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Risco tromboembólico e hemorrágico na fibrilação atrial

CHA₂DS₂-VA + HAS-BLED

Calcule, no mesmo lugar, o risco tromboembólico e os fatores associados a sangramento. Os escores são complementares: um apoia a indicação de anticoagulação; o outro mostra o que deve ser corrigido e acompanhado mais de perto.

Critérios do escore

Marque os fatores presentes

0–8

Use após confirmar fibrilação atrial clínica. O padrão paroxístico, persistente ou permanente não deve, sozinho, definir a indicação de anticoagulação.

Informe a idade+0

Próximo passo

Agora avalie o HAS-BLED

A idade e o antecedente de AVC marcados acima entram automaticamente. Um resultado ≥3 identifica maior risco hemorrágico e pede revisão mais frequente — não é motivo, sozinho, para suspender ou negar anticoagulação.

Risco de sangramento

Critérios HAS-BLED

0–9

Valores compartilhados: idade não informada e AVC prévio ausente. Se precisar corrigir, altere no CHA₂DS₂-VA acima.

H · Pressão arterial
Corte: >160 mmHg+0
A · Função renal
Cr ≥2,26 ou ClCr ≤50+0

No HAS-BLED original: diálise, transplante ou creatinina ≥2,26 mg/dL. ClCr ≤50 mL/min é um critério complementar da referência brasileira usada nesta página.

A · Função hepática
Bilirrubina ≥2× + enzima ≥3×+0
S · AVC prévio
Antecedente de AVCImportado automaticamente do CHA₂DS₂-VA+0
B · Sangramento
L · INR lábil
Só se aplica à varfarina+0
E · Idade
Idade >65 anos+0

A idade é compartilhada com o CHA₂DS₂-VA e entra automaticamente.

D · Drogas e álcool

Medicamentos que aumentam o sangramento

Drogas: máximo 1 ponto+0

Álcool · escolha a referência

Álcool: ≥8 doses/semana+0

Drogas e álcool são avaliados separadamente: o grupo D pode somar até 2 pontos.

Como usar na prática

Da pontuação à decisão clínica

1. Confirme o contexto

A ferramenta foi desenhada para fibrilação atrial clínica. Não é calculadora de rastreamento de FA nem deve ser aplicada isoladamente à população geral.

2. Some os critérios

Idade e evento tromboembólico prévio podem valer dois pontos. O sexo não entra na versão CHA₂DS₂-VA.

3. Individualize

Considere risco de sangramento, função renal, interações, contraindicações, condições especiais e preferência do paciente antes da prescrição.

Referência rápida do HAS-BLED

O que soma ponto — e o que fazer depois

Cada item vale 1 ponto. Função renal e hepática são avaliadas separadamente, assim como drogas e álcool; por isso esses grupos podem somar até 2 pontos. Abra cada cartão para ver critérios, exemplos e armadilhas de interpretação.

H

PAS >160 mmHg

Hipertensão sistólica não controlada no momento da avaliação.

Como aplicar e exemplos

O ponto considera pressão arterial sistólica acima de 160 mmHg. Uma medida isolada obtida com técnica inadequada, durante dor ou estresse agudo deve ser confirmada; quando possível, repita com manguito apropriado e paciente em repouso.

Exemplo: PAS repetida de 168 e 164 mmHg soma 1 ponto. PAS de 160 mmHg exatos não ultrapassa o corte.

A

Função renal anormal

Separe o critério original do corte complementar de clearance.

Como aplicar e exemplos

No HAS-BLED original, some 1 ponto se houver diálise crônica, transplante renal ou creatinina sérica ≥200 µmol/L, equivalente a aproximadamente 2,26 mg/dL. O artigo original não exige clearance e não cita Cockcroft–Gault. Esta página também aceita ClCr ≤50 mL/min porque esse corte aparece na referência brasileira consultada. Quando optar por esse critério complementar, calcule o ClCr por Cockcroft–Gault: homem = [(140 − idade) × peso em kg] ÷ [72 × creatinina em mg/dL]; para mulher, multiplique por 0,85. A TFGe informada pelo laboratório não é automaticamente intercambiável. Em obesidade importante, baixo peso, amputação ou edema, a escolha do peso requer julgamento clínico e deve ser documentada.

Exemplo: Homem, 78 anos, 70 kg e creatinina 1,5 mg/dL: ClCr = [(140 − 78) × 70] ÷ (72 × 1,5) ≈40 mL/min. Não pontua pelo critério renal original, pois a creatinina é menor que 2,26 mg/dL e não há diálise/transplante; pontua somente se a equipe estiver usando o corte complementar ClCr ≤50 mL/min.

A

Função hepática anormal

Cirrose/doença crônica ou combinação específica de exames.

Como aplicar e exemplos

Some 1 ponto se houver cirrose ou outra doença hepática crônica relevante, mesmo que os exames do dia não preencham a combinação laboratorial. Sem esse diagnóstico, a via laboratorial exige as duas condições ao mesmo tempo: bilirrubina ≥2 vezes o limite superior do laboratório e pelo menos uma entre AST, ALT ou fosfatase alcalina ≥3 vezes o respectivo limite. Não se somam as enzimas e não se escolhe a mais alterada para substituir a bilirrubina; basta uma delas atingir 3 vezes o limite, desde que a bilirrubina também atinja 2 vezes. GGT isolada não faz parte do critério.

Exemplo: Suponha os limites do laboratório: bilirrubina 1,2 mg/dL, AST 40 U/L, ALT 45 U/L e fosfatase alcalina 120 U/L. Os cortes seriam bilirrubina ≥2,4 mg/dL e, junto, AST ≥120, ALT ≥135 ou fosfatase alcalina ≥360 U/L. Bilirrubina 2,6 + ALT 150 pontuam. Bilirrubina 1,8 + AST 160 não pontuam, porque falta bilirrubina ≥2×. Bilirrubina 2,8 + AST 80 + ALT 90 + FA 200 também não pontuam pela via laboratorial, porque nenhuma enzima chegou a 3×. Cirrose conhecida, porém, já pontua pela via clínica.

S

AVC prévio

Antecedente de AVC soma 1 ponto no HAS-BLED.

Como aplicar e exemplos

É um fator histórico e não modificável. O mesmo antecedente também entra no CHA₂DS₂-VA, mas com peso diferente. AIT isolado conta para o CHA₂DS₂-VA; no HAS-BLED, a redação clássica especifica AVC.

Exemplo: AVC isquêmico antigo, mesmo sem sequela atual, soma 1 ponto.

B

Sangramento maior/predisposição

Considere gravidade, repercussão e fatores que favorecem novo sangramento.

Como aplicar e exemplos

Sangramento maior inclui evento fatal, intracraniano ou em outro órgão crítico, queda de hemoglobina ≥2 g/dL, transfusão de pelo menos 2 unidades ou evento com repercussão clínica importante. A redação original do HAS-BLED também aceita história de sangramento ou predisposição e cita diátese hemorrágica e anemia como exemplos, mas não estabelece um valor de hemoglobina nem um número de plaquetas. Portanto, anemia leve e estável ou plaquetopenia discreta não devem gerar ponto automaticamente. Anemia pode ser tanto marcador independente de maior vulnerabilidade quanto pista de sangramento oculto; procure tendência da Hb, deficiência de ferro, melena/hematúria, lesão gastrointestinal, doença renal, neoplasia e outras causas. Plaquetopenia não tem corte validado dentro do HAS-BLED: <100.000/µL merece avaliação individual mais cuidadosa e <50.000/µL costuma representar problema importante para anticoagulação, mas esses números orientam a conduta clínica, não criam por si sós um novo critério do escore.

Exemplo: Hemorragia digestiva prévia com internação, queda de Hb de 3 g/dL e transfusão soma 1 ponto. Hb 11,8 g/dL estável, com causa conhecida e sem evidência de sangramento, não deve ser marcada automaticamente: primeiro esclareça se representa predisposição relevante. Plaquetas 85.000/µL exigem investigação e revisão da estratégia antitrombótica, mas o artigo original não manda converter esse número isolado em 1 ponto. Pequena equimose após punção também não caracteriza sangramento maior.

L

INR lábil: TTR <60%

Aplica-se a antagonista da vitamina K, como varfarina.

Como aplicar e exemplos

TTR é o “tempo na faixa terapêutica”: a porcentagem estimada de dias em que o INR permaneceu no alvo, em geral 2,0–3,0. O método de Rosendaal traça uma linha entre cada par de INRs consecutivos, estima um INR para cada dia intermediário, soma os dias estimados dentro da faixa e divide pelo total de dias avaliados: TTR = dias no alvo ÷ dias avaliados × 100. Não é simplesmente a porcentagem de coletas dentro do alvo. Em geral, o serviço ou um programa de anticoagulação faz esse cálculo com uma sequência de resultados; um único INR não permite estimá-lo. O item não se aplica aos anticoagulantes orais diretos.

Exemplo: Com alvo 2,0–3,0: dia 0, INR 1,6; dia 10, INR 2,2; dia 30, INR 3,4. Pela interpolação linear, o INR cruza 2,0 por volta do dia 6,7 e cruza 3,0 por volta do dia 23,3. Assim, fica aproximadamente 16,6 dos 30 dias na faixa: TTR ≈16,6 ÷ 30 × 100 = 55%. Esse resultado soma 1 ponto. Já um INR isolado de 1,8, sem série temporal, não define INR lábil.

E

Idade >65 anos

Fator não modificável; 65 anos exatos não pontuam.

Como aplicar e exemplos

O corte clássico é estritamente maior que 65 anos. A idade é compartilhada com o CHA₂DS₂-VA, mas os limites e a pontuação são diferentes.

Exemplo: Paciente com 66 anos soma 1 ponto; paciente com 65 anos completos, não.

D

Antiagregante ou AINE

Uso concomitante soma no máximo 1 ponto para “drogas”.

Como aplicar e exemplos

Antiagregantes incluem AAS, clopidogrel, prasugrel e ticagrelor. AINEs incluem, por exemplo, ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno, cetoprofeno, meloxicam e celecoxibe. O HAS-BLED não define duração mínima validada de uma semana ou um mês: considere o uso ativo no momento da avaliação, sobretudo se regular, repetido ou prolongado. Mesmo curso curto pode elevar o risco e deve ser revisto.

Exemplo: Varfarina associada a AAS e ibuprofeno continua somando apenas 1 ponto neste item, embora a combinação mereça revisão imediata.

D

Álcool

O corte e a definição de unidade variam entre as fontes.

Como aplicar e exemplos

O Chronic Conditions Manual australiano, 3ª edição de 2024 (CCM Austrália 2024), usa ≥8 doses por semana; a diretriz brasileira apresenta >20 unidades por semana. Para estimar uma dose padrão de modo prático, pode-se usar cerca de 14 g de etanol: aproximadamente 350 mL de cerveja a 5%, 150 mL de vinho a 12% ou 45 mL de destilado a 40%. Alguns sistemas definem unidade como 8–10 g; por isso registre a convenção e, se possível, os gramas de álcool. Taças grandes, cervejas fortes e doses duplas podem corresponder a mais de uma dose.

Exemplo: Duas latas de cerveja comum por dia equivalem a cerca de 14 doses padrão por semana e ultrapassam o corte de 8 doses do CCM Austrália 2024.

Além da pontuação: anemia, plaquetopenia, doença renal/hepática em evolução, interações medicamentosas, quedas/fraqueza e lesões gastrointestinais são clinicamente relevantes mesmo quando não alteram diretamente o número final.

Principais dúvidas

O que costuma gerar dúvida

Mulher recebe um ponto adicional?

Não. O CHA₂DS₂-VA retirou a categoria sexo. A diretriz explica que o sexo feminino funciona como modificador de risco dependente da idade, não como fator isolado, e a mudança também torna o escore inclusivo para diferentes identidades de gênero.

CHA₂DS₂-VA = 1 significa anticoagulação obrigatória?

Não automática. A diretriz brasileira afirma que a terapia pode ser instituída; a ESC recomenda que seja considerada. A decisão deve ponderar benefício, sangramento, outros modificadores de risco e preferência do paciente.

O tipo de fibrilação atrial muda o ponto de corte?

Não. FA paroxística, persistente ou permanente deve receber avaliação tromboembólica. O padrão temporal não deve ser usado isoladamente para decidir anticoagulação.

Um HAS-BLED alto contraindica anticoagulação?

Não por si só. Ele ajuda a reconhecer fatores de sangramento modificáveis e a planejar seguimento mais próximo; na ausência de contraindicação absoluta, o risco hemorrágico não deve ser o único motivo para negar a proteção tromboembólica.

Por que existem dois cortes para álcool?

As fontes consultadas não usam a mesma definição. O Chronic Conditions Manual: Prevention and Management of Chronic Conditions in Rural and Remote Australia, 3ª edição de 2024, atribui o ponto a partir de 8 doses por semana; a Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial 2025 apresenta >20 unidades por semana. Por transparência, a calculadora permite escolher a referência e registra essa escolha no resumo.

Como pontuar função renal e hepática?

No HAS-BLED original, a função renal soma 1 ponto com diálise, transplante ou creatinina ≥2,26 mg/dL; ele não usa clearance. A opção ClCr ≤50 mL/min desta página é um critério complementar da referência brasileira e, quando adotada, deve ser calculada por Cockcroft–Gault. A função hepática soma outro ponto com cirrose/doença crônica ou com bilirrubina ≥2 vezes o limite superior associada a AST, ALT ou fosfatase alcalina ≥3 vezes o limite.

O TTR deve ser preenchido para quem usa anticoagulante oral direto?

Não. INR lábil e TTR <60% são critérios vinculados ao uso de antagonista da vitamina K, como a varfarina. Por isso o campo só é habilitado quando essa opção é marcada.

Existem situações em que o escore não decide sozinho?

Sim. A diretriz brasileira recomenda anticoagulação em FA associada a cardiomiopatia hipertrófica, amiloidose cardíaca ou hipertireoidismo independentemente do escore. Próteses mecânicas e estenose mitral moderada a grave também exigem avaliação específica e, quando anticoaguladas, não devem receber ACOD.

É preciso recalcular?

Sim. Idade e comorbidades mudam. As diretrizes recomendam reavaliar periodicamente tanto o risco tromboembólico quanto os fatores de sangramento.