” com <30% de chance de obstrução). No DISCHARGE, a anamnese foi feita após a randomização: 38% tinham dor não anginosa e 36% angina atípica. História clínica precisa continua sendo decisiva — grandes centros veem muito mais DAC obstrutiva em homens com angina típica.
❓ Pergunta-chaveUm paciente com angina típica e angiografia sem obstruções tem “dor não coronária”?Ver resposta
Resposta curta: não necessariamente.
Explicação: a diretriz enfatiza que mesmo na angina típica muitos não têm obstruções; mecanismos microvasculares, vasoespásticos e endoteliais podem causar isquemia (ANOCA/INOCA), frequentemente com aterosclerose não obstrutiva.
Na prática: considere avaliação da microcirculação (RFC, IMR) e teste de acetilcolina — medir resistência microcirculatória em sintomas persistentes com FFR preservada IIaC.
❓ Pergunta-chaveQual a diferença conceitual entre angina e isquemia?Ver resposta
Resposta curta: angina é sintoma; isquemia é achado objetivo em exames funcionais.
Pode haver angina sem isquemia detectável (considerar outras causas de dor/dispneia) e isquemia silenciosa. Equivalentes isquêmicos isolados (dispneia, fadiga) têm valor diagnóstico limitado — a diretriz sugere chamá-los de “sintomas relacionados à isquemia miocárdica”.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 1 e 2.1–2.1.1; Figura Central; Figura 1; Tabela 1.
2Avaliação clínica
História clínica detalhada, exame físico, comorbidades, fatores de risco e impacto na qualidade de vida guiam a estratificação e a necessidade de exames.
- Angina é o sintoma inicial em ~50% dos pacientes com SCC e dobra a incidência de eventos e custos.
- Típica = 3 critérios; atípica = 2; não anginosa = 0–1.
- Gravidade pela CCS (I–IV); reconhecer os subtipos de angina instável.
- Laboratório inicial: perfil lipídico IA, hemograma IB, glicemia + HbA1c IB, creatinina/TFG IA, tireoide IC.
Como reconhecer angina?
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Quadro 2Classificação da dor torácica com base nos sintomas
Terminologia exatamente como no Quadro 2 da diretriz. Classificação subjetiva, mas útil para estimar a probabilidade de DAC.
Aperto retroesternal ao subir ladeira
Dura 3–5 min, cede ao parar. Três critérios → angina típica.
Queimação precordial em repouso
Característica e aliviada com nitrato, mas sem relação com esforço → 2 critérios.
Pontada que piora à inspiração
Dor relacionada à respiração/posição raramente é isquêmica → 0–1 critério.
Dispneia isolada aos esforços
>50 anos: PPT de DAC obstrutiva 20–32% (homens) e 9–14% (mulheres). Interpretar com cautela.
| Classe | Descrição |
|---|---|
| I | Angina apenas com esforço físico intenso ou prolongado |
| II | Limitação leve com esforço moderado (subir escadas, andar rápido) |
| III | Limitação significativa com esforço leve (andar um quarteirão) |
| IV | Angina em repouso ou com qualquer nível de atividade física |
| Subtipo | Descrição |
|---|---|
| Início recente | Menos de 2 meses, classe III ou IV da CCS |
| Em crescendo | Aumento de frequência, intensidade ou menor limiar de esforço |
| Em repouso | Episódios com duração ≥20 minutos, em repouso |
❓ Pergunta-chaveDor desencadeada por esforço e aliviada em repouso em poucos minutos deve ser interpretada como quê?Ver resposta
Resposta curta: depende do terceiro critério — se o desconforto também for retroesternal com qualidade e duração características, é angina típica; se não, angina atípica (2 critérios).
Implicação prática: a tipicidade entra na estimativa da probabilidade pré-teste, que define o exame inicial (Figura 16). A angina típica responde por apenas 10–15% dos casos com suspeita de DAC.
Discussão baseada no texto da diretriz (Quadro 2).
❓ Pergunta-chaveAngina de início há 5 semanas, CCS III: é SCC?Ver resposta
Resposta curta: não — é um subtipo de angina instável (início recente, <2 meses, CCS III–IV), condição com alto risco de evolução para infarto (Quadro 4).
Implicação: o manejo sai do fluxo ambulatorial da SCC.
Roteiro de consulta da dor torácica
| Parâmetro | Aspectos a observar | Pergunta ao paciente |
|---|---|---|
| Tipo | Aperto, pressão, queimação, peso ou desconforto mal definido | “Como é a sensação?” (nem sempre é “dor”) |
| Localização | Retroesternal ou precordial | “Mostre com a mão onde sente.” |
| Irradiação | Mais comum para braço esquerdo; ambos os braços, mandíbula, pescoço, dorso | “A sensação vai para algum lugar?” |
| Duração | 2 a 10 minutos; muito fugaz ou por horas é menos sugestiva | “Quanto tempo dura?” |
| Desencadeantes | Esforço, estresse emocional, frio, refeições copiosas | “O que provoca?” |
| Alívio | Cessação do esforço, repouso, nitrato sublingual | “O que faz passar? Em quanto tempo?” |
| Associados | Dispneia, sudorese, náuseas, sensação de morte iminente, fadiga, síncope | “Sente mais alguma coisa junto?” |
Fatores de risco e comorbidades
HAS, tabagismo, dislipidemia, diabetes, obesidade, sedentarismo, estresse psicossocial, história familiar de DAC precoce, DRC, AVC, doença vascular periférica.
DAC conhecida
IAM prévio, ICP/CRM, disfunção de VE; sintomas pós-prandiais ou nas primeiras horas da manhã são comuns na angina.
Exame físico
⚠️ Nem toda dor torácica é coronária
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Cardíacas / vasculares
Angina estável/instável, infarto, pericardite, miocardite; dissecção de aorta, tromboembolismo pulmonar.
Pulmonares
Pneumotórax, pneumonia, pleurite, hipertensão pulmonar, embolia pulmonar.
Digestivas
DRGE, úlcera péptica, esofagite, espasmo esofágico, colecistite, pancreatite.
Parede torácica
Costocondrite, distensão/contratura muscular, fraturas costais, lesões cervicais.
Outras
Ansiedade, pânico, herpes-zóster (fase pré-vesicular), anemia grave, síndrome de hiperviscosidade.
| Condição | Mecanismo provável |
|---|---|
| Estenose aórtica | Aumento da pós-carga e redução da perfusão subendocárdica |
| Insuficiência aórtica grave | Redução da pressão diastólica e do fluxo coronariano |
| Cardiomiopatia hipertrófica | Hipertrofia com compressão intramiocárdica |
| Taquiarritmias | Aumento do consumo de O2 |
| Hipertensão arterial severa | Sobrecarga do VE e aumento da demanda |
| Insuficiência cardíaca | Redução do débito e da reserva coronariana |
Febre, hipertireoidismo, cocaína (causa frequente de SCA em jovens por vasoconstrição + descarga adrenérgica), taquiarritmias e estresse emocional podem provocar angina, especialmente com lesões não críticas (Figura 3 relaciona localização da dor e causas: isquemia miocárdica, pericardite, dissecção aórtica, lesão mediastinal, embolia pulmonar, espasmo esofágico, colecistite, úlcera, pancreatite, pneumonia, pleurisia, infarto esplênico, abscesso subdiafragmático, causas cervicais e da caixa torácica).
❓ Pergunta-chaveHipertenso grave com angina e coronárias sem lesão crítica: qual mecanismo a diretriz aponta?Ver resposta
Resposta curta: aumento da tensão parietal do VE com isquemia subendocárdica.
Mecanismo semelhante ocorre na estenose aórtica e na cardiomiopatia hipertrófica (hipertrofia e redução da reserva coronariana). O ecocardiograma é a ferramenta para identificar essas causas coexistentes IB.
Avaliação laboratorial
Perfil lipídico, incluindo LDL-C.
Hemograma completo, incluindo hemoglobina.
Triagem de diabetes com glicemia de jejum e HbA1c, com adição do teste de tolerância se inconclusivos.
Creatinina e estimativa da função renal.
Avaliação da função tireoidiana.
Anemia, tireoide, DM, rim
Anemia associa-se a ECAM (subestudo TIME). Hipotireoidismo: causa secundária de dislipidemia — iniciar estatina após normalizar hormônios (risco de miosite). Glicemia próxima de 126 mg/dL já confere alto risco; meta de HbA1c <7% para a maioria. Creatinina isolada é insuficiente: estimar TFG (<60 mL/min/1,73 m² aumenta risco CV).
Exames adicionais
ApoB e Lp(a) em risco muito alto ou DAC precoce familiar; BNP/NT-proBNP se suspeita de disfunção de VE (dispneia); troponina de alta sensibilidade como marcador prognóstico em casos selecionados; microalbuminúria em hipertensos; ácido úrico, PCR-us.
❓ Pergunta-chaveTroponina ultrassensível discretamente elevada em paciente estável: o que significa?Ver resposta
Resposta curta: marcador de risco, não diagnóstico de infarto.
Ensaios de alta sensibilidade detectam níveis subclínicos em DRC, sepse, embolia pulmonar e quimioterapia. Na DAC estável, troponina persistentemente elevada associa-se a maior risco de morte CV/IAM; concentrações >10 ng/L identificam risco ~50% maior, mesmo após ajuste para gravidade da DAC (seção 3.1.1). O escore ABC-CHD combina troponina, NT-proBNP e LDL-C.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.1.2, 2.1.3, 2.2.4 e 3.1.1; Quadros 1–6; Tabelas 2, 3 e 8; Figuras 2 e 3.
3Teste ergométrico e ecocardiografia
TE: acessível e prognóstico, mas com papel diagnóstico restrito. Eco transtorácico: modalidade de primeira linha. Eco de estresse: diagnóstico, prognóstico e viabilidade.
- TE para tolerância ao esforço, sintomas, arritmias, PA e risco IC; diagnóstico só se imagem indisponível IIbB; nunca diagnóstico com ECG não interpretável IIIC.
- Capacidade funcional (METs) = variável prognóstica de maior impacto.
- Eco TT: função global/segmentar e diagnósticos alternativos IB; strain global IIaB; repetir sem mudança clínica IIIC.
- Eco de estresse em sintomático com PPT intermediária/alta IB; acurácia 85–90%, VPN 93–100%.
Teste ergométrico
O TE é recomendado em pacientes selecionados (quando houver perspectiva de impactar estratégia diagnóstica ou manejo) para avaliação de tolerância ao exercício, sintomas, arritmias, resposta da PA e estratificação de risco.
Pode ser considerado como alternativa para confirmar e descartar DAC quando métodos de imagem não invasivos não estão disponíveis.
Pode ser considerado para refinar a estratificação de risco e tratamento.
Não é recomendado com intuito diagnóstico em pacientes com depressão do ST ≥1 mm em repouso, bloqueio de ramo esquerdo ou em uso de digitálicos.
| Variável | Achado | Significado |
|---|---|---|
| ST | Depressão ≥1 mm a 0,80 s do ponto J, horizontal ou descendente | Alteração mais preditiva de isquemia; magnitude, precocidade, nº de derivações e tempo de normalização indicam gravidade |
| ST na recuperação | Depressão assintomática na recuperação | 3–4× mais eventos (MSC e morte coronária); >5 min persistente = risco elevado |
| Supra de ST | Em derivações sem área inativa | Alteração mais grave: isquemia transmural (raro, 0,1%); risco de TV/FV; localiza a artéria |
| PAS | Curva deprimida/queda progressiva; elevação paradoxal no 1º min da recuperação | DAC grave com comprometimento da função ventricular |
| Capacidade funcional | Homens com FR: <5 METs → risco de morte em 6 anos 4–4,5× maior; >10 METs → excelente prognóstico. Mulheres: <5 METs = 3× a mortalidade das que atingem >8; 5–8 METs = 2× | Variável prognóstica de maior impacto já estabelecida |
| Protocolo de Bruce | Supera o 3º estágio → mortalidade anual <1%; não alcança 5 METs → ~5%/ano | Prognóstico |
| Outros | Resposta cronotrópica inadequada, arritmias ventriculares complexas, sintomas em baixa carga | Alto risco |
Seção 3.1.2Escore de Duke
Observação: a formulação original do escore (Mark et al., ref. 48 da diretriz) pontua o índice anginoso como 0 (sem angina), 1 (angina não limitante) e 2 (angina limitante). As faixas de classificação acima são as da diretriz.
Menos de 50% dos TE isquêmicos têm angina clínica. ECG “não interpretável” para o TE: BRE, marcapasso, pré-excitação, infra de ST ≥1 mm em repouso e digital → realizar método de imagem.
O papel diagnóstico do TE isolado é secundário (IIb) — sua força atual está no prognóstico, na capacidade funcional e na prescrição de exercício/reabilitação.
❓ Pergunta-chavePaciente com BRE e dor torácica típica: posso pedir TE para diagnóstico?Ver resposta
Não. BRE torna o ECG não interpretável para isquemia; TE com intuito diagnóstico é IIIC. Escolha método de imagem (eco de estresse, cintilografia com estresse farmacológico, RMC ou angioTC conforme PPT).
Ecocardiograma transtorácico
Avaliar função global e segmentar do VE, volumes, função diastólica, função do VD, estimar a PSAP, refinar a estratificação de risco e guiar o tratamento.
Avaliar diagnósticos diferenciais ou coexistentes de dor precordial ou dispneia (doença valvar, hipertrofia, cardiomiopatia, derrame pericárdico).
Avaliar strain longitudinal global (função sistólica global e regional) se FEVE normal e alta probabilidade clínica de DAC — interpretado de forma comparativa, mesmo fabricante/versão de software e condições de carga semelhantes.
Reavaliação periódica de pacientes estáveis sem mudança clínica.
Ecocardiograma sob estresse
Investigação de isquemia e estimativa do risco de eventos em indivíduo sintomático com probabilidade pré-teste intermediária ou alta.
Seção 2.2.2.2Cascata isquêmica (sequência de manifestações)
A ordem explica por que métodos de imagem detectam isquemia antes do ECG e do sintoma.
Três modalidades
Esforço (esteira/bicicleta), vasodilatador (dipiridamol ± atropina) ou adrenérgico (dobutamina ± atropina). Todos com acurácia 85–90% em PPT intermediária/alta; exame normal: VPN 93–100% para eventos.
Ecocardiografia com contraste miocárdico
Usar em estudos tecnicamente difíceis: melhora bordas endocárdicas, volumes/FE, detecta trombos e permite avaliar perfusão miocárdica (incremento diagnóstico e prognóstico).
Linha superior, da esquerda para a direita: quantificação do VE pré-contraste do volume diastólico final (306 mL) e volume sistólico final (246 mL) para estimativa da FEVE. Linha inferior, da esquerda para a direita: quantificação do VE pós-contraste do volume diastólico final (391 mL) e do volume sistólico final (308 mL) para estimativa da FEVE. Um aumento acentuado no tamanho do volume é observado após o contraste. FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; VE: ventrículo esquerdo; IM: infarto do miocárdio; UEA: unidade de avaliação de esforço.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Em B, observa-se além do delineamento adequado dos segmentos não visibilizados previamente, o aparecimento de um trombo apical.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Em A, nota-se a perfusão normal em repouso; em B, um defeito de perfusão transmural em um único segmento apical durante o estresse pela adenosina; e, em C, um extenso defeito de perfusão apical transmural em ao menos dois segmentos, associado a alterações da motilidade no mesmo território (acinesia). Em D, por meio de um software específico, são geradas as curvas de intensidade acústica/tempo, demonstrando uma reserva de fluxo coronário muito deprimida em ambas as formas de estresse. Em E, há angiografia coronária em oblíqua anterior esquerda (OAE) demonstrando obstrução grave em artéria descendente anterior e circunflexa.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Alterações induzidas em ≥3 dos 16 segmentos = risco anual >3%. Eco de estresse normal = risco <1%/ano, semelhante à cintilografia normal. Útil pós-IAM para viabilidade e extensão de necrose.
❓ Pergunta-chavePor que o eco de estresse detecta isquemia antes do ECG?Ver resposta
Porque, na cascata isquêmica, a perfusão e depois a contratilidade se alteram antes das mudanças eletrocardiográficas e da angina. Métodos que avaliam contratilidade (eco) ou perfusão (contraste, SPECT, PET, RMC) são mais sensíveis que o ECG de esforço.
❓ Pergunta-chaveDevo repetir o ecocardiograma anualmente em paciente estável?Ver resposta
Não se não houver mudança clínica: IIIC. No seguimento pós-revascularização/SCA, a diretriz sugere reavaliar a FEVE 8–12 semanas após revascularização; eco TT e teste de estresse podem ser realizados a cada 3–5 anos.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.1, 2.2.2, 3.1.2 e 3.1.3; Tabelas 4, 5 e 6; Figuras 4–6.
4Medicina nuclear: SPECT, PET e CZT
Imagem fisiológica que avalia todo o espectro da doença isquêmica — da DAC epicárdica obstrutiva à disfunção microvascular.
- SPECT com estresse ou, preferencialmente, PET em PPT moderada/alta para diagnosticar/quantificar isquemia e cicatriz, estimar risco e (PET) quantificar fluxo IB.
- Cintilografia normal: ~99% de sobrevida livre de eventos; eventos crescem exponencialmente com a carga isquêmica.
- Isquemia reversível ≥10% do VE = alto risco (>3%/ano).
- PET é padrão-ouro de perfusão, mas indisponível no país (radiofármacos); SPECT CZT permite fluxo absoluto e reserva com tecnécio.
Em SCC suspeita com PPT de DAC obstrutiva moderada ou alta, a SPECT com estresse ou, preferencialmente, a perfusão por PET é recomendada para: diagnosticar e quantificar isquemia e/ou cicatriz; estimar o risco de eventos; quantificar o fluxo miocárdico (PET).
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Nota-se extensa área de hipocaptação envolvendo as paredes anterior, região septal, ápice, estendendo-se, ainda, à porção distal das paredes inferior e lateral, evidenciada em coloração azul e delimitada no mapa polar (MP) de estresse por linha branca (imagem superior à esquerda). O MP representativo da perfusão em repouso evidencia distribuição homogênea do radiofármaco, traduzindo perfusão normal. A representação gráfica dos escores de estresse (setas pretas), evidencia a graduação numérica da intensidade da hipocaptação e o número de segmentos acometidos (canto inferior direito), com os somatórios SSS = 25, SRS = 0 e SDS – 25 (canto superior direito), além do porcentual de miocárdio em risco estimado em 45% do ventrículo esquerdo (carga isquêmica). A cinecoronariografia evidenciou lesão proximal suboclusiva de artéria descendente anterior. SDS: somatório da diferença dos escores (summed difference score); SRS: somatório do escore de repouso (summed rest score); SSS: somatório do escore de estresse (summed stress score). Fonte: Arquivo pessoal.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Quantidade de isquemia × decisão clínica
87). FE: fração de ejeção; FEM.: feminino; MASC.: masculino.
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90). Revasc.: revascularização; SPECT: tomografia computadorizada por emissão de fóton único; TMO: tratamento medicamentoso otimizado.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Observacionais: benefício quando a carga isquêmica ultrapassa 10–12% do VE. O ISCHEMIA (randomizado) não mostrou redução de eventos com revascularização vs TMO na isquemia pelo menos moderada (seguimento inicial 3,2 anos; ~25% incluídos por TE de alto risco sem imagem). Subestudos: possível benefício da estratégia invasiva com IC e FEVE 35–45%. ISCHEMIA-Extended (mediana 5,7 anos): sem diferença em mortalidade total; menor mortalidade CV com estratégia invasiva em 7 anos, com maior mortalidade não CV. O ISCHEMIA não questionou a estratificação de risco.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — ISCHEMIA
- Estudo
- ISCHEMIA
- População
- SCC com isquemia pelo menos moderada em provas funcionais não invasivas
- Intervenção
- Estratégia invasiva inicial (cateterismo + revascularização)
- Comparador
- TMO, com cateterismo se falha clínica
- Principal resultado
- Sem redução do desfecho composto em 3,2 anos; extensão com menor mortalidade CV em 7 anos, maior não CV, sem diferença em mortalidade total
- Como influencia a recomendação
- Isquemia moderada não obriga cateterismo: estratégia conservadora é aceitável se não houver FEVE ≤35%, TCE ≥50% à angioTC ou angina limitante (seção 2.2.7).
❓ Pergunta-chaveCintilografia com isquemia de 15% do VE e angina controlada: devo cateterizar?Ver resposta
Resposta curta: pode ir ao cateterismo com intenção de revascularizar ou seguir inicialmente com tratamento clínico.
A diretriz permite estratégia conservadora na isquemia moderada/importante desde que não haja FEVE ≤35%, lesão de TCE ≥50% à angioTC ou angina limitante — mantendo a possibilidade de cateterismo conforme evolução. Isquemia ≥10% define alto risco (Tabela 14).
Discussão baseada no texto da diretriz (seção 2.2.7).
Defeito reversível ≥10% da massa do VE, FE reduzida, volumes aumentados, captação pulmonar aumentada e dilatação transitória do VE ao estresse.
🟠 PET e SPECT CZT
AngioTC: angiotomografia; TC: tomografia computadorizada; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; rep.: repouso; PET: tomografia por emissão de pósitrons. Adaptado Cheng et al.21
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
| Status | Padrão-ouro não invasivo de perfusão; indisponível no país pela falta dos radiofármacos (82Rb, 13N-amônia, 15O-água). |
|---|---|
| Diferencial | Quantifica de forma absoluta o fluxo sanguíneo miocárdico (FSM) em estresse e repouso e a reserva de fluxo coronariana (RFC). |
| Microcirculação | Avalia desde DAC multiarterial até disfunção microvascular difusa; RFC anormal associa-se a eventos mesmo sem estenoses (sobretudo diabéticos); medidas seriadas podem mostrar resposta ao tratamento. |
| Viabilidade | 18F-FDG-PET/CT = padrão-ouro de metabolismo glicolítico; SPECT com tálio-201 se PET indisponível. |
| SPECT CZT | Aquisições dinâmicas com tecnécio-99m: FSM absoluto e RFC com menor custo e ampla disponibilidade; boa correlação com PET, mas estudos pequenos e unicêntricos. |
AngioTC: angiotomografia; CZT: cádmio, zinco e telúrio; DAC: doença arterial coronariana; PET: tomografia por emissão de pósitron; RFC: reserva de fluxo coronariana; RMC: ressonância magnética cardíaca; SPECT: tomografia computadorizada por emissão de fóton único. Adaptado de Koilpillai et al.100
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
❓ Pergunta-chaveQual o diferencial da PET em relação à SPECT convencional?Ver resposta
Quantificação absoluta do fluxo miocárdico e da reserva de fluxo — o que permite detectar doença multiarterial balanceada e disfunção microvascular, além de perfusão relativa. Por isso a Tabela 7 cita a PET como preferencial IB, embora ainda indisponível no Brasil.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.3, 2.2.3.1–2.2.3.3 e 3.1.4; Tabela 7; Figuras 7–13.
5🩻 Escore de cálcio coronariano e angiotomografia
A tomografia avalia coronárias de duas formas: cálcio (sem contraste) e luminografia com contraste (placa, estenose, composição).
- Escore de cálcio: reestratificação de assintomáticos de risco intermediário IA; não para afastar estenose em sintomáticos IIIB nem em DAC obstrutiva conhecida IIIC.
- AngioTC: exame inicial em PPT intermediária/intermediária-alta sem diagnóstico anatômico prévio IA.
- Alto VPN; VPP crescente, maior com FFR-TC.
- Limitações: DRC/alergia a contraste, cálcio extenso.
Escore de cálcio: o que mede e o que não mede
✅ Mede
- Presença e carga de cálcio coronário (marcador de aterosclerose)
- Modifica muito o risco de evento isquêmico (mais específico que placas carotídeas)
- Exame simples, sem contraste, <10 min
❌ Não mede
- Grau de estenose luminal
- Placas não calcificadas
- Isquemia
- “Zero” não exclui obstrução em sintomático
Reestratificação de risco em assintomáticos com escore de risco clínico intermediário.
Reestratificação em assintomáticos com DM ou síndrome metabólica e risco clínico intermediário; em assintomáticos de risco intermediário para orientar prevenção primária medicamentosa; em portadores de hipercolesterolemia familiar heterozigótica.
Reestratificação em assintomáticos de risco clínico baixo com história familiar de DAC precoce; triagem para pesquisa de isquemia em assintomáticos com DM; melhor estratificação em pacientes sem DAC conhecida com testes de isquemia negativos.
Para afastar estenose coronária significativa em sintomáticos com suspeita de angina estável ou síndrome coronária aguda.
Uso em pacientes com DAC obstrutiva conhecida.
Na extração do PDF, os agrupamentos das linhas da Tabela 9 sob “I B” e “IIa B” foram reconstruídos pela disposição do texto; confira a tabela original.
❓ Pergunta-chaveUm escore de cálcio zero exclui DAC em qualquer paciente?Ver resposta
Não. Estudos mostram obstruções significativas mesmo sem calcificação; o critério deve ser usado com cautela, especialmente em risco moderado-alto. Por isso é IIIB para afastar estenose em sintomáticos.
Por outro lado, no PROMISE, 84% dos eventos adversos maiores ocorreram em pacientes com escore >0 — alguns autores sugerem o escore antes de outros exames em sintomáticos de baixo risco.
Angiotomografia coronariana (angioTC)
PPT intermediária / intermediária-alta: como exame inicial para diagnóstico ou estratificação de risco de doença obstrutiva em pacientes sem diagnóstico anatômico prévio.
PPT intermediária / intermediária-alta: diagnóstico em pacientes com testes funcionais incertos/conflitantes, como alternativa ao estudo invasivo.
Baixo risco pré-teste: diagnóstico com testes funcionais incertos/conflitantes, como alternativa ao estudo invasivo.
Baixo risco pré-teste: como primeira opção diagnóstica na dor torácica.
Baixo risco pré-teste: estimativa da carga aterosclerótica sem diagnóstico prévio de DAC.
Luz, parede e placa
Estenose, carga e composição da placa; placas de alto risco (baixo realce, remodelamento positivo, “anel de napkin”); estenoses proximais.
Anatomia + função
Reserva fracionada de fluxo derivada da TC numa única aquisição; aumenta o VPP. Limitações: disponibilidade e custo. SYNTAX III Revolution: TC com FFR ajuda a escolher ICP vs CRM.
Quem não é bom candidato
DRC ou alergia a contraste (restrição); calcificação extensa dificulta a visualização do lúmen (ex.: DRC). Qualidade depende do preparo (FC, ritmo) — detalhes técnicos na diretriz de TC/RM da SBC.
- PPT intermediária ou intermediária-alta, sem anatomia prévia conhecida (I-A).
- Testes funcionais conflitantes ou inconclusivos (I-A).
- PPT baixa (>5–15%) em que se deseja ajustar a probabilidade (Figura 16).
- Quando excluir lesão de TCE ≥50% muda a conduta (estratégia conservadora do ISCHEMIA).
Interpretação prática baseada nas Tabelas 10–11 e Figura 16.
❓ Pergunta-chaveQuando a angioTC é mais útil?Ver resposta
Nos grupos de probabilidade intermediária — é ali que a tomografia alcança seus melhores resultados. Modelos mais recentes de PPT são mais fiéis que os antigos (que superestimam a chance de estenose), e alguns autores recomendam calcular a PPT antes de solicitar a angioTC.
❓ Pergunta-chavePaciente com alta carga de cálcio ainda pode ser adequadamente avaliado pela angioTC?Ver resposta
Com limitação. A diretriz cita o alto grau de calcificação coronária (ex.: DRC) como fator que dificulta a visualização do lúmen. Nesses casos, um teste funcional pode ser mais informativo.
Discussão baseada no texto da diretriz (seções 2.2.5 e 16.1).
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.5, 2.2.5.1, 2.2.5.2 e 3.1.6; Tabelas 9, 10 e 11.
6Ressonância magnética cardiovascular e viabilidade
Um exame, múltiplos parâmetros: isquemia, fibrose/necrose, viabilidade e função biventricular (padrão-ouro de função global e segmentar).
- Perfusão sob estresse vasodilatador (dipiridamol/adenosina) IA; contratilidade com dobutamina IB.
- Perfusão: mais sensível; dobutamina: mais específica.
- RMC de estresse negativa: <1% eventos/ano; prognóstico não inferior à FFR (3,7% vs 3,6%).
- Viabilidade pelo realce tardio: transmuralidade 25–50% = zona intermediária → reserva contrátil/PET.
- Viabilidade não deve ser pré-requisito isolado para decidir revascularização (STICH, REVIVED).
Isquemia pela RMC
| Indicação / cenário | Classe | Nível |
|---|---|---|
| Perfusão sob estresse farmacológico com dipiridamol/adenosina | I | A |
| Contratilidade sob estresse com dobutamina | I | B |
| Angina estável/equivalente com PPT intermediária de DAC | I | B |
| Identificar e quantificar isquemia em DAC conhecida (exceto anatomia de alto risco*) | I | B |
| DAC não obstrutiva conhecida e/ou suspeita de INOCA | IIa | C |
*Anatomia de alto risco: estenose >50% em TCE e triarteriais com acometimento proximal.
Estados do miocárdio
Seções 2.2.6 e 15.1Do miocárdio normal à fibrose
Esquema didático com os conceitos usados pela diretriz (realce tardio, viabilidade, hibernação e atordoamento).
Viabilidade pela RMC
| Recomendação | Classe | Nível |
|---|---|---|
| Detecção de infarto agudo e crônico pelo realce tardio | I | A |
| Diagnóstico diferencial com etiologia não isquêmica (outras cardiomiopatias) | I | B |
| Viabilidade no cenário pré-revascularização pelo realce tardio* | I* | B* |
| Detectar trombo ventricular | I | B |
| Avaliação de aneurisma de VE | I | B |
| Função regional em repouso e estresse | IIa | B |
*Refere-se à escolha da RMC como método preferencial para pesquisar viabilidade — não à pesquisa de viabilidade em si como estratégia pré-revascularização.
ECO: ecocardiograma; PET: tomografia por emissão de pósitrons; RMC: ressonância magnética cardíaca; RTM: realce tardio miocárdico.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
SIM Revascularização + TCO
NÃO TCO
SIM Revascularização + TCO
NÃO TCO
Versão didática baseada na Figura 14 (algoritmo da III Diretriz de TC e RM da SBC). TCO = tratamento clínico otimizado.
- STICH: CRM + TMO reduziu mortalidade em 10 anos em FEVE reduzida; o benefício independeu da viabilidade (subestudo, 601 pacientes).
- REVIVED-BCIS2: 700 pacientes, FEVE ≤35% e viabilidade em ≥4 segmentos — ICP não reduziu morte/internação por IC (37,2% vs 38,0%; HR 0,99).
- Fibrose (realce tardio): cada +10% → +18% de risco de eventos; prediz menor recuperação da FEVE.
- Metanálise (STICH, PARR-2, HEART, REVIVED): sem diferença de mortalidade.
Resumo da diretriz (15.6): DAC com FEVE ≤35% passível de CRM → encaminhar prontamente; benefício da CRM independe da viabilidade; ICP não reduziu morte/internação por IC; viabilidade → melhor prognóstico e FEVE com TMO ± cirurgia; fibrose prediz pior prognóstico.
❓ Pergunta-chaveUm clássico em que a pesquisa de viabilidade ainda tem papel?Ver resposta
Paciente com disfunção de VE e parede anterior acinética ou discinética — a RMC permanece ferramenta importante para avaliar viabilidade e prognóstico. Transmuralidade intermediária (25–50%) pode se beneficiar de reserva contrátil com dobutamina ou PET.
❓ Pergunta-chaveViabilidade ausente contraindica CRM em FEVE ≤35%?Ver resposta
Não. A diretriz afirma que a viabilidade não deve ser pré-requisito para a decisão; no STICH o benefício da CRM foi independente da viabilidade.
Discussão baseada no texto da diretriz (seções 15.4–15.6).
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.6, 3.1.5 e 15; Tabelas 12 e 13; Figura 14.
7Cateterismo cardíaco e 🧭 como investigar suspeita de SCC
Coronariografia continua padrão-ouro anatômico, mas deve, quando possível, ser precedida da otimização clínica. A escolha do primeiro exame parte da probabilidade pré-teste.
- Indicações do cateterismo: angina limitante/progressiva ou queda da capacidade funcional apesar do TMO; disfunção de VE e/ou IC novos; isquemia moderada a importante (com intenção de revascularizar — ou estratégia conservadora se sem FEVE ≤35%, TCE ≥50% ou angina limitante).
- PPT: ≤5% nada; >5–15% ajustar/angioTC; >15–50% funcional ou angioTC; >50–85% funcional; >85% cateterismo.
- Não há modelo de PPT ideal para brasileiros: use o que conhece, com julgamento clínico.
Cateterismo: o que oferece e quando indicar
Anatomia detalhada
Vasos e lesões, bifurcações, comprimento, calibre, cálcio, trombo, dissecção, leito distal, colaterais, stents e enxertos, geometria — estima carga de doença, potencial de revascularização e riscos. Pode incluir pressões de VE/aorta e ventriculografia. Acesso radial preferencial; baixas taxas de complicação.
É um luminograma
Não define significado funcional de lesões intermediárias/ambíguas (usar FFR/índices não hiperêmicos ou QFR) e informa pouco sobre a placa (usar IVUS/OCT). Não diagnostica INOCA sem avaliação fisiológica.
Seção 2.2.7Quando encaminhar ao cateterismo
❓ Pergunta-chaveQuando NÃO usar o cateterismo como exame inicial?Ver resposta
Na maioria dos sintomáticos com PPT até 85%: a diretriz reserva a cineangiocoronariografia como exame direto para PPT muito alta (>85%) e, fora disso, para as indicações clínicas acima, idealmente após otimizar o tratamento. Nas demais faixas, preferem-se angioTC ou provas funcionais.
Probabilidade pré-teste e escolha do exame
ECG: eletrocardiograma.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Versão didática baseada na Figura 15 da Diretriz SBC 2025.
DAC: doença arterial coronariana.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Versão didática baseada na Figura 16. Texto da seção 3.1.7: PPT <5% não requer investigação; 5–15% avaliação individual; 15–85% testes funcionais ou anatômicos; >85% geralmente permite diagnóstico clínico.
| Modelo | Origem | Variáveis | Pontos fortes | Limitações |
|---|---|---|---|---|
| Diamond-Forrester | 1979 · EUA | Idade, sexo, tipo de dor | Simples, rápido, historicamente influente | Superestima a PPT atual; dados dos anos 1970 |
| Diamond-Forrester modificado (PROMISE) | 2018 | Idade, sexo, tipo de dor | Recalibrado; melhor acurácia contemporânea | Três variáveis, sem outros FR |
| CAD Consortium Basic | 2012 · Europa | Idade, sexo, tipo de dor | Reprodutível; base da ESC 2013 | Tende a superestimar em sintomas atípicos |
| CAD Consortium Clinical (Genders) | 2012 · Europa | + tabagismo, DM, HAS | Mais acurado; incorporado na ESC 2019 | Requer mais informações |
| ESC 2019 recalibrado | 2019 | Idade, sexo, tipo de dor, dispneia | Mais próximo da realidade; PPT mais baixa | Pode subestimar com FR importantes |
| Percepção clínica | — | Julgamento médico | Complementa os modelos; importante no SUS heterogêneo | Alta variabilidade |
🧮 Calculadora de probabilidade clínica — modelo RF-CL (ESC 2024)
A Diretriz SBC 2025 não tem calculadora própria e não define o modelo ideal para a população brasileira: sugere usar o modelo de probabilidade pré-teste (PPT) com que o avaliador esteja mais familiarizado, somado à percepção clínica (Quadro 7, seção 3.1.7). O modelo abaixo — RF-CL (Risk Factor-weighted Clinical Likelihood) — vem da Diretriz ESC 2024 de Síndromes Coronarianas Crônicas (Vrints C et al. Eur Heart J. 2024;45:3415–537), que é a referência 2 da própria diretriz SBC. Ele é apresentado como apoio à estimativa, não como recomendação da SBC.
Diferenças a lembrar: (1) a ESC 2024 troca “angina típica/atípica/não anginosa” por um escore de sintomas de 0 a 3 pontos; (2) no critério de alívio, a ESC usa “em até 5 min”, enquanto o Quadro 2 da SBC usa “em até 10 minutos”; (3) o Quadro 7 da SBC compara o modelo “ESC 2019 recalibrado”, e não o RF-CL, que é posterior.
Recomendações da ESC 2024 sobre a estimativa da probabilidade
Recomendações formais da ESC 2024 (Tabela de Recomendações 3), traduzidas — não são recomendações da SBC.
Recomenda-se estimar a probabilidade pré-teste de DAC epicárdica obstrutiva com o modelo de probabilidade clínica ponderada por fatores de risco (RF-CL).
Recomenda-se usar dados clínicos adicionais (ex.: exame das artérias periféricas, ECG de repouso, ecocardiograma de repouso, presença de calcificações vasculares em exames de imagem prévios) para ajustar a estimativa do modelo RF-CL.
Em indivíduos com probabilidade pré-teste muito baixa (≤5%) de DAC obstrutiva, deve-se considerar adiar novos testes diagnósticos.
Em indivíduos com probabilidade pré-teste baixa (>5–15%), o escore de cálcio (CACS) deve ser considerado para reclassificar e identificar mais indivíduos com probabilidade clínica ponderada pelo CACS muito baixa (≤5%).
Em indivíduos com probabilidade inicialmente baixa (>5–15%), o teste ergométrico e a detecção de doença aterosclerótica em artérias não coronárias podem ser considerados para ajustar a estimativa.
Traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês · © ESC 2024 (Vrints et al., dados de Winther et al.). Clique para ampliar.
Leitura em texto da Figura 4
Passo 1 – Escore de sintomas (0–3). Sintoma principal: dor torácica (0–3 pontos: 1 ponto para desconforto constritivo retroesternal ou no pescoço, mandíbula, ombro ou braço; 1 ponto se agravada por estresse físico ou emocional; 1 ponto se aliviada por repouso ou nitrato em até 5 min) ou dispneia (falta de ar e/ou dificuldade para respirar agravada pelo esforço = 2 pontos).
Passo 2 – Número de fatores de risco (0–5): história familiar, tabagismo, dislipidemia, hipertensão e diabetes.
Passo 3 – Tabela RF-CL: reproduzida integralmente no quadro abaixo.
| Idade | Escore 0–1 ponto | Escore 2 pontos | Escore 3 pontos | |||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Mulheres | Homens | Mulheres | Homens | Mulheres | Homens | |
Cada célula mostra os três valores para 0–1, 2–3 e 4–5 fatores de risco. Cores: muito baixa (≤5%) · baixa (>5–15%) · moderada (>15–50%). Valores conferidos célula a célula com a Figura 4 (p. 3439) e com o painel 1 da Figura 5 (p. 3448) da ESC 2024.
Calculadora interativaEstime a probabilidade clínica (RF-CL)
Preencha idade, sexo, sintoma e fatores de risco.
Ferramenta educacional. Resultado = valor exato da tabela da Figura 4 (ESC 2024); fora de 30–80 anos o modelo não fornece estimativa. Os avisos sobre modificadores são qualitativos: a ESC afirma que, além do CACS-CL, nenhum método validado fornece valores ajustados ao RF-CL — o ajuste é julgamento clínico.
Traduzida para o português mantendo o formato original · ver original em inglês · © ESC 2024. Clique para ampliar.
Como ler o nomograma do escore de cálcio (passo 3)
- Localize a RF-CL do paciente no eixo horizontal (0–80%).
- Suba até a curva do CACS medido (0; 1–9; 10–99; 100–399; 400–999; ≥1000).
- Leia no eixo vertical a CACS-CL e a faixa colorida: azul = muito baixa (≤5%), verde = baixa (>5–15%), amarelo = moderada (>15–50%), laranja = alta (>50–85%), vermelho = muito alta (>85%).
A página não converte o nomograma em números: as curvas são lidas graficamente, como na figura original. Leitura didática: a curva de CACS 0 fica na faixa azul ao longo da faixa de RF-CL baixa, o que explica a reclassificação para muito baixa; CACS mais altos deslocam a probabilidade para cima.
O RF-CL só “vê” idade, sexo, sintoma e cinco fatores de risco. Os seis achados do passo 2 também aumentam a chance de DAC obstrutiva, mas não entram na conta — se um deles estiver presente, o número da tabela provavelmente está baixo demais. A ESC 2024 manda ajustar (Classe I, Nível C), mas não diz quanto: além do CACS-CL, nenhum método validado converte esses achados em porcentagem; o ajuste é julgamento clínico.
Onde muda a conduta: quase só nas faixas muito baixa (≤5%) e baixa (>5–15%) — justamente as que autorizam não investigar ou adiar. Acima disso o paciente já seguirá para exame.
| Achado | O que sugere | O que fazer |
|---|---|---|
| Onda Q ou alteração de ST/T no ECG de repouso | Infarto prévio silencioso ou isquemia | Ecocardiograma: alteração segmentar no território → provável DAC já estabelecida (RMC com realce tardio confirma infarto crônico — SBC Tabela 13, I-A) |
| Teste ergométrico com achados anormais | Já é evidência de isquemia, não “risco de base” | Seguir para imagem (funcional ou angio-TC) |
| Disfunção do VE (grave ou segmentar) | Possível cardiomiopatia isquêmica | Investigar a etiologia; muda urgência e tipo de exame |
| Arritmia ventricular | Possível substrato isquêmico | Não conduzir como dor de baixo risco |
| Doença arterial periférica | Aterosclerose sistêmica | Probabilidade coronária maior que a da tabela |
| Calcificação coronária em TC de tórax prévia | Placa coronária já documentada | O passo 3 (escore de cálcio / CACS-CL) tende a reclassificar para cima |
Exemplo: homem de 52 anos, dor com 2 características (2 pontos), 1 fator de risco → RF-CL 6% (baixa). Sem achados do passo 2: pode-se adiar ou usar o escore de cálcio para reclassificar (ESC IIa B). O mesmo paciente com onda Q inferior: os 6% deixam de valer para decidir — eco (alteração segmentar inferior?) e investigação, não “adiar testes”.
Em resumo: o passo 1 dá o número; o passo 2 avisa quando não confiar nele para mandar o paciente para casa.
🩺 10 casos clínicos: do sintoma à conduta com o RF-CL
Leia o caso, faça sua estimativa (probabilidade, faixa, ajuste, exame e o que mais pedir) e só depois toque em “Ver resolução comentada”. São 5 casos intermediários e 5 difíceis. Cada resolução percorre a rota completa: escore de sintomas → fatores de risco → tabela → ajuste por achados clínicos → escore de cálcio → conduta (SBC Figura 16 e ESC Figura 6) → o que mais pedir. Recomendações da ESC são identificadas como tal; as da SBC, com tabela de origem.
Aposentada, hipertensa e dislipidêmica (em uso de losartana e sinvastatina 20 mg). Há 2 meses tem aperto retroesternal ao subir dois lances de escada, que cede em cerca de 3 minutos ao parar. Nunca fumou; sem diabetes; pai com IAM aos 70 anos. PA 132/80 mmHg, FC 74 bpm, exame físico normal. ECG de repouso normal. Qual a probabilidade clínica? O que pedir? Precisa de mais alguma coisa?
Ver resolução comentada
Passo 1 – Escore de sintomas: desconforto constritivo retroesternal (1) + desencadeado por esforço físico (1) + alívio com repouso em até 5 min (1) = 3 pontos. Na terminologia da SBC (Quadro 2), seria angina típica.
Passo 2 – Fatores de risco: hipertensão (1) + dislipidemia (1) = 2. A história familiar não conta: o pai teve IAM aos 70 anos, e a definição exige DAC precoce (homem <55 anos).
Passo 3 – Tabela: mulher, 60–69 anos, 3 pontos, coluna 2–3 fatores → RF-CL = 14% (baixa).
Ajuste (passo 2 da Figura 5): ECG normal; nenhum achado que indique subestimação até aqui. O ecocardiograma ainda faz parte da avaliação inicial e pode mudar o ajuste.
Escore de cálcio (passo 3 da Figura 5): na faixa baixa, a ESC recomenda considerar o CACS para reclassificar (Classe IIa, Nível B, ESC). CACS 0 → CACS-CL tende a cair para muito baixa e permitir adiar testes; CACS elevado → a probabilidade sobe e orienta o exame seguinte.
Conduta: SBC Figura 16 (baixa) → ajustar a PPT ou angiotomografia. ESC Figura 6 → ajustar a probabilidade ou angio-TC; a angio-TC é recomendada na faixa >5–50% para diagnosticar DAC obstrutiva e estimar risco (Classe I, Nível A, ESC). Com sintomas que limitam a vida diária, a angio-TC direta é a opção mais resolutiva; o CACS isolado é alternativa se os sintomas forem leves.
Precisa de mais algo? Sim: ecocardiograma transtorácico na avaliação inicial da SCC suspeita (SBC Tabela 5, Classe I, Nível B) e laboratório da Tabela 3 da SBC (perfil lipídico I-A, hemograma I-B, glicemia + HbA1c I-B, creatinina/TFG I-A, função tireoidiana I-C). Teste ergométrico para diagnóstico não é a melhor escolha se há imagem disponível (SBC IIb B; ESC: não recomendado para descartar DAC na faixa >5–50% se houver angio-TC ou imagem funcional — Classe III, Nível C).
Motorista, tabagista ativo (30 maços-ano), diabético, hipertenso e com LDL-C de 142 mg/dL. Há 3 meses sente falta de ar ao subir rampas, sem dor torácica. Nega ortopneia. PA 148/90 mmHg, IMC 31 kg/m², ausculta normal. ECG: ritmo sinusal, sem alterações. Creatinina 0,9 mg/dL. Qual a probabilidade? Qual exame? Precisa de mais algo?
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Passo 1: sintoma principal = dispneia aos esforços → 2 pontos. Não se somam pontos de dor: conta o sintoma principal.
Passo 2: tabagismo + diabetes + hipertensão + dislipidemia = 4 fatores. A obesidade não entra no RF-CL (é modificador citado pela SBC na Figura 15).
Passo 3: homem, 50–59 anos, 2 pontos, coluna 4–5 → RF-CL = 17% (moderada).
Ajuste: ECG normal. A obesidade sugere que a estimativa pode estar levemente subestimada, mas não muda a faixa: o paciente já será investigado.
Escore de cálcio: a reclassificação pelo CACS é recomendada para a faixa baixa; na moderada, a decisão já é investigar.
Conduta: SBC Figura 16 (>15–50%) → prova funcional ou angiotomografia; angio-TC como exame inicial em PPT intermediária sem anatomia prévia é Classe I, Nível A (SBC Tabela 11). ESC: angio-TC Classe I, Nível A (>5–50%) ou imagem funcional (eco de estresse, SPECT/PET, RMC — Classe I, Nível B, >15–85%). Com função renal normal e sem alergia, a angio-TC é a opção natural; o eco de estresse é igualmente válido.
Precisa de mais algo? Ecocardiograma (SBC Tabela 5, I-B): na dispneia, além de função global e segmentar, busca diagnósticos alternativos (valvopatia, disfunção diastólica, hipertensão pulmonar). Laboratório da Tabela 3; BNP/NT-proBNP pode ser útil na suspeita de disfunção de VE com dispneia (texto da SBC, seção 2.2.4). Cessação do tabagismo e controle da PA começam já, independentemente do resultado.
Hipertensa, IMC 34 kg/m², não fumante, sem diabetes. Há 10 dias tem dor em pontada na região paraesternal esquerda, de segundos de duração, que piora ao girar o tronco e à palpação do 4º arco costal. Sem relação com esforço; não melhora com repouso. ECG normal. Pede “um exame do coração”. Qual a probabilidade? Precisa de algum exame cardiológico?
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Passo 1: pontada paraesternal (não é desconforto constritivo) = 0; sem relação com esforço = 0; sem alívio com repouso = 0 → 0 ponto (coluna 0–1).
Passo 2: hipertensão = 1 fator. Obesidade não é fator do RF-CL.
Passo 3: mulher, 50–59 anos, 0–1 ponto, coluna 0–1 → RF-CL = 1% (muito baixa).
Ajuste: ECG normal, sem doença arterial periférica conhecida. A obesidade (Figura 15 da SBC) não muda o raciocínio diante de uma dor com padrão claramente musculoesquelético (costocondrite — Quadro 6 da SBC).
Conduta: SBC Figura 16 (≤5%) → sem necessidade de novos testes diagnósticos. ESC: adiar novos testes deve ser considerado (Classe IIa, Nível B), salvo sintomas persistentes após excluir causas não cardíacas.
Precisa de mais algo? Para DAC, não. O foco é tratar a causa provável da dor e manejar o risco cardiovascular global (PA, peso). Se a dor mudar de padrão (passar a surgir aos esforços), a estimativa deve ser refeita.
Hipertenso, ex-tabagista (parou há 15 anos). Sem diabetes; LDL-C 98 mg/dL sem tratamento. Há 6 semanas sente aperto retroesternal ao caminhar dois quarteirões, que cede em 2 minutos de repouso; os episódios estão estáveis. PA 138/78 mmHg; ECG normal. Creatinina 1,2 mg/dL (TFGe 60 mL/min/1,73 m²). Qual a probabilidade? Qual o melhor primeiro exame?
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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + esforço (1) + alívio ≤5 min (1) = 3 pontos.
Passo 2: hipertensão + tabagismo prévio = 2 fatores. LDL-C de 98 mg/dL sem diagnóstico de dislipidemia não conta — o modelo usa dislipidemia presente no diagnóstico.
Passo 3: homem, 70–80 anos, 3 pontos, coluna 2–3 → RF-CL = 44% (moderada). A tabela não passa de 45%.
Ajuste: ECG normal; aguardar o ecocardiograma. Sem achados que reclassifiquem por enquanto.
Conduta: SBC Figura 16 → prova funcional ou angiotomografia. ESC Figura 6 → angio-TC ou imagem funcional. Aos 71 anos, a chance de calcificação coronária extensa é maior, e a SBC lembra que cálcio extenso dificulta a visualização do lúmen na angio-TC — uma imagem funcional (eco de estresse, cintilografia ou RMC de estresse — Classe I) é escolha muito razoável; a angio-TC continua válida, inclusive se a imagem funcional for inconclusiva (ESC, Classe I, Nível B).
Precisa de mais algo? Ecocardiograma (SBC Tabela 5, I-B) e laboratório da Tabela 3. Iniciar já nitrato de ação curta para as crises (SBC Tabela 21, I-B) e terapia preventiva (o modelo estima a doença; não substitui a prevenção). Se a angina piorar para esforços mínimos, reavaliar a estratégia (caso 9).
Advogada, sem comorbidades, não fumante, sem história familiar. Relata episódios de aperto retroesternal durante discussões no trabalho, que duram 20–30 minutos e passam sozinhos; nunca durante exercício (corre 5 km três vezes por semana sem sintomas). ECG normal. Muito ansiosa com a possibilidade de “infarto”. Qual a probabilidade? Precisa investigar?
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Passo 1: desconforto constritivo retroesternal (1) + agravado por estresse emocional (1 — o critério é “físico ou emocional”) + alívio só após 20–30 min (0) = 2 pontos.
Passo 2: 0 fator.
Passo 3: mulher, 40–49 anos, 2 pontos, coluna 0–1 → RF-CL = 1% (muito baixa).
Ajuste: ECG normal. Um dado pesa a favor da baixa probabilidade de DAC obstrutiva: tolera exercício vigoroso sem sintomas.
Conduta: SBC Figura 16 (≤5%) → sem necessidade de novos testes diagnósticos para DAC obstrutiva; ESC: adiar testes (Classe IIa, Nível B). Explicar com clareza o significado do resultado ajuda a reduzir a ansiedade — fator psicossocial que a SBC reconhece (capítulo 11).
Precisa de mais algo? Não para DAC obstrutiva. Se os episódios persistirem ou mudarem (repouso, madrugada, alívio com nitrato), pensar em outros mecanismos, como vasoespasmo (caso 10). A ESC considera dor desencadeada por estresse emocional um possível equivalente anginoso (Classe IIa, Nível B) — por isso ela pontua — mas o RF-CL estima obstrução, e aqui ela é muito improvável.
Diabético há 8 anos, sem outros fatores. Refere aperto retroesternal ao subir ladeira, que melhora em 10–15 minutos de repouso. ECG: ondas Q de V1 a V3. Ecocardiograma: FEVE 46%, acinesia do septo anterior e do ápice. Nunca teve internação ou dor prolongada. Qual a probabilidade pelo modelo? Ela ainda serve? O que fazer?
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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + esforço (1) + alívio só após 10–15 min (0 na ESC) = 2 pontos. (Pela SBC — alívio em até 10 minutos — o caso ficaria no limite entre típica e atípica.)
Passo 2: diabetes = 1 fator.
Passo 3: homem, 50–59 anos, 2 pontos, coluna 0–1 → RF-CL = 6% (baixa).
Ajuste — aqui o número perde o valor: ondas Q em parede anterior + acinesia segmentar no mesmo território + FEVE reduzida são achados do passo 2 da Figura 5 (ESC: ajustar, Classe I, Nível C) e da Figura 15 da SBC. Mais do que “aumentar a probabilidade”, eles sugerem infarto prévio silencioso — o paciente provavelmente já tem DAC.
O que fazer: confirmar e estratificar. RMC com realce tardio detecta infarto crônico (SBC Tabela 13, I-A) e quantifica a extensão da necrose; a RMC também avalia isquemia em DAC conhecida (SBC Tabela 12, I-B). Com disfunção de VE, a SBC lista disfunção ventricular esquerda nova como indicação de cateterismo (seção 2.2.7) — decisão a ser individualizada após a RMC. Prevenção secundária já: estatina de alta intensidade com meta de LDL <50 mg/dL e redução ≥50% (SBC Tabela 16, I-A), AAS se infarto confirmado (I-A), iSGLT2 ou agonista de GLP-1 no DM2 (SBC Tabela 20, I-A), iECA pela disfunção e pelo diabetes (SBC Tabela 18, I-A).
Precisa de mais algo? Laboratório da Tabela 3, BNP/NT-proBNP pela disfunção de VE e controle glicêmico. O escore de cálcio não acrescenta nada aqui.
Hipertensa e dislipidêmica, nunca fumou, sem diabetes. Relata aperto retroesternal aos esforços maiores, que melhora após cerca de 15 minutos de repouso. ECG normal. Fez TC de tórax há 6 meses por nódulo pulmonar: o laudo descreve “calcificações coronárias extensas em descendente anterior”. A paciente pode ficar sem exames? Qual o próximo passo?
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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + esforço (1) + alívio só após 15 min (0) = 2 pontos.
Passo 2: hipertensão + dislipidemia = 2 fatores.
Passo 3: mulher, 50–59 anos, 2 pontos, coluna 2–3 → RF-CL = 3% (muito baixa).
Ajuste: “calcificação coronária em TC de tórax prévia” é exatamente um dos seis achados do passo 2 da Figura 5 (ESC: usar dados clínicos adicionais, incluindo calcificações vasculares em exames prévios, para ajustar — Classe I, Nível C). A Figura 15 da SBC também lista “escore de cálcio elevado”. Conclusão: os 3% não autorizam adiar a investigação. A ESC é explícita: se o cálcio é alto e há achados indicando que o RF-CL subestima, o exame deve ser escolhido pela probabilidade ajustada e pela carga de cálcio.
Qual exame: a probabilidade ajustada é incerta, mas claramente mais alta que 3%. Com calcificação extensa, a angio-TC pode ter a avaliação do lúmen prejudicada (texto da SBC); uma prova funcional com imagem (eco de estresse, cintilografia ou RMC de estresse) é uma escolha coerente. Um escore de cálcio formal pode quantificar a carga e, pelo nomograma da Figura 5, mostrar o quanto a probabilidade sobe.
Precisa de mais algo? Ecocardiograma (SBC Tabela 5), laboratório (Tabela 3) e prevenção mais intensiva: há aterosclerose coronária documentada, independentemente de haver obstrução.
Hipertenso e tabagista ativo. Há 1 mês tem episódios de aperto retroesternal em repouso, sem relação com esforço, que cedem com nitrato sublingual (prescrito no pronto-socorro) em 2 minutos. ECG, eco e troponinas no PS normais. Sintomas leves, não limitantes. Qual a probabilidade? O escore de cálcio ajuda? E se o resultado vier 0 — ou 250?
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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + sem relação com esforço ou estresse (0) + alívio com nitrato em ≤5 min (1) = 2 pontos.
Passo 2: hipertensão + tabagismo = 2 fatores.
Passo 3: homem, 40–49 anos, 2 pontos, coluna 2–3 → RF-CL = 6% (baixa).
Ajuste: ECG e eco normais — nenhum achado do passo 2 da Figura 5.
Escore de cálcio: é o cenário exato do passo 3 da Figura 5 — RF-CL baixa: considerar o CACS para reclassificar (Classe IIa, Nível B, ESC).
- CACS 0: no nomograma, a curva de CACS 0 fica na faixa azul nessa altura do eixo → CACS-CL muito baixa (≤5%) → novos testes podem ser adiados (ESC). Atenção: a ESC lembra que entre pacientes jovens com DAC obstrutiva uma proporção maior tem CACS 0 (58% dos <40 anos).
- CACS 250 (faixa 100–399): a curva correspondente desloca a probabilidade para cima (para fora da faixa muito baixa) → investigar com angio-TC ou imagem funcional, guiado pela probabilidade ajustada.
Conflito aparente com a SBC: a SBC classifica o escore de cálcio para afastar estenose em sintomáticos como Classe III, Nível B (Tabela 9). A ESC não usa o CACS isoladamente: ele entra combinado ao RF-CL (CACS-CL) apenas na faixa baixa. Pela SBC (Figura 16), a faixa baixa admite ajustar a PPT ou angiotomografia — a angio-TC direta é uma alternativa igualmente defensável.
Precisa de mais algo? Os sintomas em repouso com alívio rápido por nitrato levantam também a possibilidade de vasoespasmo (caso 10) — o RF-CL não avalia esse mecanismo. Cessação do tabagismo é obrigatória (e é gatilho de vasoespasmo). Laboratório da Tabela 3.
Diabético, hipertenso, dislipidêmico e ex-tabagista. Há 4 meses apresenta aperto retroesternal ao caminhar cerca de 50 metros, que cede em 2 minutos de repouso; o padrão está estável desde o início, sem dor em repouso nem piora recente. TFGe 32 mL/min/1,73 m². ECG: infradesnivelamento de ST de 0,5 mm em V4–V6. Eco: FEVE 55%, sem alteração segmentar. Qual a probabilidade? O modelo basta? Qual a estratégia?
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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + esforço (1) + alívio ≤5 min (1) = 3 pontos.
Passo 2: DM + HAS + dislipidemia + tabagismo prévio = 4 fatores.
Passo 3: homem, 70–80 anos, 3 pontos, coluna 4–5 → RF-CL = 45% (moderada) — o maior valor da tabela.
Ajuste: alteração de ST/T no ECG de repouso (passo 2 da Figura 5) e disfunção renal importante (TFGe 32; a ESC cita a disfunção renal grave entre as condições não refletidas no modelo) → a probabilidade real provavelmente é alta. Some-se a angina em esforço mínimo.
Estratégia: a ESC recomenda, em sintomas novos (sem diagnóstico prévio de DAC) muito sugestivos de DAC obstrutiva que ocorrem em baixo nível de esforço, cateterismo com vistas à revascularização como primeiro exame após avaliação pelo cardiologista (Classe I, Nível C, ESC). Na SBC, angina limitante é indicação de cateterismo, quando possível após otimizar o tratamento clínico (seção 2.2.7). Atenção ao tempo de história: se o mesmo quadro tivesse começado há menos de 2 meses, angina de início recente em CCS III–IV seria angina instável (SBC Quadro 4) e sairia do fluxo ambulatorial da SCC; o mesmo vale para piora em crescendo ou dor em repouso ≥20 min.
A DRC muda o como, não o se: TFGe <60 é condição de alto risco para nefropatia por contraste (SBC seção 6.6): hidratação com soro fisiológico 0,9% (1,0–1,5 mL/kg/h por 3–12 h antes e 6–24 h depois, em eletivos), menor volume de contraste (relação contraste/TFG <3,7; idealmente técnica ultrabaixa), contraste iso ou hiposmolar. A angio-TC acrescentaria contraste e tende a ser limitada pelo cálcio; se se optar por um teste não invasivo antes, a SBC aponta a cintilografia com estresse farmacológico como o exame não invasivo mais indicado na DRC (seção 16.1). Decisão compartilhada com o paciente (idade, fragilidade, preferências) e discussão em Heart-Kidney Team (SBC Tabela 41, I-C).
Precisa de mais algo? Otimizar já os antianginosos (SBC Tabela 21) — ranolazina e trimetazidina não devem ser usadas com TFG <30 (aqui é 32) e a trimetazidina deve ser reduzida para 35 mg 1×/dia com TFG <60 —, AAS, estatina e controle glicêmico.
Tabagista ativa, sem outros fatores. Há 2 meses acorda às 5 h com aperto retroesternal intenso, que cede em 3 minutos com o nitrato sublingual que um colega lhe deu; tolera bem caminhadas e academia. Usa triptano para enxaqueca. ECG de repouso normal; eco normal. Qual a probabilidade de DAC obstrutiva? O resultado encerra a investigação?
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Passo 1: constritivo retroesternal (1) + sem relação com esforço ou estresse (0) + alívio com nitrato ≤5 min (1) = 2 pontos.
Passo 2: tabagismo = 1 fator (coluna 0–1).
Passo 3: mulher, 50–59 anos, 2 pontos, coluna 0–1 → RF-CL = 2% (muito baixa).
A armadilha: o RF-CL estima DAC epicárdica obstrutiva. O padrão — dor em repouso na madrugada, alívio rápido com nitrato, boa tolerância ao esforço, tabagismo e uso de triptano (vasoconstritor) — sugere angina vasoespástica, que o modelo não avalia. Probabilidade baixa de obstrução não exclui isquemia sem obstrução (ANOCA/INOCA).
O que fazer: ESC: Holter (ECG ambulatorial) deve ser considerado na suspeita de angina vasoespástica (Classe IIa, Nível B, ESC). O teste provocativo com acetilcolina intracoronária é a principal ferramenta diagnóstica do vasoespasmo (SBC seção 12.1.6). Tratamento: bloqueador de canal de cálcio como droga preferida, nitrato de ação rápida nas crises e nitrato de longa ação se persistir sintomática; betabloqueador é contraindicado (SBC seção 5.11). Suspender gatilhos: tabagismo e, em conjunto com o neurologista, rever o triptano.
Precisa de mais algo? Afastar SCA se houver episódio prolongado (troponina). Laboratório da Tabela 3. Se o diagnóstico permanecer incerto após testes não invasivos, a ESC recomenda cateterismo com avaliação funcional invasiva para confirmar ou excluir DAC obstrutiva ou ANOCA/INOCA (Classe I, Nível B, ESC).
Valores de RF-CL conferidos na tabela da Figura 4 (ESC 2024). Casos fictícios, com finalidade educacional.
- O RF-CL inclui sexo, idade, sintomas e número de fatores de risco, sem perder acurácia em relação a modelos mais complexos. Classifica como muito baixa (≤5%) três vezes mais pessoas que o modelo ESC-PTP de 2019 (38% vs 12%).
- Taxas anualizadas de IAM e morte previstas: 0,5% (muito baixa), 1,1% (baixa) e 2,1% (moderada).
- Ajuste individual pode ser necessário com fator de risco isolado grave ou comorbidade não refletida no modelo: hipercolesterolemia familiar, disfunção renal grave, doenças reumáticas/inflamatórias, DAP.
- Teste ergométrico negativo na faixa baixa permite reclassificar para muito baixa; porém a angio-TC como primeiro teste dá informação mais acurada.
- CACS = 0 tem VPN >95% para DAC obstrutiva — mas, entre pacientes com DAC obstrutiva, 58% dos <40 anos têm CACS 0 (vs 9% aos 60–69 anos). Com o CACS-CL, 54% (vs 38% com o RF-CL) ficaram como muito baixa nas coortes de validação externa.
- Pacientes com probabilidade ≤15% são ~85% dos que chegam com sintomas novos.
- Muito baixa: adiar testes salvo sintomas persistentes com causas não cardíacas excluídas. Baixa: benefício incerto, testar se sintomas limitantes. Moderada, alta e muito alta: incentivar investigação.
| Faixa | SBC 2025 – Figura 16 | ESC 2024 – Figura 6 (primeiro exame) |
|---|---|---|
| Muito baixa ≤5% | Sem necessidade de novos testes | Adiar novos testes |
| Baixa >5–15% | Ajustar PPT ou angiotomografia | Ajustar a probabilidade clínica ou angio-TC |
| Moderada >15–50% | Prova funcional ou angiotomografia | Angio-TC ou imagem funcional (PET/SPECT, RMC, eco de estresse) |
| Alta >50–85% | Prova funcional | Imagem funcional (PET/SPECT, RMC, eco de estresse) |
| Muito alta >85% | Cineangiocoronariografia | Cineangiocoronariografia |
A Figura 16 da SBC e a Figura 6 da ESC 2024 usam as mesmas cinco faixas e condutas equivalentes. Atenção: a tabela do RF-CL só chega a “moderada” (máximo 45%); as faixas alta e muito alta surgem após ajuste clínico ou pelo CACS-CL.
Casos práticos com o RF-CL
Mulher, 45 anos
Desconforto retroesternal em aperto ao subir ladeira, que cede em 3 min de repouso (3 pontos). HAS, DM, dislipidemia e tabagismo (4 fatores). RF-CL = 12% (baixa). ECG: ondas Q em DII, DIII e aVF.
Raciocínio: onda Q é achado do passo 2 da Figura 5 (ajuste, Classe I na ESC) e da Figura 15 da SBC → os 12% provavelmente subestimam. Eco transtorácico (SBC Tabela 5, I-B): se houver alteração segmentar inferior, pensar em infarto prévio (RMC com realce tardio confirma; Tabela 13, I-A) e conduzir como SCC; se o eco for normal, investigar (angio-TC) em vez de “não testar”.
Homem, 62 anos
Dispneia aos esforços moderados, sem dor (2 pontos). HAS e DM (2 fatores). RF-CL = 17% (moderada).
Raciocínio: a dispneia vale 2 pontos no RF-CL. Faixa >15–50% → prova funcional ou angio-TC (SBC Figura 16; ESC Figura 6). Eco transtorácico também ajuda a excluir causas não coronárias da dispneia.
Homem, 35 anos
Dor em pontada, sem relação com esforço, que não melhora com repouso (0 ponto). Ex-tabagista (1 fator). RF-CL = 1% (muito baixa).
Raciocínio: ≤5% → sem novos testes (SBC Figura 16); ESC: adiar testes (IIa B), salvo sintomas persistentes após excluir causas não cardíacas.
❓ Pergunta-chaveSe o paciente já tem hipertensão, diabetes e dislipidemia computados no RF-CL, devo “subir” a probabilidade por esses mesmos fatores (Figura 15 da SBC)?Ver resposta
Não. Esses fatores já entram no passo 2 do RF-CL; somá-los de novo superestima a probabilidade. Os modificadores que acrescentam informação são os que o modelo não considera: alterações do ECG de repouso, teste ergométrico anormal, disfunção do VE, arritmia ventricular, aterosclerose não coronária e calcificação coronária — além de obesidade (Figura 15 da SBC) e das condições citadas pela ESC (hipercolesterolemia familiar, disfunção renal grave, doença inflamatória).
Interpretação didática baseada na Figura 15 (SBC) e nas Figuras 4–5 (ESC 2024).
❓ Pergunta-chaveO RF-CL substitui a classificação típica/atípica do Quadro 2 da SBC?Ver resposta
Na ESC 2024, sim: o escore de sintomas (0–3) substitui a terminologia anterior, considerada potencialmente enganosa. A SBC 2025 mantém típica/atípica/não anginosa (Quadro 2). Na prática, a correspondência é direta (3 critérios = 3 pontos; 2 = 2 pontos; 0–1 = 0–1 ponto), com duas diferenças: a dispneia isolada vale 2 pontos no RF-CL, e o alívio é “em até 5 min” na ESC, contra “em até 10 minutos” na SBC.
Fonte: Vrints C et al. 2024 ESC Guidelines for the management of chronic coronary syndromes. Eur Heart J. 2024;45(36):3415–537 — seção 3.1.3, Tabela de Recomendações 3, Figuras 4, 5 e 6. Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seção 3.1.7, Quadro 7, Figuras 15 e 16.
🧮 Segundo modelo: CAD Consortium (Genders et al., BMJ 2012)
O CAD Consortium é um dos modelos listados pela própria SBC no Quadro 7 (referência 18 da diretriz), em duas versões: modelo básico (“derivado de grande coorte europeia, usado nas diretrizes ESC 2013”; limitação: “ainda tende a superestimar em pacientes com sintomas atípicos”) e modelo clínico (“modelo clínico completo, incorporado nas diretrizes ESC 2019”; ponto forte: “mais acurado; considera fatores de risco adicionais”; limitação: “requer mais informações; menos usado em serviços com limitações de dados clínicos”).
A SBC não traz a equação nem uma recomendação com classe e nível para este modelo. A diretriz não estabelece uma recomendação específica para esta situação (qual modelo usar): ela orienta usar o modelo com que o avaliador esteja mais familiarizado, somado à percepção clínica (seção 3.1.7).
Origem dos números desta seção: interceptos e coeficientes da Tabela 4 do apêndice on-line de Genders TS et al. (BMJ 2012;344:e3485). A calculadora foi conferida com o exemplo da Figura A2 do mesmo apêndice (resultado idêntico: 15%, 40% e 7%). Observação: o Quadro 7 da SBC lista “idade, sexo, tipo de dor, tabagismo, diabetes, hipertensão” para o modelo clínico; a publicação original inclui também dislipidemia — aqui seguimos a publicação.
O que o modelo é (e o que não é)
| Item | O que diz a publicação |
|---|---|
| População | 5.677 pacientes com dor torácica estável, sem DAC prévia (excluídos IAM e revascularização prévios), de 18 hospitais da Europa e dos EUA, encaminhados para angio-TC ou cineangiocoronariografia. |
| Desfecho previsto | DAC obstrutiva: ≥1 vaso com estenose ≥50% na cineangiocoronariografia. |
| Três versões | Básico: idade, sexo, tipo de dor. Clínico: + diabetes, hipertensão, dislipidemia e tabagismo. Clínico + escore de cálcio: + escore de cálcio (Agatston), em escala logarítmica. |
| Tipo de dor | Típica = 3 critérios: (1) dor ou desconforto retroesternal, (2) provocada por esforço ou estresse emocional, (3) aliviada por repouso e/ou nitroglicerina. Atípica = 2 critérios. Inespecífica = 0–1 critério. (Sem limite de tempo para o alívio.) |
| Definições mais usadas | Diabetes: glicemia de jejum ≥7 mmol/L (≈126 mg/dL) ou tratamento. Hipertensão: PA ≥140/90 mmHg ou anti-hipertensivo. Dislipidemia: colesterol total ≥5,2 mmol/L (≈200 mg/dL) ou hipolipemiante. Tabagismo: atual ou prévio. |
| Desempenho | Estatística C (validação cruzada): básico 0,77 → clínico 0,79 → com escore de cálcio 0,88. Calibração satisfatória nas bases de baixa prevalência. |
| O que não entra | Dispneia (o modelo é só para dor torácica), história familiar, ECG, ecocardiograma, doença vascular extracardíaca. |
Ver a equação e os coeficientes (Tabela 4 do apêndice)
Probabilidade = 1 / (1 + e−L), em que L = intercepto + soma dos coeficientes presentes. Idade em anos; sexo masculino = 1; dor típica ou atípica = 1 (referência: inespecífica); fatores de risco = 1 se presentes; escore de cálcio entra como ln(CAC + 1). A variável “setting” (ambiente de alta prevalência) é fixada em 0 ao aplicar o modelo a pacientes novos, como determina a publicação.
| Variável | Básico | Clínico | Clínico + cálcio |
|---|---|---|---|
| Intercepto | −6,917 | −7,539 | −5,975 |
| Idade (por ano) | 0,063 | 0,062 | 0,011 |
| Sexo masculino | 1,358 | 1,332 | 0,786 |
| Dor atípica | 0,658 | 0,633 | 0,718 |
| Dor típica | 1,975 | 1,998 | 2,024 |
| Diabetes | — | 0,828 | 0,658 |
| Hipertensão | — | 0,338 | 0,235 |
| Dislipidemia | — | 0,422 | 0,185 |
| Tabagismo | — | 0,461 | 0,207 |
| ln(CAC + 1) | — | — | 0,577 |
| Diabetes × dor típica | — | −0,402 | −0,780 |
A interação “diabetes × dor típica” é negativa: no diabético com dor típica, o diabetes acrescenta menos do que acrescentaria a um paciente com dor atípica — a dor típica já “carrega” boa parte da probabilidade. A publicação também traz o termo “setting × ln(CAC+1)”, que se anula com setting = 0.
Conferência: exemplo da Figura A2 do apêndice (homem, 50 anos, dor atípica, diabetes, hipertensão, dislipidemia, tabagismo, escore de cálcio 0) → básico 15%, clínico 40%, clínico + cálcio 7%; a calculadora abaixo reproduz os três valores. O texto do artigo cita “2%” para mulher de 50 anos com dor inespecífica e sem fatores de risco; pela equação do apêndice, o modelo clínico dá 1,2% (o básico, 2,3%) — as duas leituras ficam na faixa muito baixa.
Calculadora interativaCAD Consortium — básico, clínico e clínico + cálcio
Preencha idade, sexo e tipo de dor.
Ferramenta educacional. Resultado = equação logística da publicação (setting = 0), arredondado para inteiro. As faixas e condutas seguem a Figura 16 da SBC. O número não substitui o julgamento clínico nem os modificadores da Figura 15 da SBC (ECG, eco, doença vascular extracardíaca etc.), que o modelo não inclui.
RF-CL × CAD Consortium: o que muda na prática
| Aspecto | RF-CL (ESC 2024) | CAD Consortium clínico (2012) |
|---|---|---|
| Formato | Tabela (faixas de idade de 10 anos; 0–1, 2–3, 4–5 fatores) | Equação contínua (cada ano e cada fator contam) |
| Sintoma | Escore 0–3; alívio em até 5 min; dispneia vale 2 pontos | Típica / atípica / inespecífica; sem limite de tempo; sem dispneia |
| Fatores de risco | Contados, com peso igual (inclui história familiar) | Pesos diferentes (diabetes > tabagismo > dislipidemia > HAS); sem história familiar |
| Cálcio coronário | Nomograma separado (CACS-CL, Figura 5 da ESC) | Versão própria “clínico + cálcio” (equação) |
| Teto do resultado | Máximo 45% (só chega a “moderada”) | Pode chegar a >85% (ex.: 91% no homem de 80 anos com dor típica e vários fatores) |
| Onde aparece | ESC 2024 (Classe I, Nível B — recomendação da ESC) | Quadro 7 da SBC 2025 (sem classe/nível) |
| Paciente | RF-CL | CAD básico | CAD clínico | Leitura |
|---|---|---|---|---|
| Homem 50 a, dor atípica, DM + HAS + dislipidemia + tabagismo (exemplo da Figura A2) | 17 moderada | 15 baixa | 40 moderada | Mesma faixa, mas o CAD clínico pesa muito mais os quatro fatores. Com escore de cálcio 0, o modelo clínico + cálcio cai para 7%. |
| Mulher 45 a, dor típica, DM + HAS + dislipidemia + ex-tabagista | 12 baixa | 11 baixa | 25 moderada | Os modelos discordam na faixa: baixa (ajustar PPT ou angio-TC) × moderada (prova funcional ou angio-TC). Angio-TC é conduta comum às duas faixas. |
| Homem 70 a, dor típica, sem fatores de risco | 44 moderada | 70 alta | 53 alta | O RF-CL tem teto de 45%; o CAD Consortium leva o idoso com dor típica para a faixa alta (prova funcional, pela Figura 16 da SBC). |
| Mulher 58 a, dor atípica, HAS + dislipidemia | 3 muito baixa | 7 baixa | 7 baixa | Perto da fronteira de 5%: muito baixa (adiar testes) × baixa (ajustar PPT ou angio-TC). Sintomas e modificadores decidem. |
| Homem 62 a, só dispneia aos esforços, HAS + DM | 17 moderada | não se aplica | não se aplica | O CAD Consortium não foi construído para dispneia; aqui só o RF-CL (ou o julgamento clínico) estima a probabilidade. |
- O RF-CL tende a dar números mais baixos que o CAD Consortium no mesmo paciente — ele foi construído com dados mais recentes, em que a prevalência de DAC obstrutiva nos pacientes testados caiu.
- Quando os dois modelos caem em faixas diferentes, não existe regra da SBC para desempatar: escolha o modelo com que você trabalha (SBC, seção 3.1.7), registre a escolha e use os modificadores da Figura 15 e a percepção clínica.
- Na prática, a discordância costuma ocorrer entre faixas vizinhas cujas condutas se sobrepõem (a angio-TC aparece em “baixa” e em “moderada” na Figura 16 da SBC).
- Dispneia isolada → use o RF-CL. Diabético com vários fatores → o CAD clínico mostra melhor o peso de cada fator. Idoso com dor típica → o CAD Consortium não tem o teto de 45%.
🩺 6 casos clínicos com o CAD Consortium
Calcule (use a calculadora acima, se quiser), compare com o RF-CL e decida a conduta antes de abrir a resolução. Casos 1–3 intermediários; 4–6 difíceis.
Motorista, hipertenso em uso de anlodipino, tabagista atual (20 cigarros/dia). Aperto retroesternal ao carregar peso, que cede só após 15–20 minutos de repouso. Sem diabetes; colesterol total 182 mg/dL sem tratamento. ECG e ecocardiograma normais. Qual a probabilidade pelos dois modelos e o que pedir?
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Tipo de dor (CAD Consortium): retroesternal (1) + provocada por esforço (1) + aliviada por repouso (1) = típica, porque o modelo não impõe limite de tempo para o alívio. Atenção: pela ESC 2024 (alívio em até 5 min), o alívio em 15–20 min não pontua → 2 pontos; pelo Quadro 2 da SBC (até 10 min), também não seria típica.
CAD Consortium: se classificada como típica → básico 47%, clínico 50% (limite superior da faixa moderada); se o avaliador considerar atípica (alívio prolongado) → básico 19%, clínico 20%. Fatores: HAS e tabagismo (dislipidemia ausente: CT <200 mg/dL sem tratamento).
RF-CL: homem 50–59 anos, 2 pontos, 2 fatores (coluna 2–3) → 11% (baixa).
Leitura: o mesmo relato cai em “baixa” (RF-CL) e “moderada” (CAD Consortium, nas duas leituras do tipo de dor). Um alívio que demora 15–20 minutos é pouco característico de angina estável e merece reavaliação da história.
Conduta: moderada (SBC Figura 16) → prova funcional ou angiotomografia; baixa → ajustar PPT ou angiotomografia. A angiotomografia atende às duas faixas e é Classe I, Nível A como exame inicial em PPT intermediária sem anatomia prévia (SBC, Tabela 11). Precisa de mais algo? Laboratório inicial (Tabela 3 da SBC) e cessação do tabagismo — independente da probabilidade.
Diabética em uso de metformina (HbA1c 7,8%). Nega HAS, dislipidemia e tabagismo. Há 4 meses, aperto retroesternal ao subir a ladeira, que cede em 3 minutos de repouso; padrão estável. ECG normal; eco com FEVE 62%, sem alteração segmentar.
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CAD Consortium: dor típica (3 critérios). Básico (idade, sexo, dor) = 31%. Clínico (+ diabetes) = 26% — a interação diabetes × dor típica faz o diabetes somar pouco quando a dor já é típica (sem diabetes, o clínico daria 19%). Os dois em faixa moderada.
RF-CL: mulher 60–69, 3 pontos, 1 fator (coluna 0–1) → 10% (baixa).
Por que tanta diferença? O RF-CL foi construído com dados contemporâneos, em que a prevalência de DAC obstrutiva é menor, sobretudo em mulheres; o CAD Consortium é de 2012. A SBC lembra que modelos antigos tendem a superestimar (Quadro 7).
Conduta: moderada → prova funcional ou angiotomografia (SBC Figura 16); baixa → ajustar PPT ou angiotomografia. Angiotomografia como ponto comum (SBC, Classe I, Nível A em PPT intermediária). Se a função renal ou o cálcio extenso limitarem a angio-TC, prova funcional com imagem. Mais algo? Perfil lipídico, creatinina/TFG e as metas de prevenção do diabético não dependem do resultado.
Dor em pontada no hemitórax esquerdo, em repouso, que dura horas e não melhora com repouso. Dislipidêmico (LDL-C 190 mg/dL) e tabagista. Pai com IAM aos 50 anos. ECG normal.
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Tipo de dor: não é retroesternal, não é provocada por esforço, não alivia com repouso → inespecífica (0 critério).
CAD Consortium: básico 5%; clínico (dislipidemia + tabagismo) = 6% (baixa). A história familiar não entra neste modelo.
RF-CL: homem 40–49, 0–1 ponto, 3 fatores (inclui história familiar precoce) → 4% (muito baixa).
Leitura: os dois ficam abaixo ou perto de 5–6%: a dor é pouco sugestiva de isquemia. O problema principal deste paciente é risco cardiovascular (LDL-C 190 mg/dL + tabagismo + história familiar), não probabilidade de estenose. Tratar risco ≠ tratar angina.
Conduta: muito baixa → sem novos testes diagnósticos; baixa → ajustar PPT ou angio-TC (SBC Figura 16). Investigar causa não cardíaca da dor. Mais algo? Sim: abordar o LDL-C 190 mg/dL (considerar hipercolesterolemia familiar), cessação do tabagismo e estratificação de risco em prevenção primária — fora do escopo do modelo de PPT.
Hipertensa, diabética e dislipidêmica. Há 3 meses, falta de ar ao caminhar uma quadra; nega dor torácica. ECG com sobrecarga atrial esquerda; eco com FEVE 58%, sem alteração segmentar, disfunção diastólica grau I. Qual modelo usar?
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CAD Consortium: não se aplica. O modelo foi derivado em pacientes com dor torácica; não há variável para dispneia. Colocar “dor inespecífica” para uma dispneia daria um número sem base.
RF-CL: dispneia aos esforços = 2 pontos; 3 fatores (coluna 2–3); mulher 70–80 → 10% (baixa).
Ajuste: eco sem alteração segmentar e ECG sem onda Q — nenhum modificador que indique subestimação. Mas a dispneia tem diagnóstico diferencial amplo (IC com FE preservada, valvopatia, pulmonar, anemia).
Conduta: baixa → ajustar a PPT ou angiotomografia (SBC Figura 16); ESC: escore de cálcio pode reclassificar (Classe IIa, Nível B, ESC). Em idosa diabética, cálcio coronário costuma ser elevado e pode limitar a angio-TC — prova funcional com imagem é alternativa. 💡 Interpretação prática: investigar também as outras causas de dispneia (ex.: peptídeo natriurético, hemograma, função pulmonar, conforme a clínica).
Diabético, hipertenso, dislipidêmico e ex-tabagista. Dor em aperto na face lateral do hemitórax esquerdo (não retroesternal, sem irradiação), aos esforços, que cede em 2–3 minutos de repouso. Escore de cálcio realizado há 1 mês em outro serviço: 0. ECG e eco normais.
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Tipo de dor: provocada por esforço + aliviada por repouso, sem localização retroesternal → atípica (2 critérios); no RF-CL, 2 pontos.
CAD Consortium: básico 25%; clínico 55% (alta); clínico + cálcio (CAC 0) → 7% (baixa).
RF-CL: homem 60–69, 2 pontos, 4 fatores (coluna 4–5) → 25% (moderada). Na ESC, o CACS-CL (Figura 5) só é recomendado para reclassificar a faixa baixa (Classe IIa, Nível B, ESC); aqui a RF-CL é moderada.
A armadilha: o CAC 0 derruba a probabilidade calculada, mas a SBC é explícita: o escore de cálcio não deve ser usado para afastar estenose em sintomáticos (Classe III, Nível B) — há obstruções sem calcificação. O número de 7% é uma informação, não uma liberação.
Conduta: pela PPT clínica (moderada a alta), seguir com prova funcional ou angiotomografia (SBC Figura 16). A angio-TC é atraente aqui: CAC 0 sugere boa qualidade de imagem, e ela detecta placa não calcificada. Mais algo? Controle intensivo dos fatores de risco do diabético, independente do resultado.
Diabético, hipertenso e dislipidêmico; nunca fumou. Angina típica estável (CCS II) há 4 meses. Escore de cálcio de 450 em check-up prévio. ECG normal; eco com FEVE 55%, sem alteração segmentar. TFGe 70 mL/min/1,73 m².
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CAD Consortium: básico 67%; clínico 77% (alta); clínico + cálcio (CAC 450) → 80% (alta). Com CAC 0, o mesmo paciente cairia para 11% — mostra o peso do cálcio no modelo.
RF-CL: homem 60–69, 3 pontos, 3 fatores → 35% (moderada). Com CAC 450, o nomograma CACS-CL da Figura 5 desloca a probabilidade para cima (leitura gráfica).
Leitura: todos os caminhos apontam para probabilidade relevante; o CAD Consortium chega à faixa alta, o RF-CL fica em moderada (teto de 45%).
Conduta: alta (>50–85%) → prova funcional (SBC Figura 16) para documentar isquemia e sua extensão; moderada → prova funcional ou angio-TC. Com CAC 450, a angio-TC pode ter acurácia reduzida pelo cálcio extenso (limitação citada pela SBC). Cateterismo direto fica para PPT >85%, angina refratária ao TMO ou disfunção de VE. Mais algo? A TFGe de 70 mL/min/1,73 m² não impede contraste, se a angio-TC ou o cateterismo vierem a ser necessários.
❓ Pergunta-chaveQual modelo é “o certo” para o Brasil: RF-CL ou CAD Consortium?Ver resposta
Nenhum foi validado como ideal para a população brasileira. A SBC 2025 diz isso explicitamente e sugere usar o modelo mais familiar ao avaliador, somado à percepção clínica (seção 3.1.7, Quadro 7). A diretriz não estabelece uma recomendação específica para esta situação.
💡 Interpretação prática: escolha um, use sempre o mesmo e conheça suas armadilhas — RF-CL: alívio em até 5 min, teto de 45%; CAD Consortium: sem dispneia, sem história familiar, tende a dar valores maiores.
❓ Pergunta-chavePosso usar o “clínico + cálcio” para dispensar exames quando o escore de cálcio é zero?Ver resposta
Não como regra. O modelo reduz muito a probabilidade com CAC 0, mas a SBC classifica o uso do escore de cálcio para afastar estenose em sintomáticos como Classe III, Nível B. Em sintomático, o CAC 0 entra no raciocínio, mas não substitui a avaliação da faixa clínica e dos modificadores.
Fonte: Genders TS, Steyerberg EW, Hunink MG et al. Prediction model to estimate presence of coronary artery disease: retrospective pooled analysis of existing cohorts. BMJ 2012;344:e3485 — texto, Tabelas 1 e 2 e apêndice on-line (Tabela 4 e Figura A2). Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seção 3.1.7, Quadro 7, Figuras 15 e 16, Tabela 11. ESC 2024, Figuras 4 e 5.
🧪 Tabela comparativa dos métodos
| Método | Melhor aplicação | Vantagens | Limitações | Quando preferir |
|---|---|---|---|---|
| Teste ergométrico | Tolerância, sintomas, PA, arritmias, prognóstico (I-C) | Barato, disponível, METs, Duke | Diagnóstico só IIb; ECG não interpretável (III) | CF preservada e ECG interpretável; imagem indisponível |
| Eco de estresse | Isquemia e risco em PPT intermediária/alta (I-B) | Sem radiação; viabilidade; acurácia 85–90% | Janela acústica (contraste ajuda) | CF preservada (esforço) ou farmacológico; ECG não interpretável |
| SPECT | Isquemia/cicatriz, quantificação, risco (I-B) | Funciona em obesos, DRC, arritmias, dispositivos | Radiação | Janela ruim, BRE/marcapasso (farmacológico) |
| PET | Perfusão + fluxo absoluto/RFC (I-B, preferencial) | Padrão-ouro; microvascular; viabilidade (FDG) | Indisponível no país | Suspeita de microvascular/multiarterial balanceada (onde houver) |
| Escore de cálcio | Reestratificar assintomáticos (I-A) | Sem contraste, rápido | Não exclui estenose em sintomáticos (III-B) | Prevenção primária de risco intermediário |
| AngioTC | Exame inicial em PPT intermediária (I-A) | Alto VPN; placa; FFR-TC | Contraste, cálcio extenso | Sem anatomia prévia; testes funcionais conflitantes |
| RMC | Perfusão (I-A), dobutamina (I-B), viabilidade, fibrose | Sem radiação; subendocárdio; função padrão-ouro | Gadolínio na DRC avançada; disponibilidade | Isquemia + viabilidade/diagnóstico diferencial |
| Cateterismo | PPT >85%, angina refratária ao TMO, disfunção de VE | Anatomia e possibilidade de tratamento | Invasivo; luminograma | Quando se planeja revascularizar |
- Capacidade funcional preservada → iniciar com TE ou eco de estresse.
- ECG basal não interpretável → método de imagem (eco, cintilografia, RMC).
- Acesso local: custo, tempo, familiaridade da equipe.
- DRC ou alergia a contraste → restrição à angioTC.
❓ Pergunta-chaveQual exame escolher primeiro?Ver resposta
Depende da PPT e do paciente. Moderada (>15–50%): prova funcional ou angioTC; alta (>50–85%): prova funcional; muito alta: cateterismo. Ajuste pela capacidade funcional, ECG basal, disponibilidade, função renal e alergia.
Discussão baseada na Figura 16 e na seção 3.1.7.
❓ Pergunta-chaveExiste um modelo de PPT recomendado para a população brasileira?Ver resposta
Não. A diretriz sugere usar o modelo com que o avaliador esteja mais familiarizado, considerando limitações e valorizando a percepção clínica, pois não há definição do modelo ideal para brasileiros.
A diretriz não estabelece uma recomendação específica de modelo.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.7 e 3.1.7; Quadro 7; Figuras 15 e 16.
8📊 Depois do diagnóstico: qual é o risco desse paciente?
O risco na DAC estável é heterogêneo. Integra-se clínica, função ventricular, provas funcionais e anatomia.
- Morte CV/IAM não fatal: baixo <1%/ano, intermediário 1–3%, alto >3%.
- FEVE é um dos marcadores prognósticos mais importantes.
- Tabela 14 define alto risco por modalidade.
- Clínica de maior risco: angina recente/crescendo, IC isquêmica, SCA prévia; TRA 2°P (9 variáveis); biomarcadores (ABC-CHD).
| Modalidade | Definição de alto risco |
|---|---|
| Teste ergométrico | Escore de Duke <−10 (mortalidade CV >3%/ano) |
| Cintilografia de perfusão | Isquemia reversível ≥10% da massa do VE |
| Eco de estresse | Alterações de contratilidade induzidas em ≥3 de 16 segmentos |
| RMC | Isquemia induzida ≥2 segmentos ou ≥3 segmentos disfuncionais à dobutamina |
| AngioTC / cineangiocoronariografia | Estenose de TCE, DAC de três vasos com lesões proximais ou DA proximal |
Avaliação inicial
Angina de início recente ou em crescendo, IC isquêmica, SCA prévia. TRA 2°P: idade, DM, HAS, tabagismo, DAP, AVC prévio, CRM, IC e disfunção renal. Fatores socioeconômicos e acesso ao sistema. ECG (Q, arritmias; IA aplicada ao ECG promissora) e radiografia (cardiomegalia, aneurisma, congestão).
Troponina, NT-proBNP, LDL
Troponina-as persistentemente elevada → maior risco; >10 ng/L ≈ 50% mais eventos. NT-proBNP preditor independente (coorte >13 mil). ABC-CHD: troponina, NT-proBNP, LDL-C + DM, tabagismo, DAP.
Além da estenose
AngioTC: volume total de placa, baixo realce, remodelamento positivo, núcleo necrótico, “napkin-ring”, estenose proximal; escores integrados (ex.: Comprehensive Atherosclerotic Risk Score). RMC: isquemia e realce tardio preditores fortes (metanálise >67 mil).
Testes normais
Eco de estresse, cintilografia e RMC de estresse normais → <1% ao ano. Bruce além do 3º estágio → <1%/ano.
❓ Pergunta-chaveQuais achados ao TE indicam alto risco além do Duke?Ver resposta
Depressão de ST em baixa carga ou em múltiplas derivações, persistente >5 min na recuperação; angina/dispneia ao esforço; baixa capacidade funcional (<5 METs ≈ 5%/ano); arritmias ventriculares complexas; resposta pressórica anormal/queda de PAS; incompetência cronotrópica.
❓ Pergunta-chaveAngioTC mostra estenose proximal de DA de 75% em paciente pouco sintomático. Qual o significado prognóstico?Ver resposta
É critério de alto risco na Tabela 14 (DA proximal). Na Tabela 35, doença multiarterial com envolvimento proximal da DA e SYNTAX >23 é indicação de CRM IA; lesão uniarterial deve ser integrada a sintomas e isquemia (Heart Team/Figura 19).
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, capítulo 3 (3.1–3.1.6); Tabela 14.
9🩸 Terapia antitrombótica
AAS como base; clopidogrel como alternativa e como P2Y12 de escolha após ICP eletiva; intensificação (DAPT prolongada ou rivaroxabana 2,5 mg) em alto risco isquêmico e baixo risco hemorrágico; DOAC + clopidogrel quando há indicação de anticoagulação.
- AAS 100 mg/dia pós-IAM ou revascularização IA; sem IAM/revascularização IIbC.
- Clopidogrel se intolerância ao AAS IB.
- Pós-ICP eletiva: clopidogrel ≥6 meses IA; 3 meses se alto risco de sangramento IIaA.
- DAPT de longo prazo: alto risco isquêmico + baixo sangramento IIaA.
- ACO após ICP: DOAC + antiplaquetário IA; AAS suspenso após 1 semana se baixo risco trombótico IIaB.
Fármacos
| Fármaco | Mecanismo | Pontos da diretriz |
|---|---|---|
| AAS | Inibição irreversível da COX (TXA2), seletividade COX-1 | 75–100 mg/dia; ↓ ECAM ~21% pós-IAM e 37% nos demais (redução relativa) |
| Clopidogrel | Tienopiridínico, bloqueio irreversível do P2Y12; ativado pelo CYP2C19 | CAPRIE: benefício discreto vs AAS (5,32% vs 5,83%), significativo só na DAP; perda de função do CYP2C19 e omeprazol reduzem efeito |
| Prasugrel | Tienopiridínico irreversível, efeito rápido e previsível | Superior ao clopidogrel na SCA com angioplastia; mais sangramento com AVC prévio; sem benefício >75 anos ou <60 kg |
| Ticagrelor | Bloqueador reversível, sem ativação metabólica | PEGASUS: IAM prévio (<3 anos) + fator de risco; dispneia geralmente leve e autolimitada |
Recomendações formais
No PDF, estas recomendações estão reunidas na Tabela 15, cujo título é “Recomendações para o Uso de Anticoagulantes no Contexto da ICP”, embora inclua também antiplaquetários fora da ICP.
AAS 100 mg/dia é recomendado para pacientes com infarto prévio ou submetidos à revascularização miocárdica, com ou sem infarto prévio.
Clopidogrel 75 mg/dia é recomendado como alternativa à aspirina em pacientes com intolerância.
Clopidogrel pode ser alternativa ao AAS, com efeito no mínimo similar, para DAC ou em pacientes com doença arterial periférica ou AVC isquêmico prévio.
AAS 100 mg/dia pode ser considerado em DAC sem infarto prévio ou revascularização.
DAPT por longo prazo pode ser considerada em pacientes com alto risco de eventos cardiovasculares e baixo risco de sangramento.
AAS 100 mg/dia é recomendado para pacientes submetidos a ICP.
Clopidogrel 75 mg/dia é recomendado após ICP por pelo menos 6 meses.
Clopidogrel 75 mg/dia pode ser considerado por pelo menos 3 meses após ICP se elevado risco de sangramento.
| Situação clínica | Terapia | Duração | Classe | Nível |
|---|---|---|---|---|
| IAM prévio ou revascularização | AAS 100 mg | Contínuo | I | A |
| DAC sem IAM/revascularização | AAS 100 mg | Contínuo | IIb | C |
| Intolerância ao AAS | Clopidogrel 75 mg | Contínuo | I | B |
| Pós-ICP eletiva | AAS + clopidogrel | ≥6 meses | I | A |
| Pós-ICP + alto risco de sangramento | AAS + clopidogrel | ≥3 meses (Fig. 23: 1 ou 3 meses) | IIa | A |
| Alto risco isquêmico + baixo sangramento | DAPT de longo prazo | >6 meses (até 30 meses nos estudos) | IIa | A |
| Necessidade de ACO após ICP | DOAC + antiplaquetário | ver Figura 24 | I | A |
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — COMPASS
- Estudo
- COMPASS
- População
- 27.395 pacientes com DAC e alto risco (aterosclerose em ≥2 territórios ou ≥2 fatores: tabagismo, DM, TFG <60, IC, AVC isquêmico)
- Intervenção
- AAS 100 mg + rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia
- Comparador
- AAS isolado (ou rivaroxabana 5 mg)
- Principal resultado
- ↓ eventos CV (HR 0,76; IC95% 0,66–0,86) em 23 meses, com mais sangramento maior; reduções absolutas em diabéticos, DAP, DRC e tabagistas; consistente no COMPASS-PCI
- Como influencia a recomendação
- Sustenta a “inibição de via dupla” como segunda droga anti-isquêmica em SCC com elevada carga isquêmica, pesando o risco hemorrágico (seção 19.1).
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — PEGASUS e THEMIS
- Estudo
- PEGASUS e THEMIS
- População
- PEGASUS: IAM prévio + outro fator (idade >65, DM, DRC, multiarterial). THEMIS: diabéticos sem IAM prévio
- Intervenção
- Ticagrelor + AAS
- Comparador
- AAS + placebo
- Principal resultado
- PEGASUS: ↓ MACE (HR 0,84). THEMIS: ↓ eventos (HR 0,90) com mais sangramento maior (HR 2,32)
- Como influencia a recomendação
- Base para DAPT prolongada em alto risco isquêmico e baixo risco de sangramento (IIa A).
🩸 Como pensar a duração da dupla antiagregação?
AAS: ácido acetilsalicílico; DAPT: dupla antiagregação plaquetária; ICP: intervenção coronária percutânea
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Versão didática baseada na Figura 23 da Diretriz SBC 2025 (escala aproximada em meses).
⬆️ Favorece mais proteção isquêmica
- IAM prévio, doença multiarterial, DAP
- DM, DRC, idade >65 (PEGASUS)
- Revascularização incompleta; não revascularizados
- Escore DAPT ≥2 (com a ressalva da Tabela 29)
⬇️ Maior preocupação com sangramento
- Critérios ARC-HBR (≥1 maior ou ≥2 menores)
- PRECISE-DAPT ≥25
- Idade ≥75, ACO crônica, DRC, anemia, plaquetopenia
- Câncer ativo, sangramento prévio, fragilidade/quedas
Fatores listados a partir do texto das seções 4.1.3, 6.5 e 20.3. A regra “≥1 critério maior ou ≥2 menores” é a definição ARC-HBR original; a diretriz apresenta as definições de critério maior (risco de sangramento ≥4%/ano ou HIC ≥1%/ano) e menor.
Risco de sangramento
| Critérios maiores | Critérios menores |
|---|---|
| Uso crônico de anticoagulante oral | Idade ≥75 anos |
| DRC com ClCr <30 mL/min | DRC com ClCr 30–59 mL/min |
| Hemoglobina <11 g/dL | Hb 11–12,9 g/dL (homens) ou 11–11,9 g/dL (mulheres) |
| Hemorragia com hospitalização/transfusão nos últimos 6 meses ou recorrente | Hemorragia com hospitalização/transfusão nos últimos 12 meses |
| Plaquetas <100.000/μL; diátese hemorrágica; cirrose/hipertensão portal | Uso prolongado de AINE ou esteroide |
| Malignidade ativa (exceto pele não melanoma) nos últimos 12 meses | Qualquer AVC isquêmico prévio sem critério maior |
| HIC espontânea prévia; HIC traumática em 12 meses; MAV cerebral; AVC isquêmico moderado/grave em 6 meses | — |
| Grande cirurgia não adiável; grande cirurgia/trauma em 30 dias | — |
A posição exata de “Idade ≥75 anos” e “uso prolongado de AINE/esteroide” na coluna de critérios menores segue a definição ARC-HBR; confira a diagramação da Tabela 28 no PDF.
Usar os critérios ARC-HBR para identificar pacientes com alto risco de sangramento para DAPT encurtada.
PRECISE-DAPT ≥25 para identificar alto risco de sangramento para DAPT encurtada (escore aplicado na alta).
Usar o modelo de trade-off ARC-HBR para predição de infarto, trombose de stent e sangramento maior.
Usar o escore DAPT para decisão do tempo de DAPT.
O texto descreve que, após 1 ano sem eventos, escore DAPT ≥2 favorece prolongar e <2 aumenta sangramento sem benefício. Mas a Tabela 29 classifica seu uso para decidir o tempo de DAPT como III-C (desenvolvido para DAPT padrão de 1 ano, sem representar os stents atuais).
❓ Pergunta-chavePós-ICP eletiva: ticagrelor ou prasugrel no lugar do clopidogrel?Ver resposta
Não há evidência de superioridade na angioplastia eletiva (ALPHEUS: ticagrelor não superior, mais sangramento menor em 30 dias). O clopidogrel é o IP2Y12 de escolha após stent na SCC.
Anticoagulação, fibrilação atrial e pós-ICP
Na FA elegível para NOAC, o NOAC deve ser preferido ao antagonista da vitamina K.
Anticoagulação de longo prazo na FA com CHA₂DS₂-VASc ≥2 (homens) ou ≥3 (mulheres).
Pode ser considerada com CHA₂DS₂-VASc ≥1 (homens) ou ≥2 (mulheres).
Com indicação de anticoagulação após ICP, usar preferencialmente DOAC associado à terapia antiplaquetária.
Após ICP com anticoagulação, o AAS pode ser suspenso após 1 semana, mantendo anticoagulante + clopidogrel, se o risco de trombose for baixo.
Terapia tripla (AAS + clopidogrel + anticoagulante) por pelo menos 1 mês se risco de trombose muito alto.
Terapia dupla anticoagulante + prasugrel ou ticagrelor em substituição à tripla, se sangramento elevado.
Prasugrel e ticagrelor não são recomendados como terapia tripla com AAS e anticoagulante.
Entender melhor — Tabela 51 (pós-angioplastia + FA/outra indicação de ACO)
AAS e clopidogrel devem ser administrados pré-procedimento no implante eletivo de stent.
NOAC em dose plena (dabigatrana 150 mg 2×/dia, rivaroxabana 20 mg/dia, apixabana 5 mg 2×/dia ou edoxabana 60 mg/dia) preferencialmente ao AVK, combinado a antiplaquetário.
Doses ajustadas de NOAC conforme critérios de bula, com antiplaquetário simples ou duplo.
Após ICP sem complicações, suspender precocemente (<1 semana) o AAS e manter ACO + clopidogrel se baixo risco de trombose ou se o sangramento prevalecer.
Terapia tripla por 1 mês quando o risco de trombose de stent superar o de sangramento.
ACO + ticagrelor como alternativa à tripla em risco moderado a alto de trombose ou resistência ao clopidogrel.
Ticagrelor ou prasugrel não são recomendados como parte da terapia tripla com AAS e anticoagulante.
Terapia dupla ou tripla com ACO + prasugrel (com ou sem AAS) não é recomendada como alternativa à tripla com clopidogrel.
Note a discrepância do documento: a não recomendação de ticagrelor/prasugrel na terapia tripla aparece como IIb-C na Tabela 51 e III-C na Tabela 15.
ACO: anticoagulação oral; DAPT: dupla antiagregação plaquetária; ICP: intervenção coronária percutânea.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Versão didática baseada na Figura 24. Texto (21.2): DAPT a todos durante a ICP até a alta, podendo chegar a 1 mês conforme risco trombótico; clopidogrel + DOAC por 6–12 meses; depois ACO isolado. Na SCC com FA, após 12 meses o ACO isolado é a abordagem padrão.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — AUGUSTUS
- Estudo
- AUGUSTUS
- População
- 4.614 pacientes com FA e SCA e/ou ICP (fatorial 2×2)
- Intervenção
- Apixabana vs AVK; AAS vs placebo (todos com P2Y12)
- Comparador
- —
- Principal resultado
- Menos sangramento com apixabana; AAS aumentou sangramento sem reduzir eventos isquêmicos
- Como influencia a recomendação
- Fundamenta DOAC + P2Y12 sem AAS como padrão, com AAS curto (até 30 dias) apenas se risco trombótico alto.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — AFIRE
- Estudo
- AFIRE
- População
- 2.236 pacientes com FA e DAC estável (35% IAM prévio)
- Intervenção
- Rivaroxabana isolada
- Comparador
- Rivaroxabana + antiplaquetário
- Principal resultado
- Monoterapia não inferior (HR 0,72) em 24 meses
- Como influencia a recomendação
- Apoia ACO isolado na fase crônica da SCC com FA.
❓ Pergunta-chavePaciente com FA, CHA₂DS₂-VASc 4, ICP eletiva não complicada, baixo risco trombótico: esquema?Ver resposta
DOAC em dose plena + clopidogrel, suspendendo o AAS em até 1 semana IIaB, por 6–12 meses; depois DOAC isolado. Evitar ticagrelor/prasugrel na tripla.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 4.1, 6.5, 19 e 21; Tabelas 15, 28, 29, 50 e 51; Figuras 23 e 24.
10Manejo lipídico
O LDL-C é o principal alvo: relação causal demonstrada por epidemiologia, randomização mendeliana e ensaios clínicos. A diretriz adota metas de LDL-C.
- Meta: LDL-C <50 mg/dL e redução ≥50% do basal IA.
- <40 mg/dL se 2º evento vascular em até 2 anos em estatina máxima IIbB.
- Escalonamento: estatina alta intensidade IA → + ezetimiba IB → + iPCSK9 IA.
- Lp(a): sem fármaco aprovado; TG: estatina primeiro; EPA (etil icosapente) 4 g IIbB; fibrato para risco CV IIIA.
🎯 Qual é a meta?LDL-C na SCC (Tabela 16)
I A
LDL-C <40 mg/dL · IIb B
Por que também a redução percentual? Mesmo quem tem LDL <100 mg/dL no primeiro evento se beneficia de redução significativa. Cada ~39 mg/dL de redução ≈ 20–25% menos eventos recorrentes.
Em SCC recomenda-se redução do LDL-C de 50% a partir dos níveis basais, associada a meta abaixo de 50 mg/dL.
SCC com segundo evento vascular em até 2 anos do primeiro, em terapia máxima tolerada com estatina: meta abaixo de 40 mg/dL pode ser considerada.
Prescrever estatina de alta intensidade até a dose máxima tolerada para a meta de LDL-C.
Se a meta não for atingida com a dose máxima tolerada de estatina, a combinação com ezetimiba é recomendada.
Em uso de estatina máxima + ezetimiba sem atingir a meta, a combinação com inibidor da PCSK9 é recomendada.
No PDF, estas recomendações de LDL-C estão dentro da “Tabela 16 – Recomendações para Lipoproteínas Ricas em Triglicerídeos”.
| Fármaco | Mecanismo | Redução de LDL | Evidência |
|---|---|---|---|
| Estatinas potentes | Inibição da HMG-CoA redutase | ~50% | Mais potente > menos potente; dose maior > menor |
| Ezetimiba | Inibe absorção intestinal de colesterol | +18–25% | IMPROVE-IT (pós-SCA): ↓ eventos; ainda subutilizada |
| Evolocumabe / alirocumabe | Anticorpos anti-PCSK9 (↑ reciclagem do receptor de LDL) | ~60% | FOURIER: LDL mediano 30 mg/dL, ↓15% do composto em 2,2 anos; FOURIER-OLE: seguro até ~5 anos, inclusive LDL <20; “efeito legado”. Custo limita uso |
| Inclisirana | siRNA que inibe síntese hepática de PCSK9; SC a cada 3–6 meses (0, 3 meses e depois semestral) | ~48–52% (ORION-9/10/11) | Desfecho clínico em andamento (ORION-4, término previsto 2026); reações no local da injeção |
| Ácido bempedoico | Inibe síntese de colesterol acima da estatina; pró-droga ativada no fígado (não causa miopatia) | ~21% (monoterapia em intolerantes: pouco >20%) | CLEAR Outcomes: 13,3% vs 11,7% (RRR 13%); ↑ enzimas hepáticas, gota, colelitíase |
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — FOURIER / FOURIER-OLE
- Estudo
- FOURIER / FOURIER-OLE
- População
- DCV aterosclerótica estabelecida em estatina
- Intervenção
- Evolocumabe
- Comparador
- Placebo
- Principal resultado
- LDL mediano 30 mg/dL; −15% no composto em 2,2 anos; na extensão (6.559 pacientes, ~5 anos) sem aumento de eventos adversos, mesmo com LDL <20; menor morte CV com início precoce
- Como influencia a recomendação
- Sustenta metas baixas de LDL e a adição de iPCSK9 (I-A) quando estatina + ezetimiba não bastam.
❓ Pergunta-chaveLDL-C de 62 mg/dL em uso de rosuvastatina 40 mg + ezetimiba em paciente com SCC. Próximo passo?Ver resposta
Adicionar inibidor da PCSK9 IA — meta <50 mg/dL (e redução ≥50% do basal) não atingida com estatina máxima + ezetimiba.
Lp(a): quando medir e por quê?
Risco muito alto ou DAC precoce familiar
A diretriz cita a Lp(a) (e apoB) como úteis nesses pacientes. A diretriz não estabelece recomendação formal com classe/nível para dosagem de Lp(a).
Risco genético, linear e causal
Correlação linear com aterosclerose e eventos; associada a estenose aórtica calcificada. Não é modificada por dieta ou exercício.
Sem fármaco aprovado
Seria preciso reduzir 60–100 mg/dL (150–250 nmol/L) para ~20–30% menos risco. Niacina e iPCSK9 (−20–30%) não provaram benefício específico.
Pelacarsen e olpasiran
Lp(a)HORIZON (pelacarsen, ~−80%; Lp(a) >70 mg/dL) e OCEAN (olpasiran, até −90%; >200 nmol/L).
Lipoproteínas ricas em triglicerídeos
Estatina como primeira escolha para reduzir risco CV em SCC com triglicerídeos acima de 200 mg/dL.
SCC com TG acima de 135 mg/dL em estatina e mudança de estilo de vida: ômega-3 (etil icosapente) 4 g/dia pode ser considerado em combinação com estatina.
Em uso de estatina com TG acima de 200 mg/dL, fibratos não devem ser considerados para reduzir o risco cardiovascular.
❓ Pergunta-chavePor que a diretriz não recomenda fibrato para reduzir risco CV em quem tem TG >200 mg/dL em estatina?Ver resposta
Porque reduzir TG sem reduzir partículas contendo apoB (pemafibrato, em diabéticos já em estatina) não reduziu eventos. Classe IIIA.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seção 4.2 (4.2.1–4.2.3); Tabela 16.
11Terapias para redução de eventos
Além de antitrombóticos e lípides: bloqueio do SRAA, colchicina, antidiabéticos com benefício CV, controle pressórico, vacinação e estilo de vida.
- iECA (ou BRA se intolerância) de rotina com disfunção de VE, IC e/ou DM IA; em todos com DAC IIaB.
- Antagonista da aldosterona pós-IAM com FEVE ≤35% e DM ou IC IIaA.
- Colchicina pode ser considerada IIbB.
- DM2: iSGLT2 e GLP-1 RA IA.
- PA: 120–129/70–79 mmHg em adultos IA; não baixar de 120/70.
- TRH não recomendada IIIC; reabilitação IA.
| Terapia | Quem se beneficia | Objetivo | Classe | Nível |
|---|---|---|---|---|
| AAS 100 mg | IAM prévio / revascularizados | ↓ eventos aterotrombóticos | I | A |
| Estatina alta intensidade (+ eze + iPCSK9) | Todos com SCC | LDL <50 e ≥50% | I | A |
| iECA/BRA | Disfunção de VE, IC, DM | ↓ morte, IAM, AVC, IC | I | A |
| iECA/BRA | Todos com DAC (rotina) | — | IIa | B |
| Espironolactona/eplerenona | Pós-IAM, FEVE ≤35%, DM ou IC, medicação otimizada | ↓ morte/eventos | IIa | A |
| Sacubitril/valsartana | IC com FEVE ≤35% sintomática | Substituir iECA; ↓ hospitalização e morte por IC | sem classe na tabela da diretriz | |
| iSGLT2 · GLP-1 RA | DM2 | Prevenção secundária | I | A |
| Colchicina 0,5 mg | Alto risco residual apesar do TMO | ↓ eventos coronarianos recorrentes | IIb | B |
| Reabilitação cardíaca | SCC | ↓ mortalidade, IAM, hospitalização; ↑ qualidade de vida | I | A |
| Rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia + AAS | SCC com elevada carga isquêmica, pesando sangramento | ↓ ECAM | recomendação textual (seção 19.1), sem classe | |
Bloqueio do SRAA
iECA (ou BRA nos intolerantes) de rotina quando há disfunção ventricular e/ou IC e/ou diabetes mellitus.
De rotina em todos os pacientes com DAC.
Bloqueadores da aldosterona em pós-IAM com medicação otimizada, FEVE ≤35% e diabetes ou IC.
Hipertensão arterial
Estratégias não farmacológicas como primeira linha em todos os estágios.
Metas de PA na DAC crônica — adultos: PAS 120–129 / PAD 70–79 mmHg; idoso hígido: 130–139 / 70–79; idoso frágil: 140–149 / 70–79.
HAS com IAM recente (<12 meses): betabloqueador e iSRAA como primeira linha.
Com angina: betabloqueadores e/ou BCC di-hidropiridínicos de longa duração.
Adicionar DHP, tiazídico de ação prolongada, antagonista mineralocorticoide e/ou agonista alfa-2 conforme necessário.
Uso concomitante de iECA e BRA.
No texto (cap. 18) o objetivo é PAS <130 e PAD <80 mmHg (IIa-B), evitando <120/70 (curva J — CLARIFY). Começar com combinação dupla imediata (iSRAA + BB ou BCC); tripla com tiazídico; 4º fármaco = espironolactona; depois alfa-2 agonista.
🫀 DAC + diabetes
DM2: inibidores de SGLT2 para prevenção secundária de eventos ateroscleróticos recorrentes.
DM2: agonistas do receptor de GLP-1 para prevenção secundária.
DM2: combinação de iSGLT2 e GLP-1 RA deve ser considerada para reduzir risco residual.
DM2 sem IC, já em iSGLT2 + GLP-1 RA: adição de pioglitazona pode ser considerada.
PROactive e IRIS
Redução de eventos ateroscleróticos (desfecho secundário no PROactive; primário no IRIS pós-AVC), mas +2% hospitalização por IC → não usar na IC.
Mais IC, menos aterosclerose
Efeito precoce (~30 dias) na IC; proteção aterosclerótica confirmada em metanálises, possivelmente subestimada.
Claro benefício aterosclerótico
Em prevenção secundária com DM2 e também em obesos sem DM2 (−1,5% absoluto; HR 0,80). Associações desde o início são razoáveis.
Meta glicêmica citada no texto: HbA1c <7% para a maioria dos adultos (seção 2.1.3). Na angina do diabético, a ranolazina deveria ser preferida (capítulo 12). Metformina é contraindicada na DRC estágio ≥3 (seção 16.4).
Colchicina
A adição de colchicina pode ser considerada para reduzir os eventos coronarianos agudos recorrentes.
Anti-inflamatório (tubulina, NLRP3)
LODOCO-2 (5.522 DAC crônica, 0,5 mg/dia): HR 0,69 no composto; metanálises favoráveis com heterogeneidade.
Índice terapêutico estreito
Morte não CV 0,2% maior no LODOCO-2 (HR 1,51; IC 0,99–2,31); metabolizada por CYP3A4/P-gp (interações). Limitar a quem permanece em alto risco apesar do TMO. CLEAR SYNERGY (pós-IAM agudo): sem benefício.
Entender melhor — outras terapias anti-inflamatórias
CIRT (metotrexato): interrompido por futilidade, com toxicidade. CANTOS (canaquinumabe, IL-1β, IAM prévio e PCR-us ≥2 mg/L): HR 0,85, mas custo impediu adoção. Ziltivekimabe (anti-IL-6) reduziu marcadores inflamatórios em DRC; ensaio fase 3 em andamento (o PDF nomeia os estudos como RESCUE e ZEUS).
Outras medidas com impacto em eventos
Terapia de reposição hormonal não é recomendada para redução de risco em mulheres na pós-menopausa.
Reabilitação cardíaca baseada em exercício para portadores de SCC.
Aeróbico: 150–300 min/semana de moderada intensidade ou 75–150 min/semana de alta intensidade.
Fortalecimento muscular de moderada ou alta intensidade, grandes grupos musculares, 2 dias/semana.
Influenza, pneumococo, covid-19
>60 anos: influenza quadrivalente de alta dose preferível. Pneumocócica conjugada (reforço >60 anos, preferencialmente VPC20) + VPP23 (reforço em 5 anos); iniciar pela conjugada, intervalo mínimo de 2 meses. Covid-19: esquema primário + reforço anual.
Padrões à base de vegetais
Frutas/hortaliças 400 g/dia; cereais integrais ≥50%; açúcar <10% (idealmente 5%); sem gordura trans; sal 5 g/dia; álcool <100 g etanol/semana — e o álcool não deve ser recomendado como proteção CV.
Peso, tabaco, psique, adesão
Perda de 5% melhora parâmetros metabólicos; déficit ≥500 kcal/dia; cintura ≥102 cm (H) / ≥88 cm (M). Tabagismo ativo/passivo, vapes e poluição aumentam risco. Depressão é fator de risco independente; ~40% têm depressão/ansiedade.
❓ Pergunta-chavePaciente com SCC, FEVE 55%, normotenso, sem DM nem DRC: iECA é obrigatório?Ver resposta
Não é obrigatório. A Tabela 18 traz iECA de rotina em todos com DAC como IIaB; o texto ressalta que, sem IC e sem alto risco, o benefício é incerto e o uso é orientado para metas pressóricas. Com disfunção de VE, IC ou DM → IA.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 4.3–4.6, 7, 8, 9, 10, 11 e 18; Tabelas 17–20, 36.1, 36.2 e 49; Quadro 8.
12💊 Como tratar a angina?
Tratamento clínico ótimo = controla satisfatoriamente os sintomas e previne eventos, com máxima adesão e mínimos efeitos adversos. Não existe antianginoso “ideal” universal.
- Individualizar a escolha inicial IC; combinar mecanismos diferentes IC; reavaliar a cada 30 dias enquanto sintomático IC.
- Nitrato de ação curta para alívio imediato IB.
- BB, BCC, trimetazidina e/ou ranolazina: opções em mono ou combinação IB.
- BB (bisoprolol, carvedilol, succinato de metoprolol) com FEVE ≤40% IA.
- Ivabradina: disfunção de VE e FC ≥70 IIaB; sem disfunção, FC ≥70 e ritmo sinusal IIbB.
- Nitrato de longa ação em monoterapia IIIC.
🛡️ Redução de eventos
AAS/P2Y12, estatina + ezetimiba + iPCSK9, iECA/BRA quando indicados, iSGLT2/GLP-1 RA, reabilitação. Betabloqueador reduz mortalidade na ICFER e pós-CRM; após IAM com FEVE preservada o REDUCE-AMI não mostrou benefício; em SCC sem ICFER ou sem IAM no último ano, sem benefício prognóstico.
💊 Controle de sintomas
Nitratos, betabloqueadores, BCC, ivabradina, ranolazina, trimetazidina. Melhoram angina, isquemia e tolerância ao esforço, mas BCC, ivabradina, ranolazina, trimetazidina e alopurinol não reduziram desfechos duros na SCC; nitrato de longa ação associou-se a mais eventos.
Recomendações (Tabela 21)
A escolha inicial do antianginoso deve ser individualizada: comorbidades, perfil hemodinâmico, tolerância, interações, preferências do médico e do paciente e disponibilidade.
Combinar antianginosos com mecanismos diferentes é mais efetivo que a monoterapia.
Enquanto sintomático, avaliar a cada 30 dias com ajuste progressivo.
Telemedicina pode ser oferecida para reavaliação em intervalos menores.
Bisoprolol, carvedilol e succinato de metoprolol são recomendados na angina com FEVE ≤40%.
Nitratos de ação curta para alívio imediato da angina de esforço.
Betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, trimetazidina e/ou ranolazina são opções (mono ou combinação).
Ivabradina deve ser considerada com disfunção ventricular e FC ≥70 bpm apesar do betabloqueador ou quando este é contraindicado.
Ivabradina pode ser considerada sem disfunção ventricular, com FC ≥70 bpm e ritmo sinusal.
Nitratos de ação prolongada podem ser considerados quando o paciente permanece sintomático com outros antianginosos.
Nitratos de ação prolongada não devem ser usados em monoterapia, salvo impossibilidade de outros antianginosos.
Antianginosos, um a um
| Classe | Mecanismo | Quando utilizar | Quando evitar | Principal vantagem / dado prático |
|---|---|---|---|---|
| Betabloqueadores | ↓ FC e contratilidade, ↑ diástole, evita pico pressórico | FC alta, HAS, FEVE ≤40% (bisoprolol, carvedilol, succinato de metoprolol), FA, pós-IAM | Angina vasoespástica; asma/DPOC broncorreativa; BAV 2º grau; FC ≤55; cautela com verapamil/diltiazem; DAP (evitar/cautela) | Alvo FC 55–60 bpm em repouso; retirar gradualmente. Bisoprolol: único não contraindicado na DPOC |
| Trimetazidina | Inibe 3-cetoacil-CoA tiolase (↓ β-oxidação, ↑ glicose) | Duplo produto controlado e ainda sintomático; PA ou FC baixas; IC (adjuvante); DM; FA | TFG <30 mL/min/1,73 m² | Sem efeito hemodinâmico. 35 mg 2×/dia ou 80 mg 1×/dia; TFG <60 → 35 mg 1×/dia. ATPCI: sem parkinsonismo e sem redução de eventos |
| Verapamil | ↓ condução AV, inotrópico negativo, vasodilatação | FC alta, vasoespasmo | Associação com BB não recomendada (bloqueio); disfunção de VE; ivabradina | Boa segurança, risco de bloqueio, bradicardia e IC |
| Diltiazem | Similar ao verapamil, menor depressão miocárdica | Angina de esforço e vasoespástica; hipertireoidismo | Disfunção de VE; ivabradina; cautela com BB (vigiar FC) | Bem tolerado; vantagens sobre verapamil |
| Di-hidropiridínicos (nifedipino de ação prolongada, anlodipino) | Vasodilatação; ↑ FC reflexa | HAS, FC baixa, vasoespasmo, combinação com BB | FA (↑ FC); hipotensão; DAP crítica; cautela na disfunção de VE | Associação com BB mais eficaz; edema de MMII |
| Ivabradina | Inibe corrente If do nó sinusal | FC ≥70 em ritmo sinusal; disfunção de VE com FC ≥70 apesar de BB; PA baixa com FC alta; microvascular | FC <70 bpm; FA (inefetiva, ↑ risco de FA); IAM; hepatopatia grave; verapamil/diltiazem; inibidores fortes do CYP3A4; drogas que ↑ QTc | Inicial ≤5 mg 2×/dia; manutenção ≤7,5 mg 2×/dia; FC <50 → 2,5 mg 2×/dia; suspender se sem resposta em 3 meses |
| Ranolazina | Inibe corrente tardia de sódio (↓ sobrecarga de cálcio) | Adição a outros antianginosos; PA ou FC baixas; DM (droga preferida); FA paroxística; microvascular | Insuficiência hepática ou renal (TFG <30), QTc longo ou drogas que o prolongam; monoterapia sem benefício | 500 mg 2×/dia → 1.000 mg 2×/dia; sinvastatina ≤20 mg; ↑ digoxina; ↑ por cetoconazol, diltiazem, verapamil; checar QTc |
| Nitratos de ação curta (dinitrato de isossorbida, propatilnitrato SL) | Vasodilatação coronária e periférica (NO) | Alívio imediato e profilaxia situacional (esforço, sexo, refeições, frio) | CMH obstrutiva, estenose aórtica grave, inibidores da PDE-5 | Repetir a cada 5 min; máx. 15 mg em 15 min (isossorbida); usar sentado |
| Nitratos de longa ação | Idem | Adjuvante se sintomático; vasoespasmo persistente | Monoterapia (III-C); mesmas contraindicações | Intervalo livre de 10–14 h (tolerância); retirada gradual; associação a mais eventos |
| Alopurinol | Inibe xantina oxidase | — | — | 600 mg melhorou isquemia em pequenos estudos; grande ECR (>5 mil) sem redução de eventos nem melhora de angina/qualidade de vida |
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — SIGNIFY · BEAUTIFUL · SHIFT (ivabradina)
- Estudo
- SIGNIFY · BEAUTIFUL · SHIFT (ivabradina)
- População
- Angina com FEVE preservada (SIGNIFY) ou deprimida (BEAUTIFUL); IC com FEVE reduzida (SHIFT)
- Intervenção
- Ivabradina
- Comparador
- Placebo
- Principal resultado
- Sem redução de desfechos na angina; SHIFT: ↓ mortalidade e hospitalização por IC. Sinal de dano no subgrupo com angina limitante do SIGNIFY atribuído a dose alta (10 mg 2×/dia), FC-alvo baixa (60) e uso com BCC não DHP
- Como influencia a recomendação
- Explica o limite de dose (≤7,5 mg 2×/dia), a contraindicação com diltiazem/verapamil e a classe IIa apenas com disfunção de VE.
❓ Pergunta-chaveNitrato sublingual: sentado, deitado ou em pé?Ver resposta
Sentado. Em ortostase há risco de síncope; em decúbito aumenta o retorno venoso e a pré-carga. Dose pode ser repetida a cada 5 min até alívio ou até 15 mg em 15 min (dinitrato de isossorbida).
Individualização do tratamento antianginoso
Abordagem para tratamento personalizado da angina, considerando fração de ejeção, pressão arterial, frequência cardíaca e mecanismos por trás da isquemia miocárdica. Os antianginosos em cada quadro estão dispostos em ordem alfabética. Em verde, estão os antianginosos preferenciais em cada situação descrita; em azul, estão os antianginosos que podem sem associados para efeito aditivo no controle dos sintomas. BCC: bloqueadores de canais de cálcio; FC: frequência cardíaca (em bpm); FE: fração de ejeção; INOCA: isquemia sem obstrução das artérias coronárias (ischemia with no obstructive coronary arteries); PA: pressão arterial (em mmHg). *Não devem ser utilizados em associação com ivabradina e BCC di-hidropiridínicos. **Não utilizar em FC ≤ 55 bpm. As cores dessa figura não representam os graus de recomendação e níveis de evidência.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto ampliada (útil no celular)
FE ≥ 50%
*Não associar com ivabradina e BCC di-hidropiridínico. **Não utilizar com FC ≤55 bpm. Versão didática baseada na Figura 17 e no texto da seção 5.11 da Diretriz SBC 2025: a extração do PDF não preserva a posição de cada fármaco nos quadros; a distribuição acima segue as regras explícitas do texto — confira a figura original.
Reduzir FC
BB, verapamil/diltiazem ou ivabradina. Ivabradina + BB é segura se FC segue >70. Ivabradina + diltiazem/verapamil: contraindicada. BB + verapamil/diltiazem: cautela (BAV). Reduzir dose se FC <50.
Não usar redutores de FC
Preferir DHP e nitratos (taquicardia reflexa); considerar ranolazina e trimetazidina.
BB e DHP
Não reduzir abaixo de 120/70 mmHg (curva J; CLARIFY) — não se sabe se vale para revascularizados.
Evitar BCC, nitratos e BB
Preferir ivabradina (se FC alta), trimetazidina ou ranolazina. CLARIFY: PAS <120 e PAD <70 ↑ morte CV, IAM e AVC.
Betabloqueador
Evitar BB com atividade simpatomimética intrínseca; ivabradina se FC >70 na dose máxima de BB (SHIFT); não usar diltiazem/verapamil; DHP com cautela; trimetazidina pode ser benéfica.
BB e BCC não DHP
Ivabradina inefetiva e ↑ risco de FA (RR 1,15); evitar DHP e nitratos (↑ FC); ranolazina e trimetazidina podem ser associadas.
Ranolazina preferida
Reduz HbA1c e angina; trimetazidina pode ajudar; carvedilol/nebivolol melhoram sensibilidade à insulina.
TFG <30
Não prescrever ranolazina nem trimetazidina; sem contraindicação às demais.
Beta-1 seletivo
Bisoprolol é o único BB não contraindicado na DPOC; asma/DPOC broncorreativa contraindicam BB → ivabradina, diltiazem ou verapamil. Com HP e disfunção de VD: sem BCC não DHP e sem BB não seletivo.
BB com cautela
Evitar vasodilatadores (BCC/nitratos) na isquemia crítica; preferir ivabradina, ranolazina e trimetazidina.
Sem BB e BCC não DHP
Clara contraindicação no BAV de 2º grau: usar outros agentes.
Propranolol
BB não seletivo, diltiazem, verapamil ou ivabradina (se BB contraindicado); evitar vasodilatadores.
❓ Pergunta-chaveQual a lógica de combinar antianginosos precocemente?Ver resposta
Pacientes têm comorbidades e mecanismos de angina sobrepostos; combinar 2–3 fármacos de mecanismos complementares reduz frequência de angina e consumo de nitrato e aumenta o tempo até angina/isquemia IC. A resposta deve ser reavaliada em 30 dias; efetividade plena exige 3–6 meses.
❓ Pergunta-chavePor que não usar ivabradina em paciente com FA?Ver resposta
Pela seletividade pela corrente If do nó sinusal, é inefetiva na FA e pode aumentar o risco dessa arritmia (metanálise: RR 1,15). Preferir BB e BCC não DHP.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, capítulo 5 (5.1–5.11); Tabela 21; Figura 17 e Figura Central.
13🫀 Quando o tratamento clínico não é suficiente? Revascularização
Dois pilares distintos: revascularizar para melhorar prognóstico (subgrupos anatômicos específicos) e para controlar sintomas (angina limitante apesar do TMO).
- Prognóstico: CRM I-A em multiarterial com DA proximal e SYNTAX >23, multiarterial com disfunção de VE e lesão de TCE.
- Sintomas: ICP I-A com estenose significativa e angina típica limitante sob terapia otimizada.
- ICP não deve ser rotina para reduzir eventos na totalidade da SCC.
- SYNTAX para estimar complexidade IIbB; Heart Team.
1 · Revascularizar para PROGNÓSTICO
- Doença multiarterial (sobretudo DA proximal, SYNTAX >23)
- Disfunção ventricular esquerda
- Lesão de tronco da coronária esquerda
- Diabetes com DAC multiarterial
- Maior benefício demonstrado com CRM
2 · Revascularizar para SINTOMAS
- Angina limitante e prejuízo da qualidade de vida apesar do TMO tolerado
- Correlação acurada entre sintoma, lesão e isquemia
- Maior preditor de melhora após ICP: angina típica em TMO (ORBITA-2)
- ICP ou CRM
ICP como estratégia prognóstica e sintomática
Controle de sintomas em estenoses coronarianas significativas e angina típica limitante sob terapia otimizada.
Doença multiarterial com morfologia apropriada para ICP (complexidade anatômica menor ou moderada).
Acometimento significativo do TCE com morfologia apropriada para ICP (complexidade menor ou moderada).
Estenose luminal com acometimento significativo do fluxo aferido por método invasivo.
Estenose luminal não significativa com características de vulnerabilidade por imagem intravascular.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — ORBITA-2 e ORBITA-STAR
- Estudo
- ORBITA-2 e ORBITA-STAR
- População
- Angina estável com isquemia, tratados de forma cega (placebo-controlado)
- Intervenção
- ICP
- Comparador
- Procedimento simulado
- Principal resultado
- ORBITA-2: ICP reduziu sintomas, mas ~60% continuaram com sintomas apesar da eliminação da isquemia; gravidade dos sintomas não se relacionou com isquemia, FFR ou estenose. ORBITA-STAR: quando a insuflação do balão reproduzia a angina habitual, a chance de resolução após ICP era maior
- Como influencia a recomendação
- Antes de indicar ICP para sintomas, confirme que a queixa é realmente angina e correlacione sintoma, anatomia e isquemia.
Escores de complexidade anatômica
| Doença multivascular |
| Grande área de miocárdio em risco (TCE ou DA proximal) |
| Doença difusa em vaso-alvo |
| Oclusão crônica |
| Bifurcações complexas ou trifurcações |
| Calcificações severas |
| Tortuosidade acentuada |
| Comprimento total da lesão >20 mm |
Em DAC multiarterial, avaliar a complexidade (como o escore SYNTAX) pode ser útil para estimar risco de eventos e orientar a revascularização.
Para que serve
Quantifica carga aterosclerótica e complexidade anatômica; preditor independente de ECAM e mortalidade após ICP. Não estratifica risco após CRM. Limitações: cálculo complexo e variabilidade interobservador.
Anatomia + clínica
Incorpora variáveis clínicas; discriminação modesta, mas úteis na decisão. Cortes usados nos estudos: >23 (multiarterial) e >32 / <32 (TCE).
Cirurgia de revascularização miocárdica
Doença de múltiplos vasos principais envolvendo a DA com SYNTAX >23, FEVE preservada, com envolvimento proximal da DA.
Doença de múltiplos vasos principais e disfunção ventricular esquerda.
Lesão de tronco da artéria coronária esquerda.
| Anatomia / extensão | Especialmente com |
|---|---|
| Doença de múltiplos vasos · SYNTAX >23 · DA proximal · Lesão de TCE | Diabetes · Disfunção de VE · IAM sem supra de ST |
EXCEL: Evaluation of XIENCE Everolimus Eluting Stent Versus Coronary Artery Bypass Surgery for Effectiveness of Left Main Revascularization; FREEDOM: Future Revascularization Evaluation in Patients with Diabetes Mellitus: Optimal Management of Multivessel Disease; STICH: Surgical Treatment for Ischemic Heart Failure; SYNTAX: Synergy Between PCI with Taxus and Cardiac Surgery.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
SYNTAX, MASS-II, FAME-3
SYNTAX 5 anos: ICP preditor independente de morte cardíaca (+40% em 3 vasos). MASS-II: CRM −44% no composto vs TMO; ICP = TMO. FAME-3: ICP guiada por FFR não atingiu não inferioridade vs CRM em 1 ano; 3 anos 18,6% vs 12,5%; 5 anos sem diferença em morte/AVC/IAM, com mais IAM e revascularização na ICP.
BARI 2D, FREEDOM
BARI 2D: no estrato CRM, menos eventos (22,4% vs 30,5%). FREEDOM: CRM superior (menos morte e IAM, mais AVC). Metanálise de 28.846: mais mortalidade em 5 anos com ICP.
STICH/STICHES
10 anos: menor morte total, CV, súbita e por IAM com CRM + TMO. FEVE ≤35% passível de CRM → encaminhar prontamente.
SYNTAX, EXCEL, NOBLE
SYNTAX >32: CRM. SYNTAX <32: NOBLE (MACCE 28% vs 19%, favorável à CRM; mortalidade 9% vs 9%); EXCEL (mortalidade 13,0% vs 9,9%). Grupo ESC/EACTS 2022: SYNTAX 0–32 → CRM I-A; ICP IIa-A.
CRM: cirurgia de revascularização do miocárdio; DA: descendente anterior; DAC: doença arterial coronariana; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; ICP: intervenção coronária percutânea; SYNTAX: Synergy between PCI with Taxus and Cardiac Surgery; TCE: tronco da coronária esquerda.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Representação dos elementos da Figura 19. A extração de texto do PDF não permite reconstruir com segurança cada ramo SIM/NÃO; por isso não se reproduz a árvore completa aqui — consulte a figura original para o caminho exato. Leitura coerente com o texto: CRM favorecida com maior complexidade (SYNTAX elevado), FEVE reduzida, DA proximal e leitos distais adequados; ICP como alternativa quando o risco cirúrgico é alto ou a anatomia é favorável.
❓ Pergunta-chaveDiabético com DAC triarterial, SYNTAX 28, FEVE 50%, bom candidato cirúrgico: ICP ou CRM?Ver resposta
CRM. Múltiplos vasos com DA proximal e SYNTAX >23 = IA; diabetes reforça (FREEDOM: menor mortalidade com CRM; SYNTAX: diferença de morte por IAM maior em DM, 3 vasos e SYNTAX >23).
❓ Pergunta-chaveQual o papel da CRM no alívio da angina em comparação à ICP?Ver resposta
Ambas melhoram a angina no 1º mês (recuperação mais rápida com ICP), mas a partir de 6 meses o alívio é melhor após CRM, com menor uso de antianginosos; benefício maior com SYNTAX alto (subestudo SYNTAX). No FREEDOM, vantagem da CRM em 1–2 anos; no NOBLE, mais angina com ICP em 5 anos.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 6.1, 6.4 e 6.7; Tabelas 22, 23, 27, 34 e 35; Figuras 18 e 19.
14🧪 A lesão é realmente funcionalmente significativa? FFR, iFR e imagem intravascular
Fisiologia invasiva para decidir se tratar; imagem intravascular para decidir como tratar (e, no tronco, também se tratar).
- Angina/equivalente, sem avaliação prévia de isquemia, estenose intermediária → fisiologia invasiva antes da ICP IA.
- FFR ≤0,80 = isquemia significativa; nos ensaios: FFR <0,80 ou iFR <0,89.
- IVUS em TCE IIaB; imagem em estenoses intermediárias IIbB; FFR preferida para intermediárias.
- IVUS/OCT para guiar ICP complexa IA; baixa complexidade IIbB.
ConceitoFFR = Pd / Pa durante hiperemia máxima
Representação gráfica do conceito descrito na seção 6.2.1.
Na doença coronariana crônica com angina ou equivalente, sem avaliação prévia de isquemia e com estenoses angiograficamente intermediárias, recomenda-se avaliação funcional invasiva antes de prosseguir com a ICP.
A medição da resistência microcirculatória deve ser considerada com sintomas persistentes e coronárias angiograficamente normais ou estenoses moderadas com FFR e índices não hiperêmicos preservados.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — FAME-2
- Estudo
- FAME-2
- População
- DAC crônica com estenose ≥50% e FFR ≤0,80
- Intervenção
- ICP + TMO
- Comparador
- TMO
- Principal resultado
- ↓ composto de morte, IAM ou revascularização urgente, sustentado por menos revascularização urgente e IAM espontâneo em 5 anos
- Como influencia a recomendação
- Base da ICP guiada por fisiologia (I-A/I-B) e da estratégia focada apenas nas lesões isquêmicas.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — DEFINE-FLAIR e iFR-SWEDEHEART
- Estudo
- DEFINE-FLAIR e iFR-SWEDEHEART
- População
- Estenoses intermediárias
- Intervenção
- Revascularização guiada por iFR (<0,89)
- Comparador
- Guiada por FFR (<0,80)
- Principal resultado
- MACE em 1 ano 6,8% vs 7,0% (não inferior); SWEDEHEART 5 anos 21,5% vs 19,9% (HR 1,09)
- Como influencia a recomendação
- Índices não hiperêmicos são alternativas aceitáveis à FFR.
❓ Pergunta-chaveUma estenose angiográfica de 60% significa necessariamente isquemia?Ver resposta
Não. Estenoses intermediárias podem ou não limitar o fluxo; a coronariografia é um luminograma. Sem isquemia prévia documentada, faça FFR/iFR antes da ICP IA.
❓ Pergunta-chaveQuando uma lesão intermediária deve ser avaliada com FFR/iFR?Ver resposta
Quando o paciente tem angina ou equivalente e não há avaliação prévia de isquemia (ou há achados não invasivos indisponíveis/inconsistentes), especialmente em multiarteriais, para identificar as lesões realmente limitantes e simplificar ou evitar intervenções.
Imagem intravascular: diagnóstico × guia da intervenção
🔎 Diagnóstico / avaliação da estenose
IVUS deve ser considerado para avaliar a gravidade de estenoses em tronco de coronária esquerda.
Imagem intracoronária (IVUS ou OCT) pode ser considerada na avaliação de estenoses intermediárias.
FFR deve ser preferida para estenoses intermediárias (fora do TCE).
🛠️ Guia da ICP
IVUS ou OCT devem ser utilizados para guiar ICP complexa*.
IVUS ou OCT podem ser considerados para guiar ICP de baixa complexidade.
*TCE, bifurcações verdadeiras com grande área em risco, falha de stent, lesões longas. Cabe ao operador julgar urgência, capacidade do cateter cruzar a lesão e aptidão técnica.
| Contexto | Critério |
|---|---|
| Não tronco (IVUS × FFR, registro) | ALM <2,4 / <2,7 / <3,6 mm² para vasos <3,0 / 3,0–3,5 / >3,5 mm |
| IVUS vs FFR (ECR, lesões 40–70%) | ICP se ALM ≤3 mm² ou 3–4 mm² com carga de placa >70% — IVUS não inferior à FFR em 24 meses |
| OCT vs FFR (unicêntrico, n = 350) | Área de estenose ≥75%, ou 50–75% com ALM <2,5 mm², ou ruptura de placa |
| Tronco (IVUS) | Revascularizar se ALM <6 mm²; adiar com ≥6 mm² (sobrevida semelhante em 2 anos); adiamento favorável com >7,5 mm²; asiáticos: 4,5–4,8 mm² |
IVUS (resolução axial ~150 µm) vs OCT (10–15 µm). Na falência de stent, a imagem esclarece o mecanismo: hipoexpansão, dissecção de borda, cobertura incompleta, subdimensionamento, proliferação neointimal, malaposição, encurtamento ou fratura. Em lesões em série e ponte miocárdica, o IVUS supre limitações da fisiologia.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.7, 6.2 e 6.3; Tabelas 24, 25 e 26.
15Angina microvascular, INOCA/ANOCA e vasoespasmo
“Doença isquêmica cardíaca” (DIC) é o termo mais adequado: inclui DAC aterosclerótica, INOCA, ANOCA, MINOCA, dissecção espontânea, doença microvascular, vasoespasmo e embolia/trombose coronária.
- ~2/3 das mulheres e ≥1/3 dos homens com isquemia não têm DAC obstrutiva.
- DMV: sintomas + ausência de obstrução + isquemia objetiva + função microvascular alterada (FFR >0,80; RFC <2,0; IMR >25).
- Vasoespasmo: acetilcolina intracoronária; BCC são as drogas preferidas; BB contraindicados.
- Tratamento estratificado por teste invasivo melhora angina (CorMiCa).
| ANOCA | Angina with no obstructive coronary artery disease — angina sem obstrução coronária. |
|---|---|
| INOCA | Ischemia with no obstructive coronary arteries — isquemia documentada sem obstrução (estenoses <50%); mais comum em mulheres de 45–65 anos; associa-se a angina recorrente, hospitalizações, coronariografias repetidas e eventos. |
| MINOCA | Infarto sem obstrução: vasoespasmo, disfunção microvascular, trombose/embolia, ruptura de placa, DEAC. 5–10% dos IAM; diagnóstico transitório — buscar a causa. |
| CMD / DMV | Disfunção/doença microvascular coronariana: remodelamento estrutural (↓ condutância) e/ou distúrbio vasomotor arteriolar. |
| VPC | Vasoespasmo coronariano: vasoconstrição reversível focal ou difusa; mais prevalente em mulheres de 40–70 anos. |
Seções 2.2.7, 6.2.4 e 12.1.4Como diagnosticar INOCA no laboratório de hemodinâmica
A diretriz cita “IMR ≥25” (seção 2.2.7) e “IMR >25 unidades” / “IRM >25” (seções 6.2.4 e 12.1.4).
| Vasoespástica | Microvascular | |
|---|---|---|
| Mecanismo | Vasoconstrição reversível epicárdica (focal/difusa) ou microvascular | Remodelamento estrutural e/ou distúrbio vasomotor arteriolar |
| Diagnóstico | Teste provocativo com acetilcolina intracoronária (mulheres respondem a doses menores) | RFC <2,0, IMR >25 com FFR >0,80; PET/CZT/RMC não invasivos |
| Tratamento preferido | BCC (previnem espasmo em ~90%); nitrato de ação curta na crise; nitrato de longa ação se sintomático (uso intermitente); altas doses de BCC na refratária | Sem classe específica comprovada: redução de FC (BB, diltiazem/verapamil, ivabradina) + ranolazina ou trimetazidina; BB se hiperatividade adrenérgica; imipramina/antagonistas da adenosina se hiperalgesia |
| Evitar | Betabloqueadores; drogas ilícitas, anfetaminas, gás butano, álcool, antienxaquecosos vasoconstritores | — |
| Prognóstico | Recorrência 3,9–18,6%; arritmias e morte súbita possíveis | Angina recorrente, hospitalizações, eventos maiores |
Medir resistência microcirculatória em sintomas persistentes com coronárias normais ou estenoses moderadas e FFR/índices não hiperêmicos preservados.
RMC em DAC não obstrutiva conhecida e/ou suspeita de INOCA.
📚 Evidência que sustenta esta recomendação — CorMiCa
- Estudo
- CorMiCa
- População
- 151 pacientes com angina sem DAC obstrutiva
- Intervenção
- Tratamento estratificado pelos resultados de RFC, IMR e acetilcolina
- Comparador
- Cuidado padrão (com procedimento diagnóstico simulado)
- Principal resultado
- Melhora significativa dos escores de angina em 1 ano
- Como influencia a recomendação
- Fundamenta a investigação invasiva completa e o tratamento dirigido ao endotipo.
Doença isquêmica na mulher
Sintomas “atípicos” e prodrômicos
Dor no dorso/pescoço, fadiga, náuseas; pródromos (falta de ar, fadiga incomum). Angina estável é a apresentação mais comum. Placa menos volumosa e calcificada, erosão frequente, doença difusa com disfunção microvascular.
Pior prognóstico pós-IAM
Mortalidade/reospitalização 26% vs 19% (1 ano) e 47% vs 36% (5 anos). Mulheres <50 anos: mortalidade hospitalar ainda maior. Menos terapias oportunas e sub-representação em ensaios.
Dissecção espontânea
1–4% das SCA; causa mais comum de IAM na gravidez (até 43%). Displasia fibromuscular 50–86%. Evitar terapia hormonal e gravidez futura; reabilitação modificada.
Trombose/embolia coronária
Incidência ~0,06%; endocardite 40–53% dos casos; direta, paradoxal ou iatrogênica (ICP mais comum).
❓ Pergunta-chaveMulher de 52 anos, angina de esforço, cintilografia com isquemia e angioTC sem obstrução: próximo passo?Ver resposta
Suspeitar de INOCA. Avaliação invasiva da microcirculação (FFR, RFC, IMR) e teste de acetilcolina permitem definir endotipo e tratar de forma estratificada (CorMiCa). Resistência microcirculatória: IIaC.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 2.2.7, 6.2.3–6.2.4, 5.11, 12 e 13; Tabelas 12 e 24.
16Situações especiais
Contraste e função renal, alergia, DRC, câncer, angina refratária, pós-SCA, pós-ICP, pós-CRM e atividade física/sexual.
- NIC: ↑ creatinina >0,5 mg/dL ou >25% em 48–72 h; TFGe <60 = alto risco; volume de contraste/TFG >3,7 ↑ risco.
- Só hidratação e menos contraste comprovadamente reduzem NIC; N-acetilcisteína sem evidência.
- Alergia: contraste iso/hiposmolar IA + profilaxia com corticoide e anti-histamínico.
- DRC: Heart-Kidney Team IC; 3 fatores (idade ≥50, DM, DCV) estratificam.
- Angina refratária: recanalização de oclusão crônica IIaA; laser transmiocárdico IIIA.
Contraste, função renal e alergia
| Fator | Pontos |
|---|---|
| Hipotensão | 5 |
| Balão intra-aórtico | 5 |
| ICC (NYHA III/IV) | 5 |
| Idade >75 anos | 4 |
| Anemia | 3 |
| Diabetes | 3 |
| Volume de contraste | 1 a cada 100 mL |
| Creatinina >1,5 mg/dL | 4 |
| ou TFG (mL/min/1,73 m²) | 2 (40–60) · 4 (20–40) · 6 (<20) |
| Pontos | NIC | Diálise |
|---|---|---|
| ≤5 | 7,5% | 0,04% |
| 6–10 | 14% | 0,12% |
| 11–16 | 26,1% | 1,09% |
| ≥16 | 57,3% | 12,6% |
Proteção renal
Calcular TFG (creatinina isolada é pouco sensível). Hidratação com SF 0,9% EV 1,0–1,5 mL/kg/h por 3–12 h antes e 6–24 h após (eletivos); preferir infusão por horas a bolus; soro a manitol/furosemida. Contraste hiposmolar ou isosmolar; técnica de volume ultrabaixo (contraste/TFGe <1) em DRC, IRA prévia, transplante renal, disfunção de VE grave e ICP complexa.
Prevenção farmacológica
N-acetilcisteína não previne NIC. BCC, prostaglandinas, antagonistas da adenosina, peptídeo natriurético atrial e iECA sem benefício/conflitantes. Bicarbonato: resultados divergentes.
Utilização de contraste isosmolar ou hiposmolar.
Prednisona 50 mg 13 h, 7 h e 1 h antes do procedimento.
Difenidramina 50 mg IV ou IM 1 h antes.
Fexofenadina 180 mg, 1 cp/dia durante 3 dias antes.
Emergência: hidrocortisona 500 mg IV.
Emergência: difenidramina 50 mg IV ou IM 1 h antes.
Emergência: fexofenadina 180 mg VO 1 h antes.
Reações “alérgicas” ao contraste ocorrem em ≤1% (graves 0,04%), são anafilactoides (não IgE); recorrência de 16–44% em quem já reagiu. O texto também cita prednisona 20 mg + fexofenadina 180 mg VO 3 dias antes; as Tabelas 32–33 trazem os esquemas com classe/nível acima.
Doença renal crônica
Decisão diagnóstica e terapêutica discutida por um “Heart-Kidney Team” (cardiologista clínico e intervencionista, cirurgião cardiovascular e nefrologista).
DRC estágios 3 a 5: estratificar para DAC com critérios clínicos (fatores de risco), independentemente de sintomas e nível funcional.
Sem nenhum dos três fatores (idade ≥50 anos, diabetes, DCV) = baixo risco, sem investigação aprofundada; com ≥1 fator = estratificar com métodos não invasivos e invasivos.
Teste não invasivo positivo ou alto risco clínico/múltiplos fatores → estudo invasivo.
DAC obstrutiva em segmentos proximais das artérias principais: revascularização cirúrgica ou percutânea visando reduzir risco CV.
Revascularização de rotina em assintomáticos por possibilidade de transplante (“intervenção profilática”), salvo inequívoco impacto prognóstico.
DRC estágios 3 a 5: tratar para prevenção secundária de eventos.
AVC: acidente vascular cerebral; CV: cardiovascular; IAM: infarto agudo do miocárdio; ICC: insuficiência cardíaca congestiva. Fonte: De Lima, Gowdak & de Paula, 2012.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
DRC: doença renal crônica.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Cardio-oncologia
Decisão por intervenção baseada em tipo de tumor, expectativa de vida, risco de sangramento e urgência cirúrgica; no frágil, procedimento menos invasivo possível; decisão compartilhada cardiologista–oncologista.
Stent farmacológico preferível em pacientes oncológicos; DAPT pode ser mantida com plaquetas >30 mil se não houver contraindicação.
Angina refratária
| Terapia | Classe | Nível |
|---|---|---|
| Recanalização percutânea de oclusão total crônica | IIa | A |
| Reabilitação cardiovascular baseada em exercício | IIb | B |
| Neuroestimulação medular | IIb | C |
| Acupuntura | IIb | A |
| Transplante cardíaco | IIb | C |
| Revascularização transmiocárdica a laser | III | A |
Outras (Tabela 39): ondas de choque (sem evidência suficiente), redutor do seio coronário e contrapulsação externa (não disponíveis no Brasil), terapia celular/gênica (experimental), aférese de Lp(a) (indisponível).
Pós-SCA, pós-ICP e pós-CRM
Estratificar para planejar
Escores SMART, EUROASPIRE, GRACE, ProACS. Alto risco de IC: Killip, FEVE <40%, FEVE 40–45% com enchimento restritivo/IM significativa/WMSI elevado, BNP, diurético de alça. Alto risco trombótico: DAP, angina/IAM prévio, multiarterial, revascularização incompleta, não revascularizados. Baixo risco: uma consulta especializada no 1º ano e atenção primária.
Após revascularização
FEVE em 8–12 semanas; ECG anual; teste de estresse e eco a cada 3–5 anos podem ser feitos; exames laboratoriais periódicos; telemedicina útil.
| Terapia / ação | Recomendação | Classe | Nível |
|---|---|---|---|
| Gerais | Reintroduzir terapia médica otimizada | I | A |
| Gerais | Encaminhar à reabilitação | I | A |
| Antitrombótico | AAS em até 6 h e por tempo indefinido (texto: 100–325 mg) | I | A |
| Antitrombótico | DAPT com ticagrelor ou clopidogrel em selecionados de baixo risco de sangramento (até 1 ano) | IIb | B |
| Antitrombótico | Varfarina ou DOAC ≥4 semanas na FA pós-operatória (revertida ou ≥24 h) | IIa | B |
| iECA/BRA/ARNI | Reintrodução logo que tolerado | I | C |
| Estatinas | Reintrodução logo que tolerado | I | C |
| Betabloqueadores | Reintrodução precoce para reduzir FA pós-operatória | I | B |
| BCC | Precoce com enxerto radial, por pelo menos 1 ano | I | B |
| Seguimento | Imagem (funcional/anatômica) se sintomas recorrentes ou perda de função | I | B |
| Seguimento | Reestratificar após 5 anos em assintomáticos de alto risco | IIb | C |
Exercício e atividade sexual
| Baixo | Intermediário | Alto | |
|---|---|---|---|
| Capacidade funcional | TE >7 METs; TCPE Weber A ou VO₂ >85% | TE 5–7 METs; VO₂ 60–85% | TE <5 METs; VO₂ <60% |
| Sintomas | Ausentes | CF I–II, angina e/ou IC | CF III–IV |
| Isquemia | Ausente | Acima de 6 METs / 15 mL/kg/min | Abaixo de 6 METs / 15 mL/kg/min |
| Outros | Sem arritmia ventricular complexa | Sem arritmia ventricular complexa | IRC dialítica, dessaturação ao esforço, arritmia complexa |
Tabela 38: aeróbico ≥2×/semana, 30→60 min, 40–80% da FC de reserva (baixo risco I-A; intermediário/alto: aeróbico I-A, resistido IIa-C); se isquemia, 10 bpm abaixo da FC de positivação; PA em repouso >160/105 → ajustar fármacos antes; durante o exercício manter ≤180/105 mmHg. Treino no limiar de isquemia em angina refratária: ambiente monitorizado (IIb-C). Reabilitação domiciliar em baixo risco: IIa-A.
NYHA: New York Heart Association; CCS: Canadian Cardiovascular Society; Kit: Kiss and Touch; KITOM: Kiss, Touch, Oral and Masturbation; KiTOMI: Kiss, Touch, Oral, Masturbation and Intercourse. Com permissão do Canadian Journal of Cardiology.
Figura original da Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619). Clique para ampliar.
Versão em texto (útil no celular)
Versão didática baseada na Figura 20. Atividade sexual habitual = 2–4 METs. Inibidores da PDE-5 não devem ser usados com nitratos.
❓ Pergunta-chaveQual a relação volume de contraste/TFG que eleva significativamente o risco de NIC?Ver resposta
>3,7. Já a técnica de volume “ultrabaixo” busca relação contraste/TFGe <1.
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025, seções 6.6, 9, 14, 16, 17, 20, 21 e 22; Tabelas 30–33, 37–48, 52; Figuras 20–22.
🚫Erros que devemos evitar na Síndrome Coronariana Crônica
Somente condutas com recomendação classe III ou contraindicação explícita no texto da diretriz.
TE diagnóstico com ECG não interpretável
Infra ST ≥1 mm em repouso, BRE ou digital (Tabela 4).
Repetir eco em estável sem mudança clínica
Tabela 5.
Escore de cálcio para afastar estenose em sintomáticos ou em DAC obstrutiva conhecida
Tabela 9.
Nitrato de longa ação em monoterapia
Salvo impossibilidade de outros antianginosos (Tabela 21).
Betabloqueador na angina vasoespástica
Pode precipitar espasmo (seções 5.1 e 5.11).
Ivabradina + verapamil/diltiazem; ivabradina com FC <70
Também inefetiva na FA (seção 5.7/5.11).
Diltiazem/verapamil na disfunção de VE
Podem piorar a disfunção (seção 5.11).
Ranolazina/trimetazidina com TFG <30
Seção 5.11.
PA abaixo de 120/70 mmHg
Curva J (CLARIFY), seções 5.11 e 18.
Prasugrel/ticagrelor na terapia tripla
Tabela 15 (IIb-C na Tabela 51).
Escore DAPT para decidir o tempo de DAPT
Tabela 29.
Fibrato para reduzir risco CV em estatina com TG >200
Tabela 16.
Terapia de reposição hormonal para reduzir risco
Tabela 17.
iECA + BRA concomitantes
Tabela 49.
Pioglitazona na IC
+2% hospitalização por IC (PROactive).
N-acetilcisteína para prevenir NIC
Seção 6.6.5.
Revascularização “profilática” pré-transplante renal em assintomático
Tabelas 44/45.
Revascularização transmiocárdica a laser
Tabela 40.
ICP como substituto de prevenção / para reduzir eventos em todos
Redução de eventos só em subgrupos (seção 6.4).
Inibidor da PDE-5 com nitrato; álcool como proteção CV
Seções 9.1.4 e 8.
🎯Números que você precisa memorizar
Todos conferidos no texto, tabelas ou figuras da diretriz.
✅Checklist do paciente com suspeita ou diagnóstico de SCC
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📌Síndrome Coronariana Crônica em 3 minutos
- SCC é um contínuo de risco; o evento agudo muda a curva de eventos.
- Angina é sintoma; isquemia é achado objetivo; obstrução é anatomia — os três podem não coincidir.
- Angina típica = 3 critérios (característica + esforço/estresse + alívio ≤10 min); atípica = 2; não anginosa = 0–1.
- Angina instável: início recente CCS III–IV, crescendo, repouso ≥20 min.
- Laboratório: lipídios (I-A), creatinina/TFG (I-A), hemograma (I-B), glicemia + HbA1c (I-B), tireoide (I-C).
- Eco TT na avaliação diagnóstica inicial da SCC suspeita: função global/segmentar e diagnósticos diferenciais (I-B); não repetir sem mudança clínica (III-C).
- PPT: ≤5% nada; >5–15% ajustar/angioTC; >15–50% funcional ou angioTC; >50–85% funcional; >85% cateterismo.
- AngioTC como exame inicial em PPT intermediária sem anatomia prévia: I-A.
- Escore de cálcio reestratifica assintomáticos (I-A); não descarta estenose em sintomáticos (III-B).
- Eco de estresse (I-B), SPECT/PET (I-B, PET preferencial), RMC de perfusão (I-A).
- TE: prognóstico (I-C); diagnóstico só sem imagem (IIb-B); nunca com BRE/infra ST/digital (III-C).
- Risco anual: <1% baixo, 1–3% intermediário, >3% alto.
- Alto risco: Duke <−10; SPECT ≥10%; eco ≥3/16; RMC ≥2 segm.; TCE/triarterial proximal/DA proximal.
- Isquemia moderada sem FEVE ≤35%, TCE ≥50% ou angina limitante pode começar com TMO (ISCHEMIA).
- AAS 100 mg: I-A pós-IAM/revascularização; clopidogrel se intolerância (I-B).
- Pós-ICP eletiva: clopidogrel ≥6 meses (I-A); 3 meses se HBR (IIa-A); clopidogrel é o P2Y12 de escolha.
- DAPT longa ou rivaroxabana 2,5 mg + AAS: alto risco isquêmico com baixo risco de sangramento.
- ACO + ICP: DOAC + clopidogrel; AAS por ≤1 semana (ou até 1 mês se risco trombótico alto); ACO isolado após 12 meses.
- LDL <50 mg/dL e ≥50% (I-A); estatina → ezetimiba → iPCSK9.
- Fibrato para risco CV: III-A; EPA 4 g com TG >135: IIb-B; TRH: III-C.
- DM2: iSGLT2 e GLP-1 RA I-A; pioglitazona IIa-B (sem IC).
- iECA: I-A com disfunção de VE, IC ou DM; colchicina IIb-B.
- PA-alvo 120–129/70–79 (adultos); evitar <120/70.
- Antianginoso: individualizar por FE, FC, PA e mecanismo; combinar; reavaliar em 30 dias.
- Vasoespasmo: BCC; betabloqueador contraindicado. FA: ivabradina inefetiva.
- CRM I-A: multiarterial com DA proximal e SYNTAX >23, multiarterial com disfunção de VE, TCE.
- ICP I-A para angina típica limitante sob TMO; não como rotina para reduzir eventos.
- Lesão intermediária sem isquemia documentada: FFR/iFR antes da ICP (I-A); FFR ≤0,80.
- IVUS/OCT para guiar ICP complexa (I-A); IVUS no TCE (IIa-B; ALM <6 mm²).
- INOCA: RFC <2,0, IMR >25, acetilcolina; tratamento estratificado.
🎓Desafio final — 25 questões
Casos integrados que misturam todos os capítulos. Escolha uma alternativa e depois abra a resposta comentada.
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Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – SBC 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250619.