Dr. Guilherme MouraCardiologista | Ecocardiografista
Valvopatias · SBC 2026← Diretrizes | Em formato interativo

Revisão comentada · Dr. Guilherme Moura · Baseada na diretriz oficial da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Diretriz Brasileira de Valvopatias – 2026

Revisão prática e interativa, organizada pelos cinco passos que a diretriz propõe para cada valvopatia: a lesão é importante? Qual a etiologia? Há sintomas? Há complicadores? Qual intervenção? Os quadros estão transcritos na íntegra e as recomendações mostram a força e a certeza GRADE da SBC lado a lado com as classes da AHA e da ESC.

Documento
SBC · SBHCI · SBCCV, 2026
Capítulos
17
Recomend.
143
Quadros
86
Figuras
11
Casos
105
Flashcards
166

Tarasoutchi F, et al. Diretriz Brasileira de Valvopatias – 2026. Arq Bras Cardiol. 2026;123(10):e20260796.

📄 Sobre o documento

Atualização das diretrizes de 2017 e 2020, elaborada pela SBC com a SBHCI e a SBCCV. Mantém o raciocínio em cinco passos e compara cada recomendação com a ACC/AHA 2020 e a ESC/EACTS 2025. A principal mudança de forma é a graduação pelo sistema GRADE; as de conteúdo estão resumidas na Tabela 1 (idade na escolha entre cirurgia e TAVI, técnicas transcateter na tricúspide, na mitral e na disfunção de bioprótese, e antibioticoprofilaxia dentária).

⚠️ Aviso

Material educacional baseado na diretriz oficial. Não substitui julgamento clínico individualizado nem a decisão do Heart Team. Onde esta revisão vai além do texto da diretriz, isso aparece marcado como 🎓 Interpretação didática.

🧠 Como ler esta página

Força da recomendação (SBC, GRADE) — cor da barra lateral:

Forte deve ser aplicada à maioria dos pacientes Fraca condicional: depende do contexto e da preferência do paciente

Certeza da evidência (GRADE):

AltaModeradaBaixaMuito baixa

Ao lado, em cinza, as classes do sistema clássico nas diretrizes AHA e ESC (“–” quando não há recomendação equivalente). Siglas com sublinhado pontilhado mostram o significado ao passar o mouse ou tocar. Três camadas estão sempre separadas: Recomendação formal (transcrição dos quadros) · 📖 Texto de suporte (síntese fiel do documento) · 🎓 Interpretação didática.

1Introdução: os cinco passos, o GRADE e o risco operatório

A diretriz de 2026 mantém o raciocínio em cinco passos das edições de 2017 e 2020 e compara cada recomendação com as diretrizes ACC/AHA 2020 e ESC/EACTS 2025. A grande mudança de forma é a adoção do sistema GRADE para graduar as recomendações brasileiras.

📖 Texto de suporte — por que uma nova diretriz (seção 1)
  • Os tratamentos transcateter e cirúrgico evoluem de maneira exponencial, reduzindo a morbidade e aumentando a sobrevida; isso cria novas áreas de discussão, como o planejamento do manejo a longo prazo (lifelong management).
  • A diretriz compila as evidências atuais e a opinião de especialistas, mantendo o proposto em 2017 e 2020, e compara suas recomendações com as do ACC/AHA 2020 e da ESC/EACTS 2025, permitindo a individualização para a nossa população.

Os cinco passos (Figura 1)

  1. Gravidade anatômica. Certificar-se de que a valvopatia é anatomicamente importante. Se for moderada ou discreta: procurar diagnósticos diferenciais no sintomático e monitorizar a evolução no assintomático.
  2. Etiologia. História clínica e antecedentes pessoais em conjunto com exames complementares.
  3. Sintomas. Fundamentais na decisão de intervenção. O tratamento farmacológico está indicado para alívio dos sintomas até o tratamento intervencionista.
  4. Complicadores. Anatômicos e/ou funcionais — especialmente hipertensão pulmonar, remodelamento ventricular, disfunção sistólica, dilatação aneurismática de aorta e fibrilação atrial. Podem ser determinantes para intervir no assintomático.
  5. Tipo de intervenção. Cirúrgica ou transcateter, com indicação individualizada pelo risco operatório, pelas comorbidades e pela decisão do Heart Team.
🧠 Atenção

Os passos não mudam a ordem da avaliação do paciente (história, exame físico, exames complementares). São um guia para nortear o raciocínio e reduzir erros diagnósticos e terapêuticos.

Algoritmo dos cinco passos: gravidade anatômica, etiologia, sintomas, complicadores e tipo de intervenção; valvopatia discreta ou moderada e ausência de complicadores levam a seguimento individualizado.
Figura 1 – Algoritmo com passos para diagnóstico anatômico, etiológico e funcional, além da definição de conduta.Toque na imagem para ampliar.

Força da recomendação e certeza da evidência (seção 1.1)

📖 Texto de suporte — GRADE e o sistema clássico
  • As recomendações brasileiras seguem o GRADE: força da recomendação (1 = forte; 2 = fraca/condicional) e certeza da evidência (A = alta; B = moderada; C = baixa; D = muito baixa) (Figura 2).
  • Para comparação com as diretrizes internacionais, os quadros mantêm colunas no sistema clássico: Classe I (benéfica, útil e eficaz), Classe IIa (peso das evidências favorece), Classe IIb (utilidade ou eficácia menos estabelecida) e Classe III (sem benefício comprovado ou potencialmente danosa).
  • Nível A: múltiplos ensaios randomizados ou metanálises. Nível B: um único ensaio randomizado ou estudos não randomizados de maior porte. Nível C: consenso de especialistas, estudos pequenos, retrospectivos ou registros.
Figura 2 – Força da recomendação e níveis de certeza de acordo com o sistema GRADE (redesenhada em tabela)
EixoCategorias
Força da recomendaçãoForte Fraca
Certeza da evidênciaAlta Moderada Baixa Muito baixa

Heart Team e risco operatório (seções 1.2 e 1.3)

📖 Texto de suporte — Heart Valve Team
  • A complexidade crescente das indicações (assintomáticos, doença coronária associada, multivalvares, muitas comorbidades fora dos escores) exige decisão multidisciplinar: o Heart Valve Team.
  • Composição: cardiologista clínico (seleção, indicação e seguimento pré e pós-intervenção), cirurgião cardíaco e hemodinamicista (executam os procedimentos), especialista em imagem cardiovascular (factibilidade técnica) e ecocardiografista (avaliação pré-operatória e acompanhamento do procedimento).
📖 Texto de suporte — escores de risco
  • EuroSCORE II e STS predizem mortalidade em 30 dias.
  • STS: < 4% = baixo risco; 4–8% = intermediário; > 8% = alto risco. Há tendência recente de considerar baixo risco apenas o STS < 2%.
  • EuroSCORE II: < 4% = baixo risco; > 4% = risco aumentado.
  • Se houver discrepância entre os escores, usar o de maior risco estimado.
  • Fragilidade e contraindicações específicas (como aorta em porcelana) não entram nos escores. A avaliação de risco não substitui a avaliação clínica individual, e a decisão deve ser compartilhada com paciente e familiares.
🧮 Classificador de risco operatório (seção 1.3)

Preencha um ou os dois escores.

Regra da diretriz: STS < 4% baixo (tendência a < 2%), 4–8% intermediário, > 8% alto; EuroSCORE II < 4% baixo, > 4% aumentado; se discordarem, vale o de maior risco. Fragilidade e aorta em porcelana não entram na conta.

As oito principais novas recomendações (seção 1.4, Tabela 1)

Figura Central da Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026: as oito principais novas recomendações em torno do Heart Valve Team, com o paciente no centro da avaliação e decisão compartilhada e individualizada (risco-benefício e custo-efetividade, estratégia terapêutica, cuidado integrado). 1) Estenose aórtica assintomática importante de alto gradiente, sem complicadores e com baixo risco cirúrgico: intervenção precoce em pacientes selecionados, após discussão pelo Heart Team (recomendação fraca, certeza alta). 2) Estenose aórtica sintomática de baixo risco: cirurgia antes dos 70 anos, TAVI ou cirurgia entre 70 e 80 anos e preferência por TAVI acima dos 80 anos, conforme a faixa etária. 3) Insuficiência aórtica importante sintomática com expectativa de vida acima de 1 ano, contraindicação ou risco cirúrgico proibitivo e anatomia favorável: TAVI após avaliação do Heart Team (fraca, certeza baixa). 4) Insuficiência tricúspide importante, sintomática e refratária ao tratamento clínico, com contraindicação ou alto risco cirúrgico e anatomia favorável: reparo borda a borda ou implante ortotópico/heterotópico (forte, certeza alta para reparo borda a borda e implante ortotópico e baixa para implante heterotópico). 5) Insuficiência mitral primária não reumática, sintomática, com anatomia favorável e alto risco cirúrgico definido pelo Heart Team: reparo percutâneo borda a borda (forte, moderada). 6) Insuficiência mitral secundária ventricular com dispneia CF III ou mais apesar do tratamento medicamentoso otimizado e anatomia apropriada: reparo percutâneo borda a borda para melhora dos sintomas (forte, moderada). 7) Disfunção estrutural de bioprótese mitral ou aórtica em pacientes sintomáticos de alto risco cirúrgico ou inoperáveis, após avaliação do Heart Team: valve-in-valve (forte, alta). 8) Prevenção de endocardite: antibioticoprofilaxia em pacientes com alto risco de endocardite infecciosa submetidos a extração dentária, cirurgia oral ou procedimentos com manipulação gengival ou da região periapical (forte, moderada).
Figura Central – Diretriz Brasileira de Valvopatias – 2026: as oito principais novas recomendações.Toque na imagem para ampliar.
Tabela 1 – Principais recomendações da diretriz brasileira de valvopatias – 2026

Estenose aórtica importante, de alto gradiente, assintomática, sem complicadores e de baixo risco cirúrgico

FracaAlta

Intervenção precoce (early intervention)*

Estenose aórtica importante, sintomática ou com complicadores

ForteAlta

Baixo risco < 70 anos: preferência para cirurgia.

ForteAlta

Baixo risco entre 70 e 80 anos: TAVI = cirurgia.

ForteModerada

Baixo risco > 80 anos: preferência para TAVI.

Insuficiência aórtica importante sintomática

FracaBaixa

TAVI — com expectativa de vida > 1 ano, contraindicação/risco proibitivo à cirurgia, anatomia favorável, após avaliação do Heart Team.

Insuficiência tricúspide importante, refratária ao tratamento clínico, com contraindicação ou alto risco ao tratamento cirúrgico e anatomia favorável

ForteAlta

Reparo transcateter borda a borda.

ForteAlta

Implante ortotópico.

ForteBaixa

Implante heterotópico.

Insuficiência mitral primária não reumática, sintomática, com anatomia favorável, com alto risco cirúrgico baseado no Heart Team

ForteModerada

Reparo percutâneo borda a borda da valva mitral.

Insuficiência mitral secundária ventricular sintomática a despeito de otimização de tratamento medicamentoso e com anatomia apropriada

ForteModerada

Reparo percutâneo borda a borda.

Disfunção estrutural importante de bioprótese mitral ou aórtica, em pacientes sintomáticos, com alto risco para cirurgia ou inoperáveis, após avaliação do Heart Team

ForteAlta

Valve-in-valve.

Extração dentária, cirurgia oral ou outros procedimentos que requerem manipulação da gengiva ou região periapical do dente, em pacientes com risco elevado de endocardite infecciosa

ForteModerada

Antibioticoprofilaxia.

BNP: peptídeo natriurético cerebral; NT-proBNP: peptídeo natriurético tipo B N-terminal; TAVI: implante de bioprótese aórtica transcateter. * As evidências atuais sobre a intervenção precoce vêm ganhando maior respaldo, porém ainda sem benefício prognóstico em relação a mortalidade, como nos outros cenários de indicação de intervenção valvar. Assim, ela pode ser indicada em pacientes selecionados com marcadores prognósticos adversos (realce tardio na ressonância magnética, strain reduzido, BNP ou NT-proBNP elevado, escore de cálcio valvar elevado) após discussão do Heart Team.

🎓 Interpretação didática

A Tabela 1 resume a virada de 2026 em três frases: na estenose aórtica, a idade passa a ordenar a escolha entre cirurgia e TAVI no baixo risco (< 70 cirurgia, 70–80 tanto faz, > 80 TAVI); as técnicas transcateter entram com força em insuficiência tricúspide, mitral e disfunção de bioprótese; e a antibioticoprofilaxia dentária no paciente de alto risco de endocardite volta a ser recomendação forte.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seções 1 a 1.4, Figuras 1 e 2 e Tabela 1.

2Fragilidade

A fragilidade deve ser sempre investigada e mensurada no paciente valvar: pesa no planejamento, na decisão de intervir e no uso racional dos recursos — e os escores EuroSCORE II e STS não a captam.

📖 Texto de suporte — conceito e perfis
  • Síndrome clínica de redução da reserva fisiológica, com maior vulnerabilidade a doenças e estressores. Associa-se a desnutrição, sarcopenia, desordens hormonais, emagrecimento involuntário, exaustão, perda de funcionalidade e doença cardiovascular.
  • Fatores de risco: déficit cognitivo, depressão, isolamento social e consumo de álcool.
  • Três perfis: o frágil pela idade e comorbidades; o que se torna frágil pela insuficiência cardíaca da própria valvopatia; e o jovem frágil por múltiplas cirurgias prévias — este último ainda frequente no Brasil, pela febre reumática.
  • EuroSCORE II e STS não estimam corretamente, nos frágeis, mortalidade intra-hospitalar, infarto, insuficiência renal e sangramento maior. Avaliações subjetivas isoladas (eyeball test, gait speed) devem ser evitadas.
  • Katz, Fried, Rockwood (Clinical Frailty Scale) e Short Physical Performance Battery são difundidos na geriatria, mas nenhum foi construído em população valvar.
📖 Texto de suporte — Essential Frailty Toolset (EFT)
  • Coorte prospectiva multicêntrica (14 centros dos EUA, Canadá e França), pacientes > 70 anos submetidos a intervenção aórtica por cirurgia ou TAVI.
  • Quatro domínios: levantar-se 5 vezes da cadeira sem os braços; cognição (Mini-Mental); hemoglobina; albumina. Pontuação de 0 a 5.
  • Validado para predizer mortalidade em 1 ano e disfunção após intervenção aórtica. EFT > 3: maior risco presumido de eventos após intervenção — o que não significa que intervir seja equivocado ou deletério.
  • Identificada a fragilidade, segue-se avaliação mais minuciosa: perfil nutricional nos últimos 6 meses, pesquisa de depressão e atividades básicas de vida.
🧮 Calculadora EFT — Essential Frailty Toolset (Figura 3)
Levantar-se da cadeira cinco vezes (sem apoio dos braços)
Cognição (Mini-Mental)
Hemoglobina sérica
Albumina sérica

Marque os quatro domínios.

Figura 3 – Escore Essential Frailty Toolset (EFT) para avaliação de fragilidade em paciente com estenose aórtica importante submetidos à intervenção valvar. Adaptado de Afilalo et al. Redesenhado como calculadora; pontuação idêntica à da figura original.

📖 Texto de suporte — o que fazer com o paciente frágil
  • Preferir técnicas menos invasivas: a TAVI segue como excelente opção na estenose aórtica; na valvopatia mitral, o reparo transcateter borda a borda é alternativa na insuficiência mitral que persiste sintomática apesar do tratamento clínico otimizado.
  • Nas demais valvopatias primárias, sem opção menos invasiva que altere prognóstico, a fragilidade pode indicar medidas pré-operatórias para revertê-la (total ou parcialmente) ou até contraindicar o procedimento.
  • A fragilidade é dinâmica: tratar a valvopatia pode restaurar parcialmente a independência funcional.
  • Smartwatches (frequência cardíaca, arritmias, oximetria, gasto energético) e a telemedicina podem ajudar a detectar fragilidade precocemente e acompanhar o paciente em casa.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 2 e Figura 3.

3Estenose mitral

Área valvar ≤ 1,5 cm² define a estenose mitral importante. A etiologia separa dois mundos: a reumática, com fusão comissural, tratada por valvoplastia quando o Wilkins-Block permite; e a degenerativa (MAC), em idosos, em que a valvoplastia não funciona e o tratamento inicial é clínico.

Passo 1 — Gravidade anatômica

📖 Texto de suporte — exame físico e ecocardiograma (seção 3.1)
  • A estenose não importante pode ter estalido de abertura e sopro diastólico em ruflar em decrescendo, com reforço pré-sistólico se houver ritmo sinusal. Na estenose importante, os achados propedêuticos são mais evidentes e surgem as alterações de ECG e radiografia.
  • O ecocardiograma é o principal exame: gravidade, etiologia, repercussões e parâmetros de sucesso das intervenções (anel, cúspides, aparato subvalvar).
  • Área valvar por planimetria, tempo de meia pressão (PHT) ou equação de continuidade, além do gradiente diastólico médio. A planimetria é o método preferível quando a janela permite: é medida direta do orifício, menos influenciada por complacência atrial e ventricular, fluxo, volemia e tempo de enchimento.
  • O eco 3D ganha espaço na anatomia reumática e na predição de sucesso das intervenções.
  • O eco transesofágico é útil com janela limitada ou dúvida etiológica e é o exame de escolha antes da VMCB, para excluir trombo (que contraindica o procedimento).
  • Se clínica e eco discordam: estudo hemodinâmico (pressão atrial esquerda, em geral pela pressão capilar pulmonar, e ventricular esquerda; gradiente transmitral e transpulmonar; resistência vascular pulmonar). Sem gradiente elevado, pode-se usar volume e atropina IV para aumentar o fluxo. Gradiente ≥ 10 mmHg, espontâneo ou após estímulo, é compatível com estenose importante.
Quadro 1 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da estenose mitral importante
ExameCaracterísticas de estenose mitral importante
Exame físico
  • Facies mitralis
  • Estalido de abertura
  • B1 hiperfonética
  • B2 hiperfonética
  • Sopro diastólico em ruflar, com reforço pré-sistólico se paciente em ritmo sinusal
  • Sinais de congestão pulmonar e insuficiência cardíaca direita
  • Presença de insuficiência tricúspide
Eletrocardiograma
  • Sobrecarga de átrio esquerdo
  • Sobrecarga de câmaras direitas
  • Fibrilação atrial
Radiografia de tórax
  • Índice cardiotorácico normal
  • Sinais de aumento de átrio esquerdo: elevação do brônquio fonte esquerdo (“sinal da bailarina”); duplo contorno atrial à direita; 4º arco na silhueta cardíaca à esquerda
  • Sinais de congestão pulmonar
Ecocardiograma
  • AVM ≤ 1,5 cm²
  • Gradiente transmitral diastólico médio ≥ 10 mmHg
  • PSAP ≥ 50 mmHg em repouso
  • PSAP ≥ 60 mmHg com esforço
Estudo hemodinâmico
  • Indicado em caso de discordância entre achados clínicos e ecocardiográficos
  • Gradiente diastólico transmitral ≥ 10 mmHg (espontâneo ou após prova com atropina e volume)
  • PSAP ≥ 50 mmHg

AVM: área valvar mitral; B1: primeira bulha; B2: segunda bulha; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar.

Algoritmo da estenose mitral importante: etiologia reumática, degenerativa (MAC) ou rara; sintomas (dispneia) levam a intervenção; sem sintomas, complicadores (PSAP ≥ 50 mmHg, FA) levam a intervenção; sem complicadores, seguimento individualizado.
Figura 4 – Algoritmo para avaliação da estenose mitral importante. FA: fibrilação atrial; MAC: calcificação do anel mitral; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar; VMCB: valvoplastia mitral por cateter-balão.Toque na imagem para ampliar.

Passo 2 — Etiologia

📖 Texto de suporte — reumática, degenerativa e causas raras (seção 3.2)
  • A febre reumática segue como a principal etiologia no mundo, em crianças e adultos jovens de países em desenvolvimento como o Brasil. Em 2020 eram cerca de 40,5 milhões de pessoas com doença reumática; estima-se 48 milhões até 2030.
  • Na Europa, a estenose mitral responde por cerca de 12% das valvopatias; nos EUA a prevalência é de 0,1%, sobretudo idosos e imigrantes jovens de regiões menos desenvolvidas.
  • Cresce a forma degenerativa/calcífica (MAC), sobretudo acima de 75 anos: a calcificação começa no anel posterior e pode alcançar a base dos folhetos; aparato subvalvar e comissuras são poupados.
  • A MAC é marcador de doença cardiovascular mais grave (FA, AVC, mortalidade), mais prevalente em mulheres, associada a hipertensão, diabetes, doença renal crônica e radioterapia. Acomete ~23% dos idosos; 2–3% destes evoluem com estenose, mais frequentemente como dupla lesão mitral com insuficiência importante.
  • Causas raras: lúpus e artrite reumatoide, doença de Fabry, doença de Whipple, metisergida ou anorexígenos, síndrome carcinoide e alterações congênitas (valva em paraquedas, hipoplasia).
Quadro 2 – Passo 2: etiologia da estenose mitral
EtiologiaCaracterísticas etiológicas
Febre reumática
  • > 90% dos casos nos países em desenvolvimento
  • Sintomas entre a 3ª e 4ª décadas da vida
  • Fusão comissural, espessamento de cúspides
  • Comprometimento do aparelho subvalvar
  • Abertura em cúpula da cúspide anterior e redução da mobilidade da cúspide posterior
  • Acometimento mitroaórtico
Degenerativa (MAC)
  • 12 a 23% dos casos nos países desenvolvidos
  • Mais comum nos idosos
  • Pode chegar a 60% dos casos em pacientes com mais de 75 anos de idade
  • Calcificação do anel valvar mitral
  • Ausência de fusão comissural
  • Relação com calcificação aórtica e coronariana
Causas raras
  • Congênita
  • Doenças reumatológicas (lúpus/artrite reumatoide)
  • Drogas (metisergida/anorexígenos)
  • Síndrome carcinoide
  • Doença de Fabry

MAC: calcificação do anel mitral (do inglês mitral annulus calcification).

Passos 3 e 4 — Sintomas e complicadores

📖 Texto de suporte — sintomas e complicadores (seções 3.3 e 3.4)
  • Sintoma mais frequente: dispneia (CF II–IV), inicialmente em situações que elevam a pressão venocapilar (esforço, gestação, FA); depois em repouso, com ortopneia. Também palpitações, hemoptise, disfonia, disfagia, tosse e eventos embólicos.
  • Complicadores: PSAP ≥ 50 mmHg ou fibrilação atrial.
  • Na dúvida sobre sintomas: eco com estresse físico ou farmacológico. PSAP ≥ 60 mmHg no estresse sugere repercussão hemodinâmica e pode indicar intervenção.
  • Strain atrial esquerdo reduzido associa-se a sintomas e prediz FA em assintomáticos com estenose moderada a importante — pode corroborar, mas o uso ainda é limitado. Peptídeos natriuréticos se correlacionam com gravidade, porém com pontos de corte divergentes.
Quadro 3 – Passo 3: avaliação de sintomas na estenose mitral importante
SintomaCaracterísticas
Dispneia (NYHA II – IV)
  • Principal sintoma
  • Inicialmente, em situações que aumentam a pressão venocapilar pulmonar (esforço físico, fibrilação atrial, gestação)
  • Dispneia em repouso e dispneia paroxística noturna
  • Pode ser acompanhada por palpitações, hemoptise, disfonia, disfagia, tosse
  • Pode ser acompanhada por eventos embólicos (cerebrais, mesentéricos, de extremidades)

NYHA: New York Heart Association.

Quadro 4 – Passo 4: avaliação de complicadores na estenose mitral importante
ComplicadorCritério
Hipertensão pulmonar
  • PSAP ≥ 50 mmHg em repouso
  • PSAP ≥ 60 mmHg ao esforço (teste ergométrico ou ecocardiografia com estresse farmacológico)
FA relacionada à valvopatia
  • Relação com remodelamento do AE
  • Manter anticoagulação com varfarina, com alvo de INR de 2,0 a 3,0

AE: átrio esquerdo; FA: fibrilação atrial; INR: razão normalizada internacional; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar.

Passo 5 — Tipo de intervenção

📖 Texto de suporte — VMCB, cirurgia e valve-in-MAC (seção 3.5)
  • A VMCB é o tratamento de escolha na estenose reumática com anatomia favorável pelo Wilkins-Block (Quadro 7) e sem contraindicações (insuficiência mitral moderada ou importante; trombo em AE).
  • Wilkins-Block: mobilidade, espessamento, calcificação e acometimento subvalvar, de 1 a 4 cada (total 4–16). Wilkins ≤ 8: maior sucesso e menos eventos adversos → candidato à VMCB.
  • Mesmo após VMCB bem-sucedida, ~55% podem reestenosar. Em jovens com anatomia favorável, repetir a VMCB é seguro e satisfatório em casos selecionados.
  • Anatomia desfavorável (Wilkins > 10) ou contraindicação à via percutânea → cirurgia: comissurotomia ou troca valvar (biológica ou mecânica).
  • Wilkins 9–10: VMCB pode ser considerada em gestantes ou alto risco cirúrgico, desde que calcificação e aparelho subvalvar tenham no máximo 2 pontos cada.
  • Na estenose degenerativa a VMCB não é opção (não há fusão comissural). O risco cirúrgico é alto (disjunção atrioventricular, lesão do seio coronário e da circunflexa, sangramento da parede ventricular). Tratamento inicial: medicamentoso; se controlar os sintomas, pode não precisar de nova intervenção.
  • Refratários: cirurgia (risco baixo a moderado) ou implante transcateter valve-in-MAC (risco cirúrgico proibitivo). Experiência limitada, alta taxa de complicações (leak paravalvar, obstrução da VSVE, embolização) e mortalidade de até 16,7% em 30 dias, 34,5% em 12 meses e 67,9% em 5 anos; quando bem-sucedido, melhora sustentada dos sintomas em 5 anos.
  • SUMMIT-MAC (prótese dedicada Tendyne): sucesso técnico 94,2%, mortalidade 6,8% em 30 dias, sobrevida livre de morte ou hospitalização por IC de 60,4% em 12 meses. Indicação individualizada, em Heart Team experiente e centro com expertise.
Quadro 5 – Passo 5: tipos de intervenção na estenose mitral importante
TipoConsiderações
Valvoplastia mitral por cateter-balão
  • Tratamento de escolha na etiologia reumática
  • Indicações:
    • Sintomas (CF II–IV) e/ou fatores complicadores com escore ecocardiográfico de Wilkins-Block ≤ 8* (aparelho subvalvar ≤ 2 e calcificação ≤ 2)
    • Em gestantes ou pacientes com alto risco cirúrgico, considerar se: escore ecocardiográfico 9-10 (aparelho subvalvar ≤ 2 e calcificação ≤ 2)
  • Contraindicações:
    • Trombo em AE
    • Insuficiência mitral moderada ou importante
    • Fenômeno embólico recente
Tratamento cirúrgico (comissurotomia/troca valvar)
  • EM reumática CF II–IV com contraindicações à valvoplastia mitral por cateter-balão
  • EM reumática com fatores complicadores, não elegíveis para valvoplastia mitral por cateter-balão
  • EM degenerativa refratária ao tratamento clínico
Implante valvar mitral transcateter (valve-in-MAC)
  • EM degenerativa refratária ao tratamento clínico, com contraindicação ou alto risco ao tratamento cirúrgico e anatomia favorável

AE: átrio esquerdo; CF: classe funcional; EM: estenose mitral; MAC: calcificação do anel mitral. *Individualizar em casos de escore ecocardiográfico 9-10. Pacientes com calcificação e aparato subvalvar com pontuações menores que 3 têm maiores taxas de sucesso com valvoplastia mitral por cateter-balão.

Quadro 6 – Estenose mitral importante: recomendações

Valvoplastia mitral por cateter-balão

ForteAltaAHA I A · ESC I B

EM reumática CF II–IV, na ausência de contraindicações.

ForteBaixaAHA IIa B* · ESC IIa C

EM reumática assintomática, com fatores complicadores, na ausência de contraindicações.

Tratamento cirúrgico (comissurotomia/troca valvar)

ForteModeradaAHA I B · ESC I C

EM reumática CF II–IV com contraindicações à VMCB.

ForteBaixaAHA – · ESC –

EM reumática assintomática com fatores complicadores, não elegíveis para VMCB.

FracaBaixa**AHA IIb C · ESC –

EM degenerativa refratária ao tratamento clínico.

ForteBaixaAHA I C · ESC IIa C

EM reumático assintomático em programação de outra cirurgia cardíaca.

Implante valvar mitral transcateter (valve-in-MAC)

FracaBaixa**AHA IIb C · ESC IIb C

EM degenerativa refratária ao tratamento clínico, com contraindicação ou alto risco a tratamento cirúrgico e anatomia favorável.

AHA: American Heart Association; CF: classe funcional; EM: estenose mitral; ESC: European Society of Cardiology; MAC: calcificação do anel mitral; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia; VMCB: valvoplastia mitral por cateter-balão. * Indicação IIa B se hipertensão pulmonar e IIb C se fibrilação atrial. ** Considerar discussão junto ao Heart Team.

🧮 Calculadora do escore de Wilkins-Block (Quadro 7)
Mobilidade dos folhetos
Acometimento subvalvar
Espessura dos folhetos
Calcificação valvar

Marque os quatro itens.

Quadro 7 – Escore ecocardiográfico de Wilkins-Block, transcrito integralmente como calculadora. Interpretação conforme seção 3.5 e Quadro 5: ≤ 8 favorável à VMCB; 9–10 considerar em gestante ou alto risco cirúrgico se subvalvar ≤ 2 e calcificação ≤ 2; > 10 anatomia desfavorável (cirurgia). Contraindicações (trombo em AE, IM moderada/importante, embolia recente) prevalecem sobre o escore.

Acompanhamento e tratamento medicamentoso

📖 Texto de suporte — seguimento e fármacos (seções 3.6 e 3.7)
  • Estenose não importante (AVM > 1,5 cm²): reavaliação clínica e ecocardiográfica anual. Se surgirem sintomas antes de a valvopatia ficar importante, considerar diagnósticos diferenciais.
  • Estenose importante assintomática sem complicadores: reavaliar a cada 6 a 12 meses.
  • Controle de sintomas: reduzir a frequência cardíaca com betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio ou ivabradina (esta só em ritmo sinusal e se não tolerar as anteriores). Na FA com necessidade de controle de frequência: também digoxina ou amiodarona.
  • Objetivo: aumentar o tempo de enchimento ventricular e reduzir a pressão no AE. Os diuréticos otimizam a redução do gradiente pela redução do fluxo transmitral.
Quadro 8 – Estenose mitral: acompanhamento individualizado
Estenose mitralAcompanhamentoSBC (força / certeza)AHAESC
Importante assintomática e sem complicadoresReavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 6-12 mesesA cada 6-12 mesesAnual
Intervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a outro procedimento cirúrgico cardíaco (revascularização coronária, aorta ascendente ou outra válvula)Forte BaixaIIb C–
Não importante (AV 1,5 a 2,0 cm² e gradiente diastólico médio AE–VE 5 a 10 mmHg)Reavaliação clínica e ecocardiográficaAnualA cada 3-5 anosA cada 2-3 anos
Intervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a outro procedimento cirúrgico (revascularização coronária, aorta ascendente ou outra válvula)Forte Baixa––

AE: átrio esquerdo; AHA: American Heart Association; AV: área valvar; ESC: European Society of Cardiology; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia; VE: ventrículo esquerdo.

🎓 Interpretação didática

Na estenose mitral, a pergunta que define a conduta é “reumática ou MAC?”. Reumática com sintomas ou complicadores: eco transesofágico (trombo?), Wilkins-Block e insuficiência mitral associada decidem entre VMCB e cirurgia. MAC: começar pelo tratamento clínico, porque a valvoplastia não funciona e a cirurgia é tecnicamente arriscada.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 3, Quadros 1 a 8 e Figura 4.

4Insuficiência mitral primária

A lesão está no folheto, na corda ou no músculo papilar. Sintomas ou complicadores (FEVE < 60%, DSVE ≥ 40 mm, PSAP ≥ 50 mmHg, FA) indicam intervenção; a plástica é a técnica de escolha sempre que houver alta probabilidade de correção completa e duradoura, e o reparo borda a borda fica para quem não pode operar.

Passo 1 — Gravidade anatômica

📖 Texto de suporte — clínica e imagem (seção 4.1)
  • Suspeitar de IM importante com sopro sistólico regurgitativo ≥ 3+/6+ irradiado para a axila. A perda da intensidade de B1 é marcador de gravidade (disfunção ventricular ou rotura de cordoalha).
  • O eco transtorácico é o principal exame. A EROA se associa à mortalidade: aumento quando ≥ 0,20 cm², consistentemente maior acima de 0,40 cm².
  • Dissociação clínico-ecocardiográfica: eco transesofágico (folhetos, aparato, quantificação e predição de sucesso cirúrgico); o eco 3D é mais preciso que o 2D no volume regurgitante e no prolapso.
  • Ressonância: quantificação precisa de volume e fração regurgitante, fibrose e MAD (associada a prolapso com arritmias ventriculares e morte súbita).
  • Tomografia: utilidade crescente, sobretudo no planejamento transcateter (anel, folhetos, aparelho subvalvar).
  • Cateterismo: fundamental no pré-operatório quando há suspeita de coronariopatia; ventriculografia com refluxo > 3+ indica IM importante; cateterismo direito para pressões e prognóstico.
Quadro 9 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da insuficiência mitral primária importante
ExameCaracterísticas de insuficiência mitral primária importante
Exame físico
  • Ictus cordis desviado para a esquerda e para baixo
  • B2 hiperfonética
  • Sopro sistólico regurgitativo ≥ 3+/6+
  • Sinais clínicos de insuficiência cardíaca direita (turgência jugular, hepatomegalia e edema de membros inferiores)
Eletrocardiograma
  • Sinais de sobrecarga de câmaras esquerdas
  • Arritmias atriais ou ventriculares
Radiografia de tórax
  • Aumento da área cardíaca (aumento do AE e VE)
  • Congestão pulmonar
Ecocardiograma
  • Área do jato ≥ 40% da área do AE
  • Fração regurgitante ≥ 50%
  • Volume regurgitante ≥ 60 mL/batimento
  • Vena contracta ≥ 0,7 cm
  • EROA ≥ 0,40 cm²
  • Velocidade da onda E > 1.2 m/s
  • Fluxo sistólico reverso em veias pulmonares
Ressonância magnética cardíaca
  • Graduação da IM pelo volume e fração regurgitante importantes
  • Avaliação da função ventricular
  • Avaliação de fibrose miocárdica
  • Avaliação de disjunção do anel mitral e PVM
Estudo hemodinâmico
  • Jato regurgitante importante (> 3+) durante ventriculografia
  • Avaliação das pressões intracavitárias através do cateterismo de câmaras direitas

AE: átrio esquerdo; B2: segunda bulha cardíaca; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; IM: insuficiência mitral; PVM: prolapso da valva mitral; VE: ventrículo esquerdo.

Passo 2 — Etiologia

📖 Texto de suporte — reumática, prolapso e MAD (seção 4.2)
  • No Brasil, a principal causa ainda é a doença reumática, seguida pelo prolapso da valva mitral e doenças associadas (flail, Barlow). A MAC também gera regurgitação (ver estenose mitral).
  • MAD: separação entre o anel valvar e o miocárdio do VE, frequente no prolapso arritmogênico; a mobilidade excessiva traciona papilares e o miocárdio póstero-basal, servindo de gatilho para arritmias ventriculares.
  • As etiologias se sobrepõem: IM primária não tratada leva a disfunção e dilatação do VE, dilatação do anel e tethering, piorando a regurgitação.
Quadro 10 – Passo 2: avaliação etiológica da insuficiência mitral primária
EtiologiaCaracterísticas etiológicas
Reumática
  • Espessamento com retração das cúspides
  • Acometimento comissural
  • Acometimento mitroaórtico
  • Acomete adultos jovens
Prolapso da valva mitral e doenças associadas (flail, doença de Barlow)
  • Protrusão do folheto em direção ao AE ≥ 2 mm
  • Degeneração mixomatosa
  • Acomete adultos de meia idade e idosos
Outras causas
  • Endocardite infecciosa
  • Degenerativa (calcificação do anel valvar)
  • Síndrome de Marfan
  • Lúpus eritematoso sistêmico
  • Traumas
  • Lesões congênitas

AE: átrio esquerdo.

Algoritmo da insuficiência mitral primária importante: etiologia reumática, prolapso ou outras; dispneia leva a intervenção; sem sintomas, complicadores (FEVE < 60%, DSVE ≥ 40 mm, PSAP ≥ 50 mmHg, FA) levam a intervenção cirúrgica ou transcateter.
Figura 5 – Algoritmo para avaliação da insuficiência mitral primária importante. DSVE: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; DSVEi: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo indexado; FA: fibrilação atrial; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar.Toque na imagem para ampliar.

Passos 3 e 4 — Sintomas e complicadores

📖 Texto de suporte — sintomas, complicadores, strain e BNP (seções 4.3 e 4.4)
  • Principal sintoma: dispneia, de piora progressiva; considerar já aos esforços extra-habituais (CF II).
  • A ausência de sintomas pode ser autolimitação inconsciente ou acomodação do volume no AE remodelado. Antes de rotular o paciente como assintomático, pode-se pedir teste ergométrico ou ergoespirométrico; imagens de eco no esforço podem mostrar piora da PSAP, da regurgitação ou da função do VE.
  • Complicadores no verdadeiramente assintomático: FEVE < 60%, DSVE ≥ 40 mm, PSAP ≥ 50 mmHg em repouso ou ≥ 60 mmHg no esforço e FA.
  • Queda progressiva da FEVE ou dilatação progressiva do VE, mesmo antes dos cortes, são indícios para considerar a cirurgia.
  • Strain longitudinal global detecta disfunção precoce e tem valor prognóstico, mas os cortes ainda não estão definidos.
  • BNP > 105 pg/mL reflete IM mais grave e maior risco; pode ser considerado junto a outros exames quando houver incerteza sobre o momento da cirurgia, mas requer validação.
Quadro 11 – Passo 3: avaliação de sintomas da insuficiência mitral primária importante
SintomaCaracterísticas
Dispneia CF NYHA II – IV
  • Principal sintoma
  • Pode ser acompanhada de palpitações, tosse, edema de membros inferiores ou eventos tromboembólicos

CF: classe funcional; NYHA: New York Heart Association.

Quadro 12 – Passo 4: avaliação de complicadores na insuficiência mitral primária importante
ExameComplicadores
Ecocardiograma
  • FEVE < 60%
  • DSVE ≥ 40 mm (ou DSVEi ≥ 20 mm/m²)
  • PSAP ≥ 50 mmHg no repouso ou ≥ 60 mmHg no esforço
Eletrocardiograma
  • FA relacionada à valvopatia

DSVE: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; DSVEi: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo indexado; FA: fibrilação atrial; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar.

Passo 5 — Tipo de intervenção

📖 Texto de suporte — plástica, troca, TEER, TMVI e early surgery (seção 4.5)
  • Plástica mitral: menor mortalidade, maior sobrevida e melhor resultado funcional que a troca → técnica de escolha sempre que houver alta probabilidade de correção completa e duradoura. Prioridade absoluta na doença degenerativa (prolapso).
  • Na doença reumática avançada, calcificação extensa ou comprometimento importante de folhetos e subvalvar, a troca valvar costuma ser mais apropriada (menor durabilidade do reparo).
  • Minitoracotomia direita e plataforma robótica: apenas pacientes selecionados, em centros com experiência e alto volume, após Heart Team.
  • TEER (reparo transcateter borda a borda): sem benefício prognóstico demonstrado → restrito a pacientes com contraindicação à cirurgia, para benefício sintomático.
  • TMVI: trata anatomias desfavoráveis ao TEER com eliminação quase completa da IM, mas é limitado (exclusão alta nos estudos, obstrução da VSVE, trombose, planejamento por angiotomografia, sem dados de médio prazo, disponibilidade restrita).
  • Early surgery no prolapso assintomático sem complicadores: apoiada por dados observacionais, desde que a IM seja importante, o procedimento seja de baixo risco, efetivo e duradouro, em centro de excelência e não fútil. Se houver dúvida, não indicar — seguimento próximo.
📖 Texto de suporte — prolapso arritmogênico e MAD
  • Fenótipo de prolapso + arritmias ventriculares complexas, com maior risco de morte súbita independentemente da gravidade da IM e sem outra cardiopatia que explique. Arritmias atriais ou ectopia isolada de baixo risco não contam. A MAD integra o substrato, mas sozinha não define o diagnóstico.
  • Marcadores de maior risco: MAD extensa, prolapso bivalvular, fibrose na ressonância, ectopia frequente ou TVNS adrenérgico-dependente, T invertida nas inferiores e FEVE < 50%. Não há algoritmo validado isolado para predizer morte súbita.
  • Sintomáticos (palpitações, síncope, pré-síncope): Holter prolongado, teste ergométrico e, quando indicado, ressonância.
  • Betabloqueador para controle sintomático; outros antiarrítmicos em casos selecionados. CDI indicado na prevenção secundária (parada recuperada); pode ser considerado na primária em casos selecionados, após discussão multidisciplinar. Ablação: controversa.
  • As indicações de intervenção seguem as mesmas da IM importante: o diagnóstico de prolapso arritmogênico ou MAD, por si só, não indica intervenção precoce.
Quadro 13 – Passo 5: tipos de intervenções na insuficiência mitral primária importante
Tipo de intervençãoConsiderações
Plástica da valva mitral
  • Primeira escolha nos pacientes com etiologia degenerativa e anatomia favorável
  • Pacientes reumáticos: avaliação individualizada, resultados menos favoráveis
Troca da valva mitral
  • Anatomia desfavorável para plástica mitral
Reparo percutâneo borda a borda da valva mitral
  • Pacientes com contraindicação cirúrgica e sintomas refratários
  • Pacientes de alto risco cirúrgico
  • Pacientes idosos
  • Expectativa de vida > 1 ano
  • Anatomia favorável
  • A conduta deve ser definida em Heart Team
Quadro 14 – Insuficiência mitral primária importante: recomendações

Plástica da valva mitral — reumáticos

FracaBaixaAHA – · ESC –

Sintomáticos (dispneia CF ≥ II).

FracaBaixaAHA – · ESC –

Assintomáticos, com complicadores: FEVE < 60% e/ou DSVE ≥ 40 mm (ou DSVEi ≥ 20 mm/m²).

FracaBaixaAHA – · ESC –

Assintomáticos, com complicadores: PSAP ≥ 50 mmHg ou FA relacionada à valvopatia.

Plástica da valva mitral — não reumáticos

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Sintomáticos (dispneia CF ≥ II), com anatomia favorável.

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Assintomáticos, com complicadores, com anatomia favorável: FEVE < 60% e/ou DSVE ≥ 40 mm (ou DSVEi ≥ 20 mm/m²).

ForteModeradaAHA – · ESC I B*

Assintomáticos, com complicadores, com anatomia favorável: PSAP ≥ 50 mmHg ou FA relacionada à valvopatia.

ForteBaixaAHA IIa B · ESC IIa B**

Assintomáticos, IM por PVM, com anatomia favorável, sem complicadores, em centros com experiência.

FracaMuito baixaAHA – · ESC –

PVM arritmogênico e/ou MAD, na ausência de outras indicações de intervenção.

Troca da valva mitral — reumáticos

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Sintomáticos (dispneia CF ≥ II).

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Assintomáticos, com complicadores: FEVE < 60% e/ou DSVE ≥ 40 mm (ou DSVEi ≥ 20 mm/m²).

ForteModeradaAHA – · ESC IIa B

Assintomáticos, com complicadores: PSAP ≥ 50 mmHg ou FA relacionada à valvopatia.

Troca da valva mitral — não reumáticos

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Sintomáticos (dispneia CF ≥ II), com anatomia desfavorável para plástica mitral.

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Assintomáticos, com complicadores, com anatomia desfavorável: FEVE < 60% e/ou DSVE ≥ 40 mm (ou DSVEi ≥ 20 mm/m²).

ForteModeradaAHA – · ESC IIa B

Assintomáticos, com complicadores, com anatomia desfavorável: PSAP ≥ 50 mmHg ou FA relacionada à valvopatia.

FracaMuito baixaAHA – · ESC –

PVM arritmogênico e/ou MAD, na ausência de outras indicações de intervenção.

Reparo percutâneo borda a borda da valva mitral

ForteModeradaAHA IIa B · ESC IIa B

IM não reumática, sintomática, com anatomia favorável, com alto risco cirúrgico baseado no Heart Team.

AHA: American Heart Association; CF: classe funcional; ESC: European Society of Cardiology; FA: fibrilação atrial; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; DSVE: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; DSVEi: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo indexado; IM: insuficiência mitral; MAD: disjunção do anel mitral; PVM: prolapso da valva mitral; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia. * Se três dos seguintes: FA, PSAP > 50 mmHg, dilatação de átrio esquerdo ou insuficiência tricúspide ≥ moderada. ** Na presença de volume de átrio esquerdo > 60 ml/m² ou diâmetro ≥ 55 mm.

Acompanhamento e tratamento medicamentoso

📖 Texto de suporte — seguimento e fármacos (seções 4.6 e 4.7)
  • IM importante verdadeiramente assintomática, sem complicadores e sem indicação de early surgery: eco transtorácico a cada 6 a 12 meses. Ressonância, Holter, BNP, eco com estresse e strain podem ajudar a acertar o momento da cirurgia.
  • IM moderada com função preservada: acompanhamento clínico anual e eco com janela de no máximo 2 anos. Qualquer sintoma deve ser comunicado imediatamente.
  • Tratamento medicamentoso: alívio de sintomas até o procedimento ou para quem não fará intervenção. Furosemida é o principal fármaco (congestão); vasodilatadores reduzem pós-carga e sintomas, sem benefício prognóstico.
Quadro 15 – Insuficiência mitral primária: acompanhamento individualizado
Insuficiência mitral primáriaAcompanhamentoSBC (força / certeza)AHAESC
Importante assintomática e sem complicadoresReavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 6 meses a 1 anoA cada 6 meses a 1 anoA cada 6 meses
Intervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a outro procedimento cirúrgico cardíaco (revascularização coronária, aorta ascendente ou outra válvula)Forte ModeradaI B–
Moderada (área do jato 20-40% da área do AE, fração regurgitante 30-49%, volume regurgitante 30-59 mL/batimento, vena contracta 0,3-0,69 cm, EROA 0,2-0,39 cm²)Reavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 1-2 anosA cada 1-2 anosA cada 1-2 anos
Intervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a outro procedimento cirúrgico cardíaco (revascularização coronária, aorta ascendente ou outra válvula)Forte BaixaIIa C–
Discreta (área do jato < 20% da área do AE, fração regurgitante < 30%, volume regurgitante < 30 mL/batimento, vena contracta < 0,3 cm, EROA < 0,2-0,39 mm²)Reavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 2-3 anosA cada 3-5 anos–

AE: átrio esquerdo; AHA: American Heart Association; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; ESC: European Society of Cardiology; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia. Linha “Discreta” transcrita como no original.

🎓 Interpretação didática

Note a assimetria do Quadro 14: no paciente reumático, a plástica tem só recomendação fraca e a troca, forte — o reparo dura menos nesse substrato. No não reumático (prolapso), a lógica se inverte: plástica forte sempre que a anatomia for favorável, inclusive no assintomático sem complicadores em centro experiente.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 4, Quadros 9 a 15 e Figura 5.

5Insuficiência mitral secundária

A valva é estruturalmente normal: o problema está no ventrículo ou no átrio. Primeiro se otimiza o tratamento da doença de base; depois, nos que seguem sintomáticos, o reparo percutâneo borda a borda (ventricular) ou a anuloplastia cirúrgica (atrial) entram em cena, após o Heart Team.

Passo 1 — Gravidade anatômica

📖 Texto de suporte — definição e quantificação (seção 5.1)
  • Na IM secundária (funcional) não há alteração anatômica direta do aparato valvar: a regurgitação decorre de alteração da mobilidade da parede, tracionamento apical, dilatação do anel e/ou dilatação atrial. Corresponde a pelo menos 50% dos casos de IM.
  • IM secundária importante acomete 25% dos pacientes com IC de FE reduzida, 10% na FE levemente reduzida e 4% na FE preservada. Mesmo IM discreta a moderada piora o prognóstico em todos os espectros de IC; em idosos o prognóstico é ainda pior.
  • O exame físico costuma ser frustro; o eco transtorácico é fundamental.
  • Embora desfechos adversos ocorram com EROA menor, a diretriz, em concordância com a norte-americana, adota os mesmos critérios da IM primária: EROA ≥ 0,4 cm² e volume regurgitante ≥ 60 mL — a regurgitação pode ser apenas marcadora da doença de base, com baixa custo-efetividade de intervir cedo.
  • As diretrizes europeias usam valores diferentes quando o orifício é elíptico e há baixo fluxo (EROA ≥ 0,2 cm² e volume regurgitante ≥ 30 mL).
  • Dissociação clínico-ecocardiográfica: ventriculografia, transesofágico ou ressonância.
Quadro 16 – Passo 1: critérios para a definição da gravidade anatômica da insuficiência mitral secundária importante
ExameCaracterística de insuficiência mitral secundária importante
Exame físico
  • B1 hipofonética
  • Sopro holossistólico, com timbre suave, baixa intensidade, com irradiação para linha axilar
Eletrocardiograma
  • Achados compatíveis com doença de base
  • Sinais de sobrecarga de câmaras esquerdas
Radiografia de tórax
  • Achados compatíveis com doença de base
  • Aumento do índice cardiotorácico nos casos de dilatação ventricular esquerda
  • O índice cardiotorácico pode ser normal nos casos de insuficiência mitral atrial, podendo apresentar aumento atrial, aumento de câmaras esquerdas e congestão pulmonar
Ecocardiograma
  • Quantificação da regurgitação:
    • Jato central > 40% AE
    • Vena contracta ≥ 0,7 cm
    • Volume regurgitante ≥ 60 mL/batimento
    • Fração regurgitante ≥ 50%
    • EROA ≥ 0,40 cm²
Ecocardiograma transesofágico
  • Pode ser usado para confirmação da gravidade e mecanismo da IM
  • Avaliação da factibilidade do reparo percutâneo borda a borda
Estudo hemodinâmico
  • Pode auxiliar na quantificação evidenciando regurgitação 3+/4+ na ventriculografia
Ressonância magnética
  • Auxílio eventual em quantificação da IM em situações de limitação ecocardiográfica

AE: átrio esquerdo; B1: primeira bulha; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; IM: insuficiência mitral.

Algoritmo da insuficiência mitral secundária importante: etiologia isquêmica, dilatada ou atrial; sintomas em CF III-IV a despeito de tratamento clínico otimizado levam a intervenção; sem sintomas, complicador (agravamento das condições basais) leva a intervenção cirúrgica ou transcateter; caso contrário, seguimento individualizado.
Figura 6 – Algoritmo para avaliação da insuficiência mitral secundária importante. CF: classe funcional da New York Heart Association.Toque na imagem para ampliar.

Passos 2 a 4 — Etiologia, sintomas e complicadores

📖 Texto de suporte — mecanismos e IM “desproporcional” (seções 5.2 a 5.4)
  • Três mecanismos, muitas vezes coexistentes: disfunção sistólica do VE (IC de FE reduzida, com tracionamento dos papilares); dilatação anular (IM atrial, associada à IC de FE preservada e/ou FA); e deslocamento dos papilares na doença isquêmica (IM isquêmica).
  • A partir do COAPT e do MITRA-FR, Carabello et al. propuseram a IM terciária/desproporcional: regurgitação anatomicamente maior do que o esperado para a disfunção ventricular — grupo em que a intervenção valvar poderia ser benéfica.
  • Sintoma principal: dispneia; podem ocorrer sinais de IC direita, dor torácica (isquêmicos) e palpitações (IM atrial).
  • Não há complicadores específicos. Agravamento sem outra causa (aumento da PSAP, dilatação progressiva do VE, queda da FEVE) permite atribuir o quadro à valvopatia.
Quadro 17 – Passo 2: etiologia da insuficiência mitral secundária
EtiologiaCaracterísticas etiológicas
Ventricular isquêmica
  • Alterações segmentares da contratilidade
  • Disposição inadequada dos músculos papilares ou das cúspides valvares (“em tenda”, ou com tracionamento apical – tethering – e/ou falha de coaptação das cúspides
  • Dilatação do anel mitral
  • Avaliação das coronárias por cinecoronariografia
  • Avaliação de viabilidade e áreas de realce tardio pela ressonância magnética
Ventricular dilatada
  • Dilatação do anel valvar – dilatação ventricular
  • Disfunção sistólica ventricular
  • Disposição inadequada dos músculos papilares ou das cúspides valvares (“em tenda”, ou com tracionamento apical – tethering – e/ou falha de coaptação das cúspides
  • Dissincronia ventricular
  • Alteração do acoplamento mecânico atrioventricular
Atrial funcional
  • Presente em pacientes com fibrilação atrial, dilatação do átrio esquerdo e do anel mitral
  • Ausência de dilatação ventricular e FEVE reduzida
  • Pode estar relacionada a IC de FEVE preservada

FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IC: insuficiência cardíaca.

Quadro 18 – Passo 3: avaliação de sintomas na insuficiência mitral secundária importante
SintomaCaracterísticas
Dispneia e fadiga/fraqueza
  • Aumento da pressão diastólica final
  • Congestão venocapilar pulmonar
  • Pode ser acompanhada por palpitações, tosse, ascite, edema, dor torácica
  • Pode ser acompanhada por eventos embólicos
Quadro 19 – Passo 4: avaliação de complicadores na insuficiência mitral secundária importante
AvaliaçãoComplicadores
Avaliação clínico-ecocardiográfica
  • Agravamento das condições de base sem outras causas atribuíveis (aumento da PSAP, aumento de diâmetros ventriculares, queda da FEVE)

FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar.

Passo 5 — Tipo de intervenção

📖 Texto de suporte — tratamento clínico, cirurgia e TEER (seção 5.5)
  • Disfunção de VE: IECA/BRA, inibidor de neprilisina, betabloqueador, antagonista mineralocorticoide e iSGLT2, além de ressincronização e CDI quando indicados. Na síndrome coronariana crônica, discutir revascularização.
  • IM atrial: mortalidade semelhante aos outros mecanismos. Não há evidência para priorizar ritmo ou frequência, mas a redução do volume atrial se associa a menor mortalidade → a diretriz sugere controle de ritmo se sintomas persistirem apesar do tratamento otimizado (remodelamento atrial reverso).
  • Cirurgia melhora sintomas em quem mantém CF III/IV apesar do tratamento otimizado. Se há indicação de revascularização cirúrgica e IM secundária importante, há benefício em tratar a valva no mesmo procedimento.
  • IM secundária isolada: o MATTERHORN mostrou TEER tão eficaz quanto a cirurgia e significativamente mais seguro.
  • COAPT (2018): TEER reduziu mortalidade e internação por IC. MITRA-FR: sem diferença. RESHAPE-HF2 (2024): menos internações e melhores sintomas, sem redução de mortalidade. EROA média: COAPT 0,40; MITRA-FR 0,31; RESHAPE-HF2 0,25 cm² — o COAPT tendeu a incluir IM terciária (VE menos dilatado).
  • Metanálise dos três: TEER deve ser indicado para reduzir hospitalização e melhorar qualidade de vida. A diretriz propõe considerar TEER na IM secundária ventricular importante refratária ao tratamento otimizado, após Heart Team.
  • Anatomia desfavorável ao TEER: substituição transcateter (CHOICE-MI e sistemas transeptais: eliminação da IM ≤ 1+ em > 95% em 1 ano), tecnologia ainda sem dados de longo prazo.
  • IM atrial sintomática: a anuloplastia mitral cirúrgica é a técnica de escolha. Se contraindicação ou alto risco, TEER pode ser considerado — atenção ao risco de gradiente transmitral elevado (coaptação plana, jatos amplos, área valvar pequena).
  • Recomenda-se o fechamento concomitante do apêndice atrial esquerdo na cirurgia cardíaca de pacientes com FA ou flutter.
Quadro 20 – Passo 5: tipo de intervenção na insuficiência mitral secundária importante
TipoConsiderações
Tratamento clínico otimizado
  • Todos os pacientes: realizar tratamento clínico otimizado conforme diretrizes vigentes para tratamento de insuficiência cardíaca; avaliar implante de terapia de ressincronização cardíaca quando pertinente
  • Funcional atrial: pode se beneficiar de controle de ritmo no paciente com fibrilação atrial
Troca ou plástica valvar mitral
  • Isquêmico: troca ou plástica valvar mitral se indicada revascularização do miocárdio
  • Plástica mitral quando outra abordagem valvar concomitante for indicada
Reparo percutâneo borda a borda da valva mitral
  • É necessária avaliação do Heart Team institucional
  • Indicado em pacientes com refratariedade dos sintomas a despeito do tratamento clínico
  • Necessário avaliar viabilidade do procedimento por meio do ecocardiograma
Implante valvar mitral transcateter
  • Alternativa para pacientes de alto risco cirúrgico, com anatomia desfavorável para TEER
  • Ainda em estudo (off label)
Fechamento cirúrgico do apêndice atrial esquerdo
  • Em pacientes com fibrilação atrial ou flutter atrial submetidos a cirurgia cardíaca

TEER: reparo transcateter borda a borda (do inglês transcatheter edge-to-edge repair).

Quadro 21 – Insuficiência mitral secundária importante: recomendações

Troca ou plástica valvar mitral — IM ventricular

FracaBaixaAHA IIb B · ESC IIb C

Paciente com dispneia (CF ≥ III) a despeito de otimização de tratamento medicamentoso para melhora da sintomatologia.

ForteModeradaAHA IIa B · ESC I B

Revascularização miocárdica ou outra cirurgia cardíaca associada.

Troca ou plástica valvar mitral — IM atrial

FracaBaixaAHA – · ESC IIa B

Paciente com dispneia (CF ≥ III) a despeito de otimização de tratamento medicamentoso, para melhora da sintomatologia.

Reparo percutâneo borda a borda (edge-to-edge repair) — IM ventricular

ForteModeradaAHA IIa B · ESC I A

Paciente sintomático a despeito de otimização de tratamento medicamentoso e com anatomia apropriada.

Reparo percutâneo borda a borda — IM atrial

FracaBaixaAHA – · ESC IIb B

Paciente com dispneia a despeito de otimização de tratamento medicamentoso, com contraindicação ou risco cirúrgico elevado, e com anatomia apropriada, para melhora da sintomatologia.

Fechamento cirúrgico do apêndice atrial esquerdo

ForteAltaAHA IIa B · ESC –

Pacientes com fibrilação ou flutter atrial que serão submetidos a cirurgia cardíaca para redução de eventos tromboembólicos.

AHA: American Heart Association; CF: classe funcional; ESC: European Society of Cardiology; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

🎓 Interpretação didática

Três ideias para não errar: (1) a diretriz brasileira usa os mesmos cortes da IM primária (EROA ≥ 0,4 cm²; VR ≥ 60 mL), diferentemente da ESC; (2) sempre otimizar o tratamento da IC antes de falar em intervenção; (3) o TEER na forma ventricular é forte/moderada para sintomas e hospitalização — não como terapia que comprovadamente reduz mortalidade em todos os perfis.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 5, Quadros 16 a 21 e Figura 6.

6Estenose aórtica

Só a estenose aórtica anatomicamente importante se beneficia de intervenção: por isso o primeiro trabalho é confirmar a gravidade, inclusive nos cenários de baixo fluxo e baixo gradiente. Com sintomas ou complicadores, intervém-se; a escolha entre cirurgia e TAVI passa a seguir o risco e, no baixo risco, a idade.

Passo 1 — Gravidade anatômica

📖 Texto de suporte — exame físico e ecocardiograma (seção 6.1)
  • Seis sinais de estenose importante no exame físico: pulso parvus et tardus, sopro sistólico ejetivo com pico telessistólico, hipofonese de B2, hipofonese de B1, fenômeno de Gallavardin e desdobramento paradoxal ou B2 única.
  • O ecocardiograma é o exame de maior relevância. Estenose importante: AVAo ≤ 1,0 cm² e/ou AVAi ≤ 0,6 cm²/m² na presença de gradiente médio ≥ 40 mmHg ou velocidade máxima ≥ 4,0 m/s.
  • Baixo fluxo/baixo gradiente: AVAo ≤ 1,0 cm² com gradiente médio < 40 mmHg (Figura 8). Confirmada a gravidade, também há indicação de intervenção.
  • FE preservada (“paradoxal”) — além de excluir erros de medida, exigir: AVAi ≤ 0,6 cm²/m²; escore de cálcio valvar elevado (> 1.300 AU mulheres; > 2.000 AU homens); PA sistólica ≤ 140 mmHg; volume ejetado indexado ≤ 35 mL/m².
  • Todos os parâmetros acima, mas com volume ejetado indexado normal (> 35 mL/m²): normofluxo e baixo gradiente — pouca evidência, sem consenso; tendência a intervir se sintomático sem outra justificativa.
  • FE reduzida (baixo fluxo clássico): eco com dobutamina em baixa dose (20 mcg/kg/min) (Figura 9). Reserva contrátil = aumento ≥ 20% do volume sistólico e/ou > 10 mmHg no gradiente médio. Com reserva: redução ou manutenção da AVAo no pico (aceita-se aumento de até 0,2 cm²) = estenose importante; aumento da AVAo ≥ 0,3 cm² com AVAo final > 1,0 cm² = estenose moderada (pseudoimportante).
  • Sem reserva contrátil: definir a gravidade pelo escore de cálcio. Esses pacientes também se beneficiam de intervenção cirúrgica ou transcateter.
Quadro 22 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da estenose aórtica importante
ExameCaracterística de estenose aórtica importante
Exame físico
  • Pulso parvus et tardus
  • Sopro sistólico ejetivo com pico telessistólico
  • Hipofonese de B2
  • Hipofonese de B1
  • Fenômeno de Gallavardin
  • Desdobramento paradoxal de B2 ou B2 única
Eletrocardiograma
  • Sobrecarga de câmaras esquerdas
  • Alteração de repolarização ventricular (padrão strain)
Radiografia de tórax
  • Índice cardiotorácico pode ser normal
  • Sinais de congestão pulmonar
Ecocardiograma
  • AVAo ≤ 1,0 cm²
  • AVAo indexada ≤ 0,6 cm²/m²
  • Gradiente ventrículo esquerdo/Ao ≥ 40 mmHg
  • Velocidade máxima do jato aórtico ≥ 4,0 m/s
  • Razão das velocidades de fluxo entre a via de saída do ventrículo esquerdo e valva aórtica < 0,25
Ecocardiograma sob estresse com dobutamina
  • Indicado para avaliação de gravidade anatômica em pacientes com EAo de baixo-fluxo e baixo-gradiente com FE reduzida
Tomografia computadorizada de tórax multidetectora
  • Escore de cálcio valvar aórtico acima de 1.300 AU para mulheres e 2.000 AU para homens reforça o diagnóstico de valvopatia importante
Estudo hemodinâmico
  • Gradiente ventrículo esquerdo/Ao (pico) ≥ 50 mmHg
Situação especial
  • EAo de baixo-fluxo e baixo-gradiente com FE reduzida, definida como: AVAo ≤ 1,0 cm² com fração de ejeção < 50% e gradiente médio ventrículo esquerdo/Ao < 40 mmHg*
    – Na presença de reserva contrátil (aumento ≥ 20% do volume sistólico ejetado e/ou aumento > 10 mmHg no gradiente médio ventrículo esquerdo/Ao), pacientes com redução ou manutenção da AVAo no pico do estresse possuem EAo importante (aceita-se aumento da AVAo de até 0,2 cm² como critério de manutenção da AVAo). Pacientes com aumento da AVAo ≥ 0,3 cm² são definidos como portadores de estenose aórtica moderada (EAo pseudoimportante)
    – Na ausência da reserva contrátil, devemos corroborar a gravidade anatômica com o escore de cálcio valvar pela tomografia de tórax
  • EAo de baixo-fluxo e baixo-gradiente com FE preservada (“paradoxal”), definida como: AVAo ≤ 1,0 cm² com FE > 50% e gradiente médio ventrículo esquerdo/Ao ≤ 40 mmHg*. Nesses casos, devemos ter os seguintes parâmetros para definição da EAo importante:
    – Escore de cálcio valvar aórtico elevado
    – Volume ejetado indexado ≤ 35 mL/m²
  • Paciente com todos os parâmetros acima, porém com volume ejetado indexado normal (> 35 mL/m²) são definidos com EAo normofluxo e baixo-gradiente. Tal entidade foi recentemente descrita, as evidências são escassas e tais pacientes aparentam ter benefício com a intervenção valvar quando sintomáticos.

Ao: aorta; AVAo: área valvar aórtica; EAo: estenose aórtica; FE: fração de ejeção. *Nos casos de EAo com baixo-fluxo e baixo-gradiente e FE preservada ou reduzida, devemos atentar para possíveis erros de aferição das medidas ecocardiográficas.

Algoritmo da estenose aórtica importante: etiologia degenerativa, bicúspide ou reumática; sintomas (dispneia, angina ou síncope) levam a intervenção; sem sintomas, complicadores (FEVE reduzida, teste ergométrico positivo ou estenose crítica) levam a cirurgia, TAVI ou VACB; sem complicadores, seguimento individualizado.
Figura 7 – Algoritmo para avaliação da estenose aórtica importante. FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; TAVI: implante de bioprótese aórtica transcateter; TE: teste ergométrico; VACB: valvoplastia aórtica cateter-balão.Toque na imagem para ampliar.
Algoritmo da estenose aórtica paradoxal: AVAi ≤ 0,6 cm²/m², escore de cálcio elevado, PA sistólica ≤ 140 mmHg e volume ejetado indexado < 35 mL/m²; se sim, seguem-se sintomas e complicadores; se não, seguimento individualizado.
Figura 8 – Algoritmo para tomada de decisão na estenose aórtica paradoxal. AVAi: área valvar aórtica indexada; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; PA: pressão arterial; TE: teste ergométrico; TAVI: implante de bioprótese aórtica transcateter; VACB: valvoplastia aórtica cateter-balão.Toque na imagem para ampliar.
Algoritmo da estenose aórtica baixo-fluxo e baixo-gradiente com FEVE reduzida: com reserva contrátil, aumento da AVAo < 0,3 cm² ou AVAo final ≤ 1,0 cm² indica estenose verdadeiramente importante; sem reserva, escore de cálcio elevado indica estenose verdadeiramente importante; caso contrário, pseudoimportante.
Figura 9 – Algoritmo para confirmação da gravidade anatômica na estenose aórtica baixo-fluxo e baixo-gradiente com fração de ejeção reduzida. AVAo: área valvar aórtica; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; TC: tomografia computadorizada.Toque na imagem para ampliar.
🧭 Quadro didático interativo — estenose aórtica do eco à conduta

Responda sim/não, passo a passo. Construído a partir das Figuras 7, 8 e 9 e dos Quadros 22, 25, 27 e 28. É uma ferramenta de estudo: não substitui a avaliação individual nem o Heart Team.

Passos 2 e 3 — Etiologia e sintomas

📖 Texto de suporte — etiologia (seção 6.2)
  • A forma degenerativa/calcífica é hoje a principal causa (até 5% acima de 75 anos; 4,5% nos países desenvolvidos), com os mesmos fatores de risco da aterosclerose.
  • Nos mais jovens predominam a reumática (acometimento mitroaórtico, graus variados de insuficiência aórtica) e a bicúspide (~2% da população; aortopatia em ~70%).
  • No Brasil, pela pirâmide etária transicional, há pico bimodal: todas as etiologias em todas as faixas etárias.
  • A etiologia pesa na escolha do tratamento: os estudos de TAVI incluíram quase só degenerativos; reumáticos e bicúspides foram excluídos de quase todos os trials.
Quadro 23 – Passo 2: etiologia da estenose aórtica
EtiologiaCaracterísticas etiológicas
Aterosclerótica/degenerativa
  • Associação com senilidade
  • Prevalência: 3 a 5% da população > 75 anos
  • Relacionada à calcificação valvar aórtica
  • Presença de fatores de risco relacionados à aterosclerose
Reumática
  • Fusão comissural
  • Acometimento mitroaórtico
  • Faixa etária mais jovem
  • Associada a variados graus de insuficiência aórtica
Bicúspide
  • Prevalência: 2% da população
  • Associação com aortopatia (cerca de 70% dos casos)
  • Orientação laterolateral da fenda comissural: preditor evolutivo de estenose aórtica
📖 Texto de suporte — sintomas e síndrome de Heyde (seção 6.3)
  • Tríade: angina, síncope e dispneia; mortalidade de cerca de 50% em 2 anos nos sintomáticos.
  • Angina: menor capilaridade e gradiente transmiocárdico no miocárdio hipertrofiado. Dispneia: disfunção diastólica e/ou sistólica (baixo fluxo ou afterload mismatch). Síncope: incapacidade de elevar o débito, sobretudo com queda da resistência periférica.
  • Síndrome de Heyde: estenose importante + sangramento gastrointestinal por angiodisplasias e deficiência adquirida de von Willebrand. Há indicação de corrigir a valvopatia independentemente de sintomas ou complicadores. Metanálise (1.054 pacientes): aumento do fator de von Willebrand em 87% e cessação do sangramento em 73%; recuperação em até 3 dias após troca e 3 a 7 dias após TAVI.
  • Estenose importante com dispneia, angina ou síncope: indicação inequívoca de intervenção. Na dúvida sobre sintomas: teste ergométrico ou ergoespirométrico.
Quadro 24 – Passo 3: avaliação de sintomas na estenose aórtica importante
SintomaCaracterísticas
Dispneia
  • Disfunção diastólica: hipertrofia ventricular esquerda gerando redução de complacência, deslocamento da curva pressão/volume ventricular para cima e para a esquerda, elevação das pressões de enchimento e hipertensão venocapilar pulmonar
  • Disfunção sistólica: ocorre na adaptação ventricular inadequada (afterload mismatch) e baixo-fluxo e baixo-gradiente
  • Pacientes com sintomatologia duvidosa (pseudoassintomáticos) podem ser submetidos ao teste ergométrico ou ergoespirométrico para avaliação da dispneia ao esforço
Angina
  • Desbalanço da oferta/consumo de oxigênio no miocárdio hipertrófico
  • Redução do gradiente de perfusão miocárdico (pressão diastólica final elevada)
Síncope
  • Resulta da incapacidade de incrementos de débito cardíaco em situações de redução expressiva da resistência periférica total
  • Pode decorrer do uso de vasodilatadores (agentes deflagradores comuns)
  • 50% dos casos estão associados a reflexo cardioinibitório
Síndrome de Heyde
  • Sangramento gastrointestinal associado a angiodisplasias e deficiência de fator de von Willebrand
  • Abordagem da estenose aórtica aparenta reduzir as taxas de sangramento

Passo 4 — Complicadores

📖 Texto de suporte — complicadores e novos marcadores (seção 6.4)
  • FE < 50%. A ESC aceita FE < 55% no assintomático (IIa B); a AHA menciona risco com FE < 60%. Queda progressiva da FE abaixo de 60%, excluídas outras causas, também é considerada.
  • Teste ergométrico (contraindicado em sintomáticos e/ou com disfunção do VE) positivo se: capacidade funcional limitada; resposta pressórica inadequada (ascensão < 20 mmHg ou queda > 10 mmHg da PAS); TV ou > 4 extrassístoles ventriculares sucessivas; infradesnível de ST > 2 mm horizontal ou descendente.
  • Estenose crítica: AVAo < 0,7 cm², Vmax ≥ 5,0 m/s, gradiente médio ≥ 60 mmHg — dois estudos randomizados mostraram benefício da cirurgia em assintomáticos, com grande parcela de pacientes críticos.
  • BNP/NT-proBNP: preditores de mortalidade; valores > 3 vezes o limite da normalidade podem auxiliar na decisão, mas faltam estudos prospectivos.
  • Strain longitudinal reduzido (maior mortalidade quando < 14,7%), fração de volume extracelular e realce tardio na ressonância têm valor prognóstico. O EVOLVED foi o primeiro randomizado em assintomáticos com fibrose (realce tardio).
Quadro 25 – Passo 4: avaliação de complicadores na estenose aórtica importante
ExameComplicadores
Ecocardiograma
  • Disfunção de ventrículo esquerdo: fração de ejeção < 50%
  • Marcadores de mau prognóstico: área valvar aórtica < 0,7 cm², velocidade máxima do jato aórtico ≥ 5,0 m/s, gradiente médio ventrículo esquerdo/Ao ≥ 60 mmHg
Teste ergométrico/ergoespirométrico
  • Capacidade funcional limitada
  • Resposta pressórica inadequada: ascensão da pressão artéria sistólica menor do que 20 mmHg ou pressão arterial sistólica com queda maior que 10 mmHg
  • Arritmias: taquicardia ventricular ou mais que quatro extrassístoles ventriculares sucessivas
  • Infradesnivelamento de segmento ST > 2 mm horizontal ou descendente
  • Contraindicado em pacientes sintomáticos e/ou com disfunção ventricular esquerda

Ao: aorta.

Passo 5 — Tipo de intervenção: cirurgia ou TAVI?

📖 Texto de suporte — o que pesa na escolha (seção 6.5)
  • Avaliar risco cirúrgico (STS e EuroSCORE II), fragilidade, particularidades anatômicas e experiência do centro. Baixo risco: STS e EuroSCORE II < 4%.
  • TAVI transfemoral é preferível aos acessos torácicos (transaórtico, subclávia, transapical), reservados para contraindicação técnica ao femoral.
  • Inoperáveis, frágeis e/ou alto risco: TAVI preferencial (PARTNER 1B: menor mortalidade que o tratamento clínico em 1 e 5 anos; PARTNER 1A e CoreValve US Pivotal: não inferioridade/superioridade versus cirurgia).
  • Risco intermediário (STS/EuroSCORE II 4–8%): TAVI transfemoral preferencial desde 2020 (PARTNER 2 e SURTAVI: não inferior em morte e AVC incapacitante).
  • Baixo risco: PARTNER 3 (benefício em 1 e 2 anos, semelhante em 5 e 7 anos), NOTION e Evolut Low Risk (não inferioridade), DEDICATE (1.414 pacientes, STS mediano 1,8%: morte/AVC em 1 ano 5,4% TAVI × 10% cirurgia). Idade média dos estudos: 75,4 anos → evitar TAVI abaixo de 70 anos no baixo risco (e, por extensão, no intermediário) até haver dados robustos de durabilidade.
  • NOTION 2 incluiu 100 bicúspides: mais eventos com TAVI (14,3%) do que com cirurgia (3,9%) — subgrupo com considerações próprias.
  • NOTION 10 anos (primeira geração): falência de prótese e reintervenção semelhantes à cirurgia; menos disfunção, menos mismatch e menores gradientes com TAVI (menos de 40% completaram o seguimento).
  • Anel pequeno: risco de mismatch; sem superioridade hemodinâmica entre TAVI e cirurgia em estudo recente; próteses autoexpansíveis supra-anulares tendem a menos degeneração estrutural em 12 meses que as balão-expansíveis.
  • Toda decisão por Heart Team: factibilidade técnica, riscos e benefícios, escolha do paciente, experiência local e disponibilidade.
  • Valvoplastia aórtica por cateter-balão: “ponte terapêutica” em instabilidade ou sintomas avançados, com benefício de curta duração (revisão com 4.123 pacientes: ponte para TAVI em 23,4%; mortalidade 2,9% e complicações vasculares 10,2%).
Quadro 26 – Passo 5: tipo de intervenção na estenose aórtica importante
TipoConsiderações
Cirurgia de troca valvar aórtica
  • Primeira escolha para pacientes com menos de 70 anos, sem contraindicação a cirurgia e com risco cirúrgico não elevado
  • Pode ser indicada em pacientes com fragilidade, risco intermediário ou idosos com baixo risco a depender da decisão do Heart Team e da indisponibilidade do procedimento transcateter
Implante de bioprótese aórtica transcateter (TAVI)
  • É necessária avaliação do Heart Team institucional
  • Via transfemoral é a preferencial
  • Primeira escolha em pacientes com risco cirúrgico intermediário, alto ou proibitivo, com contraindicação à cirurgia convencional ou com critérios de fragilidade
  • Aumento da evidência para indicação a pacientes de baixo risco cirúrgico (STS < 4%, EuroSCORE II < 4% ou EuroSCORE logístico < 10%)
  • Existe uma carência de dados sobre TAVI em pacientes < 70 anos e sobre a durabilidade da prótese
  • A angiotomografia de aorta é o exame de escolha a ser utilizado para avaliação do acesso, do tamanho da válvula, tipo de válvula, factibilidade do procedimento e predição de possíveis complicações
  • Contraindicada para pacientes com expectativa de vida estimada menor que 12 meses
  • Atenção às particularidades em valva aórtica bicúspide: poucas evidências no momento
Valvoplastia aórtica por cateter balão
  • “Ponte terapêutica” para procedimentos definitivos (cirurgia/TAVI) em pacientes com instabilidade hemodinâmica ou sintomas avançados
  • Paliação nos casos com contraindicações definitivas à cirurgia convencional e implante de bioprótese aórtica transcateter

STS: escore de risco da Society of Thoracic Surgeons; TAVI: implante de bioprótese aórtica transcateter.

Quadro 27 – Estenose aórtica importante: recomendações

Tratamento cirúrgico convencional ou TAVI*

ForteAltaAHA I A · ESC I B

Sintomas (classe funcional ≥ 2, síncope e angina).

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Assintomático, com complicadores: FE < 50%.

ForteModeradaAHA IIa B · ESC IIa C

Assintomático, com complicadores: teste ergométrico +.

ForteModeradaAHA IIa B (se baixo risco cirúrgico e BNP > 3x VR ou aumento de velocidade ≥ 0,3 m/s/ano) · ESC IIa B (BNP elevado para idade; PSAP > 60 mmHg; velocidade máxima do jato > 5 m/s)

Assintomático com valvopatia crítica: área valvar aórtica < 0,7 cm²; velocidade máxima do jato ≥ 5,0 m/s; gradiente médio ventrículo esquerdo/Ao ≥ 60 mmHg.

FracaBaixaAHA IIb B · ESC IIa B (FEVE < 55%)

Queda progressiva de FE < 60%.

Situações especiais

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Estenose Ao importante de baixo-fluxo e baixo-gradiente com FE reduzida — com reserva contrátil.

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Estenose Ao importante de baixo-fluxo e baixo-gradiente com FE reduzida — sem reserva contrátil + escore de cálcio elevado.

ForteModeradaAHA I B · ESC IIa B

Estenose Ao importante paradoxal sintomática.

ForteBaixaAHA – · ESC –

Síndrome de Heyde.

Escolha da intervenção entre cirurgia e TAVI** — inoperável, risco proibitivo e/ou fragilidade

ForteAltaAHA I A · ESC I A

TAVI.

FracaAltaAHA – · ESC –

Cirurgia.

Alto risco cirúrgico

ForteAltaAHA I A · ESC I A

TAVI.

FracaAltaAHA – · ESC –

Cirurgia.

Risco cirúrgico intermediário

ForteAltaAHA I A · ESC I A

TAVI.

FracaAltaAHA I A · ESC –

Cirurgia.

Baixo risco 70 a 80 anos

ForteAltaAHA I A · ESC I A

TAVI.

ForteAltaAHA I A · ESC –

Cirurgia.

Baixo risco > 80 anos

ForteModeradaAHA I A · ESC I A

TAVI.

FracaModeradaAHA – · ESC –

Cirurgia.

Baixo risco < 70 anos

FracaModeradaAHA – · ESC –

TAVI.

ForteAltaAHA I A (< 65 anos) · ESC I B

Cirurgia.

Valvoplastia aórtica por cateter-balão

ForteBaixaAHA IIb C · ESC IIb C

Sintomática com instabilidade hemodinâmica importante, impossibilidade ou indisponibilidade de intervenção definitiva (TAVI ou cirurgia convencional) como “ponte terapêutica”.

FracaBaixaAHA – · ESC –

Tratamento paliativo em pacientes sintomáticos e com contraindicações à cirurgia convencional e/ou TAVI.

AHA: American Heart Association; Ao: aorta; ESC: European Society of Cardiology; FE: fração de ejeção; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia; TAVI: implante de bioprótese aórtica transcateter. * Pré-requisito obrigatório: avaliação por Heart Team institucional, contemplando risco cirúrgico, grau de fragilidade, condições anatômicas e comorbidades. ** Outros aspectos como factibilidade técnica, riscos e benefícios de cada procedimento, escolha do paciente, experiência local e disponibilidade dos procedimentos também devem ser levados em consideração para a escolha da técnica.

Acompanhamento e tratamento medicamentoso

📖 Texto de suporte — assintomático sem complicadores e estenose moderada (seção 6.6)
  • Estenose importante assintomática e sem complicadores: cirurgia indicada apenas se o paciente for submetido a outro procedimento cardiovascular invasivo (revascularização, aorta ascendente, outra valva). Nos dois randomizados de cirurgia × clínico, grande parte tinha estenose crítica (complicador) → cirurgia nesse grupo ainda não é rotineira.
  • EARLY TAVR (> 65 anos): melhora do desfecho composto às custas de hospitalizações não planejadas, sem diferença de mortalidade ou AVC; internações para TAVI no grupo clínico contaram como desfecho; sem cegamento (possível subtraction anxiety).
  • Metanálises (AVATAR, RECOVERY, EARLY TAVR, EVOLVED): menos hospitalização e AVC ou menor desfecho composto, sem redução de mortalidade isolada → TAVI não deve ser indicado de rotina no assintomático sem complicadores. A intervenção precoce pode ser indicada em selecionados com marcadores adversos (Quadro 28, nota *).
  • Moderada (AVAo 1,1–1,5 cm² e gradiente médio 25–39 mmHg): cirurgia só se houver outro procedimento cardiovascular invasivo. TAVR UNLOAD (moderada + IC FE reduzida; 178 pacientes; FE média 39%): sem superioridade, mas melhor qualidade de vida (amostra reduzida pela covid-19) → em selecionados com disfunção ventricular e CF III/IV apesar de otimização, TAVI pode ser indicado para sintomas.
  • Discreta (AVAo > 1,5 cm² e gradiente médio < 25 mmHg): apenas acompanhamento clínico/ecocardiográfico.
Quadro 28 – Estenose aórtica: acompanhamento individualizado
Estenose aórticaAcompanhamentoSBC (força / certeza)AHAESC
Importante assintomática e sem complicadoresReavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 6 mesesA cada 0,5-1 anoA cada 6 meses
Intervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a outro procedimento cirúrgico cardíaco (revascularização coronária, aorta ascendente ou outra válvula)Forte BaixaI BI C
Intervenção precoce (early intervention) em paciente de alto gradiente e baixo risco cirúrgico*Fraca Alta–IIa A
Moderada (AVAo 1,1-1,5 cm² e gradiente médio ventrículo esquerdo/Ao 25-39 mmHg)Reavaliação clínica e ecocardiográficaA cada anoA cada 1-2 anosA cada ano
Intervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a outro procedimento cirúrgico cardíaco (revascularização coronária, aorta ascendente ou outra válvula)Fraca BaixaIIa CIIa C
Discreta (AVAo > 1,5 cm² e gradiente médio ventrículo esquerdo/Ao < 25 mmHg)Reavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 2-3 anosA cada 3-5 anosA cada 2-3 anos

Ao: aorta; AHA: American Heart Association; AVAo: área valvar aórtica; ESC: European Society of Cardiology; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia. * As evidências atuais sobre a intervenção precoce vêm ganhando maior respaldo, porém ainda sem benefício prognóstico em relação à mortalidade, como nos outros cenários de indicação de intervenção valvar. Assim, ela pode ser indicada em pacientes selecionados com marcadores prognósticos adversos (realce tardio na ressonância magnética, strain reduzido, BNP ou NT-proBNP elevado, escore de cálcio valvar elevado) após discussão do Heart Team.

📖 Texto de suporte — tratamento medicamentoso (seção 6.7)
  • Nenhum fármaco reduz a progressão ou melhora o prognóstico da estenose aórtica.
  • Tratar a hipertensão reduz a pós-carga, mas com cautela: queda excessiva da pressão piora sintomas (obstrução fixa).
  • Cronotrópicos negativos só para controle de taquiarritmias: frequências baixas, como na estenose mitral, reduzem o débito e são prejudiciais. Diuréticos para congestão.
  • Estatinas (sinvastatina + ezetimiba, atorvastatina, rosuvastatina), denosumabe e alendronato não reduziram a progressão. O pelacarsen (redução de Lp(a)) está em estudo (Lp(a)FRONTIERS CAVS).
  • Pós-operatório: metanálise (> 21.000 pacientes) sugere que IECA/BRA após TAVI ou cirurgia reduzem mortalidade geral e cardiovascular e FA; faltam randomizados.
🎓 Interpretação didática

Leia o Quadro 27 em duas camadas: “quando intervir” (sintomas, FE < 50%, teste positivo, estenose crítica, baixo fluxo confirmado, Heyde) e “como intervir” (risco e idade). No baixo risco, a régua é < 70 anos → cirurgia; 70–80 → as duas são fortes; > 80 → TAVI. Bicúspide e reumática ficaram fora da maioria dos estudos de TAVI — atenção redobrada no Heart Team.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 6, Quadros 22 a 28 e Figuras 7 a 9.

7Insuficiência aórtica

A insuficiência aórtica crônica é tolerada por anos graças ao remodelamento excêntrico; o desafio é operar antes que a função ventricular se perca. Sintomas indicam cirurgia; no assintomático, FEVE e diâmetros do VE — com cortes diferentes para reumáticos e não reumáticos — guiam a decisão.

Passo 1 — Gravidade anatômica

📖 Texto de suporte — exame físico (seção 7.1)
  • Sopro aspirativo holodiastólico, decrescente, com hipofonese de B2; pode haver sopro mesossistólico por hiperfluxo e o sopro de Austin-Flint (mesodiastólico em ruflar no foco mitral, por restrição da abertura do folheto anterior — “estenose mitral funcional”).
  • Pulso em martelo d’água (Corrigan) e pressões sistólica e diastólica divergentes, que geram os sinais periféricos: Musset (cabeça), Becker (artérias retinianas), dança das artérias (pescoço), Müller (úvula), Quincke (leito ungueal), Rosenbach (fígado), Gerhard (região lombar), Traube (“pistol shot” femoral), Duroziez (duplo sopro femoral) e Mayne (pressão de pulso elevada).
  • ECG: sobrecarga de câmaras esquerdas. Radiografia: aumento da silhueta por dilatação do VE (hipertrofia excêntrica) e sinais de dilatação da aorta se houver aortopatia.
📖 Texto de suporte — ecocardiograma, ressonância e outros (seção 7.1)
  • O eco com Doppler colorido confirma a gravidade, define etiologia, aorta ascendente, diâmetros e função do VE.
  • Parâmetros de gravidade no texto: vena contracta > 0,6 cm; largura do jato ≥ 65% da VSVE; fração regurgitante ≥ 50%; volume regurgitante ≥ 60 mL/batimento; EROA ≥ 0,30 cm²; fluxo holodiastólico reverso na aorta descendente.
  • Transesofágico e 3D: jatos excêntricos e anatomia valvar (bicúspide).
  • Dissociação clínico-ecocardiográfica: estudo hemodinâmico e ressonância.
  • A ressonância é o padrão-ouro para quantificar volume e fração regurgitante (contraste de fase). Fração regurgitante > 32–35% pela ressonância associa-se a desfechos adversos (corte menor que o do eco). VSFVi ≥ 43–45 mL/m² e VDFVi ≥ 109 mL/m² predizem desfechos melhor que as dimensões lineares, sobretudo com FE preservada.
  • Hemodinâmica: elevação da pressão diastólica final do VE e aortografia com refluxo importante. Com dilatação da aorta, a angiotomografia é o método de escolha para medir o maior diâmetro.
Quadro 29 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da insuficiência aórtica importante
ExameCaracterística de insuficiência aórtica importante
Exame físico
  • Hipofonese de B2
  • Sopro mesossistólico aórtico (hiperfluxo)
  • Sopro de Austin-Flint
  • Pulso em martelo d’água (ou Corrigan)
  • Pressão sistólica e diastólica divergentes
  • Sinais de Musset, Becker, dança das artérias, Muller, Quincke, Rosenbach, Gerhard, Traube, Duroziez, Mayne e Hill
Eletrocardiograma
  • Sobrecarga de câmaras esquerdas
Radiografia de tórax
  • Índice cardiotorácico aumentado
  • Dilatação de aorta ascendente
Ecocardiograma
  • Alteração da morfologia valvar (espessamento, bicúspide, prolapso) e falha de coaptação dos folhetos
  • Grandes jatos de regurgitação
  • Dilatação ventricular
  • Fluxo holodiastólico reverso na aorta descendente
  • Vena contracta > 0,6 cm
  • Largura do jato > 0,65 cm
  • Área do jato ≥ 60%
  • Fração regurgitante ≥ 50%
  • Volume regurgitante ≥ 60 mL/batimento
  • EROA ≥ 0,30 cm²
Ecocardiograma 3D
  • Avaliação de jatos excêntricos
  • Melhor avaliação da morfologia valvar
Ressonância magnética
  • Fração regurgitante > 33%
  • Volume regurgitante ≥ 60 mL/batimento
  • Área do orifício regurgitante ≥ 0,48 cm²
Estudo hemodinâmico
  • Elevação da pressão diastólica final do VE
  • Aortografia com refluxo aórtico importante
Angiotomografia de aorta
  • Avaliação dos diâmetros da aorta

EROA: área efetiva do orifício regurgitante; VE: ventrículo esquerdo. Observação: o quadro traz “largura do jato > 0,65 cm” e “área do jato ≥ 60%”, enquanto o texto da seção 7.1 expressa a largura do jato como “≥ 65% da via de saída do ventrículo esquerdo”; ambos transcritos como no original.

Algoritmo da insuficiência aórtica importante: etiologia degenerativa, bicúspide, reumática ou aortopatia; sintomas (dispneia, angina ou síncope) levam a cirurgia; sem sintomas, complicadores (FEVE reduzida; reumático DDVE > 75 mm ou DSVE > 55 mm; não reumático DDVE > 70 mm ou DSVE > 50 mm ou DSVEi > 25 mm/m²) levam a cirurgia; caso contrário, seguimento individualizado.
Figura 10 – Algoritmo para avaliação da insuficiência aórtica importante. DDVE: diâmetro diastólico do ventrículo esquerdo; DSVE: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; DSVEi: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo indexado; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo.Toque na imagem para ampliar.

Passos 2 e 3 — Etiologia e sintomas

📖 Texto de suporte — etiologia (seção 7.2)
  • Causas das cúspides: febre reumática, sequela de endocardite, degenerativa, malformações congênitas (bicúspide, degeneração mixomatosa).
  • Causas do anel/aorta: dissecção da aorta ascendente (em geral, IAo aguda), dilatações aneurismáticas (hipertensão; Marfan e Ehlers-Danlos), espondiloartropatias soronegativas (espondilite anquilosante, Reiter), aortite sifilítica e arterite de Takayasu.
  • Países desenvolvidos: predomínio de bicúspide e degenerativa. No Brasil, a doença reumática ainda responde por grande parte dos casos, em adultos jovens e com valvopatia mitral associada.
Quadro 30 – Passo 2: etiologia da insuficiência aórtica
EtiologiaCaracterísticas
Reumática
  • Alta prevalência no Brasil
  • Geralmente associada à lesão mitral
  • Frequente em adultos jovens
Degenerativa/calcífica
  • Geralmente associada à estenose aórtica
  • Frequente na população idosa
Bicúspide
  • Associada a aortopatias: aneurisma de aorta (20 a 56%), dissecção aguda de aorta (0,5 a 5,6%) e coarctação de aorta (5,6%)
  • Frequente em adultos jovens
Doenças relacionadas à alteração da geometria do ânulo aórtico
  • Hipertensão arterial sistêmica, dissecção da aorta ascendente, síndrome de Marfan, espondilite anquilosante, aortite sifilítica, osteogênese imperfeita, síndrome de Ehlers-Danlos, síndrome de Reiter, estenose subaórtica
Outras
  • Endocardite infecciosa, degeneração mixomatosa, lesões traumáticas, artrite reumatoide, defeito do septo interventricular com prolapso da cúspide aórtica
📖 Texto de suporte — sintomas (seção 7.3)
  • O paciente costuma ficar assintomático por muitos anos; o surgimento de sintomas condiciona o encaminhamento para cirurgia, dada a elevada morbimortalidade que se segue.
  • Dispneia (mais frequente): de intolerância aos esforços até repouso, ortopneia e dispneia paroxística noturna.
  • Angina aos esforços (menor reserva coronária, maior massa e demanda, menor pressão de perfusão) e angina noturna (bradicardia do sono aumenta o volume regurgitante e reduz a diastólica). Síncope por baixo débito efetivo.
  • Idosos se autolimitam e parecem assintomáticos: usar teste ergométrico ou ergoespirométrico para confirmar a ausência de sintomas.
Quadro 31 – Passo 3: avaliação de sintomas na insuficiência aórtica importante
SintomaMecanismo
DispneiaSobrecarga de volume no ventrículo esquerdo, com aumento da pressão diastólica do ventrículo esquerdo e congestão venocapilar pulmonar
Angina aos esforçosRedução da reserva de fluxo coronariano
Angina noturnaBradicardia noturna, aumento do volume regurgitante e queda da pressão arterial diastólica
SíncopeBaixo débito cardíaco efetivo

Passo 4 — Complicadores

📖 Texto de suporte — função e diâmetros do VE e novos marcadores (seção 7.4)
  • Principal complicador: perda da função do VE. FE < 55% e, principalmente, < 50% associam-se a maior mortalidade, inclusive pós-operatória.
  • Diâmetros associados a maior mortalidade: DDVE > 75 mm (reumáticos) / > 70 mm (não reumáticos); DSVE > 55 mm (reumáticos) / > 50 mm (não reumáticos). O remodelamento pesa mais na IAo não reumática.
  • Indexar à superfície corpórea, sobretudo em mulheres e com FE 50–55%: DSVEi > 25 mm/m² associa-se a piores desfechos; valores > 20–22 mm/m² podem ser considerados no baixo risco cirúrgico.
  • VSFVi ≥ 43–45 mL/m² validado como preditor em assintomáticos com FE preservada.
  • Strain longitudinal global pior que −18 a −19% prediz maior mortalidade antes e após a troca; −15% confere risco 2 a 3 vezes maior.
  • Dilatação ou queda progressivas da FE, mesmo abaixo dos cortes, e alterações do strain devem pesar na indicação.
  • BNP > 130 pg/mL: desfechos adversos em assintomáticos com IAo importante e função preservada. Ressonância: realce tardio (piores desfechos pós-operatórios) e iECV ≥ 24 mL/m² (mortalidade e necessidade de cirurgia).
Quadro 32 – Passo 4: avaliação de complicadores na insuficiência aórtica importante
ExameComplicadores
Ecocardiograma
  • FEVE < 50%
  • DDVE > 70 mm (não reumático) e > 75 mm (reumático)
  • DSVE > 50 mm (não reumático) e > 55 mm (reumático)
  • DSVEi > 25 mm/m²
  • Redução progressiva de FEVE e dilatação progressiva do ventrículo esquerdo
Ressonância magnética cardíaca*
  • VSFVi ≥ 43-45 mL/m²
  • VDFVi ≥ 109 mL/m²
  • iECV ≥ 24 mL/m²
  • Realce tardio
Biomarcadores*
  • BNP ≥ 130 pg/mL

BNP: peptídeo natriurético cerebral; DDVE: diâmetro diastólico do ventrículo esquerdo; DSVE: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; DSVEi: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo indexado; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; iECV: volume extracelular indexado; VDFVi: volume diastólico final do ventrículo esquerdo indexado; VSFVi: volume sistólico final do ventrículo esquerdo indexado. * Os dados de ressonância magnética cardíaca e BNP devem ser analisados em conjunto com os parâmetros ecocardiográficos para definição da presença de complicadores.

Passo 5 — Tipo de intervenção

📖 Texto de suporte — troca, plástica e TAVI (seções 7.5 e 7.6)
  • A cirurgia convencional é a principal estratégia: na maioria, troca valvar (biológica ou mecânica). Plástica em casos selecionados com anatomia favorável, em centros especializados, sobretudo associada à cirurgia de aorta.
  • Aorta ascendente ≥ 4,5 cm: troca valvar + tubo em aorta ascendente.
  • TAVI com dispositivos para estenose na IAo pura: mais embolização, leak paravalvar e mortalidade (sem cálcio para ancorar, anel dilatado). Dispositivos dedicados são promissores: ALIGN-AR (700 pacientes) — sucesso técnico 95%, mortalidade 1,6% em 30 dias, AVC 1,7%, mortalidade 7,7% em 1 ano, remodelamento sustentado até 2 anos.
  • TAVI pode ser opção na IAo importante sintomática, alto risco cirúrgico e anatomia favorável, em centros especializados com dispositivos dedicados, após Heart Team.
  • Cirurgia para todos os sintomáticos; no assintomático, se disfunção ou dilatação significativa do VE. Cirurgia concomitante recomendada na IAo importante quando houver outra cirurgia cardíaca; considerar na moderada.
Quadro 33 – Passo 5: tipos de intervenção na insuficiência aórtica importante
TipoConsiderações
Cirurgia – Troca valvar
  • Tratamento de escolha para a maioria dos pacientes
  • Pacientes com dilatação da aorta ascendente ≥ 4,5 cm devem ser submetidos à intervenção combinada de troca valvar + tubo em aorta ascendente
Cirurgia – Plástica valvar
  • Pode ser considerada se anatomia favorável, em centros especializados, especialmente combinada com correção de aorta ascendente
TAVI
  • Pode ser considerada para pacientes de alto risco cirúrgico/inoperáveis, com anatomia favorável, após discussão em Heart Team
  • Dispositivos dedicados mostram resultados promissores

TAVI: implante de bioprótese aórtica transcateter.

Quadro 34 – Insuficiência aórtica: recomendações

Cirurgia de troca valvar

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Sintomas.

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

FEVE ≤ 50%.

ForteModeradaAHA – · ESC –

Dilatação ventricular — reumático: DDVE > 75 mm ou DSVE > 55 mm.

ForteModeradaAHA IIa B · ESC I B

Dilatação ventricular — não reumático: DDVE > 70 mm ou DSVE > 50 mm ou DSVEi > 25 mm/m².

ForteBaixaAHA I C · ESC I C

Intervenção por oportunidade quando submetido a cirurgia em aorta ascendente.

Plástica valvar

FracaModeradaAHA – · ESC IIa B

Anatomia valvar favorável, em centros especializados.

TAVI

FracaBaixaAHA – · ESC IIb B

Sintomáticos com expectativa de vida > 1 ano, contraindicações/risco proibitivo à cirurgia, anatomia favorável, após Heart Team.

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; DSVE: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; DSVEi: diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo indexado; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IAo: insuficiência aórtica; VSFVi: volume sistólico final indexado; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Acompanhamento, tratamento medicamentoso e IAo aguda

📖 Texto de suporte — seguimento e fármacos (seções 7.7 e 7.8)
  • Assintomáticos sem complicadores, ou IAo discreta/moderada: reavaliações clínicas e ecocardiográficas periódicas. Se houver outra cirurgia cardíaca (revascularização, aorta ascendente, outra valva), a cirurgia da valva aórtica por oportunidade é recomendada na IAo importante e deve ser considerada na moderada.
  • Nenhum fármaco altera a gravidade ou a evolução. Com risco cirúrgico proibitivo e sem opção percutânea: vasodilatadores e diuréticos aliviam sintomas. Com disfunção do VE, IECA/BRA/sacubitril-valsartana não têm evidência robusta, mas podem ser considerados para sintomas.
  • Aortopatia: betabloqueadores e vasodilatadores (sobretudo bloqueio do sistema renina-angiotensina) para controlar o duplo-produto e retardar a dilatação. Marfan: betabloqueador de primeira escolha; BRA como alternativa ou associação. Bicúspide com dilatação: tratamento semelhante, por analogia.
Quadro 35 – Insuficiência aórtica: acompanhamento individualizado
Insuficiência aórticaAcompanhamentoSBC (força / certeza)AHAESC
Importante assintomática e sem complicadoresReavaliação clínica e ecocardiográfica6 meses6-12 meses3-6 meses
Intervenção concomitante em pacientes submetidos a outro procedimento cirúrgico cardíacoForte BaixaI CI C
Moderada (VC 0,3-0,6 cm; FR 30-49%; VR 30-59 mL; EROA 0,10-0,29 cm²)Reavaliação clínica e ecocardiográfica1-2 anos1-2 anos1-2 anos
Intervenção concomitante em pacientes submetidos a outro procedimento cirúrgico cardíacoForte BaixaIIa C–
Discreta (VC < 0,3 cm; FR < 30%; VR < 30 mL; EROA < 0,10 cm²)Reavaliação clínica e ecocardiográfica3-5 anos3-5 anos3-5 anos

AHA: American Heart Association; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; ESC: European Society of Cardiology; FR: fração regurgitante; VC: vena contracta; VR: volume regurgitante; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

🚨 Insuficiência aórtica aguda (seção 7.9)
  • Causas: endocardite, complicações de procedimentos transcateter, dissecção de aorta e trauma torácico.
  • O VE não remodelado não acomoda o volume: edema agudo de pulmão, baixo débito e choque cardiogênico.
  • Eco confirma gravidade e mecanismo; na suspeita de dissecção, angiotomografia de aorta é o método de primeira escolha (transesofágico se indisponível).
  • Vasodilatadores podem estabilizar temporariamente, sem retardar a cirurgia. Na dissecção, betabloqueador com cautela: pode bloquear a taquicardia compensatória e precipitar deterioração.
  • Em todos os casos, cirurgia de emergência.
🎓 Interpretação didática

Decore a “régua dos 5 mm”: os cortes do reumático são 5 mm maiores que os do não reumático (DDVE 75 × 70 mm; DSVE 55 × 50 mm), e o DSVEi > 25 mm/m² vale para o não reumático. Repare também na pequena diferença entre o Quadro 32 (FEVE < 50%) e o Quadro 34 (FEVE ≤ 50%).

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 7, Quadros 29 a 35 e Figura 10.

8Insuficiência tricúspide

Subdiagnosticada e associada a maior mortalidade, a insuficiência tricúspide é funcional em mais de 90% dos casos. A plástica com anel é o tratamento cirúrgico de escolha, mas a cirurgia isolada tem a maior mortalidade entre as valvares; por isso as técnicas transcateter ganharam recomendação forte nos pacientes refratários e de alto risco.

Passos 1 e 2 — Gravidade e etiologia

📖 Texto de suporte — gravidade e etiologia (seções 8.1 e 8.2)
  • Presente em até 0,55% da população geral e em 4 a 7% dos idosos; fortemente associada a maior morbimortalidade.
  • A IT importante foi subdividida em importante, maciça e torrencial, com impacto prognóstico em hospitalização por IC (Quadro 36).
  • Funcional (secundária) em > 90%. Atrial (10 a 25%): associada a FA, dilatação anular e atrial acentuada com VD normal. Ventricular: pior prognóstico, dilatação e disfunção do VD por hipertensão pulmonar pré ou pós-capilar (doença do lado esquerdo ou hipertensão pulmonar).
  • Relacionada a eletrodos de dispositivos implantáveis: subgrupo próprio, com características de primária e secundária.
  • Primária: doença reumática e congênita, biópsias endomiocárdicas de repetição, endocardite e causas raras.
Quadro 36 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da insuficiência tricúspide importante
ExameCaracterística de insuficiência tricúspide importante
Exame físico
  • Turgência jugular patológica
  • B2 hiperfonética (hipertensão arterial pulmonar)
  • Sopro sistólico regurgitativo em borda esternal esquerda com sinal de Rivero-Carvallo
  • Hepatomegalia/ascite
  • Edema de membros inferiores/anasarca
Eletrocardiograma
  • Sobrecarga de câmaras direitas
  • Fibrilação atrial
Radiografia de tórax
  • Sinais de aumento de câmaras direitas
  • Congestão pulmonar se lesão/acometimento concomitante do lado esquerdo
  • Retificação/abaulamento de tronco pulmonar
Ecocardiograma transtorácico
  • EROA:
    • Importante: 0,40-0,59 cm²
    • Maciça: 0,60-0,79 cm²
    • Torrencial: ≥ 0,80 cm²
  • Fluxo reverso nas veias hepáticas
  • Volume regurgitante > 45 mL/batimento
  • Volume regurgitante denso, triangular e pico precoce no Doppler contínuo
  • Vena contracta:
    • Importante: 0,7-1,3 cm
    • Maciça: 1,4-2,0 cm
    • Torrencial: ≥ 2,1 cm
  • Diâmetro do anel ≥ 40 mm
  • Definir etiologia
  • Função e tamanho do ventrículo direito
  • Pressão de artéria pulmonar
Ecocardiograma transesofágico
  • Deve ser considerado em caso de dúvida ou janela inadequada pelo ECOTT e caso o paciente seja candidato à intervenção transcateter
  • Morfologia dos folhetos
  • Tamanho do anel valvar
  • Características do(s) jato(s) regurgitante(s)
Estudo hemodinâmico
  • Em caso de dissociação clínico-ecocardiográfica
  • Mensurar PSAP em casos de falha de coaptação das cúspides ou dificuldade na mensuração através do ecocardiograma
  • Avaliação de hipertensão pulmonar e reatividade a vasodilatadores
Ressonância magnética
  • Em caso de dissociação clínico-ecocardiográfica, qualidade limitada da imagem ou ecocardiograma inconclusivo
  • Método de referência para quantificação de função e tamanho do ventrículo direito
  • Volume regurgitante ≥ 45 mL e ou fração de regurgitação tricúspide ≥ 50%
Tomografia computadorizada
  • Deve ser considerada caso o paciente seja candidato a intervenção transcateter
  • Avaliação do aparato valvar, do ventrículo direito e da artéria coronária direita
  • Avaliação do acesso vascular (jugular ou femoral)
  • Avaliação dos ângulos entre as veias cavas, o átrio direito e o plano valvar

ECOTT: ecocardiograma transtorácico; EROA: área efetiva do orifício regurgitante; PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar.

Quadro 37 – Passo 2: etiologia da insuficiência tricúspide
EtiologiaCaracterísticas etiológicas
Primária
  • Retração dos folhetos no acometimento reumático
  • Prolapso e degeneração mixomatosa
  • Lesão actínica por radiação (pós-radioterapia)
  • Trauma torácico fechado
  • Endocardite infecciosa
  • Biopsia endomiocárdica de repetição
  • Síndrome carcinoide
  • Congênita (Ebstein)
Secundária
  • Dilatação do ânulo tricúspide (> 40 mm ou > 21 mm/m²)
  • Atrial: geralmente associada à fibrilação atrial
  • Ventricular: disfunção e/ou remodelamento do ventrículo direito; combinação de dilatação do anel valvar e tracionamento dos folhetos (“tethering”)
Dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis (causada pela interação com eletrodos intracavitários)
  • Compressão dos folhetos (impingement)
  • Embaraçamento (entanglement) ou ruptura das cordoalhas tendíneas
  • Aderência aos folhetos
  • Laceração dos folhetos
Causas raras
  • Doenças reumatológicas
  • Drogas (metissergida/anorexígenos)
  • Doença de Fabry

Passos 3 e 4 — Sintomas e complicadores

📖 Texto de suporte (seções 8.3 e 8.4)
  • Fadiga é o principal sintoma, além de dispneia e congestão venosa sistêmica, com grande impacto na qualidade de vida.
  • Mesmo sem sintomas, a sobrecarga de volume causa remodelamento excêntrico do VD: dilatação ou disfunção do VD (exceto quando importante) é complicador.
  • IT isolada moderada a importante tem maior mortalidade independentemente de disfunção do VD, hipertensão pulmonar, FA, IM ou disfunção do VE; o grau de regurgitação se correlaciona com pior prognóstico.
Quadro 38 – Passo 3: avaliação de sintomas na insuficiência tricúspide importante
SintomaCaracterísticas
Dispneia (NYHA II – IV)
  • Na IT secundária, decorre da doença do lado esquerdo do coração (congestão venocapilar pulmonar, hipertensão arterial pulmonar)
  • Dispneia aos esforços e paroxística noturna
Fadiga
  • Principal sintoma
  • Associada a dor e edema de membros inferiores
  • Mais comum na insuficiência cardíaca direita

IT: insuficiência tricúspide; NYHA: New York Heart Association.

Quadro 39 – Passo 4: avaliação de complicadores – insuficiência tricúspide importante
ExameComplicadores
Ecocardiograma e/ou ressonância magnéticaIT primária: dilatação ou disfunção progressiva de ventrículo direito
Cateterismo cardíaco direitoAvaliação de hipertensão pulmonar importante ou resistência vascular pulmonar elevada, em casos selecionados após ecocardiograma, sobretudo em candidatos a intervenção

IT: insuficiência tricúspide.

Passo 5 — Tipo de intervenção

📖 Texto de suporte — cirurgia e transcateter (seção 8.5)
  • Avaliar risco cirúrgico (clínica, fragilidade, escores), com destaque para o TRI-SCORE, dedicado à cirurgia tricúspide isolada; auxilia na escolha entre cirurgia e via percutânea.
  • Cirurgia de escolha: plástica com anel protético; troca valvar se não houver condição anatômica para plástica satisfatória.
  • A cirurgia tricúspide isolada é pouco indicada e tem o maior risco entre as cirurgias valvares (mortalidade ~10%); não há dados de melhora de sobrevida. Objetivo: sintomas e prevenção da disfunção importante do VD.
  • IT por eletrodos: imagem multimodal para definir se o eletrodo causa a regurgitação; troca/remoção de eletrodos decidida no Heart Team.
  • Transcateter: anuloplastia, reparo borda a borda, espaçadores, próteses ortotópicas (no anel) e heterotópicas (nas veias cavas). Reparo × tratamento clínico (idade média 78 anos): menos regurgitação e melhor qualidade de vida em 12 meses e menos hospitalização por IC em 2 anos, sem impacto em mortalidade. Prótese ortotópica: eliminação ou redução a ≤ leve na maioria, com melhora sustentada de capacidade funcional e qualidade de vida, sem impacto em mortalidade.
  • TRIC-I-HF: primeira redução significativa de desfechos clínicos — melhora do desfecho hierárquico em 1 ano (WR 2,42) e redução de morte ou hospitalização por IC em até 3 anos (HR 0,40; IC95% 0,29–0,55).
Quadro 40 – Passo 5: tipos de intervenção na insuficiência tricúspide importante
TipoConsiderações
Plástica tricúspide
  • Tratamento de escolha
  • Indicações:
    • Abordagem cirúrgica de outra valvopatia na presença de: anel tricúspide ≥ 40 mm e/ou IT moderada a importante
    • IT isolada, refratária ao tratamento clínico, sem contraindicações e de baixo risco cirúrgico
  • Contraindicações: disfunção sistólica do ventrículo direito importante
Troca valvar cirúrgica
  • Quando plástica contraindicada
  • Preferência por prótese biológica
  • Contraindicações: disfunção sistólica do ventrículo direito importante e hipertensão pulmonar importante
Abordagem valvar transcateter
  • Sintomas refratários ao tratamento clínico, com contraindicação ou alto risco a tratamento cirúrgico
  • Contraindicações: disfunção sistólica do ventrículo direito importante e hipertensão pulmonar importante

IT: insuficiência tricúspide.

Quadro 41 – Insuficiência tricúspide importante: recomendações

Plástica tricúspide

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Abordagem de outra valvopatia e IT importante.

ForteModeradaAHA IIa B · ESC IIb B

Abordagem de outra valvopatia e anel tricúspide ≥ 40 mm, na presença de IT moderada ou importante.

ForteModeradaAHA – · ESC IIa B

IT importante, secundária, isolada, refratária ao tratamento clínico.

ForteBaixaAHA IIb C · ESC IIa C

IT importante primária, assintomática, isolada com dilatação ou perda de função progressiva de ventrículo direito.

ForteBaixaAHA IIa B · ESC I C

IT importante primária, sintomática, isolada sem disfunção de ventrículo direito.

Troca valvar cirúrgica

ForteModeradaAHA I B · ESC I C

IT com indicação de abordagem sem possibilidade de plástica.

Abordagem valvar tricúspide transcateter — refratária ao tratamento clínico, com contraindicação ou alto risco a tratamento cirúrgico e anatomia favorável

ForteAltaAHA – · ESC IIa A

Reparo borda a borda para benefício sintomático e desfecho clínico.

ForteAltaAHA – · ESC IIa A

Implante ortotópico para benefício sintomático.

FracaBaixaAHA – · ESC IIa A

Implante heterotópico para benefício sintomático.

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; IT: insuficiência tricúspide; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia. Observação: o Quadro 41 grada o implante heterotópico como “Fraco/Baixa”, enquanto a Tabela 1 (seção 1.4) traz “Forte/Baixa”; transcrevemos cada um como no original.

Algoritmo da insuficiência tricúspide importante: etiologia primária ou secundária; dispneia ou fadiga refratária ao tratamento clínico leva a intervenção cirúrgica ou transcateter; sem sintomas, na IT primária, dilatação ou disfunção progressiva do VD leva a intervenção; caso contrário, seguimento individualizado.
Figura 11 – Algoritmo para avaliação da insuficiência tricúspide importante. VD: ventrículo direito.Toque na imagem para ampliar.

Acompanhamento e tratamento medicamentoso

📖 Texto de suporte (seções 8.6 e 8.7)
  • IT importante assintomática sem complicadores: cirurgia valvar só se for abordada outra valvopatia esquerda.
  • IT moderada assintomática: cirurgia só junto a outra valvopatia esquerda quando a dilatação anular for > 40 mm.
  • Tratamento: restrição hidrossalina e diurético de alça (primeira escolha); potencializar com antagonista da aldosterona e tiazídico. Tratar a causa: IC otimizada, vasodilatador pulmonar quando indicado na hipertensão pulmonar e controle de ritmo na FA sempre que possível.
Quadro 42 – Insuficiência tricúspide: acompanhamento individualizado
Insuficiência tricúspideAcompanhamentoSBC (força / certeza)AHAESC
Importante assintomática e sem complicadoresReavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 6 meses––
Intervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a abordagem de outra valvopatiaForte ModeradaI BI B
Moderada assintomáticaIntervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a abordagem de outra valvopatia quando dilatação anular > 40 mmForte ModeradaIIa BIIb B

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

🎓 Interpretação didática

A regra de ouro da tricúspide: quem vai operar o lado esquerdo deve ter a tricúspide olhada com lupa — IT importante, ou anel ≥ 40 mm com IT moderada, entra no mesmo ato (ambas Forte/Moderada). Na IT isolada, a cirurgia é arriscada, e o reparo borda a borda e o implante ortotópico passam a ser a via preferencial nos refratários de alto risco.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 8, Quadros 36 a 42 e Figura 11.

9Estenose tricúspide

Rara (menos de 1% das valvopatias) e quase sempre reumática, costuma vir acompanhada de lesão mitral e/ou aórtica. Sintomas ou complicadores indicam intervenção; a cirurgia (comissurotomia ou troca por bioprótese) é a regra.

📖 Texto de suporte (seção 9)
  • O ecocardiograma é a principal ferramenta para diagnóstico, etiologia e gravidade.
  • Reumática em > 90%, frequentemente com acometimento mitral e/ou aórtico. Outras: congênitas (Ebstein), carcinoide, lúpus, síndrome antifosfolípide, iatrogênicas, trombose, endocardite.
  • Sintomas mais comuns: fadiga e pré-síncope, com sinais de IC direita. No assintomático, buscar complicadores.
  • Sintomas ou complicadores indicam intervenção cirúrgica ou percutânea; diurético e restrição salina são apenas ponte.
  • Também indicada como cirurgia de oportunidade quando houver outra cirurgia cardíaca.
  • Preferir plástica (comissurotomia); se troca, prótese biológica pelo alto risco de trombose das mecânicas (> 50% livres de reoperação em 15 anos). Mecânica pode ser razoável em jovens com boa aderência à anticoagulação.
  • Valvoplastia por balão: pouco realizada (a estenose costuma vir com insuficiência); ponte para cirurgia ou paliação no alto risco. Implante transcateter: experiência limitada.
Quadro 43 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da estenose tricúspide
ExameCaracterísticas de estenose tricúspide importante
Exame físico
  • Estalido de abertura precoce
  • B1 hiperfonética
  • Sopro diastólico em ruflar, com reforço pré-sistólico se paciente em ritmo sinusal em borda esternal esquerda que aumenta com a inspiração
  • Sinais de congestão sistêmica: hepatomegalia, ascite, edema de membros inferiores, estase jugular, sinal de Kussmaul
Eletrocardiograma
  • Sobrecarga de AD
  • FA
Radiografia de tórax
  • Aumento de AD
Ecocardiograma
  • Área valvar tricúspide ≤ 1,0 cm²
  • Gradiente diastólico médio AD/VD ≥ 5 mmHg
  • Aumento isolado de AD
  • PHT tricúspide ≥ 190 ms
Estudo hemodinâmico
  • Casos de dissociação clínico-ecocardiográfica
  • Gradiente diastólico AD/ventrículo direito ≥ 5 mmHg
Ressonância magnética
  • Casos de dissociação clínico-ecocardiográfica ou qualidade limitada da imagem ecocardiográfica

AD: átrio direito; B1: primeira bulha; FA: fibrilação atrial; PHT: pressure half time; VD: ventrículo direito.

Quadro 44 – Passo 2: avaliação etiológica da estenose tricúspide importante
EtiologiaCaracterísticas
Reumática
  • Causa mais prevalente
  • Associação com outras valvopatias
  • Espessamento com retração das cúspides
  • Fusão comissural
  • Frequente em adultos jovens
Outras
  • Endocardite infecciosa
  • Lúpus eritematoso sistêmico
  • Síndrome carcinoide
  • Deformidades congênitas
  • Mixoma atrial
  • Lesão actínica (pós-radioterapia)
  • Doença de depósito: amiloidose, doença de Fabry
  • Doença de Whipple
  • Iatrogênica
Quadro 45 – Passo 3: avaliação de sintomas na estenose tricúspide importante
SintomaCaracterísticas
Fadiga
  • Principal sintoma
  • Associada a dor e edema de membros inferiores
  • Ausência de dispneia
  • Pode estar associada a palpitações, ascite, sinais de disfunção hepática
Quadro 46 – Passo 4: avaliação de complicadores na estenose tricúspide importante
AvaliaçãoComplicadores
EletrocardiogramaFA
Congestão sistêmicaAvaliação de comprometimento hepático (elevação de enzimas, alteração do coagulograma)

FA: fibrilação atrial.

Quadro 47 – Passo 5: tipo de intervenções na estenose tricúspide importante
TipoConsiderações
Valvoplastia tricúspide por balão
  • Opção como ponte para tratamento cirúrgico definitivo
  • Tratamento paliativo para pacientes de alto risco cirúrgico
Cirurgia de plástica da valva tricúspide
  • Preferível, especialmente em pacientes jovens
Cirurgia de troca da valva tricúspide
  • Se plástica não for possível ou em caso de cirurgia cardíaca concomitante (cirurgia de oportunidade)
  • Preferência por prótese biológica (avaliação individualizada)
Implante transcateter de prótese tricúspide
  • Experiência limitada
Quadro 48 – Estenose tricúspide: recomendações

Valvoplastia tricúspide por cateter-balão

FracaMuito baixaAHA* – · ESC –

Paciente de alto risco cirúrgico ou risco proibitivo.

Troca da valva tricúspide ou plástica (comissurotomia)

ForteBaixaAHA* – · ESC I C

ET importante sintomática ou com complicadores.

ForteBaixaAHA* – · ESC I C

ET importante e indicação de cirurgia valvar mitral e/ou aórtica.

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; ET: estenose tricúspide; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia. *As diretrizes atuais da AHA não incluíram o tópico de estenose tricúspide.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 9, Quadros 43 a 48.

10Doença multivalvar

Acometimento simultâneo de duas ou mais valvas — diferente da dupla lesão (estenose e insuficiência na mesma valva). Frequente, subdiagnosticada e mal coberta pelas diretrizes internacionais; no Brasil, a febre reumática é a grande causa. A chave é identificar a valvopatia predominante e separar lesões primárias de secundárias.

📖 Texto de suporte — diagnóstico e etiologia (seções 10, 10.1 e 10.2)
  • 30 a 50% dos pacientes com doença valvar esquerda nativa têm outra lesão moderada ou importante; prognóstico pior que o da doença isolada.
  • Exame físico: caracterizar cada sopro e excluir sopros funcionais (ex.: Austin-Flint), definindo a predominância.
  • No eco, uma lesão interfere na avaliação da outra: a estenose aórtica pode superestimar a IM, e a IM pode subestimar o gradiente transaórtico. Reunir o maior número de parâmetros e correlacionar com a clínica.
  • Hemodinâmica na discordância; tomografia (escore de cálcio aórtico, MAC); ressonância (quantificação de regurgitação, função, fibrose).
  • Primárias: reumática (maioria no Brasil, com acometimento simultâneo ou evolução extemporânea), degenerativa (EAo + EM calcífica), aortopatias (Marfan, Ehlers-Danlos: IM e IAo). Secundárias: isquêmica e miocardiopatias dilatadas (IT e IM). Podem coexistir (ex.: IT acompanhando estenose mitral; IM funcional secundária a doença aórtica).
Quadro 49 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da doença multivalvar
ExameCaracterística de doença multivalvar
Exame físico
  • Presença de sopros distintamente caracterizados como mitral, aórtico e/ou tricúspide – insuficiência, estenose ou dupla lesão
  • Excluir possibilidade de sopro causado por interferência hemodinâmica (ex.: sopro de Austin-Flint)
  • Exame físico especialmente importante para definir a predominância de uma das valvopatias
Eletrocardiograma
  • Alterações eletrocardiográficas a depender da valvopatia predominante e suas repercussões
Radiografia de tórax
  • Alterações radiográficas a depender da valvopatia predominante e suas repercussões
Ecocardiograma
  • Os parâmetros de gravidade anatômica são os mesmos das valvopatias isoladas
  • Agregar o maior número de parâmetros possível (área valvar, gradientes, velocidade dos jatos, orifício regurgitante etc.), pois a alteração funcional de uma válvula pode sub ou superestimar a disfunção de outra
  • Avaliar etiologia (primária ou secundária) de cada valvopatia
Estudo hemodinâmico
  • Indicado na dissociação clínico-ecocardiográfica
Tomografia computadorizada de tórax multidetectora
  • Escore de cálcio valvar aórtico
  • Avaliação do MAC
Ressonância magnética cardíaca
  • Avaliação morfológica e funcional, quantificação de lesões regurgitantes por meio de softwares específicos

FA: fibrilação atrial; MAC: calcificação do anel mitral.

Quadro 50 – Passo 2: etiologia da doença multivalvar
EtiologiaCaracterísticas etiológicas
Aterosclerótica/degenerativa
  • Etiologia mais frequente em países desenvolvidos
  • Pacientes geralmente idosos
  • Frequente envolvimento de estenose aórtica, sendo comum a insuficiência mitral secundária
  • Calcificação do anel valvar mitral (MAC)
  • Possível relação com calcificação aórtica e coronariana
Reumática
  • Maioria dos casos de doença multivalvar primária em países subdesenvolvidos, incluindo o Brasil
  • Típico de pacientes jovens, sintomas entre 20 e 40 anos de idade
  • Presença de fusão comissural, espessamento de cúspides, comprometimento do aparelho subvalvar
  • Frequente dupla lesão valvar
  • Frequente evolução extemporânea
Endocardite infecciosa
  • Insuficiência valvar por destruição do aparelho mitral e/ou aórtico
  • Infecção metastática aórtica e mitral
Doenças do colágeno (síndrome de Marfan e Ehlers-Danlos)
  • Insuficiências valvares mitral e aórtica
  • Pesquisar acometimento de aorta ascendente

MAC: calcificação do anel mitral.

📖 Texto de suporte — sintomas, complicadores e intervenção (seções 10.3 a 10.6)
  • Os sintomas vêm da valvopatia de maior gravidade; se ambas forem importantes, a mais proximal costuma prevalecer. Dispneia é o principal; dor precordial nas aórticas; baixo débito e síncope sobretudo na EAo + IM (grande redução do volume ejetado).
  • Duas lesões moderadas podem somar repercussões e causar sintomas: avaliar pormenorizadamente cada valva.
  • Complicadores decorrem da valvopatia mais grave; a evolução de uma lesão pode gerar outra (ex.: EM com hipertensão pulmonar e IT secundária).
  • Sintomas e/ou complicadores: intervir. Cirurgia é a primeira linha nos operáveis. Lesão importante + moderada: abordar as duas, exceto no alto risco. Mitral degenerativa: plástica; aórtica: troca.
  • Alto risco: transcateter, em abordagem escalonada: tratar a predominante e observar a secundária (remodelamento reverso). EAo + IM secundária: TAVI e observar. EAo + IM primária importante: tratar as duas (TAVI + TEER, no mesmo tempo ou escalonado), pois IM residual aumenta a mortalidade.
  • Estenose mitral reumática com anatomia favorável e sem lesão aórtica importante: VMCB segue como primeira opção.
  • Fármacos: dirigidos à predominante, atentos à outra. Vasodilatador nas regurgitações; betabloqueador/digoxina na EM; cautela com betabloqueador e vasodilatador na EAo; na IM, bradicardia excessiva piora a regurgitação; diuréticos para congestão.
Quadro 51 – Passo 3: avaliação de sintomas na doença multivalvar
SintomaCaracterísticas
Dispneia
  • Principal sintoma
  • Inicialmente com eventos que aumentam a pressão venocapilar pulmonar, como esforço físico
  • Pode ser acompanhada por palpitações, hemoptise, disfonia, disfagia, tosse, a depender das repercussões de cada valvopatia
Dor precordial
  • Especialmente na presença de valvopatia aórtica regurgitante ou estenótica
  • Pode ser causada por hipertensão pulmonar
Baixo débito cardíaco/síncope
  • Presente especialmente na associação de estenose aórtica e insuficiência mitral
Insuficiência cardíaca direita
  • Edema periférico, ascite, congestão e disfunção hepática
  • Presente em casos de insuficiência tricúspide e/ou hipertensão pulmonar com repercussão em ventrículo direito
Quadro 52 – Passo 4: avaliação de complicadores na doença multivalvar
ComplicadorCaracterísticas
Hipertensão pulmonar
  • PSAP ≥ 50 mmHg em repouso
  • Mais frequente quando há estenose mitral associada
  • Associação com insuficiência tricúspide secundária e sintomas de insuficiência cardíaca direita
  • Relação com aumento do risco cirúrgico
Fibrilação atrial de início recente
  • Relação com remodelamento do átrio esquerdo, mais frequente na presença de valvopatia mitral
Dilatação ventricular
  • Mais frequente nas valvopatias regurgitativas
  • Considerar diâmetros de acordo com o tipo de lesão valvar

PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar.

Quadro 53 – Passo 5: tipos de intervenção na doença multivalvar
TipoConsiderações
Valvoplastia mitral por cateter-balão
  • Casos de estenose mitral reumática importante com anatomia favorável e ausência de acometimento valvar aórtico importante
Tratamento cirúrgico
  • Troca valvar ou plástica mitral a depender da anatomia do aparato valvar
  • Evitar plástica valvar aórtica – frequente recorrência da valvopatia e sintomas, mesmo com resultado imediato adequado
  • Abordar a valvopatia anatomicamente moderada concomitante à intervenção da valvopatia importante, exceto se alto risco cirúrgico
Tratamento transcateter – TAVI, reparo percutâneo borda a borda mitral ou tricúspide, valve-in-valve
  • Estenose aórtica importante e insuficiência mitral primária importante com alto risco para cirurgia ou inoperáveis (após avaliação do Heart Team)
  • Disfunção de bioprótese mitral, tricúspide e aórtica em pacientes sintomáticos e com alto risco cirúrgico ou inoperáveis (após avaliação do Heart Team)
  • Em casos de valvopatia secundária importante associada, tende-se a tratar a valvopatia primária e observar a evolução do paciente

TAVI: implante de bioprótese aórtica transcateter.

Quadro 54 – Doença multivalvar importante: recomendações

Tratamento cirúrgico

ForteModeradaAHA – · ESC –

Doença multivalvar sintomática.

ForteBaixaAHA – · ESC –

Doença multivalvar com complicadores.

ForteBaixaAHA IIa C · ESC IIa C

Abordagem de lesão valvar moderada concomitante ao tratamento de valvopatia importante ou outra cirurgia cardíaca ou de aorta ascendente.

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Quadro 55 – Doença multivalvar: acompanhamento individualizado
Doença multivalvarAcompanhamentoSBC (força / certeza)AHAESC
Importante assintomática e sem complicadoresReavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 6 mesesA cada 6-12 mesesIndividualizado
Intervenção concomitante em pacientes que serão submetidos a outro procedimento cirúrgico cardíaco (revascularização coronária, aorta ascendente ou outra válvula)Forte BaixaI BI C
ModeradaReavaliação clínica e ecocardiográficaAnualmenteA cada 1-2 anosIndividualizado
Na presença de sintomas, a gravidade anatômica de cada valvopatia deve ser reavaliada utilizando métodos complementares, e o tratamento intervencionista deve ser consideradoFraca Baixa––
DiscretaReavaliação clínica e ecocardiográficaA cada 2-3 anosA cada 3-5 anosIndividualizado

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

🎓 Interpretação didática

Na doença multivalvar, desconfie do eco “bonito demais”: uma IM importante pode esconder uma estenose aórtica importante (gradiente baixo pelo baixo volume ejetado), e uma estenose aórtica pode inflar a IM. Antes de decidir, pergunte: qual lesão é primária, qual é secundária — e qual vai melhorar sozinha quando a outra for corrigida?

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 10, Quadros 49 a 55.

11Disfunção de prótese valvar

Toda prótese precisa de um eco de referência antes da alta. A disfunção pode ser estrutural (degeneração dos folhetos, mais comum nas biológicas) ou não estrutural (trombose, pannus, endocardite, desproporção prótese-paciente, regurgitação paraprotética). A retroca cirúrgica é a regra; valve-in-valve e oclusão paravalvar entram no alto risco.

📖 Texto de suporte — avaliação e etiologia (seções 11, 11.1 e 11.2)
  • Seguimento clínico e ecocardiográfico periódico após a troca valvar; eco de referência antes da alta. Confirmada a disfunção, encaminhar a centro de excelência. ETE e tomografia cardíaca definem o mecanismo; a reintervenção é decidida em Heart Team.
  • Primeiro exame: eco transtorácico, comparando com exames anteriores sem disfunção.
  • Prótese mecânica: muito durável; estenose por trombose, pannus ou ambos.
  • Desproporção prótese-paciente (mismatch): área efetiva da prótese inadequada à superfície corporal, sobretudo em anéis pequenos e posição aórtica — prótese normal, mas gradiente elevado e AOE indexada ≤ 0,85 cm²/m² logo após a cirurgia. Incomum em mitral e tricúspide, mas possível no valve-in-valve. Distingue-se da estenose de prótese pela mobilidade normal dos folhetos e pela comparação com o pós-operatório inicial.
  • Bioprótese: degeneração estrutural (espessamento/calcificação) ou não estrutural.
  • Regurgitação central: na bioprótese por imobilidade (calcificação) ou degeneração (perfuração, rotura); na mecânica por pannus, trombo ou vegetação. Paraprotética: entre prótese e anel nativo, mais comum na mecânica — endocardite, degeneração do anel ou expansão reduzida do TAVI.
Quadro 56 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da disfunção de prótese valvar anatomicamente importante
ExameCaracterísticas da disfunção de prótese valvar importante
Exame físico
  • Sinais clínicos conforme o tipo de disfunção de prótese predominante (estenose ou insuficiência valvar)
Ecocardiograma transtorácico
  • Avaliação do tipo de disfunção valvar e confirmação da gravidade anatômica da disfunção, sobretudo: espessamento de folhetos; calcificação e alteração na mobilidade de folhetos; redução da AOE; presença de regurgitação valvar ou periprotética; aumento do gradiente transvalvar médio (em prótese aórtica: ≥ 20 mmHg com gradiente médio ≥ 30 mmHg e em prótese mitral aumento ≥ 10 mmHg)
  • Avaliar piora na função sistólica ventricular
  • Avaliar progressão dos diâmetros das câmaras cardíacas
  • Avaliar sinais indiretos de elevação da pressão sistólica da artéria pulmonar
Ecocardiograma transesofágico
  • Janela inadequada para ecocardiograma transtorácico, dúvida diagnóstica ou necessidade de otimização da avaliação anatômica
  • Melhor avaliação de regurgitação paraprotética importante em anatomia favorável para tratamento percutâneo. O exame tridimensional é fundamental nesse quesito
  • Melhor avaliação de trombose e/ou pannus em prótese
Estudo hemodinâmico com manometria
  • Apenas em casos de dissociação clínico-ecocardiográfica
Angiotomografia cardíaca e de aorta
  • Avaliação de trombose/pannus protético e como preparatório para valve-in-valve
  • Avaliação da aorta

AOE: área de orifício efetivo.

Quadro 57 – Passo 2: etiologia da disfunção de prótese valvar importante
DisfunçãoCaracterísticas etiológicas
Estenose de prótese
  • Prótese mecânica: trombose; pannus
  • Prótese biológica — estrutural: degeneração de folhetos; calcificação de folhetos
  • Prótese biológica — não estrutural: endocardite; trombose; pannus; mismatch prótese-paciente (AOE indexada ≤ 0,85 cm²/m²) ou 0,70 cm²/m² em obesos, sendo particularmente grave se < 0,65 cm²/m² se IMC menor que 30 ou < 0,55 cm²/m² se IMC maior que 30
Regurgitação de prótese
  • Central: degeneração de folheto (ruptura, perfuração); calcificação de folheto; trombose; pannus; endocardite
  • Paravalvar: endocardite; degeneração do anel

AOE: área efetiva do orifício; IMC: índice de massa corpórea.

Quadro 58 – Passo 3: avaliação de sintomas da disfunção de prótese valvar importante
SintomaCaracterísticas
Dispneia (NYHA II – IV)Fisiopatologia conforme disfunção predominante, determinando congestão venocapilar pulmonar
AnginaPossível em disfunção de prótese aórtica importante do tipo estenose
SíncopePossível em disfunção de prótese aórtica importante do tipo estenose

NYHA: New York Heart Association.

Quadro 59 – Passo 4: avaliação de complicadores da disfunção de prótese valvar importante
AvaliaçãoComplicadores
Ecocardiograma
  • Surgimento ou progressão de: disfunção ventricular sistólica; remodelamento de VE/HP
  • Calcificação importante de bioprótese
Anemia hemolítica
  • Ocorre em casos de regurgitação importante de prótese valvar, sobretudo se paraprotética

HP: hipertensão pulmonar; VE: ventrículo esquerdo.

📖 Texto de suporte — intervenção (seções 11.3 a 11.5)
  • Dispneia é o sintoma mais frequente; angina e síncope na disfunção aórtica importante. Como muitos já têm hipertensão pulmonar ou disfunção ventricular, conta a progressão ou o surgimento de alterações novas.
  • Reoperação tem risco maior (idade, disfunção ventricular, coronariopatia, hipertensão pulmonar, acesso difícil, doença renal, desnutrição, obesidade, diabetes).
  • Estenose de prótese mecânica: só cirurgia. Na biológica, ponderar retroca (de escolha quando possível: menos leak e DPP, maior sobrevida e menores gradientes na aórtica) × valve-in-valve (alternativa aceitável no sintomático de alto risco ou inoperável).
  • VIVID (459 pacientes): mortalidade 7,6% em 1 mês; sobreviventes em NYHA I–II; sobrevida de 83,2% em 1 ano. Complicações: DPP e obstrução coronária (aórtica), obstrução da VSVE (mitral), migração (rara).
  • Insuficiência de prótese: retroca, oclusão percutânea (paraprotética) ou valve-in-valve (central em bioprótese). Cirurgia é a escolha na insuficiência importante sintomática ou com anemia hemolítica refratária; mortalidade aceitável (retroca aórtica 4,6% × 2,2% na primeira; reparo paraprotético 3%).
  • Insuficiência central importante de bioprótese por degeneração: risco de progressão rápida (rotura/perfuração) → retroca pode ser considerada mesmo em assintomáticos.
Quadro 60 – Passo 5: tipo de intervenção na disfunção de prótese valvar importante
TipoConsiderações
Cirurgia (retroca valvar)
  • Tratamento de escolha
  • Indicações: disfunção estrutural importante de prótese valvar, desproporção prótese-paciente e regurgitação periprotética, com sintomas e/ou anemia hemolítica refratários ao tratamento clínico
Intervenção por cateter (valve-in-valve)
  • Disfunção estrutural de bioprótese mitral, tricúspide ou aórtica, em pacientes sintomáticos e com alto risco para cirurgia ou inoperáveis (após avaliação do Heart Team)
Oclusão percutânea de regurgitação paravalvar
  • Em casos de regurgitação paraprotética importante, associada a anemia hemolítica ou sintomas de insuficiência cardíaca (CF III/IV), em pacientes com alto risco para cirurgia e com anatomia favorável ao procedimento em centro capacitado

CF: classe funcional.

Quadro 61 – Disfunção de prótese valvar: recomendações

Troca valvar cirúrgica

ForteModeradaAHA I B · ESC I C

Disfunção estrutural importante de prótese valvar, com sintomas.

ForteBaixaAHA I B · ESC I C

Anemia hemolítica refratária.

ForteBaixaAHA IIa B · ESC IIa C

Disfunção estrutural importante de prótese valvar, assintomática, com baixo risco para cirurgia.

Oclusão percutânea de regurgitação paravalvar

ForteModeradaAHA IIa B · ESC IIa B

Regurgitação periprotética com hemólise ou sintomas de IC refratários, com anatomia favorável e alto risco para cirurgia, após avaliação do Heart Team.

Valve-in-valve

ForteAltaAHA IIa B · ESC *

Disfunção estrutural importante de bioprótese, em pacientes sintomáticos, com alto risco para cirurgia ou inoperáveis, após avaliação do Heart Team.

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; IC: insuficiência cardíaca; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia. * IIa B: posição aórtica, IIb B: posição mitral e tricúspide.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 11, Quadros 56 a 61.

12Trombose de prótese, escolha da prótese e durabilidade

A trombose de prótese é incomum, mais frequente na mecânica mitral e quase sempre ligada à anticoagulação ineficaz. O tratamento vai da anticoagulação à fibrinólise ou cirurgia, conforme a classe funcional, o tamanho do trombo e o lado do coração. O capítulo também traz o manejo a longo prazo: mecânica × biológica, TAVI × cirurgia e durabilidade.

Trombose de prótese valvar

📖 Texto de suporte — epidemiologia e diagnóstico (seção 12)
  • Mecânica: 0,1 a 5,7%, em geral nos 3 primeiros meses, mas a qualquer momento se a anticoagulação for ineficaz. Biológica: 0,03 a 6%, em alta com os procedimentos transcateter e a imagem avançada; geralmente nos 3 primeiros meses (há casos após 5 anos).
  • A trombose subclínica de biopróteses, sobretudo após TAVI, é mais frequente que se pensava (tomografia) e pode representar o espectro inicial, com possível associação a degeneração precoce.
  • Efeito de valvopatia estenótica, do assintomático ao choque. Avaliar dor torácica, dispneia nova ou piora de CF, palpitações, edema, baixo débito, uso e controle da anticoagulação e INR.
  • Suspeitar na mecânica com imagem (ETT, ETE ou tomografia) de mobilidade comprometida ou debris; aumento do gradiente > 50% sobre o basal ou de 10 mmHg absolutos na mecânica aórtica. Tomografia 4D e fluoroscopia ajudam nos estáveis.
📖 Texto de suporte — tratamento
  • Biológica sem repercussão (CF I–II) e sem obstrução: anticoagulação oral e seguimento com imagem.
  • Mecânica com trombo grande (> 8 mm) e/ou móvel: internar para anticoagulação venosa. Sem resolução em 5 a 7 dias, ou com comprometimento hemodinâmico acentuado (CF III–IV): fibrinólise ou cirurgia.
  • Favorecem a fibrinólise: alto risco cirúrgico, baixo risco de sangramento, valvas direitas, primeiro episódio, trombo < 0,8 cm². Esquemas: alteplase 10 mg em bólus + 90 mg em 2 h ou estreptoquinase 500.000 UI em 20 min + 1.500.000 UI em 10 h. Sucesso guiado por eco > 90%; embolia e sangramento maior < 2%.
  • Favorecem a cirurgia: contraindicação à fibrinólise, alto risco de sangramento, baixo risco cirúrgico, suspeita de pannus, outra cirurgia cardíaca necessária. Mortalidade em 30 dias < 5% em CF I–II e 10–15% nos instáveis.
  • Estudo observacional (158 pacientes): trombólise em infusão lenta (6 e 25 h) × cirurgia — menos complicações (12% × 62,7%), embolia (2,4% × 5,3%), sangramento (8,4% × 16%) e mortalidade em 3 meses (2,4% × 18,7%).
  • Heart Team em todos os cenários; com instabilidade hemodinâmica, prevalece a cirurgia, exceto no risco cirúrgico muito elevado.
  • HALT (espessamento hipoatenuante dos folhetos) após TAVI: sem clínica nem critério de disfunção; 12,4% em anticoagulados e 32,4% em dupla antiagregação após 3 meses. Pode associar-se a degeneração precoce, sem aumento de mortalidade cardiovascular → iniciar ou ajustar anticoagulação oral e controlar com imagem.
Quadro 62 – Passo 1: critérios para definição da gravidade anatômica da trombose de prótese valvar
AvaliaçãoCaracterísticas da trombose de prótese
Avaliação clínica
  • Sintomas e sinais sugestivos de insuficiência cardíaca aguda/exacerbada (dispneia, dor torácica, baixo débito, síncope)
  • Sopro compatível com valvopatia estenótica
  • Abafamento do clique na prótese mecânica
  • Anamnese para avaliar possibilidade de anticoagulação não eficaz (INR fora da faixa terapêutica)
Eletrocardiograma
  • Compatível com a doença de base que motivou a cirurgia valvar
  • Raramente com alteração aguda
Radiografia de tórax
  • Compatível com a doença de base que motivou a cirurgia valvar
  • Raramente com alteração aguda na silhueta cardíaca
  • Pode ter congestão pulmonar
Ecocardiograma
  • Exame fundamental para o diagnóstico
  • Idealmente transesofágico
  • Documentação de trombo aderido à prótese, identificação do local e tamanho da trombose
Estudo hemodinâmico (fluoroscopia)
  • Mobilidade inadequada do folheto

INR: razão normalizada internacional.

Quadro 63 – Passo 2: etiologia da trombose de prótese valvar
EtiologiaCaracterísticas
Anticoagulação ineficaz
  • Interrupção da anticoagulação
  • Interação medicamentosa/alimentar
  • INR abaixo da meta terapêutica

INR: razão normalizada internacional.

Quadro 64 – Passo 3: avaliação de sintomas na trombose de prótese valvar
SintomaCaracterísticas
Dispneia
  • Sintoma principal
  • Piora discreta: CF I–II
  • Sinal de alarme: CF III–IV
Dor precordial
  • Possibilidade de embolia coronária
Baixo débito/síncope
  • Indicativo de obstrução importante

CF: classe funcional da New York Heart Association.

Quadro 65 – Passo 4: avaliação de complicadores na trombose de prótese valvar
AchadoSignificado
Trombo > 8 mm ou pedunculado
  • Alto risco de embolização associada a trombólise
Hipertensão pulmonar
  • PSAP 50 mmHg ou superior em repouso
  • Associada à estenose mitral
  • Sinais de insuficiência cardíaca direita
  • Aumento do risco cirúrgico
Fibrilação atrial associada à trombose valvar
  • Remodelamento atrial importante
Trombose subclínica de folheto valvar
  • Relativamente comum após procedimentos transcateter
  • Diagnóstico por tomografia computadorizada
  • Ajuste ou início de anticoagulação oral
  • Controle evolutivo com métodos de imagem

PSAP: pressão sistólica da artéria pulmonar.

Quadro 66 – Passo 5: tipo de intervenção na trombose de prótese valvar
Tipo de intervençãoConsiderações
Trombólise
  • rt-PA (alteplase) 10 mg em bólus seguido de 90 mg em 2 horas ou estreptoquinase 500.000 UI em 20 minutos, seguido de 1.500.000 UI em 10 horas
  • Infusão lenta*: t-PA (tenecteplase) 25 mg em 6 horas, repetida (até a dose total de 150 mg) até a restauração da função valvar
Cirurgia valvar
  • Reservada para casos com alto risco de complicação hemorrágica ou risco embólico proibitivo

rt-PA: recombinant tissue plasminogen activator; t-PA: tissue plasminogen activator. *Um estudo randomizado demonstrou que a cirurgia não foi mais eficaz e resultou em maior mortalidade que a infusão lenta de baixa dose. Quadro transcrito como no original.

Quadro 67 – Trombose de prótese: recomendações

Trombólise

ForteModeradaAHA IIa B · ESC –

Câmaras direitas.

ForteModeradaAHA IIa B · ESC I B

Trombo < 8 mm, NYHA I-III, persistência de trombo após anticoagulação endovenosa.

Cirurgia valvar

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

NYHA IV, câmaras esquerdas.

ForteBaixaAHA IIa C · ESC IIa C (> 1 cm)

Trombo móvel, grande (> 8 mm), câmaras esquerdas.

Anticoagulação com antagonista de vitamina K

ForteModeradaAHA IIa B · ESC I B

Trombose aguda em pacientes estáveis.

ForteBaixaAHA IIa B · ESC IIa B

Trombose subclínica após procedimento transcateter ou cirurgia.

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; NYHA: New York Heart Association; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Quadro 68 – Trombose de prótese: fatores a favor da cirurgia e da fibrinólise
A favor da cirurgiaA favor da fibrinólise
Equipe cirúrgica disponível e experienteEquipe cirúrgica indisponível ou inexperiente
Baixo risco cirúrgicoAlto risco cirúrgico
Alto risco de sangramento ou contraindicação ao uso de fibrinolíticoBaixo risco de sangramento e sem contraindicação ao uso de fibrinolítico
Trombose recorrentePrimeira trombose de prótese
Classe funcional NYHA IVClasse funcional NYHA I-III
Trombo > 0,8 cm²Trombo ≤ 0,8 cm²
Trombo móvelTrombose em câmaras direitas
Trombo em átrio esquerdoSem trombo em átrio esquerdo
Trombo em câmara esquerda sem estabilidade para aguardar efeito de heparinizaçãoPersistência de trombo em câmara esquerda após heparinização em paciente estável

NYHA: New York Heart Association.

Manejo a longo prazo e escolha da prótese (seções 12.1 e 12.2)

📖 Texto de suporte
  • Lifetime management: definir cirurgia × transcateter e, na cirurgia, plástica × biológica × mecânica — decisão compartilhada com Heart Team, paciente e família.
  • Fatores: idade, expectativa de vida, preferências, durabilidade, risco de DPP, previsão de reintervenção e riscos da varfarina.
  • DOAC é contraindicado em prótese mecânica: se o antagonista da vitamina K for contraindicado ou recusado, considerar bioprótese.
  • Bioprótese aórtica antes dos 50 anos: degeneração acentuada. Reoperação em 15 anos: 22% aos 50, 30% aos 40 e 50% aos 20 anos.
  • 50 a 65 anos: escolha incerta — dados conflitantes; biopróteses com mais reintervenção e menos AVC; metanálises sugerem menor mortalidade com mecânica até 60 anos e entre 50 e 70 anos. Decisão compartilhada.
  • > 65 anos: degeneração estrutural cai para ~10% em 15–20 anos e o sangramento com varfarina aumenta → preferir bioprótese.
  • Mecânica é boa opção no jovem com alto risco para reintervenções (radiação prévia, aorta em porcelana, anel aórtico pequeno). Gestação: menos tromboembolismo com bioprótese, e a gravidez não acelera sua degeneração.
  • Cirurgia de Ross: evita anticoagulação; pode igualar a durabilidade da mecânica em centros de excelência, mas ~50% precisam de reintervenção em 10–20 anos → jovens com anatomia favorável, em centros de excelência.
  • Anel aórtico pequeno: ampliação do anel e próteses sem sutura ou de expansão rápida.
Quadro 69 – Fatores a favor da prótese mecânica e da biológica
Favorecem a recomendação de prótese mecânicaFavorecem a recomendação de prótese biológica
Idade < 50 anos ou com maior risco de degeneração estrutural da prótese (hiperparatireoidismo, hemodiálise)Idade > 65 anos
Baixo risco com a anticoagulação a longo prazoBaixa expectativa de vida
Paciente aderente e com acesso ao controle do INRAlto risco de sangramento com anticoagulação a longo prazo
Outra indicação de anticoagulação a longo prazo (por exemplo, fibrilação atrial)Dificuldades de acesso ou de realizar controle do INR
Alto risco em reintervenção valvar (aorta em porcelana, história de exposição à radioterapia)Acompanhamento em centros de excelência com bons resultados em reintervenções cirúrgicas e com capacidade de realizar valve-in-valve
Anel aórtico pequeno (pode impedir a realização de valve-in-valve no futuro)Desejo de gestação a curto prazo

INR: razão normalizada internacional.

TAVI × cirurgia e durabilidade (seções 12.3 e 12.4)

📖 Texto de suporte
  • A TAVI é viável na estenose aórtica importante a partir dos 70 anos, do inoperável ao baixo risco. Nos EUA (2021), ~50% dos < 65 anos com EAo importante receberam TAVI, mas os estudos de baixo risco incluíram poucos jovens (6,9% no PARTNER 3).
  • Estudo americano (9.557 pacientes, jovens): maior mortalidade em 6 anos com TAVI (23,3% × 10,5%) e mais marca-passo (10,7% × 6,2%), sem diferença em AVC, reinternação e reintervenção.
  • Durabilidade incerta, acesso coronário difícil, TAVI-in-TAVI e explante → não recomendar TAVI de rotina no baixo risco < 70 anos.
  • Deterioração estrutural (VARC-3 estágio 2–3): PARTNER 2A/S3IR 9,5% (SAPIEN XT), 3,9% (SAPIEN 3) × 3,5% cirurgia em 5 anos; CoreValve HR + SURTAVI 1,82% × 2,67%; PARTNER 3 7,6% × 7,3% em 7 anos; NOTION 12,5% × 13,9% em 10 anos.
  • Falência de bioprótese: PARTNER 2A-S3IR 4,7% (XT), 2,6% (S3) × 1,3%; PARTNER 3 6,9% × 7,5%; NOTION 9,7% × 13,8%.
  • Conclusão: exceto as primeiras gerações balão-expansíveis, a durabilidade de médio prazo da TAVI é no mínimo equivalente à das biopróteses cirúrgicas. Limitações: NOTION com só 25% vivos em 10 anos; PARTNER 2 (10 anos) com menor sobrevida na TAVI, sobretudo por acesso não femoral; Evolut Low Risk (6 anos) sem diferença em morte/AVC, mas com mais reintervenção na TAVI.
  • Se a expectativa de vida excede a durabilidade da prótese, planejar com tomografia já na primeira intervenção.
🎓 Interpretação didática

Três números para guardar: gradiente da mecânica aórtica +50% (ou +10 mmHg) sugere trombose; trombo > 8 mm (ou > 0,8 cm²) e móvel empurra para a cirurgia; 5 a 7 dias de heparina sem resolução abre a porta para fibrinólise ou cirurgia. Na escolha da prótese: < 50 anos tende à mecânica, > 65 à biológica, e o meio do caminho é decisão compartilhada.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 12, Quadros 62 a 69.

13Doença arterial coronária no valvopata

A coronariopatia acompanha 40 a 70% dos candidatos à cirurgia valvar (sobretudo na estenose aórtica degenerativa) e 44 a 81% dos candidatos à TAVI. Definir a anatomia coronária antes da intervenção valvar orienta a revascularização concomitante, o risco e o prognóstico.

📖 Texto de suporte (seções 13.1 a 13.4)
  • Baixa ou intermediária probabilidade pré-teste: angiotomografia de coronárias para excluir doença significativa; lesões moderadas a significativas ou duvidosas → cineangiocoronariografia.
  • Cateterismo mandatório com alta probabilidade: fatores de risco para aterosclerose, sintomas sugestivos ou teste funcional com isquemia, doença coronária prévia, homens > 40 anos e mulheres pós-menopausa; também na disfunção do VE e na investigação etiológica da IM secundária.
  • Valvopatia importante + lesões ≥ 70% (ou ≥ 50% no tronco): cirurgia combinada (valva + revascularização), com ou sem sintomas coronarianos — maior risco imediato, mas menos infarto perioperatório e maior sobrevida tardia. Se o risco da combinada for proibitivo ou a anatomia desfavorável: angioplastia guiada por FFR.
  • Revascularização completa, com artéria torácica interna para a descendente anterior. Lesões de 50–70%: individualizar.
  • TAVI: angioplastia se FFR ≤ 0,80 ou lesão ≥ 90% (proximal), considerando idade, comorbidades, sangramento e expectativa de vida. Antes da TAVI é o mais comum (melhora a hemodinâmica, evita dificuldade de acesso coronário, sobretudo com próteses supra-anulares); simultânea nos instáveis/alto risco de oclusão coronária (custo: mais contraste); metanálises recentes sugerem melhores desfechos com a abordagem após a TAVI.
  • Valvopatia moderada: individualizar no Heart Team. IM moderada isquêmica + revascularização: o reparo reduz regurgitação e sintomas, mas não melhora sobrevida nem remodelamento e acrescenta tempo cirúrgico e eventos neurológicos. Estenose aórtica moderada + revascularização: controverso (progressão incerta × riscos da prótese).
Quadro 70 – Intervenção na doença arterial coronária concomitante à intervenção valvar

Revascularização miocárdica cirúrgica

ForteBaixaAHA IIa C · ESC I C

Indicação de intervenção valvar cirúrgica e lesão em coronária epicárdica ≥ 70% ou lesão em tronco ≥ 50%.

Angioplastia coronária

ForteBaixaAHA IIa C · ESC IIa B

Indicação de intervenção valvar transcateter e lesão coronária com FFR ≤ 0,80 ou lesão ≥ 90% em segmento proximal.

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; FFR: reserva fracionada de fluxo; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 13 e Quadro 70.

14Anticoagulação e antiagregação

O capítulo mais dinâmico desde 2020. Na doença reumática com FA, o INVICTUS consolidou a varfarina como escolha; nas demais valvopatias com FA, varfarina ou DOAC. Na prótese mecânica, só antagonista da vitamina K — DOAC é contraindicado. Após TAVI sem indicação de anticoagulação, antiagregação simples.

Valva nativa (seção 14.1)

📖 Texto de suporte
  • Estenose mitral reumática com FA (paroxística ou permanente): anticoagulação é a estratégia de escolha. Nas demais, usar o CHA2DS2-VA: IC 1; hipertensão 1; idade ≥ 75 anos 2; diabetes 1; AVC/AIT/tromboembolismo 2; doença vascular 1; idade 65–74 anos 1. Anticoagular se ≥ 2; considerar a partir de 1. O sexo feminino deixou de pontuar.
  • Coorte coreana (2.230 pacientes com estenose mitral): DOAC off-label com menos AVC/embolia, mas com limitações importantes (observacional, sem TTR, sem gravidade da EM).
  • INVICTUS (4.531 pacientes reumáticos com FA, maioria com EM moderada a importante): rivaroxabana × varfarina — mais AVC (90 × 65) e mais mortes (552 × 442) com rivaroxabana; tempo médio de sobrevida restrito −72 dias (IC95% −117 a −28), por morte súbita e falência mecânica/IC. Varfarina permanece a escolha na FA reumática; o benefício apareceu após 12–18 meses, à medida que o INR na faixa subiu de 33,2% para ~65%.
  • Início da varfarina: 5 mg/dia (< 65 anos) ou 2,5 mg/dia (> 65 anos); TP no 3º dia (hiper-responsividade) e no 5º dia, então ajustes com intervalo de até 5 dias até a faixa. Depois, INR mensal; fora do alvo, repetir em 1 a 2 semanas; ajustar 10 a 15% da dose semanal e investigar a causa.
  • Proteção ideal com TTR > 65%; no registro brasileiro RECALL, TTR médio de 49,5%. DOAC na FA reumática só em caráter estritamente excepcional (esgotadas as estratégias para otimizar a varfarina, INR extremamente lábil ou monitoramento inviável), com o paciente informado da menor proteção e registro em prontuário.
  • Com indicação de cirurgia valvar e FA: considerar ablação cirúrgica concomitante; o fechamento do apêndice reduz embolia e aumenta a sobrevida. Não suspender a anticoagulação indicada, mesmo após o fechamento do apêndice (salvo risco de sangramento muito alto).
  • Sem FA, considerar anticoagulação na estenose mitral com embolia prévia, trombo ou contraste espontâneo, AE ≥ 50 mm ou ≥ 50 mL/m², ou taquicardia atrial sustentada.

Reparo, biopróteses, próteses mecânicas e TAVI (seções 14.2 a 14.5)

📖 Texto de suporte
  • Reparo mitral em ritmo sinusal: mais tromboembolismo nas primeiras 6 semanas sem antitrombótico; pode-se considerar AAS 75–100 mg/dia por 3 meses. Sem diferença entre varfarina e antiplaquetário (5.093 pacientes).
  • Bioprótese + FA: anticoagular independentemente do CHA2DS2-VA. RIVER (1.005 pacientes, brasileiro): rivaroxabana não inferior à varfarina. Recomenda-se antagonista da vitamina K nos primeiros 3 meses e depois manter ou trocar por DOAC (DOAC precoce em situações selecionadas, como INR muito lábil).
  • Bioprótese sem FA e sem outra indicação: as diretrizes atuais não recomendam AAS nem anticoagulação nos primeiros 3–6 meses (evidência inconsistente); sem anticoagulação de longo prazo. ENAVLE: edoxabana não inferior à varfarina nos 3 primeiros meses.
  • Prótese mecânica: eventos trombóticos maiores ~1%/ano com AVK — quatro vezes mais sem anticoagulação ou só com antiplaquetário. AVK obrigatório e indefinido. DOAC contraindicado: RE-ALIGN (dabigatrana) e PROACT Xa (apixabana na On-X aórtica) foram interrompidos por excesso de eventos.
  • Alvos de INR: mecânica aórtica 2,5 (2,0–3,0) sem fatores adicionais; mitral 3,0 (2,5–3,5). Meta maior na aórtica com FA, evento trombótico apesar de INR na faixa ou FE reduzida. On-X aórtica: INR 1,8 (1,5–2,0) + AAS 75–100 mg (PROACT). LIMIT em andamento (1,5–2,5).
  • TAVI sem indicação de anticoagulação: antiagregação simples (POPular TAVI A: proteção semelhante à dupla, com menos sangramento). Anticoagulação profilática não recomendada (GALILEO: mais sangramento; ATLANTIS: sem vantagem).
  • TAVI com FA: anticoagulação isolada (POPular TAVI B: menos sangramento que ACO + clopidogrel). ENVISAGE-TAVI AF: edoxabana com benefício líquido semelhante à varfarina, mas mais sangramento digestivo. AVK ou DOAC, vigiando sangramento digestivo com DOAC.
Quadro 71 – Indicações de anticoagulação oral
Condição clínicaMedicaçãoSBC (força / certeza)AHAESC
Valva nativa
Estenose mitral reumática com fibrilação atrial e/ou trombo atrial esquerdo*VarfarinaForte ModeradaI CI B
DOACs na impossibilidade de uso de varfarinaFraca Baixa–III B
Demais valvopatias com fibrilação atrialVarfarinaForte ModeradaI A–
DOACsForte ModeradaI AI A
Tratamento cirúrgico
Ablação de fibrilação atrial ou flutter concomitante com a cirurgia valvar—Forte ModeradaIIa BI A (cirurgia mitral); IIa B (cirurgia em outras válvulas)
Fechamento do apêndice atrial esquerdo concomitante a cirurgia valvar—Forte ModeradaIIa BI B
Reparo valvar
Ritmo sinusal + cirurgia de reparo valvar mitral (primeiros 3 meses)VarfarinaFraca Baixa––
DOACsFraca Baixa–IIa B
AASFraca Baixa–IIa B
Prótese biológica
Fibrilação atrial (primeiros 3 meses)VarfarinaForte ModeradaIIa B–
DOACsFraca Moderada––
Fibrilação atrial (longo prazo)VarfarinaForte AltaI A–
DOACsForte AltaI AIIa B
Ritmo sinusal – prótese mitral (primeiros 3 meses)VarfarinaFraca BaixaIIa BIIa B
DOACsFraca Baixa––
AASFraca BaixaIIa B–
Ritmo sinusal – prótese aórtica (primeiros 3-6 meses)VarfarinaFraca BaixaIIa BIIa B
DOACsFraca Baixa––
AASFraca BaixaIIa BIIa B
Ritmo sinusal – prótese aórtica ou mitral (longo prazo)VarfarinaFraca Muito baixa––
DOACsFraca Muito baixa––
AASFraca BaixaIIa BIIb C
TAVI
Fibrilação atrialVarfarinaForte AltaI A**I B
DOACsForte AltaI AI B
Ritmo sinusalVarfarinaNão indicada3 meses IIb BIII A
DOACsNão indicadaIII BIII A
AAS ou clopidogrelForte ModeradaIIa BI A (por 1 ano); IIa C (após 1 ano)
Ritmo sinusal + angioplastia com stentAAS + clopidogrel até 12 m conforme tipo de stentForte Alta––
Fibrilação atrial + angioplastia com stent coronárioACO (varfarina/DOAC) + AAS + clopidogrel por mais de 1 semana e menos de 1 mês, seguido de clopidogrel + ACO (varfarina/DOAC) por 6-12 meses conforme tipo de stent. Depois só ACO (varfarina/DOAC)Forte Moderada––
Prótese mecânica
Prótese mecânicaVarfarinaForte AltaI A***I B
DOACsNão indicadaIII BIII A
Varfarina + AAS rotineiramenteNão indicadaIIb BIIa B ****
Varfarina + AAS após evento tromboembólico com INR terapêuticoForte Moderada––
Indicação de ponte com heparina para procedimentos com alto risco de sangramentoProcedimentos não cardíacos quando INR no alvo em pacientes com alto risco trombóticoForte ModeradaIIa CIIa B

ACO: anticoagulação oral; AHA: American Heart Association; AAS: ácido acetilsalicílico; DOAC: anticoagulante oral direto; ESC: European Society of Cardiology; INR: razão normalizada internacional; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia; TAVI: implante de bioprótese aórtica transcateter.

* Considerar anticoagulação com varfarina nos indivíduos com estenose mitral com episódios de taquicardia atrial ou aumento de átrio esquerdo e contraste espontâneo. ** Varfarina se fibrilação atrial em até 3 meses do implante: IIa B. Após 3 meses: I A. *** Prótese mecânica aórtica e fatores de risco tromboembólicos adicionais (fibrilação atrial, tromboembolismo prévio, disfunção ventricular, estado de hipercoagulabilidade, prótese mecânica de geração antiga ball-in-cage): varfarina com INR 3,0 – I B. Para pacientes com prótese mecânica de duplo disco ou prótese mecânica aórtica de disco oscilável e sem fatores de risco para tromboembolismo: varfarina com INR 2,5 – I B. **** Se doença aterosclerótica concomitante e baixo risco de sangramento.

Quadro 72 – Ajuste de dose da varfarina
Valor de INRAjuste de dose
≤ 1,5Aumentar 15% na dose semanal
1,51–1,99Aumentar 10% na dose semanal
2–3*Manter dose
3,01–4,0Reduzir 15% na dose semanal
4,01–4,99Suspender uma dose e reduzir 10% na dose semanal
5,0–8,99Suspender a varfarina até INR 2-3 e reiniciar com 15% menos da dose semanal
≥ 9,00Internação hospitalar: suspender a varfarina em média por 4 dias, prescrever vitamina K na dose de 1 a 2,5 mg por via oral a ser repetida em 24 a 48 horas se não houver redução para INR < 5,0 e reiniciar a anticoagulação após INR próximo aos valores-alvo (abaixo de 4)

INR: razão normalizada internacional. * No caso de alvo terapêutico de INR entre 2,5 e 3,5 o ajuste de dose deverá ser realizado para valores 0,5 maiores, exceto se INR ≥ 9,0.

🧮 Para distribuir a nova dose semanal em comprimidos por dia da semana, use a calculadora de varfarina do site.

Sangramento, FA pós-operatória e ponte (seções 14.6 a 14.8)

📖 Texto de suporte
  • HAS-BLED: hipertensão não controlada, disfunção renal, disfunção hepática, AVC/AIT, sangramento, INR lábil, idade > 65 anos, drogas ou álcool (1–2). ≥ 3 = alto risco — mas serve para reduzir riscos modificáveis, não para contraindicar isoladamente a anticoagulação.
  • No RECALL, quase 25% dos não anticoagulados com indicação deviam-se ao “julgamento médico”. Seriam necessárias ~295 quedas/ano para anular o benefício da varfarina: risco de queda ou fragilidade subjetiva não contraindicam isoladamente a anticoagulação.
  • FA pós-operatória: até 50–60% após cirurgia valvar; associada a mais mortalidade, AVC, IAM, insuficiência renal e internação; ~25% evoluem para FA permanente em 5–10 anos. Não iniciar betabloqueador profilático de rotina (risco de descompensação; considerar na estenose mitral); manter quem já usa. Episódio < 24–48 h: tentar ritmo sinusal; recorrência ou > 24–48 h: considerar anticoagulação.
  • Ponte com DOAC: sem heparina. Risco muito baixo: manter ou omitir a dose noturna. Baixo risco: suspender 24 h antes. Alto risco: 48 h. Peso < 50 kg, disfunção renal ou interações: +24 h.
  • Ponte com AVK: emergência → reverter. Baixo risco de sangramento: operar com INR na faixa, sem suspender. BRIDGE: ponte rotineira não beneficia e aumenta sangramento (mas excluiu próteses mecânicas). Ponte com heparina recomendada no alto risco tromboembólico: prótese mecânica, doença valvar reumática, CHADS 5–6, AVC/AIT < 3 meses, TEV recente ou trombofilia grave. Considerar no risco intermediário (CHADS 3–4, TEV há 3–12 meses, trombofilia leve, neoplasia ativa). Não fazer no baixo risco.
🎓 Interpretação didática

A pergunta-chave antes de prescrever DOAC no valvopata: há estenose mitral reumática ou prótese mecânica? Na prótese mecânica, nunca. Na FA reumática, varfarina (DOAC só em exceção documentada). Nas demais valvopatias com FA e na bioprótese após 3 meses, DOAC é opção forte. E, depois da TAVI em ritmo sinusal, basta um antiplaquetário.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 14, Quadros 71 e 72.

15Febre reumática e doença cardíaca reumática

Ainda a principal causa de valvopatia no Brasil (3,6 por 1.000 habitantes). O capítulo atualiza os critérios de Jones para populações de alto risco, recomenda a triagem ecocardiográfica de crianças e jovens, dá atenção especial à recorrência de cardite no adulto — muitas vezes miocardite isolada — e detalha as profilaxias primária e secundária.

📖 Texto de suporte — conceito, epidemiologia e diagnóstico (seções 15, 15.1 e 15.2)
  • Complicação não supurativa da faringoamigdalite pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A, por resposta imune tardia em predispostos. > 80% dos casos em países em desenvolvimento; 30 a 40 milhões de pessoas; 1–1,5% das mortes cardiovasculares.
  • Tratar a faringoamigdalite até o 9º dia é o pilar da prevenção. Impetigo pode se associar à febre reumática (aborígenes australianos).
  • Na infância predomina a valvulite; IC descompensada em só 10% dos episódios agudos (mais nas reativações do adulto). Mais da metade evolui para valvopatia crônica em 10–15 anos; ~16% precisarão de intervenção.
  • Critérios de Jones (revisão 2015): primeiro episódio = 2 maiores ou 1 maior + 2 menores, com evidência de infecção estreptocócica (ASLO, anti-DNase B; ~20% sem elevação da ASLO). Brasil = população de alto risco (poliartralgia e monoartrite contam como maiores).
  • Três exceções em que Jones não precisa ser rigorosamente seguido (1 critério maior basta, excluídos outros diagnósticos): coreia, cardite indolente e recorrência de cardite (frequentemente miocardite isolada com disfunção ventricular).
Quadro 73 – Critérios atualizados para o diagnóstico de febre reumática aguda
SituaçãoCritérios
Episódio inicial de febre reumáticaEvidência de infecção prévia por Strepto A + 2 manifestações maiores, OU 1 maior + 2 menores
Febre reumática possível (primeiro episódio)– Uma manifestação maior ou uma manifestação menor, OU
– Nenhuma evidência de infecção prévia por Strepto A
Episódio recorrente de febre reumática em um paciente com histórico documentado de febre reumática ou cardiopatia reumática1 manifestação maior (*)
Manifestações maiores
  • Cardite (incluindo evidência subclínica de valvulite reumática no ecocardiograma)
  • Poliartrite migratória ou monoartrite asséptica ou poliartralgia**
  • Coreia de Sydenham
  • Eritema marginado
  • Nódulos subcutâneos
Manifestações menores
  • Febre ≥ 38°C**
  • Monoartralgia
  • VHS ≥ 30 mm/h ou proteína C reativa ≥ 30 mg/L**
  • Intervalo PR prolongado no eletrocardiograma

VHS: velocidade de hemossedimentação. * Tal modificação nos critérios de recorrência decorrem da demonstração, em novos estudos, de pacientes com manifestação de cardite isolada, na maioria sem outros critérios maiores ou menores, com disfunção ventricular e melhora após tratamento com corticoterapia. ** Em países desenvolvidos considerados de baixo risco, a poliartralgia é considerada um critério menor. Além disso, nas populações de baixo risco, febre como critério menor é considerada se temperatura ≥ 38,5 °C, e o VHS deve ser ≥ 60 mm/h.

📖 Texto de suporte — critérios maiores e menores (seções 15.3 e 15.4)
  • Cardite (40–70% dos primeiros surtos): a única que deixa sequela e mata. Pancardite, mas o prognóstico vem das valvas — na fase aguda, regurgitação mitral (mais comum) e aórtica; estenoses são tardias. Sopros típicos do 1º episódio: regurgitação mitral, Carey Coombs e regurgitação aórtica. Miocardite inicial raramente causa disfunção.
  • Cardite subclínica: exame normal, eco com regurgitação patológica. Triagem populacional com eco portátil/point-of-care (critérios da World Heart Federation) em crianças e jovens até 20 anos — detecta até 10 vezes mais que a ausculta.
  • Artrite (75%): migratória, assimétrica, grandes articulações, cada uma < 1 semana, total < 1 mês; correlação inversa com a gravidade da cardite. Coreia de Sydenham (5–36%): meninas, rara após 20 anos; dura 2–3 meses; isoladamente fecha o diagnóstico. Eritema marginado (< 3%, muito específico). Nódulos subcutâneos (2%, associados à cardite grave).
  • Menores: artralgia (no Brasil, poliartralgia é maior e monoartralgia menor; artrite como maior exclui artralgia como menor); febre > 38 °C no alto risco; PR aumentado (> 0,18 s na criança, > 0,20 s no adolescente/adulto; não conta se a cardite já é critério maior); PCR ≥ 30 mg/L ou VHS ≥ 30 mm/h (qualquer combinação conta como uma única menor). VHS pode ficar elevada por 3–6 meses.
Quadro 74 – Recomendações para a triagem populacional para febre reumática
ForteModerada

Triagem ecocardiográfica de populações com ecocardiograma transtorácico ou ecocardiograma point-of-care realizado por profissionais de saúde treinados.

ForteModerada

Uso dos critérios revisados da World Heart Federation para triagem diagnóstica para febre reumática por ecocardiograma point-of-care.

ForteModerada

Realização de pelo menos um ecocardiograma transtorácico ou ecocardiograma point-of-care durante a vida em indivíduos a partir dos 7 anos e até os 20 anos para triagem de febre reumática, especialmente em populações vulneráveis.

ForteModerada

Realização de ecocardiograma completo com médico ecocardiografista quando com alteração ao ecocardiograma point-of-care, seja achado suspeito ou confirmado para febre reumática.

📖 Texto de suporte — recorrência de cardite no adulto (seção 15.5)
  • Mimetismo molecular; os nódulos de Aschoff são patognomônicos.
  • Gatilhos: novas infecções estreptocócicas, má adesão à penicilina benzatina, fatores genéticos e imunológicos. ~20% reativam em 10 anos.
  • Diferente do primeiro surto, a recorrência é sobretudo miocárdica, com ou sem disfunção ventricular, mesmo sem piora valvar. Em transplantados por IC refratária com valvopatia reumática, 27,7% tinham miocardite reumática não diagnosticada (Aschoff no explante).
  • Suspeitar em descompensação nova com disfunção ventricular sem outra causa — diagnóstico de exclusão; melhora com corticoide reforça. Eco transtorácico é a base; gálio-67 e 18F-FDG-PET/CT podem mostrar inflamação; ressonância serve para excluir outras causas (em geral normal na cardite reumática); VHS e PCR podem ser normais.
Quadro 75 – Recomendações para o diagnóstico de recorrência de cardite reumática em adultos
ForteMuito baixa

No paciente com antecedente de febre reumática, suspeitar de recorrência de cardite reumática na presença de sintomas de insuficiência cardíaca e/ou disfunção ventricular nova não justificados pela doença valvar, descartados outros diagnósticos mais frequentes (taquicardiomiopatia, isquemia).

ForteMuito baixa

Solicitar, se disponível, cintilografia com gálio-67 ou tomografia por emissão de pósitrons com 18 F-Fluorodesoxiglicose na suspeita de reativação de cardite reumática.

📖 Texto de suporte — tratamento da fase aguda (seção 15.6)
  • Internar: cardite moderada/grave, artrite incapacitante, coreia grave. Tratar a faringoamigdalite e erradicar o estreptococo independentemente da cultura; no primeiro surto, isso inicia a profilaxia secundária.
  • Febre: dipirona ou paracetamol. Artrite: AINE — AAS é primeira opção (adultos 4–8 g/dia); naproxeno e ibuprofeno são alternativas. Corticoide não é usado na artrite isolada; se houver cardite em corticoide, dispensa o AINE.
  • Coreia: repouso e ambiente calmo; benzodiazepínico, valproato, carbamazepina; haloperidol/risperidona nos refratários; corticoide só na forma grave; plasmaférese e imunoglobulina como experimentais.
  • Cardite moderada a grave ou pericardite: corticoide (sem prova de que reduza a lesão valvar, mas acelera a recuperação). Cardite leve sem IC: sem corticoide nem salicilato. Prednisona/prednisolona 1–2 mg/kg/dia (máx. 80 mg) por ~4 semanas e redução de 20–25% por semana; metilprednisolona IV nos muito graves. Ivermectina empírica antes (estrongiloidíase disseminada).
  • Recorrência no adulto: corticoide associa-se a reversão ou melhora da disfunção. Três pilares: penicilina benzatina a cada 21 dias; tratamento da IC (diurético, vasodilatador, IECA e antagonista mineralocorticoide); corticoide na cardite grave. Repetir o eco após 4 semanas. Cirurgia valvar preferencialmente após controlar a inflamação (urgência se instabilidade refratária).
Quadro 76 – Recomendações para o manejo e tratamento da recorrência de cardite reumática em adultos
ForteBaixa

Tratamento da infecção ativa pelo estreptococo do grupo A de Lancefield e a prevenção de novas recorrências, preferencialmente com penicilina G benzatina a cada 21 dias.

ForteBaixa

Manejo da insuficiência cardíaca com diuréticos e vasodilatadores para compensação clínica.

ForteBaixa

Prescrição de prednisona 1 mg/kg via oral por 3-4 semanas nos casos confirmados.

ForteBaixa

Repetir o ecocardiograma transtorácico após 4 semanas de tratamento para reavaliação da função ventricular.

ForteBaixa

Prescrição de metilprednisolona endovenosa em pacientes com suspeita de cardite muito grave, em choque cardiogênico, impossibilitados de receber prednisona via oral.

📖 Texto de suporte — prevenção primária e secundária (seções 15.7 e 15.8)
  • Primária: tratar a faringoamigdalite até o 9º dia. Penicilina G benzatina IM em dose única é a preferida (bactericida, barata, boa adesão); amoxicilina, penicilina V, ampicilina e cefalexina são opções; anafilaxia à penicilina: evitar cefalosporina (azitromicina).
  • Secundária para todos com FR aguda (inclusive artrite ou coreia isoladas). Benzilpenicilina G benzatina IM profunda a cada 21 dias: 600.000 UI até 27 kg; 1.200.000 UI acima. Lidocaína 2% sem vasoconstritor 0,25 mL reduz a dor sem alterar níveis. Penicilina V oral só excepcionalmente (benzatina ~10 vezes mais eficaz). Alérgicos: eritromicina ou sulfadiazina.
  • Recorrência no adulto (mesmo > 40 anos): manter profilaxia por pelo menos 10 anos após a reativação.
Quadro 77 – Profilaxia primária da febre reumática: recomendações para o tratamento de faringoamigdalites por Strepto A
Medicamento/OpçãoEsquemaDuração
Penicilina G Benzatina≤ 27 kg: 600.000 UI
> 27 kg: 1.200.000 UI
Dose única
Penicilina V500 mg 12/12 h10 dias
Amoxicilina500 mg VO 8/8 h10 dias
Cefalexina (se hipersensibilidade à penicilina)500 mg VO 12/12 h10 dias
Azitromicina (em caso de anafilaxia à penicilina)500 mg VO 1x/dia5 dias
Clindamicina (em caso de anafilaxia à penicilina)600 mg VO 8/8 h10 dias

VO: via oral.

Quadro 78 – Medicações recomendadas e posologia para profilaxia secundária para a febre reumática
MedicaçãoDose e periodicidade
Benzilpenicilina G benzatina≤ 27 kg – 600.000 UI
> 27 kg – 1.200.000 UI
21/21 dias
Penicilina V250 mg via oral 2x/dia
Eritromicina* (para alérgicos à penicilina)250 mg 2x/dia
Sulfadiazina* (para alérgicos à penicilina)1 g/dia

* Podem ser usadas até concluída a dessensibilização à penicilina.

Quadro 79 – Recomendações para a profilaxia secundária da febre reumática
ForteBaixa

Benzilpenicilina G benzatina para profilaxia secundária de febre reumática a cada 21 dias.

ForteBaixa

Uso de benzilpenicilina G benzatina até os 21 anos, ou 5 anos após o último surto em pacientes com febre reumática sem cardite.

ForteBaixa

Uso de benzilpenicilina G benzatina até os 25 anos, ou 10 anos após o último surto em pacientes com febre reumática com cardite e sequelas cardíacas de valvopatias apenas discretas.

ForteBaixa

Uso até os 40 anos ou 10 anos após o último surto (o que for mais longo) em pacientes com febre reumática com cardite e com sequelas de valvopatias moderadas a graves ou cirurgia cardíaca para correção da valvopatia.

ForteBaixa

Uso de benzilpenicilina G benzatina após os 40 anos em pacientes com febre reumática com cardite e exposição ocupacional a estreptococos.

FracaBaixa

Uso de antibioticoprofilaxia via oral com penicilina V, eritromicina ou sulfadiazina para pacientes com febre reumática não alérgicos à penicilina.

ForteBaixa

Uso de benzilpenicilina G benzatina para profilaxia secundária de febre reumática a cada 21 dias para pacientes com recorrência de cardite reumática na fase adulta, por pelo menos 10 anos após o último surto.

Quadro 80 – Duração da profilaxia secundária para febre reumática
CategoriaDuração
Febre reumática sem cardite: quadros puros de artrite ou coreiaAté os 21 anos ou 5 anos após o último surto de febre reumática*
Febre reumática com cardite, mas sem sequelas ou com sequelas valvares muito leves (exceto lesões estenóticas, mesmo que leves)Até os 25 anos ou 10 anos após o último surto de febre reumática*
Febre reumática com cardite e sequelas graves ou pacientes submetidos à cirurgia cardíacaAté os 40 anos no mínimo. Por toda a vida se exposição ocupacional
Recorrência de cardite reumática na fase adultaAté os 40 anos ou 10 anos após o último surto*
Por toda a vida se exposição ocupacional

* O que durar mais tempo.

🎓 Interpretação didática

No adulto reumático que “descompensa do nada” com queda da FEVE e sem piora valvar que explique, pense em reativação miocárdica: Jones não precisa fechar, VHS/PCR podem ser normais, e o corticoide pode reverter a disfunção. Pergunte sempre pela adesão à benzatina — a falha da profilaxia é o gatilho mais comum.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 15, Quadros 73 a 80.

16Profilaxia de endocardite infecciosa

Com dados posteriores a 2015, a profilaxia antes de procedimentos dentários de risco em pacientes de risco elevado voltou a ser recomendação forte. A SBC vai além da ESC e também considera profilaxia em procedimentos dos tratos gastrointestinal e geniturinário. Higiene bucal continua mais importante que o antibiótico.

📖 Texto de suporte (seções 16 a 16.6)
  • Incidência global de 13,8/100.000/ano (2019), ~66.300 mortes. A cavidade oral (estreptococos orais) é porta de entrada central; procedimentos em gengiva/região periapical são de alto risco para bacteremia.
  • Risco elevado: endocardite prévia; próteses valvares cirúrgicas ou transcateter; plástica com material protético; valvopatia moderada ou importante; valva aórtica bivalvularizada; dispositivos eletrônicos implantáveis; cardiopatias congênitas (cianóticas não tratadas, material protético, tubos, shunts); dispositivos de assistência ventricular; transplante de órgão sólido (sobretudo 6 primeiros meses). Oclusores de CIA/apêndice, enxertos vasculares, filtros de cava, derivações ventrículo-atriais e outras cirurgias com material protético: risco elevado apenas nos 6 primeiros meses.
  • Procedimentos odontológicos de risco: extrações; cirurgia oral (periodontal, implante, biópsia); manipulação gengival ou periapical (raspagem, tratamento de canal); implantes dentários.
  • Esquema: amoxicilina (primeira escolha); alérgicos: cefalexina, claritromicina ou azitromicina. Dose única 30 a 60 minutos antes.
  • Não odontológicos: técnica asséptica; antibiótico antes de implante de dispositivo eletrônico e periprocedimento de prótese valvar/endovascular; erradicar focos (inclusive dentários) ≥ 2 semanas antes do implante de prótese ou dispositivo (exceto urgência).
  • GI/GU: evidência menos robusta e uso muito restrito pela ESC, mas a SBC julga justificada a profilaxia em: manipulação de mucosa infectada; incisão ou biópsia de mucosa GI (EDA e colonoscopia com biópsia); cistoscopia; cirurgias urológicas.
  • Educação: saúde bucal ótima é mais importante que a profilaxia; consultas odontológicas 4 vezes ao ano; tatuagens e piercings devem ser contraindicados.
Quadro 81 – Esquema de antibioticoprofilaxia para procedimentos odontológicos de alto risco
SituaçãoAntibióticoDose
Não alérgicos a penicilina ou ampicilinaAmoxicilina2 g oral
Ampicilina2 g EV ou IM
Cefazolina/ceftriaxone1 g EV ou IM
Alérgicos a penicilina ou ampicilinaCefalexina2 g oral
Azitromicina ou claritromicina500 mg oral
Cefazolina ou ceftriaxone1 g EV ou IM

EV: endovenosa; IM: intramuscular.

Quadro 82 – Esquema de antibioticoprofilaxia para procedimentos dos tratos gastrointestinal e geniturinário
Via de administraçãoAntibióticoDose única 1 h antes do procedimento
Parenteral (endovenoso)Ampicilina e gentamicina2 g
1,5 mg/kg
Parenteral (endovenoso) — se alergia a penicilinaVancomicina e gentamicina1 g
1,5 mg/kg
Quadro 83 – Recomendações de antibioticoprofilaxia para endocardite infecciosa
ForteModeradaAHA IIa C · ESC I B

Antibioticoprofilaxia é recomendada para extração dentária, cirurgia oral ou outros procedimentos que requerem manipulação da gengiva ou região periapical do dente, em pacientes com risco elevado de endocardite infecciosa.

ForteBaixaAHA III B · ESC IIb C

Antibioticoprofilaxia sistêmica deve ser considerada em pacientes de risco elevado de endocardite infecciosa e que serão submetidos a procedimentos diagnósticos ou terapêuticos dos tratos gastrointestinal ou genitourinário.

Repare na divergência: para procedimentos GI/GU, a AHA classifica como III B (não recomendada) e a ESC como IIb C, enquanto a SBC adota Forte/Baixa.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 16, Quadros 81 a 83.

17Gravidez em portadoras de valvopatias

A gestação muda a hemodinâmica e pode descompensar valvopatias importantes. Tudo começa no aconselhamento pré-concepcional: estratificar o risco (alto, intermediário, aceitável), intervir antes da gravidez quando indicado e planejar a anticoagulação das portadoras de prótese mecânica.

📖 Texto de suporte — aconselhamento e riscos (seções 17.1 e 17.2)
  • No planejamento, exame físico com ausculta como rastreio; se suspeito, cardiologista. Estratificar por sintomas, gravidade e complicadores (FA, hipertensão pulmonar, disfunção ventricular, tromboembolismo prévio) — Quadro 85. Eco, ECG, teste ergométrico (assintomáticas) e imagem da aorta se aortopatia.
  • Intervir antes da gestação quando houver critérios clássicos; considerar também nas de alto risco assintomáticas que desejam engravidar, priorizando via percutânea, com decisão compartilhada.
  • Aortopatias hereditárias: investigação genética; correção cirúrgica se aorta ascendente ≥ 45 mm no Marfan e ≥ 50 mm na bicúspide.
  • Alto e intermediário risco: centro terciário com cardio-obstetrícia. Medidas gerais: restringir atividade, sódio 4 g/dia, manter profilaxia da febre reumática (exceto sulfadiazina).
  • Fármacos usuais: furosemida até 80 mg/dia; propranolol até 80 mg/dia; succinato de metoprolol até 100 mg/dia; carvedilol até 50–75 mg/dia; verapamil até 240 mg/dia; hidralazina até 100 mg/dia; digoxina até 0,25 mg/dia. IECA e BRA contraindicados em qualquer fase.
  • Estenose mitral: betabloqueador e diurético; FA → anticoagulação e digoxina; refratária → VMCB se anatomia favorável (cirurgia se impossível). Estenose aórtica com IC, síncope ou angina: internar e discutir intervenção (TAVI pode ser considerada em selecionados). Regurgitações: baixo risco; diurético, digoxina, betabloqueador e, por último, vasodilatador; refratárias → TEER (IM) ou cirurgia (IAo).
Quadro 85 – Classificação dos riscos das valvopatias para a gravidez
Risco altoRisco intermediárioRisco aceitável
  • EM importante
  • EA importante
  • Prótese biológica estenótica/calcificada
  • Prótese mecânica com disfunção
  • Valvopatia + HP importante (PAP ≥ 50 mmHg)
  • Insuficiência aórtica + doenças de aorta
  • Síndrome de Marfan (diâmetro da aorta ascendente > 45 mm)
  • Valva aórtica bicúspide (diâmetro da aorta ascendente > 50 mm)
  • Valvopatia + FEVE < 35%
  • Prótese biológica com disfunção moderada
  • Estenose pulmonar importante
  • Prótese mecânica
  • Prótese mecânica mitral > risco prótese mecânica aorta
  • Síndrome de Marfan (diâmetro da aorta ascendente entre 40 e 45 mm)
  • Valva aórtica bicúspide (diâmetro da aorta ascendente 45 a 50 mm)
  • Necessidade de uso de anticoagulantes
  • Valvopatia discreta
  • Prótese biológica sem disfunção
  • Valvopatia + FEVE normal
  • Valvopatia sem fatores desfavoráveis

FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; HP: hipertensão pulmonar; PAP: pressão arterial pulmonar.

📖 Texto de suporte — próteses, anticoagulação, parto e contracepção (seções 17.3 a 17.6)
  • Toda portadora de prótese tem gestação de alto risco materno-fetal. Bioprótese: sem anticoagulação, mas pode degenerar (degenerada, mesmo assintomática → considerar reintervenção antes de engravidar). Mecânica: anticoagulação plena, embriopatia por varfarina, estado pró-trombótico.
  • Aumento do gradiente da prótese pode ser fisiológico, mas na mecânica pode indicar trombose. Disfunção estenótica calcificada de bioprótese: alto risco → intervir (cirurgia ou valve-in-valve). Insuficiência de bioprótese e leak leve a moderado da mecânica: conservador. Trombose de prótese: intervenção de emergência (trombólise ou cirurgia). Pannus/DPP: considerar cirurgia.
  • Anticoagulação na prótese mecânica: 1º trimestre — HBPM 1,0 mg/kg SC 12/12 h (anti-Xa semanal, alvo 0,8–1,2 U/mL) ou HNF 18 UI/kg/h IV (TTPa 1,5–2,0 × controle). 12 a 36 semanas — varfarina, INR 2,5–3,0 (aórtica) e 3,0–3,5 (mitral). 34–36 semanas — trocar por HBPM até 24 h antes do parto e HNF até 6 h antes (ou só HNF). Pós-parto — heparina após 6 h e varfarina após 48 h, sobrepondo até INR 2,0.
  • Parto de urgência: reverter (antagonistas, plasma, complexo protrombínico); em uso de varfarina, cesárea (risco de hemorragia intracraniana fetal no parto vaginal). DOACs contraindicados na gestação.
  • Parto vaginal preferível no baixo e intermediário risco, com bloqueio de neuroeixo sequencial. Cesárea: alto risco, lesões obstrutivas graves, doença da aorta, trabalho de parto em anticoagulação. Profilaxia de endocardite no parto (controversa) em próteses ou endocardite prévia: ampicilina 2 g EV + gentamicina 1,5 mg/kg IM 1 h antes.
  • Contracepção pelos critérios da OMS e pelo índice de Pearl; preferência por progestagênios isolados (oral, injetável trimestral, implante) ou combinados com estrógeno natural (injetáveis mensais).
Quadro 84 – Recomendações sobre aconselhamento prévio à gravidez, gestação, parto e anticoagulação na paciente gestante

Aconselhamento prévio à gravidez

ForteModeradaAHA I B · ESC I C

Mulheres com valvopatia devem ser avaliadas por especialista no planejamento de gravidez.

ForteBaixaAHA – · ESC I C

A avaliação clínica no planejamento da gravidez deve considerar a classe funcional, o grau da lesão valvar, a função ventricular, o ritmo cardíaco, os sinais de hipertensão pulmonar, o uso de medicamentos e se há indicação de intervenção.

ForteBaixaAHA IIa B · ESC –

O teste ergométrico auxilia na avaliação de pacientes assintomáticas, e os exames de imagem auxiliam na avaliação das doenças da aorta associadas.

ForteModeradaAHA I B · ESC I B

Em mulheres com critérios de indicação de intervenção valvar, o procedimento deve ser realizado antes da gravidez.

ForteBaixaAHA IIa C · ESC I C

Em mulheres com valvopatia de risco alto, mesmo que assintomáticas, deve-se considerar a intervenção valvar antes da gravidez.

ForteBaixaAHA – · ESC I C

Mulheres com doenças da aorta associadas devem ser avaliadas para intervenção antes da gravidez, preferencialmente com testes genéticos.

ForteModeradaAHA IIA B · ESC I C

A escolha do tipo de prótese valvar em mulheres que planejam gravidez deve considerar os riscos do tromboembolismo e dos anticoagulantes na prótese mecânica, além da durabilidade limitada na prótese biológica.

ForteBaixaAHA I B · ESC –

Mulheres com próteses mecânicas que planejam gravidez devem ser conscientizadas sobre os riscos dos anticoagulantes nos cinco momentos.

Durante a gestação

ForteModeradaAHA I B · ESC I C

Gestantes com “riscos alto e intermediário” devem ser acompanhadas em hospital terciário sob assistência da equipe de cardio-obstetrícia durante a gestação, parto e puerpério.

ForteModeradaAHA – · ESC –

Gestantes com valvopatias de etiologia reumáticas devem manter a profilaxia com penicilina benzatina.

ForteModeradaAHA – · ESC I C

A farmacoterapia é a opção inicial para o controle dos sintomas de congestão pulmonar na estenose mitral e da insuficiência cardíaca nas insuficiências mitral e aórtica.

ForteBaixaAHA IIa C · ESC I B

Os betabloqueadores e diuréticos são indicados para o controle de frequência cardíaca e congestão pulmonar das gestantes com estenose mitral.

ForteBaixaAHA – · ESC –

O verapamil, como bloqueador de canal de cálcio, pode ser considerado no controle da frequência cardíaca na fibrilação atrial, associado ou não à digoxina.

ForteModeradaAHA IIa C · ESC IIa C

Considerar intervenção valvar, percutânea ou cirúrgica nos casos refratários ao tratamento clínico.

ForteModeradaAHA IIa B · ESC IIa C

Considerar intervenção valvar, percutânea ou cirúrgica nos casos de estenose aórtica com insuficiência cardíaca, síncope ou angina.

ForteModeradaAHA – · ESC –

A intervenção percutânea (valve-in-valve ou cirúrgica) deve ser considerada na prótese biológica estenótica e calcificada.

Anticoagulação e prótese mecânica

ForteModeradaAHA – · ESC I C

A anticoagulação deve manter as mesmas metas adotadas “fora” da gravidez.

ForteModeradaAHA IIa B · ESC IIa B

A heparina não fracionada e heparina de baixo peso molecular são opções à varfarina no 1º trimestre e após 36 semanas da gestação.

ForteBaixaAHA – · ESC –

A varfarina deve ser mantida entre a 12ª e 36ª semanas de gestação obedecendo as mesmas metas de INR fora da gestação.

Parto

ForteModeradaAHA – · ESC –

O parto cesárea deve ser considerado para pacientes com valvopatias de “risco alto” ou que estejam sob anticoagulação.

ForteBaixaAHA – · ESC –

A profilaxia antibiótica para endocardite infecciosa, na ocasião do parto, deve ser considerada para próteses valvares ou antecedentes de endocardite infecciosa.

ForteModeradaAHA – · ESC –

Mulheres com valvopatias devem receber orientação sobre métodos contraceptivos seguros e eficazes.

ForteModeradaAHA – · ESC –

Os critérios de elegibilidade da OMS e o índice de Pearl devem orientar a seleção dos métodos contraceptivos para mulheres com valvopatias.

ForteBaixaAHA – · ESC –

Mulheres com valvopatias podem se beneficiar do uso de contraceptivos que contenham progestagênios isolados.

AHA: American Heart Association; ESC: European Society of Cardiology; INR: razão normalizada internacional; OMS: Organização Mundial da Saúde; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia.

🎓 Interpretação didática

Linha do tempo da anticoagulação na prótese mecânica: heparina no 1º trimestre → varfarina de 12 a 36 semanas → heparina de 34–36 semanas até o parto → heparina 6 h após e varfarina 48 h após o parto. DOAC nunca. E, se a paciente entrar em trabalho de parto usando varfarina, a via é a cesárea.

Fonte: Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026, seção 17, Quadros 84 e 85.

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